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Barroco - A poesia lírica de Gregório de Matos

Posted by Profº Monteiro on outubro 11, 2016

autoria de Odete Antunes (Profª Odete)



1. Poesia lírica sacra - A culpa e o arrependimento

A poesia lírica de Gregório de Matos pode ser dividida em lírica sacra, lírica amorosa (espiritual e carnal), lírica encomiástica (poemas de circunstância, oemas laudatórios) e lírica filosófica. Analisemos, uma a uma, a poesia lírica desse autor barroco:


Expressa a cosmovisão barroca: a insignificância do homem perante Deus, a consciência nítida do pecado e a busca do perdão. Ao lado de momentos de verdadeiro arrependimento, muitas vezes o tema religioso é utilizado como simples pretexto para o exercício poético, desenvolvendo engenhosos jogos de imagens e conceitos.

As idéias de Deus e do pecado, ao mesmo tempo que se opõem, são complementares. Embora Deus detenha o poder da condenação da alma, está sempre disposto ao perdão, por sua misericórdia e bondade; daí deriva Sua maior glória.

A CRISTO N. S. CRUCIFICADO, estando o poeta na última hora de sua vida

1 Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
2 Em cuja lei protesto de viver,
3 Em cuja santa lei hei de morrer,
4 Animoso, constante, firme e inteiro:

5 Neste lance, por ser o derradeiro,
6 Pois vejo a minha vida anoitecer;
7 É, meu Jesus, a hora de se ver
8 A brandura de um Pai, manso Cordeiro.

9 Mui grande é o vosso amor e o meu delito;

10 Porém pode ter fim todo o pecar,
11 E não o vosso amor que é infinito.

12 Esta razão me obriga a confiar,
13 Que, por mais que pequei, neste conflito
14 Espero em vosso amor de me salvar.Nas duas primeiras estrofes, o poeta expressa a contrição religiosa e a crença no amor infinito de Cristo, para manifestar, no final, a certeza do perdão. O soneto encobre uma formulação silogística, que se pode expressar dessa maneira: o amor de Cristo é infinito (verso 11); o meu pecado, por maior que seja, é finito, e menor que o amor de Jesus (versos 9 e 10). Logo, por maior que seja o meu pecado, eu espero salvar-me (versos 13 e 14).

BUSCANDO A CRISTO

1 A vós correndo vou, braços sagrados,
2 Nessa cruz sacrossanta descobertos,
3 Que, para receber-me, estais abertos,
4 E, por não castigar-me, estais cravados.
5 A vós, divinos olhos, eclipsados
6 De tanto sangue e lágrimas abertos,
7 Pois, para perdoar-me, estais despertos,
8 E, por não condenar-me, estais fechados.

9 A vós, pregados pés, por não deixar-me,
10 A vós, sangue vertido, para ungir-me,
11 A vós, cabeça baixa p ‘ra chamar-me.

12 A vós, lado patente, quero unir-me,
13 A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
14 Para ficar unido, atado e firme.

O soneto é construído a partir de um sistema de metonímias que vão relacionando as partes de Cristo ("braços", "olhos", "pés", "sangue", "cabeça", "cravos"), substituindo todo o Cristo crucificado.

Os versos 5, 9, 10, 11, 12 e 13 constroem-se com a omissão do verbo, que aparecera no 1º verso - "correndo vou”. Em todos eles ocorre o procedimento estilístico denominado zeugma (= elipse de uma palavra ou expressão próxima no contexto). Assim, nos versos -mencionados, deve-se ler:

"A vós (correndo vou), divinos olhos (...)"

"A vós (correndo vou), pregados pés (... )" etc.

Outro recurso empregado são as anáforas (repetição de palavra(s) no início de dois ou mais versos). Observe a repetição de “a vós” (v. 5, 9, 10, 11, 12, 13), e de "e por não" (v. 4 e 8).

Enquanto no texto anterior o jogo de idéias é predominante (aspecto conceptista), neste, o mais evidente é o trabalho com as palavras, por meio das figuras de linguagem (aspecto cultista).

Observe que o mesmo poeta contrito dos textos sacros é autor de sátiras violentas ao clero:

A nossa Sé da Bahia,
com ser um mapa de festas,
é um presepe de bestas,
se não for estrebaria:
Várias bestas cada dia.

Ou:

E nos frades há manqueiras ?...Freiras.
Em que ocupam os serões?... Sermões.
Não se ocupam em disputas?... Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluís, na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões e putas.

2. Poesia lírica amorosa - O espírito e a carne

Apresenta-se sob o signo da dualidade barroca, oscilando entre a atitude contemplativa, o amor elevado, à maneira dos sonetos de Camões, e a obscenidade, o carnalismo. É curioso que a postura platônica é dominante, quando o poeta se refere a mulheres brancas, de condição social superior, e a libido agressiva, o erotismo e o desbocamento são as tônicas, quando o poeta se inspira nas mulheres de condição social inferior, especialmente as mulatas. Neste sentido, destaca-se já certa “tropicalidade”, a antecipação de certo “sentimento brasileiro”.

Minha rica mulatinha,
desvelo e cuidado meu,
eu já fora todo teu,
e tu foras toda minha;

Juro-te, minha vidinha,
se acaso minha qués ser,
que todo me hei de acender
em ser teu amante fino pois
por ti já perco o tino,
e ando para morrer.

Observe os versos curtos e a aproximação com uma linguagem mais espontânea e popular. A mulher é vista tanto de modo espiritualizado, quanto como objeto de desejo carnal. Ambas as visões podem aparecer no mesmo texto, estabelecendo um conflito, conforma ocorre no soneto transcrito a seguir, Anjo no nome, Angélica na cara, onde também encontra-se a atitude idealizante e a linguagem mais erudita:

A D. ÂNGELA

Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara?
Quem vira uma tal flor que a não cortara
De verde pé, da rama florescente;
E quem um Anjo vira tão luzente
Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu Custódio e a minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo que me tenta, e não me guarda.

O soneto marca-se pelo aspecto cultista, desenvolvendo-se por meio do jogo de palavras e imagens: “Ângela” = “Angélica” = “Anjo”, “flor” = “florente”.

O tema central é o caráter contraditório dos sentimentos do poeta pela mulher, que é simultaneamente flor (metáfora da beleza) e objeto do desejo, e anjo (metáfora da pureza) e símbolo da elevação espiritual.

A contradição entre o amar e o querer desemboca no paradoxo dos versos finais: “Sois Anjo que me tenta e não me guarda.”

O tema clássico do carpe diem (= aproveita o dia) é freqüente. A consciência da fugacidade do tempo e das incertezas da vida leva à necessidade de fruição imediata dos prazeres.

É o que se nota em:
Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca, o Sol e o dia:

Enquanto com gentil descortesia,
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança brilhadora,
Quando vem passear-te pela fria...

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda a ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.
Oh não aguardes que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Os textos que iremos transcrever demonstram cabalmente o conflito carne x espírito, mediante duas definições do amor.

O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.

Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas;
quem diz outra coisa, é besta.
Ardor em firme coração nascido;
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:

Tu, que em um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Quando cristal, em chamas derretido.

3. Poesia lírica encomiástica

Gregório de Matos escreveu também poemas laudatórios (de elogio), de circunstância (festas, homenagens, fatos corriqueiros). Um exemplo curioso é o poema cujo inicio transcrevemos, uma homenagem ao desembargador Belchior da Cunha Brochado:

O elemento lúdico (= de jogo) do Barroco é a marca predominante do texto. Cada par de versos tem em comum as terminações das palavras (ex.: 1ª palavra do 1º verso: douTO; 1ª palavra do 2ª verso: reTO), o que explica o estranho arranjo espacial do texto. A leitura deve ser feita como se se tratasse de versos comuns; assim sendo, os dois primeiros versos lêem-se:

Douto, prudente, nobre, humano, afável,

Reto, ciente, benigno e aprazível

retirado do site passeiweb

O Seiscentismo conhecido também por Barroco

Posted by Profº Monteiro on dezembro 19, 2013
Introdução
O Seiscentismo conhecido também por Barroco, na arte, marcou um momento de crise espiritual da sociedade européia. O homem do século XVII era um homem dividido entre duas mentalidades, duas formas diferentes de ver o mundo. Por isso, o estilo Barroco é um dos mais complexos que podem ser estudados na literatura Brasileira. A historiografia e a crítica têm oscilado entre posições que vão da seca de recusa do Barroco, por alegada pobreza temática e exagerada manipulação da palavra, à quente apologia que fazem à escola dos anatomistas ao estilo, maravilhados com a engenhosidade e agudeza das produções da época. A posição mais conservadora, mais tradicionalista, tende a ver no Barroco uma "pérola irregular", um classicismo imperfeito e obtuso. A posição mais recente, que se abre com os estudos de Heinrich Wölfflin, tende a ver no Barroco uma constante universal na arte, expressiva dos períodos marcados por graves conflitos espirituais, e cuja essência é a irregularidade, a exasperação, o retorcimento, o exagero, características opostas à sobriedade e à disciplina clássicas.

Convivendo com o sensualismo e os prazeres materiais trazidos pelo Renascimento, os valores espirituais - tão fortes na Idade Média e desprezados pelo Renascimento - voltaram a exercer forte influência sobre a mentalidade da época. Uma nova onda de religiosidade foi trazida pela Contra-Reforma e pela fundação da Companhia de Jesus. O que decorreu daí foram naturalmente sentimentos contraditórios, já que o homem estava dividido entre valores opostos. E a arte barroca, que exprime essa contradição, igualmente oscila entre o clássico (e pagão) e o medieval (cristão), apresentando-se como uma arte indisciplinada.

Comparado aos outros dois movimentos que integram a Era Clássica, o Classicismo e o Arcadismo, o Barroco representa um desvio da orientação clássica, já que procurava, ao mesmo tempo, fundir a experiência renascentista ao reavivamento da fé cristã medieval. Punha em risco, assim, certos princípios muito prezados pela tradição clássica, como o predomínio da razão e o equilíbrio.

Resumindo, o Barroco tenta conciliar duas concepções de mundo opostas: a medieval e a renascentista. Assim, valores como o humanismo, o gosto pelas coisas terrenas, as satisfações mundanas e carnais, trazidos pelo Renascimento, que era caracterizado pelo racionalismo, equilíbrio, clareza e linearidade dos contornos, fundem-se a valores espirituais trazidos pela Contra-Reforma, com idéias medievais, teocêntricas e subjetiva. Nasce então uma forma de viver conflituosa, expressa na arte barroca.

Contexto histórico
Num contexto de autoritarismo político (com o absolutismo, sistema político baseado na centralização absoluta do poder nas mãos do rei, que se considerava o Deus na terra), de expansão comercial (com a Revolução Comercial, cuja política econômica, o Mercantilismo, se baseava no metalismo, na balança comercial favorável e no acúmulo de capitais), de luta de classes (onde a burguesia, por deter forte poder econômico, pressionava politicamente a nobreza e o rei, a fim de participar das decisões políticas do Estado Absolutista. Isso era quase impossível na época, já que a sociedade estava organizada em três camadas sociais impermeáveis: o clero, a nobreza e o terceiro estado), e crises religiosas (reforma e contra-reforma) que nasceu a arte barroca.
Um dos traços mais importantes que caracterizam o Barroco é o gosto pela aproximação de realidades opostas, pelo conflito e pelas contradições violentas. Tal princípio pode ser relacionado com a realidade do homem barroco, contraditório e em transformação.

Politicamente, o homem da época sentia-se oprimido; economicamente, contudo, sentia-se livre para enriquecer. Apesar da possibilidade de ascensão econômica, a estrutura social do Antigo Regime não lhe permitia a ascensão social.

No plano espiritual, igualmente se verificaram contradições: ao lado das conquistas e dos valores do Renascimento e do mercantilismo - que possibilitou a aquisição de bens e prazeres materiais - a Contra-Reforma procurava restaurar a fé cristã medieval e estimular a vida e os valores espirituais.
Por esse conjunto de razões é que na linguagem barroca, tanto na forma quanto no conteúdo, se verifica uma rejeição constante da visão ordenada das coisas. Os temas são aqueles que refletem os estados de tensão da alma humana, tais como vida e morte, matéria e espírito, amor platônico e amor carnal, pecado e perdão. A construção da linguagem barroca acentua e amplia o sentido trágico desses temas, ao fazer o uso de uma linguagem de difícil acesso, rebuscada, cheia de inversões e de figuras de linguagem. Outros temas que são facilmente encontrados são o sobrenatural, castigos, misticismo e arrependimento.

A época da Contra-Reforma, e do Barroco é principalmente marcada por uma profunda dualidade. Por um lado, é o desdobramento do humanismo clássico e do Renascimento, com seus apelos ao racionalismo, ao prazer, ao "carpe diem" (em latim, "aproveite o dia"). Por outro lado, o homem é pressionado pela Igreja Católica e pelo protestantismo mais vigoroso a um regresso ao teocentrismo medieval, à postura estóica, à renúncia aos prazeres, à mortificação da carne e à observância plena do "amar a Deus sobre todas as coisas", princípio capitular do teocentrismo medieval. Em síntese, o homem do século XVII foi compelido a conciliar o TEOCENTRISMO MEDIEVAL e o ANTROPOCENTRISMO CLÁSSICO e valores opostos como fé x razão, alma x corpo, Deus x homem, céu x terra, virtude x prazer. Valemo-nos da apreciação do Prof. Afrânio Coutinho: "O homem do Barroco é um saudoso da religiosidade medieval e, ao mesmo tempo, um seduzido pelas solicitações terrenas e valores mundanos, amor, dinheiro, luxo, posição, que a Renascença e o Humanismo puseram em relevo. Desse dualismo nasceu a arte barroca". (Aspectos da literatura Barroca, RJ, 1950 - pág. 54)

Vê-se, pois, que a época barroca, o século XVII, foi das mais conturbadas que o homem ocidental viveu. E mais! Como já foi dito, a escola literária Barroco coincide com o apogeu do Absolutismo Monárquico, Mercantilismo, Metalismo, do Capitalismo e sua extensão a áreas coloniais, da Burguesia e da Revolução Comercial. É notório que, se a Literatura é a expressão do homem e de seu tempo, o estilo barroco haveria de refletir as angústias, as incertezas e o desespero do homem que viveu essa época difícil.

Fruto da síntese entre duas mentalidades, a medieval e a renascentista, o homem do século XVII era um ser contraditório, tal qual a arte pela qual se expressou.

Limites cronológicos:

Fica difícil estabelecer limites para uma escola literária, já que as idéias vão mudando com o tempo e as gerações, gradual e lentamente. Mas, didaticamente, considera-se que o Barroco surgiu no Brasil com a obra Prosopopéia de 1601, poema épico de autoria do portugues, radicado no Brasil, Bento Teixeira Pinto. É a primeira obra, dita literária, escrita entre nós. O limite - digamos - final para essa escola foi o ano de 1768, com a publicação de Obras Poéticas, de Cláudio Manoel da Costa - árcade. No entanto, como o Barroco no Brasil só foi mesmo reconhecido e praticado em seu final (entre 1720 e 1750), quando foram fundadas várias academias literárias, desenvolveu-se uma espécie de Barroco tardio nas artes plásticas, o que resultou na construção de igrejas de estilo barroco durante todo o século XVIII. (As obras de Aleijadinho são o grande exemplo).
Características da linguagem barroca

Algumas características da linguagem barroca merecem especial atenção pela sua peculiaridade e pelo uso que foi sendo feito de algumas delas em escolas posteriores.
Requinte formal:O nível lingüístico dos textos barrocos é sofisticado. Os textos podem apresentar construções sintáticas elaboradas, vocabulários de nível elevado. O Barroco Literário foi uma arte da aristocracia e esse refinamento era desejado por seu público consumidor, porque lhe conferia status.
Conflito espiritual:

O homem barroco sente-se dilacerado e angustiado diante da alteração dos valores, dividindo-se entre o mundo espiritual e o mundo material. As figuras que melhor expressam esse estado de alma são a antítese (emprego de palavras que se opõem quanto ao sentido: bem x mal; branco x preto; claro x escuro) e o paradoxo (a antítese levada ao extremo, onde as idéias se opoem em termos de sentido: 'sol que se trajava em criatura"; "anjo que em mulher se mentia"; "rio de neve em fogo convertido").

"Nasce o sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria."
"Alegre do dia entristecido,
O silêncio da noite perturbado,
O resplendor do sol todo eclipsado,
E o luzente da lua desmentido,
O espírito Barroco é cabalmente expresso no célebre dilema do 3° ato de Hamlet, de Shakespeare: "To be or not to be, that is the question". ("Ser ou não ser, eis a questão...")
Temas contraditórios:

Há o gosto pela confrontação violenta de temas opostos, como amor / dor, vida / morte, juventude / velhice, pecado / perdão, dentre outros.
Efemeridade do tempo e carpe diem:

O homem barroco tem consciência de que a vida terrena é efêmera, passageira, e por isso, é preciso pensar na salvação espiritual. Mas, já que a vida é passageira, sente, ao mesmo tempo, desejo de gozá-la antes que acabe, o que resulta num sentimento contraditório, já que gozar a vida implica pecar, e se há pecado, não há salvação.
"...Gozai, gozai da flor da formosura,
Antes que o frio da madura idade
Tronco deixe despido, o que é verdura..."
"Lembra-te Deus, que és pós para humilhar-te,
E como o teu baixel sempre fraqueja,
Nos mares da vaidade, onde peleja,
Te põe a vista a terra, onde salvar-te..."
Entendendo que a mocidade é o estágio mais elevado da vida, a idade madura vem a significar decadência. Para comunicar isso, os textos se servem de imagens plásticas, que são as que envolvem sensorialidade:

"...goza, goza da flor da mocidade
que o tempo trata a toda a ligeireza,
e imprime em toda flor sua pisada.
Ó não aguardes, que a madura idade,
te converta essa flor, essa beleza,
em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada. "
Mocidade - Maturidade – Morte
Flor - terra - cinza - pó - sombra - nada.

Desta forma, o tempo atua sobre o ser humano conduzindo-o à decadência. E o poeta refere esse trágico fato também, de forma plástica, isto é, utilizando-se de uma enumeração gradativa decrescente. A enumeração gradativa é o uso de uma seqüência de palavras cujo significado induz o leitor a imaginar um ser cada vez mais limitado, mais pobre, mais insignificante:
Flor, terra, cinza, pó, sombra, nada...
Essa imagem que vai de flor a nada põe ante os olhos do leitor, e sua imaginação, os conceitos:
Mocidade - Maturidade - Morte. Isto é, decadência e transitoriedade.

Paganismo:Buscando um traço do Classicismo e da Cultura Greco-Romana, alguns textos barrocos os deuses da mitologia pagã aparecem para representar um sentimento ou um tema abstrato qualquer.

"Enquanto com gentil descortesia,
o ar, que fresco Adônis te namora,
te espalha a rica trança brilhadora,
quando vem passear-te pela fria:"
Gregório de Mattos
Adonis (ou Adonai) é um ente mitológico
que representa a grande beleza e a vaidade.

Cultismo ou Gongorismo - O jogo de palavras:

Cultismos ou Gongorismo são as denominações que recebeu, na Península Ibérica, e em colônias ultramarinas, no aspecto do Barroco voltado para o rebuscamento da forma, para a ornamentação exagerada do estilo, por meio do vocabulário precioso, erudito, eivado de latinismos, para a inversão da ordem direta da frase, imitando a sintaxe do latim clássico. O termo Cultismo deriva da obsessão barroca pela linguagem culta, erudita, e o Gongorismo alude ao autor espanhol Luís de Gongora, expoente maior desse procedimento literário, criador de uma verdadeira escola que tem como seguidores, entre nós, Manuel Botelho de Oliveira e, em alguns momentos, Gregório de Mattos Guerra.

O aspecto exterior imediatamente visível no Cultismo ou Gongorismo é o abuso no emprego de figuras de linguagem, especialmente as semânticas (Metáforas, Antíteses, Hipérboles), as sintáticas (de inversão oracional, de repetição ou supressão de termos, como Hipérbatos, Anáforas, Anadiploses, Quiasmos e sonoras, Paronomásias, etc.).

Percepção sensorial da realidade: O cultismo explora, também através do jogo de palavras, efeitos sensoriais, tais como cor, forma, volume, sonoridade, imagens violentas e fantasiosas - enfim, recursos que sugerem a superação dos limites da realidade.
A uns mártires pendoravam pelos cabelos, ou por um pé, ou por ambos, ou pelos dedos, polegares, e assim, no ar, despidos, batiam e martelavam com tal força e continuação, os cruéis e robustos algozes (carrascos), que ao princípio açoitavam os corpos, depois desfiavam as mesmas chagas (feridas), ou uma chaga até que não tinha já que açoitar nem ferir. A outros estirados e desconjuntados no ecúleo (instrumento de tortura), ou estendidos na catasta, (cadafasto, em forma de leito, feito em grades, em que se troturavam os mártires) aravam os membros com pentes e garfos de ferro, a que propriamente chamavam escorpiões, ou metidos debaixo de grandes petras de moinho, lhes espremiam como em cardar (pentear) o sangue, e lhe moíam e imprensavam os ossos, até ficarem com uma pasta confusa, sem figura, nem semelhança do que dantes eram. A outros cobriam todos de pez (breu, piche), resina e enxofre, e ateando0lhes o fogo, os faziam arder em pé como tochas ou luminárias, nas festas dos ídolos, esforçando-os para este suplício como lhes dar a beber chumbo derretido.

Neste fragmento, podemos perceber claramente a tentativa de Padre Vieira de fazer o leitor sentir o que ele descreve, como uma forma de persuadir seus ouvintes a não se envolverem com idéias de reforma religiosa (o Protestantismo). Para isso, toma como exemplo a persistência religiosa dos mártires da Igreja Católica e descreve com extrema figuração e utilização de símbolos fortes como eram torturados esses mártires.
Metáfora: (Do grego meta: 'mudança', 'alteração' + phora 'transporte'). É a figura de palavra em que se emprega um termo por outro, mantendo-se entre eles uma relação de semelhança; é uma espécie de "comparação abreviada", como em "Seus olhos são esmeraldas", isto é, "seus olhos são verdes".
É a vaidade, Fábio, nesta vida
Rosa, que de manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.
É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.
É nau enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza:
Mas ser planta, ser rosa, ser nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?
Gregório de Matos Guerra

O próprio título do soneto, Dos Desenganos da Vida Humana, Metaforicamente, alude ao emprego intensivo da metáfora. O poema se entretece a partir de três metáforas da vaidade: rosa, planta, nau (navio), que têm duração efêmera, ainda que se suponham eternas.Primeiramente são mostradas as qualidades de cada um desses elementos metafóricos. Como a rosa, a vaidade "rompe airosa" (elegante); como a planta favorecida pelo mês de abril (quando é primavera na Europa), ela segue rapidamente, feito uma "galeota empavesada" (embarcação enfeitada); como uma nau ligeira, preza alentos e galhardias (elogios e elegâncias). Observe que as metáforas são colocadas nos versos 2, 5 e 9 e, após retomadas nos versos 12 a 14, quando, no último terceto, o poeta as dispõe em ordem decrescente, inversa: a penha (pedra) destrói a nau, assim como o ferro (instrumento de corte qualquer) destrói a planta e a tarde (o tempo que passa) destrói a rosa. A conclusão a que se chega, portanto, é que a vaidade é frágil e efêmera.

A metaforização intensiva do texto Barroco estabelece, quase sempre, uma identificação sensorial resultando no aspecto cromático e criando associações surpreendentes. Assim, o poeta barroco diz: "os marfins da boca" - ao invés de "dentes", "o zéfiro manual" (eu também não sabia o que era isso.. - vento suave:)) - ao invés de "leque", "a língua dos olhos" - ao invés de "lágrima", "rubi" - ao invés de sangue.

Antítese (do grego anti, 'contra' + thesis, 'afirmação'): Figura de pensamento que consiste no emprego de palavras numa oração ou período que se opõem quanto ao sentido. Exemplificando...
"Infalível será em ser homicida
O bem, que sem ser mal motiva o dano
O mal, que sem ser bem apressa a morte."

Hipérbato (do grego hipérbaton, 'inversão, 'transposição'): É a figura sintática / de construção que consiste numa inversão violenta da ordem direta da frase. Citam-se, como exemplo notório, os versos iniciais do Hino Nacional:

"Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heróico o brado retumbante"
("As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico").
O hipérbato resulta em certa dificuldade de leitura, como se verifica nos 4 primeiros versos do poema de Gregório de Matos, acima. Reescrevendo-os, em ordem direta, teríamos:
"Fábio, a vaidade nesta vida é rosa que, lisonjeada de manhã, arrasta presumida mil púrpuras e rompe airosa com ambição doirada".
Hipérbole (do grego hyperbolè, 'lançar sobre'): Também conhecida como intensificação, é a figura de pensamento que consiste na ênfase resultante do exagero deliberado, quer no sentido negativo, quer no positivo. É uma forma de exagerar a verdade, mas com respeito à beleza, seja por amplificação, seja por atenuação. É o que ocorre em expressões cotidianas como "morreu de rir", "morto de fome", "já te disse quatrocentas bilhões de vezes....", ou em construções literárias como:
"Rios te correrão dos olhos se chorares.."
Perífrase: Também denominada circunlóquio, é a figura de pensamento que consiste na substituição de uma palavra por uma série de outras, de modo que estas se refiram àquela, indiretamente. Utilizada, em geral, para evitar a monotonia das expressões gastas ou para criar novas relações metafóricas. É o que ocorre em: "Graças à onipotência de quem devemos a criação do Universo", que significaria simplesmente "Graças a Deus".

Anáfora (do grego ana, 'repetição' + phorá, 'que conduz', 'que leva'): Figura de construção que consiste na repetição intensional de uma ou mais palavras no início de vários versos.
"A vós, pregados pés, por nõa deixar-me.
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me."
Gregório de Matos Guerra

A anáfora também pode ocorrer na prosa, quando iniciamos as orações ou peródoso por uma mesma palavra ou locução. Observando...
"Quando fazem os ministros, o que fazem? Quando respondem? Quando deferem? Quando despacham?
Quando ouvem?"
Padre Antônio Vieira

Anadiplose: Figura de construção que consiste na reiteração do(s) termo(s) final(ais) de um verso ou oração, no início do verso subsequente:
"Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,
É verdade, senhor, que te hei delinquido,
Delinquido vos tenho, e ofendido
Ofendido vos tem minha maldade".
Gregório de Matos Guerra
Paronomásia: Figura de construção que consiste no emprego de vocábulos semelhantes na grafia ou na pronúncia, mas opostos ou aparentados nos sentidos. Exemplificando...
"Ah, pregadores! Os de cá achar-vos-eis com
mais paço; os de lá com mais passos."
Sermão da Sexagésima - Pe. Antônio Vieira

Prosopopéia: Figura de pensamento que consiste em atribuir atitudes animadas ou humanas a seres inanimados ou irracionais. Exemplificando...
"Agora que se cala o surdo vento
E o rio enternecido com meu pranto
Detém seu vagaroso movimento"
Gregório de Matos Guerra
Elipse (do grego élleipsis, 'omissão'): Figura de construção que consiste na omissão de um termo da oração facilmente identificável, quer por elementos da própria oração, quer pelo contexto. É muito usual em diálogos da vida cotidiana. Por exemplo, na bilheteria de um teatro, apenas perguntamos " - Quanto custa?". O contexto, a situação em que foi feita a pergunta leva-nos ao termo omitido - "a entrada".

Zeugma (do grego zeûgma, 'junção'): É um caso específico de elipse. Trata-se da omissão de um termo já mencionado anteriormente.
A vós, correndo vou, braços abertos
(...)
A vós, pregados pés, por nõa deixar-me.
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me."
A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

Gregório de Mattos Guerra

Os versos 5, 9, 10, 11, 12, 13 constroem-se com a omissão do verbo, já referido no 1° verso - "correndo vou".
Em todos eles aparece zeugma. Assim, nos versos mencionados, devemos ler:
"A vós, (correndo vou), pregados pés (...)" / "A vós, (correndo vou) sangue vertido (...)"

Gradação: Figura de pensamento que consiste em dispor as idéias em ordem crescente ou decrescente. Quando o encadeamento se faz em ordem crescente, temos o clímax; quando em ordem decrescente, o anticlímax.
"Oh, não aguardes, que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada."
Gregório de Mattos Guerra

As figuras apresentadas são apenas algumas das que os autores cultistas empregaram. Caberia ressaltar, ainda, a preocupação com a originalidade e a renovação da Língua, pela incorporação de neologismos; e mais, a recorrência a citações eruditas, ao emprego de latinismos e à persistência de alegorias fundadas na mitologia clássica.
Conceptismo - A dialética barroca:

Define-se o Conceptismo do Barroco voltado para o jogo das idéias, para a argumentação sutil (sutileza explicada pela necessidade de camuflar as ainda críticas contra a Igreja, já que a Santa Inquisição estava no seu auge, investigando, levando a julgamento e condenando aqueles que não contribuíam para a preservação, defesa e propagação da Contra-Reforma e conseqüentemente das doutrinas católicas), para a dialética cerrada, que opera por meio de associações inesperadas, ainda fundadas na metáfora e, especialmente nos procedimentos da lógica formal, como o silogismo, o sofisma e o paradoxo.

Enquanto os Cultistas ou Gongóricos consideravam que a percepção cognoscitiva (= que se pode conhecer) das coisas deveria processar-se pela captação de seus aspectos sensoriais e plásticos (contorno, forma, cor, volume), produzindo como resultado um verdadeiro frenesi cromático, visando aprender o como, os Conceptistas pesquisavam a essência íntima dos objetos, buscando saber o que são, visando à apreensão da face oculta, apenas acessível ao pensamento, ou seja, aos conceitos; assim, a inteligência, a lógica e o raciocínio ocupam o lugar dos sentidos, impondo a concisão e a ordem, onde reinavam a exuberância e o exagero.

Assim, é usual a presença de elementos da lógica formal, dentre outras figuras como:
Silogismo: Dedução formal que, postas duas proposições, uma, verdade universal, outra, particularização dessa verdade, chamadas premissas, delas se tira uma terceira, logicamente implicada, chamada conclusão. Assim, temos como exemplo:
Premissa maior (verdade universal): Todo homem é mortal.
Premissa menor (particularizando...): Eu sou homem.
Conclusão lógica: (Logo,) Eu sou mortal.
Observemos a construção do terceto final de um soneto sacro de Gregório de Matos que, referindo-se ao amor de Cristo, diz:
"Mui grande é o vosso amor e o meu delito;
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.
Essa razão me obriga a confiar
Que, por mais que pequei, nesse conflito,
Espero em vosso amor de me salvar."
Gregório de Matos Guerra

Esses versos encobrem a formulação silogística, como segue:
Premissa maior (verdade universal): O amor de Cristo é infinito. (verso 11).
Premissa menor (particularizando...): Meu pecado é finito, apesar de grande (9 e 10).
Conclusão lógica: (Logo,) Por maior que seja o meu pecado, eu espero salvar-me (13 e 14).

Observemos ainda o silogismo que é feito no texto abaixo. O primeiro quarteto aparece como uma verdade universal - premissa maior - , o segundo como a particularização dessa verdade - premissa menor. Finalizando, vêm os dois tercetos concluindo o pensamento:
O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte, Premissa maior
Mas se a parte faz o todo, sendo parte, - Verdade universal
Não se diga, que é parte, sendo todo.
Em todo Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte, Premissa menor
E feito em partes todos em toda parte, - Particularização
Em qualquer parte sempre fica o todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo, Argumentação
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte desse todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte, Conclusão
Nos disse as partes toda deste todo.
Gregório de Matos Guerra

Sofisma: É o argumento que parte de premissas verdadeiras e que chega a uma conclusão inadmissível, que não pode enganar ninguém, mas que se apresenta como resultante de regras formais do raciocínio, não podendo ser refutado. É um raciocínio falso, elaborado com a função de enganar. Vejamos um sofisma bem simples e claro:
Premissa maior (verdade universal): Filho de peixe peixinho é. Deus é imortal
Premissa menor (particularizando...): Eu sou filho de Deus.
Conclusão ilógica: Logo, eu sou imortal.

Evidentemente que esse raciocínio não pode ser encarado dessa forma. No entanto, não existem argumentos contra ele...
Gregório de Matos é um mestre também no Sofisma, montando argumentos que são lógicos à primeira vista, com o objetivo citado: enganar. E na maioria das vezes, ele tenta enganar a Deus, por ser um pecador, não poder deixar de pecar e mesmo assism almejar a salvação. (Base de todos os conflitos barrocos!). Assim, analisando o poema anterior, percebemos um sofisma nesse sentido...
Premissa maior (verdade universal): O amor de Cristo é infinito
Premissa menor (particularizando...): O meu pecar é finito
Conclusão ilógica: Logo, o amor de Cristo é maior que o meu delito (e eu seirei salvo).
Ora, simplesmente o fato do amor de Cristo ser maior que delito não redime o pecador de seus atos. Portanto, a conclusão a que chegamos no poema é falsa.
Metonímia: Figura que, assim como a metáfora, consiste no uso de uma palavra por outra, em virtude de certa familiaridade que elas têm entre si. Essa familiaridade pode ocorrer empregando-se o concreto pelo abstrato ("papo-cabeça" - "intelectual"), a causa pela consequência (acabarão com o "verde" do pais? - "as matas"), divindade pela sua 'função' ("Cupido" ataca novamente - "o amor").

O soneto abaixo é construido a partir de um sistema de metonímias que vão relacionando as partes de Cristo ("braços", "olhos", "sangue", "lágrimas","cabeça", "cravos"...), substituindo todo o Cristo crucificado:
A vós, correndo vou, braços abertos
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me estais abertos,
E, por não castigar-me estais cravados.
A vós, divinos olhos, eclipsados,
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me estais fechados.
"A vós, pregados pés, por não deixar-me.
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me."
A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.
Gregório de Mattos Guerra

Alguns autores entendem que, quando a relação entre os elementos é qualitativa, temos outro tipo de figura, chamada sinédoque. Essa relação geralmente se dá no Barroco, o todo pela parte:
O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte faz o todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.

Paradoxo: Figura de linguagem, é uma espécie de antítese, porém bem mais radical. Enquanto a antítese é uma mera aproximação de elementos opostos, o paradoxo funde-os, quebrando a lógica. Enquanto a antítese é caracterizada por mostrar palavras de sentidos opostos, o paradoxo poderia ser definido como o emprego de idéias numa oração ou período que se opõem pelo sentido. Exemplo...
"Começa o mundo enfim pela ignorância
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância."
"Nos palácios reais se encurtam anos
Porém tu sincopando os aposentos
Mais te deleitas, quando mais te estreitas."
Gregório de Matos Guerra

Ironia: Ocorre-se quando se diz alguma coisa, querendo-se dizer exatamente o contrário. Por exemplo, o namorado se atrasa para o encontro e sua respectiva o diz: "Já chegou?! Tão cedo..."
Gregório de Matos utiliza MUITO a ironia, principalmente na sua poesia satírica, que não é incluída no estilo Barroco, por fugir em muito do tema-base da escola, o conflito espiritual, a contradição, a dualidade.
Observação importante:

Cultismo e Conceptismo são dois aspectos do Barroco que não se separam; antes, superpõem-se como as duas faces de uma mesma moeda. Às vezes, o autor trabalha mais ao nível da palavra, da imagem; busca mais o argumento, o conceito. Nada impede que o mesmo texto tenha, simultaneamente, aspectos Cultistas e Conceptistas. Com os riscos inerentes às generalizações abusivas, diz-se, didaticamente, que o Cultismo é predominante na poesia e o Conceptismo, predominante na prosa. Mas como foi visto, muitos poemas de Gregório de Matos possuem o conceptismo muito marcante e até mesmo como aspecto principal.
Herança Barroca
Na Literatura pouco é efetivamente criado, cada estilo segue um padrão que já foi seguido repetidas vezes. Isso poderia ser exemplificado da seguinte forma: o Trovadorismo é o estilo medieval, cultivando valores teocêntricos, o Humanismo é a fase de transição e o Classicismo representa a quebra total com os valores medievais (Renascimento e Reforma). O Barroco surge num contexto de retomada dos valores medievais (Contra-Reforma), o Arcadismo faz a retomada dos valores Clássico-Renascentistas (Iluminismo) e assim por diante.

Notamos que os estilos vão se alternando entre racionalismo e irracionalismo, entre fé e materialismo, entre subjetividade e objetivismo, etc. O Barroco vem justamente para tentar uma fusão de todos esses valores, e por isso é um dos mais complexos estilos que podem ser estudados na Literatura Brasileira, já que leva à representação de um homem cheio de conflitos e instabilidades.
Na proporção de sua complexidade, está a sua importância. O estilo influenciou e vem influenciando autores de quase todas as épocas literárias que o sucederam, principalmente os autores do pós-movimento modernista. Vejamos alguns exemplos de textos que carregam a herança barroca:
Sentimento de que o mundo é instável e inseguro:O tempo é visto como destruidor, arrasador. A passagem do tempo traz a velhice e a morte. O homem, que nada pode fazer contra o tempo, se entrega à angústia, à dor. A vida passa depressa como um dia:
Dia,espelho de projeto não vivido e contudo viver era tão flamas na promessa dos deuses; e é tão ríspido em meio aos oratórios já vazios em que a alma barroca tenta confrontar-se Mas só vislumbra o frio noutro frio.Carlos Drummond de Andrade
O sentimento de que a realidade humana é absurda, sem solução, repleta de contrastes:
O amor não nos explica. E nada basta,nada é de natureza assim tão casta. que não macule ou perca a sua essência ao contato furioso da existência.
Nem existir é mais que um exercício de pesquisar da vida um vago indício a provar a nós mesmos que, vivendo,estamos para doer, estamos doendo.
Carlos Drummond de Andrade
A expressão do grotesco, do chocante, do monstruoso: É o "feísmo", ou o "belo horrível" barroco.
O monumento não tem porta a entrada é uma rua antiga estreita e torta e no joelho uma criança sorridente feia e morta estende a mão
Caetano Veloso - Tropicália Não é mágoa descrente de outras luzes tampouco a destra férrea do cansaço. Apenas não te enlevas, não te iludes
És o rio de súbito estagnado Deformas-te. Descerra o cílio cardo sobre o teu sono o pânico em que ruges. Olho tens, não farol, pois cego e falho nem roteiro qualquer já repercutes. Do Letes aprofundas-te no amnésico, em vão desfolhas teu colar feérico de esquivas contas, ninfas de outro fastoContra o mural verticaliza o corvo o prenúncio do limbo onde estás morto sob os grilhões de um deus forjado em asco. Affonso Ávila
A angústia religiosa, ligada à mistura entre o sagrado e o profano:
Meu Deus, meus Deus,
por que me abandonaste?
se sabias que eu era fraco
se sabias que eu não era Deus?
Carlos Drummond de Andrade
A expressão do conflito, manifestado através da anteposição de imagens e sentimentos antagônicos:

Anjo de duas faces
Anjo de duas faces,
o sol e as trevas, eis.
E vós, Indecisão,
serpente me venceis Bigênito demônio
solevando punhal,
deuses escarnecendo,
sois o Bem, sois o Mal?
Sorriso de mulher
em pose de ivectiva,
o choro da criança
Não morta, semiviva Anjo de duas faces,
duplo lago reflete
o olhar de uma condena,
o olhar de outra promete.
Affonso Ávila
O rebuscamento, sutileza e complexidade das idéias:
os remédios do amor e o amor sem remédio são as quatro coisas e uma só o primeiro remédio é o tempo tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta,tudo digere, tudo acaba atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera? são as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito.
Affonso Ávila
É fácil notar que muitos dos exemplos da herança foram versos de C.D. de Andrade. De fato, este grande poeta contemporâneo tem a "alma barroca", isto é, sua sensibilidade combina com a do estilo barroco, e isso se manifesta em inúmeros poemas seus.

A poesia de Affonso Ávila, embora esteja ligada a tendências predominantemente concretistas (seus poemas buscam, em geral, uma interligação entre os aspectos temático, rítmico e visual), também carrega essa herança barroca. Tal herança parece ser incorporada e trabalhada de forma consciente pelo poeta, que denominou um de seus livros de Barrocolagens. Nesta obra, o autor realiza, de fato, colagens de textos de Vieira, Gregório de Matos e Gôngora, entre outros, misturados a versos de sua autoria, nos quais reproduz o estilo discursivo e a temática barroca.
Apesar de possuírem características barrocas, não se pode dizer que os textos de Drummond e Ávila são barrocos, pois eles se compõem, em sua predominância, de traços que caracterizam a literatura do nosso tempo. A técnica da colagem de Affonso Ávila, por exemplo, é tendência da arte moderna. Os poemas de Drummond, por sua vez, apresentam uma visão moderna do universo, ainda que os sentimentos do poeta se manifestem, muitas vezes, através de formas barrocas de expressão.

O que ocorre é que temas como o conflito, a morte, o grotesco, o absurdo da vida são eternos, sempre preocuparam e sempre preocuparão o ser humano. Por razões histórico-sociais, esses temas preocuparam especialmente o homem barroco. Pode ser que uma situação histórica semelhante volte a ocorrer em nosso século e, assim, um novo barroco literário torne a se manifestar.
Referencias Bibliográficas:
1. Retirado e/ou adaptado de Prof. Fernando Teixeira de Andrade, Literatura I - Curso Objetivo. Páginas 1 a 4. Ed. Cered, São Paulo.
2. Retirado e/ou adaptado de William Roberto Cereja e Thereza Analia Cochar Magalhães, Literatura Brasileira. Páginas 34 a 37. Ed. Atual, São Paulo, 1995
3.Retirado e/ou adaptado de Prof. Ádino José Cardoso, Apostilas e Materiais de Aula. Colégio WR, 1996 a 1999.
4.Retirado e/ou adaptado de José de Nicola e Ulysses Infante, Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa. Páginas 431 a 447. Ed. Scipione, São Paulo, 1995.

O SERMÃO DA SEXAGÉSIMA ( Pdr ANTONIO VIEIRA )

Posted by Profº Monteiro on dezembro 19, 2013
RETIRADO DE :http://lerliteratura.blogspot.com/

Padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa no ano de 1608 e veio com a sua família para o Brasil, mais precisamente para a Bahia, em 1614, quando tinha apenas seis anos de idade. Pouco tempo depois, ingressou no Colégio dos Jesuítas, do qual não mais se afastou. Seu primeiro sermão foi o Sermão XIV da série Maria, Rosa Mística, pregado em 1633, e dois anos após, foi ordenado sacerdote.
Na resistência moral à invasão holandesa na Bahia, o Padre Vieira teve papel importante, que pode ser constatado através dos seguintes sermões com os respectivos anos em que foram proferidos: Sermão de Santo Antônio, 1638; Sermão da Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel, 1638 e o Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda, 1640.
Em 1641, logo que soube que o país onde nascera havia libertado-se do domínio espanhol, viajou para Portugal, na denominada "embaixada de fidelidade" ao novo rei. No Reino, participou ativamente da vida política da época, colocando-se em defesa dos cristãos-novos e suscitando o ódio da Inquisição, tendo problemas com esse segmento da Igreja Católica. Sua defesa aos cristãos-novos fica explicita na "Proposta a El-Rei D. João IV", que também continha um plano de recuperação econômica para o Portugal. No ano seguinte, foi nomeado pregador régio.
Em 1649, sofreu a ameaça de ser expulso da Ordem dos Jesuítas, no entanto, D. João IV fez oposição àquela sanção. Anos depois, regressou ao Brasil, estabelecendo-se no Maranhão onde passou a dedicar-se à evangelização dos índios e à defesa destes contra os colonos. Tal conflito culminou com sua expulsão e de toda a Companhia no ano de 1661, quase dez anos depois do seu regresso ao Brasil. Retornando a Portugal, foi perseguido e processado pela Inquisição. Conseguiu livrar-se dos seus problemas com a Inquisição, que segundo Amora (2000) foi "conseguida por meios políticos" e assim "partiu para Roma, onde obteve a revisão de seu processo e voltou a conquistar ( no Vaticano e nas reuniões literárias da rainha Cristina da Suécia ), os antigos triunfos de excepcional pregador".
Vieira voltou a Portugal em 1678, e no ano seguinte dá início a publicação de seus Sermões Completos. Ao retornar definitivamente à Bahia em 1681, reviu e organizou seus sermões para publicação. Padre Antônio Vieira morreu no dia 18 de Julho de 1697, no Colégio da Bahia, com 89 anos de idade.¹
Sobre a sua literatura, pode-se classifica-la como pertencente ao período barroco. Sua obra constitui-se de cerca de 200 sermões ² , 500 cartas - importantes documentos históricos que abordam a situação da Colônia, a Inquisição, os cristão-novos, a relação entre Portugal e Holanda, entre outros fatos - e, ainda, profecias. Considera-se que o melhor de sua obra encontra-se nos sermões que, em linguagem simples e sem torneios de estilo, revelam extraordinário domínio da língua, imaginação, sensibilidade, humanidade e convicções.
Utilizando-se da retórica jesuítica no trabalho das idéias e conceitos, Vieira mostrou-se um barroco conceitista, no desenvolvimento de idéias lógicas, destinadas a persuadir o público, e clássico na clareza e simplicidade de expressão. Seus temas preferidos foram: a valorização da vida humana, para reaproximá-la de Deus, e a exaltação do sofrimento, porque nele está o caminho da salvação.
Das obras do Padre Antônio Vieira, vamos destacar o Sermão da Sexagésima, pregado em 1655 ³ na Capela Real, que versa sobre a arte de pregar em suas dez partes. Neste sermão, o Padre Vieira usa de uma metáfora: pregar é como semear. Ao traçar paralelos entre a parábola bíblica sobre o semeador que semeou nas pedras, nos espinhos (onde o trigo frutificou e morreu), na estrada (onde não frutificou) e na terra (que deu frutos), Vieira critica o estilo de outros pregadores contemporâneos seus, considerando que pregavam mal, pois pregavam sobre vários assuntos ao mesmo tempo, logo o resultado era a pregação de nenhum assunto, em decorrência disso, para Vieira, a pregação tornava-se ineficaz, a agradar aos homens ao invés de agradar a Deus.
Possivelmente, tal visão decorre de que é mais fácil pregar para agradar aos homens do que a Deus, pois quem está a ouvir, a seguir a religião, e a construir novos templos, são os homens e não Deus. Quem tem o poder para seduzir com bens materiais aqueles que pregam em nome de Deus - sejam esses pregadores Padres, Freis, Abades... - , é o homem, e não o próprio Deus. Então, é mais fácil pregar para os homens do que para Deus, talvez sendo daí o interesse demasiado em pregar para agradar aos homens. Também são os homens insatisfeitos que podem adotar outra religião - como ocorreu com aqueles que aderiram ao calvinismo, ao anglicanismo ou optaram por seguir o "luteranismo" - ou ainda são os homens que podem decidir por seguir a ala do próprio catolicismo que esteja a pregar da forma que mais convém ao ouvinte.
O assunto básico do sermão, à primeira vista, é a discussão de como é utilizada a palavra de Cristo pelos pregadores. Um olhar mais profundo mostra que o autor vai além do objetivo da catequese, adotando atitude crítica da codificação da palavra. Percebe-se, também, que o Sermão é usado como instrumento de ataque contra a outra facção do Barroco, representada pelos chamados cultistas ou gongóricos.
No Sermão da Sexagésima, Vieira expôs o método4 que adotava nos seus sermões:
1. Definir a matéria.
2. Reparti-la.
3. Confirmá-la com a Escritura.
4. Confirmá-la com a razão.
5. Amplificá-la, dando exemplos e respondendo às objeções, aos "argumentos contrários".
6. Tirar uma conclusão e persuadir, exortar.
Vale ressaltar o contexto histórico da época do Padre, uma época onde varias atitudes tomadas pelo catolicismo eram apoiadas inclusive pelo próprio poder temporal - já que não é simples separar a Igreja e o Estado português neste momento da história -, como converter almas ao cristianismo.
Nessa época, o mundo assistia: a Santa Inquisição a atuar em pleno vapor, que inclusive fez visitações ao Brasil colonial nas regiões Nordeste e Norte, além de em outras terras pertencentes ao Império Colonial Português como Angola, Madeira e Açores, e vale ainda citar que Goa possuía o seu próprio tribunal do Santo Ofício; também assistia-se a imposição do cristianismo para muitos índios no Brasil; além dos negros africanos que para cá foram trazidos e também foram-lhes imposto o catolicismo.
Considerando o contexto de conversões forçadas da época do Padre Vieira e analisando apenas o sermão que fora pregado em 1655, o padre aparenta ser contra a conversão forçada que imperava no período. No entanto, em alguns sermões ele justifica a escravidão, tanto indígena quanto a negra, com argumentos religiosos, como o de que no juízo final esses escravos terão suas almas salvas, no Céu serão servidos pelo próprio Deus, ou ainda, a comparar o sofrimento dos escravos ao martírio do próprio Cristo.
É bem verdade que Vieira tivera problemas com os colonos no Brasil causados pela questão da escravidão, pois posicionava-se a favor da igualdade que não agradava em nada aos habitantes da Colônia e ao voltar ao Reino, não recebeu da regente Dona Luísa o mesmo apoio que fora dado a ele por D. João IV (que a essa altura já havia falecido), além de a Inquisição ter-lhe proibido em 1663 de pregar em terras portuguesas.
Vieira questionava a escravidão e a desigualdade com argumentos como que um dos Reis Magos era negro5 ; "hei-de ser vosso senhor, porque nasci mais longe do sol, e que vós haveis de ser meu escravo, porque nascestes mais perto?!"; e que ao ser batizado, todos são iguais perante Deus, meio da irmandade entre todos os seres humanos; e ainda como afirma Bosi "Do ponto de vista da ortodoxia Vieira sabia-se respaldado por vários documentos de papas favoráveis à liberdade dos índios (...)"
No entanto, Bosi ainda mostra que "sob o pretexto de guerra justa, a Igreja permitira o cativeiro..." e Vieira possuía a mesma postura ambígua e contraditória de sua Igreja: "Não é minha tenção que não haja escravos, antes procurei (...) que se fizesse (...) [o] cativeiro lícito". Pode-se entender que a adoção da idéia de cativeiro lícito foi uma forma de conciliar os interesses, uma concessão por parte de Vieira para amenizar os problemas que estava a ter com os colonos cá no Brasil.
Assim, "chega o momento da proposta conciliadora que Vieira apresenta aos colonos renitentes", que classifica as populações que tinham a possibilidade de ser escravizadas no Maranhão em três grupos que são "os escravos que já estão na cidade", que tem o direito de escolher se continuam a trabalhar ou não; "os que vivem nas aldeias de el-rei como livres"; e os que "vivem nos sertões", que só poderiam ser trazidos aqueles que estivessem presos em tribos inimigas e para serem mortos, é o que justificava a escravidão.
Também é valido ressaltar que o discurso de Vieira para os escravos de origem africana era sempre a comparar o sofrimento deles ao martírio de Cristo, a persuadir os negros com a identificação entre eles e o Deus filho: "Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado: porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz, e em toda a sua paixão".
Sobre a escravidão dos povos de África, Vieira ainda afirma, no sermão XXVII, que o sacrifício que estavam a passar era compensador, pois assim essas almas estariam redimidas por terem no passado seguido religiões pagãs ou terem vivido sob o Império Islão, e que o cativeiro era algo somente terreno, além de ser um meio para em um plano superior conseguirem a liberdade, e a liberdade eterna, a liberdade da alma.
Vieira ainda afirmou que "todos aqueles escravos que neste mundo servirem a seus senhores como a Deus (...) no Céu, senão o mesmo Deus em Pessoa, o que os há-de servir".
Portanto, é evidente a postura contraditória do Padre Antônio Vieira, pois ora ele posiciona-se a favor das populações oprimidas pela escravidão, inclusive a incomodar os colonos - visto o problema que teve com estes no Maranhão, por exemplo -, ora ele justifica a escravidão com argumentos religiosos, principalmente nos discursos para os cativos.
Independente de ter sido a intenção de Vieira ou não, fato é, que argumentos religiosos muitas vezes são usados para tentar manipular populações de acordo com os desejos e as necessidades da classe dominante. Pois ao causar medo nos ouvintes da fúria de um Deus impiedoso ou prometendo para injustiçados e para aqueles que a vida era uma completa desgraça - como no caso dos escravos - uma vida melhor e mais justa em um outro plano, o espiritual, que é superior e eterno, acaba por fazer que essas populações tenham esperança de conseguir a liberdade um dia, nem que seja no pós-morte. Muitos dos argumentos utilizados para os escravos por parte de Vieira podem ser entendidos como uma maneira de "acalmar os ânimos" das vítimas da escravidão, fazendo com que essa população passe a conformar-se com o seu estado de subjugação e projete para um plano superior a solução dos seus problemas, que na verdade eram insolúveis.
Mas por mais que argumentos religiosos tenham tentado fazer com que essas populações aceitassem passivamente a sua situação por estar a serviço de uma Igreja - que era altamente atrelada a um Estado que tinha como base na Colônia a escravidão de índios em um primeiro momento e depois de negros africanos -, ou de classes que tinham interesse na escravidão, se essas populações aceitaram tal discurso religioso quem sabe não é porque tiveram realmente as suas sofridas almas confortadas por ele ou por outros sacerdotes. Por mais resistências em relação ao cristianismo que tenham havido por parte de índios e negros, aceitar a religião do dominador, daquele que o escraviza é algo realmente difícil, e se aconteceu, quem sabe em parte não foi por pregadores dotados de uma grande capacidade de persuasão, como era o caso de Vieira.
Sobre o Sermão da Sexagésima, seu autor interessava saber o motivo de a pregação católica estar surtindo pouco efeito entre os cristãos. "Sendo a palavra de Deus tão eficaz e tão poderosa", pergunta ele, "como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus?" Depois de muito argumentar, Vieira conclui que a culpa é dos próprios padres. "Eles pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus", afirma. Dito de outra maneira, o jesuíta reclama daqueles que torcem o texto da Bíblia para defender interesses mundanos. No sermão proferido, o Padre também procura criticar a outra facção do Barroco, logo a utilizar o púlpito como tribuna política.
No entanto, se muitas vezes o Padre Antônio Vieira procurava conduzir a opinião pública de acordo com a sua visão, transformando o púlpito em tribuna política, isto não era uma característica somente sua : "no século XVII, como frisou C. R. Boxer, o púlpito desempenhava também funções que hoje cabem aos jornais, à rádio, à televisão, enquanto instrumentos nas mãos dos governantes." 6

Notas

1 - Disponível em: http://www.vidaslusofonas.pt/padre_antonio_vieira.htm.
2 - PIRES, Maria Lucília Gonçalves. Disponível em: http://www.ipv.pt/millenium/ect8_mluci.htm.
3 - AMORA, Antônio Soares. Sermões: problemas sociais e políticos do Brasil. São Paulo: Editora Cultrix, 2000.
4 - Disponível em: http://www.terravista.pt/portosanto/3161/pantvieira.html
5 - Ver Bosi, Alfredo. A dialética da Colonização, SP: Companhia das Letras, 1992, p.135
6 - Disponível em: http://www.terravista.pt/portosanto/3161/pantvieira.html

Bibliografia e Sítios Consultados
AMORA, Antônio Soares. Sermões: problemas sociais e políticos do Brasil. São Paulo: Editora Cultrix, 2000.
BOSI, Alfredo. A dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
PIERONI, Geraldo. Os Excluídos do Reino: A Inquisição Portuguesa e o Degredo para o Brasil Colônia. Brasília: Editora UnB e São Paulo: Imprensa Oficial, 2000.
SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz: Feitiçaria e religiosidade popular no brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, ????.
VIEIRA, Padre Antônio. Sermões: texto integral. Distribuído em sala de aula, 2001.
http://www.ipv.pt/millenium/ect8_mluci.htm
http://www.palavraeutopia.com/
http://www.terravista.pt/FerNoronha/1854/vieira1.html
http://www.terravista.pt/portosanto/3161/pantvieira.html
http://www.vidaslusofonas.pt/padre_antonio_vieira.htm

Barroco em Portugal

Posted by Profº Monteiro on dezembro 18, 2013
Em Portugal, o Barroco ou também chamadoSeiscentismo (por ter sido estilo que teve início no final do século XVI), tem como marco inicial a Unificação da Península Ibérica sob o domínio espanhol em 1580 e se estenderá até por volta da primeira metade do século XVIII, quando ocorre a Fundação da Arcádia Lusitana, em 1756 e tem início o Arcadismo.

O Barroco corresponde a um período de grande turbulência político-econômica, social, e principalmente religiosa. A incerteza e a crise tomam conta da vida portuguesa. Fatos importantes como: o término do Ciclo das Grandes Navegações, a Reforma Protestante, liderada por Lutero (na Alemanha) e Calvino (na França) e o Movimento Católico de Contra-Reforma,marcam o contexto histórico do período e colaboram com a criação do “Mito do Sebastianismo”, crença segundo a qual D.Sebastião, rei de Portugal (aquele a quem Camões dedicou Os Lusíadas), não havia morrido, em 1578, na Batalha de Alcácer Quibir, mas que estava apenas “encoberto” e que voltaria para transformar Portugal no Quinto Império de que falam as Escrituras Sagradas). D. João é visto como o novo messias, o novo salvador.

Mas o que vem a ser a palavra Barroco? Não há um consenso quanto à sua origem. A mais aceita diz que o termo deriva da palavra Barróquia, nome de uma região da Índia, grande produtora de uma pérola de superfície irregular e áspera com manchas escuras, conhecida pelos portugueses como barroco. Aproximando-se assim do estilo, que segundo os clássicos era um estilo “irregular”, “defeituoso”, de “mau gosto”. Lembre-se de que a tradição clássica era marcada pela busca da perfeição e do equilíbrio.
Vejamos quais são as principais características barrocas:


Dualismo = O Barroco é a arte do conflito, do contraste.

Reflete a intensificação do bifrontismo (o homem dividido entre a herança religiosa e mística medieval e o espírito humanista, racionalista do Renascimento). É a expressão do contraste entre as grandes forças reguladoras da existência humana: fé x razão; corpo x alma; Deus x Diabo; vida x morte, etc. Esse contraste será visível em toda a produção barroca, é freqüente o jogo, o contraste de imagens, de palavras e de conceitos. Mas o artista barroco não deseja apenas expor os contrários, ele quer conciliá-los, integrá-los. Daí ser freqüente o uso de figuras de linguagem que buscam essa unidade, essa fusão.

Fugacidade= De acordo com a concepção barroca, no mundo

Tudo é passageiro e instável, as pessoas, as coisas mudam, o mundo muda. O autor barroco tem a consciência do caráter efêmero da existência.

Pessimismo= Essa consciência da transitoriedade da vida

conduz freqüentemente à idéia de morte, tida como a expressão máxima da fugacidade da vida. A incerteza da vida e o medo da morte fazem da arte barroca uma arte pessimista, marcada por um desencantamento com o próprio homem e com o mundo.

Feísmo= No Barroco encontramos uma atração por cenas

trágicas, por aspectos cruéis, dolorosos e grotescos. As imagens freqüentemente são deformadas pelo exagero de detalhes. Há nesse momento uma ruptura com a harmonia, com o equilíbrio e a sobriedade clássica. O barroco é a arte dos contrastes, do exagero.

Tensão religiosa =Intensifica-se no Barroco, aspectos que já vinham
sendo percebidos no Humanismo e no Classicismo:
ANTROPOCENTRISMO X TEOCENTRISMO
TENSÃO

A igreja católica, através da Contra-Reforma, tenta recuperar o teocentrismo medieval (Deus como centro de todas as coisas) e o homem barroco não deseja perder a visão antropocêntrica renascentista (O homem como o centro de todas as coisas), assim o Barroco tenta atingir a síntese desses valores, ou seja, tenta conciliar razão e fé, corpo e alma, espiritualismo e materialismo. Poderíamos dizer que seria, em outras palavras, a racionalização da fé, a busca da salvação através da lógica.O Barroco apresenta duas faces. Vejamos quais são:
Cultismo
BARROCO
Conceptismo

CULTISMO= Corresponde ao jogo de palavras e imagens, visando ao rebuscamento da forma do texto, à ornamentação e à erudição vocabular. Nessa vertente barroca é comum o uso exagerado das figuras de linguagem, como metáforas, antíteses, hipérboles, hipérbatos, entre outras.

O cultismo também é chamado de Gongorismo, por ter sido muito influenciado pelo poeta espanhol Luís de Gôngora.

CONCEPTISMO= Corresponde ao jogo de idéiase de conceitos, pautado no raciocínio lógico, visando ao convencimento à argumentação. O conceptismo também é chamado de Quevedismo, por ter sido muito influenciado pelo também espanhol, Francisco Quevedo.

O jogo não só de idéias, mas também de palavras pode ser compreendido sob dois aspectos: um primeiro e mais visível relaciona- se ao próprio espírito de contradição do Barroco e um segundo e mais sutil, relaciona-se à necessidade que os poetas tinham de escapar da rígida censura da Inquisição, daí o uso exagerado das metáforas (figura de linguagem usada para sugerir idéias de maneira sutil).

Análise do poema Buscando a Cristo

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013








BUSCANDO A CRISTO

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa p´ra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.Vocabulário
Sacrossanto: sagrado e santo
Cravado: pregado
Eclipsado: encoberto
Verter: derramar
Ungir-me: abençoar-me
Patente: acessível, claro, aberto
Cravos: pregos usados na crucificação
A estrutura formal desse soneto (uma composição de forma fixa, com 14 versos, dispostos em 4 estrofes, constituídas, segundo o modelo petrarquiano, de 2 quartetos e 2 tercetos. Os versos são decassílabos heróicos de esquema rítmico 10(6-10). As rimas são do tipo ABBA, ABBA, CDC e DCD.
Gregório de Matos atribui um sentido simbólico ao corpo crucificado de Cristo, vendo nele o abrigo ou a proteção que sua alma deseja.
Se, de um lado, o corpo pregado na cruz transmite impressão de grande sofrimento, por outro, é esse mesmo sentimento que dará ao poeta o perdão e a salvação, pois Cristo sofreu para salvar o ser humano, o seu sangue tem sentido resgatador. Ao descrever o corpo de Cristo, o poeta revela-nos a dimensão espiritual do sofrimento físico.
Observamos, nesse soneto, a manifestação de uma característica típica do estilo barroco: o uso de situações ambivalentes, que possibilitam dupla interpretação. Assim, os braços de Cristo são apresentados como abertos e cravados; seus olhos estão despertos e fechados, seus pés pregados e imóveis reforçam a ideia de grande sofrimento ao mesmo tempo em que sugerem que Cristo não sairá de perto do pecador (não o abandonará). O sangue vertido na cruz também adquire um determinado valor, pois é através desse líquido sagrado que o pecador será salvo. A cabeça baixa, caracterizando o fim das forças de Cristo e a sua morte física, é vista como uma atitude de amor: um gesto afirmativo para a salvação, libertando-o de todos os pecados.
No último terceto, o desejo de união espiritual com Cristo é representado pela consagração de união física(´´Para ficar unido, atado e firme.``), um exemplo claro de fusionismo, ou seja, da manifestação do desejo humano de unir-se a Deus.
A base do soneto é construída a partir de um sistema de metonímias que vão relacionando as partes de Cristo ("braços", "olhos", "pés", "sangue", "cabeça"), substituindo todo o Cristo crucificado. O culto ao contraste, percebido através dos versos 7 e 8 (´´perdoar-me`` e ´´condenar-me``),constitui uma das principais características do estilo barroco: a antítese (marcada pela oposição de ideias).
Os versos 5, 9, 10, 11, 12 e 13 constroem-se com a omissão da locução verbal "correndo vou” (apresentado na 1ª estrofe- v.1), procedimento estilístico denominado zeugma (= elipse de uma palavra ou expressão próxima no contexto; termo que já apareceu antes). Outro recurso empregado são as anáforas (repetição de palavra(s) no início de dois ou mais versos): “a vós” (v. 5, 9, 10, 11, 12, 13) e "e por não" (v. 4 e 8).
Percebemos, também, a presença do hipérbato (consiste na inversão da ordem direta dos termos da oração): "A vós correndo vou, braços sagrados / Nessa Cruz sacrossanta descobertos”. A linguagem do poema é ornamentada através da hipérbole(exagero de uma ideia com finalidade expressiva) marcando a subjetividade do poeta face a visão de mundo.
O que mais sobressai, em toda obra sacra de Gregório, é seu senso de pecado, a constatação da fragilidade humana, o temor diante da morte e a condenação eterna. Em termos autobiográficos, essa faceta de pecador arrependido aparece nas poesias de Gregório já na fase final de sua vida, quando se encontrava mais próximo da morte, porque, em sua mocidade, fizera várias composições desafiando o poder divino.