Questões sobre Memórias de um sargento de milícias

Posted by Profº Monteiro on junho 02, 2016


TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Declaração

Devia começar, como o sabe de cor e salteado a maioria dos leitores, que é sem dúvida nenhuma muito entendida na matéria, por uma declaração em forma.
Mas em amor, assim como em tudo, a primeira saída é o mais difícil. Todas as vezes que esta ideia vinha à cabeça do pobre rapaz, passava-lhe uma nuvem escura por diante dos olhos e banhava-se-lhe o corpo em suor. Muitas semanas levou a compor, a estudar o que havia de dizer a Luizinha quando aparecesse o momento decisivo. Achava com facilidade milhares de ideias brilhantes: porém, mal tinha assentado em que diria isto ou aquilo, já isto ou aquilo lhe não parecia bom. Por várias vezes, tivera ocasião favorável para desempenhar a sua tarefa, pois estivera a sós com Luizinha; porém, nessas ocasiões, nada havia que pudesse vencer um tremor nas pernas que se apoderava dele, e que não lhe permitia levantar-se do lugar onde estava, e um engasgo que lhe sobrevinha, e que o impedia de articular uma só palavra. Enfim, depois de muitas lutas consigo mesmo para vencer o acanhamento, tomou um dia a resolução de acabar com o medo, dizer-lhe a primeira coisa que lhe viesse à boca.
Luizinha estava no vão de uma janela a espiar para a rua pela rótula: Leonardo aproximou-se tremendo, pé ante pé, parou e ficou imóvel como uma estátua atrás dela que, entretida para fora, de nada tinha dado fé. Esteve assim por longo tempo calculando se devia falar em pé ou se devia ajoelhar-se. Depois fez um movimento como se quisesse tocar no ombro de Luizinha, mas retirou depressa a mão. Pareceu-lhe que por aí não ia bem; quis antes puxar-lhe pelo vestido, e ia já levantando a mão quando também se arrependeu. Durante todos esses movimentos o pobre rapaz suava a não poder mais. Enfim, um incidente veio tirá-lo da dificuldade.
Ouvindo passos no corredor, entendeu que alguém se aproximava, e tomado de terror por se ver apanhado naquela posição, deu repentinamente dois passos para trás, e soltou um - ah! - muito engasgado. Luizinha, voltando-se, deu com ele diante de si, e recuando espremeu-se de costas contra a rótula: veio-lhe também outro - ah! - porém não lhe passou da garganta e conseguiu apenas fazer uma careta.
A bulha dos passos cessou sem que ninguém chegasse à sala; os dois levaram algum tempo naquela mesma posição, até que Leonardo, por um supremo esforço, rompeu o silêncio, e com voz trêmula e em tom o mais sem graça que se possa imaginar perguntou desenxabidamente:

- A senhora... sabe... uma coisa?
E riu-se com uma risada forçada, pálida e tola.
Luizinha não respondeu. Ele repetiu no mesmo tom:
- Então... a senhora... sabe ou... não sabe?
E tornou a rir-se do mesmo modo. Luizinha conservou-se muda.
- A senhora bem sabe... é porque não quer dizer...
Nada de resposta.
- Se a senhora não ficasse zangada... eu dizia...
Silêncio.
- Está bom... Eu digo sempre... mas a senhora fica ou não fica zangada?
Luizinha fez um gesto de quem estava impacientada.
- Pois então eu digo... a senhora não sabe... eu... eu lhe quero... muito bem...

Luizinha fez-se cor de uma cereja; e fazendo meia volta à direita, foi dando as costas ao Leonardo e caminhando pelo corredor. Era tempo, pois alguém se aproximava.
Leonardo viu-a ir-se, um pouco estupefato pela resposta que ela lhe dera, porém, não de todo descontente: seu olhar de amante percebera que o que se acabava de passar não tinha sido totalmente desagradável a Luizinha.
Quando ela desapareceu, soltou o rapaz um suspiro de desabafo e assentou-se, pois se achava tão fatigado como se tivesse acabado de lutar braço a braço com um gigante.
(Manuel Antônio de Almeida. Memórias de um Sargento de Milícias.)



1. (Unirio 2003)  De acordo com a norma culta da língua, o trecho destacado - "- Se a senhora não ficasse zangada... eu dizia..." - apresenta uma inadequação no uso do tempo verbal.
Essa inadequação pode ser corrigida com a seguinte alteração:
a) "- Se a senhora não ficasse zangada... eu dissera..."   
b) "- Se a senhora não ficasse zangada... eu diria..."   
c) "- Se a senhora não ficasse zangada... eu direi..."   
d) "- Se a senhora não ficasse zangada... eu digo..."   
e) "- Se a senhora não ficasse zangada... dirá..."   




TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Os leitores estarão lembrados do que o compadre dissera quando estava a fazer castelos no ar a respeito do afilhado, e pensando em dar-lhe o mesmo ofício que exercia, isto é, daquele arranjei-me, cuja explicação prometemos dar. Vamos agora cumprir a promessa.
Se alguém perguntasse ao compadre por seus pais, por seus parentes, por seu nascimento, nada saberia responder, porque nada sabia a respeito. Tudo de que se recordava de sua história reduzia-se a bem pouco. Quando chegara à idade de dar acordo da vida achou-se em casa de um barbeiro que dele cuidava, porém que nunca lhe disse se era ou não seu pai ou seu parente, nem tampouco o motivo por que tratava da sua pessoa. Também nunca isso lhe dera cuidado, nem lhe veio a curiosidade de indagá-lo.
Esse homem ensinara-lhe o ofício, e por inaudito milagre também a ler e a escrever. Enquanto foi aprendiz passou em casa do seu... mestre, em falta de outro nome, uma vida que por um lado se parecia com a do fâmulo*, por outro com a do filho, por outro com a do agregado, e que afinal não era senão vida de enjeitado, que o leitor sem dúvida já adivinhou que ele o era. A troco disso dava-lhe o mestre sustento e morada, e pagava-se do que por ele tinha já feito.

(*) fâmulo: empregado, criado

(Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias)












2. (Fuvest 2003)  Neste excerto, mostra-se que o compadre provinha de uma situação de família irregular e ambígua. No contexto do livro, as situações desse tipo
a) caracterizam os costumes dos brasileiros, por oposição aos dos imigrantes portugueses.   
b) são apresentadas como consequência da intensa mestiçagem racial, própria da colonização.   
c) contrastam com os rígidos padrões morais dominantes no Rio de Janeiro oitocentista.   
d) ocorrem com frequência no grupo social mais amplamente representado.  
e) começam a ser corrigidas pela doutrina e pelos exemplos do clero católico.   
  



3. (Ufrn 2002)  Em relação a "Memórias de um Sargento de Milícias", de Manuel Antonio de Almeida, pode-se afirmar que
a) o personagem central narra suas aventuras no Rio de Janeiro à época de Dom João VI.   
b) o romance se distancia do caráter idealizante que marcou a prosa romântica brasileira.   
c) o romance focaliza a trajetória de um militar empenhado em manter os ideais monárquicos.   
d) a obra pode ser vista como um romance ligado à vida das elites brasileiras da época.   
  

4. (Pucsp 2002)  Das alternativas abaixo, indique a que CONTRARIA as características mais significativas do romance "Memórias de um Sargento de Milícias", de Manuel Antônio de Almeida.
a) Romance de costumes que descreve a vida da coletividade urbana do Rio de Janeiro, na época de D. João VI.   
b) Narrativa de malandragem, já que Leonardo, personagem principal, encarna o tipo do malandro amoral que vive o presente, sem qualquer preocupação com o futuro.   
c) Livro que se liga aos romances de aventura, marcado por intenção crítica contra a hipocrisia, a venalidade, a injustiça e a corrupção social.   
d) Obra considerada de transição para um novo estilo de época, ou seja, o Realismo/Naturalismo.   
e) Romance histórico que pretende narrar fatos de tonalidade heroica da vida brasileira, como os vividos pelo Major Vidigal, ambientados no tempo do rei.   
  


5. (Ufsm 2002)  Assinale a alternativa que completa corretamente as lacunas no período a seguir.

O meirinho __________ e a aldeã __________, vindos juntos de Portugal, têm um filho ilegítimo, __________, personagem central do livro __________.
a) Leonardo Pataca - Maria da Hortaliça - Leonardo - "Memórias de um sargento de milícias"   
b) Olímpico de Jesus - Macabéa - Olímpico de            Jesus - "A hora da estrela"   
c) Vidigal - Maria da Hortaliça - Leonardo Pataca - "Memórias de um sargento de milícias"   
d) Rodrigo S. M. - Macabéa - Olímpico de Jesus - "A hora da estrela"   
e) Miranda - Bertoleza - João Romão - "O cortiço"   



TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:
            Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe1em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria da hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia2rechonchuda e bonitona. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão3. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco mais fortes, e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.
(Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias)

Glossário:
1 algibebe: mascate, vendedor ambulante.
2 saloia: aldeã das imediações de Lisboa.
3 maganão: brincalhão, jovial, divertido.











6. (Fuvest 2002)  No excerto, o narrador incorpora elementos da linguagem usada pela maioria das personagens da obra, como se verifica em:
a) aborrecera-se porém do negócio.   
b) de que o vemos empossado.   
c) rechonchuda e bonitota.   
d) envergonhada do gracejo.   
e) amantes tão extremosos.   
  


7. (Fuvest 2002)  Neste excerto, o modo pelo qual é relatado o início do relacionamento entre Leonardo e Maria
a) manifesta os sentimentos antilusitanos do autor, que enfatiza a grosseria dos portugueses em oposição ao refinamento dos brasileiros.   
b) revela os preconceitos sociais do autor, que retrata de maneira cômica as classes populares, mas de maneira respeitosa a aristocracia e o clero.  
c) reduz as relações amorosas a seus aspectos sexuais e fisiológicos, conforme os ditames do Naturalismo.   
d) opõe-se ao tratamento idealizante e sentimental das relações amorosas, dominante no Romantismo.   
e) evidencia a brutalidade das relações inter-raciais, própria do contexto colonial-escravista.   
  


8. (Ufpe 2001)                                 TEXTO 1

" - és filho de uma pisadela e de um beliscão; mereces que um pontapé te acabe a casta. (...) O menino suportou tudo com coragem de mártir, apenas abriu ligeiramente a boca quando foi levantado pelas orelhas: mal caiu, ergueu-se, embarafustou pela porta fora, e em três pulos estava dentro da loja do padrinho, e atracando-se-lhe às pernas."
            (Manuel A. de Almeida: "Memórias de um Sargento de Milícias").
                                   TEXTO 2

"- Algum tempo hesitei se deveria abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; (...) Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo; diferença radical entre este livro e o Pentateuco."
            (Machado de Assis: "Memórias Póstumas de Brás Cubas").

Após a leitura atenta dos textos 1 e 2, assinale a alternativa correta.
a) Apesar de ambos os romances intitularem-se 'memórias', o primeiro não é contado em 1a pessoa e relata a vida do protagonista depois que se torna sargento de milícias; já o texto de Machado traz um " defunto autor".   
b) Manuel de Almeida aproxima-se da linguagem coloquial falada no Brasil de seu tempo, enquanto Machado de Assis, não.   
c) O texto de Manuel de Almeida, considerado precursor do Realismo em nossas letras, e o de Machado traduzem o cientificismo dominante na época.   
d) No texto 1, o autor descreve a forma de tratar as crianças na nobreza no Rio de Janeiro de D. João VI.   
e) É característica notória da obra de Machado a ironia, traço que não é apresentado no texto 2.   


Gabarito:  

Resposta da questão 1: [B]  

Resposta da questão 2: [D]  

Resposta da questão 3: [B]  

Resposta da questão 4: [E]  

Resposta da questão 5: [A]  

Resposta da questão 6: [C]  

Resposta da questão 7: [D]  

Resposta da questão 8: [B]