O funcionalismo é uma corrente lingüística que concebe a linguagem como recurso de interação social. Por esse motivo, tal corrente tem como objeto de estudo a relação entre a estrutura do sistema da língua e seus fins comunicativos. Dentro dessa perspectiva, a língua está intimamente associada à atividade social em constante uso comunicativo. Essa corrente se opõe ao estruturalismo, pelo fato de considerar aspectos que vão além imanência do sistema lingüístico. Contudo, os pressupostos de Saussure foram a base de fundamentação teórica para os estudos funcionalistas.
O Circuito Lingüístico de Praga, fundado em 1926, contribuiu de forma relevante para o desenvolvimento dos estudos funcionalistas. Tal escola elaborou as primeiras analises de base funcionalista. Diversos autores contribuíram para o desenvolvimento dos postulados funcionalistas, tais como: Trubetskoï, Jakobson, Charles Bally, Albert Sechehaye, Henri Frei, Michael K. Halliday, Edward Sapir, Benjamin Lee Whorf e Louis Hjelmslev. Na Escola de Praga, se destacaram Trubetskoï e Jakobson. Já na Escola de Copenhague, Hjelmslev. Esse é o contexto socióhistórico, no qual os estudos funcionalistas tiveram início.
Trubetskoï deu ênfase na questão da fonologia e, sobretudo, em sua distinção em relação à fonética. Na visão desse teórico, os sistemas fonológicos apresentam algumas funções, tais como: funções distintivas, demarcadoras e expressivas. Enquanto isso, Jakobson formulou um esquema de elementos da comunicação e, por conseguinte, funções da linguagem atreladas a finalidades comunicativas.
O primeiro teórico a formular uma teoria acerca das funções da linguagem foi o psicólogo alemão Karl Bühler. Na visão de tal autor, havia três funções no ato da comunicação, são elas: a expressiva, a informativa e a estética. Após isso, Jakobson acrescentou alguns conceitos e elementos no processo comunicativo. Primeiramente, ele inseriu o referente, o emissor e o receptor no ato comunicativo. Em seguida, ele incluiu mais três elementos ao ato comunicativo, são eles: o canal, o código e a mensagem. Ele manteve as três funções estudadas por Bühler. Contudo, atribuiu novos nomes: referencial, emotiva e conativa. Além disso, inseriu mais três funções no ato comunicativo: fática, metalingüística e poética, o que totalizou seis funções no processo comunicativo.
Tal teoria é de suma importância para os estudos da linguagem, uma vez que ela provocou diversas alterações na metodologia de ensino da língua. Em outras palavras, deve – se à Lingüística, a concepção da linguagem enquanto instrumento de comunicação e interação social. A Lingüística por meio de suas inúmeras teorias, dentre as quais, gostaríamos de destacar, a Enunciativa, a Pragmática, a Análise do Discurso e, especialmente, a Funcionalista, contribuiu substancialmente para novas abordagens didáticas.
A visão funcionalista da língua concebe a gramática como adaptativa, maleável e, sobretudo, motivada. "A gramática deve ser vista como uma estrutura flexível, adaptativa e suas regras entendidas como não – arbitrária, motivadas ou icônicas" (CHRISTIANO & HORA, 2004, p. 184). Nessa perspectiva, a gramática se adéqua à necessidade do falante. Por razões cognitivas, o falante se utiliza estratégias ou escolhas, que ocasionam modificações na estrutura do sistema lingüístico. Assim, percebemos como situações reais de comunicação, influem na estrutura da língua. Esses aspectos constituem a base das analises funcionalistas.
Dentro desse contexto, tal corrente ao analisar a língua, considera os aspectos extralingüísticos. Em contraposição ao estruturalismo, que estuda a língua a partir de seus aspectos internos, o que se conceitua como estudo imanente da língua. Porém, o estruturalismo não é a única corrente a que o funcionalismo se opõe. Ele também se opõe ao gerativismo. Ou seja, ele se opõe às abordagens formalistas.
Para o funcionalismo, a linguagem consiste num recurso de interação social, que transcende da estrutura gramatical da língua. Diante dessa acepção, ela passa a ser concebida como ação e, acima de tudo, atrelada a funções comunicativas. Em contraposição à concepção estrutural. Assim, ela seria considerada como um recurso de interação social, que se adéqua às necessidades do falante no processo comunicativo. Ao estudar a língua, o funcionalismo se utiliza do contexto comunicativo de uso em que ela é usada, uma vez que é nesse contexto em que ela é constituída. Dito de outra forma, tal análise é baseada na relação entre linguagem e contexto social.
Diante desse cenário, surge uma proposta de estudo da gramática tendo como base o texto e o discurso. Assim, estrutura gramatical passa a ser estudada atrelada à semântica e à pragmática. Diante desse contexto, a estrutura gramatical passa a ser concebida como adaptativa e maleável, uma vez que esta diretamente ligada à situação comunicativa. Outro aspecto bastante relevante acerca do estudo da estrutura gramatical na proposta funcionalista é que há uma junção entre morfologia e sintaxe. O que ocasiona o surgimento da morfossintaxe. Diante desse quadro, a morfologia e a sintaxe passam a trabalhar numa perspectiva de junção de fatores, ou seja, de forma conjunta. Tais estudos ocasionaram implicações teóricas para o ensino de língua portuguesa. Nos últimos anos, percebemos uma mudança significativa nos paradigmas norteadores das práticas pedagógicas do ensino de língua portuguesa e, por conseguinte, uma mudança no enfoque dado aos mais diversos conteúdos.
"Na década de 1980, alguns trabalhos das áreas da Lingüística e da Psicolingüística passaram a questionar a noção de ensino-aprendizagem de língua escrita que concebia a língua apenas como código e, dessa forma, entendia a leitura apenas como decodificação e a escrita somente como produção grafomotriz. A linguagem deixava de ser encarada, pelo menos teoricamente, como mero conteúdo escolar e passa a ser entendida como processo de interlocução (SANTOS, 2002, p. 30)" .
Dentro desse contexto, o uso da linguagem passa a ser estudado tendo como base textos e discursos, que ocorrem em situações comunicativas do dia – a – dia, por meio dos mais diversos gêneros. Dito de outra forma, o funcionamento da linguagem ocorre dentro dos mais variados gêneros textuais produzidos nos atos sociais. Tal mudança foi de fundamental importância para a metodologia de ensino de língua portuguesa. Durante vários anos, ela esteve restrita à classificação de nomenclaturas e termos gramaticais. Por conta dos estudos lingüísticos, a gramática passa a ser trabalhada de forma contextualizada, por intermédio do texto e do discurso.
"Nesta perspectiva, a língua é entendida enquanto produto da atividade constitutiva da linguagem, ou seja, ela se constitui na própria interação entre os indivíduos. Passou-se, assim, a prescrever que a aprendizagem da leitura e da escrita deveria ocorrer em condições concretas de produção textual. Desloca - se o eixo do ensino voltado para a memorização de regras da gramática de prestígio e nomenclaturas (SANTOS, 2002, p. 30)".
Diante desses aspectos, percebemos como os estudos lingüísticos contribuíram para a inserção da produção textual nos currículos escolares. A partir desse cenário, a gramática passa a ser abordada por meio do sentido do texto, da semântica e do discurso. Esses estudos realizados nas últimas três décadas ocasionaram mudanças na concepção de língua. Fator este que provocou inúmeras alterações na metodologia de ensino de língua portuguesa. Assim, esses estudos rompem com os paradigmas postos anteriormente. A partir de tais estudos, a língua passa a ser concebida como fator social. Ou seja, ela passa a ser concebida numa perspectiva cognitiva e social.
Nesse sentido, esses aspectos estão diretamente relacionados ao Funcionalismo, na medida em que tal corrente coloca em xeque a concepção de língua vigente até então. Dito de outra forma, a língua passa a ser concebida numa perspectiva de multiplicidade, deixando de lado o caráter imutável e imanentista das abordagens formalistas.
REFERÊNCIAS
ALBUQUERQUE, Eliana Borges Correia de. Mudanças didáticas e pedagógicas no ensino da língua portuguesa: apropriações de professores. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
CRHISTIANO, Maria Elizabeth A.; SILVA, Camilo R.; HORA, Dermeval da. Funcionalismo e Gramaticalização: teoria, análise, ensino. João Pessoa: Idéia, 2004.
CUNHA, Angélica Furtado da. Funcionalismo. In: MARTELOTTA, Mário Eduardo (org.). Manual de Lingüística. São Paulo: Contexto, 2008.
LEAL,Virginia. Conteúdos da Disciplina de Introdução à Lingüística. Disponível em: http://www.ufpe.br/cead/moodle/mod/resource/view.php?inpopup=true&id=5785. Acesso em: 10/04/2010.
LUNA, MARIA José de M. Conteúdos da Disciplina de Lingüística: Funcionalismo. Disponível em: http://www.ufpe.br/cead/moodle/mod/resource/view.php?inpopup=true&id=5792. Acesso em: 10/04/2010.
MUSSALIN, Fernanda e BENTES, Anna Christina. Introdução à lingüística. São Paulo: Pragmática. Martins Fontes, 2007.
NEVES, Maria Helena de M. Texto e gramática. São Paulo: Contexto, 2006.
SANTOS, Carmi F. A formação em serviço do professor e as mudanças no ensino de língua portuguesa. ETD – Educação Temática Digital, Campinas, v.3, n.2, p.27-37, jun. 2002. Disponível em: www.fae.unicamp.br. Acesso em: 10/01/2010.
