Análise literária do livro de Gênesis - 1:1-2:3

Posted by Profº Monteiro on setembro 02, 2011

William D. Ramey
Introdução
Um testemunho pessoal
Quando eu estava em minha classe de filosofia introdutória durante meu primeiro ano
de calouro na universidade de Missouri, em Colúmbia, em 1972, o professor
sarcasticamente usou Gênesis 1:1-2:3 para mostrar supostas inconsistências ilógicas
e discrepâncias do relato da criação da Bíblia. Depois de uma série de palestras, ele
sumariamente rejeitou todo o relato, considerando-o como folclore.
Isto não foi um incidente isolado durante meus anos de faculdade. Em todas as minhas
aulas de Biologia, Química, Física, Antropologia, Fisiologia, Psicologia e Sociologia, a
mesma atitude prevalecia. Como pode um estudante combater tal formidável afronta
com relação às Escrituras? Especialmente se elas vêm de um professor de
universidade que degrada a Bíblia diante da classe e escarnece da opinião de alguém
que a lê ou possua uma! Afinal de contas, não é uma universidade um lugar onde
alguém pode obter um mais alto aprendizado? Não está o professor sempre correto?
Desconhecidos para mim naquela época, esses confrontos aumentaram e deram forma
a minha sede de entendimento literário bíblico. Depois de muitos anos estudando tanto
o Velho quanto o Novo Testamentos em sua língua original, é minha convicção pessoal
que um cristão pode defender a unidade literária e teológica do Relato da Criação, mas
não através das lentes da análise literária ocidental, mas através da análise do
pensamento oriental, o ambiente literário no qual o texto foi originalmente escrito.
O presente estudo oferece um passo introdutório para um cristão apreciar a unidade
literária e teológica da verdade atrás do Relato da Criação. Reconhecidamente, por
causa do método pelo qual os orientais elaboraram seus documentos, o método é
estranho ao pensamento moderno e difícil de apreciar à primeira vista. Mas para o
leitor que deseja estudar os princípios gerais da estrutura paralela, as recompensas
literária e teológica são consideráveis.
William D. Ramey
cinco de Abril, 1997
InTheBeginning.org
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A majestosa abertura de Gênesis 1:1-2:3 forma a primeira seção literária das Bíblias
hebraica e cristã. A segunda seção começa em Gênesis 2:4, com as palavras “esta é a
gênese do céu e da terra, quando eles foram criados, no dia em que o Senhor Deus os
criou”, e continua através de Gênesis 4:26, que traça aquilo que se tornou o universo
que Deus criou tão maravilhosamente criado. A humanidade se tornou desqualificada
para governar a imagem e semelhança de Deus por causa da desobediência,
resultando na deterioração de toda a raça humana. Interessantemente, Gênesis 2:1-3 é
um eco de 1:1, porque introduz frases e conceitos paralelos, mas em ordem inversa ao
do texto hebraico. (Figura 1)
A estrutura literária de Gênesis 1:1—2:3
A “Deus criou” (1:1b)
B “Deus” (1:1b)
C “Céus e terra” (1:1b)
X FORMANDO E ENCHENDO A TERRA (1:2-31)
C “Céus e Terra” (2:1)
B’ “Deus” (2:2)
A’ “Ele (Deus) criou” (2:3)
Figura 1
O padrão quiástico traz a seção a uma clara conclusão literária, que é reforçada pela
inclusão de “Deus criou”, ligando Gênesis 1:1 e 2:3, “Deus fez”. A seção inteira
permanece à parte dos episódios, que resulta em um estilo e conteúdo, assim fazendoa
a abertura do trabalho total de Gênesis, o mesmo da Torah, e, de fato, a Bíblia
inteira.
Muitos comentaristas antigos e modernos e uns poucos editores de versões inglesas
consideram Gênesis 2:4a não como encabeçando o texto seguinte, mas como um pósescrito
do que vem anteriormente, o relato da criação de Gênesis 1:1-2:3. Alguns
defendem que Gênesis 2:4a é uma inclusão de Gênesis 1:1. Contudo, existem
problemas que desencorajam a divisão de Gênesis 2:4 desta forma. Primeiro, a
expressão “este é o relato”, em Gênesis 2:4a, se tomada como um resumo, se
diferenciaria do seu uso comum no livro do Gênesis, onde ela uniformemente se refere
à genealogia ou narrativa que está adiante, e não o contrário. Segundo, por causa da
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estrutura quiástica de Gênesis 2:4 (figura 2), parece preferível entender o verso inteiro
como uma unidade estrutural, e por isso como um título para Gênesis 2:5 - 4:26. Da
mesma maneira, entender Gênesis 2:4 começando uma nova seção permite que se dê
um grande peso à estrutura quiástica de Gênesis 1:1-2:3 (figura 1) e o reconhecimento
de que o nome “Senhor Deus” não ocorre nem uma vez em Gênesis 1:1-2:3, mas
muitas vezes em Gênesis 2:5-3:24. Dessa forma, o que relaciona Gênesis 1:1 não é
2:4a, mas 2:1-3, em que o dia sétimo serve como um satisfatório desenlace para a
progressão da narrativa do relato. Os termos-chave de gênesis 1:1 (criou, Deus, os
céus, a terra) são repetidos em Gênesis 2:1-3, mas em ordem contrária (figura 2), o
que claramente indica que Gênesis 2:1-3 forma uma finalização, terminando a primeira
seção sem a desnecessária primeira parte de Gênesis 2:4.
A estrutura literária de Gênesis 2:4
Figura 2.
O propósito da repetição do ponto de início da criação em Gênesis 2:4 é estabelecer
conseqüências para a raça humana.
Os “setes” de Gênesis 1:1-2:3
A correspondência do primeiro parágrafo de Gênesis 1:2 com 2:1-3 é sublinhada pelo
número de palavras hebraicas em ambos os versículos, que contêm números múltiplos
de sete. Gênesis 1:1 consiste de sete (7x1) palavras hebraicas, Gênesis 1:2 consiste
de quatorze (7x2) palavras e Gênesis 2:1-3 consiste de trinta e cinco (7x5) palavras.
Além disso, “Deus” é mencionado trinta e cinco (7x5) vezes, “terra” ocorre vinte e uma
(7x3) vezes e “céus/firmamento” também vinte e uma (7x3) vezes. O número sete
também domina Gênesis 1:1-2:3 de uma maneira surpreendente, não somente no
número de palavras em uma seção particular, mas também no número de vezes em
que uma palavra ou frase ocorre, que ao todo perfaz um padrão de “setes” nessa parte
do relato.
A “céu
B “terra”
C “criou”
C’ “criou”
B’ “terra”
A’ “céu”
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Sete parágrafos: o arranjo de Gênesis 1:1-2:3 consiste de uma introdução e de sete
parágrafos. A introdução identifica o Criador e a criação (Gn 1:1-2); seis parágrafos
correspondem a seis dias da criação (1:3-21). O sétimo parágrafo marca o auge, o
sétimo dia, o dia da consagração (2:1-3).
1) As palavras de comando: “E Deus disse”, enquanto ocorra dez vezes, é agrupado
em sete (7x1) grupos: Gn (1:3) - (1:6) - (1:9, 1:11) - (1:14) - (1:20) - (1:24) - (1:26, 28,
29).
2) As palavras de ordem: “Haja”, embora ocorra oito vezes, sua fórmula é agrupada
em sete: Gn (1:3) – (1:6) – (1:9, 11) – (1:14) – (1:20) – (1:24) – (1:26).
3) As palavras de cumprimento: “E assim se fez” ocorre sete vezes: Gn (1:3) – (1:7)
– (1:9) –(1:11) – (1:15) – (1:24) – (1:30).
4) As palavras da realização: “E Deus criou” ocorre sete vezes: Gn (1:4) – (1:7) –
(1:11) – (1:16) – (1:21) – (1:25) – (1:27).
5) As palavras de aprovação: “E viu Deus que era bom” ocorre sete vezes: Gen.(1:4)
– (1:10) – (1:12) – (1:18) – (1:21) – (1:25) – (1:31).
6) Palavras divinas subseqüentes: Deus nomeando ou abençoando as coisas ocorre
sete vezes: Gn (1:5) – (1:5) – (1:8) – (1:10) – (1:10) – (1:22) – (1:28).
7) A confirmação de sete dias: Existem sete dias criados: Gn (1:5) – (1:8) – (1:13) –
(1:19) – (1:23) – (1:31) – (2:2).
Embora haja dez palavras de comando divino (número 1) e oito ordens (número 2), a
fórmula está agrupada em setes. O padrão sete intencional de Gênesis 1:-2:3 é
habilidosamente mantido pelo autor e intencionalmente omitidas algumas dessas
palavras: a formula de cumprimento é omitida em Gênesis 1:5 (dia 5), a descrição do
ato em Gênesis 1:9 (dia 3) e a fórmula de aprovação é omitida em Gênesis 1:6-8 (dia
2). Considerando que em cada caso a Septuaginta erradamente adiciona a fórmula
apropriada, estas adições obscurecem o padrão dos setes nesta seção.
A estrutura literária dos seis dias da criação
As colunas paralelas seguintes claramente indicam que o relato da criação é
organizado em dois grupos de três (figura 3). No primeiro grupo, as regiões são
criadas: noite e dia, o firmamento (e sua atmosfera) e os oceanos, e a terra. No
segundo grupo, os correspondentes habitantes destas regiões são criados: corpos
celestes, pássaros e peixes, animais terrestres e o homem. Isto, contudo, levanta uma
outra questão recorrente: por que as plantas são criadas no terceiro dia em vez de no
sexto dia? As plantas, pensamos nós, deveriam ter sido agrupadas com as criaturas
vivas em vez de serem agrupadas com a terra.
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Que critério de classificação o autor usou pondo as plantas antes mesmo do sol? Uma
dica para a solução deste problema vem da descrição peculiar dos animais da terra: “o
gado e os répteis e as feras da terra”. Podemos dizer que este trecho entre aspas é
uma sinédoque de todos os animais terrestres vivos, mas por que estes seres como
representantes?”Feras da terra” poderia se referir a todos os outros animais. Por que
então incluir o gado e os répteis? Primeiramente, isto não parece fornecer uma
solução. Porém, olhemos o modo como o autor resume esta lista e animais terrestres
em Gênesis 1:28: “todo animal que se move sobre a terra”.
O autor claramente sublinha o tipo de movimento que o animal faz. Ele põe os
pássaros no dia cinco porque eles se movem no ar, através do firmamento dos céus.
Se nós classificarmos os animais de acordo com o meio de locomoção, então estes
animais que se movem sobre a terra podem ser subclassificados em três tipos. Há o
gado e semelhantes, que se movem sobre a terra; há os répteis, que se movem ao
longo da terra, deslizando sobre ela; e finalmente há as “feras da terra”, que abrem
caminho através dela (a punição da serpente tem a ver com a maneira do seu
movimento).
Análise literária dos seis dias da criação – Dias de formação e dias de
preenchimento
Dias da formação
Dias do preenchimento
1. “Haja luz” (1:3).
4. “Haja luzeiros no firmamento” (1:14).
2. “Haja firmamento no meio das águas
e separação entre águas e águas”
(1:6).
5. “Povoem-se as águas de enxames de
seres viventes; e voem as aves sobre a
terra, sob o firmamento dos céus” (1:20).
3a “Apareça a porção seca” (1:9).
3b “Produza a terra relva” (1:11).
6a “Produza a terra seres viventes” (1:24).
“Façamos o homem” (1:26).
6b “Eis que vos tenho dado todas as
ervas que dão semente e se acham na
superfície da terra e todas as árvores em
que há fruto que dê semente; isso vos
será por mantimento” (1:29).
Figura 3.
Uma vez que consigamos ver isso, a razão pela qual as plantas estão registradas no
dia 3 se torna óbvia. Elas, diferentemente do ar, dos peixes e do mar, dos animais da
terra e dos corpos celestes, estão desprovidas de capacidade de locomoção. Neste
sentido, elas são “lugares”, e não seres vivos. Contudo, nosso autor certamente
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reconhece que as plantas tem algo em comum com os seres do dia 5 e 6, alguma coisa
da qual os corpos celestes do dia 4 têm falta. As plantas produzem “sementes de
acordo com sua espécie”, assim como os pássaros, os peixes e os animais terrestres
procriam de acordo com sua própria espécie. Conseqüentemente, podemos ver que os
dias 3 e 4 são, de uma certa maneira, uma transição entre a criação inanimada dos
dias 1 e 2 e as criaturas animadas dos dias 5 e 6. Para se estar completamente vivo
um ser precisa ter a capacidade de locomoção e reprodução.
Notemos, cuidadosamente, como Moisés é cuidadoso em se certificar que Deus
mesmo é vivo de acordo com os termos do relato da criação! Primeiro encontramos
Deus em movimento – Seu Espírito se move através da face do abismo. O relato inteiro
da criação pode ser lido como o resultado deste movimento. O movimento da criação
de Deus tem seu clímax, a reprodução dele mesmo de acordo com Sua própria espécie
– a humanidade para governar Sua criação, isto é, os seres humanos em Sua própria
imagem!
Análise literária dos seis dias da criação
Da figura 3, podemos ver que os verbos característicos que unem o dia 1 ao dia 3 são
“separar” e “unir”: verbos de formação; enquanto que os verbos que unem os dias 4
para o dia 6 “abundar”, “encher”, “frutificar” e “aumentar”: verbos que indicam
preenchimento. Assim, imediatamente nós podemos ver a relação entre as palavras da
introdução (Gn 1:1-2), “e a terra era sem forma e vazia”. Os primeiros três dias
concernem à formação e os dias 4 a 6 dizem respeito ao preenchimento da terra.
Uma observação mais surpreendente é que comparações entre os dias podem ser
feitas horizontalmente, bem como verticalmente. “Luz” é a palavra-chave no dia 1, e
“luzes” é a palavra-chave no dia 4. No dia 2, Deus “separou as águas debaixo do
firmamento das águas acima do firmamento”, enquanto no dia 5, Ele disse: “Povoem-se
as águas de enxames de seres viventes, e voem as aves sobre a terra, sob o
firmamento dos céus”. Em outra palavras, no dia 2, Deus separou as águas baixas das
águas de cima do firmamento e no dia 5 ele criou os animais para habitar as águas sob
o firmamento e então seres para habitar o firmamento. Os dias 3 e 6 são algo um tanto
diferente dos outros dias em Gênesis 1:3-31. “E disse Deus” aparece mais de uma vez
(no dia 3, aparece duas vezes; no dia 6, aparece 3 vezes). Duas comparações
adicionais podem ser feitas entre os dias 3 e 6. No dia 3, “a terra seca” apareceu, e no
dia 6, Deus criou (1) “os animais domésticos, criaturas que se movem ao longo da
terra, e os animais selvagens”; e (2) “a humanidade” para habitar a terra seca. Além do
mais, o dia 3 testemunhou a terra sendo coberta com “relva” enquanto que no dia 6
Deus disse que Ele daria ao homem “toda erva verde para mantimento”.
Estas surpreendentes relações horizontais e verticais entre os vários dias dificilmente
poderia ser coincidência. Elas demonstram a beleza literária do episódio e enfatiza a
simetria e organização da atividade criadora de Deus. Porém, o planejamento
claramente cuidadoso e o pensamento embutido na habilidade desse relatório em
forma de um tecido levantam uma questão que pode ajudar a resolver várias questões
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de interpretação: seria possível que a ordem dos eventos na narrativa da criação seja
parcialmente literária e somente parcial cronologicamente falando?
Gostaria de sugerir que Moisés, por causa de considerações teológicas, estruturou o
relato da criação em uma estrutura literária cuidadosamente tecida. Se – como as
versões em inglês traduzem as palavras finais em Gênesis 1:5, 8, 13, 19, 23, 31 como
“o primeiro dia”, “o segundo dia”, “o terceiro dia”, “o quarto dia”, “o quinto dia” e “o sexto
dia”, respectivamente, estão corretas – então o caso está encerrado. O artigo definido
com a palavra “dia” exigiria que o autor pretendeu narrar em ordem cronológica.
Porém, de fato, a versão literal das frases hebraicas em questão é realmente: “um dia”,
“um segundo dia”, “um terceiro dia”, “um quarto dia”, “um quinto dia” e “o sexto dia”.
Gostaria de chamar a atenção para o fato de que a omissão do artigo definido em
todos os outros dias, exceto no sexto (e, por último, no sétimo), permite a possibilidade
de uma ordem literária bem como de uma ordem cronológica (o sexto e o sétimo dias).
Não-cronológico, desnecessário dizer, não significa não-histórico! O livro de jeremias,
por exemplo, foi arranjado em tópicos, em vez de em ordem cronológica, embora seja
histórico do início ao fim. Similarmente, os dois relatos históricos da tentação de Jesus
por Satanás em Mateus 4:1-11 e em Lucas 4:1-13 arranjam as três frases cruciais da
tentação em diferente ordem, indicando que nem a ordem em Mateus nem em Lucas
seja uma ordem cronológica.
Se o relato da criação em Gênesis 1:1-2:3 está, pelo menos parcialmente, em ordem
não-cronológica, vários problemas intrigantes podem facilmente ser resolvidos. Por
exemplo, como pode ser que Deus “separou a luz das trevas” e que Ele “chamou a luz
‘dia’ e as trevas ‘noite’ no dia 1 (Gen 1:4-5), se o sol não havia sido criado até o dia 4?
A resposta mais simples parece ser que estes dois dias não estão relacionados um ao
outro cronologicamente, mas que eles se referem ao mesmo evento – a criação do sol.
De fato, isto pareceria ser implícito em Gênesis 1:17-18, onde está escrito que Deus
pôs o sol na “expansão dos céus, para separar a luz das trevas” (a última frase, de
fato, é diretamente citada de Gênesis 1:4).
Em outras palavras, Gênesis 1:4 nos diz que Deus separou a luz das trevas e em
Gênesis 1:18 como ele fez isso. Ou, dando outro exemplo. Como pode haver tarde e
manhã (Gn 1:5, 8,13) antes de o sol ser trazido à existência? Se a ordem cronológica
não é exigida, não há mais nenhum problema aqui. E, novamente, como poderiam as
plantas, incluindo as árvores frutíferas, que requerem a fotossíntese para sua
sobrevivência, sobreviverem sem o calor da luz do sol (Gn 1:12,13)? A resposta é
mais bem dada ao longo destas linhas: a criação do sol precedeu a criação da vida
vegetal, providenciando calor para o solo, juntamente com outras que promoveriam o
crescimento.
Devemos enfatizar, concluindo, que eu acredito nos seis dias literais (cada um como
um dia de vinte e quarto horas); pode ser que - por causa de questões teológicas, que
Moisés desejou enfatizar - estes dias da criação em Gênesis 1:3-31 demonstrem um
arranjo não cronológico, exceto pelo sexto e sétimo dias.
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Um “quarto” dia
O dia 4 é, claro, a metade da semana da criação, e ele mesmo é elaboradamente
construído dentro de um padrão quiástico de termos introduzidos em cada vez pela
preposição hebraica “para”. Alguns argumentam que há uma grande quantidade de
repetição no relato do dia 4, e isso evidencia múltiplas fontes do relato da criação
(como o relato inteiro da criação). Contudo, essas repetições são uma estrutura
concêntrica muito bem organizada. Seus principais elementos consistem de uma lista
de funções, que são ilustradas na figura 4.
A estrutura literária de Gênesis 1:14-18: o quarto dia
A “separação entre o dia e a noite” (1:14a)
B “para sinais dos tempos, dias e anos” (1:14b)
C “para iluminar a terra” (1:15).
D “para governar o dia” (1:16a)
D’ “para governar a noite” (1:16b)
C’ “para iluminar a terra” (1:17)
B’ “para governar o dia e a noite” (1:18a)
A’ “para separar a luz das trevas” (1:18b)
Figura 4.
O cumprimento dos comandos divinos em Gênesis 1:14-15 é retomado em ordem
inversa em Gênesis 1:17-18! A criação do sol, da lua e das estrelas é mencionada no
centro do padrão literário (Gênesis 1:16). As inversões estruturais deste tipo são
comuns no livro do Gênesis e em toda a Escritura. A tripla função dos corpos celestes -
“dividir”, “governar” e “iluminar” – são assim mencionadas duas vezes, para enfatizar
sua verdadeira função. Dentro destes cinco versos, a preposição “para” ocorre onze
vezes, definindo o papel do sol, da lua e das estrelas.
Ao mesmo tempo, ocorrem ligeiras variações entre o comando de realização (A/A’ e
B/B’), que tornam o relato mais interessante. Dada a sutilidade do relato, torna-se difícil
sustentar que este é um relato composto de vários outros relatos, fundidos em um só.
Ao contrário, há uma unidade homogênea, que revela algumas preocupações
características do autor e demonstra, através da estrutura da narrativa, o poder
soberano da palavra divina na criação.
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O sétimo dia
O relato do dia sétimo (Gn 2:1-3) é um caso à parte da estrutura padrão de cada um
dos outros seis dias. Ele funciona como um epílogo porque os termos “céus e terra”,
“Deus” e “criar” reaparecem em ordem inversa àquela de Gênesis 1:1, e este eco
invertido do verso inicial do capítulo conclui a seção. Em vez de um início de criação,
existe o fim, a cessação, a bênção e a santificação. A ênfase do dia 7 deve ser então a
perfeita finalização de toda a criação. De fato, o padrão das palavras e textos no texto
hebraico claramente demonstra esta ênfase. Existem trinta e cinco (7x5) palavras no
texto hebraico nestes versos, um múltiplo de sete. As três passagens do meio, (Gn
2:2a; 2:2b; e 2:3a), no texto hebraico, têm sete palavras cada, e o numeral adjetivo
“sétimo” está no interior de cada uma destas passagens! O leitor, por isso, recebe uma
forte impressão de que o dia 7 é uma celebração de uma realização, de uma
finalização. Dessa maneira, tanto a forma quanto o conteúdo, enfatizam a distintividade
do dia sétimo.
Além do mais, o sétimo dia é distinto dos outros seis dias do trabalho da criação de
Deus por que ele é o único dia no qual não é mencionado nenhum elemento da
criação: ele é o dia no qual Deus cessou do Seu trabalho. Outra observação
interessante sobre o dia 7 é que ele é o único dia em que não há a repetição da
expressão “e houve tarde e manhã”. O autor do texto está dizendo ao leitor que o
descanso de Deus permanece aberto para Seu povo, uma vez que o trabalho da
criação está terminado, mas, no caso dos israelitas que morreram no deserto por causa
da rebeldia, esse descanso pode ser perdido para sempre por causa da falta de fé.
((Hb. 4:1-10; cf. Hb. 3:7-19; Mt. 11:29- 30).
A seção seguinte contém uma interessante estrutura quiástica composta por Klaus
Potsch, a respeito de Gênesis 1:1-2:25. Qualquer comentário ou pergunta pode ser
enviado para HUKlaus.Potsch@omv.co.atUH.
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A estrutura literária de Gênesis 1:1-2:25
por Klaus Potsch
a 1:1-3 a “nudez” da matéria
b 1:4-5 separação da luz e das trevas
c 1:6-8 separação das águas de cima da águas de baixo
d 1:9-10 separação da terra seca do mar
e 1:11-13 enchendo a terra
f 1:14-19 preenchendo o céu com luzeiros para governar o dia e medir os tempos
g 1:20-23 enchendo as águas com seres vivos
h 1:24-25 enchendo a terra com animais
i 1:26 o conceito de humanidade de Deus
j 1:27 criação da humanidade, transferência da imagem
k 1:28 a morada da humanidade – a terra
l 1:29-30 a base da comida para os seres vivos
m 1:31 criados os céus e a terra, dia 6
n 2:1 a criação de Deus completada em conteúdo
o 2:2a a criação de Deus completa no tempo
p 2:2b Deus descansa no sétimo dia

O QUE É ANÁLISE LITERÁRIA?

Posted by Profº Monteiro on setembro 02, 2011



Em resumo é decomposição de um texto em suas partes constitutivas, para perceber o valor e o relacionamento que guardam entre si e para melhor compreender, interpretar e sentir a obra como um todo completo e significativo. 
"A análise literária não se reduz, pois, ao comum comentário do texto, trabalho colateral ao mesmo texto, que não vai até à sua essência, nem à sua explicação, nem ao mero estudo da biografia do autor. Deve ir mais além, abrindo caminho para a crítica, para a história, que investigará sobre o autor e os antecedentes da obra; e para a teoria da literatura, que extrairá da obra os princípios suscetíveis de formulação estética". (Herbert Palhano, Língua e Literatura). 
A análise de texto, ensina Nelly Novaes Coelho (0 Ensino da Literatura), é o esforço por descobrir-lhe a estrutura, seu movimento interior, o valor significativo de suas palavras e de seu tema, tendo em mira a unidade Intrínseca de todos esses elementos. Pressupõe o exame da estrutura do trecho e da linguagem literária (o vocabulário, o valor das categorias gramaticais usadas), o tipo de figuras predominantes (símiles, imagens, metáforas... ), o valor da sintaxe predominante (frase ampla ou breve, tipos de subordinação e coordenação, frases elípticas...), a natureza dos substantivos escolhidos; tempos ou modos de verbo, uso expressivo do artigo, da conjunção, dos advérbios, das preposições, etc., tudo em função do significado essencial do todo. Uma boa análise de texto, isto é, de fragmento só pode ser realizada quando o todo, a que ele pertence, tiver sido perfeitamente interpretado. 
Um esquema-roteiro para a análise crítico-interpretativa de um romance, proposto pela referida professora é o seguinte: 
a) Leitura lúdica para contato com a obra. Essa leitura é feita pelo aluno inicialmente. 

b) Fixação da Impressão ou impressões mais vivas provocadas pela leitura. Essas impressões levarão à determinação do tema. 

c) Fixação do tema ( idéia central, eixo nuclear da ação). 

d) Leitura reflexiva norteada pelo tema, e pelas idéias principais pressentidas na obra. É durante esta segunda leitura da obra que se Inicia a análise propriamente dita, pois é o momento em que devem ser fixadas as características de cada elemento estrutural. 

e) Anotação meticulosa de como os elementos constitutivos do romance foram trabalhados para Integrarem a estrutura global. Esta anotação deverá obedecer, mais ou menos, a um roteiro disciplinador: 
1) Análise dos fatos que integram a ação (Enredo). 

2) Análise dos traços característicos daqueles que vão viver a ação (Personagens). 

3) Análise da ação e personagens situadas no meio-ambiente em que se movem (Espaço). 

4) Análise do encadeamento da ação e personagens numa determinada seqüência temporal (Tempo). 

5) Análise dos meios de expressão de que se vale o autor: narração, descrição, monólogos, intervenções do autor, gênero literário escolhido, foco narrativo, linguagem, interpolações, etc. 

Para o Professor Massaud Moisés, ( Guia Prático de Análise Literária ) o núcleo da atenção do analista sempre reside no texto. Em suma: o texto é ponto de partida e ponto de chegada da análise literária.

Análise de Textos

Posted by Profº Monteiro on setembro 02, 2011
No artigo  Teoria da Literatura 'Conceitos' vimos que um texto literário:
  • Enfatiza a função poética. Enfatiza a mensagem. Ele pode ter um caráter ficcional mas necessariamente ele não tem que ser ficcional.

  • O texto literário possui linguagem conotativa, figurada. Tem função poética. Há todo um trabalho de reconstrução da linguagem para enfatizar a mensagem.

  • características: uso de repetição sonora, palavra e estrutura sintáticas.

Há diferença entre um texto literário e um texto informativo. Uso um poema de Carlos D. de Andrade - Fim de Feira.
FIM de FEIRA

No hipermercado aberto de detritos,
ao barulhar de caixotes em pressa de suor,
mulheres magras e crianças rápidas,
catam a maior laranja podre, a mais bela
bata refugada, juntam ao passeio
seu estoque de riquezas, entre risos e gritos.
(ANDRADE, Carlos Drummond, 1978).
comentários:
Quais os recursos que o poeta usou no texto para dar-lhe uma função poética? O que foi que Drummond usou para enfatizar a mensagem, para torná-la mais atraente do que uma simples notícia. Quais as marcas linguísticas que enriqueceram o texto? A linguagem usada criou um sentido especial?Ressaltar

Argumentos pelos quais o texto se tornou literário:

presença de neologismo:
- hipersupermercado ( estava se referindo a uma feira-livre)
figuras de linguagem:
- barulhar de caixotes
- pressa de suor
órgãos do sentido:
- visão/olfato/audição: suor, mulheres magras, crianças rápidas, risos e gritos.
acentuou a idéia de miséria:
- a maior laranja podre/ batata refugada/ mulher magra, etc.
competição:
- crianças rápidas.
cadência:
- hiper/mercado, aberto/ de detritos;
repetição sonora:
- vibrantes: certos fonemas: - /r/

ANÁLISE LITERÁRIA NO EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 20.20-28

Posted by Profº Monteiro on setembro 02, 2011
ANÁLISE LITERÁRIA NO EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 20.20-28
Laércio Rios Guimarães1
RESUMO
Trata da análise do texto bíblico partindo das normas para análise literária concentrando-se no texto do evangelho de Mateus no capítulo 20: 20-28. Apresenta a visão e estratégia do narrador, o tempo (velocidade e ordem), o cenário da história; identifica os personagens e traça o perfil e ação deles; e descreve um fio condutor de enredo com os itens exposição, tensão, resolução e desfecho. Toma como referencial teórico as idéias de Daniel Marguerat e Yvan Bourquin, além de João Cesário Leonel Ferreira. Conclui apresentando uma aplicação específica da narrativa à vida do leitor.
Palavras-chave
Análise literária; narrativa bíblica; tensão; resolução; desfecho.
ABSTRACT
This article is a literary analysis of the biblical text found in Gospel of Matthew chapter 20, verses 20 to 28. The narrator’s view and strategy, the time (speed and order of facts), the story’s scenario were herein presented, and also characters were identified together with their profile and type of action. Moreover, this article describes the narrative line of thought composed by exposition, tension, resolution and conclusion. Theory references used were the concepts of Daniel Marguerat, Yvan Bourquin and João Cesário Leonel Ferreira. At last, a specific application of the narrative is made to the reader’s life.
Key words
Literary Analysis; Biblical Narrative; Tension; Resolution; Conclusion.
1 Mestrando em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
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Introdução
O presente trabalho procura apresentar uma análise bíblica partindo das normas literárias para interpretação das narrativas. Não se trata da única, mas é uma excelente ferramenta que pode dirigir o leitor ao entendimento e aplicação do texto, fazendo-o se aprofundar e adentrar na história narrada, estreitando mais o caminho entre o texto bíblico e o homem de nossa época – tarefa que tem se tornado árdua nos últimos tempos, dada a distância de tempo e conceito atuais com relação aos textos bíblicos. A riqueza da literatura e narrativa bíblica ficarão evidentes aos olhos de qualquer leitor que poderá olhá-la com mais seriedade e menor desconfiança.
Texto Bíblico: Mateus 20.20-282
20 Então, se chegou a ele a mulher de Zebedeu, com seus filhos, e, adorando-o, pediu-lhe um favor.
21 Perguntou-lhe ele: Que queres? Ela respondeu: Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda.
22 Mas Jesus respondeu: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber? Responderam-lhe: Podemos.
23 Então, lhes disse: Bebereis o meu cálice; mas o assentar-se à minha direita e à minha esquerda não me compete concedê-lo; é, porém, para aqueles a quem está preparado por meu Pai.
24 Ora, ouvindo isto os dez, indignaram-se contra os dois irmãos.
25 Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles.
26 Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;
27 e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo;
28 tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
Narrador
O narrador se apresenta no texto em terceira pessoa e faz uso da onisciência tanto quanto da onipresença. Os diálogos apresentam os detalhes e os desejos da esposa de
2 Versão utilizada: BÍBLIA Sagrada. 2. ed. Revista e atualizada no Brasil. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
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Zebedeu bem como de seus filhos. Concomitantemente a isso, também as respostas de Jesus informam ao leitor o que se passa na mente dele.
No entanto, não se informa ao leitor como se deu a indignação dos dez discípulos contra os dois irmãos. Teriam eles externado este sentimento? A conversa se deu somente entre eles? Quem sabe algum tipo de suspiro ou burburinho que se podia ouvir no ar? Ou a expressão no rosto de cada um poderia manifestar a contrariedade pelo pedido dos outros dois? O narrador deixa ao leitor a imagem do que ali se passou, convidando-o a se colocar na cena, a entender o sofrimento e luta pelos quais Jesus passou ao perceber a falta de entendimento de seus discípulos mesmo depois de todos seus ensinos referentes à humildade e ao serviço (cf. Mateus 18.1-4; 19.14, 21), e à limitação e defeitos humanos presentes neles.
Tempo
O narrador não explicita o tempo cronológico no texto em si. Pode-se recorrer ao texto anterior, no capítulo 20.17, onde o narrador especifica que Jesus estava para subir, juntamente com seus discípulos, para Jerusalém onde seu ministério terreno teria fim. É nesse momento que a mulher de Zebedeu, com seus dois filhos, faz o pedido por eles e para eles. A decisão de chegar a Jerusalém traz à tona o momento de cumprimento do reino que estava sendo prometido e quando a promessa de assentar-se no trono da glória poderia se cumprir (cf. 19.28). Chegar a Jerusalém é, na mente da mulher e de seus filhos, o momento em que tudo se concretizaria e onde eles poderiam ter primazia entre os demais discípulos.
Há ainda outros aspectos presentes nesta narrativa que tratam do tempo e que se tornam relevantes para o entendimento do texto:
Velocidade da narrativa
Tomando como ponto de partida as idéias de Marguerat e Bourquin (2009: 107-112) sobre velocidade na qual se apresentam a (1) pausa descritiva (desaceleração da narração, quando um segmento da narrativa corresponde a uma duração nula no plano da história contada), (2) a cena (ritmo considerado normal em que narrativa e história contada
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caminham em tempo igual), (3) o sumário (narrativa é acelerada usando-se poucas palavras para relatar um período longo da história contada) e (4) a elipse (a narração adota uma velocidade extrema, passando em silêncio um período da história contada), o texto pode apresentar a seguinte divisão:
v. 20a - Pausa descritiva:
Então, se chegou a mulher de Zebedeu, com seus filhos [...]
v. 20b -23 – Cena:
[...] e, adorando-o, pediu-lhe um favor.
Perguntou-lhe ele: Que queres? Ela respondeu: Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda.
Mas Jesus respondeu: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber? Responderam-lhe: Podemos.
Então, lhes disse: Bebereis o meu cálice; mas o assentar-se à minha direita e à minha esquerda não me compete concedê-lo, é, porém, para aqueles a quem está preparado por meu Pai
v. 24 –Pausa Descritiva:
Ora, ouvindo isto os dez, indignaram-se contra os dois irmãos
v. 25-28 – Cena:
Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos
Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;
e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo;
tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
Ordem da narrativa
Seguindo ainda Marguerat e Bourquin (2009: 112-119) a ordem da narrativa subdivide-se em: (1) sincronia (que se detém no tempo da história contada em seu começo, meio e fim) e (2) anacronia (que se caracteriza pelos saltos da narrativa seja para o futuro – denominado prolepse -, seja para o passado – denominado analepse). Dessa forma, o texto apresenta os seguintes elementos:
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v. 20 – sincronia:
Então, se chegou a mulher de Zebedeu, com seus filhos e, adorando-o, pediu-lhe um favor.
v. 21 – anacronia (prolepse externa):
Ela respondeu: Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda.
v. 22 – anacronia (prolepse mista):
Mas Jesus respondeu: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber? Responderam-lhe: Podemos.
v. 23 – anacronia (prolepse mista):
Então, lhes disse: Bebereis o meu cálice; mas o assentar-se à minha
direita e à minha esquerda não me compete concedê-lo, é, porém, para aqueles a quem está preparado por meu Pai.
v. 24-27 – sincronia:
Ora, ouvindo isto os dez, indignaram-se contra os dois irmãos.
Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles.
Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;
e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo;
v. 28 – anacronia (prolepse interna):
tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
Pode-se também trabalhar com a idéia de (1) tempo mortal (representado pelos dados históricos) e (2) tempo monumental (representado pelo tempo escatológico) que dará o seguinte quadro:
Mulher de Zebedeu e Dois Filhos
Jesus
Tempo Mortal: Assentar-se à direita e à esquerda no reino de Jesus
Tempo Monumental: sentar-se à direita e à esquerda compete ao Pai
Tempo Mortal: Bebereis o meu cálice
Tabela 1 – Gênero de Tempo em Mateus 20.20-28
A perspectiva de tempo adotada por Jesus, parece ser a interpretação de KECK et al. (1995: 397) que chama o tempo monumental de futuro ultimato e o tempo mortal de futuro imediato:
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Há uma marcante progressão nos três “Filho do Homem” ditos nesta sessão. Primeiro, um futuro ultimato: O Filho do Homem sentará no seu glorioso trono (19:28). Esta declaração da vitória escatológica do reino de Deus é representada pela base de toda instrução de 19:1-20:34. Segundo, trata-se do futuro imediato: o quadro do sofrimento e vindicação do Filho do Homem (20:18-19). Isso é o que os discípulos têm olhado através do curto significado. Terceiro diz respeito ao presente: a figura da auto-doação do Filho do Homem servindo aos outros (20.28). Este é o modelo para a própria vida e ministério presente dos discípulos (tradução nossa).
Cenário
Responder onde a narrativa ocorre, olhando somente para o texto, traz certa dificuldade. É necessário recorrer ao contexto anterior no capítulo 20.17-19 que afirma que Jesus está para subir a Jerusalém a fim de cumprir o objetivo máximo de seu ministério terreno: ser condenado à morte pelos sacerdotes e escribas, ressuscitando, porém ao terceiro dia. O capítulo 20.29 especifica o local em que a narrativa ocorre, qual seja, a cidade de Jericó de onde eles saem imediatamente depois. Hendriksen confirma isso ao dizer:
Não há nada de preciso acerca de “então”, nem declara Mateus exatamente onde se deu o evento. À luz de uma comparação entre o versículo 18 e o 19 podemos, não obstante, concluir, com boa porcentagem de probabilidade, que ocorreu no caminho para Jerusalém via Jericó (2001: 342).
Tendo poucos dados geográficos neste trecho da narrativa, o enquadramento na perícope deve ser visto muito mais como social e para sua explicação é necessário recorrer ao contexto de desejo de poder na expectativa do reino messiânico. O pedido da mãe dos filhos de Zebedeu é de que eles tenham posição privilegiada quando Jesus reinar sobre Israel e sobre o mundo. Obviamente, pela resposta e comparação dadas por Jesus no versículo 25, o referencial para aqueles homens que estão ao seu redor é o do próprio poder estabelecido naquela época, ou seja, do poder romano com toda sua estrutura. Jesus apresenta outro referencial que vai de encontro àquele que estava na mente da mãe e de seus dois filhos, assim como na dos demais discípulos. Ele inverte o sentido, trazendo como modelo para o cristianismo as pessoas da base da pirâmide social: os servos ou
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escravos que, na verdade, dentro do padrão romano não passavam de um simples objeto nas mãos de seus proprietários.
A ideia de servir já tinha sido ensinada por Jesus, como pode ser visto em 18.1-5; 19.29-30 e 20.16. Não é difícil supor, portanto, que o conceito estivesse bem evidente na mente de seus discípulos e que, dessa forma, eles deveriam ter entendido tal ensino como a base para a criação de uma nova ordem e de um novo padrão de relacionamento entre eles e os seus futuros seguidores. O reino messiânico não copia os padrões dos reinos dos homens: ele é um reino de glória baseado no serviço e não na opressão e no domínio do mais forte sobre os mais fracos.
Personagens
A ação da narrativa é desenvolvida pelos personagens ali presentes. O texto apresenta-os da seguinte forma: (1) os dez, (2) os dois irmãos (3) Jesus (o Filho do Homem), e a (4) mulher de Zebedeu que não tem o nome conhecido pelo leitor.
Cabe classificar os personagens de acordo com sua função na narrativa. Eles podem ser protagonistas, antagonistas ou personagens cordão. Além desse aspecto, pode-se classificá-los de acordo com suas características: quando há riquezas de descrição tem-se um personagem redondo, quando o narrador apresenta poucas descrições do personagem tem-se um personagem plano, e quando apenas servem limitadamente ao enredo apresentam-se como personagens cordão. Por fim, os personagens podem ser classificados de acordo com o esquema chamado “actantancial” (MARGUERAT; BOURQUIN, 2009: 80-81) que apresenta o actante (aquele que pode realizar a transformação que está no centro da narrativa), o sujeito (aquele que corre atrás de um objeto que julga valioso), o destinador (mobiliza o sujeito para a busca do objeto que ele remeterá ao destinatário), o destinatário, o adjuvante (aquele que ajuda o sujeito na busca e seu objeto), e o oponente (obstáculos à busca do objeto).
Jesus, o Filho do Homem, é o protagonista da narrativa e o personagem principal. É a ele que é dirigido o pedido da mãe dos dois discípulos. Ele é solícito em ouvi-la; esclarecedor quanto à impossibilidade de atender o pedido; apaziguador, pois trata da questão do ciúme entre os seus discípulos. Por ser aquele que pode realizar a
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transformação que está no centro da narrativa, Jesus atua como actante. É também o destinatário, pois é nele que o objetivo dos sujeitos da narrativa pode ser concretizado.
A Mulher de Zebedeu é um personagem cordão que está a serviço do enredo. Sua característica pode, talvez, ser medida pela maneira pela qual se dirige a Jesus. Ela o adora, pede-lhe um favor e intercede pelos filhos. Reverência, amor maternal e ambição podem ser vistos nesta personagem. Ela se torna a adjuvante da narrativa por tentar fazer seus dois filhos (os sujeitos) atingirem o seu objetivo pretendido.
Os dois filhos da mulher de Zebedeu também são protagonistas na narrativa uma vez que a mãe intercede por eles junto a Jesus e que os mesmos aparecem respondendo afirmativamente à pergunta: “Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber?” Estes dois discípulos são ambiciosos, usam a mãe para atingir seus objetivos e demonstram não entender qual o verdadeiro significado de “beber o cálice” proposto por Cristo. Talvez ainda estivessem pensando na perspectiva do reino de poder de Jesus:
Depois do próximo anúncio do sofrimento e morte inocente pelos quais passaria Jesus, os dois discípulos pedem poder e status na presente perícope. O texto providencia a ocasião para o ensino de Jesus sobre a natureza de servir e a prioridade no reino. Os filhos de Zebedeu mostram estar completamente errados em seu conceito de serviço. Eles demonstram que não entenderam o ensino de Jesus no material precedente a respeito dos primeiros serem os últimos e os últimos serem os primeiros (19:30; 20:16). O verdadeiro servo, o servo no reino, é alcançado somente através de serviço e auto-sacrifício. Jesus é o próprio exemplo supremo deste tipo de serviço (HAGNER, 1995: 578, tradução nossa).
Pode-se também destacar a atitude egoísta e arrogante em relação aos demais companheiros de discipulado. Eles são os sujeitos dentro do sistema “actancial”, pois correm atrás de um objeto que julgam valioso, no caso, uma posição privilegiada no reino de Cristo, o Filho do Homem.
Os outros dez discípulos, semelhantemente à mãe dos dois personagens, aqui aparecem como personagens cordão. A narrativa afirma claramente que se indignaram contra os outros dois companheiros pelo pedido que fizeram a Jesus. A indignação demonstra ciúme e de certa maneira o mesmo desejo por parte deles. Portanto, a visão sobre o reino de Jesus na mente dos dez era a mesma que existia na mente dos outros dois.
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Tema
O versículo 26 apresenta o tema deste trecho: [...] quem quiser ser o primeiro entre vós, será esse o que vos sirva. Pode-se apresentar o tema: “A Grandiosidade para os Seguidores de Cristo é Servir”.
Enredo
O enredo mostra o desenvolvimento da história e é na tensão que se deve ter especial atenção, pois a partir dela o leitor terá sua expectativa despertada em relação aos fatos. A idéia sobre o reino é primordial neste desenvolvimento. Para os judeus que viviam na época de Jesus, o reino seria político com o devido restabelecimento da glória dos tempos de Davi exercendo poder e total vitória sobre os inimigos. Fica ainda mais fácil entender tal sentimento ao notar-se que Israel já amargara a angústia de ser submetido ao domínio de quatro impérios seguidos: o Babilônico, o Persa, o Grego e, agora, o Romano. Ladd descreve este pensamento judaico sobre o “reino” da seguinte maneira:
A oferta que nosso Senhor fez do reino de Deus não é o oferecimento de um reino político, nem compreendia bênçãos nacionais nem materiais. Os judeus desejavam um rei político para vencer seus inimigos.
[...] Temos descoberto que a esperança popular da vinda do reino de Deus significava o final do século e a manifestação do governo de Deus em poder e em glória, quando todo mal seria exterminado da terra [...].
[...] Este mesmo problema estava implicado na relação do messianismo do Nosso Senhor. Os judeus, inclusive os discípulos de Jesus, esperavam que o Messias fosse um rei “davídico” conquistador, diante do qual os inimigos de Deus e o povo de Deus não poderiam resistir; ou seria um ente sobrenatural que viria à terra com poder e grande glória para destruir aos maus e trazer o reino de Deus com poder (Daniel 7). Em qualquer destes casos, a vinda do Messias significaria o fim deste século e a aparição do reino de Deus em poder.
[...] O fato está em que os judeus da época de Nosso Senhor não entendiam o capítulo cinquenta e três de Isaías. Não sabiam que se referia ao Messias. Esperavam somente um rei conquistador, um poderoso Filho do Homem celestial em vez de um servo sofredor. Conseqüentemente, lhe deram as costas, recusaram segui-lo. Assim como rechaçaram Sua oferta do reino porque não era o que estavam buscando; rechaçaram Seu caráter messiânico porque não era um chefe conquistador, o tipo de monarca que eles desejavam (1988: 145-148, tradução nossa).
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Registrado este aspecto histórico, pode-se sugerir uma estrutura para o presente texto que conta com as seguintes partes: (1) exposição inicial - que apresenta as circunstâncias da ação; (2) tensão ou nó – o elemento que introduz a tensão narrativa; (3) resolução ou desenlace – aplicação da transformação sobre o sujeito; e (4) desfecho ou situação final – exposição do novo estado após a eliminação da tensão ou dificuldade.
Exposição – v. 20-21
Apresenta os protagonistas (os filhos da mulher de Zebedeu e Jesus), a mulher de Zebedeu e o pedido para que os seus filhos tenham posição de proeminência no reino de Messiânico.
Tensão 1 – v. 22
A primeira tensão é marcada pelo questionamento de Jesus em relação ao pedido feito pela mãe em nome de seus filhos. Ele deixa claro que o pedido está sendo feito por falta de conhecimento em relação a tudo o que ele ensinou até ali e em relação às consequências dele ser realmente atendido, pois o resultado seria acompanhá-lo em seus sofrimentos identificados aqui com a expressão “beber o cálice” que está prestes a acontecer, e que pode ser melhor compreendida a partir da explicação de Hendriksen:
No modo de expressão do Antigo Testamento e dos que estão familiarizados com sua literatura, “beber o cálice”, quer dizer, beber seu conteúdo, significa passar de forma completa por esta ou aquela experiência, seja favorável (Sal. 16:5; 23:5; 116:13; Jer. 16:7) ou desfavorável (Sal. 11:6; 75:8; Is. 51:17, 22; Jer. 25:15; Lm. 4:21; Ez. 23:32; Hab. 2:16). Jesus também falou do cálice de seu amargo sofrimento (Mt. 26:39, 42; Mr. 14:36; Lc. 22:42). E no Novo Testamento veja-se também Ap. 14:10; 16:19; 17:4; 18:6. Então, estão estes discípulos dispostos a serem participantes de seus sofrimentos, quer dizer, dos sofrimentos por seu nome e por sua causa (10:16, 17, 38; 16:24; 2 Co. 1:5; 4:10; Gl. 6:17; Fil. 3:10; Col. 1:24; 1 Pe 4:13; Ap. 12:4, 13, 17). (2003: 555, tradução nossa).
O pedido é respondido com outra pergunta à qual se espera uma reação. Os dois irmãos respondem afirmativamente, persistindo assim em sua falta de conhecimento do que os esperava.
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Resolução 1 – v. 23
A primeira tensão é solucionada parcialmente: se mesmo sem entender os dois irmãos queriam “beber do cálice”, então isto é o que iria acontecer. Mas o pedido continuaria em aberto. Há um conflito entre ideias e tempo: os dois discípulos pensam no reino terreno e no tempo mortal, enquanto Jesus trata do reino de Deus e do tempo monumental. Para fazer parte deste reino que tem perspectiva futura é necessário passar pelo mesmo caminho do Filho do Homem, que é o da humilhação para depois, sim, alcançar a devida exaltação. Até aqui eles desconheciam esse fato.
Tensão 2 – v. 24
Uma nova tensão é apresentada a partir do momento em que os dez discípulos restantes ficam indignados contra o pedido e contra os autores do pedido de glória. Mas o que teria trazido esta indignação e como ela teria ficado evidente? Como já mencionado no item sobre o narrador, este deixa a cena em aberto para que o leitor a imagine e olhe com mais atenção para a reação do protagonista, Jesus, do que para os demais personagens. Todavia, o fato de terem se indignado com os dois irmãos demonstra ciúmes, inveja e o desejo de terem o mesmo lugar solicitado pelos dois.
Resolução 2 – v. 25-27
A resolução para a segunda tensão vem do próprio Jesus de maneira extremamente didática: ele ensina e prova a possibilidade de obediência deste ensino pelo seu próprio exemplo. O modelo de seu reino é o serviço, tarefa que ele, o Filho do Homem, veio fazer para, então, passar a ser modelo para os súditos. Um pequeno gráfico comparativo pode deixar isso claro:
Reino de Cristo
o primeiro... será vosso servo
grande... será o que vos sirva
Reino dos Povos
governadores dominam
maiorais exercem autoridade
Tabela 2 – Reino de Cristo x Reino dos Homens
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A resolução passa, obviamente, por uma mudança nas mentes de seus seguidores: o modelo não pode ser mais o que eles conhecem e pelo qual eles tanto almejavam. O modelo agora é a própria liderança e governo de Jesus.
Desfecho – v. 28
Jesus é o próprio exemplo de grandiosidade, pois sua missão é servir. Seu reino não é o que pensam os dois irmãos, a mãe e os dez discípulos. É o reino onde a humildade é a principal virtude dos que dele participam. Não é um reino onde alguns poucos exercem autoridade sobre muitos, mas onde o seu rei ensina o princípio de liderança serva onde muitos servirão uns aos outros, pois “o Filho do homem [...][veio] dar a sua vida em resgate de muitos” (20.28).
Vale à pena apresentar a estrutura quiástica presente no enredo que pode ser vista a seguir:
A – Pedido para sentar à direita e à esquerda (v. 21).
B – Questionamento sobre beber o cálice (v. 22).
B’ – Afirmação sobre beber o cálice (v. 23).
A’ – Resposta sobre sentar a direita e a esquerda (v. 23).
Conclusão
A análise narrativa de Mateus 20.20-28 ajuda os leitores a entenderem a tensão do ser humano diante da possibilidade de experimentar poder e glória. As características de cada personagem, a tensão trazida ao meio por um pedido que gera ciúmes e revela o caráter humano que deve ser transformado pelo ensino de Jesus, são elementos narrativos constitutivos da riqueza textual desta passagem bíblica. A pouca presença do narrador e a falta de detalhes convidam o leitor a penetrar na cena e imaginar a situação ali vivida. A relevância do texto e o ensino presente atingem o comportamento e a vida do homem atual que luta por glória e domínio a qualquer custo. O reino de Cristo é diferente: é formado pelos mansos, humildes, servos, pelos que consideram a si mesmos os menores de todos a
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fim de serem considerados pelo Grande Rei como os maiores. Enfim, como Hendriksen expressa muito bem:
Jesus esteve enfatizando que em seu reino o maior é medido pela fita métrica da humildade (18.1-4); que a salvação pertence aos pequeninos e aos que se tornam semelhantes a eles (19.14); que confiar plenamente no Senhor, negar-se a si mesmo e dar, em vez de receber, é a marca registrada de seus verdadeiros seguidores (19.21) (2001: 341).
Referências bibliográficas
BÍBLIA de estudo de Genebra. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Cultura Cristã; Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
HAGNER, Donald A. Matthew 1-14. Dallas: Word Books, 1995 (Word Biblical Commentary, v. 33b).
HENDRIKSEN, William. Mateus. v. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.
______. Exposicion del Evangelio Según San Mateo. Grand Rapids: Libros Desafio, 2003 (Comentario al Nuevo Testamento).
FERREIRA, João Cesário Leonel; AMARO, Diego Werner Cattermol; PROFETA, Helder Graciano. A relevância da teoria literária para a exegese bíblica: Um exercício em 1 Samuel 1.1-28. Revista Teológica, Seminário Presbiteriano do Sul, Campinas, v. 68, n. 65/66, p. 51-69, 2008.
KECK, Leander et al. Matthew. v. 3. Nashville: Abingdon Press, 1995 (The New Interpreter’s Bible).
LADD, George Eldon. El Evangelio del Reino. Miami: Editorial Vida, 1985.
MARGUERAT, Daniel e BOURQUIN, Yvan. Para ler as narrativas bíblicas: iniciação à análise narrativa. São Paulo: Loyola, 2009.

Análise Literária

Posted by Profº Monteiro on setembro 02, 2011

Em resumo é decomposição de um texto em suas partes constitutivas, para perceber o valor e o relacionamento que guardam entre si e para melhor compreender, interpretar e sentir a obra como um todo completo e significativo.
"A análise literária não se reduz, pois, ao comum comentário do texto, trabalho colateral ao mesmo texto, que não vai até à sua essência, nem à sua explicação, nem ao mero estudo da biografia do autor. Deve ir mais além, abrindo caminho para a crítica, para a história, que investigará sobre o autor e os antecedentes da obra; e para a teoria da literatura, que extrairá da obra os princípios suscetíveis de formulação estética". (Herbert Palhano, Língua e Literatura).
A análise de texto, ensina Nelly Novaes Coelho (0 Ensino da Literatura), é o esforço por descobrir-lhe a estrutura, seu movimento interior, o valor significativo de suas palavras e de seu tema, tendo em mira a unidade Intrínseca de todos esses elementos. Pressupõe o exame da estrutura do trecho e da linguagem literária (o vocabulário, o valor das categorias gramaticais usadas), o tipo de figuras predominantes (símiles, imagens, metáforas... ), o valor da sintaxe predominante (frase ampla ou breve, tipos de subordinação e coordenação, frases elípticas...), a natureza dos substantivos escolhidos; tempos ou modos de verbo, uso expressivo do artigo, da conjunção, dos advérbios, das preposições, etc., tudo em função do significado essencial do todo. Uma boa análise de texto, isto é, de fragmento só pode ser realizada quando o todo, a que ele pertence, tiver sido perfeitamente interpretado.
Um esquema-roteiro para a análise crítico-interpretativa de um romance, proposto pela referida professora é o seguinte:
a) Leitura lúdica para contato com a obra. Essa leitura é feita pelo aluno inicialmente.
b) Fixação da Impressão ou impressões mais vivas provocadas pela leitura. Essas impressões levarão à determinação do tema.
c) Fixação do tema ( idéia central, eixo nuclear da ação).
d) Leitura reflexiva norteada pelo tema, e pelas idéias principais pressentidas na obra. É durante esta segunda leitura da obra que se Inicia a análise propriamente dita, pois é o momento em que devem ser fixadas as características de cada elemento estrutural.
e) Anotação meticulosa de como os elementos constitutivos do romance foram trabalhados para Integrarem a estrutura global.
Esta anotação deverá obedecer, mais ou menos, a um roteiro disciplinador:
1) Análise dos fatos que integram a ação (Enredo).
2) Análise dos traços característicos daqueles que vão viver a ação (Personagens).
3) Análise da ação e personagens situadas no meio-ambiente em que se movem (Espaço).
4) Análise do encadeamento da ação e personagens numa determinada seqüência temporal (Tempo).
5) Análise dos meios de expressão de que se vale o autor: narração, descrição, monólogos, intervenções do autor, gênero literário escolhido, foco narrativo, linguagem, interpolações, etc.
Para o Professor Massaud Moisés, ( Guia Prático de Análise Literária ) o núcleo da atenção do analista sempre reside no texto. Em suma: o texto é ponto de partida e ponto de chegada da análise literária.
Fonte: Escola Vesper
Análise Literária
A obra literária é a representação perfeita da relação entre o homem e o mundo em que vive. Vigora na literatura uma correspondência bastante acentuada entre o sofrimento do sujeito enquanto ser agente, metafísico e o local da ação, espaço material e mensurável. Essa dicotomia é que contribui para a criação da obra de arte e é o que gera o conflito que vai desencadear um desfecho de acordo com a intencionalidade do criador. Para atingir essas condições, Rubem Fonseca quebra os padrões convencionais da estrutura narrativa em “Relato de ocorrência em que qualquer semelhança não é mera coincidência”.
Nesse conto, é narrada a história de um acidente que ocorre numa BR, envolvendo um ônibus, que atropela uma vaca, que morre logo em seguida. Os moradores das cercanias, ao verem o acidente, correm na direção do ocorrido. A princípio, pensa-se que vão procurar meios para socorrerem as vítimas. Mas não é que acontece. Eles correm é para aproveitar a carne da vaca morta, e deixam as vítimas à mercê da sorte.
Para desenvolver tal enredo, o autor imbrica duas formas de relatar os fatos da história: estilo de jornal e a narrativa pertencente ao gênero literário. “Na madrugada do dia três de maio, uma vaca marrom caminha na ponte do Rio Coroado, no quilômetro 53, em direção ao Rio de Janeiro”. Nesse fragmento, estão presentes os elementos que constituem o texto jornalístico: o local, a data, o fato, os envolvidos, como forma de comprovação dos acontecimentos. O texto só passa a assumir a estrutura da narrativa literária a partir do sexto parágrafo, quando Elias, uma das personagens do conto, dá início às ações que vão se desenrolar na ponte, local do acidente. “O desastre foi presenciado por Elias Gentil dos Santos e sua mulher Lucília, residente nas cercanias. Elias manda a mulher apanhar um facão em casa. Um facão? Pergunta Lucília.” .
Esse procedimento de unir o jornalístico e a narrativa literária não só contribui para a verossimilhança da história, como também revela um menor grau de formalidade na atitude de narrar, já que se trata de um texto que segue os padrões modernistas. O texto foge ao estilo machadiano, por exemplo. Contudo não deixa de externar a natureza e o comportamento do homem diante dos seus problemas. Rubem Fonseca, nesse conto, apresenta um realismo marcado através da análise de uma situação que revela a intenção de mostrar pessoas preocupadas apenas em matar a fome, fato que representa a realidade de uma grande parte da população.
A onisciência do narrador é percebida através da expressão dos sentimentos das personagens e do modo como os fatos são focalizados. O narrador parece acompanhar cada detalhe dos acontecimentos. “Surge Marcílio da Conceição. Elias olha com ódio para ele. Aparece também Ivonildo de Moura júnior. E aquela besta que não traz o facão! Pensa Elias. Ele está com raiva de todo mundo, suas mãos tremem. Elias cospe no chão várias vezes, com força, até que sua boca seca.” A presença do discurso indireto livre nesse fragmento vem reforçar a expressão da angústia que toma conta de Elias no momento em que os vizinhos também chegam para desfrutar a carne do animal.
Como se pode perceber, as personagens do conto Relato de ocorrência em que qualquer semelhança não é mera coincidência não são apenas um elemento da estrutura narrativa, mas habitantes da realidade ficcional, os quais representam seres que se confundem, em nível de recepção, com o ser humano e sua complexidade. Para criar essa realidade, o autor, sabendo que personagem representa pessoa, o faz através dos recursos lingüísticos, uma vez que se constrói a personagem ficcional por meio das palavras e, quanto ao modo como essa linguagem aparece no texto, nota-se claramente a marca da oralidade no processo da construção do discurso. Nesse conto, tanto narrador, quanto personagem possuem o mesmo nível na utilização da palavra. Isso porque se trata de uma forma de não distanciar lingüisticamente as personagens do narrador. É através da linguagem que, ao lermos o conto de Rubem Fonseca, nos deparamos com uma simulação do real, criada a partir da cosmovisão do autor.
Considerando que um texto é um tecido, em que todos os elementos que o compõem devem estar entrelaçados para que exista significação, o conto de Rubem Fonseca é a representação concreta dessa assertiva. Desde o foco narrativo até o espaço, tudo se encaixa de modo a favorecer a coerência dos episódios narrados. A história é contada em terceira pessoa, por um narrador que presencia todos os acontecimentos. Essa é uma forma cinematográfica de construir o enredo e, com esse procedimento narrativo, o leitor se coloca em contato mais direto com os fatos narrados. O espaço onde se passa a história, a ponte, exerce um papel importante uma vez que, por representar um local perigoso, aparece como o lugar onde ocorre o acidente, deixando várias vítimas sem vida.
Toda a história se passa em um curto intervalo de tempo, de modo linear.
udo acontece “Na madrugada do dia três de maio...” Como se pode notar, trata-se de um tempo cronológico, em que os fatos se dão numa ordem natural, isto é, do início para o final. Primeiro, acontece o acidente; depois, os moradores vão em busca da carne da vaca, que morre atropelada e, para finalizar a história, todos tiram proveito da situação. É, pois, o tempo um elemento responsável pela organização dos fatos no enredo desse conto.
Fonte: www.paratexto.com.br

Textos completos disponíveis em português:

Posted by Profº Monteiro on setembro 02, 2011
Textos completos disponíveis em português:
Livros:
  1. LEFFA, J. Vilson. Aspectos da leitura: uma perspectiva psicolingüística. Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 1996 (Coleção Ensaios, 7) [Nota: com a mesma paginação do texto impresso]

Artigos:
  1. LEFFA, Vilson J. Não tem mais sesta: gestão do tempo em cursos a distância. Letras & Letras. Vol. 25, n. 2, p. 145-162, jul/dez. 2009.

  2. LEFFA, Vilson J. Se mudo o mundo muda: ensino de línguas sob a perspectiva do emergentismo. Calidoscópio, Vol. 7, n. 1, p. 24-29, jan/abr 2009.

  3. LEFFA, Vilson. J. Vygotsky e o ciborgue. In: SCHETTINI, Rosemary H.; DAMIANOVIC, Maria Cristina; HAWI, Mona M.; SZUNDY, Paula Tatianne C.. (Orgs.). Vygotsky: uma revisita no início do século XXI.  São Paulo: Andross Editora, 2009,  p. 131-155.

  4. LEFFA, Vilson J.; VETROMILLE-CASTRO, Rafael. Texto, hipertexto e interatividade. Revista de Estudos da Linguagem. Vol. 16, n. 2, p. 165-192, jul/dez 2008.

  5. LEFFA, Vilson J. Malhação na sala de aula: o uso do exercício no ensino de línguas. Revista Brasileira de Lingüística Aplicada, Belo Horizonte,v. 8, n. 1, p. 139-158, 2008.

  6. LEFFA, Vilson J. Como produzir materiais para o ensino de línguas. In: LEFFA, Vilson J. (Org.). Produção de materiais de ensino: prática e prática. 2. ed. Pelotas: EDUCAT, 2008, p. 15-41

  7. LEFFA, Vilson J. Pra que estudar inglês, profe?: Auto-exclusão em língua-estrangeira. Claritas, São Paulo, v. 13, n. 1, p. 47-65, maio 2007.

  8. LEFFA, V. J. . A aprendizagem de línguas mediada por computador. In: Vilson J. Leffa. (Org.). Pesquisa em lingüística Aplicada: temas e métodos. Pelotas: Educat, 2006, p. 11-36.

  9. LEFFA, Vilson J. O dicionário eletrônico na construção do sentido em língua estrangeira . Cadernos de tradução , Florianópolis, n. 18, p. 319-340, 2006.

  10. LEFFA, Vilson J. Nem tudo que balança cai: Objetos de aprendizagem no ensino de línguas. Polifonia. Cuiabá, v. 12, n. 2, p. 15-45, 2006

  11. LEFFA, V. J. Língua estrangeira hegemônica e solidariedade internacional. In: KARWOSKI, Acir Mário; BONI, Valéria de Fátima Carvalho Vaz (Orgs.). Tendências contemporâneas no ensino de inglês. União da Vitória, PR: Kaygangue, 2006, p. 10-25.

  12. LEFFA, V. J. Uma ferramenta de autoria para o professor: o que é e o que que faz. Letras de Hoje. v. 41, no 144, p. 189-214, 2006.

  13. LEFFA, V. J. . Transdisciplinaridade no ensino de línguas: a perspectiva das Teorias da Complexidade. Revista Brasileira de Lingüística Aplicada, v. 6, n. 1, p. 27-49, 2006

  14. LEFFA, V. J. . Interação simulada: Um estudo da transposição da sala de aula para o ambiente virtual. In: Vilson J. Leffa. (Org.). A interação na aprendizagem das línguas. 2 ed. Pelotas: EDUCAT, 2006, v. 1, p. 181-218.

  15. LEFFA, Vilson J. Interação virtual versus interação face a face: o jogo de presenças e ausências. Trabalho apresentado no Congresso Internacional de Linguagem e Interação. São Leopoldo: Unisinos, agosto de 2005.

  16. LEFFA, Vilson J. O professor de línguas estrangeiras: do corpo mole ao corpo dócil. In: FREIRE, Maximina M.; ABRAHÃO, Maria Helena Vieira; BARCELOS, Ana Maria Ferreira. (Org.). Lingüística Aplicada e contemporaneidade. São Paulo: ALAB/Pontes, 2005, p. 203-218.

  17. LEFFA, V. J. Aprendizagem mediada por computador à luz da Teoria da Atividade.  Calidoscópio, São Leopoldo, v. 3, n. 1, p. 21-30, 2005.

  18. LEFFA, V. J. Amo a ama mas a ama ama o amo: brincatividades com trava-línguas. Investigações: Lingüística e Teoria Literária. Recife: v.17, n.2, p.243-253, 2004.

  19. LEFFA, Vilson J. Análise Automática da resposta do aluno em ambiente virtual. Revista Brasileira de Lingüística Aplicada. Belo Horizonte: v.3, n.2, p.25 - 40, 2003.

  20. LEFFA, Vilson J. Metodologia do ensino de línguas. In BOHN, H. I.; VANDRESEN, P. Tópicos em lingüística aplicada: O ensino de línguas estrangeiras. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1988. p. 211-236.

  21. LEFFA, Vilson J. O ensino do inglês no futuro: da dicotomia para a convergência. In: STEVENS, Cristina Maria Teixeira; CUNHA, Maria Jandyra Cavalcanti (orgs.). Caminhos e colheita: ensino e pesquisa na área de inglês no Brasil. Brasília: Editora UnB, 2003. p. 225-250.

  22. LEFFA, Vilson J. A língua portuguesa no novo milênio: a pesquisa como fonte de conhecimento para o ensino. In: HENRIQUES, Cláudio Cezar; PEREIRA, Maria Teresa Gonçalves (orgs.) Língua e transdisciplinaridade: rumos, conexões, sentidos. São Paulo: Contexto, 2002, p. 25-42.

  23. LEFFA, V. J. . Quando menos é mais: a autonomia na aprendizagem de línguas. In: Christine Nicolaides; Isabella Mozzillo; Lia Pachalski; Maristela Machado; Vera Fernandes. (Org.). O desenvolvimento da autonomia no ambiente de aprendizagem de línguas estrangeiras. Pelotas: UFPEL, 2003, v. , p. 33-49.

  24. O ensino de línguas estrangeiras nas comunidades virtuais. In: IV SEMINÁRIO DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS, 2001, Goiânia. Anais do IV Seminário de Línguas Estrangeiras. Goiânia: UFG, 2002. v. 1, p. 95-108.

  25. Aspectos políticos da formação do professor de línguas estrangeiras. In: LEFFA, Vilson J. (Org.). O professor de línguas estrangeiras; construindo a profissão. Pelotas, 2001, v. 1, p.
    333-355.

  26. O texto em suporte eletrônico. DELTA - Revista de Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada, São Paulo, v. 17, n. especial, p. 121-136, 2001.

  27. Aspectos externos e internos da aquisição lexical. In: LEFFA, Vilson J. (Org.). As palavras e sua companhia; o léxico na aprendizagem. Pelotas, 2000, v. 1, p. 15-44.

  28. Como escrevem os que ensinam a escrever: Análise da produção textual de professores de língua portuguesa.Letras, Santa Maria, RS, n. 17, p. 67-92, 2000.

  29. A Lingüística Aplicada e seu compromisso com a sociedade. Trabalho apresentado no VI Congresso Brasileiro de Lingüística Aplica. Belo Horizonte: UFMG, 7-11 de outubro de 2001.

  30. O uso de dicionários on-line na compreensão de textos em língua estrangeira Trabalho apresentado no VI Congresso Brasileiro de Lingüística Aplica. Belo Horizonte: UFMG, 7-11 de outubro de 2001. p. 39 (resumo). (Arquivo em  html)

  31. Análise sintática: ensinando o que não se sabe para quem já sabe? In: FORTKAMP, Mailce Borges Mota; TOMITCH, Lêda Maria Braga (Orgs.) Aspectos da lingüística Aplicada; estudos em homenagem ao Professor Hilário Inácio Bohn. Florianópolis: Insular, 2000. p. 203-228.

  32. Perspectivas no estudo da leitura; Texto, leitor e interação social    In: LEFFA, Vilson J. ; PEREIRA, Aracy, E. (Orgs.) O ensino da leitura e produção textual; Alternativas de renovação. Pelotas: Educat, 1999. p. 13-37.

  33. A resolução da ambigüidade lexical sem apoio do conhecimento de mundoIntercâmbio. São Paulo, PUC : v. 6, Parte I, p. 869-889, 1996.   

  34. Fatores da compreensão na leitura. Cadernos do IL, Porto Alegre, v.15, n.15, p.143-159, 1996  

  35. A universidade e sua influência no ensino de 1o e 2o graus Trabalho apresentado na 47a Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. São Luís, 09-14 de agosto de 1995, p.176. (Resumo)  

  36. O processo de auto-revisão na produção do texto em língua estrangeira. Trabalho apresentado na 46a Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Vitória, 17 a 22 de julho de 1994. p. 447 (Resumo).

  37. Determinação sócio-lingüística do conceito de leitura. Trabalho apresentado na 46a Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Vitória, 17 a 22 de julho de 1994. p. 447 (Resumo).  

  38. Evolucão do conceito de leitura em alunos da 2a à 8a série. Anais. IX Encontro Nacional da ANPOLL. Caxambu, MG, 12 a 16 de junho de 1994, p. 113-115.        

  39. O ensino de línguas estrangeiras no contexto nacional. Contexturas, APLIESP, n. 4, p. 13-24, 1999.

  40. A resolução da anáfora no processamento da língua natural (Relatório de pesquisa)