Cantigas de Escárnio e Maldizer(ERA MEDIEVAL)

Posted by Profº Monteiro on março 16, 2017


Esse tipo de cantiga procurava ridicularizar pessoas e costumes da época com produção satírica e maliciosa.

As cantigas de escárnio são críticas, utilizando de sarcasmo e ironia, feitas de modo indireto, algumas usam palavras de duplo sentido, para que, não entenda-se o sentido real.

As de maldizer utilizam uma linguagem mais vulgar, referindo-se diretamente a suas personagens, com agressividade e com duras palavras, que querem dizer mal e não haverá outro modo de interpretar.


Os temas centrais destas cantigas são as disputas políticas, as questões e ironias que os trovadores se lançam mutuamente.
Vej' eu as gentes andar revolvendo
e mudando aginh' os corações
do que põe entre sy as nações;
e já m'eu aquesto vou aprendendo
e ora cedo mais aprenderei:
a quen poser preito, mentir-lho-ei,
e assi irei melhor guarecendo.

Cá vej' eu ir melhor ao mentireiro
qu'ao que diz verdade ao seu amigo;
e por aquesto o jur'e o digo,
que já mais nunca seja verdadeiro,
mais mentirei e firmarei log' al:
a quem quero (i) bene, querrei-lhe mal,
e assi guarrei como cavaleiro.

Pois que me prez nen mha onrra non crece,
porque me quígi teer à verdade
vede-lo que farei, par car(i)dade
pois que vej'o o que m'assi acaece
mentirei ao amigo e ao senhor,
e poiará meu prez e meu valor
con mentira, pois con verdade dece. Tema: o desconcerto do mundo ou o mundo às avessas.
Assunto: a(s) injustiça(s) deste mundo (os desonestos são premiados e os honestos castigados);
o sujeito poético manifesta a firme intenção de mudar de atitude como se pode comprovar: "a quen puser preito, mentir-lho-ei", "mais mentirei e firmarei logo al", "querrei-lhe mal", "mentirei ao amigo e ao senhor".
Forma: cantiga de escárnio porque encerra uma crítica que não identifica os atingidos.
Valor documental:
reside no facto de a cantiga fornecer informações sobre a sociedade da Idade Média: ambiente social, moral e cultural.
"O que foi passar a serra" de Afonso X (CBN 494/CV 77)
O que foi passar a serra
e nom quis servir a terra
é ora, entrant'a guerra,
que faroneja?
Pois el agora tam muito erra,
maldito seja!

O que levou os dinheiros
é por nom ir nos primeiros
que faroneja?
Pois que vem cõnos prestumeiros
maldito seja!

O que filhou gram soldada
e nunca fez cavalgada,
é por nom ir a Graada
que faroneja?
Se é ric'omem ou á mesnada,
maldito seja!

O que meteu na taleiga
pouc'aver e muita meiga,
é por nom entrar na Veiga
que faroneja?
Pois chus mol (e) é que manteiga.
maldito seja! Tema: sátira política, decadência, traição.
Caracterização do objecto: covarde, ladrão, falta de honra.
Refrão:
conteúdo - oportunismo do cavaleiro/maldição do rei;
pontuação - interrogação e exclamação;
ritmo - versos curtos, intercalado com verso longo.
Forma: paralelismo anafórico que reforça a caracterização; estrofes singulares e monórrimas.
"Roi Queimado morreu com amor" de Pero Garcia Burgalês (CV 988/CBN 1380)
Roi Queimado morreu com amor
em seus cantares, par Santa Maria,
por uma dona que gran bem queria;
e, por se meter por mais trobador,
por que lh' ela non quiso bem fazer,
feze-s' el em seus cantares morrer,
mais resurgiu depois, ao tercer dia.

Este fez ele por uma sa senhor
que quer gram bem; e mais vos ém diria:
por que cuida que faz i mestria,
enos cantares que fez, á sabor
de morrer i e des i d' ar viver;
esto faz el, que x' o pode fazer,
mais outr' omem per rem nono faria.

e nom á já de sa morte pavor,
se nom, sa morte mais la temeria,
mais sabe bem, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for;
e faz-s' em seu cantar morte prender,
des i ar vive: vedes que poder
que lhi Deus deu, - mais queno cuidaria!

E se mi Deus a mi desse poder
qual oj' el á, pois morrer, de viver,
ja mais morte nunca eu temeria. Tema:
cantiga de Escárnio; roi Queimado é atacado como trovador de pouca qualidade, e o amor cortês é ridicularizado.
Divisão em partes:
1ª. parte: 1ª. estrofe - roi Queimado para mostrar ser melhor trovador do que os outros e amar mais a sua dama morreu de amor por ela;
2ª. parte: 2ª. estrofe - ele fez isso porque acha que assim mostra mais engenho do que os outros trovadores;
3ª. parte: 3ª. estrofe - ele é como que um eleito de Deus, pois morreu e ressuscitou; o trovador também se lhe fosse dado esse poder não temeria a morte e ressuscitaria como ele;
em todo o poema há ironia e na terceira parte ridiculariza-se o amor cortês.
Forma:
cantiga de mestria com três estrofes (sétimas) e finda (terceto) que retoma a rima dos três últimos versos das estrofes (coblas) abbabbb, rima emparelhada e interpolada, toante e consoante, pobre e rica.
Sirventês literário: um trovador ridiculariza outro por se querer fazer melhor, há também a inveja a funcionar.
"Meu senhor arcebispo, and' eu escomungado," de Diego Pezelho (BV 1124/CBN 1959)
Meu senhor arcebispo, and' eu escomungado,
porque fiz lealdade; enganou-m'i o pecado.
Soltade m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Se traiçon fezesse, nunca vo-la diria;
mais, pois fiz lealdade, vel por Santa Maria,
Soltade m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Per mha malaventura tive um castelo em Sousa
e dei-o a seu don' e tenho que fiz gran cousa:
Soltade m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Per meus negros pecados, tive um castelo forte
e dei-o a seu don', e ei medo da morte.
Soltade m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor. Tema: sátira popular contra os senhores que faltaram ao juramento de fidelidade a D. Sancho II e entregaram os castelos a D. Afonso III.
Assunto:
excomunhão por causa da entrega dos castelos.
Razão do pedido e sua coerência:
pede que lhe seja levantada a excomunhão pois se limitou a ser fiel ao seu rei, foi leal mas como os bispos foram traidores excomungaram-no pela sua lealdade.
Caracterização do protagonista:
caracteriza-se como traidor, prefere ser considerado como tal a ser excomungado e morrer em pecado; ao fazer este acto de contrição está, no fundo, a criticar o arcebispo (o clero) pela sua traição.
Forma:
cantiga de refrão aa CC; dísticos, refrão em dístico.
Valor documental:
documenta as lutas políticas, a traição dos alcaides, a corrupção do poder eclesiástico e da fidalguia militar.
Classificação da sátira:
maldizer - a pessoa satirizada é nomeada;
escárnio - a crítica é velada com humor - ironia.
"Ai, dona fea, foste-vos queixar" de Joam Garcia de Guilhade (CBN 1485/CV 1097)
Ai, dona fea, foste-vos queixar
que vos nunca louvo em meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
em que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar;
dona fea, velha e sandia!

dona fea, se Deus mi pardom,
pois avedes atam gram coraçom
que vos eu loe, em esta razom
vos quero ja loar toda via;
e vedes qual sera a loaçom:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
em meu trobar, pero muito trobei;
mais ora ja um bom cantar farei;
em que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia! Tema: paródia de louvor da dama, característico das cantigas de amor.
Assunto:
a dama queixava-se de nunca ser louvada pelo trovador, ele, ao saber disso, decide fazer-lhe um cantar mas que a ridiculariza em vez de louvar.
Recursos estilísticos:
apóstrofe: "D. Fea";
hipérbole: "mais ora quero fazer um cantar/em que vos loarei toda via";
o refrão com uma gradação ternária e um ritmo ascendente "dona fea, velha e sandia!"; termina cada uma das estrofes, insultando a dama, gritando-lhe, como num coro trágico, como num eco que nunca se calará.
Forma:
paralelismo semântico (4º. e 5º. versos de cada estrofe) e estrutural (4º. verso e refrão);
cantiga de refrão, AAABAC, quintilhas c/ refrão monóstico; cantiga de escárnio;
Sirventês pessoal.

LIVRO PRECONCEITO LINGUISTICO

Posted by Profº Monteiro on março 16, 2017


BAIXAR PDF



No livro "Preconceito Lingüístico" o autor Marcos Bagno, defende com vigor a língua viva e verdadeiramente falada no Brasil.
O livro contém 183 páginas e é publicado pelas Edições Loyola (11ª edição, 2002). Está dividido em quatro partes e um anexo: I – A mitologia do preconceito lingüístico; II – O círculo vicioso do preconceito lingüístico; III – A desconstrução do preconceito lingüístico; e IV – O preconceito contra a lingüística e os lingüistas. O anexo refere-se à carta enviada pelo autor à revista Veja.
Para o autor "tratar da língua é tratar de um tema político", já que também é tratar de seres humanos.
"O preconceito lingüístico está ligado, em boa medida, à confusão que foi criada, no curso da história, entre a língua e gramática normativa"
Marcos Bagno diz que a língua é como um rio que se renova, enquanto a gramática normativa é como a água do igapó, que envelhece, não gera vida nova a não ser que venham as inundações.
O preconceito lingüístico, vem sendo alimentado diariamente pelos meios de comunicação, que pretendem ensinar o que é "certo" e o que é "errado", sem falar, é claro nos instrumentos tradicionais de ensino da língua, ou seja a gramática normativa e os livros didáticos.
Para superar os preconceitos lingüísticos, o autor começa por lembrar, catalogar e dissecar alguns mitos consagrados:
"A língua portuguesa apresenta uma unidade surpreendente" - o maior e mais sério dentre os outros mitos, por ser prejudicial à educação e não reconhecer que o português falado no Brasil é bem diversificado, mesmo a escola tentando impor a norma lingüística como se ela fosse de fato comum a todos os brasileiros. As diferenças de status social em nosso país, explicam a existência do verdadeiro abismo lingüístico entre os falantes das variedades não-padrão do português brasileiro que compõe a maior parte da população e os falantes da suposta variedade culta, em geral não muito bem definida, que é a língua ensinada na escola.
"Brasileiro não sabe português/Só em Portugal se fala bem português"- de acordo com o autor, essas duas opiniões refletem o complexo de inferioridade de sermos até hoje uma colônia dependente de uma país mais antigo e mais "civilizado". O brasileiro sabe português sim. O que acontece é que o nosso português é diferente do português falado em Portugal. A língua falada no Brasil , do ponto de vista lingüístico já tem regras de funcionamento, que cada vez mais se diferencia da gramática da língua falada em Portugal. Na língua falada, as diferenças entre o português de Portugal e o português falado Brasil são tão grandes que muitas vezes surgem dificuldades de compreensão. O único nível que ainda é possível uma compreensão quase total entre brasileiros e portugueses é o da língua escrita formal, porque a ortografia é praticamente a mesma, com poucas diferenças. Concluí-se que nenhum dos dois é mais certo ou mais errado, mais bonito ou mais feio: são apenas diferentes um do outro e atendem às necessidades lingüísticas das comunidades que os usam, necessidades lingüísticas que também são diferentes.
"Português é muito difícil" – para o autor essa afirmação consiste na obrigação de termos de decorar conceitos e fixar regras que não significam nada para nós. No dia em que nossa língua se concentrar no uso real, vivo e verdadeiro da língua portuguesa do Brasil, é bem provável que ninguém continue a repetir essa bobagens. Todo falante nativo de um língua sabe essa língua, pois saber a língua, no sentido científico do verbo saber, significa conhecer intuitivamente e empregar com naturalidade as regras básicas de funcionamento dela. A regência verbal é caso típico de como o ensino tradicional da língua no Brasil não leva em conta o uso brasileiro do português. Por mais que o aluno escreva o verbo assistir de forma transitiva indireta, na hora de se expressar passará para a forma transitiva direta: "ainda não assisti o filme do Zorro!"
Tudo isso por causa da cobrança indevida, por parte do ensino tradicional, de uma norma gramatical que não corresponde à realidade da língua falada no Brasil.
"As pessoas sem instrução falam tudo errado" – Isso se deve simplesmente a um questão que não é linguística, mas social e política – as pessoas que dizem Cráudia, Praca, Pranta pertencem a uma classe social desprestigiada, marginalizada, que não tem acesso à educação forma e aos bens culturais da elite, e por isso a lingua que elas falam sobre o mesmo preconceito que pesa sobre elas mesmas, ou seja, sua língua é considerada "feia", "pobre", "carente", quando na verdade é apenas diferente da língua ensinada na escola. Assim, o problema não está naquilo que se fala, mas em quem fala o quê. Neste caso, o preconceito lingüístico é decorrência de um preconceito social.
"O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão" – O que acontece com o português do Maranhão em relação ao português do resto do país é o mesmo que acontece com o português de Portugal em relação ao português do Brasil: não existe nenhuma variedade nacional, regional ou local que seja intrinsecamente "melhor", "mais pura", "mais bonita", "mais correta" que outra. Toda variedade lingüística atende às necessidades da comunidade de seres humanos que a empregam. Quando deixar de atender, a ela inevitavelmente sofrerá transformações para se adequar à novas necessidades.
"O certo é falar assim porque se escreve assim" – o que acontece é que em toda língua mundo existe um fenômeno chamado variação, isto é, nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares, assim como nem todas as pessoas falam a própria língua de modo idêntico. A ortografia oficial é necessária, mas não se pode ensiná-la tentando criar uma língua falada "artificial" e reprovando como "erradas" as pronúncias que são resultado natual das forças internas que governam o idiomas.
"É preciso saber gramática para falar e escrever bem" – Segundo Mário Perini em Sofrendo a gramática (p.50), "não existe um grão de evidência em favor disso; toda a evidência disponível é em contrário". Afinal, se fosse assim, todos os gramáticos seriam grandes escritores, e os bons escritores seriam especialistas em gramática.
A gramática normativa é decorrência da língua, é subordinada a ela, dependente dela. Como a gramática, porém, passou a ser um instrumento de poder e de controle. A língua passou a ser subordinada e dependente da gramática.
"O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social" – esse mito como o primeiro são aparentados porque ambos tocam em sérias questões sociais. A transformação da sociedade como um todo está em jogo, pois enquanto vivermos numa estrutura social cuja existência mesma exige desigualdades sociais profundas, toda tentativa de promover a "ascensão" social dos marginalizados é, senão hipócrita e cínica pelo menos de uma boa intenção paternalista e ingênua.
O autor do livro descreve a existência de um círculo vicioso de preconceito lingüístico composto de três elementos: o ensino tradicional, a gramática tradicional e os livros didáticos. Na visão de Bagno, isso não funciona assim, "a gramática tradicional inspira a prática de ensino, que por sua vez provoca o surgimento da indústria do livro didático, cujos autores, fechando o círculo, recorrem à gramática tradicional como de fonte de concepções e teorias sobre a língua". A maneira como o ensino é administrado tem sido estudada pelo Ministério da Educação e nos Parâmetros curriculares nacionais" reconhece que há "muito preconceito decorrente do valor atribuído às variedades padrão e ao estigma associado às variedades não-padrão, consideradas inferiores ou erradas pela gramática. Essas diferenças não são imediatamente reconhecidas e, quando são, são objeto de avaliação negativa. Bagno cita o quarto elemento como sendo os comandos paragramaticais, ou seja todo esse arsenal de livros, manuais de redação de empresas jornalísticas, programadas de rádio e de televisão, colunas de jornal e de revista, CD-ROMS, "consultórios gramaticais" por telefone e por a afora, que é a "saudável epidemia" citada por Arnaldo Niskier.
De acordo com Bagno, o formidável poder de influência dos meios de comunicação e dos recursos da informática poderia ser de grande utilidade se fosse usado precisamente na direção oposta: na destruição dos velhos mitos, na elevação da auto-estima lingüística dos brasileiros, na divulgação do que há de realmente fascinante no estudo da língua.

Bagno cita o professor Napoleão Mendes de Almeida
Falecido em 1998, como o mais respeitado e renomado propagador do preconceito lingüístico por meio de comandos paragramaticais no Brasil durante muito tempo. Ele nunca escondeu sua intolerância e seu autoritarismo em suas colunas de jornal, como também o seu profundo preconceito social registrado no seu Dicionário de questões vernáculas. Para Napoleão, a literatura brasileira morreu com Machado de Assis, tudo que veio com o Modernismo e a modernidade é desprezível. Carlos Drummond de Andrade, nem pensar. Napoleão o condenou aos infernos só porque trocou o verbo haver pelo ter no verso " No meio do caminho tinha uma pedra".
Além de Napoleão, Marcos Bagno cita também Luiz Antônio Sacconi que escreveu o livro Não erre mais! Um festival de besteiras que é consumido com todo o tipo de expressões preconceituosas.
Mas segundo Bagno, o problema se estende à imprensa. Ele destacou uma coluna da Professora Dad Squarisi, que escreve no Correio Brasiliense as Dicas de Português, e analisou. É preciso reconhecer a capacidade da Professora Dad e a utilidade dela no resultado.
Bagno faz uma avaliação rigorosa a uma coluna publicada no Correio Brasiliense em 26.06.1996 e republicada no Diário de Pernambuco no dia 15.11.1998, com o título Português ou Caipirês?, a que se referia à viagem do presidente Fernando Henrique Cardoso à Portugal, quando acusou os brasileiros de serem todos caipiras.
O texto de Bagno aponta todos os preconceitos praticados pela autora da coluna contra o povo brasileiro, sem esquecer da questão gramatical.
Dad afirma que o brasileiro, caipira, jeca-tatu, capial, matuto, "sem nenhum compromisso com a gramática portuguesa, não faz concordância em frases como vende-se carros". Segundo Bagno "a questão da partícula se em enunciados do tipo acima vem sendo investigada há muito tempo nos estudos gramaticais e lingüísticos brasileiros. O que todos os estudiosos concluem é que, na língua falada no Brasil, no português brasileiro, ocorreu uma reanálise sintática nesse tipo de enunciado, isto é, o falante brasileiro não considera mais esses enunciados como orações passivas sintéticas. O que a gramática normativa insiste em classificar como sujeito a gramática intuitiva do brasileiro interpreta como objeto direto.
Mas Bagno informa ainda que os lingüistas Manoel Said Ali, Antenor Nascentes e Joaquim Mattoso Câmara Jr., reconhecem o fenômeno e que em todas as classes sociais o brasileiro escreve o verbo no singular e põe o substantivo no plural. Ele mostra também que em Portugal expõe este mesmo "defeito" gramatical. Bagno quer dizer com esse exemplo que as normas cultas são várias e mudam de acordo com o uso da língua. A Rigidez na defesa de certos dogmas pode não apenas reforçar preconceitos como expor os especialista a uma situação indesejável.
Não podemos deixar de reconhecer a existência de uma crise no ensino da Língua Portuguesa, nascida na recusa dos defensores da gramática tradicional em acompanhar os avanços da ciência da linguagem. Para se mudar esse quadro é necessário uma mudança de atitude, perder essa idéia de "certo" e "errado" e refletir a respeito dessas dez cisões propostas por Bagno para um ensino mais consciente e menos preconceituoso:
1) Conscientizar-se de que todo falante nativo de uma língua é um usuário competente dessa língua, por isso ele SABE essa língua. Com mais ou menos quatro anos de idade, uma criança já domina integralmente a gramática de sua língua. Sendo assim,
2) Não existe erro de português. Existem diferentes gramáticas para as diferentes variedades de português, gramáticas que dão conta dos usos que diferem da alternativa única proposta pela Gramática Normativa.
3) Não confundir erro de português (que, afinal, não existe) com simples erro de ortografia. A ortografia é artificial, ao contrário da língua, que é natural. A ortografia é uma decisão política, por isso ela pode mudar de uma época para outra. Línguas que não têm sistema escrito nem por isso deixam de ter sua gramática.
4) Tudo o que os gramáticos conservadores chamam de erro é na verdade um fenômeno que tem uma explicação científica perfeitamente demonstrável. Nada é por acaso.
5) Toda língua muda e varia. O que hoje é visto como certo já foi erro no passado. O que hoje é visto como erro pode vir a ser perfeitamente aceito como certo no futuro da língua.
6) A língua portuguesa não vai nem bem, nem mal. Ela simplesmente VAI, isto é, segue seu caminho, transformando-se segundo suas próprias tendências internas.
7) Respeitar a variedade lingüística de uma pessoa é respeitar a integridade física e espiritual dessa pessoa como ser humano digno de todo respeito, porque
8) A língua permeia tudo, ela nos constitui enquanto seres humanos. Nós somos a língua que falamos. Enxergamos o mundo através da língua. Assim,
9) O professor de português é professor de TUDO. Por isso talvez devesse ter um salário igual à soma dos salários de todos os demais professores.
10) Ensinar bem é ensinar para o bem. É valorizar o saber intuitivo do aluno e não querer suprimir autoritariamente sua língua materna, acusando-a de ser "feia" e "corrompida". O ensino da norma culta tem de ser feito como um acréscimo à bagagem lingüística da pessoa e não como uma substituição de uma língua "errada" por uma "certa".
Na quarta parte do livro o autor trata do preconceito contra a lingüística e os lingüistas. De acordo com Bagno, os termos e conceitos da Gramática Tradicional estabelecidos há mais de 2.300 anos, continuam a ser repassados praticamente intactos de uma geração de alunos para outra, como se desde aquela época remota não tivesse acontecido nada na ciência da Linguagem.
Com referência a lingüística ele diz que como toda a ciência, é o lugar das surpresas, das descobertas, do novo, da substituição de paradigmas, da reformulação crítica das teorias. Mesmo com todas essas inovações , a gramatical tradicional ainda encontra apoio e defesa quase que irracional.
A atividade dos lingüistas brasileiros, segundo Marcos Bagno, vem sofrendo ataques contra qualquer tentativa de democratização do saber e da sociedade. Os atuais detratores da ciência lingüística acusam os estudiosos da linguagem de defenderem o não-ensino das formas padronizadas do português, numa tentativa detalhada e sofisticada em duas ou três afirmações toscas e propositadamente deturpadas.
Bagno cita em seu livro um caso de preconceito contra os lingüistas, por absolutas desconsideração e omissão. Refere-se ao projeto de lei (de 1999) do deputado Aldo Rebelo (PcdoB/SP) sobre "a promoção, a proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa, que embora tratando de assuntos que dizem respeito ao campo de investigação da lingüística teórica e aplicada, em nenhum momento faz referência aos cientistas da linguagem, às pessoas que se dedicam profissionalmente ao estudo da língua.
Além de Aldo Rebelo, Bagno cita nomes como Napoleão que lançava seu ataques contra o lingüista e as concepções obscurantistas sobre a ciência da linguagem de Pasquale Cipro Neto.
Por fim o Professor Marcos Bagno em uma carta enviada à Revista Veja, diz que nossos meios de comunicação de massa se encontram na contramão da História quando o assunto é língua. Pois a mídia continua a dar as costas à investigação científica da linguagem, preferindo consagrar-se a divulgação dos "mitos" em nossa língua, deixando espaço para alguns oportunistas com atitudes anticientíficas dogmáticas e até obscurantistas a respeito da língua e seu ensino. E solicita então que seja concedido um espaço aos verdadeiros especialistas, às pessoas que dedicam toda a sua energia, vida e inteligência ao estudo dos fenômenos da linguagem humana e à proposição de novos métodos de ensino, capazes de dar voz aos que, por força de tantas estruturas sociais injustas, sempre foram mantidos em silêncio.

O CRIME DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA CONTO DE CLARICE LISPECTOR

Posted by Profº Monteiro on março 15, 2017

Resultado de imagem para O CRIME DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA CONTO DE CLARICE LISPECTOR

Quando o homem atingiu a colina mais alto, os sinos tocavam na cidade embaixo. Viam-se apenas os tetos irregulares das casas. Perto dele estava a única árvore da chapada. O homem estava de pé com um saco pesado na mão.




Olhou para baixo com olhos míopes. Os católicos entravam devagar e miúdos na igreja, e ele procurava ouvir as vozes esparsas das crianças espalhadas na praça. Mas apesar da limpidez da manhã os sons mal alcançavam o planalto. Via também o rio que de cima parecia imóvel, e pensou: é domingo. Viu ao longe a montanha mais alta com as escarpas secas. Não fazia frio mas ele ajeitou o paletó agasalhando-se melhor. Afinal pousou com cuidado o saco no chão. Tirou os óculos talvez para respirar melhor porque, com os óculos na mão, respirou muito fundo. A claridade batia nas lentes que enviaram sinais agudos. Sem os óculos, seus olhos piscaram claros, quase jovens, infamiliares. Pôs de novo os óculos, tornou-se um senhor de meia-idade e pegou de novo no saco: pesava como se fosse de pedra, pensou. Forçou a vista para perceber a correnteza do rio, inclinou a cabeça para ouvir algum ruído: o rio estava
parado e apenas o som mais duro de uma voz atingiu por um instante a altura – sim, ele estava bem só. O ar fresco era inóspito, ele que morara numa cidade mais quente. A única árvore da chapada balançava os ramos. Ele olhou-a. Ganhava tempo. Até que achou que não havia por que esperar mais.


E no entanto aguardava. Certamente os óculos o incomodavam porque de novo os tirou, respirou fundo e guardou-os no bolso. Abriu então o saco, espiou um pouco. Depois meteu dentro a mão magra e foi puxando o cachorro morto. Todo ele se concentrava apenas na mão importante e ele mantinha os olhos profundamente fechados enquanto puxava. Quando os abriu, o ar estava ainda mais claro e os sinos alegres tocaram novamente chamando os fiéis para o consolo da punição.


O cachorro desconhecido estava à luz.


Então ele se pôs metodicamente a trabalhar. Pegou no cachorro duro e negro, depositou-o numa baixa do terreno. Mas, como se já tivesse feito muito, pôs os óculos, sentou-se ao lado do cão e começou a observar a paisagem.


Viu muito claramente, e com certa inutilidade, a chapada deserta. Mas observou com precisão que estando sentado já não enxergava a cidadezinha embaixo. Respirou de novo. Remexeu no saco e tirou a pá. E pensou no lugar que escolheria. Talvez embaixo da árvore. Surpreendeu-se refletindo que embaixo da árvore enterraria este cão. Mas se fosse o outro, o verdadeiro cão, enterrá-lo-ia na verdade onde ele próprio gostaria de ser sepultado se estivesse morto: no centro mesmo da chapada, a encarar de olhos vazios o sol. Então, já que o cão desconhecido substituía o “outro”, quis que ele, para maior perfeição do ato, recebesse precisamente o que o outro receberia. Não havia nenhuma confusão na cabeça do homem. Ele se entendia a si próprio com frieza, sem nenhum fio solto.


Em breve, por excesso de escrúpulo, estava ocupado demais em procurar determinar rigorosamente o meio da chapada. Não era fácil porque a única árvore se erguia num lado e, tendo-se como falso centro, dividia assimetricamente o planalto. Diante da dificuldade o homem concedeu: “não era necessário enterrar no centro, eu também enterraria o outro, digamos, bem onde eu estivesse neste mesmo instante em pé”. Porque se tratava de dar ao acontecimento a fatalidade do acaso, a marca de uma ocorrência exterior e evidente – no mesmo plano das crianças na praça e dos católicos entrando na igreja – tratava-se de tornar o fato ao máximo visível à superfície do mundo sob o céu. Tratava-se de expor-se e de expor um fato, e de não lhe permitir a forma íntima e impune de um pensamento.


À ideia de enterrar o cão onde estivesse nesse mesmo momento em pé – o homem recuou com uma agilidade que seu corpo pequeno e singularmente pesado não permitia. Porque lhe pareceu que sob os pés se desenhara o esboço da cova do cão.


Então ele começou a cavar ali mesmo com pá rítmica. Às vezes se interrompia para tirar e de novo botar os óculos. Suava penosamente. Não cavou muito mas não porque quisesse poupar seu cansaço. Não cavou muito porque pensou lúcido: “se fosse para o verdadeiro cão, eu cavaria pouco, enterrá-lo ia bem à tona”. Ele achava que o cão à superfície da terra não perderia a sensibilidade.


Afinal largou a pá, pegou com delicadeza o cachorro desconhecido e pousou-o na cova.


Que cara estranha o cão tinha. Quando com um choque descobrira o cão morto numa esquina, a ideia de enterrá-lo tornara seu coração tão pesado e surpreendido, que ele nem sequer tivera olhos para aquele focinho duro e de baba seca. Era um cão estranho e objetivo.


O cão era um pouco mais alto que o buraco cavado e depois de coberto com terra seria uma excrescência apenas sensível do planalto. Era assim precisamente que ele queria. Cobriu o cão com terra e aplainou-a com as mãos, sentindo com atenção e prazer sua forma nas palmas como se o alisasse várias vezes. O cão era agora apenas uma aparência do terreno.


Então o homem se levantou, sacudiu a terra das mãos, e não olhou nenhuma vez mais a cova. Pensou com certo gosto: acho que fiz tudo. Deu um suspiro fundo, e um sorriso inocente de libertação. Sim, fizera tudo. Seu crime fora punido e ele estava livre.


E agora ele podia pensar livremente no verdadeiro cão. Pôs-se então imediatamente a pensar no verdadeiro cão, o que ele evitara até agora. O verdadeiro cão que agora mesmo devia vagar perplexo pelas ruas do outro município, farejando aquela cidade onde ele não tinha mais dono.


Pôs-se então a pensar com dificuldade no verdadeiro cão como se tentasse pensar com dificuldade na sua verdadeira vida. O fato do cachorro estar distante na outra cidade dificultava a tarefa, embora a saudade o aproximasse da lembrança.


“Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua”, pensou então com auxílio da saudade. “Dei-te o nome de José para te dar um nome que te servisse ao mesmo tempo de alma. E tu – como saber jamais que nome me deste? Quanto me amaste mais do que te amei”, refletiu curioso.


“Nós nos compreendíamos demais, tu com o nome humano que te dei, eu com o nome que me deste e que nunca pronunciaste senão com o olhar insistente”, pensou o homem sorrindo com carinho, livre agora de se lembrar à vontade.


“Lembro-me de ti quando eras pequeno”, pensou divertido, “tão pequeno, bonitinho e fraco, abanando o rabo, me olhando, e eu surpreendendo em ti uma nova forma de ter minha alma. Mas, desde então, já começavas a ser todos os dias um cachorro que se podia abandonar. Enquanto isso, nossas brincadeiras tornavam-se perigosas de tanta compreensão”, lembrou-se o homem satisfeito, “tu terminavas me mordendo e rosnando, eu terminava jogando um livro sobre ti e rindo. Mas quem sabe o que já significava aquele meu riso sem vontade. Eras todos os dias um cão que se podia abandonar.”


“E como cheiravas as ruas!”, pensou o homem rindo um pouco, “na verdade não deixaste pedra por cheirar... Este era o teu lado infantil. Ou era o teu verdadeiro cumprimento de ser cão? e o resto apenas brincadeira de ser meu? Porque eras irredutível. E, abanando tranquilo o rabo, parecias rejeitar em silêncio o nome que eu te dera. Ah, sim, eras irredutível: eu não queria que comesses carne para que não ficasses feroz, mas pulaste um dia sobre a mesa e, entre os gritos felizes das crianças, agarraste a carne e, com uma ferocidade que não vem do que se come, me olhaste mudo e irredutível com a carne na boca. Porque, embora meu, nunca me cedeste nem um pouco de teu passado e de tua natureza. E, inquieto, eu começava a compreender que não exigias de mim que eu cedesse nada da minha para te amar, e isso começava a me importunar. Era no ponto de realidade resistente das duas naturezas que esperavas que nos entendêssemos: Minha ferocidade e a tua não deveriam se trocar por doçura: era isso o que pouco a pouco me ensinavas, e era isto também que estava se tornando pesado. Não me pedindo nada, me pedias demais. De ti mesmo, exigias que fosses um cão. De mim, exigias que eu fosse um homem. E eu, eu disfarçava como podia. Às vezes, sentado sobre as patas diante de mim, como me espiavas! Eu então olhava o teto, tossia, dissimulava, olhava as unhas. Mas nada te comovia: tu me espiavas. A quem irias contar? Finge – dizia-me eu –, finge depressa que és outro, dá a falsa entrevista, faz-lhe um afago, joga-lhe um osso – mas nada te distraía: tu me espiavas. Tolo que eu era. Eu fremia de horror, quando eras tu o inocente: que eu me virasse e de repente te mostrasse meu rosto verdadeiro, e eriçado, atingido, erguer-te-ias até a porta ferido para sempre. Oh, eras todos os dias um cão que se podia abandonar. Podia-se escolher. Mas tu, confiante, abanavas o rabo.”


“Às vezes, tocado pela tua acuidade, eu conseguia ver em ti a tua própria angústia. Não a angústia de ser cão que era a tua única forma possível. Mas a angústia de existir de um modo tão perfeito que se tornava uma alegria insuportável: davas então um pulo e vinhas lamber meu rosto com amor inteiramente dado e certo perigo de ódio como se fosse eu quem, pela amizade, te houvesse revelado. Agora estou bem certo de que não fui eu quem teve um cão. Foste tu que tiveste uma pessoa.”


“Mas possuíste uma pessoa tão poderosa que podia escolher: e então te abandonou. Com alívio abandonou-te. Com alívio sim, pois exigias – com a incompreensão serena e simples de quem é um cão heroico – que eu fosse um homem. Abandonou-te com uma desculpa que todos em casa aprovaram: porque como poderia eu fazer uma viagem de mudança com bagagem e família, e ainda mais um cão, com a adaptação ao novo colégio e à nova cidade, e ainda mais um cão? ‘Que não cabe em parte alguma’, disse Marta prática. ‘Que incomodará os passageiros’, explicou minha sogra sem saber que previamente me justificava, e as crianças choraram, e eu não olhava nem para elas nem para ti, José. Mas só tu e eu sabemos que te abandonei porque eras a possibilidade constante do crime que eu nunca tinha cometido. A possibilidade de eu pecar o que, no disfarçado de meus olhos, já era pecado. Então pequei logo para ser logo culpado. E este crime substitui o crime maior que eu não teria coragem de cometer”, pensou o homem cada vez mais lúcido.


“Há tantas formas de ser culpado e de perder-se para sempre e de se trair e de não se enfrentar. Eu escolhi a de ferir um cão”, pensou o homem. “Porque eu sabia que esse seria um crime menor e que ninguém vai para o Inferno por abandonar um cão que confiou num homem. Porque eu sabia que esse crime não era punível.”


Sentado na chapada, sua cabeça matemática estava fria e inteligente. Só agora ele parecia compreender, em toda sua gélida plenitude, que fizera com o cão algo realmente impune e para sempre. Pois ainda não haviam inventado castigo para os grandes crimes disfarçados e para as profundas traições.


Um homem ainda conseguia ser mais esperto que o Juízo Final. Este crime ninguém o condenava. Nem a Igreja. “Todos são meus cúmplices, José. Eu teria que bater de porta em porta e mendigar que me acusassem e me punissem: todos me bateriam a porta com uma cara de repente endurecida. Este crime ninguém me condena. Nem tu, José, me condenarias. Pois bastaria, esta pessoa poderosa que sou, escolher de te chamar – e, do teu abandono nas ruas, num pulo me lamberias a face com alegria e perdão. Eu te daria a outra face a beijar.”


O homem tirou os óculos, respirou, botou-os de novo.


Olhou a cova coberta. Onde ele enterrara um cão desconhecido em tributo ao cão abandonado, procurando enfim pagar a dívida que inquietantemente ninguém lhe cobrava. Procurando punir-se com um ato de bondade e ficar livre de seu crime. Como alguém dá uma esmola para enfim poder comer o bolo por causa do qual o outro não comeu o pão.


Mas como se José, o cão abandonado, exigisse dele muito mais que a mentira; como se exigisse que ele, num último arranco, fosse um homem – e como homem assumisse o seu crime – ele olhava a cova onde enterrara a sua fraqueza e a sua condição.


E agora, mais matemático ainda, procurava um meio de não se ter punido. Ele não devia ser consolado. Procurava friamente um modo de destruir o falso enterro do cão desconhecido. Abaixou-se então, e, solene, calmo, com movimentos simples – desenterrou o cão. O cão escuro apareceu afinal inteiro, infamiliar com a terra nos cílios, os olhos abertos e cristalizados. E assim o professor de matemática renovara o seu crime para sempre. O homem então olhou para os lados e para o céu pedindo testemunha para o que fizera. E como se não bastasse ainda, começou a descer as escarpas em direção ao seio de sua família.


Fim

CLARICE LISPECTOR

Altas Habilidades/Superdotação - Filmes

Posted by Profº Monteiro on março 13, 2017
Sugestões de filmes e séries que abordam Altas Habilidades/Superdotação.
capa dvd encontrando forrester

Encontrando Forrester
Título original: Finding Forrester
Categoria: Drama
Ano: 2000

assista aqui



capa dvd mentes que brilham

Mentes que Brilham
Título original: Little Man Tate
Categoria: Drama
Ano: 1991


assista aqui


capa dvd prenda-me se for capaz

Prenda-me se for Capaz
Título original: Little Man Tate
Categoria: Comédia
Ano: 2002


assista aqui

dicas de inglês doenças e medicamentos

Posted by Profº Monteiro on março 13, 2017
Problemas de Saúde
Health Problems
I have / He she has...*
um abcesso
an abscess
alergia
allergy
anemia
anemia
artrite
arthritis
asma
asthma
dor nas costas
backache
um machucado
a bruise
catapora
chicken pox
bronquite
bronchitis
cólicas
cramps
diabetes
diabetes
enjôo
nausea
queimadura solar
sunburn
uma inflamação
an inflamation



*Note: A expressão para falar de dores e males é I have... ou I've got (contração de I have got), que significa eu peguei/eu estou com. Costuma ser seguida de a/an: I have cold (Estou resfriado/a), I've got a backache (Estou com dor nas costas), às vezes o artigo  não é usado: I have sunburn (estou com queimadura solar).
Depois que o problema de saúde passou
After the sickness
Estou saindo de um resfriado
I'm just getting aover a cold
Você está se sentindo melhor?
Are you feeling any better?
Você está com uma cara melhor
You look better
Que bom que você está se sentindo melhor
I'm glad you're feeling better

Palavras e expressões mais comuns
ala infantil
children's ward
analgésico
pain killler
atadura
bandage
centro cirúrgico
operating theatre
comprimido
tablet
consulta
appointment
curativo
plaster
departamento de emergência/pronto-socorro
emergency department
departamento de raio-x
x-ray department
digestão
digestion
disenteria
dysentery
dor de estômago
stomach ache
dor de garganta
sore throat
dor de ouvido
earache
dor
ache
ferida
wound
fratura
fracture
gotas
drops
gripe
flu
vire a direita                            
vire a esquerda
siga reto até a rua cinco
dobre a esquina
suba a rua
vá até


não,eu nasci no brasil
eu nasci no brasil
não ,eu nao nasci o brasil
ele nasceu no brasil
eles nasceram no brasil
eles não nasceram no brasil ?

weren't
were
was
wasn't

hipertensão
high blood pressure
doente
ill
doença
ilness
infarto
heart attack
infecção
infection
menstruação
period, menstruation
pomada
ointment
queimadura
burn
receita
prescription
remédio
medicine
resfriado
cold
sala de espera
waiting room
sangue
blood
seringa
syringe
supositório
suppository
surdo
deaf
termômetro
thermometer
tipo sanguineo
blood type
tosse
cough
xarope
syrup
turn right
turn left
head straight up the street five
bend the corner
walk up the street
go


no, I was born in Brazil
I was born in Brazil
no, I was born not in Brazil
He was born in Brazil
they were born in Brazil
they were not born in Brazil?

não foram
foram
foi
não foi

Dez filmes na sala de aula

Posted by Profº Monteiro on março 12, 2017

Por Bruno Yutaka Saito


A relação entre professores e alunos é das mais célebres do cinema. Basta notar que dois bons filmes atualmente em cartaz, “Entre os Muros da Escola”, de Laurent Cantet, e “Simplesmente Feliz”, de Mike Leigh, dão uma atualizada nesse gênero à parte. O primeiro, uma incômoda visão sobre multiculturalismo e caráter, o segundo, verdadeiro lobo em pele de cordeiro, tem na figura da professorinha irritantemente alegre uma reflexão muitas vezes amarga sobre maneiras de estar e sobreviver no mundo.
A seguir, uma listagem de 11 filmes (todos disponíveis em DVD no Brasil) que abordam, de uma maneira ou de outra, essa complicada relação. Não são os melhores, nem os mais importantes, apenas filmes que de certa maneira deixaram suas marcas. Para você, quais são os principais filmes sobre a escola? (aliás, o título do post está como "Dez filmes", já que eu tinha esquecido de incluir "Sociedade dos Poetas Mortos")
“Zero em Comportamento” (1933)
Direção: Jean Vigo
Produção mais conhecida de Vigo, “Zero em Comportamento” é o modelo para os filmes que abordam crianças se rebelando contra o “sistema”. Vigo mostra alunos que retornam das férias para as aulas e se deparam com adultos que tentam “discipliná-los”. A produção pode ser vista no excelente DVD duplo “Jean Vigo Integral”, lançado pela Versátil no ano passado, com os outros filmes do diretor: “A Propósito de Nice” (1930), “A Natação por Jean Taris” (1931) e “O Atalante” (1934).
“Os Incompreendidos” (1959)
Direção: François Truffaut
Primeiro longa-metragem de Truffaut, “Os Incompreendidos” é também o primeiro filme com o personagem Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud ainda adolescente), que seria retomado em mais quatro produções do diretor. Com muitos elementos autobiográficos de Truffaut, “Os Incompreendidos” faz ainda referências a “Zero em Comportamento” ao contar, quase em chave documental, o dia-a-dia do rebelde e quase marginal Doinel, dos problemas com os pais à sua conturbada relação com os professores e a escola.
“Ao Mestre com Carinho” (1967)
Direção: James Clavell
Clássico dos clássicos no quesito “professor que enfrenta alunos ariscos e acaba ganhando o coração de todos”. Sidney Poitier encontrou o papel de sua vida no engenheiro desempregado Mark Thackeray, que vai lecionar jovens no bairro operário de East End, em Londres.
“If” (1968)
Direção: Lindsay Anderson
Filme que se tornou indissociável das agitações do Maio de 68 francês, “If” ajudou a celebrizar a imagem rígida e sisuda que ainda temos sobre as escolas britânicas. Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1969, “If” é também a produção que levou seu ator principal, Malcolm McDowell, a ser escolhido por Stanley Kubrick como o insano Alex de outro clássico, “Laranja Mecânica” (1971). A impactante sequência final (sonho ou realidade?) é inesquecível. “If” acabou de ser lançado em DVD no Brasil pela Lume.
“Na Idade da Inocência” (1976)
Direção: François Truffaut
Truffaut retoma o tema da infância e da escola, mas agora com um olhar diferente do de “Os Incompreendidos”. Desta vez, os professores não são os inimigos, e a escola não é vista como local de abusos e castigos. “Na Idade da Inocência” faz, ainda, bela reflexão sobre o tornar-se adulto, na memorável fala final do ator Jean-François Stévenin, um dos professores.
“Pink Floyd - The Wall” (1982)
Direção: Alan Parker
Música, imagens e a poesia do Pink Floyd resultaram num dos mais viscerais gritos contra as opressões da escola. Difícil não esquecer, por exemplo, a cena em que os estudantes caem em moedores de carne, além dos versos de “Another Brick in the Wall, Part 2”: “We don’t need no education/We don’t need no thought control/...Teachers, leave them kids alone”
“O Clube dos Cinco” (1985)
Direção: John Hughes
“Clássico” da rebeldia juvenil dos anos 80, só compete com “Curtindo a Vida Adoidado” (leia abaixo). É o filme “cabeça” de John Hughes, o cineasta que melhor soube captar o espírito jovem (mainstream) da década. De personalidades diferentes, cinco estudantes têm que cumprir uma pena por diferentes problemas de conduta: passar um sábado à tarde na escola e escrever uma redação.
“Curtindo a Vida Adoidado” (1986)
Direção: John Hughes
No ano seguinte a “O Clube dos Cinco”, Hughes criou o herói de toda uma geração. Ferris Bueller é o adolescente malandro, boa-praça, querido por todos na escola —menos, é claro, pelo seu arqui-inimigo, o diretor. A escola, aqui, é vista como o contraponto para o “dia de folga” de Ferris, que “resolve curtir a vida enquanto ainda dá tempo”.
“Sociedade dos Poetas Mortos” (1989)
Direção: Peter Weir
No papel do professor de poesia John Keating, Robin Williams mudou a vida não apenas dos rapazes de uma repressora escola, mas de toda uma geração de espectadores. “Sociedade dos Poetas Mortos” popularizou, para o grande público, a expressão latina “carpe diem”, que pode ser traduzido como “aproveite o momento”. Difícil não se emocionar ou não querer buscar algo mais da vida após ver esse filme (principalmente quando é visto por jovens). Robin Williams viraria um ator esquecível pouco depois, mas a cena final é marcante.
“Ser e Ter” (2002)
Direção: Nicholas Philibert
Sucesso do cinema francês, o documentário vai até o interior do país para registrar crianças de quatro a dez anos de uma sala de aula. Não é apenas a relação aluno x professor que está em jogo, mas sim a própria formação da personalidade, do indivíduo.
“Escola de Rock” (2003)
Direção: Richard Linklater
Bobagem das mais divertidas, “Escola do Rock” é mais do que mero veículo para o comediante (muitas vezes irritante) Jack Black. Ainda que não apareça aqui nada muito autoral do irregular Richard Linklater, “Escola do Rock” é anárquico na medida em que inverte os papéis de mestre e alunos. Claro, no final as coisas se constróem para que haja uma “mensagem”, mas o tom é dos mais acertados.