Análise literária do livro de Gênesis - 1:1-2:3

Posted by Profº Monteiro on setembro 02, 2011

William D. Ramey
Introdução
Um testemunho pessoal
Quando eu estava em minha classe de filosofia introdutória durante meu primeiro ano
de calouro na universidade de Missouri, em Colúmbia, em 1972, o professor
sarcasticamente usou Gênesis 1:1-2:3 para mostrar supostas inconsistências ilógicas
e discrepâncias do relato da criação da Bíblia. Depois de uma série de palestras, ele
sumariamente rejeitou todo o relato, considerando-o como folclore.
Isto não foi um incidente isolado durante meus anos de faculdade. Em todas as minhas
aulas de Biologia, Química, Física, Antropologia, Fisiologia, Psicologia e Sociologia, a
mesma atitude prevalecia. Como pode um estudante combater tal formidável afronta
com relação às Escrituras? Especialmente se elas vêm de um professor de
universidade que degrada a Bíblia diante da classe e escarnece da opinião de alguém
que a lê ou possua uma! Afinal de contas, não é uma universidade um lugar onde
alguém pode obter um mais alto aprendizado? Não está o professor sempre correto?
Desconhecidos para mim naquela época, esses confrontos aumentaram e deram forma
a minha sede de entendimento literário bíblico. Depois de muitos anos estudando tanto
o Velho quanto o Novo Testamentos em sua língua original, é minha convicção pessoal
que um cristão pode defender a unidade literária e teológica do Relato da Criação, mas
não através das lentes da análise literária ocidental, mas através da análise do
pensamento oriental, o ambiente literário no qual o texto foi originalmente escrito.
O presente estudo oferece um passo introdutório para um cristão apreciar a unidade
literária e teológica da verdade atrás do Relato da Criação. Reconhecidamente, por
causa do método pelo qual os orientais elaboraram seus documentos, o método é
estranho ao pensamento moderno e difícil de apreciar à primeira vista. Mas para o
leitor que deseja estudar os princípios gerais da estrutura paralela, as recompensas
literária e teológica são consideráveis.
William D. Ramey
cinco de Abril, 1997
InTheBeginning.org
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comercial sem permissão do autor.
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A majestosa abertura de Gênesis 1:1-2:3 forma a primeira seção literária das Bíblias
hebraica e cristã. A segunda seção começa em Gênesis 2:4, com as palavras “esta é a
gênese do céu e da terra, quando eles foram criados, no dia em que o Senhor Deus os
criou”, e continua através de Gênesis 4:26, que traça aquilo que se tornou o universo
que Deus criou tão maravilhosamente criado. A humanidade se tornou desqualificada
para governar a imagem e semelhança de Deus por causa da desobediência,
resultando na deterioração de toda a raça humana. Interessantemente, Gênesis 2:1-3 é
um eco de 1:1, porque introduz frases e conceitos paralelos, mas em ordem inversa ao
do texto hebraico. (Figura 1)
A estrutura literária de Gênesis 1:1—2:3
A “Deus criou” (1:1b)
B “Deus” (1:1b)
C “Céus e terra” (1:1b)
X FORMANDO E ENCHENDO A TERRA (1:2-31)
C “Céus e Terra” (2:1)
B’ “Deus” (2:2)
A’ “Ele (Deus) criou” (2:3)
Figura 1
O padrão quiástico traz a seção a uma clara conclusão literária, que é reforçada pela
inclusão de “Deus criou”, ligando Gênesis 1:1 e 2:3, “Deus fez”. A seção inteira
permanece à parte dos episódios, que resulta em um estilo e conteúdo, assim fazendoa
a abertura do trabalho total de Gênesis, o mesmo da Torah, e, de fato, a Bíblia
inteira.
Muitos comentaristas antigos e modernos e uns poucos editores de versões inglesas
consideram Gênesis 2:4a não como encabeçando o texto seguinte, mas como um pósescrito
do que vem anteriormente, o relato da criação de Gênesis 1:1-2:3. Alguns
defendem que Gênesis 2:4a é uma inclusão de Gênesis 1:1. Contudo, existem
problemas que desencorajam a divisão de Gênesis 2:4 desta forma. Primeiro, a
expressão “este é o relato”, em Gênesis 2:4a, se tomada como um resumo, se
diferenciaria do seu uso comum no livro do Gênesis, onde ela uniformemente se refere
à genealogia ou narrativa que está adiante, e não o contrário. Segundo, por causa da
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estrutura quiástica de Gênesis 2:4 (figura 2), parece preferível entender o verso inteiro
como uma unidade estrutural, e por isso como um título para Gênesis 2:5 - 4:26. Da
mesma maneira, entender Gênesis 2:4 começando uma nova seção permite que se dê
um grande peso à estrutura quiástica de Gênesis 1:1-2:3 (figura 1) e o reconhecimento
de que o nome “Senhor Deus” não ocorre nem uma vez em Gênesis 1:1-2:3, mas
muitas vezes em Gênesis 2:5-3:24. Dessa forma, o que relaciona Gênesis 1:1 não é
2:4a, mas 2:1-3, em que o dia sétimo serve como um satisfatório desenlace para a
progressão da narrativa do relato. Os termos-chave de gênesis 1:1 (criou, Deus, os
céus, a terra) são repetidos em Gênesis 2:1-3, mas em ordem contrária (figura 2), o
que claramente indica que Gênesis 2:1-3 forma uma finalização, terminando a primeira
seção sem a desnecessária primeira parte de Gênesis 2:4.
A estrutura literária de Gênesis 2:4
Figura 2.
O propósito da repetição do ponto de início da criação em Gênesis 2:4 é estabelecer
conseqüências para a raça humana.
Os “setes” de Gênesis 1:1-2:3
A correspondência do primeiro parágrafo de Gênesis 1:2 com 2:1-3 é sublinhada pelo
número de palavras hebraicas em ambos os versículos, que contêm números múltiplos
de sete. Gênesis 1:1 consiste de sete (7x1) palavras hebraicas, Gênesis 1:2 consiste
de quatorze (7x2) palavras e Gênesis 2:1-3 consiste de trinta e cinco (7x5) palavras.
Além disso, “Deus” é mencionado trinta e cinco (7x5) vezes, “terra” ocorre vinte e uma
(7x3) vezes e “céus/firmamento” também vinte e uma (7x3) vezes. O número sete
também domina Gênesis 1:1-2:3 de uma maneira surpreendente, não somente no
número de palavras em uma seção particular, mas também no número de vezes em
que uma palavra ou frase ocorre, que ao todo perfaz um padrão de “setes” nessa parte
do relato.
A “céu
B “terra”
C “criou”
C’ “criou”
B’ “terra”
A’ “céu”
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Sete parágrafos: o arranjo de Gênesis 1:1-2:3 consiste de uma introdução e de sete
parágrafos. A introdução identifica o Criador e a criação (Gn 1:1-2); seis parágrafos
correspondem a seis dias da criação (1:3-21). O sétimo parágrafo marca o auge, o
sétimo dia, o dia da consagração (2:1-3).
1) As palavras de comando: “E Deus disse”, enquanto ocorra dez vezes, é agrupado
em sete (7x1) grupos: Gn (1:3) - (1:6) - (1:9, 1:11) - (1:14) - (1:20) - (1:24) - (1:26, 28,
29).
2) As palavras de ordem: “Haja”, embora ocorra oito vezes, sua fórmula é agrupada
em sete: Gn (1:3) – (1:6) – (1:9, 11) – (1:14) – (1:20) – (1:24) – (1:26).
3) As palavras de cumprimento: “E assim se fez” ocorre sete vezes: Gn (1:3) – (1:7)
– (1:9) –(1:11) – (1:15) – (1:24) – (1:30).
4) As palavras da realização: “E Deus criou” ocorre sete vezes: Gn (1:4) – (1:7) –
(1:11) – (1:16) – (1:21) – (1:25) – (1:27).
5) As palavras de aprovação: “E viu Deus que era bom” ocorre sete vezes: Gen.(1:4)
– (1:10) – (1:12) – (1:18) – (1:21) – (1:25) – (1:31).
6) Palavras divinas subseqüentes: Deus nomeando ou abençoando as coisas ocorre
sete vezes: Gn (1:5) – (1:5) – (1:8) – (1:10) – (1:10) – (1:22) – (1:28).
7) A confirmação de sete dias: Existem sete dias criados: Gn (1:5) – (1:8) – (1:13) –
(1:19) – (1:23) – (1:31) – (2:2).
Embora haja dez palavras de comando divino (número 1) e oito ordens (número 2), a
fórmula está agrupada em setes. O padrão sete intencional de Gênesis 1:-2:3 é
habilidosamente mantido pelo autor e intencionalmente omitidas algumas dessas
palavras: a formula de cumprimento é omitida em Gênesis 1:5 (dia 5), a descrição do
ato em Gênesis 1:9 (dia 3) e a fórmula de aprovação é omitida em Gênesis 1:6-8 (dia
2). Considerando que em cada caso a Septuaginta erradamente adiciona a fórmula
apropriada, estas adições obscurecem o padrão dos setes nesta seção.
A estrutura literária dos seis dias da criação
As colunas paralelas seguintes claramente indicam que o relato da criação é
organizado em dois grupos de três (figura 3). No primeiro grupo, as regiões são
criadas: noite e dia, o firmamento (e sua atmosfera) e os oceanos, e a terra. No
segundo grupo, os correspondentes habitantes destas regiões são criados: corpos
celestes, pássaros e peixes, animais terrestres e o homem. Isto, contudo, levanta uma
outra questão recorrente: por que as plantas são criadas no terceiro dia em vez de no
sexto dia? As plantas, pensamos nós, deveriam ter sido agrupadas com as criaturas
vivas em vez de serem agrupadas com a terra.
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Que critério de classificação o autor usou pondo as plantas antes mesmo do sol? Uma
dica para a solução deste problema vem da descrição peculiar dos animais da terra: “o
gado e os répteis e as feras da terra”. Podemos dizer que este trecho entre aspas é
uma sinédoque de todos os animais terrestres vivos, mas por que estes seres como
representantes?”Feras da terra” poderia se referir a todos os outros animais. Por que
então incluir o gado e os répteis? Primeiramente, isto não parece fornecer uma
solução. Porém, olhemos o modo como o autor resume esta lista e animais terrestres
em Gênesis 1:28: “todo animal que se move sobre a terra”.
O autor claramente sublinha o tipo de movimento que o animal faz. Ele põe os
pássaros no dia cinco porque eles se movem no ar, através do firmamento dos céus.
Se nós classificarmos os animais de acordo com o meio de locomoção, então estes
animais que se movem sobre a terra podem ser subclassificados em três tipos. Há o
gado e semelhantes, que se movem sobre a terra; há os répteis, que se movem ao
longo da terra, deslizando sobre ela; e finalmente há as “feras da terra”, que abrem
caminho através dela (a punição da serpente tem a ver com a maneira do seu
movimento).
Análise literária dos seis dias da criação – Dias de formação e dias de
preenchimento
Dias da formação
Dias do preenchimento
1. “Haja luz” (1:3).
4. “Haja luzeiros no firmamento” (1:14).
2. “Haja firmamento no meio das águas
e separação entre águas e águas”
(1:6).
5. “Povoem-se as águas de enxames de
seres viventes; e voem as aves sobre a
terra, sob o firmamento dos céus” (1:20).
3a “Apareça a porção seca” (1:9).
3b “Produza a terra relva” (1:11).
6a “Produza a terra seres viventes” (1:24).
“Façamos o homem” (1:26).
6b “Eis que vos tenho dado todas as
ervas que dão semente e se acham na
superfície da terra e todas as árvores em
que há fruto que dê semente; isso vos
será por mantimento” (1:29).
Figura 3.
Uma vez que consigamos ver isso, a razão pela qual as plantas estão registradas no
dia 3 se torna óbvia. Elas, diferentemente do ar, dos peixes e do mar, dos animais da
terra e dos corpos celestes, estão desprovidas de capacidade de locomoção. Neste
sentido, elas são “lugares”, e não seres vivos. Contudo, nosso autor certamente
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reconhece que as plantas tem algo em comum com os seres do dia 5 e 6, alguma coisa
da qual os corpos celestes do dia 4 têm falta. As plantas produzem “sementes de
acordo com sua espécie”, assim como os pássaros, os peixes e os animais terrestres
procriam de acordo com sua própria espécie. Conseqüentemente, podemos ver que os
dias 3 e 4 são, de uma certa maneira, uma transição entre a criação inanimada dos
dias 1 e 2 e as criaturas animadas dos dias 5 e 6. Para se estar completamente vivo
um ser precisa ter a capacidade de locomoção e reprodução.
Notemos, cuidadosamente, como Moisés é cuidadoso em se certificar que Deus
mesmo é vivo de acordo com os termos do relato da criação! Primeiro encontramos
Deus em movimento – Seu Espírito se move através da face do abismo. O relato inteiro
da criação pode ser lido como o resultado deste movimento. O movimento da criação
de Deus tem seu clímax, a reprodução dele mesmo de acordo com Sua própria espécie
– a humanidade para governar Sua criação, isto é, os seres humanos em Sua própria
imagem!
Análise literária dos seis dias da criação
Da figura 3, podemos ver que os verbos característicos que unem o dia 1 ao dia 3 são
“separar” e “unir”: verbos de formação; enquanto que os verbos que unem os dias 4
para o dia 6 “abundar”, “encher”, “frutificar” e “aumentar”: verbos que indicam
preenchimento. Assim, imediatamente nós podemos ver a relação entre as palavras da
introdução (Gn 1:1-2), “e a terra era sem forma e vazia”. Os primeiros três dias
concernem à formação e os dias 4 a 6 dizem respeito ao preenchimento da terra.
Uma observação mais surpreendente é que comparações entre os dias podem ser
feitas horizontalmente, bem como verticalmente. “Luz” é a palavra-chave no dia 1, e
“luzes” é a palavra-chave no dia 4. No dia 2, Deus “separou as águas debaixo do
firmamento das águas acima do firmamento”, enquanto no dia 5, Ele disse: “Povoem-se
as águas de enxames de seres viventes, e voem as aves sobre a terra, sob o
firmamento dos céus”. Em outra palavras, no dia 2, Deus separou as águas baixas das
águas de cima do firmamento e no dia 5 ele criou os animais para habitar as águas sob
o firmamento e então seres para habitar o firmamento. Os dias 3 e 6 são algo um tanto
diferente dos outros dias em Gênesis 1:3-31. “E disse Deus” aparece mais de uma vez
(no dia 3, aparece duas vezes; no dia 6, aparece 3 vezes). Duas comparações
adicionais podem ser feitas entre os dias 3 e 6. No dia 3, “a terra seca” apareceu, e no
dia 6, Deus criou (1) “os animais domésticos, criaturas que se movem ao longo da
terra, e os animais selvagens”; e (2) “a humanidade” para habitar a terra seca. Além do
mais, o dia 3 testemunhou a terra sendo coberta com “relva” enquanto que no dia 6
Deus disse que Ele daria ao homem “toda erva verde para mantimento”.
Estas surpreendentes relações horizontais e verticais entre os vários dias dificilmente
poderia ser coincidência. Elas demonstram a beleza literária do episódio e enfatiza a
simetria e organização da atividade criadora de Deus. Porém, o planejamento
claramente cuidadoso e o pensamento embutido na habilidade desse relatório em
forma de um tecido levantam uma questão que pode ajudar a resolver várias questões
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de interpretação: seria possível que a ordem dos eventos na narrativa da criação seja
parcialmente literária e somente parcial cronologicamente falando?
Gostaria de sugerir que Moisés, por causa de considerações teológicas, estruturou o
relato da criação em uma estrutura literária cuidadosamente tecida. Se – como as
versões em inglês traduzem as palavras finais em Gênesis 1:5, 8, 13, 19, 23, 31 como
“o primeiro dia”, “o segundo dia”, “o terceiro dia”, “o quarto dia”, “o quinto dia” e “o sexto
dia”, respectivamente, estão corretas – então o caso está encerrado. O artigo definido
com a palavra “dia” exigiria que o autor pretendeu narrar em ordem cronológica.
Porém, de fato, a versão literal das frases hebraicas em questão é realmente: “um dia”,
“um segundo dia”, “um terceiro dia”, “um quarto dia”, “um quinto dia” e “o sexto dia”.
Gostaria de chamar a atenção para o fato de que a omissão do artigo definido em
todos os outros dias, exceto no sexto (e, por último, no sétimo), permite a possibilidade
de uma ordem literária bem como de uma ordem cronológica (o sexto e o sétimo dias).
Não-cronológico, desnecessário dizer, não significa não-histórico! O livro de jeremias,
por exemplo, foi arranjado em tópicos, em vez de em ordem cronológica, embora seja
histórico do início ao fim. Similarmente, os dois relatos históricos da tentação de Jesus
por Satanás em Mateus 4:1-11 e em Lucas 4:1-13 arranjam as três frases cruciais da
tentação em diferente ordem, indicando que nem a ordem em Mateus nem em Lucas
seja uma ordem cronológica.
Se o relato da criação em Gênesis 1:1-2:3 está, pelo menos parcialmente, em ordem
não-cronológica, vários problemas intrigantes podem facilmente ser resolvidos. Por
exemplo, como pode ser que Deus “separou a luz das trevas” e que Ele “chamou a luz
‘dia’ e as trevas ‘noite’ no dia 1 (Gen 1:4-5), se o sol não havia sido criado até o dia 4?
A resposta mais simples parece ser que estes dois dias não estão relacionados um ao
outro cronologicamente, mas que eles se referem ao mesmo evento – a criação do sol.
De fato, isto pareceria ser implícito em Gênesis 1:17-18, onde está escrito que Deus
pôs o sol na “expansão dos céus, para separar a luz das trevas” (a última frase, de
fato, é diretamente citada de Gênesis 1:4).
Em outras palavras, Gênesis 1:4 nos diz que Deus separou a luz das trevas e em
Gênesis 1:18 como ele fez isso. Ou, dando outro exemplo. Como pode haver tarde e
manhã (Gn 1:5, 8,13) antes de o sol ser trazido à existência? Se a ordem cronológica
não é exigida, não há mais nenhum problema aqui. E, novamente, como poderiam as
plantas, incluindo as árvores frutíferas, que requerem a fotossíntese para sua
sobrevivência, sobreviverem sem o calor da luz do sol (Gn 1:12,13)? A resposta é
mais bem dada ao longo destas linhas: a criação do sol precedeu a criação da vida
vegetal, providenciando calor para o solo, juntamente com outras que promoveriam o
crescimento.
Devemos enfatizar, concluindo, que eu acredito nos seis dias literais (cada um como
um dia de vinte e quarto horas); pode ser que - por causa de questões teológicas, que
Moisés desejou enfatizar - estes dias da criação em Gênesis 1:3-31 demonstrem um
arranjo não cronológico, exceto pelo sexto e sétimo dias.
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Um “quarto” dia
O dia 4 é, claro, a metade da semana da criação, e ele mesmo é elaboradamente
construído dentro de um padrão quiástico de termos introduzidos em cada vez pela
preposição hebraica “para”. Alguns argumentam que há uma grande quantidade de
repetição no relato do dia 4, e isso evidencia múltiplas fontes do relato da criação
(como o relato inteiro da criação). Contudo, essas repetições são uma estrutura
concêntrica muito bem organizada. Seus principais elementos consistem de uma lista
de funções, que são ilustradas na figura 4.
A estrutura literária de Gênesis 1:14-18: o quarto dia
A “separação entre o dia e a noite” (1:14a)
B “para sinais dos tempos, dias e anos” (1:14b)
C “para iluminar a terra” (1:15).
D “para governar o dia” (1:16a)
D’ “para governar a noite” (1:16b)
C’ “para iluminar a terra” (1:17)
B’ “para governar o dia e a noite” (1:18a)
A’ “para separar a luz das trevas” (1:18b)
Figura 4.
O cumprimento dos comandos divinos em Gênesis 1:14-15 é retomado em ordem
inversa em Gênesis 1:17-18! A criação do sol, da lua e das estrelas é mencionada no
centro do padrão literário (Gênesis 1:16). As inversões estruturais deste tipo são
comuns no livro do Gênesis e em toda a Escritura. A tripla função dos corpos celestes -
“dividir”, “governar” e “iluminar” – são assim mencionadas duas vezes, para enfatizar
sua verdadeira função. Dentro destes cinco versos, a preposição “para” ocorre onze
vezes, definindo o papel do sol, da lua e das estrelas.
Ao mesmo tempo, ocorrem ligeiras variações entre o comando de realização (A/A’ e
B/B’), que tornam o relato mais interessante. Dada a sutilidade do relato, torna-se difícil
sustentar que este é um relato composto de vários outros relatos, fundidos em um só.
Ao contrário, há uma unidade homogênea, que revela algumas preocupações
características do autor e demonstra, através da estrutura da narrativa, o poder
soberano da palavra divina na criação.
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O sétimo dia
O relato do dia sétimo (Gn 2:1-3) é um caso à parte da estrutura padrão de cada um
dos outros seis dias. Ele funciona como um epílogo porque os termos “céus e terra”,
“Deus” e “criar” reaparecem em ordem inversa àquela de Gênesis 1:1, e este eco
invertido do verso inicial do capítulo conclui a seção. Em vez de um início de criação,
existe o fim, a cessação, a bênção e a santificação. A ênfase do dia 7 deve ser então a
perfeita finalização de toda a criação. De fato, o padrão das palavras e textos no texto
hebraico claramente demonstra esta ênfase. Existem trinta e cinco (7x5) palavras no
texto hebraico nestes versos, um múltiplo de sete. As três passagens do meio, (Gn
2:2a; 2:2b; e 2:3a), no texto hebraico, têm sete palavras cada, e o numeral adjetivo
“sétimo” está no interior de cada uma destas passagens! O leitor, por isso, recebe uma
forte impressão de que o dia 7 é uma celebração de uma realização, de uma
finalização. Dessa maneira, tanto a forma quanto o conteúdo, enfatizam a distintividade
do dia sétimo.
Além do mais, o sétimo dia é distinto dos outros seis dias do trabalho da criação de
Deus por que ele é o único dia no qual não é mencionado nenhum elemento da
criação: ele é o dia no qual Deus cessou do Seu trabalho. Outra observação
interessante sobre o dia 7 é que ele é o único dia em que não há a repetição da
expressão “e houve tarde e manhã”. O autor do texto está dizendo ao leitor que o
descanso de Deus permanece aberto para Seu povo, uma vez que o trabalho da
criação está terminado, mas, no caso dos israelitas que morreram no deserto por causa
da rebeldia, esse descanso pode ser perdido para sempre por causa da falta de fé.
((Hb. 4:1-10; cf. Hb. 3:7-19; Mt. 11:29- 30).
A seção seguinte contém uma interessante estrutura quiástica composta por Klaus
Potsch, a respeito de Gênesis 1:1-2:25. Qualquer comentário ou pergunta pode ser
enviado para HUKlaus.Potsch@omv.co.atUH.
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A estrutura literária de Gênesis 1:1-2:25
por Klaus Potsch
a 1:1-3 a “nudez” da matéria
b 1:4-5 separação da luz e das trevas
c 1:6-8 separação das águas de cima da águas de baixo
d 1:9-10 separação da terra seca do mar
e 1:11-13 enchendo a terra
f 1:14-19 preenchendo o céu com luzeiros para governar o dia e medir os tempos
g 1:20-23 enchendo as águas com seres vivos
h 1:24-25 enchendo a terra com animais
i 1:26 o conceito de humanidade de Deus
j 1:27 criação da humanidade, transferência da imagem
k 1:28 a morada da humanidade – a terra
l 1:29-30 a base da comida para os seres vivos
m 1:31 criados os céus e a terra, dia 6
n 2:1 a criação de Deus completada em conteúdo
o 2:2a a criação de Deus completa no tempo
p 2:2b Deus descansa no sétimo dia
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