Análise Sentimento do Mundo - Carlos Drummond - Literatura

Posted by Profº Monteiro on maio 31, 2016






Os poemas de Sentimento do mundo foram produzidos entre 1935 e 1940.
São 28 no total.


Poema: Sentimento do mundo

O primeiro poema (que deu nome ao livro) revela a visão-de-mundo do poeta: não é alegre, antes,
é cheia da realidade que sempre nos estarrece, porque, por mais que sonhemos, a realidade
geralmente é dura e muito desafiante.
O poeta inicia (estrofe 1) indicando suas limitações para ver o mundo: “Tenho apenas duas mãos”;
mas aponta, em seguida, alguns elementos auxiliares que o ajudarão a suprir suas deficiências de
visão: escravos, lembranças e o mistério do amor (versos 3 a 5); escravos podem ser os meios
escusos de que nos utilizamos para tocar a vida e decifrá-la e dela nos aproveitarmos.
O pessimismo denuncia-se com as mortes do céu e do próprio poeta, na estrofe 2.
Apesar da ajuda incompleta dos companheiros de vida (“Camaradas”), o poeta não consegue
decifrar os códigos existenciais e pede, humilde, desculpas.
Nas duas últimas estrofes, Drummond pinta uma visão de futuro bem negativo, mas bem real:
mortos, lembranças, tipos de pessoas que sumiram nas batalhas da vida (“guerra”, na estrofe 3).
Conclui, na estrofe 5, que o futuro (“amanhecer”) é bem negro, tenebroso. Feita só de dois versos,
sintetiza seu sentimento do mundo.
Os demais 27 poemas são nuances, explicações dessa amarga visão inicial da vida.


Poema: Confidência do Itabirano

O poema começa com a saudade profunda de seu lugar de nascimento, traçado em quatro belas,
mas sofredoras estrofes. Confessa (estrofe 3) que aprendeu a sofrer por causa de Itabira; mas,
paradoxalmente: “A vontade de amor (...) vem de Itabira”; vale dizer que o amor nasce e é servido
no sofrimento. De Itabira vem a explicação de Drummond viver de “cabeça baixa” (estrofe 3), verso
6). Afinal, apesar das negatividades, o poeta sente uma incomensurável saudade de sua cidade
natal.


Poema: O operário do mar

O texto número 6 faz o autor escapar da linguagem poética material (versos) e se apropriar dessa
linguagem poética sem versos, mas bastante poesia imaterial, em belo painel-definição explicita a
grande diferença social entre operários e não-operários.
Esta belíssima crônica poética, de base surrealista – tão em voga nos anos trinta, quarenta – serve
bem para duas constatações:
1ª) o sentimento socialista de Drummond que iria espraiar-se cinco anos após Sentimento do
mundo, na publicação de Rosa do povo, em 1945;
2ª) a visão-de-mundo onírica e bem poética de um operário universalizado em São Pedro; ele anda
sobre águas por graça de Deus, enquanto burgueses se espantam por não poderem realizar a
mágica; isto é, aos humildes: a magia divina, aos prepotentes: a inveja.
Esta crônica poética também pode permitir que se compare a “apreensão do mistério da palavra”
nos poemas explícitos de Drummond diante desta prosa poética; por exemplo: “minhas lembranças
escorrem” (Sentimento do mundo, estrofe 1, verso 4) e “feixes escorrem” (das mãos do operário,
em O operário no mar, linha 26). O mistério poético de lembranças escorrem é bem mais profundo
do que peixes escorrerem imaginariamente das mãos do operário.


Poema: Privilégio do mar

No poema 12, o autor continua detendo-se alegoricamente no problema social das diferenças
humanas.


Poema: Inocentes do Lelbon

Ainda no enfoque da visão social, o poeta fala da riqueza: “inocentes” significa os que querem
ignorar; por isto fingem e se aproveitam.


Poema: La possession du monde

Neste poema 17, Drummond indica o membro da Academia Francesa de Letras, em 1884,
Georges Duhamel, pedindo uma risível fruta estragada; como se isso fosse, como diz o título do
poema, ter o mundo nas mãos.


Poema: Ode no cinqüentenário do poeta brasileiro

O belo elogio do poema 18 é a palavra drummondiana a Manuel Bandeira, nascido em 1886 e que,
em 1936, completava 50 anos de vida. Drummond pede que “seu canto confidencial (a poesia de
Bandeira) ressoe acima dos vãos disfarces do homem”!
E para concluir esta fugaz visão do livro Sentimento do mundo, fiquemos com as palavras do
último poema, Noturno à janela do apartamento: “ A vida na escuridão absoluta, como líquido,
circunda”.


Fonte: Análise de Célio Pinheiro, professor de Literatura, Araçatuba-SP 

Graciliano Ramos - Literatura Resumo e Análise Vidas Secas

Posted by Profº Monteiro on maio 30, 2016


CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA


Os abalos sofridos pelo povo brasileiro em torno dos acontecimentos de 1930, a crise econômica provocada pela quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, a crise cafeeira, a Revolução de 1930, o acelerado declínio do nordeste condicionaram um novo estilo ficcional, notadamente mais adulto, mais amadurecido, mais moderno que se marcaria pela rudeza, por uma linguagem mais brasileira, por um enfoque direto dos fatos, por uma retomada do naturalismo, principalmente no plano da narrativa documental, temos também o romance nordestino, liberdade temática e rigor estilístico.
Os romancistas de 30 caracterizavam-se por adotarem visão crítica das relações sociais, regionalismo ressaltando o homem hostilizado pelo ambiente, pela terra, cidade, o homem devorado pelos problemas que o meio lhe impõe.
Graciliano Ramos (1892-1953) nasceu em Quebrângulo, Alagoas. Estudou em Maceió, mas não cursou nenhuma faculdade. Após breve estada no Rio de Janeiro como revisor dos jornais "Correio da Manhã e A Tarde", passou a fazer jornalismo e política elegendo-se prefeito em 1927.
Foi preso em 1936 sob acusação de comunista e nesta fase escreveu "Memórias do Cárcere", um sério depoimento sobre a realidade brasileira. Depois do cárcere morou no Rio de Janeiro. Em 1945, integrou-se no Partido Comunista Brasileiro.
Graciliano estreou em 1933 com "Caetés", mas é São Berdado, verdadeira obra prima da literatura brasileira. Depois vieram "Angustia" (1936) e Vidas Secas (1938) inspirando-se em Machado de Assis.
Podemos justificar isto com passagens do texto:
"Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos."
"A caatinga estendia-se de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas"
"Resolvera de supetão aproveitá-lo (papagaio) como alimento..."
"Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as suas desgraças e os seus       pavores".



ESTUDO DOS PERSONAGENS



Baleia - cadela da família, tratado como gente, muito querido pelas crianças.
Sinhá Vitória - mulher de Fabiano, sofrida, mãe de 2 filhos, lutadora e inconformada com a miséria em que vivem, trabalha muito na vida.
Fabiano - nordestino pobre, ignorante que desesperadamente procura trabalho, bebe muito e perde dinheiro no jogo.
Filhos - crianças pobres sofridas e que não tem noção da própria miséria que vivem.
Patrão - contratou Fabiano para trabalhar em sua fazenda, era desonesto e explorava os empregados.
Outros personagens: o soldado, seu Inácio (dono do bar).



ESTUDO DA LINGUAGEM



Tipo de discurso: indireto livre
Foco narrativo: terceira pessoa

Adjetivos, figuras de linguagem:
Metáfora: " - você é um bicho, Fabiano".
Prosopopéia: compara Baleia como gente



ANÁLISE DAS IDÉIAS


Comentário Crítico:
Esse livro retrata fielmente a realidade brasileira não só da época em que o livro foi escrito, mas como nos dias de hoje tais como injustiça social, miséria, fome, desigualdade, seca, o que nos remete a idéia de que o homem se animalizou sob condições sub-humanas de sobrevivência.

RESUMO DA OBRA

Mudança
Em meio à paisagem hostil do sertão nordestino, quatro pessoas e uma cachorrinha se arrastam numa peregrinação silenciosa _ _ . O menino mais velho, exausto da caminhada sem fim, deita-se no chão, incapaz de prosseguir, o que irrita Fabiano, seu pai, que lhe  dá estocadas com a faca no intuito de fazê-lo levantar. Compadecido da situação do pequeno, o pai toma-o nos braços e carrega-o, tornando a viagem ainda mais modorrenta _ .
A cadela Baleia acompanha o grupo de humanos agora sem a companhia do outro animal da família, um papagaio, que fora sacrificado na véspera a fim de aplacar a fome que se abatia sobre aquelas pessoas. Na verdade, era um papagaio estranho, que pouco falava, talvez porque convivesse com gente que também falava pouco _ _ .
Errando por caminhos incertos, Fabiano e família encontram uma fazenda completamente abandonada. Surge a intenção de se fixar por ali. Baleia aparece com um preá entre os dentes, causando grande alegria aos seus donos. Haveria comida. Descendo ao bebedouro dos animais, em meio à lama, Fabiano consegue água. Há uma alegria em seu coração, novos ventos parecem soprar para a sua família. Pensa em Seu Tomás da bolandeira.  Pensa na mulher e nos filhos.
A inesperada caça é preparada, o que garante um rápido momento de felicidade ao grupo. No céu, já escuro, uma nuvem - sempre um sinal de esperança. Fabiano deseja estabelecer-se naquela fazenda. Será o dono dela. A vida melhorará para todos _ .

Fabiano  

Em vão Fabiano procura por uma raposa. Apesar do fracasso da empreitada, ele está satisfeito. Pensa na situação da família, errante, passando fome, quando da chegada àquela fazenda. Estavam bem agora _ _ . Fabiano se orgulha de vencer as dificuldades tal qual um bicho. Agora ele era um vaqueiro, apesar de não ter um lugar próprio para morar. A fazenda aparentemente abandonada tinha um dono, que logo aparecera e reclamara a posse do local. A solução foi ficar por ali mesmo, servindo ao patrão, tomando conta do local. Na verdade, era uma situação triste, típica de quem não tem nada e vive errante.  Sentiu-se novamente um animal, agora com uma conotação negativa. Pouco falava, admirava e tentava imitar a fala difícil das pessoas da cidade. Era um bicho _ .
A uma pergunta de um dos filhos, Fabiano irrita-se. Para que perguntar as coisas? Conversaria com Sinha Vitória sobre isso. Essas coisas de pensamento não levavam a nada. Seu Tomás da bolandeira, apesar de admirado por Fabiano pelas suas palavras difíceis, não acabara como todo mundo? As palavras, as idéias, seduziam e cansavam Fabiano.
Pensou na brutalidade do patrão, a tratá-lo como um traste. Pensou em Sinha Vitória e seu desejo de possuir uma cama igual à de Seu Tomás da bolandeira. Eles não poderiam ter esse luxo, cambembes que eram. Sentiu-se confuso. Era um forte ou um fraco, um homem ou um bicho _ ? Sentia, por vezes, ímpeto de lutador e fraqueza de derrotado.
Lembrando dos meninos, novamente, achou que, quando as coisas melhorassem, eles poderiam se dar ao luxo daquelas coisas de pensar. Por ora, importante era sobreviver. Enquanto as coisas não melhorassem, falaria com Sinha Vitória sobre a educação dos pequenos.


Cadeia

Fabiano vai à feira comprar mantimentos, querosene e um corte de chita vermelha. Injuriado com a qualidade do querosene e com o preço da chita, resolve beber um pouco de pinga  na bodega de seu Inácio. Nisso, um soldado amarelo convida-o para um jogo de cartas. Os dois acabam perdendo, o que irrita o soldado, que provoca Fabiano quando esse está de partida. A idéia do jogo havia sido desastrosa. Perdera dinheiro, não levaria para casa o prometido. Fabiano, agora, pensava em como enganar Sinha Vitória, mas a dificuldade de engendrar um plano o atormentava.
O soldado, provocador, encara o vaqueiro e barra-lhe a passagem. Pisa no pé de Fabiano que, tentando contornar a situação à sua maneira, agüenta os insultos até o possível, terminando por xingar a mãe do soldado amarelo. Destacamento à sua volta. Cadeia. Fabiano é empurrado, humilhado publicamente.
No xadrez, pensa por que havia acontecido tudo aquilo com ele. Não fizera nada, se quisesse até bateria no mirrado amarelo, mas ficara quieto. Em meio a rudes indagações, enfureceu-se, acalmou-se, protestou inocência _ . Amolou-se com o bêbado e com a quenga que estavam em outra cela. Pensou na família. Se não fosse Sinha Vitória e as crianças, já teria feito uma besteira por ali mesmo. Quando deixaria que um soldadinho daqueles o humilhasse tanto? Arquitetou vinganças, gritou com os outros presos e, no meio de sua incompreensão com os fatos, sentiu a família como um peso a carregar _ .


Sinha Vitória

Naquele dia, Sinha Vitória amanhecera brava. A noite mal dormida na cama de varas era o motivo de sua zanga. Falara pela manhã, mais uma vez, com Fabiano sobre a dificuldade de dormir naquela cama. Queria uma cama de lastro de couro, como a de Seu Tomás da bolandeira, como a de pessoas normais.
Havia um ano que discutia com o marido a necessidade de uma cama decente e, em meio a uma briga por causa das "extravagâncias" de cada um, Sinha Vitória certa vez ouviu Fabiano dizer-lhe que ela ficava ridícula naqueles sapatos de verniz, caminhando como um papagaio, trôpega, manca. A comparação machucou-a _ .
Agora, ela irritava-se com o ronco de Fabiano ao lembrar-se de suas palavras. Circulando pela casa, fazia suas tarefas em meio a reza e a atenção ao que acontecia lá fora. Por pensar ainda na cama e na comparação maldosa de Fabiano, quase esqueceu de pôr água na comida. Veio-lhe a lembrança do bebedouro em que só havia lama. Medo da seca. Olhou de novo para seus pés e inevitavelmente achou Fabiano mau _ . Pensou no papagaio e sentiu pena dele _ .
Lá fora, os meninos brincavam em meio à sujeira. Dentro de casa, Fabiano roncava forte, seguro, o que indicava a Sinha Vitória que não deveria haver perigo algum por ali. A seca deveria estar longe _ . As coisas, agora, pareciam mais estáveis, apesar de toda a dificuldade. Lembrou-se de como haviam sofrido em suas andanças. Só faltava uma cama. No fundo, até mesmo Fabiano queria uma cama nova. 

O Menino mais novo 

A imagem altiva do pai foi que lhe fez surgir a idéia. Fabiano, armado como vaqueiro, domava a égua brava com o auxílio de Sinha Vitória. O espetáculo grosseiro excitava o menor dos garotos, impressionado com a façanha do pai e disposto a fazer algo que também impressionasse o irmão mais velho e a cachorra Baleia _ . No dia seguinte, acordou disposto a imitar a façanha do pai. Para tanto, quis comunicar a intenção ao mano, mas evitou, com medo de ser ridicularizado.
Quando as cabras foram ao bebedouro, levadas pelo menino mais velho e por Baleia,  o pequeno tomou o bode como alvo de sua ação. Sentia-se altivo como Fabiano quando montava. No bebedouro, o garoto despencou da ribanceira sobre o animal, que o repeliu. Insistente, tentou se aprumar mas foi sacudido impiedosamente, praticando um involuntário salto mortal que o deixou, tonto, estatelado ao chão. O irmão mais velho ria sem parar do ridículo espetáculo, Baleia parecia desaprovar toda aquela loucura _ . Fatalmente seria repreendido pelos pais. Retirou-se humilhado, alimentando a raivosa certeza de que seria grande, usaria roupas de vaqueiro, fumaria cigarros e faria coisas que deixariam Baleia e o irmão admirados.


O Menino mais velho

Aquela palavra tinha chamado a sua atenção: inferno. Perguntou à Sinha Vitória, vaga na resposta. Perguntou a Fabiano, que o ignorou. Na volta à Sinha Vitória, indagou se ela já tinha visto o inferno. Levou um cascudo e fugiu indignado. Baleia fez-lhe companhia tentando alegrá-lo naquela hora difícil.
Decidiu contar à cachorrinha uma história, mas o seu vocabulário era muito restrito, quase igual ao do papagaio que morrera na viagem _ . Só Baleia era sua amiga naquele momento. Por que tanta zanga com uma palavra tão bonita ? A culpa era de Sinha Terta, que usara aquela palavra na véspera, maravilhando o ouvido atento do garoto mais velho.
Olhou para o céu e sentiu-se melancólico. Como poderiam existir estrelas? Pensou novamente no inferno. Deveria ser, sim, um lugar ruim e perigoso, cheio de jararacas e pessoas levando cascudos e pancadas com a bainha da faca _ . Sempre intrigado, abraçou-se à Baleia como refúgio _ .


Inverno

Todos estavam reunidos em volta do fogo, procurando aplacar o frio causado pelo vento e pela água que agitava a paisagem fora da casa. Chegara o inverno, e isso reunia a família próxima à fogueira. Pai e mãe conversavam daquele jeito de sempre, estranho, e os meninos, deitados, ficavam ouvindo as histórias inventadas por Fabiano, de feitos que ele nunca tinha realizado, aventuras nunca vividas. Quando o mais velho levantou-se para buscar mais lenha, foi repreendido severamente pelo pai, aborrecido pela interrupção de sua narrativa.
A chuva dava à família a certeza de que a seca não chegaria por enquanto. Isso alegrava Fabiano. Sinha Vitória, porém, temia por uma inundação que os fizesse subir ao morro, novamente errantes. A água, lá fora, ampliava sua invasão.
Fabiano empolgava-se mais ainda em contar suas façanhas _ . A chuva tinha vindo em boa hora. Após a humilhação na cidade, decidira que, com a chegada da seca, abandonaria a família e partiria para a vingança contra o soldado amarelo e demais autoridades que lhe atravessassem o caminho. A chegada das águas interrompera aqueles planos sinistros. Em meio à narrativa empolgada, Fabiano imaginava que as coisas melhorariam a partir dali; quem sabe, Sinha Vitória até pudesse ter a cama tão desejada.
Para o filho mais novo, o escuro e as sombras geradas pela fogueira faziam da imagem do pai algo grotesco, exagerado. Para o mais velho, a alteração feita por Fabiano na história que contava era motivo de desconfiança. Algo não cheirava bem naquele enredo _ . Sempre pensativo, o menino mais velho dormiu pensando na falha do pai e nos sapos que estariam lá fora, no frio.
Baleia, incomodada com a arenga de Fabiano, procurava sossego naquela paisagem interior. Queria dormir em paz, ouvindo o barulho de fora _ .


Festa

A família foi à festa de Natal na cidade. Todos vestidos com suas melhores roupas, num traje pouco comum às suas figuras, o que lhes dava um ar ridículo. A caminhada longa tornava-se ainda mais cansativa por causa daquelas roupas e sapatos apertados. O mal-estar era geral, até que Fabiano cansou-se da situação e tirou os sapatos, metendo as meias no bolso, livrando-se ainda do paletó e da gravata que o sufocava. Os demais fizeram o mesmo. Voltaram ao seu natural. Baleia juntou-se ao grupo _ .
Chegando à cidade, foram todos lavar-se à beira de um riacho antes de se integrarem à festa. Sinha Vitória carregava um guarda-chuva. Fabiano marchava teso. Os meninos maravilham-se, assustados, com tantas luzes e gente. A igreja, com as imagens nos altares, encantou-os mais ainda. O pai espremia-se no meio da multidão, sentindo-se cercado de inimigos. Sentia-se mangado por aquelas pessoas que o viam em trajes estranhos à sua bruta feição. Ninguém na cidade era bom. Lembrou-se da humilhação imposta pelo soldado amarelo quando estivera pela última vez na cidade.
A família saiu da igreja e foi ver o carrossel e as barracas de jogos. Como Sinha Vitória negou-lhe uma aposta no bozó, Fabiano afastou-se da família e foi beber pinga _ . Embriagando-se, foi ficando valente. Imaginava, com raiva, por onde andava o soldado amarelo. Queria esganá-lo. No meio da multidão, gritava, provocava um inimigo imaginário _ . Queria bater em alguém, poderia matar se fosse o caso _ . Vez ou outra, interrompia suas imprecações para uma confusa reflexão. Cansado do seu próprio teatro, Fabiano deitou no chão, fez das suas roupas um travesseiro e dormiu pesadamente.
Sinha Vitória, aflita, tinha que olhar os meninos, não podia deixar o marido naquele estado. Tomando coragem para realizar o que mais queria naquele momento, discretamente esgueirou-se para uma esquina e ali mesmo urinou. Em seguida, para completar o momento de satisfação, pitou num cachimbo de barro pensando numa cama igual à de seu Tomas da bolandeira .
Os meninos também estavam aflitos. Baleia sumira na confusão de pessoas, e o medo de que ela se perdesse e não mais voltasse era grande. Para alívio dos pequenos, a cachorrinha surge de repente e acaba com a tensão. Restava, agora, aos pequenos, o maravilhamento com tudo de novo que viam. O menor perguntou ao mais velho se tudo aquilo tinha sido feito por gente. A dúvida do maior era se todas aquelas coisas teriam nome. Como os homens poderiam guardar tantas palavras para nomear as coisas _ ?
Distante de tudo, Fabiano roncava e sonhava com soldados amarelos.


Baleia

Pêlos caídos, feridas na boca e inchaço nos beiços debilitaram Baleia de tal modo que Fabiano achou que ela estivesse com raiva. Resolveu sacrificá-la. Sinha Vitória recolheu os meninos, desconfiados,  a fim de evitar-lhes a cena.
Baleia era considerada como um membro da família, por isso os meninos protestaram, tentando sair ao terreiro para impedir a trágica atitude do pai. Sinha Vitória lutava com os pequenos, porque aquilo era necessário, mas aos primeiros movimentos do marido para a execução, lamentou o fato de que ele não tivesse esperado mais para confirmar a doença da cachorrinha.
Ao primeiro tiro, que pegou o traseiro da cachorra e inutilizou-lhe uma perna, as crianças começaram a chorar desesperadamente.
Começou, lá fora, o jogo estratégico da caça e do caçador. Baleia sentia o fim próximo, tentava esconder-se e até desejou morder Fabiano. Um nevoeiro turvava a visão da cachorrinha, havia um cheiro bom de preás. Em meio à agonia, tinha raiva de Fabiano, mas também o via como o companheiro de muito tempo. A vigilância às cabras, Fabiano, Sinha Vitória e as crianças surgiam à Baleia em meio a uma inundação de preás que invadiam a cozinha _ . Dores e arrepios. Sono. A morte estava chegando para Baleia. 


Contas

Fabiano retirava para si parte do que rendiam os cabritos e os bezerros. Na hora de fazer o acerto de contas com o patrão, sempre tinha a sensação de que havia sido enganado. Ao longo do tempo, com a produção escassa, não conseguia dinheiro e endividava-se.
Naquele dia, mais uma vez Fabiano pedira a Sinha Vitória para que ela fizesse as contas. O patrão, novamente, mostrou-lhe outros números. Os juros causavam a diferença, explicava o outro. Fabiano reclamou, havia engano, sim senhor, e aí foi o patrão quem estrilou. Se ele desconfiava, que fosse procurar outro emprego. Submisso, Fabiano pediu desculpas e saiu arrasado, pensando mesmo que Sinha Vitória era quem errara.
Na rua, voltou-lhe a raiva. Lembrou-se do dia em que fora vender um porco na cidade e o fiscal da prefeitura exigira o pagamento do imposto sobre a venda. Fabiano desconversou e disse que não iria mais vender o animal. Foi a uma outra rua negociar e, pego em flagrante, decidiu nunca mais criar porcos _ .
Pensou na dificuldade de sua vida. Bom seria se pudesse largar aquela exploração. Mas não podia! Seu destino era trabalhar para os outros, assim como fora com seu pai e seu avô.
As notas em sua mão impressionavam-no. "Juros", palavra difícil que os homens usavam quando queriam enganar os outros. Era sempre assim: bastavam palavras difíceis para lograr os menos espertos. Contou e recontou o dinheiro com raiva de todas aquelas pessoas da cidade. Sinha Vitória é que entendia seus pensamentos.
Teve vontade de entrar na bodega de seu Inácio e tomar uma pinga. Lembrou-se da humilhação passada ali mesmo e decidiu ir para casa. o céu, várias estrelas. Deixou de lado a lembrança dos inimigos e pensou na família. Sentiu dó da cachorra Baleia. Ela era um membro da família.


O Soldado Amarelo

Procurando uma égua fugida, Fabiano meteu-se por uma vereda e teve o cabresto embaraçado na vegetação local. Facão em punho, começou a cortar as quipás e palmatórias que impediam o prosseguimento da busca. Nesse momento, depara-se com o soldado amarelo que o humilhara um ano atrás _ . O cruzar de olhos e o reconhecimento durou fração de segundos. O suficiente para que Fabiano esfolasse o inimigo. O soldado claramente tremia de medo. Também reconhecera o desafeto antigo e pressentia o perigo.
Fabiano irritou-se com a cena. O outro era um nadica. Poderia matá-lo com as mãos, sem armas, se quisesse. A fragilidade do outro aos poucos foi aplacando a raiva de Fabiano. Ponderou que ele mesmo poderia ter evitado a noite na cadeia se não tivesse xingado a mãe do amarelo. No meio daquela paisagem isolada e hostil, só os dois, e se ele pedisse passagem ao soldado? Aproximou-se do outro pensando que já tinha sido mais valente, mais ousado. Na verdade, na fração de segundo interminável Fabiano ia descobrindo-se amedrontado. Se ele era um homem de bem, para que arruinar a sua vida matando uma autoridade? Guardaria forças para inimigo maior.
Sentindo o inimigo acovardado, o soldado ganhou força. Avançou firme e perguntou o caminho. Fabiano tirou o chapéu numa reverência e ainda ensinou o caminho ao amarelo.


O Mundo Coberto de Penas

A invasão daquele bando de aves denunciava a chegada da seca. Roubavam a água do gado, matariam bois e cabras. Sinha Vitória inquietou-se. Fabiano quis ignorar, mas não pôde; a mulher tinha razão. Caminhou até o bebedouro, onde as aves confirmavam o anúncio da seca. Eram muitas. Um tiro de espingarda eliminou cinco, seis delas, mas eram muitas. Fabiano tinha certeza, agora, de uma nova peregrinação, uma nova fuga.
Era só desgraça atrás de desgraça. Sempre fugido, sempre pequeno. Fabiano não se conformava, pensava com raiva no soldado amarelo, achava-se um covarde, um fraco. Irado, matou mais e mais aves. Serviriam de comida, mas até quando ? Quem sabe a seca não chegasse...Era sempre uma esperança. Mas o céu escuro de arribações só confirmava a triste situação _ . Elas cobriam o mundo de penas, matando o gado, tocando a ele e à família dali, quem sabe comendo-os.
Recolheu os cadáveres das aves e sentiu uma confusão de imagens em sua cabeça. Aquele lugar não era bom de se viver. Lembrou-se de Baleia, tentou se convencer de que não fizera errado em matá-la, pensou de novo na família e no que as arribações representavam. Sim, era necessário ir embora daquele lugar maldito _ . Sinha Vitória era inteligente, saberia entender a urgência dos fatos.


Fuga

O céu muito azul, as últimas arribações e os animais em estado de miséria indicavam a Fabiano que a permanência naquela fazenda estava esgotada. Chegou um ponto em que, dos animais, só sobrou um bezerro, que foi morto para servir de comida na viagem que se faria no dia seguinte.
Partiram de madrugada, abandonando tudo como encontraram. O caminho era o do sul. O grupo era o mesmo que errava como das outras vezes. Fabiano, no fundo, não queria partir, mas as circunstâncias convenciam-no da necessidade.
A vermelhidão do céu, o azul que viria depois assustavam Fabiano _ . Baleia era uma imagem constante em seus confusos pensamentos. Sinha Vitória também fraquejava. Queria, precisava falar _ . Aproximou-se do marido e disse coisas desconexas, que foram respondidas no mesmo nível de atrapalhação. 

Na verdade, ele gostou que ela tivesse puxado conversa. Ela tentou animar o marido, quem sabe a vida fosse melhor, longe dali, com uma nova ocupação para ele. Marido e mulher elogiam-se mutuamente; ele é forte, agüenta caminhar léguas, ela, tem pernas grossas e nádegas volumosas, agüenta também. A cidade, talvez, fosse melhor. Até uma cama poderiam arranjar. Por que haveriam de viver sempre como bichos fugidos _ ?

Os meninos, longe, despertavam especulações ao casal. O que seriam quando crescessem? Sinha Vitória não queria que fossem vaqueiros. O cansaço ia chegando à medida que avançava a caminhada, e assim houve uma parada para descanso. Novamente marido e mulher conversavam, fazendo planos, temendo o mau agouro das aves que voavam no céu.
Sinha Vitória acordou os pequenos, que dormiam, e seguiu-se viagem. Fabiano ainda admirou a vitalidade da mulher. Era forte mesmo! Assim, a cada passo arrastado do grupo um mundo de novas perspectivas ia sendo criado. Sinha Vitória falava e estimulava Fabiano. Sim, deveria haveria uma nova terra, cheia de oportunidades, distante do sertão a formar homens brutos e fortes como eles.

Exercícios sobre o livro Til – José de Alencar – “Livros do Vestibular”

Posted by Profº Monteiro on maio 29, 2016

CUCA-Unesp
Exercícios – “Livros do Vestibular”
Til – José de Alencar

1) Leia o trecho abaixo, do romance Til de José de Alencar e identifique características da prosa regionalista. Justifique com trechos:

 Àquela hora da manhã, projetava a casa larga sombra para o oitão voltado ao poente.
Nessa fresca penumbra, que recatava da estrada uma cerca de estacas de cambuís já enramadas, acomodou-se Berta para passar a sesta, que se aproximava. Daí avistava-se por uma ogiva rendada que abria a folhagem em arabescos, o caudal Piracicaba, adormecido no regaço da campina.
Sentara-se a menina em um pedaço de alto pranchão, que aí tinham colocado para servir de banco; e suas mãos sutis e ligeiras tomavam o ponto às meias, ou serziam e remendavam a outra roupa lavada, que precisava de conserto e enchia o balaio posto a seu lado na ponta do tabuão.

2)  Durante um dos capítulos José de Alencar cria uma belíssima cena em que Berta ensina o ABC para Brás. Neste contexto, a psicologia utilizada por Berta no capitulo se assemelha com ideais do pedagogo Paulo Freire sobre a alfabetização de adultos. Releia o trecho e explique no que consiste o método de ensino utilizado pela personagem.

Nisso o Brás pulando como um boneco de engonço, passava a ponta do dedo mui de leve pelas sobrancelhas negras de Berta, por seus lábios finos, pela conchinha mimosa da orelha; e, apontando alternadamente para o til na carta do abecê, repinicava as risadas e os corcovos. Iluminou-se de súbito o coração de Berta. (…) o primeiro balbucio da inteligência bôta se dirigia a ela, como o primeiro vagido da criancinha no berço chama pela mãe. Associando-se a lembrança original do idiota, disse-lhe a menina, ajudando a palavra com mímica expressiva e apontando para a carta.
— Eu sou til!
Esteve Brás um instante pasmo e boquiaberto, sem compreender, apesar da ânsia com que afinal bateu palmas de contente e deitou a pular, regougando a sua parva risada. (…)
Com um repente, mostrou-lhe Berta a carta, pondo o dedo sobre o a .
— A este!…
Pela primeira vez reparou o rapaz na forma da letra, que se lhe gravou na memória.
— Hanh?… tartamudeou ele ofegante.
— Afonso!     (…)
Assim em torno dela, que era o til, Berta foi engenhosamente agrupando todas as letras do alfabeto, com os nomes das pessoas e objetos que a cercavam. Pondo em jogo as broncas paixões do idiota, e colhendo os rudes germes de idéia que se formavam em seu bestunto, obteve ela afinal transformar a carta do abecê em uma família, em um mundo, para a existência enfezada dessa mísera criatura. Ao cabo de um mês, conhecia Brás todo o abecedário.

3) No Romance Til, expoente do Romantismo, muitos personagens são idealizados em coragem, beleza e força. Como exemplo de personagem com força e habilidades físicas excepcionais do romance está:
a) Luis Galvão, dono da fazenda, que luta contra os que o tentam assassinar numa emboscada e os vence.
b) Berta que não sofre danos ao fugir de uma manada de porcos selvagens, por correr velozmente.
c) Miguel, excelente caçador e famoso pela força.
d) Bugre ou Jão Fera, homem enorme, contratado como capanga para executar mortes e trabalhos afins.

4) Leia o trecho e responda:

Apenas afastou Berta a faxina que servia de porta ao cercado, saiu debaixo de sua palhoça uma galinha sura e muito arrepiada. Não tinha pés a pobre, que lhos haviam roído à noite os ratos; andava aos trancos, sobre os cotos que mal a ajudavam a saltar, e incapazes de sustê-la, a deixavam cair a cada passo, cobrindo-a de terra, o que a fazia mais feia ainda.
Tanto que a avistou, correu a menina a seu encontro e tomando-a ao colo, deu-lhe a comer um punhado de milho que tirou do saco. Farta a galinha da sua pitança, levou-a Berta à bica, para matar-lhe a sede, e lavar-lhe as penas sujas de poeira e cisco.
Depois que assim desvelou-se em pensar a pobre ave, dando-lhe a nutrição e asseio, a menina a deitou na palhoça, que a seu rogo fizera Miguel num canto do cercado, para abrigo de sua protegida.
Nos gestos de Berta, durante esses cuidados, já não se notava a travessa alacridade que cintilava de ordinário em seus movimentos; e era, pode-se bem dizer, a radiação de seu gênio. Sua graça então era séria; havia em seu lindo semblante uma serena efusão da ternura que fluía-lhe dos olhos meio vendados, e dos lábios descerrados por um riso gentil.

Caracterize a personagem Berta em relação ao caráter e jeito, explique como isso se interliga ao contexto literário do romance.

5) Leia o trecho do capitulo Fascinação em que Til fica presa no quarto de Linda com uma Serpente, e assinale o que for correto:

Encontrando-se o olhar da serpente e o seu, cravaram-se de modo, ou antes se imbuíram e penetraram tanto um no outro, que não pode mais a vontade separa-los e romper o vínculo poderoso. Parecia que entre a brilhante pupila negra da menina e a lívida retina da cascavel se estabelecera uma corrente de luz na qual fazia-se o fluxo e refluxo das centelhas elétricas. (…)
Nesse prisma da lindeza de Inhá reflete-se a sua índole. Aquela alma tem facetas como o diamante; iria-se e acende uma cor ou outra, conforme o raio de luz que a fere. Contradição viva, seu gênio é o ser e o não ser. Busquem nela a graça da moça e encontrarão o estouvamento do menino; porém mal se apercebam da ilusão, que já a imagem da mulher despontará em toda sua esplêndida fascinação.
A antítese banal do anjo-demônio torna-se realidade nela, em quem se cambiam no sorriso ou no olhar a serenidade celeste com os fulvos lampejos da paixão, à semelhança do firmamento onde ao radiante matiz da aurora sucedem os fulgores sinistros da procela.

a) Berta associa-se a serpente por sua índole, astuta e muitas vezes ma’.
b) Til mostrava uma beleza, encanto e feminilidade (mulher atraente), mas ao mesmo tempo revelava-se moleca (jeito brincalhão e aventureiro da criança).
c) Til por ser simples e ingenua, a partir do momento em que se encontra com a serpente passa a agir com mais astucia, sedução e encanto.
d) A serpente fora posta no quarto por Brás que queria se vingar de Berta por der brigado com ele e preferido a companhia de Miguel.

Respostas:
1) O autor buscava descrever uma localidade de maneira a mostrar como a vida de seus habitantes estava intimamente ligada ao meio físico no qual viviam. No trecho verifica-se a descrição da natureza da região associada ao humano – a roupa rendada de Berta “abria a folhagem em arabescos, o caudal Piracicaba, adormecido no regaço da campina”.
2) Berta ensina as letras para Brás por associações, pois percebe que pode interligar um fonema como A `a uma ideia do cotidiano de seu ‘aluno’ no caso Afonso, que é seu primo. Berta tem essa resolucao apos ver que o menino vê semelhança entre sua sobrancelha e o acento til. Isso se assemelha aos princípios de Freire, que prega que a alfabetização de adultos deve ser baseada no universo e cotidiano do estudante.
3) d
4) Til é uma moça “pequena, esbelta, ligeira, buliçosa” que se envolve nas mais intricadas tramas, sempre buscando ajudar os que precisam. Trata-se do ideal de heroína: doce, meiga, caridosa, mas também de coragem e impetuosidade únicas na literatura brasileira. Capaz de enfrentar jagunços, Berta não mede esforços ao buscar a realização de seus intentos. Possui uma extrema generosidade aos marginalizados e sofridos, como Zana, Brás e a Galinha sem pernas.

5) b

CUCA-Unesp Exercícios – “Livros do Vestibular” Capitães da areia – Jorge Amado

Posted by Profº Monteiro on maio 29, 2016

1) (Enem 2010)
Texto I
Logo depois transferiram para o trapiche o depósito dos objetos que o trabalho do dia lhes proporcionava. Estranhas coisas entraram então para o trapiche. Não mais estranhas, porém, que aqueles meninos, moleques de todas as cores e de idades as mais variadas, desde os nove aos dezesseis anos, que à noite se estendiam pelo assoalho e por debaixo da ponte e dormiam, indiferentes ao vento que circundava o casarão uivando, indiferentes à chuva que muitas vezes os lavava, mas com os olhos puxados para as luzes dos navios, com os ouvidos presos às canções que vinham das embarcações...
AMADO, J. Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 (fragmento).

Texto II
À margem esquerda do rio Belém, nos fundos do mercado de peixe, ergue-se o velho ingazeiro – ali os bêbados são felizes. Curitiba os considera animais sagrados, provê as suas necessidades de cachaça e pirão. No trivial contentavam-se com as sobras do mercado.
TREVISAN, D. 35 noites de paixão: contos escolhidos. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009 (fragmento).

Sob diferentes perspectivas, os fragmentos citados são exemplos de uma abordagem literária recorrente na literatura brasileira do século XX. Em ambos os textos:
a) a linguagem afetiva aproxima os narradores dos personagens marginalizados.
b) a ironia marca o distanciamento dos narradores em relação aos personagens.
c) o detalhamento do cotidiano dos personagens revela a sua origem social.
d) o espaço onde vivem os personagens é uma das marcas de sua exclusão.
e) a crítica à indiferença da sociedade pelos marginalizados é direta.

2) (Fuvest-2010)
Inimigo da riqueza e do trabalho, amigo das festas, da música, do corpo das cabrochas. Malandro. Armador de fuzuês. Jogador de capoeira navalhista, ladrão quando se fizer preciso.
Jorge Amado, Capitães de areia.
O tipo cujo perfil se traça, em linhas gerais, neste excerto, aparece em romances como Memórias de um sargento de milícias, O cortiço, além de Capitães de areia. Essa recorrência indica que
a) certas estruturas e tipos sociais originários do período colonial foram repostos durante muito tempo, nos processos de transformação da sociedade brasileira.
b) o atraso relativo das regiões Norte e Nordeste atraiu para elas a migração de tipos sociais que o progresso expulsara do Sul/Sudeste.
c) os romancistas brasileiros, embora críticos da sociedade, militaram com patriotismo na defesa de nossas personagens mais típicas e mais queridas.
d) certas ideologias exóticas influenciaram negativamente os romancistas brasileiros, fazendo-os representar, em suas obras, tipos sociais já extintos quando elas foram escritas.
e) a criança abandonada, personagem central dos três livros, torna-se, na idade adulta, um elemento nocivo à sociedade dos homens de bem.

3) (Fuvest-2010)
Considere a seguinte relação de obras: Auto da barca do inferno, Memórias de um sargento de milícias, Dom Casmurro e Capitães da areia. Entre elas, indique as duas que, de modo mais visível, apresentam intenção de doutrinar, ou seja, o propósito de transmitir princípios e diretivas que integram doutrinas determinadas.
Divida sua resposta em duas partes: a) para a primeira obra escolhida e b) para a segunda obra escolhida, conforme já vem indicado na respectiva página de respostas.
Justifique sucintamente cada uma de suas escolhas.

4) (Fuvest-2011) Entre as variedades de preconceito enumeradas a seguir, aponte aquelas que o grupo dos “capitães da areia” (do romance homônimo) rejeita e aquelas que acata e reforça: preconceito de raça e cor; de religião; de gênero (homem e mulher); de orientação sexual. Justifique suas respostas.

5) (Fuvest-2012) Leia o seguinte excerto de Capitães da areia, de Jorge Amado, e responda ao que se pede.
O sertão comove os olhos de Volta Seca. O trem não corre, este vai devagar, cortando as terras do sertão. Aqui tudo é lírico, pobre e belo. Só a miséria dos homens é terrível. Mas estes homens são tão fortes que conseguem criar beleza dentro desta miséria. Que não farão quando Lampião libertar toda a caatinga, implantar a justiça e a liberdade?
Compare a visão do sertão que aparece no excerto de Capitães da areia com a que está presente no livro Vidas secas, de Graciliano Ramos, considerando os seguintes aspectos:
a) a terra (o meio físico);
b) o homem (o sertanejo).
Responda, conforme solicitado, considerando cada um desses aspectos nas duas obras citadas.

6) (Unicamp-2010) Leia o trecho abaixo, do capítulo “As luzes do carrossel”, de Capitães da Areia:
O sertanejo trepou no carrossel, deu corda na pianola e começou a música de uma valsa antiga. O rosto sombrio de Volta Seca se abria num sorriso. Espiava a pianola, espiava os meninos envoltos em alegria. Escutavam religiosamente aquela música que saía do bojo do carrossel na magia da noite da cidade da Bahia só para os ouvidos aventureiros e pobres dos Capitães da Areia. Todos estavam silenciosos. Um operário que vinha pela rua, vendo a aglomeração de meninos na praça, veio para o lado deles. E ficou também parado, escutando a velha música. Então a luz da lua se estendeu sobre todos, as estrelas brilharam ainda mais no céu, o mar ficou de todo manso (talvez que Iemanjá tivesse vindo também ouvir a música) e a cidade era como que um grande carrossel onde giravam em invisíveis cavalos os Capitães da Areia. Nesse momento de música eles sentiram-se donos da cidade. E amaram-se uns aos outros, se sentiram irmãos porque eram todos eles sem carinho e sem conforto e agora tinham o carinho e conforto da música. Volta Seca não pensava com certeza em Lampião nesse momento. Pedro Bala não pensava em ser um dia o chefe de todos os malandros da cidade. O Sem-Pernas em se jogar no mar, onde os sonhos são todos belos. Porque a música saía do bojo do velho carrossel só para eles e para o operário que parara. E era uma valsa velha e triste, já esquecida por todos os homens da cidade.
(Jorge Amado, Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 68.)
a) De que modo esse capítulo estabelece um contraste com os demais do romance? Quais são os elementos desse contraste?
b) Qual a relação de tal contraste com o tema do livro?

7) (Unicamp-2011) Leia a passagem seguinte, de Capitães da areia:
Pedro Bala olhou mais uma vez os homens que nas docas carregavam fardos para o navio holandês. Nas largas costas negras e mestiças brilhavam gotas de suor. Os pescoços musculosos iam curvados sob os fardos. E os guindastes rodavam ruidosamente. Um dia iria fazer uma greve como seu pai... Lutar pelo direito... Um dia um homem assim como João de Adão poderia contar a outros meninos na porta das docas a sua história, como contavam a de seu pai. Seus olhos tinham um intenso brilho na noite recém-chegada. (Jorge Amado, Capitães da areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 88.)
a) Que consequências a descoberta de sua verdadeira origem tem para a personagem de Pedro Bala?
b) Em que medida o trecho acima pode definir o contexto literário em que foi escrito o romance de Jorge Amado?

Respostas:
1) d
2) a
3) a) O Auto da Barca do Inferno é informado por princípios da moral cristã, pelos quais são julgados os comportamentos dos mortos prestes a embarcar, no “cais das almas”, para o mundo post-mortem, em que serão punidos ou recompensados.
b) Capitães da Areia é um romance em que se faz a apologia da revolução socialista como panaceia para as injustiças sociais decorrentes do regime capitalista. É uma obra que busca o “engajamento” na luta social, tendo sido por isso proibida durante o Estado Novo. A intenção de doutrinar politicamente o leitor é recorrente, como exemplifica o final: “E, apesar de que lá fora era o terror, qualquer daqueles lares era um lar que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é uma pátria e uma família”.
4) a) O grupo dos “capitães da areia” rejeita o preconceito de raça e de cor. Nele convivem mulatos,
brancos e negros, sem hostilidade de caráter racial.
b) O grupo rejeita também o preconceito religioso, pois nele convivem um praticante do catolicismo,
como Pirulito, que mais tarde será padre, e adeptos do candomblé, como é o caso de João Grande.
O grupo vê como amigos tanto o padre José Pedro como a mãe-de-santo dona Aninha.
c) O preconceito de gênero existe no grupo dos capitães da areia até a admissão de Dora. A chegada da menina ao trapiche é momento de grande tensão, porque há tentativa de estuprá-la. Após a intervenção de Pedro Bala, a integridade de Dora é preservada e ela se torna integrante do grupo e amante de seu protetor.
d) Há preconceito de orientação sexual, pois os capitães da areia expulsam do grupo o homossexual passivo, cuja presença contraria seu código moral.
5) a) O sertão, para Volta Seca, é “lírico, pobre e belo” e “comove os olhos”. Em Capitães da areia, o sertão é belo porque os “homens (...) conseguem criar beleza dentro dessa miséria”.
b) O homem, em Capitães da areia, é capaz de transcender o seu estado de miséria e criar beleza, justiça e liberdade, por meio da tomada de consciência de seu papel social.  Em Vidas Secas, ele é incapaz de superar a miséria que se revela tanto no plano físico quanto no intelectual.
6) a) O capítulo estabelece um contraste com os demais do livro opondo a alegria e a despreocupação do momento em que os capitães da areia brincam no carrossel à luta pela sobrevivência que os ocupa ao longo de todo o romance. Nesse sentido, o capitulo lhes restitui a infância roubada por preocupações que deveriam ser apenas dos adultos. Elementos desse contraste são a alegria da música em lugar da fome. O carinho da vida em família – nesse momento são todos irmãos – em lugar da solidão. A cidade como um imenso brinquedo, e não como o lugar da luta pela sobrevivência, cheio de perigos. Em resumo: a inocência da infância em lugar da consciência da vida adulta.
b) Capitães da Areia é um romance sobre a infância abandonada. Em contraste com os demais capítulos do livro, que acentuam a precocidade dos Capitães da Areia, este acentua o fato de ainda serem crianças. O ponto de vista do romance, portanto, é o de que suas atitudes violentas são decorrentes da carência de tudo o que caracterizaria uma infância feliz – eram todos sem carinho e sem conforto. No momento em que recebem o carinho e o conforto da música, esquecem o seu dia a dia violento, e mesmo os seus sonhos de triunfarem pela violência – como chefes de bando, cangaceiros – ou de fugirem dela pela morte. A imagem da cidade, palco de suas ações violentas, ganhando a aparência de um grande brinquedo, um grande carrossel, está em consonância com a proposta de revolução política do romance, que é responsável por seu desfecho, afinal, esperançoso.
7) a) A descoberta da verdadeira origem de Pedro Bala tem a consequência de atribuir um sentido às ações da personagem. O que até então fora apenas luta pela sobrevivência e reação instintiva contra a violência sofrida, adquirirá um sentido de missão transformadora, com a superação da alienação política inicial. De líder de um bando de infratores, sem qualquer consciência ideológica, Pedro Bala se desenvolverá no sentido de se tornarmilitante de um movimento de transformação social, buscando seguir os passos do pai, em quem passa a se espelhar. Ele almeja para si uma imagem heróica similar à do pai.

b) Jorge Amado pertence à geração dos romancistas da década de 30. A respeito desse período, fala-se geralmente em romance social. O romance é visto como um instrumento de interpretação da realidade e de sua transformação. Pode-se acrescentar que a construção de um herói positivo, no caso deste romance, aproxima o autor da vertente do realismo socialista.

Questões Figuras de Linguagem - Português

Posted by Profº Monteiro on maio 28, 2016

04MAR
Gabarito no final das questões.

Lista de exercícios Figuras de Linguagem - Português 

Questão 1
(UFPE) Tomando como título de uma de suas obras "AMAR, VERBO INTRANSITIVO", Mário de Andrade reafirma, pelo uso da linguagem, sua atitude de rebeldia quanto às normas gramaticais. Ao explorar a intransitividade gramatical do verbo amar, a linguagem - neste título - passa a ter valor:

a) denotativo, confirmando a única possibilidade de predicação do verbo amar;

b) conotativo, significando uma forma de amar que se esgota em si mesma;

c) denotativo, expressando o egoísmo dos pares amorosos;

d) conotativo, valorizando a idéia de que "quem ama, ama alguém";

e) denotativo, traduzindo a idéia de que, para amar, é imprescindível o complemento







Questão 2 (FUVEST) A catacrese, figura que se observa na frase "Montou o cavalo no burro bravo", ocorre em:

a) Os tempos mudaram, no devagar depressa do tempo.

b) Última flor do Lácio, inculta e bela, és a um tempo esplendor e sepultura.

c) Apressadamente, todos embarcaram no trem.

d) Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal.

e) Amanheceu, a luz tem cheiro.








Questão 3 (UFF) TEXTO
Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra.
Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
(ASSIS, Machado fr. Quincas Borba. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira/INL, 1976.) 
Assinale dentre as alternativas abaixo, aquela em que o uso da vírgula marca a supressão (elipse) do verbo:

a) Ao vencido, ódio ou compaixão, ao vencedor, as batatas.

b) A paz, nesse caso, é a destruição(...)

c) Daí a alegria da vitória, os hinos, as aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas.

d) (...) mas, rigorosamente, não há morte(...)

e) Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se(...)








Questão 4 (FMU) Rio Abaixo
Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...

Quase noite. Ao sabor do curso lento

Da água, que as margens em redor alaga,

Seguimos. Curva os bambuais o vento.


Vivo há pouco, de púrpura sangrento,

Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga

A derradeira luz do firmamento...

Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga,


Um silêncio tristíssimo por tudo

Se espalha. Mas a lua lentamente

Surge na fímbria do horizonte mudo:


E o seu reflexo pálido, embebido

como um gládio de prata na corrente,

Rasga o seio do rio adormecido.

Olavo Bilac
Observe que o poeta preferiu a ordem indireta à direta: "Treme o rio"; "curva os bambuais o vento", tudo em nome da figura chamada
a) pleonasmo

b) antítese

c) polissíndeto

d) anacoluto

e) hipérbato









Questão 5 (UFPB) I."À custa de muitos trabalhos, de muitas fadigas, e sobretudo de muita paciência..."

II."... se se queria que estivesse sério, desatava a rir..."

III."... parece que uma mola oculta o impelia..."

IV."... e isto (...) dava em resultado a mais refinada má-criação que se pode imaginar."



Quanto às figuras de linguagem, há neles, respectivamente,

a) gradação, antítese, comparação e hipérbole.

b) hipérbole, paradoxo, metáfora e gradação.

c) hipérbole, antítese, comparação e paradoxo.

d) gradação, antítese, metáfora e hipérbole.

e) gradação, paradoxo, comparação e hipérbole.









Questão 6 (UFPB) Um dia, o Simão me chamou: – "Vem ver. Olha ali". Era uma mulher, atarracada, descalçada, que subia o caminho do morro. (Diante do Sanatorinho havia um morro. Os doentes em bom estado podiam ir até lá em cima, pela manhã e à tarde.) Lembro-me de que, de repente, a mulher parou e acenou para o Sanatorinho. Não sei quantas janelas retribuíram. E o curioso é que, desde o primeiro momento, Simão saltou: – "É minha! Vi primeiro!".

Uns oitenta doentes tinham visto, ao mesmo tempo. Mas o Simão era um assassino. Como ele próprio dizia, sem ódio, quase com ternura, "matei um". E o crime pretérito intimidava os demais. Constava que trouxera, na mala, com a escova de dentes, as chinelas, um revólver. Naquela mesma tarde, foi para a cerca, esperar a volta da fulana. E conversaram na porteira. Simão voltou, desatinado. Conversara a fulana. Queria um encontro, na manhã seguinte, no alto do morro.

A outra não prometera nada. Ia ver, ia ver. Simão estava possesso: – "Dez anos!", e repetia, quase chorando: – "Dez anos não são dez dias!". Campos do Jordão estava cheio de casos parecidos. Nada mais cruel do que a cronicidade de certas formas de tuberculose. Eu conheci vários que haviam completado, lá na montanha, um quarto de século. E o próprio Simão falava dos dez anos como se fosse esta a idade do seu desejo.

Na manhã seguinte, foi o primeiro a acordar. (...) Havia uma tosse da madrugada e uma tosse da manhã. Eu me lembro daquele dia. Nunca se tossiu tanto. Sujeitos se torciam e retorciam asfixiados. E, súbito, a tosse parou. Todo o Sanatorinho sabia que, no alto do morro, o Simão ia ver a tal mulher do riso desdentado. E justamente ela estava subindo a ladeira. Como na véspera, deu adeus; e todas as janelas e varandas retribuíram. Uma hora depois, volta o Simão. Foi cercado, envolvido: – "Que tal?". Tinha uma luz forte no olhar: – "Tem amanhã outra vez". Durante todo o dia, ele quase não saiu da cama: – sonhava. Às seis, seis e pouco, um médico entra na enfermaria. Falou pra todos: – "Vocês não se metam com essa mulher que anda por aí, uma baixa. Passou, hoje de manhã, subiu a ladeira. É leprosa". Ninguém disse nada. O próprio Simão ficou, no seu canto, uns dez minutos, quieto. Depois, levantou-se. No meio da enfermaria, como se desafiasse os outros, disse duas vezes: – "Eu não me arrependo, eu não me arrependo".

(RODRIGUES, Nelson. A menina sem estrela. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 132-3.)

A partir da convenção seguinte:

I.Animização

II.Metáfora

III.Metonímia

IV.Silepse

preencha os parênteses com a adequada classificação das figuras de linguagem:

( )"... e todas as janelas e varandas retribuíram."

( )"Campos do Jordão estava cheio de casos parecidos."

( )"... Simão ia ver a tal mulher do riso desdentado."

A seqüência correta encontra-se em

a) I, III, II.

b) I, IV, II.

c) II, III, II.

d) III, IV, II.

e) III, IV, III.









Questão 7 (UFPE) Nos enunciados abaixo, a palavra destacada NÃO tem sentido conotativo em:

a) A comissão técnica está dissolvida. Do goleiro ao ponta-esquerda.

b) Indispensável à boa forma, o exercício físico detona músculos eossos, se mal praticado.

c) O melhor tenista brasileiro perde o jogo, a cabeça e o prestígio em Roland Garros.

d) Sob a mira da Justiça, os sorteios via 0900 engordam o caixa das principais emissoras.

e) Alta nos juros atropela sonhos da classe média.









Questão 8 (UFPE) Observando as figuras de linguagem empregadas nos enunciados abaixo, podemos afirmar que a metáfora só NÃO apareceu em:

a) Delegacia se afoga num mar de inquéritos.

b) Fantasma do desemprego tecnológico assombra trabalhadores que vivem das atividades de calcinadoras a lenha.

c) Dirigir falando no telefone celular aumenta quatro vezes o risco de colisões.

d) De volta à moda e aos pés femininos, o elegante e famigerado salto alto reacende a fogueira da inquisição ortopédica.

e) É grande o nó burocrático de museus e orquestras para liberar obras e instrumentos na alfândega.









Questão 9 (UERJ) TEXTO II
01 Já dois anos se passaram longe da pátria. Dois anos! Diria dois séculos. E durante este tempo
02 tenho contado os dias e as horas pelas bagas do pranto que tenho chorado. Tenha embora Lisboa os
03 seus mil e um atrativos, ó eu quero a minha terra; quero respirar o ar natal (...). Nada há que valha a
04 terra natal. Tirai o índio do seu ninho e apresentai-o d’improviso em Paris: será por um momento
05 fascinado diante dessas ruas, desses templos, desses mármores; mas depois falam-lhe ao coração as
06 lembranças da pátria, e trocará de bom grado ruas, praças, templos, mármores, pelos campos de sua
07 terra, pela sua choupana na encosta do monte, pelos murmúrios das florestas, pelo correr dos seus
08 rios. Arrancai a planta dos climas tropicais e plantai-a na Europa: ela tentará reverdecer, mas cedo
09 pende e murcha, porque lhe falta o ar natal, o ar que lhe dá vida e vigor. Como o índio, prefiro a
10 Portugal e ao mundo inteiro, o meu Brasil, rico, majestoso, poético, sublime. Como a planta dos
11 trópicos, os climas da Europa enfezam-me a existência, que sinto fugir no meio dos tormentos da
12 saudade.

(Abreu, Casimiro de. Obras de Casimiro de Abreu. Rio de Janeiro: MEC, 1955.)
A "hipérbole" é uma figura de linguagem empregada quando há intenção de engrandecer ou diminuir exageradamente a verdade das coisas, dos fatos.

A alternativa em que se usa a hipérbole como conotação do sofrimento do narrador do texto II, pela duração de sua permanência fora do Brasil, é:

a) "Já dois anos se passaram longe da pátria." (linha 1)

b) "Já dois anos se passaram longe da pátria. Dois anos!" (linha 1)

c) "Diria dois séculos." (linha 1)

d) "E durante este tempo tenho contado os dias e as horas..." (linhas 1 e 2)








Questão 10 (UFRRJ) TEXTO
BIBLIOTECA VERDE
01 Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
02 São só 24 volumes encadernados
03 em percalina verde.
04 Meu filho, é livro demais para uma criança.
05 Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
06 Quando crescer eu compro. Agora não.
07 Papai, me compra agora. É em percalina verde,
08 só 24 volumes. Compra, compra, compra.
09 Fica quieto, menino, eu vou comprar.
...............................................................................................
10 Chega cheirando a papel novo, mata
11 de pinheiros toda verde. Sou
12 o mais rico menino destas redondezas.
13 ( Orgulho, não; inveja de mim mesmo. )
14 Ninguém mais aqui possui a coleção
15 das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
16 Antes de ler, que bom passar a mão
17 no som da percalina, esse cristal
18 de fluida transparência: verde, verde.
19 Amanhã começo a ler. Agora não.
...............................................................................................
20 Mas leio, leio. Em filosofias
21 tropeço e caio, cavalgo de novo
22 meu verde livro, em cavalarias
23 me perco, medievo; em contos, poemas
24 me vejo viver. Como te devoro,
25 verde pastagem. Ou antes carruagem
26 de fugir de mim e me trazer de volta
27 à casa a qualquer hora num fechar
28 de páginas?
29 Tudo que sei é que ela que me ensina.
30 O que saberei, o que não saberei
31 nunca,
32 está na Biblioteca em verde murmúrio
33 de flauta-percalina eternamente.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião . Rio de Janeiro, José Olympio, 1983. p.672-673.

No fragmento "que bom passar a mão no som da percalina" ( v. 16-17 ) percebe-se

a) a correlação entre o sentido próprio e o sentido figurado das palavras.

b) relação de termos que consiste no uso do todo pela parte.

c) suavização de uma idéia através da substituição de uma palavra.

d) relação entre percepção de sentidos diferentes.

e) emprego de termos que se referem a conceitos contrários.












Gabarito:
1-b 2-c 3-a 4-e 5-d 6-e 7-b 8-c 9-c 10-d