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Cantigas de Escárnio e Maldizer(ERA MEDIEVAL)

Posted by Profº Monteiro on março 16, 2017


Esse tipo de cantiga procurava ridicularizar pessoas e costumes da época com produção satírica e maliciosa.

As cantigas de escárnio são críticas, utilizando de sarcasmo e ironia, feitas de modo indireto, algumas usam palavras de duplo sentido, para que, não entenda-se o sentido real.

As de maldizer utilizam uma linguagem mais vulgar, referindo-se diretamente a suas personagens, com agressividade e com duras palavras, que querem dizer mal e não haverá outro modo de interpretar.


Os temas centrais destas cantigas são as disputas políticas, as questões e ironias que os trovadores se lançam mutuamente.
Vej' eu as gentes andar revolvendo
e mudando aginh' os corações
do que põe entre sy as nações;
e já m'eu aquesto vou aprendendo
e ora cedo mais aprenderei:
a quen poser preito, mentir-lho-ei,
e assi irei melhor guarecendo.

Cá vej' eu ir melhor ao mentireiro
qu'ao que diz verdade ao seu amigo;
e por aquesto o jur'e o digo,
que já mais nunca seja verdadeiro,
mais mentirei e firmarei log' al:
a quem quero (i) bene, querrei-lhe mal,
e assi guarrei como cavaleiro.

Pois que me prez nen mha onrra non crece,
porque me quígi teer à verdade
vede-lo que farei, par car(i)dade
pois que vej'o o que m'assi acaece
mentirei ao amigo e ao senhor,
e poiará meu prez e meu valor
con mentira, pois con verdade dece. Tema: o desconcerto do mundo ou o mundo às avessas.
Assunto: a(s) injustiça(s) deste mundo (os desonestos são premiados e os honestos castigados);
o sujeito poético manifesta a firme intenção de mudar de atitude como se pode comprovar: "a quen puser preito, mentir-lho-ei", "mais mentirei e firmarei logo al", "querrei-lhe mal", "mentirei ao amigo e ao senhor".
Forma: cantiga de escárnio porque encerra uma crítica que não identifica os atingidos.
Valor documental:
reside no facto de a cantiga fornecer informações sobre a sociedade da Idade Média: ambiente social, moral e cultural.
"O que foi passar a serra" de Afonso X (CBN 494/CV 77)
O que foi passar a serra
e nom quis servir a terra
é ora, entrant'a guerra,
que faroneja?
Pois el agora tam muito erra,
maldito seja!

O que levou os dinheiros
é por nom ir nos primeiros
que faroneja?
Pois que vem cõnos prestumeiros
maldito seja!

O que filhou gram soldada
e nunca fez cavalgada,
é por nom ir a Graada
que faroneja?
Se é ric'omem ou á mesnada,
maldito seja!

O que meteu na taleiga
pouc'aver e muita meiga,
é por nom entrar na Veiga
que faroneja?
Pois chus mol (e) é que manteiga.
maldito seja! Tema: sátira política, decadência, traição.
Caracterização do objecto: covarde, ladrão, falta de honra.
Refrão:
conteúdo - oportunismo do cavaleiro/maldição do rei;
pontuação - interrogação e exclamação;
ritmo - versos curtos, intercalado com verso longo.
Forma: paralelismo anafórico que reforça a caracterização; estrofes singulares e monórrimas.
"Roi Queimado morreu com amor" de Pero Garcia Burgalês (CV 988/CBN 1380)
Roi Queimado morreu com amor
em seus cantares, par Santa Maria,
por uma dona que gran bem queria;
e, por se meter por mais trobador,
por que lh' ela non quiso bem fazer,
feze-s' el em seus cantares morrer,
mais resurgiu depois, ao tercer dia.

Este fez ele por uma sa senhor
que quer gram bem; e mais vos ém diria:
por que cuida que faz i mestria,
enos cantares que fez, á sabor
de morrer i e des i d' ar viver;
esto faz el, que x' o pode fazer,
mais outr' omem per rem nono faria.

e nom á já de sa morte pavor,
se nom, sa morte mais la temeria,
mais sabe bem, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for;
e faz-s' em seu cantar morte prender,
des i ar vive: vedes que poder
que lhi Deus deu, - mais queno cuidaria!

E se mi Deus a mi desse poder
qual oj' el á, pois morrer, de viver,
ja mais morte nunca eu temeria. Tema:
cantiga de Escárnio; roi Queimado é atacado como trovador de pouca qualidade, e o amor cortês é ridicularizado.
Divisão em partes:
1ª. parte: 1ª. estrofe - roi Queimado para mostrar ser melhor trovador do que os outros e amar mais a sua dama morreu de amor por ela;
2ª. parte: 2ª. estrofe - ele fez isso porque acha que assim mostra mais engenho do que os outros trovadores;
3ª. parte: 3ª. estrofe - ele é como que um eleito de Deus, pois morreu e ressuscitou; o trovador também se lhe fosse dado esse poder não temeria a morte e ressuscitaria como ele;
em todo o poema há ironia e na terceira parte ridiculariza-se o amor cortês.
Forma:
cantiga de mestria com três estrofes (sétimas) e finda (terceto) que retoma a rima dos três últimos versos das estrofes (coblas) abbabbb, rima emparelhada e interpolada, toante e consoante, pobre e rica.
Sirventês literário: um trovador ridiculariza outro por se querer fazer melhor, há também a inveja a funcionar.
"Meu senhor arcebispo, and' eu escomungado," de Diego Pezelho (BV 1124/CBN 1959)
Meu senhor arcebispo, and' eu escomungado,
porque fiz lealdade; enganou-m'i o pecado.
Soltade m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Se traiçon fezesse, nunca vo-la diria;
mais, pois fiz lealdade, vel por Santa Maria,
Soltade m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Per mha malaventura tive um castelo em Sousa
e dei-o a seu don' e tenho que fiz gran cousa:
Soltade m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Per meus negros pecados, tive um castelo forte
e dei-o a seu don', e ei medo da morte.
Soltade m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor. Tema: sátira popular contra os senhores que faltaram ao juramento de fidelidade a D. Sancho II e entregaram os castelos a D. Afonso III.
Assunto:
excomunhão por causa da entrega dos castelos.
Razão do pedido e sua coerência:
pede que lhe seja levantada a excomunhão pois se limitou a ser fiel ao seu rei, foi leal mas como os bispos foram traidores excomungaram-no pela sua lealdade.
Caracterização do protagonista:
caracteriza-se como traidor, prefere ser considerado como tal a ser excomungado e morrer em pecado; ao fazer este acto de contrição está, no fundo, a criticar o arcebispo (o clero) pela sua traição.
Forma:
cantiga de refrão aa CC; dísticos, refrão em dístico.
Valor documental:
documenta as lutas políticas, a traição dos alcaides, a corrupção do poder eclesiástico e da fidalguia militar.
Classificação da sátira:
maldizer - a pessoa satirizada é nomeada;
escárnio - a crítica é velada com humor - ironia.
"Ai, dona fea, foste-vos queixar" de Joam Garcia de Guilhade (CBN 1485/CV 1097)
Ai, dona fea, foste-vos queixar
que vos nunca louvo em meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
em que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar;
dona fea, velha e sandia!

dona fea, se Deus mi pardom,
pois avedes atam gram coraçom
que vos eu loe, em esta razom
vos quero ja loar toda via;
e vedes qual sera a loaçom:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
em meu trobar, pero muito trobei;
mais ora ja um bom cantar farei;
em que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia! Tema: paródia de louvor da dama, característico das cantigas de amor.
Assunto:
a dama queixava-se de nunca ser louvada pelo trovador, ele, ao saber disso, decide fazer-lhe um cantar mas que a ridiculariza em vez de louvar.
Recursos estilísticos:
apóstrofe: "D. Fea";
hipérbole: "mais ora quero fazer um cantar/em que vos loarei toda via";
o refrão com uma gradação ternária e um ritmo ascendente "dona fea, velha e sandia!"; termina cada uma das estrofes, insultando a dama, gritando-lhe, como num coro trágico, como num eco que nunca se calará.
Forma:
paralelismo semântico (4º. e 5º. versos de cada estrofe) e estrutural (4º. verso e refrão);
cantiga de refrão, AAABAC, quintilhas c/ refrão monóstico; cantiga de escárnio;
Sirventês pessoal.

Literatura Portuguesa - Trovadorismo

Posted by Profº Monteiro on julho 08, 2016
Questões


01. No inicio do século XIII, a intransigência religiosa arrasou a Provença e dispersou seus trovadores, mas a lírica provençalesca já havia fecundado a poesia ocidental com a beleza melódica e a delicadeza emocional de sua poesia-música, impondo uma nova concepção do amor e da mulher.
a)Verdadeiro
b)Falso


02. A canção associava o amor-elevação, puro, nobre, inatingível, ao amor dos sentidos, carnal, erótico; a alegria da razão (o amor intelectual) à alegria dos sentidos.
a)Verdadeiro
b)Falso


03. Assinale a afirmação falsa:
a)O judeu Maimônides e o islamista Averróis são expressões do que as culturas dominadas produziram de mais significativo na Península Ibérica
b)A cultura portuguesa, no século XII, conciliava três matrizes contraditórias: a católica, a islâmica e a hebraica
c)Pode-se dizer que a cultura portuguesa esteve desde seu início assentada na diversidade e na contradição, do que resultaram alguns de seus traços positivos (miscibilidade, aclimatabilidade etc.) e negativos (tendência ao ceticismo quanto a idéias, desconfiança etc.
d)A cultura católica, técnica e literariamente superior às culturas islâmica e hebraica, impôs-se naturalmente desde os primórdios da formação de Portugal
e)A expulsão dos mouros e judeus e a Inquisição foram os aspectos mais dramáticos da destruição sistemática que a cultura triunfante impôs às culturas opostas


04. O primeiro trovador provençal foi Guilherme IX, da Aquitânia (1071-1127). Bernart de Ventadorn e aufre Rudel representam a poesia mais simples, facilmente inteligível; Marcabru, Raimbaut d´Aurenga e especialmente Arnault Daniel representam a poesia mais elaborada, com imagens e associações inesperadas, capazes de encantar os mais rigorosos exegetas, de Dante Alighieri a Ezra Pound.
a)Verdadeiro
b)Falso


05. A Provença, região sul da França, chamada Langue d´Oc ou Languedo, foi o berço das primeiras manifestações de uma lírica sentimental, cortês, refinada, que fazia da mulher o santuário de sua inspiração poética e musical
a)Verdadeiro
b)Falso


06. A língua portuguesa não é falada:
a)em Macau e em dialetos crioulos de Goa, Damão, Sri Lanka (ex-Ceilao), Java e Málaca
b)no arquipélago de Cabo Verde, nas ilhas de São Tomé e Porto Príncipe, na Guiné-Bissau em Angola e em Moçambique
c)no Timor Leste, parte oriental da ilha de Timor, próxima da Oceania, mas que os mapas geopolíticos atuais incorporam ao Sudeste Asiático
d)no arquipélago dos Açores e na Ilha da Madeira
e)em Gibraltar e nas Ilhas Canárias


07. Enquanto no sul da Europa, nas proximidades do Mediterrâneo, alastrava-se o lirismo trovadoresco, voltado para a exaltação do amor, para a vassalagem amorosa, no norte predominava o espírito guerreiro, épico, que celebrava nas canções de gesta o heroísmo da cavalaria medieval.
a)Verdadeiro
b)Falso


08. A poesia lírica dos provençais teve seguidores na França, na Itália, na Alemanha, na Catalunha, em Portugal e em outras regiões , onde também os temas folclóricos foram beneficiados com a forma mais culta e elaborada que os trovadores disseminaram.a)Verdadeiro
b)Falso


09. Assinale a afirmação falsa sobre as cantigas de escárnio e mal dizer:
a)Os alvos prediletos das cantigas satíricas eram os comportamentos sexuais (homossexualidade, adultério, padres e freiras libidinosos), as mulheres (soldadeiras, prostitutas, alcoviteiras e dissimuladas), os próprios poetas (trovadores e jograis eram freqüentemente ridicularizados), a avareza, a corrupção e a própria arte de trovar
b)As cantigas satíricas perfazem cerca de uma quarta parte da poesia contida nos cancioneiros galego- portugueses. Isso revela que a liberdade da linguagem e a ausência de preconceito ou censura (institucional, estética ou pessoal) eram componentes da vida literária no período trovadoresco, antes de a repressão inquisitorial atirá-las à clandestinidade
c)A principal diferença entre as duas modalidades satíricas está na identificação ou não da pessoa atingida
d)Algumas composições satíricas do Cancioneiro Geral e algumas cenas dos autos gilvicentinos revelam a obrevivência, já bastante atenuada, da linguagem livre e da violência verbal dos antigos trovadores
e)O elemento das cantigas de escárnio não é temático, nem está na condição de se omitir a identidade do ofendido. A distinção está no retórico do “equívoco”, da ambigüidade e da ironia, ausentes na cantiga de maldizer.


10. Foi o que ocorreu em Portugal e Galiza: a poesia primitiva, oral, autóctone, associada à musica e à coreografia e protagonizada por uma mulher, as chamadas cantigas de amigo, passaram a se beneficiar do contato com uma arte mais rigorosa e mais consciente de seus meios de realização artística
a)Verdadeiro
b)Falso



Gabarito do seu teste



01 - A 02 - A 03 - D 04 - A 05 - A


06 - E 07 - A 08 - A 09 - C 10 - A

Trovadorismo (1198 – 1418) por Wagner Batizelli

Posted by Profº Monteiro on dezembro 20, 2013


Contexto Histórico

Para quem acha que a literatura portuguesa inicia-se do nada está enganado. O primeiro movimento literário que se tem notícia é o Trovadorismo. Iniciou-se por volta de 1198, durante a guerra de reconquista do solo português. A região sul de Portugal estava sob o domínio árabe, mas foi totalmente reconquistado em 1249 pelo rei D. Afonso III.

Com esse tumulto, durante o processo de reconquista do território português, cavaleiros cristãos que vinham de diferentes partes da Europa iniciaram o processo de expulsão dos árabes (considerados indesejados) e ainda habitavam a Península Ibérica. Esse período da história ficou marcado pelo feudalismo, que foi o sistema político e econômico da Idade Média sustentado sobre a hierarquia de suseranos (proprietários de grandes extensões de terras) e vassalos (aqueles que se subordinam ao suserano e deviam prestar obediência, submissão e pagar taxas e contribuições).


A sociedade daquela época era tipicamente rural e o comércio bastante diferente daquele que conhecemos hoje, pois não existia o dinheiro. Eram feitas trocas de mercadorias e as principais atividades da época eram a pesca e a agricultura, cultivadas pelos servos. Nesta época medieval cercada por inúmeras guerras, os feudos tinham que se proteger de alguma forma. Assim como nós temos a proteção de nossos policiais, naquela época existiam os cavaleiros, além de proteger tinham a obrigação de servir a Deus, à Igreja e ao suserano.

Foram estes cavaleiros que fizeram parte das cruzadas, um dos mais importantes movimentos da Idade Média. As cruzadas, nada mais eram do que expedições armadas e patrocinadas pela Igreja, que tinham por objetivo recuperar os lugares santos que estavam sob o domínio muçulmano. A população da época tinha uma religiosidade aflorada e por conta disso tornou-se um marco na cultura medieval e tinha como fundamento o TEOCENTRISMO, ou seja, Deus era visto como o centro de todas as coisas.
Este pensamento só tornou-se possível, graças ao momento histórico caótico vivido na época. O povo procurava apoio e ajuda na religião para as dificuldades encontradas neste mundo e a salvação após a morte.

Manifestações Artísticas

Você sabe o que é arte românica e estilo gótico?
É muito simples entender a diferença entre os dois. Basta fazer uma breve observação e a diferença ficará bastante clara. A arte românica caracterizou o uso do arco redondo e paredes de pedras grossas. Predominou as linhas horizontais e janelas pequenas que foram construídas por peregrinos, viajantes e cruzados com mão-de-obra gratuita. Já no estilo gótico é fácil perceber que há uma leveza de estilo. As janelas são imensas, os vitrais são coloridos e as torres parecem mãos que se elevam ao céus em sinal de prece. É neste momento que a pintura e a escultura ganham maior autonomia e as figuras, passam a ter uma crescente humanização.

No estilo gótico percebemos que há uma leveza de estilo. As janelas são imensas, os vitrais são coloridos e as torres parecem mãos que se elevam ao céus em sinal de prece. É exatamente neste momento que a pintura e a escultura ganham maior autonomia e as figuras passam a ter uma crescente humanização.

A Poesia Medieval Portuguesa

Para aqueles que não fazem idéia do que são os textos poéticos da época medieval é simples entender. A poesia da época era acompanhada por dança e música, mais conhecidas por cantigas. Com essas manifestações, muitos artistas apareceram:
- Trovador: era o poeta que compunha as letras e as músicas das canções. Quase sempre era um nobre;
- Jogral, Segrel, Menestrel: Possuía condições financeiras inferiores e cantavam as poesias produzidas pelos trovadores;
- Soldadeira ou jogralesa: moça que cantava e tocava enquanto dançava.

A Poesia Lírico-Amorosa

Cantiga de Amor - Os portugueses não se limitavam à imitação e mostravam grande sinceridade e lirismo em suas composições. A cantiga de amor possui influência provençal, ou seja, ela vem lá de Provença, na França. A cantiga de amor tem como característica o ambiente palaciano, quer dizer, nos palácios dos reis. O eu-lírico é masculino, pois o trovador é quem fala a sua amada, mas sem revelar o seu nome. Na cantiga há o amor cortês. O trovador presta vassalagem amorosa a sua amada e a serve com fidelidade. Veja o trecho abaixo:
“Quer’eu maneira de proençal
Fazer agora um canto d’amor (...)”

Cantiga de Amigo - A cantiga de amigo é de origem popular e tem como característica o ambiente rural. A mulher é sempre uma camponesa, o eu-lírico é feminino, mas são escritas por homens. Na cantiga a mulher sofre muito porque está separada do amante ou namorado. Há também a presença de outros personagens que dialogam com a mulher, como as amigas, a mãe e elementos da natureza, como as flores, as ondas do mar etc. A concepção é mais humana do amor e há presença de paralelismo (construção que se repete com pequenas variações a cada estrofe). Veja um trecho da cantiga de amigo abaixo:
“ Ai eu coitada,
como vivo em gran cuidado
por meu amigo
que ei alongado! (...)”

A Poesia Satírica

No Trovadorismo observamos a presença das cantigas de escárnio e as de maldizer. Qual é a importância delas? As cantigas são importantes porque se aproximam da vida e dos costumes da sociedade. Contribuíram para o aprimoramento da língua literária e exploravam os jogos de palavras e ambigüidades. As cantigas referem-se à vida dos jograis e relatavam os escândalos, os vícios e excessos de toda ordem e rivalidade profissional. Além disso, eram feitas críticas ao burguês, ao nobre mesquinho, ao clero e a fraqueza dos nobres portugueses que não conseguiam derrotar os árabes.

O Desaparecimento do Trovadorismo e o Aparecimento da Prosa

Em um dado momento da história iniciou-se uma crise no sistema feudal. A falta de segurança nos feudos, a superlotação, a valorização da vida cortês e a influência da Igreja fizeram com que a estrutura feudal começasse a desaparecer de vez. Tudo virou uma verdadeira bagunça. Com essa intensa movimentação na história da Literatura Medieval houve o aparecimento da Prosa.

As mais conhecidas são as Novelas de Cavalarias que surgiram das Canções de Gesta (antigos poemas de assuntos guerrilheiros):
- Ciclo Clássico: envolve heróis da mitologia greco-romana;
- Ciclo Carolíngio: narra as aventuras de Carlos Magno e seus guerreiros;
- Ciclo Bretão ou Arturiano: narra as histórias e façanhas do rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda.
Temos um resumo do que foi o primeiro movimento literário em Portugal: o Trovadorismo.

Referências:
MARTINS, Patrícia e LEDO, Teresinha de Oliveira. Guia Prático da Língua Portuguesa. DCL Difusão Cultural, São Paulo, 2003.
MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. São Paulo, Cultrix, 2008
MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa Através dos Textos. São Paulo, Cultrix, 1997
OLIVEIRA, Ana Tereza Pinto de e REIS, Benedicta Aparecida Costa dos. Mini-manual Compacto de Literatura Portuguesa: teoria e prática. São Paulo, Rideel, 2005

LEITURAS EXTRAS
Visite o espaço do Professor Cid Seixas:
http://cidseixas.blogspot.com/2007/11/entre-fico-e-cincia.html

Cantigas de Maldizer do Trovadorismo e da Contemporaneidade

Posted by Profº Monteiro on dezembro 20, 2013

cantiga de Pero Viviaez:

Uã donzela coitado

d' amor por si me faz andar
e en sas feituras falar
quero eu, come namorado:
restr’ agudo come foron,
barva no queix' e no granhon,
e o ventre grand' e inchado.

Sobrancelhas mesturadas,
grandes e mui cabeludas,
sobre-los olhos merjudas;
e as tetas pendoradas
e mui grandes, per boa fé;
á un palm’ e meio no pé
e no cós três plegadas.

A testa ten enrugada
E os olhos encovados,
dentes pintos come dados...
e acabei, de passada.
Atal a fez Nostro Senhor:
mui sen doair' e sen sabor,
des i mui pobr’ e forçada.

A presente cantiga caracteriza-se como uma cantiga de maldizer , pois ela ironiza a beleza da mulher com ofensas diretas. Isso pode ser percebido nos seguintes versos:

“barva no queix' e no granhon,
e o ventre grand' e inchado.

Sobrancelhas mesturadas,
grandes e mui cabeludas,
sobre-los olhos merjudas;
e as tetas pendoradas
e mui grandes, per boa fé;
á un palm’ e meio no pé
e no cós três plegadas.

A testa ten enrugada
E os olhos encovados,
dentes pintos come dados...
e acabei, de passada.”

O eu – lírico aqui vai transfigurando o rosto e o corpo da mulher de forma difamatória. Ainda acrescenta no final da cantiga um dado de cunho social sobre essa mulher, ou seja, ela acaba sendo rejeitada por não haver nenhum encanto nela e também por ser uma mulher pobre. Como uma das características das cantigas de maldizer é representar o grotesco, dessa forma o eu- lírico nessa canção explicita de forma bruta o corpo feminino.

Dialogando com as músicas brasileiras atuais encontramos características semelhantes nos funks brasileiros. Citamos como exemplo a música “Dona Gigi” de Os Caçadores.
Dona Gigi
Os Caçadores
Composição: Waguinho
Ih dasqui ih
“eu sou a dona gigi”
Ih dasqui dasqui dasqui ih
"esse aqui é meu esposo"
Ih dasqui dasqui dasqui ih
"esse aí é seu esposo?!?"
Ih dasqui dasqui dasqui ih
"é sim..."
Se me vê agarrado com ela
Separa que é briga tá ligado!
Ela quer um carinho gostoso
Um bico dois soco e três cruzado!
Tá com pena leva ela pra casa
Porque nem de graça eu quero essa mulher!
Caçadores estão na pista pra dizer como ela é...
Se me vê agarrado com ela
Separa que é briga, tá ligado!
Ela quer um carinho gostoso
Um bico dois soco e três cruzado!
Tá com pena leva ela pra casa
Porque nem de graça eu quero essa mulher!
Caçadores estão na pista pra dizer como ela é...
Caolha, nariz de tomada, sem bunda, perneta,
Corpo de minhoca, banguela, orelhuda, tem unha incravada,
Com peito caido e um caroço nas costas...
Ih gente! capina, despenca,
Cai fora, vai embora ,
Se não vai dançar,
Chamei 2 guerreiros,
Bispo macedo, com padre quevedo pra te exorcisar...
Oi, vaza!
Tcha tchritcha tchritcha tchum, tchritcha tchritcha
Fede mais que um urubu,
Canhão! vou falar bem curto e grosso contigo, hein...
Já falei pra vaza!
Coisa igual nunca se viu...
Oh vai pra puxa... tu é feia...
Na canção vemos uma deformação, deturpação da imagem feminina quando o autor vai enumerando os seguintes adjetivos:

“Caolha, nariz de tomada, sem bunda, perneta,
Corpo de minhoca, banguela, orelhuda, tem unha incravada,
Com peito caído e um caroço nas costas...”
“Fede mais que um urubu.”

Na composição o autor utiliza dos seguintes recursos sonoros: as assonâncias, na repetição da vogal “o”.


“Separa que é briga tá ligado!
Ela quer um carinho gostoso
Um bico dois soco e três cruzado!”

Ainda percebemos a utilização da figura de estilo hipérbole que descreve de modo exagerado essa mulher que é tratada na música.

“Caolha, nariz de tomada, sem bunda, perneta,
Corpo de minhoca, banguela, orelhuda, tem unha incravada,
Com peito caido e um caroço nas costas...”

Encontramos os recursos de rimas cruzadas ou intercaladas:

“Separa que é briga tá ligado!
Ela quer um carinho gostoso
Um bico dois soco e três cruzado!
Quanto as estrofes, a música apresenta três estrofes elas se repetem no decorrer da canção.
Com relação a linguagem da música, é interessante vermos que o autor usa um linguagem totalmente informal dotada de gírias e expressões coloquiais que marcam o vocabulário dos funks, como também das classes sociais que compõem a sociedade brasileira.
Assim, vimos no decorrer dos estudos que algumas cantigas do trovadorismo cantam um amor cortês, divinalizam a dama e a descreve amorosamente. Outras cantigas são o avesso dessa idealização, difamam violentamente essa mulher. Na atualidade, percebemos que geralmente a mulher, nos funks, é vista como simples objeto de prazer e eles a expõem em uma situação sexual explicita; como também a descrevem de modo grotesco associando a figura feminina com termos como cachorra, popozuda, potranca, piranha, vadia, entre outros.

RETIRADO DE http://lerliteratura.blogspot.com/2010/04/visite-o-blog-e-faca-um-passeio.html

O TROVADORISMO

Posted by Profº Monteiro on dezembro 18, 2013
Origens
Às primeiras décadas desta época transcorrem durante a guerra de reconquista do solo português ainda em parte sob domínio mourisco, cujo derradeiro ato se desenrola em 1249, quando Afonso III se apodera de Albufeira, Faro, Loulé, Aljezur e Porches, no extremo sul do País, batendo definitivamente os últimos baluartes sarracenos em Portugal. E apesar de Mo absorvente a prática guerreira durante esses anos de consolidação política e territorial, a atividade literária beneficiou-se de condições propícias e pôde desenvolver-se normalmente. Cessada a contingência bélica, observa-se o recrudescimento das manifestações sociais típicas dos períodos de paz e tranqüilidade ociosa, entre as quais a literatura.
Em resultado desse clima pós-guerra, a poesia medieval portuguesa alcança, na segunda metade do século XIII, seu ponto mais alto. A origem remota dessa poesia constitui ainda assunto controvertido;- admitem-se quatro fundamentais teses para explicá-la: a tese arábica, que considera a cultura arábica como sua velha raiz; a tese folclórica, que a julga criada pelo povo; a tese médio-latinista, segundo a qual essa poesia ter-se-ia originado da literatura latina produzida durante a Idade Média; a te se litúrgica considera-a fruto da poesia litúrgico-cristã elaborada na mesma época. Nenhuma delas é suficiente, para resolver o problema, tal a sua unilateralidade. Temos de apelar para todas, ecleticamente, a fim de abarcar a multidão de aspectos contrastantes apresentada pela primeira floração da poesia medieval.
Todavia, é da Provença que vem o influxo próximo. Aquela região meridional da França tornara-se no século XI um grande centro de atividade lírica, mercê das condições de luxo e fausto oferecidas aos artistas pelos senhores feudais. As Cruzadas, compelindo os fiéis a pró-curar Lisboa como porto mais próximo para embarcar com destino a Jerusalém, propiciaram a movimentação duma fauna humana mais ou menos parasitária, em meio à qual iam os jograis. Estes, penetrando pelo chamado “caminho francês” aberto nos Pirineus, introduziram em Portugal a nova moda poética.
Fácil foi sua adaptação à realidade portuguesa, graças a ter encontrado um ambiente favoravelmente predisposto, formado por uma espécie de poesia popular de velha tradição. A íntima fusão de ambas as correntes (a provençal e a popular) explicaria o caráter próprio assumido pelo trovadorismo em terras portuguesas.
A época inicia-se em 1198 (ou 1189), com a “cantiga de garvaia”, dedicada por Paio Soares de Taveirós a Maria Pais Ribeiro, e termina em 1418, quando Fern5o Lopes é nomeado Guarda-Mor da Torre do Tombo, ou seja, conservador do arquivo do Reino, por D. Duarte.
Origem da Palavra Trovador
Provença, o poeta era chamado de troubadour, cuja forma correspondente em Português é trovador, da qual deriva trovadorismo, trovadoresco, trovadorescamente. No norte da França, o poeta recebia o apelativo trouvère, cujo radical é igual ao anterior: trouver (=achar): os poetas deviam ser capazes de compor, achar sua canção, cantiga ou cantar, e o poema assiM se denominava por implicar o canto e o acompanhamento musical.
Duas espécies principais apresentava a poesia trovadoresca: a lírico-amorosa e a satírica. A primeira divide-se em cantiga de amor e cantiga de amigo; a segunda, em cantiga de escárnio e cantiga de maldizer. O idioma empregado era o galego-português, em virtude da então unidade lingüística entre Portugal e a Galiza.
CANTIGA DE AMOR — Neste tipo de cantiga, o trovador empreende a confissão, dolorosa e quase elegíaca, de sua angustiante experiência passional frente a uma dama inacessível aos seus apelos, entre outras razões porque de superior estirpe social, enquanto ele era, quando muito, fidalgo decaído. Uma atmosfera plangente, suplicante, de litania, varre a cantiga de ponta a ponta. Os apelos do trovador colocam-se alto. num plano de espiritualidade, de idealidade ou contemplação platônica, mas entranham-se-lhe no mais fundo dos sentidos; o impulso erótico situado na raiz das súplicas transubstancia-se, purifica-se, sublima-se. Tudo se passa como se o trovador “fingisse”, disfarçando com o véu do espiritualismo, obediente às regras de conveniência social e da moda literária vinda da Provença, o verdadeiro e oculto sentido das solicitações dirigidas à dama. A custa de “fingidos” ou incorrespondidos, os estímulos amorosos transcendentalizam-se: repassa-os um torturante sofrimento interior que se segue à certeza da inútil súplica e da espera dum bem que nunca chega. É a coita (= sofrimento) de amor, que, afinal, ele confessa.
As mais das vezes, quem usa da palavra é o próprio trovador, dirigindo-a com respeito e subserviência à dama de seus cuidados (mia senhor ou mia dona = minha senhora), e rendendo-lhe o culto que o “ser­viço amoroso” lhe impunha. E este orienta-se de acordo com um rígido código de comportamento ético: as regras do “amor cortês”, recebidas da Provença. Segundo elas, o trovador teria de mencionar comedida-mente o seu sentimento (mesura), a fim de não incorrer no desagrado (sanha) da bem-amada; teria de ocultar o nome dela ou recorrer a um pseudônimo (senhal), e prestar-lhe uma vassalagem que apresentava quatro fases: a primeira correspondia à condição de fenhedor, de quem se consome em suspiros; a segunda é a de precador, de quem ousa declarar-se e pedir; entendedor é o namorado; drut, o amante. O lirismo trovadoresco português apenas conheceu as duas últimas fases, mas o drut (drudo em Português) se encontrava exclusivamente na cantiga de escárnio e maldizer- Também a senhal era desconhecida de nosso trovadorismo- Subordinando o seu sentimento às leis da corte amorosa, o trovador mostrava conhecer e respeitar as dificuldades interpostas pelas convenções e pela dama no rumo que o levaria à consecução dum bem impossível- Mais ainda: dum bem (e “fazer bem” significa corresponder aos requestos do trovador) que ele nem sempre desejava alcançar, pois seria pôr fim ao seu tormento masoquista, ou inicio dum outro maior. Em qualquer hipótese, só lhe restava sofrer, indefinidamente, a coita amorosa.
E ao tentar exprimir-se, a plangência da confissão do sentimento que o avassala, — apoiada numa melopéia própria de quem mais murmura suplicantemente do que fala —, vai num crescendo até a última estrofe (a estrofe era chamada na lírica trovadoresca de cobra; podia ainda receber o nome de cobla ou de talho). Visto uma idéia obsessiva estar empolgando o trovador, a confissão gira em torno dum mesmo núcleo, para cuja expressão o enamorado não acha palavras muito variadas, tão intenso e maciço é o sofrimento que o tortura. Ao contrário, a corrente emocional, movimentando-se num círculo vicioso, acaba por se repetir monotonamente, apenas mudado o grau do lamento, que aumenta em avalanche até o fim. O estribilho ou refrão, com que o trovador pode rematar cada estrofe, diz bem dessa angustiante idéia fixa para a qual ele não encontra expressão diversa.
Quando presente o estribilho, que é recurso típico da poesia popular, a cantiga chama-se de refrão- Quando ausente, a cantiga recebe o nome de cantiga de maestria, por tratar-se dum esquema estrófico mais complexo, intelectualizado, sem o suporte facilitador daquele expediente repetitivo.
CANTIGA DE AMIGO — Escrita igualmente pelo trovador que compõe cantigas de amor, e mesmo as de escárnio e maldizer, esse tipo de cantiga focaliza o outro lado da relação amorosa: o fulcro do poema é agora representado pelo sofrimento amoroso da mulher, via de regra pertencente às camadas populares (pastoras, camponesas, etc.). O trovador, amado incondicionalmente pela moça humilde e ingênua do campo ou da zona ribeirinha, projeta-se-lhe no íntimo e desvenda-lhe o desgosto de amar e ser abandonada, em razão da guerra ou de outra mulher. O drama é o da mulher, mas quem ainda compõe a cantiga é o trovador: 1) pode ser ele precisamente o homem com quem a moça vive sua história; o sofrimento dela, o trovador é que o conhece, melhor do que ninguém; 2) por ser a jovem analfabeta, como acontecia mesmo às fidalgas.
O trovador vive uma dualidade amorosa, de onde extrai as duas formas de lirismo amoroso próprias da época: em espírito, dirige-se à dama aristocrática; com os sentidos, à camponesa ou à pastora. Por isso, pode expressar autenticamente os dois tipos de experiência passional, e sempre na primeira pessoa (do singular ou plural), 1) como agente amoroso que padece a incorrespondência, 2) como se falasse pela mulher que por ele desgraçadamente se apaixona. É digno de nota que essa ambigüidade, ou essa capacidade de projetar-se na interlocutora do episódio e exprimir-lhe o sentimento; extremamente curiosa como psicologia literária ou das relações humanas, não existia antes do trovadorismo nem jamais se repetiu depois.
No geral, quem ergue a voz é a própria mulher, dirigindo-se em confissão à mãe, às amigas, aos pássaros, aos arvoredos, às fontes, aos riachos, O conteúdo da confissão é sempre formado duma paixão in­transitiva ou incompreendida, mas a que ela se entrega de corpo e alma. Ao passo que a cantiga de amor é idealista, a de amigo é realista, traduzindo um sentimento espontâneo, natural e primitivo por parte da mulher, e um sentimento donjuanesco e egoísta por parte do homem.
Uma tal paixão haveria de ter sua história: as cantigas surpreendem “momentos” do namoro, desde as primeiras horas da corte até as dores do abandono, ou da ausência, pelo fato de o bem-amado estar no fossado ou no bafordo, isto é, no serviço militar ou no exercício das armas. Por isso, a palavra amigo pode significar namorado e amante.
A cantiga de amigo possui caráter mais narrativo e descritivo que a de amor, de feição analítica e discursiva. E classifica-se de acordo com o lugar geográfico e as circunstâncias em que decorrem os acontecimentos, em serranilha, pastorela, barcarola, bailada, romaria, alba ou alvorada (surpreende os amantes no despertar dum novo dia, depois de uma noite de amor).
CANTIGA DE ESCÁRNIO E CANTIGA DE MALDIZER – A cantiga de escárnio é aquela em que a sátira se constrói indiretamente, por meio da ironia e do sarcasmo, usando “palavras cobertas, que hajam dois entendimentos para lhe lo não entenderem”, como reza a Poética Fragmentária que precede o Cancioneiro da Biblioteca Nacional (antigo Colocci-Brancuti). Na de maldizer, a sátira é feita direta­mente, com agressividade, “mais descobertamente”, com “palavras que querem dizer mal e não haverão outro entendimento senão aquele que querem dizer chãmente”, como ensina a mesma Poética Fragmentária.
Essas duas formas de cantiga satírica, não raro escritas pelos mesmos trovadores que compunham poesia lírico-amorosa, expressavam, como é fácil depreender, o modo de sentir e de viver próprio de ambientes dissolutos, e acabaram por ser canções de vida boemia e escorraçada, que encontrava nos meios frascários e tabernários seu lugar ideal. A linguagem em que eram vazadas admitia, por isso, expressões licenciosas ou de baixo-calão: poesia “maldita”, descambando para a pornografia ou o mau gosto, possui escasso valor estético, mas em contra­partida documenta os meios populares do tempo, na sua linguagem e nos seus costumes, com uma flagrância de reportagem viva.
Visto constituir um tipo de poesia cultivado notadamente por jograis de má vida, era natural propiciasse e estimulasse o acompanha­mento de soldadeiras (= mulheres a soldo), cantadeiras e bailadeiras, cuja vida airada e dissoluta fazia coro com as chulices que iam nas letras das canções.