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Aula O Modernismo de Guimarães Rosa

Posted by Profº Monteiro on março 01, 2017
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retirado Equipe Passeiweb



Guimarães Rosa (imagem ao centro), no dia da posse na ABL, em 16 de novembro
de 1967. Cortesia IEB-USP Fundo Guimarães Rosa


Rosa e o Modernismo

O início da carreira literária de Guimarães Rosa aconteceu oficialmente em 1946, com a publicação do livro de contos Sagarana, ao qual se sucederam a reportagem "Com o vaqueiro Mariano", em 1952, (incluída depois em Estas Estórias), o volume de novelas Corpo de Baile e o romance Grande Sertão: Veredas, em 1956; Primeiras Estórias, em 1962, Tutaméia(Terceiras Estórias), em 1967. Em 1969, após a morte do escritor, foram publicados os contos de Estas Estórias, que ele vinha preparando antes de morrer. Em 1970, foram reunidos emAve, Palavra, textos de diversas naturezas (crônicas, discursos etc) escritos durante toda a sua vida.

O livro Corpo de Baile é publicado atualmente em três volumes independentes: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do Sertão.

Como já visto, a obra de Guimarães Rosa tem início na terceira fase do Modernismo e se impõe como um marco na evolução da literatura brasileira. Os textos regionalistas até então costumavam abordar os problemas brasileiros de uma maneira superficial, transportando para a literatura diversos preconceitos. Nesse aspecto, além de Guimarães Rosa, são também exceções Graciliano Ramos e José Lins do Rego.

O regionalismo de Guimarães Rosa deixa de dar ênfase à paisagem para focalizar o ser humano em conflito com o ambiente e consigo próprio. Dessa maneira, as personagens revelam tanto suas particularidades regionais como sua dimensão universal, ou seja, o que elas têm em comum com o restante da humanidade.
A valorização da cultura sertaneja num momento histórico em que predominava um discurso desenvolvimentista coloca o escritor na contramão da literatura brasileira que, praticamente desde seu início, defendeu a modernização do país. Por trás da atitude de Guimarães Rosa está a percepção de que o progresso condenaria ao silêncio o mundo dos contadores de histórias.

"Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. Deste modo a gente se habitua, e narrar estórias corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens."
É possível comparar as diferentes relações que Guimarães Rosa e Graciliano Ramos têm com suas personagens e com o ambiente que elas habitam. Graciliano Ramos aparece como uma consciência crítica, ajudando as personagens a enxergar a miséria de sua condição material e a exploração a que estão sujeitas. Guimarães Rosa tem uma relação de simpatia e identificação com as personagens e a paisagem.

Na obra de Guimarães Rosa, as dualidades e antíteses são comuns para que o conflito do sentimento seja enfatizado. Desse modo, homem e mundo, realidade e devaneio, mundano e divino aparecem sempre em contraste e nos colocam diante de muita angústia, aridez e ceticismo; mas a poesia que perpassa tal obra nos remete a momentos do próprio mundo interior daquelas personagens que, por vezes, retratam nosso desejo de lutas, perdas e glórias.

O sertão e o mundo

Os contos e romances escritos por João Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro. A sua obra destaca-se sobretudo pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares populares e regionais. Tudo isso, unindo à sua erudição, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas.

Em Guimarães Rosa transparece todo o misticismo do sertão, uma religiosidade quase medieval, baseada apenas nos dois extremos e marcada pelo medo, pelo pavor, em que há até mesmo a preocupação de não invocar o demo, para que ele não "forme forma"; daí o diabo ser tratado por "o que não existe" ou "o que não é mas finge ser" e expressões semelhantes.

Assim é o sertão de Rosa: ora particular, pequeno e próximo; ora universal e infinito, pois "o sertão é o mundo" ou, melhor ainda, "o sertão é dentro da gente". Por isso, logo na abertura deGrande sertão: veredas, o autor nos situa diante do problema:

"O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo Jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá - fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniões... O sertão está em toda a parte."
O sertão aparece como um lugar político e econômico, mas também como um lugar metafórico e metafísico, refletindo as perturbações interiores das personagens e seus grandes questionamentos. Mais do que um lugar no espaço, entretanto, o sertão rosiano é uma região criada na linguagem, como observou o crítico Antonio Candido.

"Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos [...] O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda parte."
Em Guimarães Rosa, os elementos próprios do sertão são apenas condutores para uma abordagem dos grandes problemas do homem. Suas estórias extraem do regional a elaboração de temas universais, revelando uma visão global da existência: indagações sobre o destino, o significado da vida e da morte, a existência ou não de Deus etc.

As disputas de terra, a utilização de mão-de-obra escrava ou semi-escrava, as gritantes diferenças sócio-econômicas e culturais permeiam toda a obra de Rosa, contemporânea a questões sobretudo relativas a meio-ambiente e sustentabilidade. Em Grande sertão: veredas, Riobaldo, narrador do romance, explica a seu entrevistador que, se ele foi conhecer as potencialidades ambientais e culturais do sertão, havia chegado tarde, pois, naquele momento, tudo já se achava em estado de degradação, em vias de desaparecimento.

Revolução na linguagem

"A música da linguagem deve expressar o que a lógica da linguagem obriga a crer [...]. O melhor dos conteúdos de nada vale, se a linguagem não lhe faz justiça."

A maior inovação nos livros de Guimarães Rosa é a linguagem: criativa, que explora a sonoridade das palavras, incorpora a fala regional, cria termos adaptando expressões de outras línguas. Essa novidade obriga o leitor a refletir sobre o significado das palavras para compreender a nova dimensão dada a conteúdos já conhecidos.

Sobre esse aspecto da obra de Rosa, o professor Eduardo Coutinho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esclarece: "Como tudo na vida, as formas da linguagem também envelhecem e se tornam completamente inexpressivas após uso prolongado: palavras perdem o seu significado originário, expressões se tornam obsoletas, construções sintáticas inteiras caem em desuso e são substituídas por outras. Cabe, então, ao escritor, consciente de sua missão, refletir sobre cada palavra ou construção que utiliza e fazê-la recobrar sua energia primitiva, desgastada pelo uso. Em outras palavras, ele tem que revitalizar a linguagem".

A fala do povo é utilizada na obra de Guimarães Rosa como linguagem literária, aparecendo não só na fala do sertanejo, mas na própria voz do narrador. Assim, o autor rompe com a tradição em que o narrador escreve "certo" e as personagens falam "errado".

"Escrevo, e creio que este é o meu aparelho de controle: o idioma português, tal como o usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros idiomas. Disso resultam meus livros, escritos em um estilo próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros."
A princípio, percebe-se uma revalorização da linguagem; a seguir, a universalização do regional. O valor da linguagem particular de Guimarães Rosa não está no rebuscamento das palavras no uso de arcaísmos, mas sim nos neologismos, na recriação, na invenção das palavras, sempre tendo como ponto de partida a fala dos sertanejos, suas expressões, suas particularidades. Com isso, as palavras recriadas ganham força e significado novos, como afirma o crítico português Oscar Lopes:

"As metáforas de Guimarães Rosa são tantas e tão originais que produzem um efeito poético radical: o efeito de ressaca do significado novo sobre o significado corrente. A gente lê, por exemplo, que `o sabiá veio molhar o pio no poço, que é bom ressoador', e não fica apenas com uma admirável vocação acústica; as palavras `molhar' e `poço' descongelam-se, libertam-se da sua hibernação dicionarística ou corrente, e perturbam como um reachado todavia surpreendente."
O mesmo estranhamento que a linguagem de Guimarães Rosa provocou no crítico lusitano, podemos perceber em passagens como:

"Joãozinho Bem-Bem se sentia preso a Nhô Augusto por uma simpatia poderosa, e ele nesse ponto era bem-assistido, sabendo prever a viragem dos climas e conhecendo por instinto as grandes coisas. Mas Teófilo Sussuarana era bronco excessivamente bronco, e caminhou para cima de Nhô Augusto. Na sua voz:

- Êpa! Nomopadrofilhospritossantamêin! Avança, cambada de filhos-da-mãe, que chegou minha vez! ...

E a casa matraqueou que nem panela de assar pipocas, escurecida à fumaça dos tiros, com os cabras saltando e miando de maracajás, e Nhô Augusto gritando qual um demônio preso e pulando como dez demônios soltos.

- O gostosura de fim-de-mundo!..."
Trânsito livre da prosa à poesia

Guimarães Rosa aboliu as fronteiras entre prosa e poesia: seus textos são sempre em prosa, mas apresentam inúmeras características que se costumam considerar próprias da poesia, como as rimas, aliterações, onomatopéias etc. É certamente reflexo disso o fato de que as duas narrativas que constituem o livro Manuelzão e Miguilim (Campo geral e Uma estória de amor) são anunciadas no índice como poemas, porque para Guimarães Rosa importa tanto o que é dito (conteúdo) quanto como é dito (forma).

Mesmo a pontuação em seus textos não desempenha uma função ortográfica, mas estética, procurando fazer a escrita se aproximar do ritmo da fala, com travessões, reticências, exclamações, interrogações e, muitas vezes, vírgulas que separam sujeito e predicado, o que evidencia o rompimento do autor com os padrões gramaticais tradicionais, para aderir a uma estética da liberdade.

É importante ressaltar, no entanto, ainda com Eduardo Coutinho, que criando novas formas para a língua portuguesa, Guimarães Rosa "não ultrapassa, em momento algum, as barreiras impostas pela sua estrutura".

Trabalhador detalhista, Rosa estava atento a cada palavra que compunha suas criações e um testemunho de seu processo criativo são os inúmeros cadernos, cadernetas e diários em que anotava fragmentos de realidade que depois usaria na ficção: nomes de animais e plantas, expressões, nomes de lugares e pessoas, tudo.

"Você conhece os meus cadernos, não conhece? Quando eu saio montado num cavalo, por Minas Gerais, vou tomando nota de coisas. O caderno fica impregnado de sangue de boi, suor de cavalo, folha machucada. Cada pássaro que voa, cada espécie, tem vôo diferente. Quero descobrir o que caracteriza o vôo de cada pássaro, em cada momento."
Todo esse trabalho com a linguagem confere mais força ao imaginário mágico criado em suas "estórias". Aproximando-se do que está além da realidade, o contista explora os mistérios do pré-consciente e dos mitos inseridos no ser humano. A linguagem – recriada – do sertão ajuda a revelar esse espaço como um espelho do mundo. Partindo da fala peculiar do sertanejo, o autor a submete a um processo de reelaboração e invenção que a leva a atingir significados absolutamente inesperados. Sem dúvida, identifica-se como matéria-prima o sertão brasileiro com sua fauna, flora, o sertanejo e sua cultura. Mas a magia que desabrocha desse espaço é o que garante a universalidade. O espaço torna-se uma extensão das personagens, que estão sob minuciosa investigação psicológica do autor.

Vale lembrar que João Guimarães Rosa juntamente com Clarice Lispector foram dois grandes destaques da prosa na terceira fase do Modernismo. Extremamente preocupados com a elaboração da linguagem em seu grau máximo de expressão, são chamados pela crítica de romancistas instrumentalistas. Une-os ainda o caráter de sondagem psicológica que insere suas obras entre outras grandes de cunho universalista – isto é, de abordagem de temas atemporais, que refletem a alma humana. Mas as aproximações param por aí: enquanto Clarice Lispector intensificava a abordagem psicológica, afastando seus personagens de um enredo tradicional, Guimarães Rosa preocupou-se em trabalhar enredo e suspense, descobrindo o místico em acontecimentos do cotidiano.

A musicalidade na obra de Guimarães Rosa


Guimarães Rosa com seus gatos, uma
de suas paixões (1944)
“Sou precisamente um escritor que cultiva a idéia antiga, porém sempre moderna, de que o som e o sentido de uma palavra pertencem um ao outro. Vão juntos. A música da língua deve expressar o que a lógica da língua obriga a crer”, afirmou João Guimarães Rosa, dialogando com o crítico alemão Günter Lorenz. As confissões de Rosa a Lorenz evidenciam como o escritor pensava (e sentia) a tensão dinâmica que rege a musicalidade das palavras. O que quer dizer essa musicalidade? Todos os seus significados apresentados pelo Dicionário Houaiss – “caráter, qualidade ou estado do que é musical”; “talento ou sensibilidade para criar ou executar música”; “sensibilidade para apreciar música; conhecimento musical”; “expressão do talento musical de alguém”; e “cadência harmoniosa; ritmo” (Houaiss, 2001) – se mostram oportunos para motivar uma leitura original da obra de Guimarães Rosa.

A prosa do Corpo de Baile, ao encontrar-se tão próxima da poesia em sua essência e origem, contém uma disposição musical que transparece e faz soar sentidos inauditos. Quase desnecessário afirmar que é preciso gostar para dar um acolhimento amoroso. Gostar, verbo que vem da mesma raiz do grego geúo, quer dizer provar ou experimentar. Ler em voz alta ou silenciosamente. Circular na tríade que envolve o leitor, a leitura e o ato de ler. Musicar a obra literária na medida em que o ritmo da leitura venha trazer inevitáveis sugestões melódicas e harmônicas. Aproximar-se da sonoridade de cada palavra.

O encadeamento, a abertura das vogais e a alternância consonantal, por si sós, são elementos que têm como propriedade dar ao leitor a musicalidade do texto. No entanto, a obra de Rosa oferece mais. Faz vibrar a celebração poética dos sons constituídos nas palavras. Sons que prescindem da apreensão representacional do mundo. Palavras que confluem “na alegria de tudo, como quando tudo era falante, no inteiro dos campos-gerais...” (Rosa, 1965, p. 67). Poética no transe de sua sagração sonora, onde o nome e a coisa nomeada se fundem. Unificam-se concomitantemente no mesmo destino cósmico a presença e o som. Consagram-se.

O papel de Guimarães Rosa na Literatura Brasileira

Críticos como Antônio Cândido, Cavalcanti Proença e Benedito Nunes perceberam, desde as primeiras publicações de Rosa, a exuberante e inovadadora riqueza temática, lingüística e estrutural das obras do escritor. Em Grande sertão: veredas, a narrativa radicalmente inovadora se estrutura como um grande diálogo resultante da entrevista concedida pelo ex-jagunço Riobaldo a um homem culto que vem de fora para saber notícias do sertão no tempo da jagunçagem, de suas guerras geradas pelas truculentas disputas de poder e terras. Trata-se de diálogo, ou monodiálogo, em que se houve apenas a voz do entrevistado, como se essa fosse a hora e a vez de um sujeito subalterno pronunciar sua versão da história.

Do ponto de vista lingüístico, Guimarães Rosa operou grandes transformações na sintaxe, na morfologia, nos usos literários em geral, tendo em vista a forma como tais padrões eram empregados até então na literatura brasileira. Além de fragmentar a linearidade das frases para, por exemplo, sugerir a descontinuidade do tempo ou da linguagem oral, ele cria neologismos ou recupera arcaísmos já esquecidos da língua portuguesa. Vale-se, ainda, de construções de palavras que implicam a aglutinação de dois ou mais idiomas no sentido de obrigar sua língua literária a dizer e significar mais do que o habitual, de criar situações inusitadas, de instituir uma espécie de princípio, de inteligibilidade universal, não apenas para sua língua, mas também para os espaços e contextos em que personagens estrangeiros conseguem interagir.

Fonte: José Vinícius Pessoa, Mestre e doutorando em Letras pela UFRJ
retirado passei web

A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA", DE GUIMARÃES ROSA

Posted by Profº Monteiro on maio 25, 2011
João Guimarães Rosa (1908-1967)



O senhor... Mire veja : o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - ma que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior: É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.

João Guimarães Rosa é natural de Condisburgo, Minas Gerais. Estudou as primeiras letras com o mestre Candinho, e francês, com o religioso Frei Esteves. Era um aluno tão brilhante que aos seis anos já lera seu primeiro livro nessa língua. Mudou-se para Belo Horizonte, passando a estudar no colégio Arnaldo. Lá, era frequentemente assíduo da biblioteca , colecionava insetos e borboletas, e estudava por conta própria línguas e História Natural.

Formou-se em Medicina em 1930, clinicando durante dois anos e Itaguara, Minas Gerais, onde logo ganhou fama de médico excelente e consciencioso. De volta a Belo Horizonte trabalha como médico voluntário da Força Pública durante a Revolução de 32, sendo efetivado por concurso dois anos depois.

Como era poliglota foi incentivado por um amigo a prestar concurso no Itamaraty para seguir carreira diplomática. Passou em segundo lugar e, em 1938, foi nomeado cônsul em Hamburgo, na Alemanha. Quatro anos depois, o Brasil rompeu relações diplomáticas com esse país, e Guimarães Rosa e outros funcionários do corpo diplomático ficaram reféns em Baden-Baden, tendo sido libertados em troca de diplomatas alemães detidos em solo brasileiro. Como diplomata exerceu atividades ainda na Colômbia, França e no Rio de Janeiro. Em 1952, fez uma viagem de nove dias a cavalo pelo sertão de Minas Gerais, participando de um grupo que conduzia uma boiada. Essa experiência marcaria demais sua obra. A partir do ano seguinte fixou-se definitivamente no Brasil.

Em 1963, foi eleito para ocupar a cadeira n° 2 da Academia Brasileira de Letras, mas, intuindo sua morte ao tomar posse, adiou-a por quatro anos. Morreu em 16 de novembro de 1967, exatamente três dias de sua posse.
Sagarana, foi publicado em 1946. A obra chamou atenção pela linguagem inovadora, pela singular estrutura narrativa e pela riqueza de simbologia dos contos, que o escritor havia começado a escrever dez anos antes. As histórias se passam em fazendas mineiras, tendo como personagens vaqueiros e criadores de gado.

EPOPÉIA EM MINAS GERAIS




O escritor fez, em maio de 1952, um percurso de 240 quilômetros no sertão mineiro, durante dez dias, conduzindo uma boiada. Na viagem, anotou expressões, casos, histórias, procurando apreender de forma mais profunda aquele universo com o qual tinha contato desde a infância. Seu intuito era recriar literariamente o sertão, dando voz a seus personagens.

Em janeiro de 1956 lançou Corpo de Baile, reunião de novelas que posteriormente passaram a ser publicadas em três volumes: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do Sertão.

Seu único romance, Grande Sertão: Veredas, foi publicado em maio do mesmo ano. O livro é uma rica epopéia ambientada no interior de Minas Gerais, transpondo para o Brasil o mito da luta entre o homem e o diabo. Com linguagem inventiva, explora um vocabulário complexo e inusitado. Há desde a recuperação de termos arcaicos e expressões regionais até a criação de novas palavras, para o que o autor se apoiou em seus amplos conhecimentos lingüísticos (veja abaixo).

O impacto de Grande Sertão: Veredas na cena literária foi muito grande. Desde o início, percebeu-se que se tratava de um dos mais importantes textos da literatura brasileira, o que garantiu ao autor enorme reconhecimento em todo o país. Apesar da complexidade, o livro viria a ser traduzido para diversas línguas.

Em 1961, Guimarães Rosa recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. No ano seguinte, lançou Primeiras Estórias, com 21 contos pequenos.

Candidatou-se à Academia Brasileira de Letras, pela segunda vez, em 1963 e foi eleito por unanimidade. Mas não foi empossado imediatamente, porque adiou a cerimônia enquanto pôde. Dizia ter medo de morrer no dia do evento. Só tomou posse em 16 de novembro de 1967. Três dias depois, em 19 de novembro, morreu subitamente em seu apartamento no Rio de Janeiro, de infarto.

Na língua do povo
Os sentidos de algumas expressões do escritor mineiro:
Balalhar – explodir ou partir-se pela ação de balas.
Carregume – peso, dificuldade, gravidade.
Descriado – criado ao desamparo, desnutrido.
Fraternura – ternura de irmãos.
Grãoir – formar grãos.
Nonada – nada, coisa sem importância.
Trestriste – infeliz, forma enfática de triste


OBRAS DE GUIMARÃES ROSA

ROMANCE

Grande Sertão: Veredas (1956).

CONTOS
Sagarana (1946); Primeiras Histórias (1962); Tutaméia (Terceiras Estórias) (1967); Estas Estórias (póstuma, 1969).

NOVELAS

Corpo de Baile (dois volumes) (1956); a partir da terceira edição (1964), essa obra foi desdobrada em três volumes: Manuelzão e Miguilim; Campo Geral; No Urubuquaquá, no Pinhém; Noites no Ser tão.

DIVERSOS

Ave, Palavra (póstuma, 1970).

A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA




A hora e a vez Augusto Matraga é o nono e último conto de Sagarana, publicado em 1946, marcou a estréia de Guimarães Rosa em nossa literatura e expressa a força e o espírito do sertão de Minas Gerais. Ao contar a história da queda de um homem poderoso em busca de sua redenção: “P’ra o céu, eu vou, nem que seja a porrete!...”.

Esse conto é considerado por muitos críticos, a mais importante produção do escritor em Sagarana, tanto por sua estrutura narrativa, quanto pelo tratamento da luta maniqueísta, e todo o questionamento decorrente de uma tomada de consciência do homem optando por uma dessa forças. É uma mistura de redenção e espiritualidade.

O conto tem início em uma festa de leilão no arraial da virgem Nossa Senhora das Dores do córrego do Murici. É final de festa, e as pessoas de bem que se encontravam nesse leilão foram todos embora, ficando somente os farreadores, e Nhô Augusto estava entre eles.

Ficara apenas duas mulheres, as prostitutas Angélica (negra) e Siriena (branca), os homens aproveitaram a presença do leiloeiro para começarem a algarrazarra leiloando-as.

Nhô Augusto ofereceu por Siriema cinqüenta mil-réis, consegue a prostituta, leva-a para casa, porém no meio do caminho, em um lugar bem iluminado enxerga melhor a mulher, achou-a muito magra “[...] Você tem perna de Manuel – Fonseca, uma fina e outra seca!” ,e manda a mulher embora.

Agora, segue seu caminho e encontra com Quim que trazia um recado de Dona Dionorá, sua esposa, pedindo que ele voltasse para casa. Mas Nhô Augusto ignora o pedido da esposa. Ela fica muito magoada com a falta de consideração, ausência, desprezo, falta de atenção do esposo e resolve partir com a filha, Minita, de 10 anos, em companhia de seu Ovídio Moura.

Nhô Augusto era um homem duro, doido, sem detença, como um bicho grande do mato. E, em casa, sempre fechado em si. Nem com a filha se importava. Da esposa gostava, às vezes: da sua boca, das suas carnes. Adorava farras, mulheres, bebidas, enfim, com os prazeres do mundo.

Quando nosso personagem ficou sabendo da notícia (sua esposa partiu) resolve partir atrás da esposa, entretanto, não obteve apoio de seus capangas, pois ele devia di8nheiro para todos, mesmo assim ele decidiu matar Ovídio, mas antes iria vingar-se de seus capangas e do major Consilva. Então foi à chácara do major e foi recebido à pancada, depois da surra o arrastaram até o rancho do Barranco. Antes de matá-lo, esquentaram o ferro do gado e marcaram sua pele com as iniciais do major Consilva, com a dor, Nhô Augusto levanta gritando e se joga do barranco. Diante disso, os capangas pensaram que ele havia morrido, coloca uma cruz no lugar e vão embora.

Um homem negro (Serapião) que por ali passava, encontra-o e leva-o para seu casebre. A tristeza tomou conta de nosso herói nesse período de recuperação. Certo dia, então disse: “Se eu pudesse ao menos ter absolvição dos meus pecados!...”.

Os negros trouxeram um padre para que ele pedisse perdão por seus pecados e após ouvir do padre que sua hora e sua vez iam chegar, considerou sua vida já acabada e esperava apenas a salvação da sua alma.

A partir desse dia ele começou a trabalhar muito e ajudar ao próximo, pois esperava a salvação da sua alma e a misericórdia divina. Dessa forma, fazia o bem sem escolher a quem, para ganhar o reino do céu.

Nessa vida de abstinência, passaram-se quase seis anos, que não fumava, bebia, não olhava para mulheres, nem discutia.

Nhô Augusto mudou totalmente seu comportamento após a surra que quase o levou à morte , a partir daí resolveu ser uma pessoa do bem. Aqui, nesse momento da narrativa, a personagem passou por uma transformação, obteve uma revelação, é a epifania.

Um dia, passou pela região Tião de Thereza, um velho conhecido de Nhô Augusto, dando notícia de sua família: Dona Dionóra continuava amigada com seu Ovídio e sua filha caíra na vida com um homem desconhecido. O Quim Recadeiro havia morrido de morte – matada, com mais de vinte balas no corpo, por causa dele, Nhô Augusto, quanto tentou vingar-se dos capangas que pensava terem o matado.

Diante desse fato, sentiu-se culpado e fez muitas orações, caridades, para não perder seu lugar no céu.

O tempo foi passando, e Nhô Augusto começou a sentir fome, sono, vontade de fumar e falta de mulher. Na verdade, ele pensou que Deus o havia perdoado e com todas essas vontades não se sentiu pecando por isso.

E, é justo nesse momento, que Nhô Augusto considera-se perdoado por Deus, que certo dia aconteceu um fato até hoje lembrado pelo povinho do Tombador, pois chegou ao lugarejo um bando de homens valentões. Nosso personagem foi até o chefe, Joãozinho Bem-Bem, e ofereceu sua casa para que ele ficasse bem hospedado.

Todos conversaram muito bem, durante à noite, e o líder do bando, na hora de ir embora, convidou nosso herói para ir com eles, mas o convite foi recusado. Apesar disso, os invejou “[...] Aqueles, sim, que estavam no bom, porque não tinham de pensar em coisa nenhuma de salvação de alma.” Pensou bem e considerou que essa história de andar pra trás e, por isso, decidiu retornar aos seus antigos caminhos.

Voltou a beber e a sentir saudades das mulheres. Alguns dias depois, despediu-se e foi embora em um jumento emprestado, animal sagrado, misturado às passagens da vida de Jesus.

Então, ele foi ao encontro do bando de Joãozinho Bem-Bem, mas sem a menor idéia de onde encontrá-lo, diante disso, deixou que o jegue o levasse, e entraram em um arraial, denominado Rala – coco, por coincidência, estava a jagunçada de Joãozinho Bem-Bem. Nhô Augusto foi recebido pelo grupo com muita satisfação.

Mas, infelizmente, quando nosso protagonista chega ao arraial está acontecendo uma confusão, na qual Joãozinho Bem-Bem ia matar um homem para vingar a morte do Juruminho, seu colega de bando. Porém, como o culpado havia fugido, “A família vai pagar, direito!”.

Diante disso, chegou o velhote, pai do traidor, ou melhor, pai do matador de Juruminho, este chegou implorando por misericórdia, entretanto, Joãozinho Bem-Bem não queria desculpas “[...] Um dos dois rapazinhos seu filhos têm de morrer, de tiro ou à faca, e o senhor pode é escolher qual deles é que deve de pagar pelo crime do irmão. E as moças... Para mim não quero nenhuma, que mulher não me enfraquece: as mocinhas são para os meus homens...”.

Dessa forma, nosso personagem principal interveio, alegando um pedido em nome de Nosso Senhor e da Virgem, esse pedido tinha que ser respeitado. Então, Joãozinho sentiu-se preso a Nhô Augusto por respeito e não soube o que fazer. Seu bando, no entanto, liderado por Teófilo Sussuara, que era um homem bronco, excessivamente bronco, caminhou para cima de Nhô Augusto, e Joãozinho Bem-Bem também entrou na briga.

O povo encheu a rua, a distância, para ver a briga de Joãozinho Bem-Bem mais o homem do jumento. Por fim, nosso herói cortou a barriga do chefe do bando, condenando-o à morte. Preocupado com a salvação de Joãozinho Bem-Bem, Nhô Augusto pediu que ele se arrependesse de seus pecados, entretanto, não ouviu resposta, pois este morreu e4m seguida.

Nhô Augusto estava muito machucado e pediu para chamar um padre “[...] Pede para ele vir me abençoando pelo caminho, que senão é capaz de não me achar mais ...”.

O povo de Rala-coco dizia: “Foi Deus quem mandou esse home no jumento, por mor de saber as famílias da gente...” E o velho dizia: “Não deixem este santo morrer assim...”.

No final, Nhô Augusto pergunta se no meio daquela multidão alguém ouviu falar de Nhô Augusto Estêves, das Pindaíbas!

Neste momento, apareceu João Lomba, conhecido velho e meio parente, o qual obteve um pedido de Augussto Matraga, que colocasse a bênção em sua filha e que dissesse a Diónora que está tudo em ordem. Depois disso, morreu.

Nota-se que nesse final, o personagem é chamado de Augusto Matraga, e, assim, faz uma relação com o início do conto: “Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves”, pois no início do conto a personagem principal é designada como Augusto Esteves, que mora em Murici, onde é um espaço físico e, também, existencial da personagem, aqui, ele é um homem mandão, autoritário, que vive uma vida de farras, mulheres, capangas, bebidas, não se importa nem com a família. Esse nome possui uma relação social, impõe respeito, poder, e, além disso, ele é filho do coronel Afonsão Esteves, o qual possui dinheiro, porém com a morte deste, Augusto Esteve começa a esbanjar o dinheiro do pai e acaba perdendo tudo, até seus capangas por falta de pagamento.

Após alguns conflitos com seus capangas, Major Consilva, abandono da esposa, surra que levou é nomeado por Nhô Augusto, um período de penitência, sacrifícios, tudo que faz é trabalhar, trabalhar o tempo todo e ajudar o próximo, assim, conseguiria o perdão divino referente aos pecados do passado. Fazia o bem sem escolher a quem, porque seu objetivo era ir ao céu.

Nesse período que a personagem renasceu para uma nova vida, fazer o bem, ele faz reflexões de sua vida, uma busca existencial, é uma travessia existencial, isto é, era um homem mal e, agora, é do bem, e a todo o momento do enredo há esse questionamento maniqueísta.

Nesse tempo de sacrifícios dos prazeres do mundo, aparece um bando de jagunços e traz o encontro de Nhô Augusto com Joãozinho Bem-Bem, os quais são responsáveis pelo final do conto, pois no final da história acontece uma discussão, briga, isso é motivo da morte gloriosa e salvadora do protagonista Augusto Matraga.

Voltando ao momento em que os Jagunços de Bem-Bem chegaram em Tombador, aqui a personagem sente vontade de mudar de vida, ir para o caminho do mundo, achava que Deus já o havia perdoado, portanto, não precisava continuar com todos aqueles sacrifícios.

O espaço Tombador não é apenas um espaço físico, mas também, está relacionado com a existência da personagem, seu momento de travessia existencial. No final do conto “Augusto Matraga, Matraga não é Matraga, não é nada”, logo ,volta ao início da narrativa. Nesse instante, a personagem é nomeada como Augusto Matraga e encontra-se no arraial de Rala-coco.

Quando ele está nos últimos momentos de sua vida, revela-se como Augusto Esteves, da Pindaíba, e preocupa-se com a família, dando a bênção para sua filha e perdoa Diónora, ambas com moradia desconhecida para Augusto Matraga, e após esse pedido morre.

Vale mencionar que existe uma relação entre essa história e a bíblia. Augusto Matraga morreu para ajudar uma pessoa, ou melhor, salvar uma vida, assim como Jesus, que morreu para nos dar a vida eterna.

O intuito da personagem era alcançar o reino do céu, mesmo utilizando da violência. A sua história é uma travessia em busca da absolvição de seus pecados do passado, ou seja, gira em torno desse conflito entre o bem e o mal.