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Barroco - A poesia lírica de Gregório de Matos

Posted by Profº Monteiro on outubro 11, 2016

autoria de Odete Antunes (Profª Odete)



1. Poesia lírica sacra - A culpa e o arrependimento

A poesia lírica de Gregório de Matos pode ser dividida em lírica sacra, lírica amorosa (espiritual e carnal), lírica encomiástica (poemas de circunstância, oemas laudatórios) e lírica filosófica. Analisemos, uma a uma, a poesia lírica desse autor barroco:


Expressa a cosmovisão barroca: a insignificância do homem perante Deus, a consciência nítida do pecado e a busca do perdão. Ao lado de momentos de verdadeiro arrependimento, muitas vezes o tema religioso é utilizado como simples pretexto para o exercício poético, desenvolvendo engenhosos jogos de imagens e conceitos.

As idéias de Deus e do pecado, ao mesmo tempo que se opõem, são complementares. Embora Deus detenha o poder da condenação da alma, está sempre disposto ao perdão, por sua misericórdia e bondade; daí deriva Sua maior glória.

A CRISTO N. S. CRUCIFICADO, estando o poeta na última hora de sua vida

1 Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
2 Em cuja lei protesto de viver,
3 Em cuja santa lei hei de morrer,
4 Animoso, constante, firme e inteiro:

5 Neste lance, por ser o derradeiro,
6 Pois vejo a minha vida anoitecer;
7 É, meu Jesus, a hora de se ver
8 A brandura de um Pai, manso Cordeiro.

9 Mui grande é o vosso amor e o meu delito;

10 Porém pode ter fim todo o pecar,
11 E não o vosso amor que é infinito.

12 Esta razão me obriga a confiar,
13 Que, por mais que pequei, neste conflito
14 Espero em vosso amor de me salvar.Nas duas primeiras estrofes, o poeta expressa a contrição religiosa e a crença no amor infinito de Cristo, para manifestar, no final, a certeza do perdão. O soneto encobre uma formulação silogística, que se pode expressar dessa maneira: o amor de Cristo é infinito (verso 11); o meu pecado, por maior que seja, é finito, e menor que o amor de Jesus (versos 9 e 10). Logo, por maior que seja o meu pecado, eu espero salvar-me (versos 13 e 14).

BUSCANDO A CRISTO

1 A vós correndo vou, braços sagrados,
2 Nessa cruz sacrossanta descobertos,
3 Que, para receber-me, estais abertos,
4 E, por não castigar-me, estais cravados.
5 A vós, divinos olhos, eclipsados
6 De tanto sangue e lágrimas abertos,
7 Pois, para perdoar-me, estais despertos,
8 E, por não condenar-me, estais fechados.

9 A vós, pregados pés, por não deixar-me,
10 A vós, sangue vertido, para ungir-me,
11 A vós, cabeça baixa p ‘ra chamar-me.

12 A vós, lado patente, quero unir-me,
13 A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
14 Para ficar unido, atado e firme.

O soneto é construído a partir de um sistema de metonímias que vão relacionando as partes de Cristo ("braços", "olhos", "pés", "sangue", "cabeça", "cravos"), substituindo todo o Cristo crucificado.

Os versos 5, 9, 10, 11, 12 e 13 constroem-se com a omissão do verbo, que aparecera no 1º verso - "correndo vou”. Em todos eles ocorre o procedimento estilístico denominado zeugma (= elipse de uma palavra ou expressão próxima no contexto). Assim, nos versos -mencionados, deve-se ler:

"A vós (correndo vou), divinos olhos (...)"

"A vós (correndo vou), pregados pés (... )" etc.

Outro recurso empregado são as anáforas (repetição de palavra(s) no início de dois ou mais versos). Observe a repetição de “a vós” (v. 5, 9, 10, 11, 12, 13), e de "e por não" (v. 4 e 8).

Enquanto no texto anterior o jogo de idéias é predominante (aspecto conceptista), neste, o mais evidente é o trabalho com as palavras, por meio das figuras de linguagem (aspecto cultista).

Observe que o mesmo poeta contrito dos textos sacros é autor de sátiras violentas ao clero:

A nossa Sé da Bahia,
com ser um mapa de festas,
é um presepe de bestas,
se não for estrebaria:
Várias bestas cada dia.

Ou:

E nos frades há manqueiras ?...Freiras.
Em que ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluís, na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.

2. Poesia lírica amorosa - O espírito e a carne

Apresenta-se sob o signo da dualidade barroca, oscilando entre a atitude contemplativa, o amor elevado, à maneira dos sonetos de Camões, e a obscenidade, o carnalismo. É curioso que a postura platônica é dominante, quando o poeta se refere a mulheres brancas, de condição social superior, e a libido agressiva, o erotismo e o desbocamento são as tônicas, quando o poeta se inspira nas mulheres de condição social inferior, especialmente as mulatas. Neste sentido, destaca-se já certa “tropicalidade”, a antecipação de certo “sentimento brasileiro”.

Minha rica mulatinha,
desvelo e cuidado meu,
eu já fora todo teu,
e tu foras toda minha;

Juro-te, minha vidinha,
se acaso minha qués ser,
que todo me hei de acender
em ser teu amante fino pois
por ti já perco o tino,
e ando para morrer.

Observe os versos curtos e a aproximação com uma linguagem mais espontânea e popular. A mulher é vista tanto de modo espiritualizado, quanto como objeto de desejo carnal. Ambas as visões podem aparecer no mesmo texto, estabelecendo um conflito, conforma ocorre no soneto transcrito a seguir, Anjo no nome, Angélica na cara, onde também encontra-se a atitude idealizante e a linguagem mais erudita:

A D. ÂNGELA

Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara?
Quem vira uma tal flor que a não cortara
De verde pé, da rama florescente;
E quem um Anjo vira tão luzente
Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu Custódio e a minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo que me tenta, e não me guarda.

O soneto marca-se pelo aspecto cultista, desenvolvendo-se por meio do jogo de palavras e imagens: “Ângela” = “Angélica” = “Anjo”, “flor” = “florente”.

O tema central é o caráter contraditório dos sentimentos do poeta pela mulher, que é simultaneamente flor (metáfora da beleza) e objeto do desejo, e anjo (metáfora da pureza) e símbolo da elevação espiritual.

A contradição entre o amar e o querer desemboca no paradoxo dos versos finais: “Sois Anjo que me tenta e não me guarda.”

O tema clássico do carpe diem (= aproveita o dia) é freqüente. A consciência da fugacidade do tempo e das incertezas da vida leva à necessidade de fruição imediata dos prazeres.

É o que se nota em:
Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca, o Sol e o dia:

Enquanto com gentil descortesia,
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança brilhadora,
Quando vem passear-te pela fria...

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda a ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.
Oh não aguardes que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Os textos que iremos transcrever demonstram cabalmente o conflito carne x espírito, mediante duas definições do amor.

O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.

Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas;
quem diz outra coisa, é besta.
Ardor em firme coração nascido;
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:

Tu, que em um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Quando cristal, em chamas derretido.

3. Poesia lírica encomiástica

Gregório de Matos escreveu também poemas laudatórios (de elogio), de circunstância (festas, homenagens, fatos corriqueiros). Um exemplo curioso é o poema cujo inicio transcrevemos, uma homenagem ao desembargador Belchior da Cunha Brochado:

O elemento lúdico (= de jogo) do Barroco é a marca predominante do texto. Cada par de versos tem em comum as terminações das palavras (ex.: 1ª palavra do 1º verso: douTO; 1ª palavra do 2ª verso: reTO), o que explica o estranho arranjo espacial do texto. A leitura deve ser feita como se se tratasse de versos comuns; assim sendo, os dois primeiros versos lêem-se:

Douto, prudente, nobre, humano, afável,

Reto, ciente, benigno e aprazível

retirado do site passeiweb

Análise do poema: Epílogos

Posted by Profº Monteiro on janeiro 20, 2014






Conhecido também como ´´ Boca do Inferno``, em razão de suas sátiras, Gregório de Matos representa uma das veias mais ricas e ferinas de toda literatura satírica em Língua Portuguesa. A exemplo de certos trovadores da Idade Média, o poeta não poupou palavrões em sua linguagem nem críticas a todas as classes da sociedade baiana de seu tempo. Criticava o governador, o clero, os comerciantes, os negros, os mulatos, os colonos, os bacharéis, os degradados lusos que vinham para o Brasil e aqui enriqueciam etc.
O poder corrupto não escapou à mira do poeta: crítica, de forma impiedosa, a incompetência, a promiscuidade e a desonestidade, sem perder a noção do jogo com as palavras, característica, afinal do Barroco.Quando retorna ao Brasil, já quarentão, em 1682, Gregório de Matos encontra uma sociedade em crise (principalmente com a fome que se abatia sobre a cidade). A decadência econômica torna-se visível: o açúcar brasileiro enfrenta a concorrência do açúcar produzido nas Antilhas e seu preço desaba. Além disso, uma nova camada de comerciantes (em sua maioria, portugueses) acumula riquezas com a exportação e importação de produtos. Esta nova classe abastada humilha aqueles que se julgam bem nascidos, mas que, dia após dia, perdem seu poder econômico e seu prestígio.
Em ´´Epílogos``, ele retrata a paisagem moral de Salvador, Bahia, nossa capital na época colonial. Mudando a palavra cidade para país, teremos a paisagem moral atual em alguns dos versos do poeta:
Torna a definir o poeta os maus modos de obrar na governança da Bahia, principalmente naquela universal fome, que padecia a cidade.
Epílogos
Que falta nesta cidade?................Verdade
Que mais por sua desonra?...........Honra
Falta mais que se lhe ponha..........Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.

Quem a pôs neste socrócio?..........Negócio
Quem causa tal perdição?.............Ambição
E o maior desta loucura?...............Usura.

Notável desventurade um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.

Quais são os seus doces objetos?....Pretos
Tem outros bens mais maciços?.....Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?...Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?...Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas?.........Guardas
Quem as tem nos aposentos?.........Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos.

E que justiça a resguarda?.............Bastarda
É grátis distribuída?.....................Vendida
Que tem, que a todos assusta?.......Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.

Que vai pela clerezia?..................Simonia
E pelos membros da Igreja?..........Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha?.....Unha.

Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.

E nos frades há manqueiras?.........Freiras
Em que ocupam os serões?............Sermões
Não se ocupam em disputas?.........Putas.

Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.

O açúcar já se acabou?..................Baixou
E o dinheiro se extinguiu?.............Subiu
Logo já convalesceu?.....................Morreu.

À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.

A Câmara não acode?...................Não pode
Pois não tem todo o poder?...........Não quer
É que o governo a convence?........Não vence.

Que haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.
Vocabulário
Socrócio – emplastro, alivio, bálsamo ( o poeta usou-o no sentido antitético, irônico).
Círios – sacos de farinha (a grafia correta é sírios).
Simonia – venda de coisas sagradas.
Unha – roubalheira, avareza, tirania, opressão.
Caramunha – lamentação experiente.
Manqueiras – vícios, defeitos.
Poema constituído de estrofes que lembram a tradição medieval, na medida em que possuem sete sílabas métricas (redondilha maior). Cada estrofe inicia-se com perguntas retóricas, isto é, falsas perguntas, ironicamente respondidas pelo próprio poeta. Esse procedimento parece dar um certo didatismo ao poema, didatismo reforçado pelo processo de disseminação e recolha, muito comum na poesia barroca.
Primeiro, as palavras se disseminam, se dispersam nos versos para depois serem recolhidas , reunidas num mesmo verso. Assim, há um tom conclusivo no final das estrofes. Conclusão que abrange desde valores morais (verdade, honra, vergonha) abstratos até os motivos concretos da degradação destes valores ( negócio, ambição, usura) e seus principais agentes: pretos, mestiços,meirinhos, guardas, sargentos (observe que a leitura vertical dos três primeiros versos iguala-se a leitura horizontal do sétimo, criando um mecanismo sucessivo até o final do poema).
Além dos tipos sociais, Gregório de Matos denuncia as instituições: começando por El-Rei, que nos dá de graça uma ´´justiça`` corrompida, a ponto de andar bastarda, vendida, injusta, e terminando com a Igreja a quem acusa de simonia ( tráfico de coisas sagradas, espirituais), inveja, unha (roubalheira). Também é implacável com os frades, que a seu ver se ocupam de freiras, sermões e putas...Como vemos, do alto da pirâmide social à ralé, dos ´´donos do poder`` aos mestiços, todos são responsáveis, ninguém é poupado.
As estrofes se assemelham do ponto de vista formal, indicando a regularidade do poema, o que também ocorre do ponto de vista das rimas (nos três primeiros versos. rimas horizontais; nos quatro restantes, rimas verticais — ABBA) e de sua disposição gráfica: estrofes de três versos seguidas de estrofes de quatro versos, sendo o último uma condensação do conjunto de sete versos que compõe cada esquema duplo de estrofes.
Em termos de conteúdo, as estrofes também se assemelham: do abstrato para o concreto (verdade, honra, vergonha... negócios, ambição, usura), dos tipos sociais às instituições, do povo néscio a El-Rei, da Santa Fé aos frades. Gregório de Matos vai decompondo a organização de uma sociedade que nos parece tão barroca quanto o poema: ´´os jogos`´ de todos, que se nivelam ´´por baixo``. Seu ´´juízo anatômico`` reflete-se nas antíteses utilizadas: desonra/honra; grátis/vendida; cai/cresce; baixou/subiu; nobre/mísera e pobre.
A coloquialidade da linguagem, o uso de termos considerados ´´de baixo calão``, o tom de oralidade e principalmente a arrasadora crítica que faz às desigualdades, às imposturas, às vilanias, projetam no tempo este ´´trovador``, lançam-no às nossas atuais perplexidades, causando a impressão incômoda de que não é tão distante o barroquismo da sua indignação, e da situação social e política que a deflagra com tanta veemência.
Gregório de Matos, ao abrir espaço para a paisagem local e a língua do povo, talvez seja a primeira manifestação nativista de nossa literatura e o início de um longo despertar da consciência crítica nacional, que levaria ainda um século para abrir os olhos.

Análise do soneto: ´´À mesma D. Ângela`` - Gregório de Matos

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013
Rompe o poeta com a primeira impaciência querendo declarar-se e temendo perder por ousado
Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda
.
Vocabulário
Florente: florescente, brilhante, esplendente.
Uniformar: converter em uma só forma coisas diversas.
Rama: ramos e folhagens de árvores.
Luzente: brilhante.
Idolatrar: adorar, amar cegamente.
Custódio: anjo da guarda, protetor.
Diabólico: funesto, terrível, satânico.
Azar: agouro, infelicidade, desgraça.
Galharda: garbosa, esbelta, elegante
Pesar: desgosto, mágoa, tristeza.
Tentar: provocar, seduzir, instigar para o mal.
James Amado, baseando-se em grande parte no códice de Manuel Pereira Rabelo (primeiro biógrafo – século XVIII), organizou um ciclo dos poemas endereçados a D. Ângela de Sousa Paredes Rabelo, segundo a evolução do relacionamento amoroso, que termina com Gregório sendo rejeitado em favor de outro.
O soneto transcrito (o sétimo poema do ciclo “Ângela”) revela muito do estilo cultista adotado por Gregório em suas composições. Desenvolve-se por meio do jogo de palavras e imagens: “Ângela” = “Angélica” = “Anjo”, “flor” = “florente”. Gregório segue uma tradição explorada por Shakespeare e Camões ao comparar a beleza da mulher à natureza.
O esquema rimático é: ABBA / ABBA / CDC / DCD. Quanto à disposição ou ligação entre os versos, nas quadras: rima interpolada entre o primeiro e o quarto versos (porque entre os dois versos que rimam há mais do que um de rima diferente) e emparelha entre o segundo e o terceiro versos (rimam dois a dois); nos tercetos, a rima é cruzada (porque entre os dois versos que rimam há apenas um de rima diferente).
O tema central é o caráter contraditório dos sentimentos do poeta pela mulher, que é simultaneamente flor (metáfora da beleza) e objeto do desejo, e anjo (metáfora da pureza) e símbolo da elevação espiritual. Podemos, em primeiro lugar, observar o uso dos trocadilhos anjo (ângelus em latim, daí vem Ângela, angélico) / Angélica (do latim Angelicus, pura como um anjo e também o nome de uma flor que inspira sensualidade) na construção imagética do poema: trata-se de uma mulher de nome e feições angelicais, tão bela que se assemelha a uma flor. O poeta trabalha com essas duas entidades – flor e anjo – que se irmanam pela beleza, mas que se distanciam pela duração. A flor significa brevidade, enquanto que o anjo é ser eterno. Essa duplicidade emerge do nome da mulher amada, cuja beleza indiscutível lança o poeta em tensão.
Na primeira estrofe, por exemplo, o eu lírico começa a esboçar uma imagem de mulher construída a partir de duas palavras, que associa ao seu nome e ao seu rosto: flor (´´Angélica na cara``) e anjo (´´Anjo no nome``). Aqui podemos perceber a presença de uma contradição, já que a mulher amada é anjo (plano espiritual) e flor (plano material): estas duas antíteses (recurso estilístico que busca a unidade entre elementos que se opõem) ao mesmo tempo em que marcam a dualidade, marcam também a tentativa de unificação. Tentativa cuja base é a beleza: beleza que quando associada à flor tende a ser breve, destruída (´´Quem veria uma flor, que a não cortara``), e quando associada a anjo, tende a ser idolatrada, glorificada, eternizada (´´E quem um Anjo vira tão luzente,`` /´´Que por seu Deus, o não idolatrara?``)
No primeiro terceto o eu lírico já pronuncia o paradoxo que ele explicará no final do poema. Como a sua amada representa a figura de um anjo, a quem ele constantemente adora (´´Anjo sois dos meus altares``) o natural seria guardá-lo das tentações, auxiliá-lo, livrá-lo de ´´diabólicos azares``.
A última estrofe começa com a conjunção adversativa ´´Mas`` dando prosseguimento ao raciocínio da estrofe anterior, deixando clara a contradição que há na condição de sua amada. E a dualidade inicial, que antes vacilava entre o metafísico e o botânico, reduz agora seu campo de alcance e se concentra num só ente: o anjo. Mas um anjo dual, que tenta e não guarda. Um anjo que não se identifica, apenas e necessariamente, com o bem.
O toque barroco aparece no jogo de contradições revelado nos dois tercetos: se essa bela mulher é um anjo, como é possível que, em lugar de garantir proteção, cause apenas tentação ao eu lírico? A contradição entre o amar e o querer desemboca no paradoxo dos versos finais: “Sois Anjo que me tenta e não me guarda.”
Assim, o soneto que se inicia com a louvação de uma beleza angelical, encerra-se como advertência contra uma tentação demoníaca. Esse é um bom exemplo do desenvolvimento da lírica amorosa na obra de Gregório, que mantém viva a tensão entre a imagem feminina angelical e a tentação da carne que atormenta o espírito.

Análise do poema: À instabilidade das cousas do mundo

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013


Moraliza o poeta nos ocidentes do sol a inconstância dos bens do mundo
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol e na luz, falta a firmeza,
Na formosura não se crê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.A poesia de Gregório de Matos guarda alguns traços marcantes da poética renascentista: trata-se de um soneto (14 versos, distribuídos em 2 quartetos e 2 tercetos), cuja temática está centrada na reflexão moral e filosófica – o título longo e explicativo da poesia , que é uma característica barroca, evidencia o caráter moralizante do texto.
O esquema de rima é ABBA, ABBA, CDC e DCD. Os versos são decassílabos heróicos. Existe um outro tipo de verso decassílabo. Ele se chama sáfico e apresenta tonicidade na 4.ª, 8.ª e 10.ª sílabas. Seu esquema rítmico é 10 (4-8-10). Façamos uma releitura dos versos 2 e 3. Podemos verificar que esses dois versos oscilam sua acentuação: tanto podem ser considerados heróicos quanto sáficos, pois também poderíamos metrificá-los desta forma:
De / pois / da / LUZ / se / (SE) / gue a / NOI / te es/ CU / (ra)
Em/ tris / tes /SOM /bras/(MOR)/ re a /FOR / mo / SU / (ra)
O esquema rítmico, neste último caso, conservaria um acento secundário, menos forte, na 6. ª sílaba. Podemos dizer que nesses dois versos ocorre uma tensão métrica. O mesmo fato vai ocorrer no 1. º terceto, no verso 10. A tensão – que pode ocorrer no plano da métrica ou em outros planos – é um fenômeno que enriquece um poema, por ampliar seu campo de significação.
O texto trata da transitoriedade da vida, da efemeridade das coisas do mundo, tema bastante caro ao barroco. O poeta utiliza como exemplos da transitoriedade da vida o Sol que não dura mais que um dia, a noite que segue a luz, a beleza que acaba em tristes sombras e a alegria que se transforma em tristeza. É um poema predominantemente conceptista, argumentativo.
Logo na 1ª estrofe, o poeta trabalha com uma característica barroca: o pessimismo, isto é, uma visão negativa para as coisas do mundo e acentua os contrastes através de antíteses (Sol / noite; luz / sombra; alegria / tristeza). O poeta faz considerações sobre a condição humana, diante das instabilidades do mundo. O caráter aflitivo é representado pelos hipérbatos (inversões sintáticas que denotam a desordem do pensamento): ´´Depois da luz, se segue a noite escura``; ´´Em tristes sombras morre a formosura`` e ´´Em contínuas tristezas, a alegria`` (verso marcado pela elipse de um termo: morre, artifício muito comum durante a época barroca.).
Na 2ª estrofe, outra característica do estilo barroco é apresentada: a dúvida, a incerteza, marcadas pelo paralelismo construído através das interrogações – só contém perguntas sem respostas.
A consciência angustiante da fugacidade da vida, da brevidade das alegrias e da passagem do tempo que tudo destrói são expressas nas últimas estrofes por meio de paradoxos ( antítese levada ao extremo – ideias que se chocam, ideias aparentemente absurdas) , onde o poeta funde os opostos :´´E na alegria sinta-se tristeza `` (3ª estrofe) o que gera o verso-síntese: ´´A firmeza somente na inconstância``( 4ª estrofe).
Sendo assim, depois de demonstrar a efemeridade das coisas do mundo, o poeta afirma que a única coisa firme, constante, é o fato de nada ser constante.