FORMAÇÃO CONTINUADA: EM BUSCA DO EDUCADOR REFLEXIVO

Posted by Profº Monteiro on fevereiro 15, 2014


Rita Buzzi Rausch *
A formação dos educadores vêm sendo, principalmente a partir da década de 90, alvo
de muitas discussões e descontentamentos. Muitas pesquisas recentes (dentre elas
FONTANA 2000, SADALLA (1998), CUNHA (1992)) tem centralizado as suas investigações
procurando encontrar "bons professores", "professores competentes", "professores
reflexivos", ou seja, educadores que em sala de aula apresentam um fazer pedagógico
coerente com concepções progressistas de educação. Entretanto, as pesquisas tem revelado
o quanto a prática pedagógica destes profissionais pode ser ressignificada à luz das novas
concepções de educação.
Faz-se necessário pontuar que por muito tempo a formação oficial não teve a
preocupação de incentivar a relação entre teoria e prática docente. Inicialmente, contentavase
em "reciclar" o educador, descartando o seu conhecimento real, introduzindo o novo
desconectado do velho, oferecendo cursos rápidos e descontextualizados, somados a
palestras e encontros esporádicos superficiais.
Mais tarde, coerente com o momento histórico por qual passava a concepção de
educação, contentou-se em "treinar" o educador tendo como eixo central a modelagem de
comportamentos, desencadeando ações apenas com finalidades mecânicas. Ao educador
era atribuída a tarefa de fazer e não de pensar, impondo-se modelos, receitas, técnicas do
fazer pedagógico.
Buscando superar a dinâmica das formações anteriores surge, na década de 80, novos
conceitos de se pensar/fazer tal processo: "aperfeiçoamento" e "capacitação" de educadores.
Coerente com tais conceitos, novas decisões foram tomadas e novas ações propostas.
Porém para alguns educadores, tais estratégias de formar ainda não respondem as
demandas de uma prática pedagógica transformadora. Ao refletir-se sobre o verdadeiro
sentido da palavra aperfeiçoar chega-se ao tornar perfeito, completar o que estava
incompleto. No conceito de capacitação, tornar capaz, parece existir, também, uma
doutrinação, inculcação de idéias como sendo verdades absolutas que precisam ser,
simplesmente, aceitas, exercendo uma função curativa, remediadora e imediatista. Será
possível completar alguém? Torná-lo perfeito? Capacitá-lo, como se fosse um processo
meramente de fora para dentro? Ou será que, agindo de tal forma, está-se negando a raiz do
próprio conhecimento que é um processo constante, interativo, incompleto, provisório?
Ultrapassando concepções fragmentárias, exclusivas, maniqueístas ou polarizadoras de
formação, delineia-se outro tipo de formação; "formação permanente" (FREIRE, 1982) e ou
"formação continuada" (NÓVOA, 1992, PERRENOUD, 1993). Estes dois termos podem ser
considerados similares pois pontuam como eixo central a pesquisa em educação, valorizam o
conhecimento do professor, e em um processo interativo/reflexivo, buscam contribuir para
uma análise do próprio fazer docente.
Tal formação é coerente com o movimento social de direitos humanos, buscando educar
o povo, como sempre afirmou Paulo Freire, a "ultrapassar a visão fragmentada da realidade",
levando as pessoas a superar o individualismo através da cooperação, das soluções
coletivas, da liberdade de pensamento, tornando-se cidadãos, avançando de uma
"consciência ingênua para uma consciência crítica", buscando uma mobilização social que
questione o próprio sistema e transforme a realidade.
Educar/formar nesta nova perspectiva é considerar, conforme defende Nóvoa(1992), os
professores a partir de três eixos estratégicos: a pessoa do professor e sua experiência; a
profissão e seus saberes, e a escola e seus projetos. "A formação não se constrói por
acumulação (de cursos de conhecimento ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de
reflexão crítica sobre práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal.
Por isso é tão importante investir na pessoa a dar estatuto ao saber da experiência".
(NÓVOA, 1992, p. 38). Portanto, é preciso respeitar os professores como pessoas, seres
incompletos e eternos aprendizes, que a partir de uma formação contextualizada buscam
transformar-se, entender o grupo no qual estão inseridos e ressignificar a suas práticas
pedagógicas.
Assim, o objetivo central da formação continuada é desenvolver o educador
pesquisador. Não um pesquisador obsecado pela academia ou pela cientificidade, mas um
profissional que tem, primeiramente, uma atitude cotidiana de reflexividade da sua prática,
que busca compreender os processos de aprendizagem e desenvolvimento de seus alunos e
que vai construindo autonomia na interpretação da realidade e dos saberes presentes no seu
fazer pedagógico.
Desta forma, "não se trata de uma simples aquisição de conhecimentos, mas de uma
transformação da própria pessoa envolvendo mecanismos psicológicos mais amplos, e essa
interação sujeito-mundo (local onde hábito e no qual dou e recebo significações) é que faz
aparecerem problemas mais profundos, os quais a simples instrução não consegue resolver.
É necessária uma prática transformadora constituída pela teoria e pela ação, formando uma
proposta pedagógica que não concebe as pessoas como 'destinatárias' mas como sujeitos da
própria atividade política" (MARIN, 1995, p 26). Busca-se, portanto, uma nova competência
pedagógica, surgida a partir da reflexão na e sobre a prática, que em um movimento de açãoreflexão-
ação, caminha para uma menor dicotomia teoria/prática, entendendo sempre que
entre uma determinada teoria que se quer assumir e a prática que se quer ressignificar existe
a teoria do sujeito, a qual se constrói a partir das indagações daquilo que faz.
Enfim, é fundamental que o educador seja auxiliado a refletir sobre sua prática, a
organizar suas próprias teorias, a compreender as origens de suas crenças para que possa
tornar-se pesquisador de sua ação, um profissional reflexivo, que melhorando o seu trabalho
em sala de aula, recria constantemente sua prática.
* Membro da Equipe de formação SEMED , Professora Dep. Pedagogia FURB.

Os Sete Saberes necessários à Educação do Futuro

Posted by Profº Monteiro on fevereiro 14, 2014

Edgar Morin, Cortez Ed. Unesco, 2000

Os sete saberes indispensáveis enunciados por Morin são:
Capítulo I –
As cegueiras do conhecimento : o erro e a ilusão.
É impressionante que a educação, que visa transmitir conhecimentos, seja cega quanto ao que é o conhecimento humano nos seus dispositivos, enfermidades, dificuldades, tendências ao erro e a ilusão, e não se preocupe em fazer conhecer o que é conhecer.
De fato, o conhecimento não pode ser considerado uma ferramenta "ready made" (Leitura Feita) que pode ser utilizada sem que sua natureza seja examinada. Da mesma forma, o conhecimento do conhecimento deve aparecer como necessidade primeira, que serviria de preparação para enfrentar os riscos permanentes de erro e de ilusão, que não cessam de parasitar a mente humana. Trata-se de armar cada mente no combate vital rumo à lucidez.
É necessário introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro ou a ilusão.






Capítulo II –
Os princípios do conhecimento pertinentes
Existe um problema capital, sempre ignorado, que é o da necessidade de promover o conhecimento capaz de apreender problemas globais e fundamentais para neles inserir os conhecimentos parciais e locais.
A supremacia do conhecimento fragmentado de acordo com as disciplinas impede freqüentemente de operar o vínculo entre as partes e a totalidade e deve ser substituída por um modo de conhecimento capaz de apreender os objetos em seu contexto, sua complexidade, seu conjunto.
É necessário desenvolver a aptidão natural do espírito humano para situar todas essas informações em um contexto e um conjunto. É preciso ensinar os métodos, que permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo em um mundo complexo.

Capítulo III –
Ensinar a condição humana
O ser humano é a um só tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social, histórico. Esta unidade complexa da natureza humana é totalmente desintegrada na educação por meio das disciplinas tendo-se tornado impossível aprender o que significa ser humano.
Desse modo a condição humana deveria ser o objeto essencial de todo o ensino.
Esse capítulo mostra como é possível com base nas disciplinas atuais, reconhecer a unidade e a complexidade humanas, reunindo e organizando conhecimentos dispersos nas ciências da natureza, nas ciências humanas, na literatura e na filosofia e põe em evidência o elo indissolúvel entre a unidade e a diversidade de tudo que é humano.
Capítulo IV –
Ensinar a identidade terrena.
O destino planetário do gênero humano é outra realidade chave até agora ignorada pela educação.
Convém ensinar a história da era planetária, que se inicia com o estabelecimento da comunicação entre todos os continentes no século XVI, e mostrar como todas as partes do mundo se tornaram solidárias, sem, contudo, ocultar as opressões e a dominação que devastaram a humanidade e que ainda não desapareceram.
Será preciso indicar o complexo de crise planetária que marcou o séc. XX mostrando que todos os seres humanos, confrontados de agora em diante aos mesmos problemas de vida e de morte, partilham um destino comum.
Capítulo V –
Enfrentar as incertezas
As ciências permitiram que adquiríssemos muitas certezas, mas igualmente revelaram, ao longo do século XX, inúmeras zonas de incertezas. A educação deveria incluir o ensino das incertezas que surgiram nas ciências físicas (microfísicas, termodinâmica, cosmologia) nas ciências da evolução biológica e nas ciências históricas.
Seria preciso ensinar princípios de estratégia que permitiriam enfrentar os imprevistos, o inesperado e a incerteza, e modificar seu desenvolvimento, em virtude das informações adquiridas ao longo tempo. É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a arquipélagos de certezas.
A fórmula do poeta Grego Eurípedes, que data de 25 séculos nunca foi tão atual: "O esperado não se cumpre e ao inesperado em Deus abre o caminho". É necessário que todos os que se ocupam da educação constituam a vanguarda ante a incerteza de nossos tempos.
Capítulo VI –
Ensinar a compreensão
A compreensão é a um só tempo meio e fim da comunicação humana. Entretanto a educação para a compreensão está ausente no ensino. O planeta necessita em todos os sentidos de compreensão mútua. O desenvolvimento da compreensão pede a reforma das mentalidades. Esta deve ser a obra para a educação do futuro. Dai decorre a necessidade de estudar a incompreensão a partir de suas raízes, suas modalidades e seus efeitos. Este estudo é necessário por que enfocaria as causas do racismo, da xenofobia, do desprezo. Constituiria, ao mesmo tempo, uma das bases mais seguras da educação para a paz, à qual estamos ligados por essência e vocação.
Capítulo VII –
A ética do gênero humano
A educação deve conduzir à "antropo-ética", levando em conta o caráter ternário da condição humana, que é ser ao mesmo tempo indivíduo/ sociedade/ espécie. Nesse sentido, a ética indivíduo/ espécie necessita do controle mútuo da sociedade pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade, ou seja, a democracia; a ética indivíduo/ espécie convoca, ao séc XXI, a cidadania terrestre. A ética não poderia ser ensinada por meio de lições de moral. Deve formar-se nas mentes com base na consciência de que o humano é, ao mesmo tempo, indivíduo, parte da sociedade, parte da espécie. Carregamos em nos essa tripla realidade. Desse modo, todo desenvolvimento verdadeiramente humano deve compreender o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e da consciência de pertencer à espécie humana. Partindo disso, esboçam-se duas grandes finalidades ético-políticas do novo milênio: estabelecer uma relação de controle mútuo entre a sociedade e os indivíduos pela democracia e conceber a humanidade como comunidade planetária. A educação deve contribuir não somente para a tomada de consciência de nossa Terra-Pátria, mas também permitir que esta consciência se traduza em vontade de realizar a cidadania terrena.

Expressionismo

Posted by Profº Monteiro on fevereiro 12, 2014

Antes da explosão do movimento modernista de 1922 , o Brasil teve com Lasar Segall (1891 – 1957) seu primeiro contato com a arte mais inovadora que era feita na Europa.
Em 1924, retornando ao Brasil, Lasar Segall passou a residir definitivamente em São Paulo, a partir daí, sua pintura assumiu uma temática brasileira.
Seus personagens agora são mulatas, prostitutas e marinheiros: sua paisagem favelas e bananeiras, são exemplos as telas mãe preta e bananal. Em 1929, o artista dedica-se á escultura em madeira, pedra e gesso. Mas entre os anos de 1936 e 1950, sua pintura volta-se para os grandes temas humanos e universais, sobretudo para sofrimento e a solidão. São dessa época entre outras as telas: Pragon, Navio de Emigrantes, Guerra e Campo de Concentração. 
Em 1951 Lasar Segall dá inicio ao ultimo ciclo de sua obra com as séries de pinturas Erradias, Favelas e Florestas. Esse ciclo é interrompido com sua morte, em 1957.
O inicio de uma das rupturas mais radicais na pintura
A exposição que Lasar segall realizou entre nós em 1913 não provocou nenhuma polêmica, pois seus trabalhos foram vistos como a produção de um estrangeiro. Como tal , ele tinha direito de apresentar uma arte estranha ao censo estético dos brasileiros. Mas com arte de Anita Malfatty (1896 – 1964), pintora brasileira, areação foi totalmente diferente.
Essa artista, que teve uma importância muito grande nos acontecimentos que antecederam o movimento Modernista no Brasil de 1922. Nasceu em São Paulo e aí realizou seus primeiros estudos da pintura em 1912 foi para a Alemanha onde freqüentou a academia de Belas Artes de Berlim de volta para o Brasil em 1914, realizou sua primeira exposição individual.
Entretanto, sua exposição mais famosa é a de 1917 foi esta exposição que provocou o artigo de Monteiro lobato contendo severas criticas á arte de Anita, Nessa mostra figuraram por exemplo: A estudante Russa, O Homem Amarelo, Mulher de cabelos verdes e Caboclinha, Trabalhos que se tornaram marcos na pintura moderna barsileira por seu comprometimento comas novas tendências.
Um incentivador da Semana de Arte Moderna
Depois das exposições de Lasar Segall e Anita Mafaltti, precursores da arte moderna no Brasil, os artistas mais inovadores começaram a se reunir em torno de idéia da realização de uma mostra coletiva que apresentasse ao público o que se fazia de mais atualizado no país. Entre esses artistas estava Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque Mello (1897 – 1976), pintor conhecido como Di Cavalcanti um dos grandes incentivadores da semana de arte moderna de 1922 , durante a semana , esse artista participou da seção da pintura com 12 trabalhos , entre os quais Ao Pé de Cruz, Boêmios e Intimidade:
Depois de 1935 e 1940, Di Cavalcanti viveu na Europa, onde steve em contato com os artistas mais notáveis da época. Na década de 40 sua arte estava amadurecida e conquistou definitivamente seu espaço na pintura brasileira.
Di Cavalcanti foi influenciado por diversos pintores, com Picasso, Gauguim, Matisse e Braque, mas ele foi capaz de transformar essas influências numa produção muito pessoal e associada aos temas nacionais. É assim por exemplo, em Pescadores obra de 1951.  
Cubismo de um jovem artista brasileiro 
Entre as pinturas expostas na semana de 22 estavam alguma de Vicente de Rego Monteiro (1899 –1970) consideradas as primeiras realizações de um artista brasileiro dentro da estética cubista seu talento artístico se manifestou muito cedo. Natural de Recife, aos 12 anos ele foi para a Europa estudar pintura e aos 14 já participava do Salão dos Independentes, em Paris.
Voltou ao Brasil em 1917 e m 1922, participou da Semana de arte Moderna com dez trabalhos depois disso, sua vida alterou-se entre a fraca e o Brasil, na França, suas obras foram muito apreciadas, recebendo criticas favoráveis ou sendo adquiridas par o acervo de importantes museus franceses.
Entre as tendências artísticas que o influenciaram a obra de Vicente do Rego Monteiro está sem dúvida, o Cubismo, que foi trabalhado pelo pintor de um modo muito próprio. Exemplos disso são as telas de temas religiosos: como a Crucifixão, Fragelo e Pietá. Nessas obras predominam as linhas retas e o corpo humano é reduzido a formas geométricas, o que sugere ao espectador a percepção de volumes. Esse artista interessou-se muito pelos temas que envolviam os mitos indígenas brasileiros com os quais fez uma série de aquarelas que expôs no Rio de Janeiro em 1921.

FUTURISMO

Posted by Profº Monteiro on fevereiro 12, 2014
Obra do futurismo
Quadro de Umberto Boccioni - Obra do futurismo
Futurismo é o movimento literário artístico surgido na Europa, na primeira década do séc XX.
O futurismo reivindicava uma ruptura com o passado, buscando novas formas, assuntos e estilo, que melhor representaria a modernidade, era das máquinas, aeroplanos, fábricas e da velocidade.
O lema central era "liberdade para a palavra" e, neste sentido, afirmava o manifesto: "destruir a sintaxe". Pretendiam defender o uso do verbo no infinito e abolir advérbios e adjetivos, assim, acompanhar cada substantivo de outro com função de adjetivo. Pretendiam buscar analogia cada vez mais simples e suprimir a pontuação.
Nas artes plásticas procuravam obter a máxima desordem abolindo o lado psicológico. Exaltou o culto ao perigo e na velocidade encontrou a sua melhor expressão.
" Declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu com uma beleza nova - a velocidade"
O movimento atingiu o campo político pregando o nacionalismo, violência e a prática da guerra que na Itália levou base ao fascismo.
Foi um movimento forte, com grandes pretensões, pois queria atingir diversas artes (música, pintura, dança, poesia, teatro e cinema).
No Brasil, o futurismo se iniciou com a semana de arte moderna reunião artistas modernistas no Brasil (sic)*, no qual houve exposições, debates, declamações, et coetera.
Desta semana, difundiu se os ideais da vanguarda de origem européia originando o modernismo brasileiro.
Naturalmente os movimentos de vanguarda declinaram enfim todo o rebuliço, renovação repentinas se apagaram .

Modernismo no Brasil - Segunda Fase

Posted by Profº Monteiro on fevereiro 11, 2014

Em 1930, tem início os quinze anos da ditadura de Getúlio Vargas. Com o objetivo de obter apoio junto ás massas, Getúlio toma uma série de medidas: o país é dotado de uma legislação trabalhista e previdenciária, decreta-se o salário mínimo e adotam-se providências para a criação de um partido trabalhista.
Em 1945, é decretada a anistia para os presos políticos e são convocadas eleições para dezembro. Porém, as suspeitas de um novo golpe getulista, naquele ano, provocam o descontentamento dos militares, que, num movimento liderado pelo general Góis Monteiro, depõem o ditador.

Poesia
Nas décadas de 30 e 40, a poesia brasileira vive um dos melhores dos seus momentos. Trata-se de um período de maturidade e alargamento das conquistas dos modernistas da Primeira Geração. Maturidade, porque já não a necessidade de escandalizar os meios culturais e acadêmicos. Sem radicalismos e excessos, os poetas sentem-se à vontade tanto para escrever um poema como versos livres quanto para fazer um soneto.
A geração de 30 e 45, voltam-se para questões universais do homem e para os problemas da sociedade capitalista.
Em Vinícius de Moraes, a temática universalizante também estará presente, embora suplantada por uma poesia personalista.

Vinicius de Moraes
Completa o grupo dos principais poetas da geração do modernismo brasileiro.
Poeta espiritualista, desenvolve uma poesia intimista e reflexiva, de profunda sensibilidade feminina, reforça a tendência de sua geração. Contudo, a sua obra trilha caminhos próprios, caminha cada vez mais para uma percepção material da vida, do amor e da mulher.. Partindo de uma poesia religiosa e idealizante, chega a ser um dos poetas mais sensuais de nossa literatura.
Marcus Vinícius Mello de Moraes nasceu na Gávea, Guanabara no dia 19 de outubro de 1913. Nasce, em meio a forte temporal, na madrugada, no antigo nº 114 (casa já demolida) da rua Lopes Quintas, na Gávea, ao lado da chácara de seu avô materno, Antônio Burlamaqui dos Santos Cruz. São seus pais d. Lydia Cruz de Moraes e Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, este, sobrinho do poeta, cronista e folclorista Mello Moraes Filho e neto do historiador Alexandre José de Mello Moraes.
1924 Inicia o Curso Secundário no Colégio Santo Inácio, na rua São Clemente.
Começa a cantar no coro do colégio, durante a missa de domingo. Liga-se de grande amizade a seus colegas Moacyr Veloso Cardoso de Oliveira e Renato Pompéia da Fonseca Guimarães, este, sobrinho de Raul Pompéia, com os quais escreve o "épico" escolar, em dez cantos, de inspiração camoniana: os acadêmicos. A partir daí participa sempre das festividades escolares de encerramento do ano letivo, seja cantando, seja atuando nas peças infantis.

Cronologia da Vida e da Obra
1927
Conhece e torna-se amigos dos irmãos Paulo e Haroldo Tapajoz, com os quais começa a compor. Com eles, e alguns colegas do Colégio Santo Inácio, forma um pequeno conjunto musical que atua em festinhas, em casa de famílias conhecidas
1928
Compõe, com os irmãos Tapajoz, "Loura ou morena" e "Canção da noite", que têm grande sucesso popular.
Por essa época, namora invariavelmente todas as amigas de sua irmã Laetitia.

1929
Bacharela-se em Letras, no Santo Inácio.

1930
Entra para a faculdade de Direito da rua do Catete, sem vocação especial.

1931
Entra para o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR).

1933
Forma-se em Direito e termina o Curso de Oficial de Reserva.

1935
Publica Forma e exegese, com o qual ganha o prêmio Felipe d’Oliveira.

1936
Publica, em separata, o poema "Ariana, a mulher".
Substitui Prudente de Morais Neto, como representante do Ministério da Educação junto à Censura Cinematográfica.
Conhece Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, dos quais se torna amigo.

1938
Publica novos poemas e é agraciado com a primeira bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford (Magdalen College), para onde parte em agosto do mesmo ano.
Funciona como assistente do programa brasileiro da BBC.

1939
Casa-se por procuração com Beatriz Azevedo de Mello.
Regressa da Inglaterra em fins do mesmo ano, devido à eclosão da II Grande Guerra. Em Lisboa encontra seu amigo Oswald de Andrade com quem viaja para o Brasil.

1940
Nasce sua primeira filha, Susana.

1941
Começa a fazer jornalismo em A Manhã, como crítico cinematográfico e a colaborar no Suplemento Literário

1942
Inicia seu debate sobre cinema silencioso e cinema sonoro, a favor do primeiro, com Ribeiro Couto, e em seguida com a maioria dos escritores brasileiros mais em voga, e do qual participam Orson Welles e madame Falconetti.
Nasce seu filho Pedro.
A convite do então prefeito Juscelino Kubitschek, chefia uma caravana de escritores brasileiros a Belo Horizonte,

1943
Publica suas Cinco elegias, em edição mandada fazer por Manuel Bandeira, Aníbal Machado e Otávio de Faria.
Ingressa, por concurso, na carreira diplomática.

1944
Dirige o Suplemento Literário de O Jornal

1945
Colabora em vários jornais e revistas, como articulista e crítico de cinema.
Faz amizade com o poeta Pablo Neruda. Faz crônicas diárias para o jornal Diretrizes.

1946
Parte para Los Angeles, como vice-cônsul, em seu primeiro posto diplomático. Ali permanece por cinco anos sem voltar ao Brasil.
Publica em edição de luxo, ilustrada por Carlos Leão, seu livro, Poemas, sonetos e baladas

1947
Em Los angeles, estuda cinema com Orson Welles e Gregg Toland. Lança, com Alex Viany, a revista Film.

1951
Casa-se pela segunda vez com Lila Maria Esquerdo e Bôscoli. Começa a colaborar no jornal Última Hora, a convite de Samuel Wainer, como cronista diário e posteriormente crítico de cinema.

1953
Nasce sua filha Georgiana.
Colabora no tablóide semanário Flan, de Última Hora. Compõe seu primeiro samba, música e letra, "Quando tú passas por mim". Faz crônicas diárias para o jornal A Vanguarda, a convite de Joel Silveira. Parte para Paris como segundo secretário de Embaixada.

1954
Sai a primeira edição de sua Antologia Poética. A revista Anhembi publica sua peça Orfeu da Conceição, premiada no concurso de teatro do IV Centenário do Estado de São Paulo.

1955
Compões em Paris uma série de canções de câmara com o maestro Cláudio Santoro. Começa a trabalhar para o produtor Sasha Gordine, no roteiro do filme Orfeu Negro. No fim do ano vem com ele ao Brasil, por uma curta estada, para conseguir financiamento para a produção da película, o que não consegue, regressando em fins de dezembro a Paris.


1956
Volta ao Brasil em gozo de licença-prêmio.
Nasce sua terceira filha, Luciana.
Colabora no quinzenário Para Todos a convite de seu amigo Jorge amado, em cujo primeiro número publica o poema "O operário em construção".
Paralelamente aos trabalhos da produção do filme Orfeu Negro, tem o ensejo de encenar sua peça Orfeu da Conceição, no Teatro Municipal, que aparece também em edição comemorativa de luxo.

1958
Sofre um grave acidente de automóvel. Casa-se com Maria Lúcia Proença. Parte para Montevidéu. Sai o LP Canção do Amor Demais, de músicas suas com Antônio Carlos Jobim, cantadas por Elizete Cardoso. No disco ouve-se, pela primeira vez, a batida da bossa novas, no violão de João Gilberto, que acompanha acantora em algumas faixas, entre as quais o samba "Chega de Saudade", considerado o marco inicial do movimento.

1959
Sai o Lp Por Toda Minha Vida, de canções suas com Jobim, pela cantora Lenita Bruno.
O filme Orfeu negro ganha a Palme d’Or do Festival de Cannes e o Oscar, de Hollywood, como melhor filme estrangeiro do ano.
Aparece o seu livro Novos poemas II.
Casa-se sua filha Susana.

1961
Começa a compor com Carlos Lira e Pixinguinha.

1962
Começa a compor com Baden Powell, dando inicio à série de afro-sambas, entre os quais, "Berimbau" e "Canto de Ossanha".
Compõe, com música de Carlos Lyra, as canções de sua comédia-musicada Pobre menina rica.


1963
Começa a compor com Edu Lobo.
Casa-se com Nelita Abreu Rocha e parte em posto para Paris, na delegação do Brasil junto a UNESCO.

1969
É exonerado do Itamaraty. Casa-se com Cristina Gurjão.

1973
Publica "A Pablo Neruda".

1976
Escreve as letras de "Deus lhe pague", em parceria com Edu Lobo.
Casa-se com Marta Rodrihues Santamaria.

1978
Excursiona pela Europa com Toquinho.
Casa-se com Gilda de Queirós Mattoso, que conhecera em Paris.

1980
É operado a 17 de abril, para a instalação de um dreno cerebral.
Morre, na manhão de 9 de julho, de edema pulmonar, em sua casa, na Gávea, em companhia de Toquinho e de sua última mulher.
Extraviam-se os originais de seu livro O dever e o haver.
Poesia
Características
A poesia : da transcendência espiritual ao amor sensual
Como poeta, Vinícius situa-se entre o grupo de poetas religiosos que se formou no Rio de Janeiro entre os anos 30-40. Quando publicou sua Antologia poética, em 1955, Vinícius de Moraes advertiu que sua obra consistia de duas fases “ A primeira , transcendental, freqüentemente mística, resultante de sua fase cristã, termina com o poema “Ariana, a mulher”, editado em 1936”. Na segunda fase “ estão nitidamente marcados os movimentos de aproximação do mundo material, com difícil mas consistente repulsa ao idealismo dos primeiros anos”.
Temas específicos: espiritualidade; amor platônico; amor real; a mulher; a sensualidade.

1ª Fase Místico - Religiosa
A exemplo de outros poetas de suas geração, a primeira fase da poesia de Vinícius é marcada pela preocupação religiosa, pela angústia existencial diante da condição humana e pelo desejo de superar, por meio da transcendência mística, as sensações de pecado, culpa e desconsolo que a vida terrena lhe oferecia. De Versos mais longos e melancólicos.
Compreendem os livros:
O caminho para a distância (1933);
Forma e exegese (1935);
Ariana, mulher (1936);
Novos poemas (1938);
Cinco elegias (1943) livro de transição.
Em O caminho para a distância, o poeta manifesta sua preocupação religiosa e sua angústia diante do mundo , revelando também o seu conflito entre o sensualismo e o sentimento religiosa. O amor é tido como um elemento negativo que, ligando-o ao mundo terreno, impede a libertação do espírito. O livro guarda um tom adolescente e as imagens não têm o vigor que alcançariam mais tarde. Trata-se de uma obra imatura.
A partir de Forma e exegese, os versos ganham liberdade expressiva e tornam-se mais extensos. O poeta volta-se para o cotidiano, sem contudo abandonar o desejo de transcendência. A mulher torna-se figura central de sua poesia - mas ainda envolta por um forte misticismo, que contribui para a sua caracterização como um ser divinizado - ,o poeta procura harmonizar sensualismo e erotismo com os apelos espirituais.
O tom declamatório e os versos longos, que nos lembram versículos bíblicos, mantêm o poeta ainda distante das conquistas expressivas mais modernas. Essa primeira fase, segundo o próprio Vinícius, termina com Ariana, a mulher. Cinco elegias seria o livro de transição.
Os poemas dessa fase geralmente são longos, com versos igualmente longos, em linguagem abstrata, alegórica e declamatória. Observe:
No sangue e na lama
O corpo sem vida tomou.
Mas nos olhos d homem caido
Havia ainda a luz do sacrifício que redime
E no grande Espírito que adejava o mar e o monte
Mil vozes clamavam que a vitoria do homem forte tombado na luta
Era novo Evangelho para o homem da paz que larva no campo.

2ª Fase de Encontro com o Mundo Material e Cotidiano
Cinco elegias (1943) é a obra que marca, na poesia de Vinícius, a passagem para uma fase de proximidade maior com o mundo material. O poeta passa a interessar-se por temas cotidianos, pelas coisas simples da vida e explora com sensualismo os temas do amor e da mulher. A linguagem também tende à simplicidade o verso livre passa a ser mais empregado, a comunicação torna-se mais direta e dinâmica.
Pode-se dizer que pela primeira vez, Vinícius de Moraes adere às propostas dos modernistas de 22, apesar de sempre terem feito parte de sua poesia certa dicção clássica e o gosto pelo soneto. Contudo, em suas mãos, o soneto ganha roupagem diferente, mais moderna e real, fazendo uso do vocábulo do cotidiano, pouco comuns nesse tipo de composição. É o caso, por exemplo deste soneto, em que o erotismo é recriado a partir de uma forma clássica e de uma linguagem crua e direta:

Soneto de devoção
Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica em meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.
Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria
Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.
Essa mulher é um mundo! - uma cadela
Talvez... - mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela.
A partir de Poemas, sonetos e baladas, dá-se a superação da angústia e da melancolia; o poeta integra-se à realidade, e sua poesia adquire um ritmo mais tranqüilo e uma expressão mais coloquial, exulta, simples e direta. Nessa fase, sua temática ganha novas características universalizantes e sociais. O poema “O operário em Construção” (1956) é o que melhor exempligfica essa preocupação; por meio de uma linguagem simples e direta, quase didática, o poeta manifesta solidariedade às classes oprimidas e almeja atingir a consciência daqueles que o lêem ou ouvem.
São desse período a Antologia poética (1955), o Livro dos sonetos (1957) e Novos poemas II (1959), que traz o poema "Receita de mulher". Na década de 1960 publicou mais três livros: Procura-se uma rosa, Para viver um grande amor (ambos de 1962) e Para uma menina com uma flor (1966), de crônicas. A Arca de Noé (1970) é um livro de poesia para crianças.
Poeta lírico por excelência, em sua segunda fase, Vinícius alia temas modernos à mais apurada forma clássica de composição, o soneto, deixando-nos obras primas, como o poema abaixo:

Soneto de Fidelidade
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Deste ultimo Vinícius, poeta sensual e social, para o cantor e compositor Vinícius é um passo. A partir dos anos 60 afasta-se da poesia e entrega-se de corpo alma à música.
Se a poesia brasileira perdeu para a música popular um grande talento que ainda poderia deixar novas contribuições, não se sabe.
Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas.
Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.
(Entrevista a Clarice Lispector)

Música popular
O interesse de Vinícius pela música data de 1927, quando começou a compor com Paulo e Haroldo Tapajós, mas só se firmou a partir da década de 1950. Em 1956 António Carlos Jobim (Tom Jobim) musicou sua peça Orfeu da Conceição, premiada no concurso de teatro do IV Centenário de São Paulo. Montada no mesmo ano no Rio de Janeiro, a peça ajudou a popularizar composições de Tom e Vinícius, como Se todos fossem iguais a você. A versão cinematográfica Orphée noir (Orfeu do carnaval, de Marcel Camus, ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 1959 e o Oscar de melhor filme estrangeiro.
Cada vez mais voltado para a música, escreveu letras para músicas inéditas de Tom Jobim, como Lamento do morro e Mulher, sempre mulher, gravadas em 1956. Dois anos depois, o disco Canção do amor demais, de Elizete Cardoso, com canções de Tom e Vinícius, marcou o início da bossa nova. Em 1961, no Teatro Santa Rosa, no Rio de Janeiro, estreou sua peça Procura-se uma rosa. No mesmo ano, Vinícius conheceu Carlos Lira, seu parceiro em Minha namorada (1964) e outras canções. A parceria com o violonista Baden Powell, a partir de 1962, rendeu mais de cinqüenta músicas, entre elas sucessos como Berimbau e Samba em prelúdio. Com Pixinguinha, Vinícius fez a música do filme Sol sobre a lama (1962), de Alex Viany, e com Francis Hime compôs, entre outras canções, Sem mais adeus (1963).
O maior sucesso de Vinícius foi Garota de Ipanema (1963), em parceria com Tom Jobim. Em 1965, Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius, venceu o I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior. Edu seria seu parceiro em outro sucesso, Canção do amanhecer. Seu último parceiro, a partir de 1970, foi o violonista Toquinho (Antonio Pecci Filho), com quem compôs Morena flor, Tarde em Itapoan, Essa menina etc. Vinícius também fez música para poemas seus, como Serenata do adeus e Medo de amar. Vinícius de Morais morreu no Rio de Janeiro, em 9 de julho de 1980.

Crítica de cinema
Creio no Cinema, arte muda, filha da Imagem, elemento original de poesia e plástica infinitas, célula simples de duração efêmera e livremente multiplicável. Creio no Cinema, meio de expressão total em seu poder transmissor e sua capacidade de emoção, possuidor de uma forma própria que lhe é imanente e que, contendo todas as outras, nada lhes deve. Creio no Cinema puro, branco e preto, linguagem universal de alto valor sugestivo, rico na liberalidade e poder de evocação."

Vinicius de Moraes
No início dos anos 40, o já destacado poeta e escritor Vinicius de Moraes assumiu o cargo de crítico de cinema do jornal A Manhã, passando depois para o Última Hora e por outras publicações. Com humor inteligente e a visão poética que lhe é peculiar, ele acompanhou pelas décadas seguintes o crescimento da popularidade dessa arte e de artistas como Marilyn Monroe, Marcello Mastroianni, Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, James Stewart, Grace Kelly e uma constelação de estrelas que desfilavam por filmes antológicos. Sem se limitar ao que via na tela, mergulhou pelos bastidores, analisando o trabalho de diretores como Orson Welles, Alfred Hitchcock, Vitorio De Sica, François Truffaut e Billy Wilder, entre muitos outros.
Vinicius reportou o surgimento de mitos e descreveu a formação da identidade do cinema moderno. Dessas observações foram selecionadas uma série de críticas cinematográficas e crônicas, especialmente entre 1940 e 1959. Confira alguns deliciosos artigos de Vinicius sobre a sétima arte em sua Era de Ouro.
O certo é que Vinícius, como nenhum outro, foi o poeta mais conhecido e amado do público brasileiro, aquele que levou às rodas de bar, aos teatros e ao rádio composições de requinte literário.

Jornalismo Literário

Posted by Profº Monteiro on fevereiro 10, 2014

As chamadas grandes reportagens mesclam características da narrativa literária, da história e do texto jornalístico. Elas fazem parte do jornalismo literário. Livros como Rota 66, de Caco Barcellos, filmes como Todos os homens do presidente e especiais televisivos como Globo Repórter, inserem o público em um mundo muitas vezes desconhecido, temido ou distante; contam a história de maneira romanceada, quase lúdica em alguns casos, prendendo a atenção e distanciando-se dos padrões de jornalismo aos quais estamos acostumados.
Em 1960 os Estados Unidos observaram o surgimento de uma nova maneira de fazer jornalismo. Cansados das matérias desinteressantes e factuais, os jornalistas decidem sair de suas redações e inovar, apurar a fundo um fato, fazer muitas entrevistas, pesquisar em arquivos, percorrer grandes distâncias, levantar dados, “imergir” na história e narrá-la com o uso de recursos e ferramentas da ficção. A grande reportagem pode explicitar em seu conteúdo as impressões de quem a fez e da mesma forma que fazemos ao relatar para amigos como foi à última viagem que fizemos; ou seja, quais foram nossas impressões sobre as pessoas e o lugar visitado, o que lá aconteceu, etc. 
Também no Brasil tivemos repórteres dispostos a quebrar antigas regras e “mergulhar” em tempo integral em suas matérias. A produção dessa “dualidade” do jornalismo e todos os seus desdobramentos culturais é importante tanto para o dia-a-dia quanto para o futuro, uma vez que denunciam ou tornam públicos acontecimentos contemporâneos, como é  o caso das reportagens sobre as drogas feitas por Tim Lopes, que foi assassinado de maneira brutal por traficantes em 2002, ou como uma descrição detalhada de acontecimentos relevantes da nossa história.
Nos dias de hoje, principalmente no Brasil, esse ramo do jornalismo vem se minguando e, quando respira, restringe-se à mídia televisiva. Essas matérias ocupam muito espaço, um espaço redacional cada vez mais rarefeito em todos os grandes jornais, e há cada vez menos repórteres dispostos a encarar o desafio de entrar de cabeça num só assunto, esquecer tudo o mais para, no fim, ter o prazer de contar uma boa história.

O Auto da Barca do Inferno

Posted by Profº Monteiro on fevereiro 10, 2014

Análise e resumo da obra
O nobre pescador
Estavam o Diabo e seu companheiro a arrumar a barca que transportaria os condenados ao fogo do inferno. Os dois estavam colocando várias bandeiras e fazendo os últimos preparativos para a triste viagem , muito satisfeitos com a arrumação , quando vêem chegar à embarcação um fidalgo , acompanhado de um pajem , que lhe segurava o manto , e carregando uma cadeira de encostar. Este fidalgo tinha por nome Dom Henrique. Ele se dirigiu ao Diabo , querendo saber para onde ia uma barca tão enfeitada. O Diabo fingiu surpresa ao vê-lo chegar , pois , na verdade já sabia que ele iria naquela barca , já que o fidalgo tinha sido um homem muito vaidoso e presunçoso em vida.
Então , o barqueiro infernal respondeu ao nobre que a barca iria para o fogo do inferno.
O fidalgo duvidou do que lhe foi dito , mas ficou muito espantado quando soube que ele também iria na barca infernal. Ele tentou se salvar, dizendo que deixou na terra uma mulher desesperada , que queria se matar por ele.
O Diabo , irônico , disse que ele era um verdadeiro tolo por acreditar na mulher , e ainda completou dizendo que , no momento em que o nobre morria , ela já estaria com outro.

O fidalgo ainda recusou -se a entrar na barca do Diabo , e foi tentar encontrar um lugar na barca do Anjo , que era a barca que ia para o Paraíso.
Chegando lá ,o fidalgo começou a gritar e a bater palmas , esperando ser atendido , mas ficou muito indignado com a demora pois julgava- se muito importante para ser ignorado.
De repente , apareceu o Anjo , e lhe perguntou o que ele desejava. O fidalgo rogou que o deixassem ir na barca do Paraíso , apelando ainda para sua condição de nobre , esperando atingir seu objetivo com esses argumentos.
Mas o Anjo disse que , para um "senhor tão nobre" como o fidalgo, aquela barca era muito pequena para tanta vaidade .O fidalgo então voltou para a barca do Diabo , furioso , mas por fim aceitou seu triste destino.
O agiota
Enquanto o fidalgo se lamentava , chegou à barca um agiota , carregando uma enorme bolsa de dinheiro , e querendo saber para onde ia a barca. Quando o Diabo o viu ali , tornou a fingir surpresa , chamando o agiota de "seu parente " , e comentando o atraso dele. O agiota , então , explicou que , por ele, "se atrasaria" mais , já que morrera bem na época de receber seus lucros.
O Diabo perguntou-lhe se nem o dinheiro o salvara da morte , com um tom irônico. Completando , mandou que o agiota entrasse logo na barca , ao que o recém chegado ficou desconfiado , e perguntou novamente o destino da barca. Indagou também se partiriam logo.
O Diabo se prontificou a responder que a barca iria para o fogo do inferno. Foi o suficiente para que o agiota dissesse um sonoro "não" , e se dirigisse à barca do Anjo sem demora.
Lá chegando , perguntou ao barqueiro dos Céus se poderia ir com ele . O Anjo se recusou a levá -lo , alegando que sua bolsa de dinheiro ocuparia todo o espaço da barca. O agiota jurava que vinha sem nada , mas o barqueiro ainda se recusava a levá -lo , porque , em vida , ele havia sido muito materialista e ganancioso , não poderia ir ao Paraíso.
Tentando resolver o problema , o agiota voltou à barca do Inferno , pedindo ao Demônio que o deixasse voltar ao mundo para trazer todo o dinheiro que lá deixara , acreditando ter sido essa a razão pela qual o Anjo tê-lo recusado na barca celestial , mas também este pedido lhe foi negado. O agiota ainda pediu e pediu , mas , vendo que não adiantava , entrou na barca infernal para aguardar a partida.
Ele se espantou muito ao ver o fidalgo Dom Henrique ali também , condenado. Viu que não era o único pecador.
João , o tolo
Enquanto o agiota conversava com o fidalgo , apareceu diante da barca um homem com ar apatetado , um tolo que tinha por nome João .
João , o tolo , nem bem havia chegado , perguntou ao Diabo se aquela era a barca dos tolos e para onde ia. O barqueiro do inferno respondeu-lhe que aquela barca era , sim , a dos tolos, cínico , e que estava de partida para o porto infernal.
Ao ouvir aquilo , o tolo João começou a proferir insultos contra o Diabo , e cada um mais absurdo e sem sentido do que o outro. Dirigiu- se ,então, à barca do Anjo. Quando perguntado quem ele era , respondeu , humildemente , que não era ninguém. Após ouvir o que o tolo disse , o Anjo deu -lhe a permissão de entrar na barca , dizendo que , de tudo o que ele fizera em vida , nada teve maldade , e que sua simplicidade já lhe bastava.
O tolo entrou na barca , e permaneceu ao lado do Anjo , com a intenção de avaliar todas as pessoas que chegavam , para ver se alguma delas tinha méritos para ir ao Céu.
O sapateiro ladrão
Carregado de todos os seus utensílios de trabalho , chegou na barca um sapateiro , que perguntou ao Demônio qual era seu destino. Este , então , ironizou mais uma vez , comentando como o sapateiro era honrado e como vinha carregado. Respondeu -lhe , então , que a barca ia ao cais infernal , ao que o outro , indignado , perguntou para onde iriam os que haviam comungado e confessado , como ele , o que era uma grande mentira.
O barqueiro do inferno confirmou que aquela mesmo era a barca do sapateiro , que voltou a mentir ,dizendo que , antes de morrer ,havia se confessado.
O Diabo o desmentiu , dizendo que bem sabia de todo o dinheiro que ele roubara do povo com seus serviços de sapataria. O ladrão continuou tentando encontrar motivos que o livrassem de tão horrorosa viagem , mas nada adiantava.
Como continuava a recusar o inferno , dirigiu- se à barca do Anjo , mas lá não conseguiu sua vaga , pois quem roubou tão descaradamente , no Paraíso não merecia lugar.
Por fim , o sapateiro , sem ver outra saída , voltou ao Diabo , entrou na barca e pediu que não perdessem mais tempo com ele.
O padre
Embarcado o sapateiro , chegou à embarcação um padre , acompanhado de uma mulher , portando um escudo e uma espada.
Sem dúvida , era uma padre pecador.
O Diabo , vendo aquele padre acompanhado por uma mulher , começou a rir , e perguntou a ele se , no convento onde ele vivia , nunca lhe perguntaram sobre sua vida nada celibatária . O padre , muito alegre , respondeu que ele não era o único pecador na Igreja , e perguntou para onde ia a barca , sem desconfiar que ela ia para o inferno. Porém ,quando soube , ficou muito desorientado , pois julgava que só pelo fato de ser padre , já estaria livre de todo o mal.
O Diabo ordenou -lhe que entrasse na barca , ao que o padre recusou .
O barqueiro do inferno então percebeu que o padre tinha com ele uma espada e um escudo. Concluiu que ele praticava esgrima , um esporte proibido para os padres , portanto , outro pecado. Pediu ao padre que lhe desse uma lição de esgrima , pedido que foi aceito com entusiasmo. E começaram a esgrimir .
Acabada a lição , o padre foi até a barca do Anjo , acreditando que lá iria conseguir lugar. Estava enganado. Não pôde entrar porque pecara , tendo uma mulher , e ainda praticando um esporte proibido . Finalmente , aceitou ir com o Diabo para o inferno.
A prostituta mentirosa
Assim que o padre embarcou , chegou à barca a prostituta Brísida Vaz . Quando o Diabo lhe pediu que entrasse em sua barca infernal , ela retrucou , dizendo que aquela não era a barca que procurava. O Diabo lhe perguntou o que ela trazia da vida ,ao que Brísida contou que trazia a sua experiência na prostituição , as moças que ela vendera , suas mentiras e seus feitiços , pois além de prostituta ,ela era também feiticeira.
Ela ainda afirmou que sua maior bagagem se constituía das moças que ela vendeu. Ouvindo tantos pecados , o Diabo ordenou -lhe sem demora que subisse na barca. Brísida se negou a entrar , dizendo que merecia o Paraíso , já que ,em sua vida , suportara tantos tormentos e castigos , que convertera ao bem várias moças , como se fosse uma santa. E foi- se à barca do Anjo pedir ajuda.
Mas de nada adiantou-lhe dizer ao Anjo que ela criava as moças para os padres , e que por obra dela , nenhuma moça se perdeu na vida. O Anjo não queria levá -la . Brísida então reclamou que ,sendo assim , não lhe foi útil tudo o que fizera. As mentiras que ela contou ao Anjo de nada valeram. Voltou , então , à barca do Diabo e lá embarcou.
O judeu que ninguém queria levar.
Estando Brísida embarcada, chegou um judeu, carregando um bode nas costas. O judeu perguntou se poderia embarcar na barca do Diabo , nem que tivesse de pagar para entrar. O Diabo perguntou se o bode iria também, o judeu disse que sim ,que sem seu bode não iria. Porém, nem mesmo o Diabo quis levar o judeu , de tão ruim que ele foi em vida , mandando -o à barca do Anjo . Nem bem lá chegou o judeu , e João , o tolo ,que lá estava , não o deixou embarcar , dizendo que ele era um pecador , um homem mau , desqualificado. Ninguém queria levar o judeu e seu bode , mas o Diabo acabou concordando em levá-lo , ainda que a reboque. E o judeu foi embarcado junto com o bode.
O juiz corrupto
Embarcado o judeu , chegou à barca do inferno um juiz , carregado de processos. O juiz perguntou ao Diabo para onde ia a barca , ao que o Diabo rebateu , perguntando , cinicamente , mais uma vez , "como andava o direito" .
Disse então que a barca ia para o inferno ,e que o juiz deveria entrar. De forma alguma o juiz quis entrar , porque acreditava que , ao trabalhar com as leis , não poderia ser um pecador. O Diabo acusou o juiz de aceitar suborno ,só atendendo às pessoas que lhe pagavam mais ,e sendo muito injusto ,agindo assim. O juiz mentiu que sua mulher era quem aceitava os subornos ,mas o Diabo ordenou-lhe que entrasse na barca sem demora. Ainda disse que o papel dos processos seria um ótimo combustível para o fogo do inferno.
O procurador
Estavam o Diabo e o juiz nessa discussão , quando chegou um procurador , carregado de livros , que se dirigiu ao juiz ,seu conhecido , querendo saber o que o Diabo dizia. Este entrou na conversa e disse que , tanto o juiz como o procurador seriam ótimos remadores rumo ao inferno.
O procurador achou que aquilo era uma brincadeira de muito mau gosto , e então ele e o juiz foram até a barca do Anjo. A caminho da barca celestial , o juiz disse ao procurador que ,antes de morrer , havia se confessado , mas não confessara tudo o que já havia roubado em vida.
Ao chegarem ao Anjo e pedirem lugar na barca, tudo o que ouviram foram insultos do Anjo e de João , o tolo , reforçando o vexame. Voltaram à barca do Diabo , muito aborrecidos . O procurador ainda tentou consultar as leis ,mas o Diabo os mandou entrar antes que isso fosse possível. E embarcaram.
O enforcado
Nisso, chegou à barca do inferno um homem que morrera enforcado , e mal chegou , já ouviu a ordem do Diabo para que entrasse na embarcação . O enforcado se espantou muito , pois, antes de ser executado , lhe disseram que , por morrer na forca, merecia ir ao Céu. O Diabo então lhe perguntou se não haviam lhe falado no purgatório , se o enforcado não fizera confusão , ao que ele respondeu que não.
O Diabo o mandou novamente entrar na barca , mas , como esta já estava tão cheia , acabou por deixar o enforcado ir para onde bem quisesse , sendo que não cabia mais nenhum passageiro na embarcação. E o enforcado foi embora.
Os Quatro Cavaleiros
Assim que o enforcado se foi, passaram em frente à barca do Diabo, quatro cavaleiros, carregando uma cruz de Cristo. Nem bem os viu chegar, o barqueiro do inferno perguntou quem eles eram. Um deles respondeu que eram cavaleiros que morreram lutando. O Diabo ordena que todos entrem, mas prontamente eles se recusam, dizendo que , quem morre defendendo o cristianismo e a Igreja Católica, não iria jamais ao porto infernal. E seguiram caminho até a barca do Anjo, que, ao vê-los, disse que os estava esperando para irem ao Paraíso, livres de todo o mal. E assim, os honrados cavaleiros embarcaram, e as duas barcas, a do inferno e a do céu, partiram.