O funcionalismo europeu

O funcionalismo europeu

A importância do funcionalismo lingüístico.
Na primeira metade do século XX, diversas teorias, tais como a fenomenologia, o existencialismo e a arquetipologia, surgiram num contexto que propiciou a reorganização e, até mesmo, a criação de novas sistematizações a partir de um ramo do conhecimento. Com as contribuições do Cours de linguistique générale, de Ferdinand Saussure, a Lingüística passou a ser considerada uma ciência de dados – a posteriori. Surge, então, os estruturalismos lingüísticos, que veio a influenciar diversas áreas do conhecimento, como a pedagogia com Jean Piaget, a antropologia com Claude Lévi-Strauss, a filosofia com Martin Heidegger.
O estruturalismo lingüístico propiciou a criação de um movimento que engloba outros específicos, tais
como o formalismo e o funcionalismo. Este último representou uma grande contribuição para o estudo da lingüística na medida em que formulou novos postulados teóricos, uma nova metodologia e uma nova divisão epistemológica ao separar Fonética e Fonologia, e ao atribuir, à última, autonomia em relação às outras disciplinas da Lingüística. O funcionalismo constituiu-se como um modo de pensamento e um modo de analisar a linguagem e suas relações com o mundo. Ele surge a partir dos trabalhos do Círculo de Praga e do Círculo de Copenhague, a partir do qual nasce à Fonologia com Troubetskoï e a Glossemática com Hjelmslev.

A lingüística oriunda do Círculo de Praga constitui um tipo de revolução epistemológica nos enfoques europeus da língua, nos anos 20 do século passado. Ele combinou o estruturalismo e o funcionalismo a partir do postulado geral de que a estrutura das línguas é determinada por suas funções características.

O postulado de que a língua tem uma função, representou um grande avanço no estudo da Lingüística na medida em que foi incorporando fatores extralingüísticos na análise lingüística. Desta forma, a língua é aqui um sistema orientado para uma finalidade que é a da comunicação, ou seja, a língua possui funções. A função foi definida como a tarefa atribuída a um elemento lingüístico estrutural para atingir um objetivo no quadro da comunicação humana. O postulado do Círculo de Praga ressalta duas funções gerais: a função de comunicação e a função poética, de modo que a primeira é dirigida para um significado e a segunda é dirigida para o próprio signo.
No seu Cours de linguistique générale, Saussure já havia postulado a dicotomia entre os métodos diacrônicos e sincrônicos de análise lingüística. No funcionalismo privilegiou o método sincrônico, alegando que somente uma análise de todo o complexo de fenômenos que se produzem simultaneamente num momento dado permite apreender a interdependência sincrônica que os relaciona no sistema.

A escolha da sincronia representou também a aproximação das pesquisas lingüísticas com o campo social da arte e da criação. Tal aproximação representou uma grande contribuição ao desenvolvimento da estética literária do século XX. Jakobson, com sua poética, estreita os laços entre Literatura e Lingüística a partir do uso poético da linguagem. Ele atribui à linguagem poética uma definição que a situa no cruzamento da fala e da comunicação. Ela tem, do ponto de vista sincrônico, a forma da fala, de um ato criador individual (ou seja, de um sujeito empírico) que toma seu valor, de uma parte, sobre o fundo da tradição poética atual e, de outra parte, sobre o fundo da língua comunicativa contemporânea.

A outra grande contribuição do funcionalismo pragueano foi o desenvolvimento da Fonologia com Troubetskoï. Ele instaurou e sintetizou a Fonologia como disciplina e ressaltou a necessidade de separar claramente a Fonética e a Fonologia. O som como fenômeno físico tornou-se o objeto da Fonética, enquanto que o som considerado nas suas funções tornou-se objeto da Fonologia. A partir da consideração da função do som, foi criado o conceito de fonema, uma unidade fonológica que não se deixa analisar em unidades fonológicas ainda menores e sucessivas. Seu conceito é antes de tudo funcional e se mostrou de grande ajuda para a instauração da Fonologia como disciplina autônoma.

O funcionalismo não se restringiu ao Círculo de Praga. Ele estendeu-se e desenvolveu novos conceitos a partir do Círculo lingüístico de Copenhague, que teve a figura de Hjelmslev como principal expoente. A teoria esboçada por Hjelmslev afirma que a análise da língua é aquela de um conjunto de funções, isto é, de relações entre diferentes variáveis do mesmo processo. O objetivo da análise lingüística consiste em interpretar toda formação dos signos como uma manifestação do sistema. Ele distingue três tipos de funções: as relações de interdependência, de determinação e de constelação.
Outra grande contribuição, feita por Hjelmslev, foi a introdução de um terceiro termo na relação “langue/parole” (desenvolvida por Saussure) que é a norma e a reinterpreta como norma/uso/esquema. A norma é concebida como generalização coletiva do uso. Hjelmslev também afirma que o signo constitui uma função com duas variáveis, de modo que o significado é redefinido como conteúdo e o significante como expressão. Sua glossemática exerceu enorme influência sobre o desenvolvimento da semiótica européia e estadunidense.

Podemos concluir que o funcionalismo tem uma importância fundamental para a lingüística contemporânea e que suas premissas serviram de base e impulsionaram o desenvolvimento e a sistematização da Lingüística como uma ciência. Suas premissas, sejam a partir do Círculo de Praga ou do Círculo de Copenhague, criaram uma nova forma de divisão epistemológica do conteúdo da Lingüística a partir da distinção entre Fonética e Fonologia (com os trabalhos de Troubetskoï, que caracterizou esta última como disciplina autônoma), além de privilegiar o método sincrônico e desenvolver o principal conceito do funcionalismo: o conceito de função – com a função poética e a função comunicativa, sendo as estruturas das línguas determinadas por tais funções.
Já com Hjelmslev foi elaborado a Glossemática, que lançou as bases para a Semiótica e a Semântica Estrutural.
O funcionalismo expressou um grande salto no desenvolvimento da Lingüística e de postulados teóricos que serviram de base para o desenvolvimento de novas abordagens teóricas neste campo: Teoria da Comunicação, Sociolingüística, Fonologia, Semântica Estrutural, Poética Estrutural, etc.

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