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O CRIME DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA CONTO DE CLARICE LISPECTOR

Posted by Profº Monteiro on março 15, 2017

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Quando o homem atingiu a colina mais alto, os sinos tocavam na cidade embaixo. Viam-se apenas os tetos irregulares das casas. Perto dele estava a única árvore da chapada. O homem estava de pé com um saco pesado na mão.




Olhou para baixo com olhos míopes. Os católicos entravam devagar e miúdos na igreja, e ele procurava ouvir as vozes esparsas das crianças espalhadas na praça. Mas apesar da limpidez da manhã os sons mal alcançavam o planalto. Via também o rio que de cima parecia imóvel, e pensou: é domingo. Viu ao longe a montanha mais alta com as escarpas secas. Não fazia frio mas ele ajeitou o paletó agasalhando-se melhor. Afinal pousou com cuidado o saco no chão. Tirou os óculos talvez para respirar melhor porque, com os óculos na mão, respirou muito fundo. A claridade batia nas lentes que enviaram sinais agudos. Sem os óculos, seus olhos piscaram claros, quase jovens, infamiliares. Pôs de novo os óculos, tornou-se um senhor de meia-idade e pegou de novo no saco: pesava como se fosse de pedra, pensou. Forçou a vista para perceber a correnteza do rio, inclinou a cabeça para ouvir algum ruído: o rio estava
parado e apenas o som mais duro de uma voz atingiu por um instante a altura – sim, ele estava bem só. O ar fresco era inóspito, ele que morara numa cidade mais quente. A única árvore da chapada balançava os ramos. Ele olhou-a. Ganhava tempo. Até que achou que não havia por que esperar mais.


E no entanto aguardava. Certamente os óculos o incomodavam porque de novo os tirou, respirou fundo e guardou-os no bolso. Abriu então o saco, espiou um pouco. Depois meteu dentro a mão magra e foi puxando o cachorro morto. Todo ele se concentrava apenas na mão importante e ele mantinha os olhos profundamente fechados enquanto puxava. Quando os abriu, o ar estava ainda mais claro e os sinos alegres tocaram novamente chamando os fiéis para o consolo da punição.


O cachorro desconhecido estava à luz.


Então ele se pôs metodicamente a trabalhar. Pegou no cachorro duro e negro, depositou-o numa baixa do terreno. Mas, como se já tivesse feito muito, pôs os óculos, sentou-se ao lado do cão e começou a observar a paisagem.


Viu muito claramente, e com certa inutilidade, a chapada deserta. Mas observou com precisão que estando sentado já não enxergava a cidadezinha embaixo. Respirou de novo. Remexeu no saco e tirou a pá. E pensou no lugar que escolheria. Talvez embaixo da árvore. Surpreendeu-se refletindo que embaixo da árvore enterraria este cão. Mas se fosse o outro, o verdadeiro cão, enterrá-lo-ia na verdade onde ele próprio gostaria de ser sepultado se estivesse morto: no centro mesmo da chapada, a encarar de olhos vazios o sol. Então, já que o cão desconhecido substituía o “outro”, quis que ele, para maior perfeição do ato, recebesse precisamente o que o outro receberia. Não havia nenhuma confusão na cabeça do homem. Ele se entendia a si próprio com frieza, sem nenhum fio solto.


Em breve, por excesso de escrúpulo, estava ocupado demais em procurar determinar rigorosamente o meio da chapada. Não era fácil porque a única árvore se erguia num lado e, tendo-se como falso centro, dividia assimetricamente o planalto. Diante da dificuldade o homem concedeu: “não era necessário enterrar no centro, eu também enterraria o outro, digamos, bem onde eu estivesse neste mesmo instante em pé”. Porque se tratava de dar ao acontecimento a fatalidade do acaso, a marca de uma ocorrência exterior e evidente – no mesmo plano das crianças na praça e dos católicos entrando na igreja – tratava-se de tornar o fato ao máximo visível à superfície do mundo sob o céu. Tratava-se de expor-se e de expor um fato, e de não lhe permitir a forma íntima e impune de um pensamento.


À ideia de enterrar o cão onde estivesse nesse mesmo momento em pé – o homem recuou com uma agilidade que seu corpo pequeno e singularmente pesado não permitia. Porque lhe pareceu que sob os pés se desenhara o esboço da cova do cão.


Então ele começou a cavar ali mesmo com pá rítmica. Às vezes se interrompia para tirar e de novo botar os óculos. Suava penosamente. Não cavou muito mas não porque quisesse poupar seu cansaço. Não cavou muito porque pensou lúcido: “se fosse para o verdadeiro cão, eu cavaria pouco, enterrá-lo ia bem à tona”. Ele achava que o cão à superfície da terra não perderia a sensibilidade.


Afinal largou a pá, pegou com delicadeza o cachorro desconhecido e pousou-o na cova.


Que cara estranha o cão tinha. Quando com um choque descobrira o cão morto numa esquina, a ideia de enterrá-lo tornara seu coração tão pesado e surpreendido, que ele nem sequer tivera olhos para aquele focinho duro e de baba seca. Era um cão estranho e objetivo.


O cão era um pouco mais alto que o buraco cavado e depois de coberto com terra seria uma excrescência apenas sensível do planalto. Era assim precisamente que ele queria. Cobriu o cão com terra e aplainou-a com as mãos, sentindo com atenção e prazer sua forma nas palmas como se o alisasse várias vezes. O cão era agora apenas uma aparência do terreno.


Então o homem se levantou, sacudiu a terra das mãos, e não olhou nenhuma vez mais a cova. Pensou com certo gosto: acho que fiz tudo. Deu um suspiro fundo, e um sorriso inocente de libertação. Sim, fizera tudo. Seu crime fora punido e ele estava livre.


E agora ele podia pensar livremente no verdadeiro cão. Pôs-se então imediatamente a pensar no verdadeiro cão, o que ele evitara até agora. O verdadeiro cão que agora mesmo devia vagar perplexo pelas ruas do outro município, farejando aquela cidade onde ele não tinha mais dono.


Pôs-se então a pensar com dificuldade no verdadeiro cão como se tentasse pensar com dificuldade na sua verdadeira vida. O fato do cachorro estar distante na outra cidade dificultava a tarefa, embora a saudade o aproximasse da lembrança.


“Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua”, pensou então com auxílio da saudade. “Dei-te o nome de José para te dar um nome que te servisse ao mesmo tempo de alma. E tu – como saber jamais que nome me deste? Quanto me amaste mais do que te amei”, refletiu curioso.


“Nós nos compreendíamos demais, tu com o nome humano que te dei, eu com o nome que me deste e que nunca pronunciaste senão com o olhar insistente”, pensou o homem sorrindo com carinho, livre agora de se lembrar à vontade.


“Lembro-me de ti quando eras pequeno”, pensou divertido, “tão pequeno, bonitinho e fraco, abanando o rabo, me olhando, e eu surpreendendo em ti uma nova forma de ter minha alma. Mas, desde então, já começavas a ser todos os dias um cachorro que se podia abandonar. Enquanto isso, nossas brincadeiras tornavam-se perigosas de tanta compreensão”, lembrou-se o homem satisfeito, “tu terminavas me mordendo e rosnando, eu terminava jogando um livro sobre ti e rindo. Mas quem sabe o que já significava aquele meu riso sem vontade. Eras todos os dias um cão que se podia abandonar.”


“E como cheiravas as ruas!”, pensou o homem rindo um pouco, “na verdade não deixaste pedra por cheirar... Este era o teu lado infantil. Ou era o teu verdadeiro cumprimento de ser cão? e o resto apenas brincadeira de ser meu? Porque eras irredutível. E, abanando tranquilo o rabo, parecias rejeitar em silêncio o nome que eu te dera. Ah, sim, eras irredutível: eu não queria que comesses carne para que não ficasses feroz, mas pulaste um dia sobre a mesa e, entre os gritos felizes das crianças, agarraste a carne e, com uma ferocidade que não vem do que se come, me olhaste mudo e irredutível com a carne na boca. Porque, embora meu, nunca me cedeste nem um pouco de teu passado e de tua natureza. E, inquieto, eu começava a compreender que não exigias de mim que eu cedesse nada da minha para te amar, e isso começava a me importunar. Era no ponto de realidade resistente das duas naturezas que esperavas que nos entendêssemos: Minha ferocidade e a tua não deveriam se trocar por doçura: era isso o que pouco a pouco me ensinavas, e era isto também que estava se tornando pesado. Não me pedindo nada, me pedias demais. De ti mesmo, exigias que fosses um cão. De mim, exigias que eu fosse um homem. E eu, eu disfarçava como podia. Às vezes, sentado sobre as patas diante de mim, como me espiavas! Eu então olhava o teto, tossia, dissimulava, olhava as unhas. Mas nada te comovia: tu me espiavas. A quem irias contar? Finge – dizia-me eu –, finge depressa que és outro, dá a falsa entrevista, faz-lhe um afago, joga-lhe um osso – mas nada te distraía: tu me espiavas. Tolo que eu era. Eu fremia de horror, quando eras tu o inocente: que eu me virasse e de repente te mostrasse meu rosto verdadeiro, e eriçado, atingido, erguer-te-ias até a porta ferido para sempre. Oh, eras todos os dias um cão que se podia abandonar. Podia-se escolher. Mas tu, confiante, abanavas o rabo.”


“Às vezes, tocado pela tua acuidade, eu conseguia ver em ti a tua própria angústia. Não a angústia de ser cão que era a tua única forma possível. Mas a angústia de existir de um modo tão perfeito que se tornava uma alegria insuportável: davas então um pulo e vinhas lamber meu rosto com amor inteiramente dado e certo perigo de ódio como se fosse eu quem, pela amizade, te houvesse revelado. Agora estou bem certo de que não fui eu quem teve um cão. Foste tu que tiveste uma pessoa.”


“Mas possuíste uma pessoa tão poderosa que podia escolher: e então te abandonou. Com alívio abandonou-te. Com alívio sim, pois exigias – com a incompreensão serena e simples de quem é um cão heroico – que eu fosse um homem. Abandonou-te com uma desculpa que todos em casa aprovaram: porque como poderia eu fazer uma viagem de mudança com bagagem e família, e ainda mais um cão, com a adaptação ao novo colégio e à nova cidade, e ainda mais um cão? ‘Que não cabe em parte alguma’, disse Marta prática. ‘Que incomodará os passageiros’, explicou minha sogra sem saber que previamente me justificava, e as crianças choraram, e eu não olhava nem para elas nem para ti, José. Mas só tu e eu sabemos que te abandonei porque eras a possibilidade constante do crime que eu nunca tinha cometido. A possibilidade de eu pecar o que, no disfarçado de meus olhos, já era pecado. Então pequei logo para ser logo culpado. E este crime substitui o crime maior que eu não teria coragem de cometer”, pensou o homem cada vez mais lúcido.


“Há tantas formas de ser culpado e de perder-se para sempre e de se trair e de não se enfrentar. Eu escolhi a de ferir um cão”, pensou o homem. “Porque eu sabia que esse seria um crime menor e que ninguém vai para o Inferno por abandonar um cão que confiou num homem. Porque eu sabia que esse crime não era punível.”


Sentado na chapada, sua cabeça matemática estava fria e inteligente. Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições.


Um homem ainda conseguia ser mais esperto que o Juízo Final. Este crime ninguém o condenava. Nem a Igreja. “Todos são meus cúmplices, José. Eu teria que bater de porta em porta e mendigar que me acusassem e me punissem: todos me bateriam a porta com uma cara de repente endurecida. Este crime ninguém me condena. Nem tu, José, me condenarias. Pois bastaria, esta pessoa poderosa que sou, escolher de te chamar – e, do teu abandono nas ruas, num pulo me lamberias a face com alegria e perdão. Eu te daria a outra face a beijar.”


O homem tirou os óculos, respirou, botou-os de novo.


Olhou a cova coberta. Onde ele enterrara um cão desconhecido em tributo ao cão abandonado, procurando enfim pagar a dívida que inquietantemente ninguém lhe cobrava. Procurando punir-se com um ato de bondade e ficar livre de seu crime. Como alguém dá uma esmola para enfim poder comer o bolo por causa do qual o outro não comeu o pão.


Mas como se José, o cão abandonado, exigisse dele muito mais que a mentira; como se exigisse que ele, num último arranco, fosse um homem – e como homem assumisse o seu crime – ele olhava a cova onde enterrara a sua fraqueza e a sua condição.


E agora, mais matemático ainda, procurava um meio de não se ter punido. Ele não devia ser consolado. Procurava friamente um modo de destruir o falso enterro do cão desconhecido. Abaixou-se então, e, solene, calmo, com movimentos simples – desenterrou o cão. O cão escuro apareceu afinal inteiro, infamiliar com a terra nos cílios, os olhos abertos e cristalizados. E assim o professor de matemática renovara o seu crime para sempre. O homem então olhou para os lados e para o céu pedindo testemunha para o que fizera. E como se não bastasse ainda, começou a descer as escarpas em direção ao seio de sua família.


Fim

CLARICE LISPECTOR

Modernismo - A obra de Clarice Lispector

Posted by Profº Monteiro on outubro 11, 2016

retirado de PASSEIWEB


Em 1942, Clarice Lispector começou a escrever seu primeiro romance,
 Perto do coração selvagem e o publicou em 1943. 
A carreira de Clarice Lispector
iniciou com o romance Perto do
Coração Selvagem

O romance introspectivo




Esse primeiro romance fez certo alarde entre os críticos brasileiros. Alguns acharam a obra intolerável e estranha; diziam que "essa escritora de nome esquisito" queria se exibir. Outros, como Antonio Cândido, apesar de não verem na obra a perfeição, reconheceram a coragem dessa escritora desconhecida em usar nossa língua para criar frases introspectivas originais, metáforas extravagantes e enredos muito diferentes dos que os romancistas regionalistas (Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramo, José Lins do Rego) criavam na época, cujas obras engajadas politicamente todos gostavam.

Clarice estava introduzindo na literatura brasileira um novo modo de narrar, semelhante ao das escritoras de língua inglesa Katherine Mansfield e Virginia Woolf: o romance introspectivo, cujo enredo (a história) importa bem menos que o "mergulho" do narrador no fluxo de pensamento do personagem.
Esse mergulho é tão abrupto que o leitor depara-se com ele sem aviso do narrador. Joana, sua primeira protagonista, aparece no romance já capturada em meio a seus pensamentos. Veja os dois parágrafos iniciais de Perto do coração selvagem:

A máquina do papai batia tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz. O guarda-roupa dizia o quê? roupa-roupa-roupa. Não, não. Entre o relógio, a máquina e o silêncio havia uma orelha à escuta, grande, cor-de-rosa e morta. Os três sons estavam ligados pela luz do dia e pelo ranger das folhinhas da árvore que se esfregavam umas nas outras radiantes.

Encostando a testa na vidraça brilhante e fria olhava para o quintal do vizinho, para o grande mundo das galinhas-que-não-sabiam-que-iam-morrer. E podia sentir como se estivesse bem próxima de seu nariz a terra quente, socada, tão cheirosa e seca, onde bem sabia, bem sabia uma ou outra minhoca se espreguiçava antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer.
Um modo diferente de narrar

Percebe-se que o narrador captura o pensamento da personagem (que não se sabe ainda chamar-se Joana) e mostra isso através do discurso indireto livre. Tal estratégia de criar não foi inventada por Clarice Lispector, mas ela a usou como aspecto central de seu estilo em todas as suas obras.

Nota-se também que a máquina de escrever é "do papai", portanto, logo de início, é a filha que tem seus pensamentos revelados - em total intimidade, pois ela está pensando apenas. Essa menina vai olhar com piedade para as galinhas "que não sabiam que iam morrer" e pensa nas minhocas que essas galinhas iam comer. Ou seja, nada é dito por Joana, para ninguém. É o narrador que a captura, e por isso cria um monólogo interior.

E nota-se as onomatopéias usadas (tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sem poeira. O silêncio arrastou-se zzzzzz). Não era habitual na literatura vigente usar esses recursos.

Além disso a escritora cria suas metáforas: "uma orelha grande, cor-de-rosa e morta". O que será isso? O que ela quer dizer? Não se sabe ao certo, mas a essas construções esquisitas Antonio Candido deu o nome de "metáforas insólitas", ou seja, metáforas muito inesperadas e bastante originais.

Toda a obra posterior de Clarice (contos e romances) "persegue" esse modo de narrar. A partir de 1960, depois de escrever mais alguns romances, Clarice volta ao Rio de Janeiro e consolida sua grande carreira de contista.

Quando mudou-se para Nápoles, começou a escrever outro romance, O Lustre, publicado em 1946.

Em 1949, foi publicado outro romance, A Cidade Sitiada, cujos personagens são mais corpos que consciência, mais objetos que suspeitos, o mal aparece e se faz presente. Depois, foi publicado, um livro de contos chamado Alguns Contos, no ano de 1952.

No ano de 1960, foi publicado Laços de Família, livro de literatura brasileira absolutamente renovado, que também atingiu o mais alto patamar da arte da escrita ficcional.

Em 1961, foi publicado A maçã no escuro, um romance.

Em 1964 foi publicado o livro de contos A Legião estrangeira e o romance A paixão segundo G. H..

No ano de 1967 recebeu o prêmio Calunga, da Campanha Nacional de Criança, pela publicação de O Mistério do Coelho Pensante, publicado no mesmo ano.

Em 1969, foi publicado Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, um romance, e A mulher que matou os peixes, um livro infantil.

Foram publicados também Água Viva, em 1973, onde Lispector leva a extremos a insurreição formal e a desestruturação da forma romancesca, criando um gênero híbrico, marcado pela fluidez, pela aparência inacabada e inconclusa, produto da liberdade. Ainda em 73, teve publicação A vida íntima da Laura, um livro infantil.

Entre 1974 e 1977, foram publicados A via-crucis do corpo, Onde estiveste de noite, De corpo inteiro, um livro de entrevistas, Visão do Esplendor e o seu último livro publicado no ano de sua morte A hora da estrela, uma novela.

Clarice Lispector tem um estilo literário inconfundível, presente em toda sua obra. A renovação da linguagem se encontra constante num grau que aproxima a prosa da poesia. Seus textos, apenas narram histórias, mas também apresentam a síntese e a força expressiva típicas da poesia. Além da linguagem, outro aspecto inovador na obra de Clarice é a visão do mundo que surge de suas histórias.

Mesmo tendo se iniciado como escritura numa época em que os romancistas brasileiros estavam voltados para a literatura regionalista ou de denúncia social, Clarice enfocou em seus textos o ser humano em suas angústias e questionamentos existenciais. Em suas narrativas, o enredo, bem como as personagens, as referências de tempo e espaço ganham novos significados: o enredo é quase sempre psicológico. O tempo e o espaço, por sua vez tem pouca influência sobre o comportamento das personagens; o tempo é psicológico e espaço é quase acidental.

A indiscutível originalidade e a perturbadora percepção da validade presentes na obra de Lispector a tornam única dentro da literatura brasileira. É impossível ficar-se indiferente diante do texto de Clarice, pois a força da sua linguagem, a intensidade das emoções das suas personagens atingem em cheio o leitor, provocando no mínimo um incômodo estranhamento. É como se o texto convidasse o leitor à desvendá-lo e, desvendando-o, descobrisse um pouco mais do ser humano.

FRASES DE CLARICE LINSPECTOR

Posted by Profº Monteiro on maio 22, 2014


“Aliás – descubro eu agora – eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria.” A hora da estrela





“Onde aprender a odiar para não morrer de amor?” Laços de família



“Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.”

Um sopro de vida

“É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.”

Perto do coração selvagem

“Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim.”

A hora da estrela

“E de tal modo haviam se disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu felicidade.”

Laços de família

“Quem não é um acaso na vida?” A hora da estrela

“Isto não é um lamento. É um grito de ave de rapina, irisada e intranqüila.” Um sopro de vida

“Com Deus a gente também pode abrir caminho pela violência. Ele mesmo quando precisa mais especialmente de um de nós, Ele nos escolhe e nos violenta.”

A paixão segundo G.H.

“Só quem guarda as armas a chave é quem receia atirar sobre todos.”

Perto do coração selvagem

“Nem todos chegam a fracassar porque é tão trabalhoso, é preciso antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder cair.”

A paixão segundo G.H.

“Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebradiça.”

Laços de família

“Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir – esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade.”

Laços de família

“O cacto é cheio de raiva com os dedos todos retorcidos e é impossível acarinhá-lo. Ele te odeia em cada espinho espetado porque dói-lhe no corpo esse mesmo espinho cuja primeira espetada foi na sua própria grossa carne. Mas pode-se cortá-lo em pedaços e chupar-lhe a áspera seiva: leite de mãe severa.”

Um sopro de vida

“Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho.” Laços de família

“Não se pode dar uma prova de existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando.” A hora da estrela

“Oh Deus, eu que faço concorrência a mim mesma. Me detesto. Felizmente os outros gostam de mim. É uma tranqüilidade.” Um sopro de vida

“Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever.”

A hora da estrela

“A eternidade é o estado das coisas neste momento.” A hora da estrela

“Escrevo por ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens.”

A hora da estrela

“Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por que dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma.” Um sopro de vida

“Ser um ser permissível a si mesmo é a glória de existir.” Um sopro de vida

“Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando.”

A paixão segundo G.H.

“Tudo o que poderia existir, já existe. Nada mais pode ser criado senão revelado.”

Perto do coração selvagem

“Vida e morte foram minhas, e eu fui monstruosa, minha coragem foi a de um sonâmbulo que simplesmente vai.” A paixão segundo G.H.

AMOR CONTO DE CLARICE LISPECTOR

Posted by Profº Monteiro on maio 22, 2014


Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.


Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.


Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela
mão do homem.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.


Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.


O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.


O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.


A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.


O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.


Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.


Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.


Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.


A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.


O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.


Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.


Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.


Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.


Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.


A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.


De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.


Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.


Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.


Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.


Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.


Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.


As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.


Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.


Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.


Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.


Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?


Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver.


Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.


Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.


Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.


Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.


Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.


Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.


Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado.


— O que foi?! Gritou vibrando toda.


Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:


— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.


Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.


— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! Disse ela.


— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.


Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade.


E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.

ANÁLISE DO ROMANCE A HORA DA ESTRELA DE CLARICE LISPECTOR

Posted by Profº Monteiro on maio 02, 2014


Enfim, enfim quebrara-se realmente meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu , eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for, pois "eu" é apenas um dos espamos instântaneos do mundo.

(Clarice Lispector - 1920-1977)

A hora da estrela, publicado em 1977, é uma obra em que Clarice Lispector flagra uma personagem tanto numerosa quanto desprezada na sociedade brasileira: a imigrante nordestina em estado de miséria.


A Macabéa é a menina do sertão que nasceu raquítica, herança do sertão e de maus antecedentes, num ambiente de extrema pobreza, em Alagoas. Ficou órfã dos pais aos dois anos. Ela, então, foi criada à base de cascudos por uma tia beata que a obrigou a estudar datilografia. Com a morte da tia, Macabéa resolveu ir para o Rio de Janeiro, decisão tomada sem que soubesse exatamente por que.

No Rio dividia um quarto perto do cais com mais quatro moças (Marias) e trabalhava como datilógrafa num pequeno escritório, mantendo-se quase milagrosamente, já que executava seu trabalo de modo sofrível, cometendo erros. O salário era miserável. Mantinha uma dieta de cachorro-quente com coca-cola, nada mais. Á noite, mastigava pedacinhos de papel para enganar o terrível vazio do estômago.

A miséria, a ausência total de afeto fez de Macabéa uma criatura quase nula: "Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham; [...] ela vive num limbo impessoal, inspirando e expirando [...] O seu viver é ralo".

Ela é totalmente destituída de qualquer conforto, totalmente alienada do consumismo, de ser mulher. "Pois até mesmo o fato de vir a ser uma mulher não parecia pertencer à sua vocação.

Macabéa até pensava que se por acaso viesse alguma vez a sentir um gosto bem bom de viver desencantaria de súbito. Dessa forma, defendia-se da morte por intermédio de um viver de menos, gastando pouco de sua vida para esta não acabar.

Teria ela a sensação de que não vivia pra nada?

Só uma vez se fez uma trágica pergunta: quem sou eu? Assustou-se tanto que parou completamente de pensar.

A protagonista era uma moça calada (por não ter o que dizer). Vagamente pensava de muito longe e sem palavras o seguinte: já que sou, o jeito é ser.

Vez por outra ia para a Zona Sul e ficava olhando as vitrines faiscantes de jóias e roupas acetinadas só para se mortificar um pouco. É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco, é um encontro.

Todas as madrugadas ligava o rádio emprestado por uma colega de moradia. "Que dava hora certa e cultura". No intervalo entre as "gota de minutos", havia anúncios comerciais. Ela adora anúncios. Essa personagem tinha o que se chama de vida interior e não sabia que tinha. Vivia de si mesma como se comesse as próprias entranhas. Era cheia do vazio que enche a alma dos santos. Ela era uma espécie de santa. "Não sabia que meditava, pois ignorava o que quer dizer a palava. Mas sua vida era uma longa meditação sobre o nada; (Meditava enquanto batia a máquina, por isso errava ainda mais).

Uma vez viu um livro que o patrão deixara sobre a mesa. "Humilhados e Ofendidos". Ficou pensativa. Talvez tivesse se definido pela primeira vez numa classe social. Pensou, pensou e pensou! Chegou à conclusão que na verdade ninguém jamais a ofendera, tudo que acontecera era porque as coisas são assim mesmo e não havia luta possível, para que lutar?

O que a salva da indigência da transparência total, é algo que ela traz em si tremeluzindo como uma pequena chama de uma pequena vela: anseios vagos e fragmentos de vida e de alegria.

No dia 7 de maio, sob uma forte chuva de final de tarde, conheceu Olímpico, por quem se apaixona, sua goiabada com queijo. Olímpico tinha cometido crime de morte no Nordeste, e havia se mudado para o Rio de Janeiro. É do tipo de homem inseguro que se esconde sob uma camada de ignorância, estupidez, etc. Apresentou-se para Macabéa, como: Olímpico de Jesus Moreira Chaves, metalúrgico. Mas Olímpico era apenas Olímpico de Jesus, porque no sertão era assim que as pessoas chamavam quando tinham pai ignorado.

Olímpico aparece na vida de Macabéa para trazer mais decepção. Ele nunca foi carinhoso, sempre muito ignorante, impaciente. Até que um dia conhece Glória, colega de Macabéa e resolve deixá-la. Então, Macabéa o perde para sua companheira de trabalho.

Glória é branca, cabelos oxigenados e de trazeiro alegre. Era a mistura do português com africano, cujo pai era dono de um açougue. Os açougues fascinavam Olímpico, porque ele inconscientemente sublimava sua ânsia de violência ambicionando um emprego de açougueiro. Tudo isso significava um degrau a mais para Olímpico. E, além disso, Glória era carioca, pertencente ao ambicioso clã do sul, tinha família, enquanto Macabéa não possuía nada disso, nem sequer uma família, que é o mínimo que um ser humano deve ter.

Quanto ao significado dos nomes: Olímpico e Glória , reparamos que Olímpico representa a eterna loucura humana de alcançar os deuses, e Glória, significa: fama: honra: consagração; exaltação. Com isso, Glória era a maneira de Olímpico chegar em seus objetivos. Ele queria ser deputado, tinha ambição e certeza que iria alcançar o seu desejo, pois quando falava para Macabéa de seus sonhos, colocava como certeza, fato acontecido, com total convicção de ato realizado.

Com o fim do "namoro" Macabéa "procurou continuar como de nada tivesse perdido", já que não se sentia particularmente digna de nada; continuou até mesmo suas relações com a Glória.

Nem na hora de terminar o "namoro" Olímpico foi gentil com nossa heroína, "Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer. Me desculpe se eu lhe ofendi, mas sou sincero". Macabéa não se ofende com essas palavras, apenas pede para ser breve com a despedida, pois quer ir embora.

Agora, como o fim do "namoro" com Olímpico sua única conexão com o mundo, restringiu-se à Glória, apesar desta tomar seu namorado. Sendo assim, Glória procurou recompensar Macabéa pela perda do namorado, convidando-a para uma refeição num domingo em sua casa, onde Macabéa se fartou de chocolate, biscoito e bolo. No dia seguinte, passou mal.

Com o corpo frágil, cada vez mais delibitado pela desnutrição, consulta um médico gordo e indiferente que lhe diagnostica tuberculose. Desconhecendo o que se tratava, responde-lhe: "Muito obrigada, sim?". Como adverte o narrador: "Não se tratava de uma idiota, mas tinha a felicidade pura dos idiotas". Esse médico tratou-a muito mal, quando Macabéa demonstrou não saber o que era espaguete e álcool: "Sabe de uma coisa? Vá para os raios que te partam".

A colega Glória aconselha Macabéa a procurar uma catormante, Madame Carlota, ex-prostituta, ex-cafetina e muito fã de Jesus. "Sou doidinha por Ele". O interessante é que pela primeira vez Macabéa é bem tratada, nem que seja carinhos postiços de diminutivos e de frases feitas, e, depois de "adivinhar-lhe" a iminência do desemprego, a pobreza, o abandono do namorado, prediz que sua vida hora de estrela estava para chegar. Teria muito dinheiro, luxo e um namorado gringo de ollhos "azuis", ou "verdes", ou "castanhos". Bem, a chance de ser um desses é muito grande, Macabéa acredita, pois estava em busca de um destino e constata por meio das palavras de Madame Carlota que sua vida tinha sido horrível até aquele momento. As perspectivas otimistas anunciadas pela cartomante transformaram Macabéa, pela primeira vez ela sente a sua existência, está "grávida de futuro".

Então, Macabéa sai de lá em êxtase, "Se ela não era mais ela mesma, isso significava uma perda que valia por um ganho". despedindo-se de Carlota com um beijo estalado. Distraída com os olhos voltados pela primeira vez para o céu, é atropelada por um Mercedes amarelo que foge sem prestar-lhe socorro. Bate a cabeça no meio fio e fica com "a cara mansamente voltada para a calçada". Vomita uma estrela de sangue e repete sem cessar: "Eu sou, eu sou, eu sou, eu sou"., morre.

Ao ser atropelada, Macabéa descobre a sua essência: "Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci. Há uma situação paradoxal: ela só nasce, isto é, só chega a ter consciência de si mesma, na hora de sua morte. Por ter definido a sua existência é que Macabéa pronuncia uma frase que nenhum dos transeuntes entende:

Quanto ao futuro". [...] "Nesta hora exata Macabéa sente um profundo enjoo de estômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitou algo luminoso. Estrela de mil pontas".

Assim, ocorre o momento epifânico de sua vida, pois há uma revelação, Macabéa toma consciência de sua existência. Em seu torpor de miserável, a protagonista sofre pequenas epifanias em seu cotidiano triste, marcado pelo narrador com a palavra "Explosão". Na obra tomamos conhecimento da vida dessa personagem, a qual é marcada por sofrimentos, uma pessoa calada, sem conteúdo, afeto, compreensão de alguém, todos a tratavam mal, outros nem tomavam consciência de sua presença, desde criança vem sofrendo pelo mundo: a morte dos pais, depois a sua vida ao lado da tia, com as amigas no quartinho sem conforto, falta de comida, higiene, não havia diálogo com as colegas que dividia o quarto "as Marias", no serviço o patrão a tratava também com indiferença (Raimundo), pois Macabéa errava muito, a colega Glória, às vezes, "brincava" com a cara de Macabéa [...] ser feia dói?", e também seu "namorado" Olímpico, enfim, todos a tratavam com indiferença, porém a única pessoa que a tratou com carinho postiços é a cartomante e , justo nesse encontro, que Macabéa sentiu-se bem consigo mesma, encontrou a morte.

Um fato importante é que há uma relação da colega Glória com o encontro com a cartomante. Nota-se também uma relação com o nome da personagem "Glória" com a Glória de alcançar a vida de luz . A hora da morte a pessoa torna-se brilhante, estrela de cinema, é um instante de glória de cada um, a de Macabéa era ser estrela de cinema como Marylin.

No início da narrativa, o narrador Rodrigo S.M. tem muitas dificuldades de colocar no papel a história de Macabéa, são páginas e mais páginas argumentando que não consegue escrever. Finalmente, quando inicia, ele começa a fazer refleções da vida dessa mulher tão sofredora, sua vivência tão insignificante, sem objetivos existências.

Nesse processo, Macabéa só passa a existir quando Rodrigo S. M. conta sua história, e a morte conclui sua trajetória de vida interrompida. Há uma mistura entre o narrador e a protagonista, principalmente, no desfecho da obra "Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?!". Então, a conclusão implícita do narrador é a de que ele, Macabéa e a própria Clarice, apesar das diferenças sociais, intelectuais e de visão de mundo que os separavam, tinham uma identidade comum.

O narrador quer mostrar ao leitor ,a todo o momento, a personagem como um ser frágil, irracional, sem ação, autonomia, porém ela é uma mulher forte, pois, trabalha, vive com o que ganha, é datilografa, passa por diversas dificuldades, mas mesmo assim não entrega-se a prostituição como as meninas que a tia falava para ela, e Macabéa quando foi morar no tal quartinho ficou muito próxima dessa realidade da prostituição, no entanto, conservou-se na sua integridade.

Além, da preocupação existencial, existe também a questão do social. Clarice Lispector trabalha a desigualdade social, o imigrante, do contraste da cidade grande.

Outro fato muito importante que Clarice faz nessa obra é construir um personagem (Rodrigo S. M.) para contar a história de outra personagem (Macabéa), mas na verdade os três são a face de uma mesma moeda.

Quanto ao nome Macabéa, é um substantivo coletivo, "a resistente raça anã teimosa", o Nordeste rural na sua difícil contracena com a engrenagem urbana, a cidade inconquistável. E, Macabéa faz parte de uma multidão de pessoas que resistem a indigência, mas sob a pena de Clarice Lispector ganha uma identidade.

O livro é uma busca de resposta, do grito do sofrimento humano. E termina com o "sim", ou seja, é a confirmação de sua crença no poder da criação.

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. [...] Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever.

Sim.



Clarice Lispector


REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela, 87p. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.