1)
(Fuvest-2010)
O
pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a
contar-lhe baixinho uma história. Tinha um vocabulário quase tão minguado como
o do papagaio que morrera no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de
gestos, e Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de
entender.
Graciliano Ramos, Vidas secas.
Considere as seguintes afirmações
sobre este trecho de Vidas secas,
entendido no contexto da obra, e responda ao que se pede.
a) No trecho, torna-se claro que a
escassez vocabular do menino contribui de modo decisivo para ampliar as
diferenças que distinguem homens de animais. Você concorda com essa afirmação?
Justifique, com base no trecho, sua resposta.
b) Nesse trecho, como em outros do
mesmo livro, é por exprimir suas emoções e sentimentos pessoais a respeito da
pobreza sertaneja que o narrador obtém o efeito de contagiar o leitor, fazendo
com que ele também se emocione. Você concorda com a afirmação? Justifique sua
resposta.
2)
(Fuvest-2012) Como não expressa visão populista nem elitista, o livro não
idealiza os pobres e rústicos, isto é, não oculta o dano causado pela privação,
nem os representa como seres desprovidos de vida interior; ao contrário, o
livro trata de realçar, na mente dos desvalidos, o enlace estreito e dramático
de limitação intelectual e esforço reflexivo.
Essas afirmações aplicam-se ao modo
como, na obra
a) Auto da barca do inferno, são representados os judeus,
marginalizados na sociedade portuguesa medieval.
b) Memórias de um sargento de milícias, são figuradas Luisinha e as
crias da casa de D. Maria.
c) Dom Casmurro, são figurados os escravos da casade D. Glória.
d) A cidade e as serras, são representados os camponeses de Tormes.
e) Vidas secas, são figurados Fabiano, sinha Vitória e os meninos.
3)
(Fuvest-2012) Leia o seguinte excerto de Capitães
da areia, de Jorge Amado, e responda ao que se pede.
O
sertão comove os olhos de Volta Seca. O trem não corre, este vai devagar,
cortando as terras do sertão. Aqui tudo é lírico, pobre e belo. Só a miséria
dos homens é terrível. Mas estes homens são tão fortes que conseguem criar
beleza dentro desta miséria. Que não farão quando Lampião libertar toda a
caatinga, implantar a justiça e a liberdade?
Compare a visão do sertão que aparece
no excerto de Capitães da areia com
a que está presente no livro Vidas secas, de Graciliano Ramos, considerando os
seguintes aspectos:
a) a terra (o meio físico);
b) o homem (o sertanejo).
Responda, conforme solicitado,
considerando cada um desses aspectos nas duas obras citadas.
4)
(Unicamp-2010) O excerto abaixo, de Vidas
Secas, trata da personagem sinha Vitória:
Calçada
naquilo, trôpega, mexia-se como um papagaio, era ridícula. Sinha Vitória
ofendera-se gravemente com a comparação, e se não fosse o respeito que Fabiano
lhe inspirava, teria despropositado. Efetivamente os sapatos apertavam-lhe os
dedos, faziam-lhe calos. Equilibrava-se mal, tropeçava, manquejava, trepada nos
saltos de meio palmo. Devia ser ridícula, mas a opinião de Fabiano
entristecera-a muito. Desfeitas essas nuvens, curtidos os dissabores, a cama de
novo lhe aparecera no horizonte acanhado. Agora pensava nela de mau humor.
Julgava-a inatingível e misturava-a às obrigações da casa. (...) Um mormaço
levantava-se da terra queimada. Estremeceu lembrando-se da seca (...).
Diligenciou afastar a recordação, temendo que ela virasse realidade. (...)
Agachou-se, atiçou o fogo, apanhou uma brasa com a colher, acendeu o cachimbo,
pôs-se a chupar o canudo de taquari cheio de sarro. Jogou longe uma cusparada,
que passou por cima da janela e foi cair no terreiro. Preparou-se para cuspir
novamente. Por uma extravagante associação, relacionou esse ato com a lembrança
da cama. Se o cuspo alcançasse o terreiro, a cama seria comprada antes do fim
do ano. Encheu aboca de saliva, inclinou-se – e não conseguiu o que esperava.
Fez várias tentativas, inutilmente. (...) Olhou de novo os pés espalmados.
Efetivamente não se acostumava a calçar sapatos, mas o remoque de Fabiano
molestara-a. Pés de papagaio. Isso mesmo, sem dúvida, matuto anda assim. Para
que fazer vergonha à gente? Arreliava-se com a comparação. Pobre do papagaio.
Viajara com ela, na gaiola que balançava em cima do baú de folha. Gaguejava: -
"Meu louro." Era o que sabia dizer. Fora isso, aboiava arremedando
Fabiano e latia como Baleia. Coitado. Sinha Vitória nem queria lembrar-se
daquilo.
(Graciliano Ramos, Vidas secas. Rio de Janeiro/São Paulo:
Record, 2007, p.41-43.)
a) Por que a comparação feita por
Fabiano incomoda tanto sinha Vitória? Que lembrança evoca?
b) Tendo em vista a condição e a
trajetória de sinha Vitória, justifique a ironia contida no nome da personagem.
Que outra personagem referida no excerto acima também revela uma ironia no
nome?
5)
(Unicamp-2011) Leia os seguintes trechos de O
cortiço e Vidas secas:
O
rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se
não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o
cortiço. (...). Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de
plantas rasteiras que mergulhavam os pés vigorosos na lama preta e nutriente da
vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a
terra.
(Aluísio Azevedo, O cortiço. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 2005,
p. 462.)
Fabiano
ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família
morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um
juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos
tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos
sofrimentos passados esmorecera. (...)
-
Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.
Conteve-se,
notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar
só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar
coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os
cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios,
descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.
Olhou
em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase
imprudente. Corrigiu-a, murmurando:
-
Você é um bicho, Fabiano.
Isto
para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer
dificuldades. Chegara naquela situação medonha – e ali estava, forte, até
gordo, fumando seu cigarro de palha.
-
Um bicho, Fabiano. (...)
Agora
Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho,
entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado.
(Graciliano Ramos, Vidas secas. Rio de Janeiro: Editora
Record, 2007, p.18-19.)
a) Ambos os trechos são narrados em
terceira pessoa. Apesar disso, há uma diferença de pontos de vista na
aproximação das personagens com o mundo animal e vegetal. Que diferença é essa?
b) Explique como essa diferença se
associa à visão de mundo expressa em cada romance.
6)
(Unicamp-2011) Leia os seguintes trechos de Memórias
de um sargento de milícias e Vidas
secas, que descrevem o estado de ânimo das personagens ao final de uma
festa:
Acabado
o fogo, tudo se pôs em andamento, levantaram-se as esteiras, espalhou-se o
povo. D. Maria e sua gente puseram-se também em marcha para casa, guardando a
mesma disposição com que tinham vindo. Desta vez porém Luisinha e Leonardo, não
é dizer que vieram de braço, como este último tinha querido quando foram para o
Campo, foram mais adiante do que isso, vieram de mãos dadas muito familiar e ingenuamente.
Este ingenuamente não sabemos se se poderá com razão aplicar ao Leonardo.
Conversaram por todo o caminho como se fossem dois conhecidos muito antigos,
dois irmãos de infância, e tão distraídos iam que passaram à porta da casa sem
parar, e já estavam muito adiante quando os sios de D. Maria os fizeram voltar.
A despedida foi alegre para todos e tristíssima para os dois.
(Manuel Antonio de Almeida, Memória de um sargento de milícias. São
Paulo: Ática, 2004, Capítulo XX - “O fogo no Campo”, p. 71.)
Baleia
cochilava, de quando em quando balançava a cabeça e franzia o focinho. A cidade
se enchera de suores que a desconcertavam.
Sinha
Vitória enxergava, através das barracas, a cama de seu Tomás da bolandeira, uma
cama de verdade.
Fabiano
roncava de papo para cima, as abas do chapéu cobrindo-lhe os olhos, o quengo
sobre as botinas de vaqueta. Sonhava, agoniado, e Baleia percebia nele um
cheiro que o tornava irreconhecível. Fabiano se agitava, soprando. Muitos
soldados amarelos tinham aparecido, pisavam-lhe os pés com enormes reiúnas e
ameaçavam-no com facões terríveis.
(Graciliano Ramos, Vidas secas. Rio de Janeiro: Record,
2007, p. 82-83.)
a) Explique as diferenças do estado de
ânimo das personagens ao final dos dois episódios.
b) A partir dessa diferença, explique
o significado que as duas festas têm em cada um dos romances.
Respostas:
1) a) Essa afirmação não é procedente,
pois, ao contrário, a escassez vocabular do menino contribui de modo decisivo
para diminuir as diferenças que distinguem homens de animais, como se evidencia
tanto na passagem “tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio”,
como no fato de o menino se comunicar por meio de “exclamações e gestos”, tal
como a cadela que lhe abana o rabo.
b) Não, pois o narrador de Vidas Secas
não se envolve emocionalmente com as realidades que representa. Seu relato,
conforme aos princípios realistas (o romance de Graciliano Ramos se filia ao
Neorrealismo que substituiu o experimentalismo modernista), é objetivo e explora
uma neutralidade que, cedendo a palavra às personagens e — por assim dizer —
aos fatos, em vez de diminuir, intensifica a reação do leitor ao quadro
representado.
2) e
3) a) O sertão, para Volta Seca, é
"lírico, pobre e belo" e "comove os olhos". Em Capitães da Areia, o sertão é belo
porque "homens (...) conseguem criar beleza dentro dessa miséria". Em
Vidas secas, a terra é pobre e seca
e é fator determinante para a miséria.
b) O homem, em Capitães da Areia, é capaz de transcender seu estado de miséria e
criar beleza, justiça e liberdade por meio de uma tomada de consciência de seu
papel social. Em Vidas secas, ele é
incapaz de superar a miséria que se revela tanto no plano físico quanto no
intelectual.
4)
a) A comparação incomoda sinha
Vitória não só porque enfatiza, aos olhos do marido, a imagem desengonçada e mesmo
ridícula da matuta desacostumada com o uso de calçados (ainda mais de salto
alto!), mas, sobretudo, porque traz a lembrança do papagaio que acompanhava a
família de retirantes em sua errância e que, logo no primeiro capítulo do
romance, fora sacrificado por ela para “aliviar” a fome de todos, inclusive da
cachorra. A culpa pelo ato “bárbaro” (afinal o papagaio era como se fosse um
dos seus, assim como a cachorra Baleia) torna o assunto uma espécie de tabu
entre todos, embora sua lembrança esteja sempre presente.
b) O nome sugere alguém que vence,
triunfa ou realiza seus ideais, exatamente o oposto da trajetória e da condição
efetiva de sinha Vitória. O excerto trata de demonstrar como tudo em sua vida
resultou em fracasso. Nesse sentido, a cena do cuspe é emblemática de toda a
trajetória da personagem (e mesmo de toda sua família), que vive na miséria
absoluta do retirante expulso pela seca, sem possibilidade de obter sequer
alimento, trabalho e pouso certo, que dirá a tão sonhada cama de couro, que,
inclusive, aponta para o quão pobres são os próprios desejos da personagem. A
outra personagem que revela ironia no nome é a cachorra Baleia, por sua magreza
extrema e pelo fato de viver no sertão.
5)
a) Em O cortiço a narração em terceira pessoa se mantém objetiva e a
aproximação das personagens com o mundo animal e vegetal expressa apenas a
visão do narrador, marcadamente negativa (“gula viçosa de plantas rasteiras”;
“prazer animal de existir”). Em Vidas
secas, o uso do discurso indireto livre nos coloca diante dos pensamentos
de Fabiano. Ao contrário do que ocorre em O cortiço, a visão não é necessária
ou exclusivamente a do narrador, e sim a da personagem, e não tem o mesmo grau
de objetividade e univocidade (há oscilação entre positivo e negativo: “Você é
um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim, senhor um
bicho...”).
b) Em O cortiço esse ponto de vista objetivo está de acordo com a visão
determinista do naturalismo, ao qual o romance se filia, que considera que as
personagens são o que são em função do meio e dos fatores biológicos. Em Vidas secas, representante do romance
social dos anos 30, a visão de mundo não se caracteriza por essa lógica
determinista inexorável. A degradação da personagem equiparada a um animal é
vista como resultante de condições sociais específicas, marcadas pela
injustiça.
6)
a) No romance de Manuel Antonio de
Almeida, o momento alegre que vivem as personagens está em consonância com a
alegria geral que representava o reencontro amoroso dos protagonistas. Na festa
descrita em Vidas secas, as
personagens não estão em consonância, pois em nenhum momento se afastam dos
problemas que as ocupam obsessivamente durante todo o romance. Há uma
dissociação total entre o evento social e o estado de ânimo das personagens.
b) Nas Memórias, a descrição de uma festa popular do século XIX está de
acordo com o caráter de romance romântico de costumes da obra. Em Vidas secas, a ênfase não é no caráter
tradicional dessa festa, e sim no deslocamento das personagens, que continuam à
margem, de acordo com o caráter de crítica social do romance.