(PROFª MS. MIRIAM FIORE)
A Prática Educativa é o objeto central do estudo da Didática e para que esta prática ocorra, são necessários alguns meios, e um deles é a aula que pode ser desenvolvida de diversas maneiras dependendo da tendência pedagógica adotada pelo professor que lecionará esta aula.
A adoção de uma determinada tendência ou de outra depende, diretamente, dos condicionantes sócio-políticos que configuram diferentes concepções de homem e de sociedade e, conseqüentemente, diferentes pressupostos sobre o papel da escola, aprendizagem, relações professor-alunos, técnicas pedagógicas etc.(LIBÂNEO, 1992:19)
Os autores, em geral, concordam e classificam as tendências pedagógicas em dois grupos: as de cunho liberal e as de cunho progressista. Como está demonstrado no Quadro 1, a seguir:
Caracterizemos cada uma destas tendências e ao final teremos um quadro elaborado, com esta caracterização: papel da escola, conteúdos de ensino, métodos de ensino, relação professor-alunos e pressupostos da aprendizagem.
1 – Pedagogia Liberal:
Primeiramente, precisamos pensar o que significa a palavra liberal neste contexto. Segundo LIBÂNEO (1992:21) O termo liberal não tem o sentido de ‘avançado’, ‘democrático’, ‘aberto’, como costuma ser usado. A doutrina liberal apareceu como justificação do sistema capitalista que, ao defender a predominância da liberdade e dos interesses individuais na sociedade, estabeleceu uma forma de organização social baseada na propriedade privada dos meios de produção, também denominada sociedade de classes.
Portanto, nos últimos 60 anos os professores têm adotado esta pedagogia, ora adotando um caráter mais conservador, ora um mais renovado, mas sempre tendo como objetivo preparar os alunos para desempenharem papéis sociais de acordo com as suas aptidões individuais. Para isso, segundo LIBÂNEO (1992) os indivíduos precisam aprender a adaptar-se aos valores e às normas vigentes na sociedade de classes.
1.1 – Pedagogia Liberal Tradicional:
A Pedagogia Tradicional teve sua vigência do período que vai dos jesuítas até os anos que precedem o lançamento do Movimento dos Pioneiros da Educação Nova (LIBÂNEO, 2000:87). Mas sabemos que esta tendência continua prevalecendo na prática educativa atual. É caracterizada por ser centrada na figura do professor, que geralmente, utiliza-se da oralidade para transmitir seus conhecimentos aos alunos, que devem prestar a máxima atenção às palavras deste para aprender.
Nesta tendência acredita-se que o aluno aprende por ouvir o professor, visualizar objetos, mapas, gravuras e por realizar exercícios repetitivos: lembram-se quando o professor pedia para fazermos cinco vezes cada cópia? Ou cem vezes a tabuada? Pois é, assim pensavam que aprenderíamos mais rapidamente. Com isto objetiva-se formar um aluno ideal, desvinculado de sua realidade concreta, como diz LIBÂNEO (1994:64).
O objetivo inicial desta pedagogia, que era o de formação geral do indivíduo, fica hoje descaracterizado, com um ensino meramente decorado, sem sentido, reduzido à simples memorização de conteúdos desconexos da realidade do aluno.
1.2 – Pedagogia Liberal Renovada Progressivista:
Esta pedagogia está baseada na teoria de John Dewey, autor que acreditava na idéia da relação entre a teoria e a prática, e na crença de que o conhecimento é construído quando compartilhamos experiências, num ambiente democrático.
Portanto, o objetivo desta pedagogia é formar o indivíduo para atuar no meio, por isso deve-se “adequar as necessidades individuais ao meio social” (LIBÂNEO, 1992:85), e por isso também, a escola deve fornecer ao aluno a oportunidade de experienciar, para que satisfaça os interesses deste e às exigências sociais.
1.3 – Tendência Liberal Renovada Não-Diretiva:
A escola nesta tendência tem o papel de formar atitudes, para tanto o professor deve ser um facilitador como diz Carl Rogers, principal teórico que aborda esta tendência. Para este autor o professor deve aceitar a pessoa do aluno, fazendo com que este se auto-desenvolva, a partir da busca daquilo que é de seu interesse, adequando sua pessoa àquilo que o ambiente solicita. Como diz LIBÂNEO (1992:27) “O resultado de uma boa educação [na tendência não-diretiva] é muito semelhante ao de uma boa terapia”.
1.4 – Tendência Liberal Tecnicista:
Como o próprio nome sugere, esta tendência está baseada na técnica. A preocupação é com a formação de indivíduos para atuarem no mercado de trabalho, mantendo a ordem vigente, o capitalismo. Está embasada, teoricamente, pela análise comportamental, que tem como teórico principal B. F. Skinner, o que garante a objetividade da prática escolar.
O objetivo é transmitir ao aluno “eficientemente, informações precisas, objetivas e rápidas” (LIBÂNEO, 1992:29). Há alguns exemplos de escolas que utilizam-se desta tendência, escolas que oferecem cursos apostilados de digitação, programação, cursos de aprendizagem em instituições como SENAC e SENAI.
2 – Pedagogia Progressista:
“O termo ‘progressista’ (...) é usado aqui para designar as tendências que, partindo de uma análise crítica das realidades sociais, sustentam implicitamente as finalidades sóciopolíticas da educação” (LIBÂNEO, 1992:32). Por isso, estas são tendências que analisam, criticam e discutem os aspectos sóciopolíticos e econômicos da sociedade, realidade em que vivemos. Fato que leva estas tendências a serem utilizadas mais na educação informal do que na formal.
2.1 – Tendência Progressista Libertadora:
Esta tendência é mais conhecida como Pedagogia Paulo Freire e está mais presente em situações não formais de ensino, apesar de, como diz LIBÂNEO (1992:33) “professores e educadores engajados no ensino escolar vêm adotando pressupostos desta pedagogia”. É uma educação crítica porque tenta entender as relações do homem com a natureza e dos homens entre si, para que haja o entendimento e apreensão da realidade para, posteriormente, poder se interferir no processo de transformação desta mesma realidade, portanto esta pedagogia tem um caráter político intenso.
2.2 – Tendência Progressista Libertária:
Esta pedagogia tem como objetivo transformar a personalidade do aluno para atuar no sistema. Tem um caráter político também, mas voltado à autogestão. Geralmente, esta tendência está presente em associações, grupos informais e escolas autogestionárias.
2.3 – Tendência Progressista Crítico-Social dos Conteúdos:
O objetivo primordial desta tendência é a difusão de conteúdos, mas não qualquer conteúdo, e sim de um conteúdo contextualizado, um conteúdo que não pode se dissociar da realidade social, porque a escola é parte integrante da sociedade, portanto, “agir dentro dela é também agir no rumo da transformação” (LIBÂNEO, 1992:39), ou seja, esta escola irá formar adultos que se apropriarem de conteúdos contextualizados, por meio do professor e de sua própria participação, para atuarem na realidade social em que vivem.