
1) (Fuvest-2010)
Considere
a seguinte relação de obras: Auto da
barca do inferno, Memórias de um
sargento de milícias, Dom Casmurro
e Capitães da areia. Entre elas,
indique as duas que, de modo mais visível, apresentam intenção de doutrinar, ou
seja, o propósito de transmitir princípios e diretivas que integram doutrinas
determinadas.
Divida
sua resposta em duas partes: a) para a primeira obra escolhida e b) para a
segunda obra escolhida, conforme já vem indicado na respectiva página de
respostas.
Justifique
sucintamente cada uma de suas escolhas.
Texto para as questões de 2 a 6
Todo o barbeiro é tagarela, e
principalmente quando tem pouco que fazer; começou portanto a puxar conversa
com o freguês. Foi a sua salvação e fortuna. O navio a que o marujo pertencia
viajava para a Costa e ocupava-se no comércio de negros; era um dos combóis que
traziam fornecimento para o Valongo, e estava pronto a largar.
— Ó mestre! disse o marujo no meio da
conversa, você também não é sangrador?
— Sim, eu também sangro...
— Pois olhe, você estava bem bom, se
quisesse ir conosco... para curar a gente a bordo; morre-se ali que é uma
praga.
— Homem, eu da cirurgia não entendo
muito...
— Pois já não disse que sabe também
sangrar?
— Sim...
— Então já sabe até demais.
No dia seguinte saiu o nosso homem
pela barra fora: a fortuna tinha-lhe dado o meio, cumpria sabê-lo aproveitar;
de oficial de barbeiro dava um salto mortal a médico de navio negreiro; restava
unicamente saber fazer render a nova posição. Isso ficou por sua conta. Por um
feliz acaso logo nos primeiros dias de viagem adoeceram dois marinheiros;
chamou-se o médico; ele fez tudo o que sabia... sangrou os doentes, e em pouco
tempo estavam bons, perfeitos. Com isto ganhou imensa reputação, e começou a
ser estimado.
Chegaram com feliz viagem ao seu
destino; tomaram o seu carregamento de gente, e voltaram para o Rio. Graças à
lanceta do nosso homem, nem um só negro morreu, o que muito contribuiu para
aumentar-lhe a sólida reputação de entendedor do riscado.
(Manuel
Antônio de Almeida, Memórias de um
sargento de milícias)
2) (Fuvest-2011) Das seguintes afirmações acerca de diferentes
elementos linguísticos do texto, a única correta é:
a)
A expressão sublinhada em “para curar a gente a bordo” deve ser entendida como pronome
de tratamento de uso informal.
b)
A fórmula de tratamento com que o barbeiro se dirige ao marujo mantém o tom
cerimonioso do início do diálogo.
c)
O destaque gráfico da palavra “muito” produz um efeito de sentido que é
reforçado pelas reticências.
d)
O pronome possessivo usado nos trechos “saiu o nosso homem” e “lanceta do nosso
homem” configura o chamado plural de modéstia.
e)
A palavra “fortuna”, tal como foi empregada, pode ser substituída por “bens”,
sem prejuízo para o sentido.
3) (Fuvest-2011) Para expressar um fato que seria consequência
certa de outro, pode-se usar o pretérito imperfeito do indicativo em lugar do
futuro do pretérito, como ocorre na seguinte frase:
a)
“era um dos combóis que traziam fornecimento para o Valongo”.
b)
“você estava bem bom, se quisesse ir conosco”.
c)
“Pois já não disse que sabe também sangrar?”.
d)
“de oficial de barbeiro dava um salto mortal a médico de navio negreiro”.
e)
“logo nos primeiros dias de viagem adoeceram dois marinheiros”.
4) (Fuvest-2011) Neste trecho, em que narra uma cena
relacionada ao tráfico de escravos, o narrador não emite julgamento direto
sobre essa prática. Ao adotar tal procedimento, o narrador:
a)
revela-se cúmplice do mercado negreiro, pois fica subentendido que o considera
justo e irrepreensível.
b)
antecipa os métodos do Realismo Naturalismo, o qual, em nome da objetividade,
também abolirá os julgamentos de ordem social, política e moral.
c)
prefigura a poesia abolicionista de Castro Alves, que irá empregá-lo para
melhor expor à execração pública o horror da escravidão.
d)
contribui para que se constitua a atmosfera de ausência de culpa que
caracteriza a obra.
e)
mostra-se consciente de que a responsabilidade pelo comércio de escravos cabia,
principalmente, aos próprios africanos, e não ao tráfico negreiro.
5) (Fuvest-2011) Assim como faz o barbeiro, nesse trecho de Memórias de um sargento de milícias,
também a personagem José Dias, de Dom
Casmurro, irá se passar por médico (homeopata), para obter meios de
subsistência. Essa correlação indica que
I.
estamos diante de uma linha de continuidade temática entre o romance de Manuel
Antônio de Almeida e o romance machadiano da maturidade.
II.
agregados transgrediam com bastante desenvoltura princípios morais básicos,
razão pela qual eram proibidos de conviver com a rígida família patriarcal do
Império.
III.
os protagonistas desses romances decalcam um mesmo modelo literário: o do
pícaro, herói do romance picaresco espanhol.
Está
correto o que se afirma em
a)
I, apenas.
b)
II, apenas.
c)
I e II, apenas.
d)
II e III, apenas.
e)
I, II e III.
6) (Fuvest-2011) A linguagem de cunho popular que está
presente tanto na fala das personagens quanto no discurso do narrador do
romance de Manuel Antônio de Almeida, está mais bem exemplificada em:
a)
“quando tem pouco que fazer”; “cumpria sabê-lo aproveitar”.
b)
“Foi a sua salvação”; “a que o marujo pertencia”.
c)
“saber fazer render a nova posição”; “Chegaram com feliz viagem ao seu
destino”.
d)
“puxar conversa”; “entendedor do riscado”.
e)
“adoeceram dois marinheiros”; “sólida reputação”.
7) (Fuvest-2012) Leia o excerto de Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida,
para responder ao que se pede.
Caldo Entornado
A comadre, tendo deixado o major
entregue à sua vergonha, dirigira-se imediatamente para a casa onde se achava
Leonardo para felicitá-lo e contar-lhe o desespero em que a sua fuga tinha posto
o Vidigal. (...) A comadre, segundo seu costume, aproveitou o ensejo, e depois
que se aborreceu de falar no major desenrolou um sermão ao Leonardo, (...). O
tema do sermão foi a necessidade de buscar o Leonardo uma ocupação, de
abandonar a vida que levava, gostosa sim, porém sujeita a emergências tais como
a que acabava de dar-se. A sanção de todas as leis que a pregadora impunha ao
seu ouvinte eram as garras do Vidigal.
Você
concorda com as afirmações que seguem? Justifique suas respostas.
a)
Vê-se, no excerto, que a comadre procura incutir em Leonardo princípios morais
destinados a corrigir o comportamento do afilhado.
b)
No sermão que prega a Leonardo, a comadre manifesta a convicção de que o
trabalho é fator decisivo na formação da personalidade de um jovem.
8) (Unicamp-2011) Leia os seguintes trechos de Memórias de um sargento de milícias e Vidas secas, que descrevem o estado de
ânimo das personagens ao final de uma festa:
Acabado o fogo, tudo se pôs em
andamento, levantaram-se as esteiras, espalhou-se o povo. D. Maria e sua gente
puseram-se também em marcha para casa, guardando a mesma disposição com que
tinham vindo. Desta vez porém Luisinha e Leonardo, não é dizer que vieram de
braço, como este último tinha querido quando foram para o Campo, foram mais
adiante do que isso, vieram de mãos dadas muito familiar e ingenuamente. Este
ingenuamente não sabemos se se poderá com razão aplicar ao Leonardo.
Conversaram por todo o caminho como se fossem dois conhecidos muito antigos,
dois irmãos de infância, e tão distraídos iam que passaram à porta da casa sem
parar, e já estavam muito adiante quando os sios de D. Maria os fizeram voltar.
A despedida foi alegre para todos e tristíssima para os dois.
(Manuel
Antonio de Almeida, Memória de um
sargento de milícias. São Paulo: Ática, 2004, Capítulo XX - “O fogo no
Campo”, p. 71.)
Baleia cochilava, de quando em quando
balançava a cabeça e franzia o focinho. A cidade se enchera de suores que a
desconcertavam.
Sinha Vitória enxergava, através das
barracas, a cama de seu Tomás da bolandeira, uma cama de verdade.
Fabiano roncava de papo para cima, as
abas do chapéu cobrindo-lhe os olhos, o quengo sobre as botinas de vaqueta.
Sonhava, agoniado, e Baleia percebia nele um cheiro que o tornava
irreconhecível. Fabiano se agitava, soprando. Muitos soldados amarelos tinham
aparecido, pisavam-lhe os pés com enormes reiúnas e ameaçavam-no com facões
terríveis.
(Graciliano
Ramos, Vidas secas. Rio de Janeiro:
Record, 2007, p. 82-83.)
a)
Explique as diferenças do estado de ânimo das personagens ao final dos dois
episódios.
b)
A partir dessa diferença, explique o significado que as duas festas têm em cada
um dos romances.
9) (Unicamp-2012) Os trechos a seguir foram extraídos de Memórias de um sargento de milícias e Vidas secas, respectivamente.
O som daquela voz que dissera “abra a
porta” lançara entre eles, como dissemos, o espanto e o medo. E não foi sem
razão; era ela o anúncio de um grande aperto, de que por certo não poderiam
escapar. Nesse tempo ainda não estava organizada a polícia da cidade, ou antes estava-o
de um modo em harmonia com as tendências e ideias da época. O major Vidigal era
o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo o que dizia respeito a esse ramo de
administração; era o juiz que julgava e distribuía a pena, e ao mesmo tempo o
guarda que dava caça aos criminosos; nas causas da sua imensa alçada não haviam
testemunhas, nem provas, nem razões, nem processo; ele resumia tudo em si; a
sua justiça era infalível; não havia apelação das sentenças que dava, fazia o
que queria, ninguém lhe tomava contas. Exercia enfim uma espécie de inquirição
policial. Entretanto, façamos-lhe justiça, dados os descontos necessários às
ideias do tempo, em verdade não abusava ele muito de seu poder, e o empregava
em certos casos muito bem empregado.
(Manuel
Antônio de Almeida, Memórias de um
sargento de milícias. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978,
p. 21.)
Nesse ponto um soldado amarelo
aproximou-se e bateu familiarmente no ombro de Fabiano:
– Como é, camarada? Vamos jogar um
trinta-e-um lá dentro?
Fabiano atentou na farda com respeito
e gaguejou, procurando as palavras de seu Tomás da bolandeira:
– Isto é. Vamos e não vamos. Quer
dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme.
Levantou-se e caminhou atrás do
amarelo, que era autoridade e mandava. Fabiano sempre havia obedecido. Tinha
muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia.
(Graciliano
Ramos, Vidas secas. Rio de Janeiro:
Record, 2007, p. 28.)
a)
Que semelhanças e diferenças podem ser apontadas entre o Major Vidigal, de Memórias de um sargento de milícias, e
o soldado amarelo, de Vidas secas?
b)
Como essas semelhanças e diferenças se relacionam com as características de
cada uma das obras?
Respostas:
1)
a) O Auto da Barca do Inferno é
informado por princípios da moral cristã, pelos quais são julgados os
comportamentos dos mortos prestes a embarcar, no “cais das almas”, para o mundo
post-mortem, em que serão punidos ou recompensados.
b)
Capitães da Areia é um romance em
que se faz a apologia da revolução socialista como panaceia para as injustiças
sociais decorrentes do regime capitalista. É uma obra que busca o “engajamento”
na luta social, tendo sido por isso proibida durante o Estado Novo. A intenção
de doutrinar politicamente o leitor é recorrente, como exemplifica o final: “E,
apesar de que lá fora era o terror, qualquer daqueles lares era um lar que se
abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é uma pátria e
uma família”.
Cabe
observar que Memórias de um sargento de
milícias não apresenta nenhuma intenção de doutrinar.
2)
c
3)
b
4)
d
5)
a
6)
d
7)
a) Não. Ela não quer corrigir as ações de Leonardo, mas temerosa das “garras do
Vidigal”, procura incutir no afilhado a necessidade de encontrar meios para
escapar delas, no caso, pelo trabalho.
b)
Não. O sermão da comadre prega a necessidade de Leonardo buscar uma ocupação
para escapar às garras do Vidigal, revelando-se assim a ausência de preocupação
com a formação do caráter do jovem.
8)
a) No romance de Manuel Antonio de Almeida, o momento alegre que vivem as
personagens está em consonância com a alegria geral que representava o
reencontro amoroso dos protagonistas. Na festa descrita em Vidas secas, as personagens não estão em consonância, pois em
nenhum momento se afastam dos problemas que as ocupam obsessivamente durante
todo o romance. Há uma dissociação total entre o evento social e o estado de ânimo
das personagens.
b)
Nas Memórias, a descrição de uma
festa popular do século XIX está de acordo com o caráter de romance romântico
de costumes da obra. Em Vidas secas,
a ênfase não é no caráter tradicional dessa festa, e sim no deslocamento das
personagens, que continuam à margem, de acordo com o caráter de crítica social
do romance.
9)
a) Ambos se assemelham por exercerem a autoridade com arbitrariedade. Porém, enquanto o Major Vidigal é o
representante supremo da lei, o soldado amarelo é apenas um subalterno. Este, no entanto, exerce a autoridade com
brutalidade, ao passo que o Major, com uma bonomia paternalista.
b)
Memórias é um romance de costumes do
romantismo, que se valendo do humor e da caricatura conduz a um desfecho
conciliador. Já Vidas Secas, é um romance social da década de 30, que contém uma
denúncia da opressão. Por isso, a
bonomia que caracteriza o representante da autoridade na primeira obra não está
presente no livro de Graciliano Ramos.