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Mostrando postagens com o rótulo CLARICE LISPECTOR

O CRIME DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA CONTO DE CLARICE LISPECTOR

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Quando o homem atingiu a colina mais alto, os sinos tocavam na cidade embaixo. Viam-se apenas os tetos irregulares das casas. Perto dele estava a única árvore da chapada. O homem estava de pé com um saco pesado na mão. Olhou para baixo com olhos míopes. Os católicos entravam devagar e miúdos na igreja, e ele procurava ouvir as vozes esparsas das crianças espalhadas na praça. Mas apesar da limpidez da manhã os sons mal alcançavam o planalto. Via também o rio que de cima parecia imóvel, e pensou: é domingo. Viu ao longe a montanha mais alta com as escarpas secas. Não fazia frio mas ele ajeitou o paletó agasalhando-se melhor. Afinal pousou com cuidado o saco no chão. Tirou os óculos talvez para respirar melhor porque, com os óculos na mão, respirou muito fundo. A claridade batia nas lentes que enviaram sinais agudos. Sem os óculos, seus olhos piscaram claros, quase jovens, infamiliares. Pôs de novo os óculos, tornou-se um senhor de meia-idade e pegou de novo no saco: pesava com...

Modernismo - A obra de Clarice Lispector

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retirado de PASSEIWEB Em 1942, Clarice Lispector começou a escrever seu primeiro romance,   Perto do coração selvagem   e o publicou em 1943.   A carreira de Clarice Lispector iniciou com o romance Perto do Coração Selvagem O romance introspectivo Esse primeiro romance fez certo alarde entre os críticos brasileiros. Alguns acharam a obra intolerável e estranha; diziam que "essa escritora de nome esquisito" queria se exibir. Outros, como Antonio Cândido, apesar de não verem na obra a perfeição, reconheceram a coragem dessa escritora desconhecida em usar nossa língua para criar frases introspectivas originais, metáforas extravagantes e enredos muito diferentes dos que os romancistas regionalistas (Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramo, José Lins do Rego) criavam na época, cujas obras engajadas politicamente todos gostavam. Clarice estava introduzindo na literatura brasileira um novo modo de narrar, semelhante ao das escritoras de língua inglesa Katherine M...

FRASES DE CLARICE LINSPECTOR

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“Aliás – descubro eu agora – eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria.” A hora da estrela “Onde aprender a odiar para não morrer de amor?” Laços de família “Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.” Um sopro de vida “É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.” Perto do coração selvagem “Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim.” A hora da estrela “E de t...

AMOR CONTO DE CLARICE LISPECTOR

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Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação. Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava ...

ANÁLISE DO ROMANCE A HORA DA ESTRELA DE CLARICE LISPECTOR

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Enfim, enfim quebrara-se realmente meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu , eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for, pois "eu" é apenas um dos espamos instântaneos do mundo. (Clarice Lispector - 1920-1977) A hora da estrela, publicado em 1977, é uma obra em que Clarice Lispector flagra uma personagem tanto numerosa quanto desprezada na sociedade brasileira: a imigrante nordestina em estado de miséria. A Macabéa é a menina do sertão que nasceu raquítica, herança do sertão e de maus antecedentes, num ambiente de extrema pobreza, em Alagoas. Ficou órfã dos pais aos dois anos. Ela, então, foi criada à base de cascudos por uma tia beata que a obrigou a estudar datilografia. Com a morte da tia, Macabéa resolveu ir para o Rio de Janeiro, decisão tomada sem que soubesse exatamente por que. No Rio dividia um quarto perto do cais com mais quatro moças (Marias) e trabalhava como datilógrafa num pequ...

A última entrevista de Clarice Lispector

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A entrevista, que ganhou o Prêmio APCA de 'Melhor Entrevista do Ano', foi concedida sob a condição de ser exibida depois da morte da escritora. Veja: Clarice Lispector - parte 1 Clarice Lispector - parte 2 Clarice Lispector - parte 3 Clarice Lispector - parte 4 Clarice Lispector - parte 5