Exercícios – “Livros do Vestibular” Viagens na minha terra – Almeida Garret
Leia o trecho a seguir, para
responder as questões 1 a 8.
“Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou explicar como nós hoje
em dia fazemos a nossa literatura. Já me não importa guardar segredo; depois
desta desgraça, não me importa já nada. Saberás, pois, ó leitor, como nós
outros fazemos o que te fazemos ler.
Trata-se de um romance, de um drama. Cuidas que vamos estudar a
História, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros, os edifícios,
as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o
somos. Desenhar caracteres e situações do vivo da natureza − colori-los das
cores verdadeiras da História… Isso é trabalho difícil − longo − delicado;
exige um estudo, um talento, e sobretudo um tacto!… Não, senhor, a coisa faz-se
muito mais facilmente. Eu lhe explico.
− Todo o drama e todo o romance precisa de: Uma ou duas damas, Um pai,
Dois ou três filhos de dezanove a trinta anos, Um criado velho, Um monstro,
encarregado de fazer as maldades, Vários tratantes, e algumas pessoas capazes
para intermédios.
Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eugénio Sue, de
Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras que precisa,
gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde, pardo, azul – como
fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e scrap-books; forma com elas os
grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos
disparatados. Depois vai-se às crônicas, tiram-se uns poucos de nomes e
palavrões velhos; com os nomes crismam-se os figurões; com os palavrões
iluminam-se… (estilo de pintor pinta-monos). – E aqui está como nós fazemos a
nossa literatura original.”
(Capítulo. V –
fragmento) in Garrett, Almeida. “Obra Completa – I”)
Almeida Garrett (1799-1854), que
pertenceu à primeira fase do romantismo português, é poeta, prosador e
dramaturgo dos mais importantes da Literatura Portuguesa. Em Viagens na Minha Terra (1846), mistura,
em prosa rica, variada e espirituosa, o relato jornalístico, a literatura de
viagens, as divagações sobre temas da época e os comentários críticos, muitas
vezes mordazes, sobre a literatura em voga, no período. Releia o texto que lhe
apresentamos e, a seguir, responda:
1) (Vunesp-SP) A que gêneros
literários se refere Almeida Garrett?
2) (Vunesp-SP) Quais os principais defeitos, segundo Garrett, dos
escritores que elaboravam obras de tais gêneros?
3) (Vunesp-SP) No texto apresentado, Garrett dirige-se mais de uma
vez ao leitor, de maneira informal e descontraída, como se estivesse dialogando
com ele. Baseando-se nessa informação, mostre de que modo o tom de
informalidade se revela também nas formas de tratamento gramatical que o
escritor usa para dirigir-se ao leitor.
4) Em que consiste a ironia do
trecho ” E aqui está como nos fazemos a nossa literatura original”, no final do
texto transcrito?
Leia o trecho a seguir, para
responder as questões 5 e 6.
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho
que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre
é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a
sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque
o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o
livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e
fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à
esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam
e caem…
E caem! — Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como
quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma
lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca
para rir, também não deixa olhos para chorar… Heis de cair.
Machado de Assis, Memórias
Póstumas de Brás Cubas.
5) Tanto no texto de Almeida Garrett como no
de Machado de Assis, ocorre Metalinguagem, e ambos os autores, além de tecer
comentários acerca de literatura, dirigem-se a seus leitores, cada qual
pressupondo um tipo de leitor. Comente acerca do tipo de leitor que Garrett e
Machado tem em mente quando tecem seus comentários.
6) No texto de Machado de Assis,
explique o emprego dos pronomes demonstrativos este e esse nos trechos “ Começo
a arrepender-me deste livro “expedir alguns magros capítulos para esse mundo”,
considerando a relação espacial que esses pronomes evidenciam.
Leia o trecho a seguir, para
responder as questões 7 e 8.
Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro das
árvores a janela meia aberta de uma habitação antiga mas não delapidada (…)
Interessou-me aquela janela.Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali?
Parei e pus-me a namorar a janela. Encantava-me, tinha-me ali como num
feitiço. Pareceu-me entrever uma cortina branca… e um vulto por detrás…
Imaginação decerto! Se o vulto fosse feminino!… era completo o romance.
Como há-de ser belo ver pôr o Sol daquela janela!…E ouvir cantar os
rouxinóis!…E ver raiar uma alvorada de Maio!…
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (Capitulo X)
7) (Fuvest-SP) Com dados extraídos do texto, explique o papel da
natureza na estética romântica.
8 ) “Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro
das árvores a janela meia aberta de uma habitação antiga mas não delapidada”
– Comente o emprego da palavra meia, `a
luz das normas gramaticais atuais.
Respostas:
1) Refere-se aos gêneros
literários românticos (na prosa) e ao drama (no teatro).
2) Segundo Garrett, tais
escritores não desenvolvem literatura original, recorrendo a fórmulas prontas
de como escrever – ” Todo o drama e todo o romance precisa de: Uma ou duas
damas, um pai (…)” – e a elementos de outras literaturas – “vai-se aos
figurinos franceses de Dumas, de Eugenio Sue, de Victor Hugo, e recorta a
gente”. Trata-se de uma critica ao modo de produção literária de sua época.
3) O autor usa a segunda pessoa
do singular como pronome de tratamento (tu), que no português ”de Portugal” é
mais informal, como acontece no trecho “te vou explicar”; e também utiliza um
vocabulário informal como em “não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nos
o somos”.
4) A ironia consiste no fato de o
autor explicar nos parágrafos precedentes a “fórmula pronta” utilizada para
escrever prosa, o que acaba com a originalidade. A crítica dirige-se aos
escritores da estilo da época - o Romantismo – especialmente `a literatura de
folhetim.
5) O leitor pressuposto por
Garrett é ingênuo – iludido com os princípios literários da época - o que pode
ser percebido em “não seja pateta, senhor leitor”, isso porque esse leitor se
engana quanto a originalidade das obras. Já Machado de Assis trata seu leitor
como ávido, que busca chegar logo ao desfecho da narrativa, algo identificado
no contexto do Realismo (que buscava a escrita direta, objetiva e cientifica),
o que é visto em “tu amas a narração direta e nutrida”.
6) O narrador, Brás Cubas,
trabalha com a primeira pessoa na narração, assim utiliza “deste livro”
referindo-se ao objeto que encontra-se próximo a ele enquanto escreve. Quando
se refere ao mundo, utiliza “esse” porque o assunto/objeto está próximo ao
leitor, tratado como segunda pessoa.
7) A beleza e estética românticas
são baseadas na expressão dos sentimentos e emoções do sujeito. Nesse contexto,
a natureza é um modo de representação do estado de espirito do sujeito. “Como
há de ser belo ver o por-do-sol daquela janela” exemplifica o tom alegre da
passagem em que Garrett descreve a casa da menina dos rouxinóis.
8 ) Segundo as normais atuais, o
uso de “meia” está desviado, pois na norma culta o advérbio nao concorda com o
substantivo, no caso ” janela ” e o padrão seria ” janela meio aberta”. Cabe observar que na época em que o livro foi
publicado essa norma não existia.
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