
| Março/98 por Ledercy Gigante de Oliveira | |
Está começando mais um ano letivo nas escolas públicas. A televisão e a figura conhecida de Pelé mostram a importância da educação e conclamam os dois milhões de crianças que estão fora da escola a fazerem sua matrícula no ensino fundamental.
Os meios de comunicação de massa noticiam ainda que a educação brasileira empreenderá uma reforma capaz de eliminar o enciclopedismo dos currículos. Elaborada pela Fundação Carlos Chagas a pedido do MEC, esta reforma está contida nos Parâmetros Curriculares Nacionais para as quatro primeiras séries do ensino fundamental (os de 5ª a 8ª séries estão em elaboração). A reforma elegeu a cidadania como eixo da educação nacional e objetiva desenvolver no aluno a capacidade de aprender, o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo, além da compreensão do mundo natural e social. O aluno aprenderá os conteúdos tradicionais e os "temas transversais": ética, meio ambiente, pluralidade cultural, saúde e orientação sexual. Através da transversalidade pretende-se que tais temas integrem as áreas convencionais de forma a estarem presentes em todas elas, relacionando-as às questões da atualidade. Com essa modernização do ensino fundamental podemos dormir tranqüilos. A educação brasileira formará um novo tipo de cidadão. Maravilha, o primeiro mundo é aqui! Façamos, porém, uma rápida radiografia da educação pública paulista, uma das mais privilegiadas. Escolas fechadas ou em péssimo estado de conservação, com classes superlotadas. Falta espaço físico para abrigar crianças com sete anos incompletos. Sorteio de vagas para o 2o grau. Municipalização de escolas estaduais feitas a toque de caixa. Além disso, a secretária da educação, Roserley Neubauer, baixou normas diminuindo o número de aulas das matérias do ensino fundamental e médio e estendeu a aula de 50 para 60 minutos (o que implica aumento da jornada do professor) e com isso conseguiu seu intento: enxugar a folha de pagamento da educação, dispensando 20 mil professores a quem qualificou genericamente como "leigos", muitos com vários anos de magistério. Foram estes professores, hoje dispensados, que se sujeitaram a dar aulas em escolas sucateadas, sem a mínima infra-estrutura e segurança, em classes superlotadas e recebendo salários aviltantes. Foram eles, a quem a Secretária insiste em chamar de leigos, os humilhados pelo governo ao receberem gratificações, vale transporte, vale alimentação não incorporados aos vencimentos. Um dos objetivos destas medidas consiste em ludibriar o preceito constitucional de equiparação dos salários entre o pessoal da ativa e os aposentados. São eles que voltam para casa, sem aulas, calados. Para os demais, a luta continua. Sem dúvida, o Haiti é aqui! | |