
Vera Vergara Esteves
O tempo da prática pedagógica cotidiana, vista apenas como execução, tem a característica do metabolismo diário de "labour"; enquanto o tempo da prática pedagógicadefinitiva vista como atividade, como "praxis", tem a durabilidade do "work."
O trabalho, no âmbito do magistério, se concretiza através prática pedagógica do professor, na vida cotidiana da escola.Para que essa tarefa cotidiana alcance o nível da generecidade e responda aos objetivos da educação através do reconhecimento de que a educação é uma necessidade vital e social, é necessário que se estabeleça uma relação com a sociedade como totalidade - critério determinante para que as capacidades pessoais se elevem ao nível do humano genérico.
A educação considerada como objetivação genérica, que surge da necessidade da sociedade, oferece ao professor a oportunidade de se elevar acima da autoconservação, pois a própria natureza do processo educativo implica a elaboração de uma relação consciente com o gênero humano, deixando de aceitar a "circunstância" como definitiva, tanto em relação a si mesmo, como em relação ao seu
ambiente imediato.É impossível considerar a prática pedagógica, simplesmente, como execução de um tarefa da vida cotidiana do professor, já que implica o desenvolvimento de uma atividade construtora da educação como objetivação genérica e homogênea.
A homogeneização é o critério que indica a saída da cotidianeidade.O "homem inteiramente comprometido é uma individualidade que concentra todas as suas forças e capacidades no cumprimento de uma só tarefa incorporada em uma esfera homogênea"(Heller,1977,p.116).
O desafio que se coloca para os educadores é formar professores que sejam capazes de conduzir a sua prática pedagógica tanto em função da realização individual, quanto da necessidade do sistema social como um todo, no sentido de se alcançar pela educação, a plena realização do humano genérico,através de um processo de homogeneização.
Se a educação é necessária ao sistema social , este não poderá subsistir, se não existirem pessoas que por um certo período de sua vida ou durante toda a vida, estejam comprometidas com o trabalho sobre a estrutura homogênea da educação.Como conseguir a homogeneização da educação através da "praxis" dos professores? Se o processo de homogeneização é, segundo Lukács, a saída de cotidianeidade no sentido da desalienação, isto significa que o professor deve concentrar sua atividade , não só psicológica, mas também cognoscitiva e moral, numa só esfera homogênea - a educação.
Através de sua atividade de trabalho, no âmbito da realização psicológica,é necessário que se possibilite ao professor a construção de projetos próprios, com vistas à caracterização de uma identidade profissional, que atendendo as suas características individuais se dirija para o alcance dos objetivos genéricos da educação - caracterizando-a como uma objetivação genérica homogênea.
No âmbito do trabalho do professor, como atividade cognoscitiva, a ênfase deve caminhar para promover a auto-formação contínua, através de um processo participativo em que se valorize o saber da experiência e em que a "praxis"pedagógica seja vista como "locus"da produção do saber.A troca de experiências entre os professores conduz não só reflexão sobre a prática, mas também ao questionamento sobre a mesma e a socialização dos saberes, fazendo com que o professor assuma tanto o papel de formador, como de investigador.
No âmbito da moral, a atividade pedagógica é a relação entre o comportamento particular e a decisão particular por um lado, e as exigências genérico-sociais, por outro.(Heller,1977).Uma prática pedagógica com conteúdo moral acontece quando as exigências da sociedade aparecem como exigências que o professor incorpora e a dirige a si mesmo.Assim, o professor deve vencer a si mesmo para satisfazer as exigências sociais que aceitou, ao incorporar valores que se orientem objetivamente, na direção do desenvolvimento moral do gênero humano.A constância nos valores morais eleitos irá caracterizar o comportamento ético do professor.
A capacidade de aplicar as exigências éticas implica em extrair da objetivação genérica o que e o como é valido na situação concreta; assim, deve o professor, na sua formação, ter oportunidade de avaliar o conteúdo moral e ético de sua prática pedagógica, para desenvolver uma "praxis" fiel a tais princípios.São esses princípios que irão contribuir para fazer da prática pedagógica, um processo genérico homogêneo, numa perspectiva crítico-reflexiva da própria "praxis".
Que tipo de formação irá propiciar essa "praxis"?Quaisquer que sejam as formas ou modelos de formação do educador, há competências e saberes que são imprescindíveis e devem ser desenvolvidos nessa formação.Não descartamos, no entanto, que a forma irá estabelecer direcionamentos para essa formação, pois cada modelo de formação traz, implicita, uma filosofia de educação.
Em primeiro lugar para que a prática pedagógica se constitua em "praxis" é necessário que se efetive num processo em que, ao mesmo tempo, se construa a identidade o desenvolvimento profissional do professor e do processo educativo.Para tanto é imprescindível que na sua formação sejam desenvolvidas competências morais e éticas (Dermally,1992) com base na definição de uma filosofia que considere a educação um processo para se atingir, como a filosofia, tanto "a consciência como a auto consciência do desenvolvimento humano" (Heller, 1977). Assim , a filosofia da educação se constitui no requisito principal da formação do educador, que irá direcionar a construção da prática pedagógica no sentido da contribuição do processo educativo na construção e desenvolvimento da sociedade.
Para que essa prática seja desenvolvida na comunidade de profissionais da educação, no sentido de se alcançar tanto o desenvolvimento do alunado como do corpo docente, é necessária a apropriação de saberes científicos e críticos que se constituirão nas disciplinas escolares (Demailly,1992) e darão condição à auto-formação e à produção do saber, através da investigação sobre o desenvolvimento do processo educativo.
No âmbito da prática pedagógica do professor em formação há que se enfatizar, também, o saber didático que irá propiciar através do domínio da estrutura da disciplina a didática de um processo geral de transmissão e aquisição do saber escolar.Para tanto é necessário que a prática pedagógica incorpore, na formação do professor, a competência em nível de relações humanas, que diz respeito ao comportamento do professor durante o desenvolvimento do processo educativo, não só na sala de aula, mas em todos os ambientes utilizados para esse fim.
Além da competência relacional e do saber didático, na construção da prática pedagógica, são também indispensáveis os saberes e saber-fazer pedagógicos relacionados com o trabalho em grupo na sala de aula, com os materiais de ensino,as tecnologias e metodologias.
A prática pedagógica, para se efetivar como um todo, necessita que , na formação do professor, sejam desenvolvidas competências administrativas, pois a dimensão burocrática dessa prática implica que uma prática reflexiva seja confrontada com a pedagogia da burocracia escolar, que muitas vezes freia as inovações em virtude das exigências de um sistema racional legal, que utilizando o estatuto jurídico, impede as mudanças.Esta dimensão está relacionada com o desenvolvimento do trabalho coletivo, com a organização de grupos e com a comunicação como um todo.
A apropriação do conhecimento, através da prática pedagógica, só será possível se esse processo tiver um caráter de investigação, pois considerada como atividade cotidiana nunca poderá produzir conhecimento, já que a estrutura da vida cotidiana faz surgir no homem a tendência de representar a realidade, em sua totalidade, como análoga a sua vida cotidiana.Assim, a prática se comporta de modo puramente repetitivo o que torna impossível o seu desenvolvimento.Dado o caráter repetitivo da prática cotidiana, ela apenas consegue agrupar as experiências do dia a dia sem superá-las.
Quando essa prática pedagógica questiona as suas características na sua cotidianeidade, surge então uma indagação de natureza científica que,partindo da experiência cotidiana, supera a cotidianeidade, através da investigação. Aparece, então, a realidade da prática pedagógica e a possibilidade de sua superação. Tal fato pode ser entendido como a autoeducação do professor ou o despertar da autoconsciência. Para que essa prática se constitua em "praxis" é necessário: a) que essa experiência seja socializada e se dirija ao humano genérico como conhecimento compartilhado; b)que a formação do educador se constitua num processo unitário e que a prática pedagógica se desenvolva durante toda a duração do curso, abandonando o clássico costume de configurá-la como uma aligeirada prática de ensino ao final dos cursos de formação de professores, baseada na lógica da fragmentação que tem permeado as propostas de formação dos profissionais de educação; c) que a prática pedagógica satisfaça não só competências éticas, de relações humanas e administrativas, mas também saberes específicos (científicos, didáticos e pedagógicos) e que se configure como processo científico de formação e investigação.
Atuar no nível do processo científico significa expor as próprias construções teóricas à demonstração e à refutação. Cabe aqui diferenciar a prática pedagógica cotidiana em nível de "doxa e de "episteme". Na "doxa" a prova ou refutação dos fatos têm lugar do ponto vista de determinado contexto, e sua afirmação ou negação se dá no interior de determinada situação e assim o problema se resolve em nível de uma situação específica.Já em nível da episteme, os fatos são de natureza universal e só têm sentido nesse contexto: é necessário explicá-los e interpretá-los no contexto de uma posição teórica.A prática pedagógica que se identifica com o saber genérico, em nível de episteme, estará sempre nesse processo contínuo em busca da construção do saber, o que significa a constituição de uma conduta de vida profissional.
Tal conduta irá conduzir o processo educativo aos níveis da prática reflexiva e da ciência aplicada.A importância dessa mudança na prática pedagógica implica a releitura da função do professor como profissional e da escola como organização promotora do desenvolvimento do processo educativo.
BIBLIOGRAFIA
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MARX, Karl. Elementos Fundamentales de la Critica de la Economia, vol. 1 Madrid: Siglo XXI, 1972.