CUCA-Unesp Exercícios – “Livros do Vestibular” Capitães da areia – Jorge Amado
1) (Enem 2010)
Texto I
Logo depois transferiram para o
trapiche o depósito dos objetos que o trabalho do dia lhes proporcionava.
Estranhas coisas entraram então para o trapiche. Não mais estranhas, porém, que
aqueles meninos, moleques de todas as cores e de idades as mais variadas, desde
os nove aos dezesseis anos, que à noite se estendiam pelo assoalho e por
debaixo da ponte e dormiam, indiferentes ao vento que circundava o casarão
uivando, indiferentes à chuva que muitas vezes os lavava, mas com os olhos
puxados para as luzes dos navios, com os ouvidos presos às canções que vinham
das embarcações...
AMADO,
J. Capitães da Areia. São Paulo:
Companhia das Letras, 2008 (fragmento).
Texto II
À margem esquerda do rio Belém, nos
fundos do mercado de peixe, ergue-se o velho ingazeiro – ali os bêbados são
felizes. Curitiba os considera animais sagrados, provê as suas necessidades de
cachaça e pirão. No trivial contentavam-se com as sobras do mercado.
TREVISAN,
D. 35 noites de paixão: contos
escolhidos. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009 (fragmento).
Sob
diferentes perspectivas, os fragmentos citados são exemplos de uma abordagem
literária recorrente na literatura brasileira do século XX. Em ambos os textos:
a)
a linguagem afetiva aproxima os narradores dos personagens marginalizados.
b)
a ironia marca o distanciamento dos narradores em relação aos personagens.
c)
o detalhamento do cotidiano dos personagens revela a sua origem social.
d)
o espaço onde vivem os personagens é uma das marcas de sua exclusão.
e)
a crítica à indiferença da sociedade pelos marginalizados é direta.
2) (Fuvest-2010)
Inimigo da riqueza e do trabalho,
amigo das festas, da música, do corpo das cabrochas. Malandro. Armador de
fuzuês. Jogador de capoeira navalhista, ladrão quando se fizer preciso.
Jorge
Amado, Capitães de areia.
O
tipo cujo perfil se traça, em linhas gerais, neste excerto, aparece em romances
como Memórias de um sargento de milícias,
O cortiço, além de Capitães de areia. Essa recorrência
indica que
a)
certas estruturas e tipos sociais originários do período colonial foram
repostos durante muito tempo, nos processos de transformação da sociedade
brasileira.
b)
o atraso relativo das regiões Norte e Nordeste atraiu para elas a migração de
tipos sociais que o progresso expulsara do Sul/Sudeste.
c)
os romancistas brasileiros, embora críticos da sociedade, militaram com
patriotismo na defesa de nossas personagens mais típicas e mais queridas.
d)
certas ideologias exóticas influenciaram negativamente os romancistas
brasileiros, fazendo-os representar, em suas obras, tipos sociais já extintos
quando elas foram escritas.
e)
a criança abandonada, personagem central dos três livros, torna-se, na idade
adulta, um elemento nocivo à sociedade dos homens de bem.
3) (Fuvest-2010)
Considere
a seguinte relação de obras: Auto da
barca do inferno, Memórias de um
sargento de milícias, Dom Casmurro
e Capitães da areia. Entre elas,
indique as duas que, de modo mais visível, apresentam intenção de doutrinar, ou
seja, o propósito de transmitir princípios e diretivas que integram doutrinas
determinadas.
Divida
sua resposta em duas partes: a) para a primeira obra escolhida e b) para a
segunda obra escolhida, conforme já vem indicado na respectiva página de
respostas.
Justifique
sucintamente cada uma de suas escolhas.
4) (Fuvest-2011) Entre as variedades de preconceito enumeradas
a seguir, aponte aquelas que o grupo dos “capitães da areia” (do romance
homônimo) rejeita e aquelas que acata e reforça: preconceito de raça e cor; de
religião; de gênero (homem e mulher); de orientação sexual. Justifique suas
respostas.
5) (Fuvest-2012) Leia o seguinte excerto de Capitães da areia, de Jorge Amado, e
responda ao que se pede.
O sertão comove os olhos de Volta
Seca. O trem não corre, este vai devagar, cortando as terras do sertão. Aqui
tudo é lírico, pobre e belo. Só a miséria dos homens é terrível. Mas estes
homens são tão fortes que conseguem criar beleza dentro desta miséria. Que não
farão quando Lampião libertar toda a caatinga, implantar a justiça e a
liberdade?
Compare
a visão do sertão que aparece no excerto de Capitães da areia com a que está presente no livro Vidas secas, de
Graciliano Ramos, considerando os seguintes aspectos:
a)
a terra (o meio físico);
b)
o homem (o sertanejo).
Responda,
conforme solicitado, considerando cada um desses aspectos nas duas obras
citadas.
6) (Unicamp-2010) Leia o trecho abaixo, do capítulo “As luzes
do carrossel”, de Capitães da Areia:
O sertanejo trepou no carrossel, deu
corda na pianola e começou a música de uma valsa antiga. O rosto sombrio de
Volta Seca se abria num sorriso. Espiava a pianola, espiava os meninos envoltos
em alegria. Escutavam religiosamente aquela música que saía do bojo do
carrossel na magia da noite da cidade da Bahia só para os ouvidos aventureiros
e pobres dos Capitães da Areia. Todos estavam silenciosos. Um operário que
vinha pela rua, vendo a aglomeração de meninos na praça, veio para o lado
deles. E ficou também parado, escutando a velha música. Então a luz da lua se
estendeu sobre todos, as estrelas brilharam ainda mais no céu, o mar ficou de
todo manso (talvez que Iemanjá tivesse vindo também ouvir a música) e a cidade
era como que um grande carrossel onde giravam em invisíveis cavalos os Capitães
da Areia. Nesse momento de música eles sentiram-se donos da cidade. E amaram-se
uns aos outros, se sentiram irmãos porque eram todos eles sem carinho e sem
conforto e agora tinham o carinho e conforto da música. Volta Seca não pensava
com certeza em Lampião nesse momento. Pedro Bala não pensava em ser um dia o
chefe de todos os malandros da cidade. O Sem-Pernas em se jogar no mar, onde os
sonhos são todos belos. Porque a música saía do bojo do velho carrossel só para
eles e para o operário que parara. E era uma valsa velha e triste, já esquecida
por todos os homens da cidade.
(Jorge
Amado, Capitães da Areia. São Paulo:
Companhia das Letras, 2008, p. 68.)
a)
De que modo esse capítulo estabelece um contraste com os demais do romance?
Quais são os elementos desse contraste?
b)
Qual a relação de tal contraste com o tema do livro?
7) (Unicamp-2011) Leia a passagem seguinte, de Capitães da areia:
Pedro
Bala olhou mais uma vez os homens que nas docas carregavam fardos para o navio
holandês. Nas largas costas negras e mestiças brilhavam gotas de suor. Os
pescoços musculosos iam curvados sob os fardos. E os guindastes rodavam
ruidosamente. Um dia iria fazer uma greve como seu pai... Lutar pelo direito...
Um dia um homem assim como João de Adão poderia contar a outros meninos na
porta das docas a sua história, como contavam a de seu pai. Seus olhos tinham
um intenso brilho na noite recém-chegada. (Jorge Amado, Capitães da areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 88.)
a)
Que consequências a descoberta de sua verdadeira origem tem para a personagem
de Pedro Bala?
b)
Em que medida o trecho acima pode definir o contexto literário em que foi
escrito o romance de
Jorge Amado?
Respostas:
1) d
2) a
3) a) O Auto da Barca do Inferno é informado
por princípios da moral cristã, pelos quais são julgados os comportamentos dos
mortos prestes a embarcar, no “cais das almas”, para o mundo post-mortem, em
que serão punidos ou recompensados.
b)
Capitães da Areia é um romance em
que se faz a apologia da revolução socialista como panaceia para as injustiças
sociais decorrentes do regime capitalista. É uma obra que busca o “engajamento”
na luta social, tendo sido por isso proibida durante o Estado Novo. A intenção
de doutrinar politicamente o leitor é recorrente, como exemplifica o final: “E,
apesar de que lá fora era o terror, qualquer daqueles lares era um lar que se
abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é uma pátria e
uma família”.
4) a) O grupo dos “capitães da areia” rejeita o preconceito
de raça e de cor. Nele convivem mulatos,
brancos e negros, sem hostilidade de caráter racial.
b) O grupo rejeita também o preconceito religioso, pois nele
convivem um praticante do catolicismo,
como Pirulito, que mais tarde será padre, e adeptos do
candomblé, como é o caso de João Grande.
O grupo vê como amigos tanto o padre José Pedro como a
mãe-de-santo dona Aninha.
c) O preconceito de gênero existe no grupo dos capitães da
areia até a admissão de Dora. A chegada da menina ao trapiche é momento de
grande tensão, porque há tentativa de estuprá-la. Após a intervenção de Pedro
Bala, a integridade de Dora é preservada e ela se torna integrante do grupo e amante
de seu protetor.
d) Há preconceito de orientação sexual, pois os capitães da
areia expulsam do grupo o homossexual passivo, cuja presença contraria seu
código moral.
5) a) O sertão, para Volta Seca, é “lírico, pobre e belo” e
“comove os olhos”. Em Capitães da areia,
o sertão é belo porque os “homens (...) conseguem criar beleza dentro dessa
miséria”.
b) O homem, em Capitães da areia, é capaz de transcender o
seu estado de miséria e criar beleza, justiça e liberdade, por meio da tomada
de consciência de seu papel social. Em Vidas Secas, ele é incapaz de superar a
miséria que se revela tanto no plano físico quanto no intelectual.
6) a) O capítulo estabelece um contraste com os demais do
livro opondo a alegria e a despreocupação do momento em que os capitães da
areia brincam no carrossel à luta pela sobrevivência que os ocupa ao longo de
todo o romance. Nesse sentido, o capitulo lhes restitui a infância roubada por
preocupações que deveriam ser apenas dos adultos. Elementos desse contraste são
a alegria da música em lugar da fome. O carinho da vida em família – nesse
momento são todos irmãos – em lugar da solidão. A cidade como um imenso
brinquedo, e não como o lugar da luta pela sobrevivência, cheio de perigos. Em
resumo: a inocência da infância em lugar da consciência da vida adulta.
b) Capitães da Areia é um romance sobre a infância
abandonada. Em contraste com os demais capítulos do livro, que acentuam a
precocidade dos Capitães da Areia, este acentua o fato de ainda serem crianças.
O ponto de vista do romance, portanto, é o de que suas atitudes violentas são
decorrentes da carência de tudo o que caracterizaria uma infância feliz – eram
todos sem carinho e sem conforto. No momento em que recebem o carinho e o
conforto da música, esquecem o seu dia a dia violento, e mesmo os seus sonhos
de triunfarem pela violência – como chefes de bando, cangaceiros – ou de
fugirem dela pela morte. A imagem da cidade, palco de suas ações violentas,
ganhando a aparência de um grande brinquedo, um grande carrossel, está em
consonância com a proposta de revolução política do romance, que é responsável
por seu desfecho, afinal, esperançoso.
7) a) A descoberta da verdadeira origem de Pedro Bala tem a
consequência de atribuir um sentido às ações da personagem. O que até então
fora apenas luta pela sobrevivência e reação instintiva contra a violência
sofrida, adquirirá um sentido de missão transformadora, com a superação da
alienação política inicial. De líder de um bando de infratores, sem qualquer
consciência ideológica, Pedro Bala se desenvolverá no sentido de se
tornarmilitante de um movimento de transformação social, buscando seguir os
passos do pai, em quem passa a se espelhar. Ele almeja para si uma imagem
heróica similar à do pai.
b) Jorge Amado pertence à geração dos romancistas da década
de 30. A respeito desse período, fala-se geralmente em romance social. O
romance é visto como um instrumento de interpretação da realidade e de sua
transformação. Pode-se acrescentar que a construção de um herói positivo, no
caso deste romance, aproxima o autor da vertente do realismo socialista.
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