A Leitura Observada

Posted by Profº Monteiro on setembro 04, 2011

A Leitura Observada
Gabriel Perissé
Doutor em Educação pela FEUSP
Professor da Pós­Graduação do Programa de
Mestrado em Educação da Uninove
Site web : http://www.perisse.com.br
observo o paradoxo do outrossim
e do outronão discuto o anjo e o sexo?
(Haroldo de Campos)
Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra
(Chico Buarque de Hollanda)
A leitura, sempre e de novo
Sobre a leitura nunquam satis (nunca se fala demais), e, praticando­a, já dizia
Sêneca  com relação à  aprendizagem, nunquam  satis discitur,  nunca se aprende o
suficiente. Leitura é infinito aprendizado. Sempre e de novo aprendemos com a própria
leitura que ler é refletir,  apreciar, admirar­se,  sair do quase­conhecido para o melhor­
conhecido.
Leitura  no Brasil, então, é tema sobre o qual nunca se falará demasiado,  pois
ainda poucos são os  nossos  leitores  plenos  em comparação com o número de nossos
habitantes. Podem­se abrir bibliotecas (e muitas deveriam ainda ser abertas, ampliadas,
modernizadas), podem­se realizar campanhas  nacionais incentivando a leitura, podem­
se escrever livros e ensaios sobre o quão importante é ler, mas ninguém consegue (ainda
bem!) obrigar alguém a ler.  E  um número enorme de brasileiros, como muitos de nós
bem sabemos, lêem pouco e lêem mal. Segundo dados da Câmara Brasileira do Livro,
entre a população adulta alfabetizada apenas cerca de 30% realmente gosta de ler e lê
efetivamente.
1
1
A pesquisa “Retrato da leitura no Brasil” realizou­se entre dezembro de 2000 e janeiro de 2001. Os
slides estão disponíveis em:  http://www.crb7.org.br/cursoseventos/retratodaleituranobr.ppt  Acesso em:
14  mai. 2005.6
No início de mais  um texto sobre a leitura,  analisemos  dois  dados  dessa
pesquisa “Retrato da leitura no Brasil”, realizada e divulgada pela CBL. Embora sejam
apenas  números, passíveis  e até diria  carentes  de interpretação adequada e de
contextualização, constituem uma fonte de informação aproveitável.
Diz a pesquisa que 17 milhões de brasileiros declaram não gostar de ler. Sabem
ler, supõe­se, mas não gostam, não encontram prazer no contato com a cultura escrita,
ficam indiferentes  perante a possibilidade de lerem um romance,  um poema etc . Não
sabem saborear uma frase como, por exemplo, esta que tenho à mão — “Todo vivente
forma uma atmosfera em torno de si”.
2
Frase tão genial quanto simples, capaz de abrir
perspectivas de pensamento, de compreensão do mundo.
Quem lê entra em contato com a atmosfera  formada por aquele livro que tem
entre as  mãos. O  livro é,  de certa maneira,  um ser vivente ou, mais  precisamente,
seguindo a  terminologia de Alfonso  López Quintás, o livro torna­se um âmbito,
realidade não redutível a mero objeto.
3
Desta realidade ambital emana uma atmosfera, e
nela  penetrando respiramos novos  ares, alimentamos  nossos “pulmões cerebrais”  (que
não se restringem ao cérebro...)  de idéias, soluções  verbais, sentimentos, imagens. O
não­leitor corre o risco de asfixiar­se intelectual e espiritualmente por falta de contato
com o oxigênio da leitura.
Pensando mais  detidamente,  esses  17 milhões  de brasileiros  (cifra que
corresponde à população da Grande São Paulo, hoje, ou também à atual população do
estado de Minas  Gerais)  não sabem ler,  no sentido existencial da palavra.  Não
compreenderam, ou não tiveram a oportunidade real de aspirar os bons ares de uma boa
leitura,  e se encontram, no meu modo de entender,  numa situação de profunda
precariedade cultural e humana,  embora,  como já nos  alertava  McLuhan,  devamos
lembrar que a cultura  não se restringe ao livro,  manifestando­se nos  meios  de
comunicação em geral, em festas populares, literatura oral etc.
Por outro lado,  a  mesma  pesquisa,  considerando a  população alfabetizada
brasileira maior de 14 anos (86 milhões), revela que nosso consumo de livros per capita
é de 3,87 por habitante/ano.
4
Passamos a maior parte do dia evitando a leitura, ou dela
simplesmente  apartados. Ignoramos  a realidade do livro. Não vemos  os  livros  que
porventura estão ao nosso redor. Não nos embrenhamos diariamente nessas páginas das
quais emana a atmosfera da linguagem viva.
Um insuficiente contato com a “livrosfera”  pode levar uma pessoa a níveis
também insuficientes de autoconhecimento, de expressividade verbal, e de percepção do
que pensam e fazem as outras pessoas. Na livrosfera, é possível libertamo­nos da rotina
e da repetição.  Até o repetitório é dissolvido e transformado por um repertório de
chaves interpretativas, de caminhos  argumentativos, de conceitos  iluminadores. Não
falará  mal da  rotina quem souber desconstruir a  rotina com o olhar “treinado”  pela
leitura.
2
Johann W. GOETHE, Máximas e reflexões,  ponto  47.  No original: “Alles Lebendige bildet  eine
Atmosphäre um sich her.”
3
Todo âmbito é uma  realidade aberta,  relacional, colaboradora.  Para entender o conceito  de âmbito,
leia­se deste autor  o livro Inteligência criativa: descoberta pessoal de valores,  São Paulo: Paulinas,
2004. Outra possibilidade é o meu ensaio O  Objeto e o Âmbito no Pensamento de López Quintás ­
análise do poema­música de Sérgio Bittencourt, em: http://www.hottopos.com/convenit/lq3.htm Acesso
em: 25 ago. 2005.
4
Credite­se esta cifra,  que era menor há duas décadas,  ao recente crescimento  da população
universitária brasileira,  por conta da multiplicação de instituições particulares.  Mal ou bem,  muitos
jovens e adultos precisam hoje ler um pouco mais, por obrigação.7
A imaginação cresce como árvore frondosa  na livrosfera, gerando frutos
saborosos, e às vezes proibidos... O pensamento também frutifica dentro da livrosfera,
e multiplicam­se as  “sementidéias”. A intuição, atividade que supõe uma inteligência
atenta e livre,  floresce na livrosfera. A sensibilidade ética se desenvolve e amadurece
no interior da livrosfera. A memória ganha corpo e conteúdo.
Reflitamos um pouco sobre essas cinco camadas da livrosfera.
A imaginosfera
Pensemos  em Kafka e na sua obra­prima A  metamorfose. Como os  leitores
imaginam o inseto em que Gregor Samsa se transformou? A descrição do autor fornece
elementos  visuais, mas  nos  deixa o trabalho maior de compor a imagem terrível  e
degradante. É bastante significativo que Kafka tenha insistido para que as edições deste
livro nunca  tivessem ilustrações. Não queria  poupar ao leitor a tarefa de desenhar
mentalmente a imagem do “inseto monstruoso”.
A propósito, há uma  interessante questão lingüística/imagética  a destacar.
Leiamos o início do livro, quando deparamos com a metamoforse realizada:
Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos
intranqüilos, encontrou­se em sua cama
metamorfoseado num inseto monstruoso.  Estava
deitado sobre suas  costas  duras  como couraça e,  ao
levantar um pouco a cabeça,  viu seu ventre abaulado,
marrom,  dividido por nervuras  arqueadas, no topo do
qual a coberta,  prestes a deslizar de vez, ainda mal se
sustinha. Suas  numerosas  pernas, lastimavelmente
finas em comparação com o volume do resto do corpo,
tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.
5
Tomando literalmente a narrativa, Gregor transformou­se, da noite para o dia,
num inseto ou,  como já observaram alguns  estudiosos  da  obra de Kafka,  numa
monstruosa sevandija  (a tradução talvez mais aceitável para ungeheueren Ungeziefer,
no original).  O termo,  derivado do nome basco para lagartixa  (sugandilla), conforme
Antônio Houaiss e Aurélio Buarque de Holanda em seus  dicionários, possui uma
elasticidade semântica  que favorece,  e torna mais  complexa,  a tarefa  de imaginar o
protagonista do texto kafkiano.
“Sevandija”,  termo aplicado na zoologia a  todos  os  parasitos  e vermes
imundos, já foi utilizado conotativamente para  designar uma pessoa desprezível que
vive à custa  dos outros  e submete­se a todo o tipo de humilhação.  Em traduções  do
alemão para o inglês, Gregor metamorfoseado é descrito como um monstruoso
“vermin”,  o que pode ser entendido como sevandija ou parasito. O verbo “sevandijar­
se” significa rebaixar­se vergonhosamente, aviltar­se, envilecer­se. É disso que se trata
—  e temos  de entrar na imaginosfera do livro para configurar em nossa mente uma
imagem aviltante o suficiente para  expressar a degradação espiritual a  que chegou
Gregor.
Um coleóptero imundo também parece corresponder à descrição de Kafka. Um
besouro talvez?  Ou poderíamos  arriscar a  imagem de um piolho?  A tendência
5
Franz KAFKA, A metamorfose, p. 7.8
dominante,  porém,  tem sido associar o inseto monstruoso à barata,  que provoca nojo
imediato ao homem urbano.
6
7
Em 2004, a Editora Conrad publicou no Brasil a adaptação do conto kafkiano
para uma história em quadrinhos, a cargo do ilustrador Peter Kuper. O inseto lembra
uma barata, mas se assemelha ao besouro:
8
Mergulhamos  nas  imagens  produzidas  por outros  e por nós  (mesmo
contrariando a recomendação de Kafka...) e nelas nossa função cognitiva ganha novos
horizontes, encarna­se diante de nós. A imaginação tem o poder; é condição necessária
para o conhecimento caminhar no meio da selva de palavras  e conceitos. E  nesse
caminho estabelecer novos encontros com o real. A propósito, Bachelard demonstra em
sua filosofia da imaginação que a razão imaginadora,  abolindo o falso  dilema entre
conhecimento experimental e saber especulativo, torna a ação de imaginar um avanço:
“imaginar é [...] elevar de um tom o real”.
9
Para as mentalidades menos imaginativas,
essa relação entre razão e imaginação parece inimaginável. No entanto,  basta  tentar
imaginar um mundo sem imaginação...  para sentir o quanto a  imaginação é parte
integrante da nossa atividade intelectual!
A imaginação, suave e fortemente,  orienta  a nossa reflexão e é pela reflexão
solicitada. A imaginação participa da criação de novos  sentidos  para antigos
significados e em certa medida constitui uma das melhores provocações para a razão. A
6
Mário da Silva Brito, no aforismo 89 do seu livro Conversa vai, conversa vem, confirma a imagem  em
clave humorística: “— Cuidado! Não pise nessa barata: pode ser o Gregor Samsa!”
7
Esta capa pertence a uma  edição holandesa do livro,  do final  da década de 1980,  mais exatamente
1988. Ver:  http://www.kb.nl/coop/metamorfoze/publicaties/meta_nieuws_7/kafka.jpg Acesso em: 15
mai. 2005.
8
O ilustrador tem um site: http://peterkuper.com/ Acesso em: 19 mai. 2005. Uma apresentação do livro
encontra­se em http://www.randomhouse.com/crown/metamorphosis/ Acesso em: 29 mai. 2005.
9
Gaston BACHELARD, O ar e os sonhos, p. 82. No original: “imaginer c'est donc hausser le réel d'un
ton.”9
imaginação atua em nossa compreensão do mundo.  Uma imagem sintetiza  quase que
espontaneamente um fluxo de idéias, e nos  dá condições  de tomar fôlego e prosseguir
nesse fluxo. A abstração requer imagens, e graças a essas imagens podemos continuar a
abstrair. As imagens constroem pontes entre realidade e arrazoado, entre idéias e idéias,
entre percepções  e palavras, entre palavras  e realidades. A própria imagem das
“pontes”  que acabo de empregar torna  mais  visível e compreensível  o que estou
querendo dizer. Imaginação que nada tem a ver com alucinações, mas desvela os
contornos, as  cores, os  alcances  do saber que sabe a realidade —  dá­lhe,  ao saber,
presença quase tangível.
Cioran escreve:
Como se pode ser filósofo? Como se pode ter a ousadia
de abordar o tempo, a beleza, Deus e todo o resto? O
espírito fica  inchado e saltita sem vergonha.
Metafísica, poesia — impertinências de piolho...
10
O  leitor não pode deixar de imaginar o espírito “inchado”, mesmo que tal
imagem seja impossível, pois  espíritos  não incham como os  corpos. Como poderá o
espírito inchar­se, e inchado saltitar, e saltitar sem vergonha? Saltitar como um piolho?
Ficamos com uma pulga atrás da orelha...
O  espírito se faz  imagem e a imagem torna o espírito inchado mais
compreensível  para o nosso próprio espírito. Sua falta de vergonha  nos  envergonha.
Como ousa o piolho querer alcançar os cabelos luminosos da lua?
E o pensador ri  de si mesmo, e dos  outros  pensadores, e dos  próprios  poetas,
geradores de imagens! Ri do leitor, e o leitor deverá aprender a rir de si mesmo. O leitor
olha  para o piolho em que o poeta  se transformou,  em que o metafísico se
metamorfoseou. O  silogismo é amargo,  a imagem é agressiva,  o texto é contraditório
em sua ironia, e contundente em sua impertinência.
E daí o prazer da leitura ativa, imaginativa. As imagens mentais  são mentiras
que revelam verdades.
11
Lendo,  treinamos  nossa imaginação.  A imaginação é
espontânea,  mas  também pode estar sujeita à nossa  vontade.  Quero imaginar,  e
imagino. Imaginando, expresso­me,  impressiono­me. As  imagens  iluminam o
pensamento. Ou, como Sartre definiu, “a imagem [...] é também pensamento”.
12
10
E. M. CIORAN, Silogismos da amargura, p. 25.
11
Origem etimológica de mentir: mens, palavra latina que significa “inteligência, espírito, alma, razão,
sabedoria, juízo, discernimento, imaginação”. Mentir, portanto, era, sem maniqueísmos, no começo dos
começos, o ato  de usar a mente,  de realizar uma operação intelectual, de exercitar a razão,  de pôr a
imaginação para funcionar.  Justamente (ou injustamente) por causa da imaginação, mentir tornou­se
sinônimo de inventar algo com  o intuito de esconder verdades,  distorcer fatos,  enganar os outros.
Curioso processo em  que um  conceito do bem  se tornou um  verbo do mal... Contudo,  a mente,  em
particular a mente do artista, continua a mentir na clave da verdade e da beleza. Os maiores mentirosos
do mundo, como Shakespeare, como Van Gogh, como Kafka, como Beethoven, criaram mundos irreais
que são mais fiéis à realidade do que a nossa própria noção de realidade. Os seus personagens, as suas
imagens,  os seus sons,  fruto de riquíssima vida mental, revelam  verdades que desmascaram as
verdadeiras mentiras! Como discernir,  em nossa mente,  o que é mentira mentirosa daquilo  que é
mentação transformadora? Como distinguir o alimento  podre do que será sustento para a humanidade?
(Estas reflexões foram  extraídas de um artigo, “Mentir, mentar, mentor”, que publiquei no Correio da
Cidadania, ed.  376, semana de 13/12 a 20/12/2003. Ver em:
http://www.correiocidadania.com.br/ed376/cultura.htm Acesso em: 20 out. 2005.)
12
Jean­Paul SARTRE, A imaginação, p. 85.10
Multiplicam­se as sementidéias
A leitura nos introduz  na esfera do pensamento. Concebemos idéias  enquanto
estamos  lendo ou quando já  fechamos  o livro e abrimos a porta  da rua para  sair em
busca  de outros  ares. O livro pode fechar­se, mas  a mente continua aberta. As idéias
vêm. As idéias se multiplicam. O que é uma idéia?
Ter uma idéia  nos  torna  conscientes  de nosso conhecimento.  Descobrimos,
como dizia Spinoza, que nosso espírito é uma “coisa pensante”. E as idéias, além de nos
fazer conhecer que conhecemos, possuem a capacidade de fecundar a ação,  de
impulsionar as  vontades, de fazer toda a  pessoa vibrar. As idéias  de Rousseau foram
decisivas  para a Revolução Francesa,  em 1789. Fidel Castro,  num discurso
pronunciado em 2001, repetiu o que todos  os líderes  sabem:  “Las  ideas  son y  serán
siempre  el arma más  importante”.
13
Em 1963, em momento agitado da política
brasileira,  Carlos  Lacerda publicou um livro que fez furor: O  poder  das  idéias.
Whitehead,  em seu livro Aventuras  das  idéias,  de 1933,  mostra que a  frase famosa
“cogito,  ergo sum”  deveria ser traduzida  com mais  amplitude —  penso, logo eu me
emociono, fico feliz,  tenho medo,  cultivo esperanças, tomo decisões  etc. Ortega y
Gasset  e muitíssimos  outros  pensadores  destacaram que as  idéias  arrebatam os
corações... e muitos  idealistas  e ideólogos  perderam a  cabeça (no melhor sentido da
expressão, se é que existe) em nome de suas convicções! Na política ou na vida pessoal,
e não só no mundo acadêmico, as idéias demonstram sua fecundidade.
Por isso chamá­las de sementidéias. Da idéia fixa e empedernida dos fanáticos
que geram as  flores  do mal... às  idéias  geniais  que configuram novas realidades; das
idéias  pálidas  de uma vida anêmica às idéias generosas  de uma vida heróica, o fato é
que essa  esfera do pensamento encontra, na leitura,  “combustível”  suficiente para  se
expandir.
As idéias são fecundas porque suscitam desenvolvimentos e realizações (mesmo
que sejam realizações  que desrealizam!). Quando alguém diz que “não faz a menor
idéia”, ou que “teve uma brilhante idéia”, refere­se à impossibilidade ou à possibilidade
de conceber projetos, de estabelecer relações, de esclarecer para si mesmo aspectos  e
facetas da vida.
Lendo, “caem” sementidéias sobre o terreno mais ou menos receptivo da minha
mente. E  começo a mentar.  Mentar é elaborar,  “bolar”,  inventar.  Leio,  releio A
metamorfose de Kafka. Cai uma sementidéia na minha mente. A de que um ser humano
pode chegar a terríveis  níveis  de degradação psicológica  e espiritual por ter sido
encarado como meio de subsistência e não como pessoa pelos  familiares  que tanto
amava. Esta idéia não é nada agradável, à primeira vista, mas traz em si um “toque”,
para usarmos  um carioquismo relativo às  noções  de “alerta”,  “aviso”,  “sugestão” e
“conselho”. “Toque” é talvez mais expressivo porque a palavra, na sua informalidade,
evoca diferentes matizes. Tem a ver com alusões, com insinuações mais ou menos sutis.
Tem a ver com a mão que toca  o ombro de alguém,  para chamar­lhe a atenção
amigavelmente, “dar uma idéia”.
O “toque” de Kafka permite­me olhar para mim mesmo e ver se estou atuando
como mero provedor da família,  ou,  ao contrário,  como alguém que pode e deve
suscitar nos demais membros da casa o desejo de participarem dos esforços na luta pela
sobrevivência.  Os  pais e a irmã de Gregor Samsa,  tão logo o filho “adoeceu”,
13
Discurso “Las ideas son y serán siempre el arma más importante”, pronunciado em Cuba, no dia 2
de dezembro de 2001 (http://www.fut.es/~mpgp/amigos953.htm Acesso em: 20 out. 2005).11
começaram a dar mostras de uma capacidade, até então oculta, para o trabalho e para a
criatividade.
Observo a leitura e a leitura me observa. O texto lê o leitor. Kafka toca a minha
mente,  deposita nela uma ou várias  idéias. Semeia. Insinua  que Gregor Samsa foi
inocente,  por um lado, mas também conivente com o comodismo dos  familiares! Esta
idéia lança raízes em mim.
Leio o livro A  revolução dos  bichos,  de George Orwell. E uma outra idéia  se
insinua... verdade nua? A idéia é a seguinte: o poder é estimulante. Os animais de uma
granja se unem para expulsar o desumano homem tirano. Algum tempo depois, alguns
animais  que se consideram mais animais (ou menos...) do que os demais... assumem o
poder e acabam por trair os ideais que antes haviam abraçado.
Em novembro de 2005, contemplando nos jornais  e tv os  presidentes  Lula e
Bush  lado a lado,  sorridentes, como velhos  amigos, veio­me à memória de modo
espontâneo o desfecho deste livro. Lá estão porcos e homens comemorando uma nova
era.  A Granja do Solar,  que depois  da  revolução passou a chamar­se Granja  dos
Bichos, volta a chamar­se Granja do Solar. A elite dos animais e os humanos fazem um
brinde, comemoram o bom relacionamento.  Do lado de fora,  outros  animais, menos
animais  do que os  de dentro...  não conseguem entender o que está acontecendo.  No
entanto, em dado momento, fez­se a luz:
Não havia dúvida,  agora,  quanto ao que sucedera à
fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de
um porco para  um homem, de um homem para um
porco e de um porco para um homem outra vez; mas já
era impossível distinguir quem era  homem, quem era
porco.
14
A idéia que estava  adormecida em mim desde muito tempo (tive contato com
este livro de Orwell pela primeira  vez aos  14 anos de idade) desperta o meu senso
crítico. Já era impossível distinguir presidente de presidente. Estavam irmanados. Olhei
para um e para outro,  e para o outro e para um outra vez... Talvez tenham discutido
pesadamente nos bastidores. Talvez tenhamos sido poupados das desavenças graças aos
protocolos neutralizantes da diplomacia...
Contudo,  parece que tudo foi marcado pela sinceridade e pela harmonia. Bush
partiu feliz  de sua visita ao parceiro, ao quase aliado latino­americano: “Podemos ter
sentidos políticos diferentes, mas compartilhamos os mesmos objetivos”. Que objetivos?
O  presidente Lula,  por sua  vez,  revelou em entrevista que tudo transcorreu em paz:
“Foi um diálogo muito franco. Não houve nenhum momento de tensão na conversa”.
Na Folha de  S. Paulo,  em 12 de agosto de 2002,  Lula,  ainda presidenciável,
participando do ciclo “Candidatos  na Folha”, afirmara, de maneira truncada mas com
franqueza:  “Eu acho que os  Estados  Unidos  são um país, eu,  por exemplo,  acho que
cada vez  vai ficando mais  provado que Bush  precisa procurar uma outra coisa  para
fazer ao invés de querer ficar fazendo guerra.”
15
Mesmos objetivos? Nenhuma tensão?
Ainda naquela ocasião, quando lhe perguntaram diretamente o que pensava da
grande prepotência,  a resposta foi  potente: “Eu  acho que os  Estados  Unidos  são um
país  que gosta muito de democracia na casa dos  outros, gosta de exigir que os  outros
14
George ORWELL, A revolução dos bichos, p. 117.
15
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u35804.shtml Acesso em: 20 out. 2005.12
façam, mas não cumpre.”
16
Objetivos iguais, ou convergentes? Tudo tranqüilo, nenhum
atrito?
Compreendo que os líderes políticos, em visitas oficiais, devam guardar muitas
de suas idéias  no bolso do paletó impecável,  devam sorrir para as câmeras, caprichar
nos  gestos  bem­educados, apertar as  mãos  um do outro com aquela efusividade
incontida durante tempo suficiente para que todos os  fotógrafos  possam registrar a
cena.  Compreendo,  mas  não consigo engolir a pergunta ingênua:  será tudo tão
harmonioso assim,  tão amigável?  Ou será que o campo das  idéias  não é digno lugar
para o campo das batalhas políticas?
George W. Bush tem suas idéias, que se traduzem em atos e fatos: violência e
atrocidade em larga escala. Certo, seria demasiado esperar que Lula, como uma espécie
de Noam Chomsky, cobrasse bom comportamento do todo­poderoso...
Uma idéia puxa outra...  o poder aproxima entre si os  poderosos. Que
“objetivos” são estes a que Bush se referia? Não me parece, por exemplo, que Lula, três
anos  depois daquelas  suas  declarações  contra o mesmo belicoso  Bush,  compartilhe
agora com o presidente norte­americano o ideário “democrático”  por este defendido
com unhas  e dentes, com armas  e mentiras. Objetivos...  Parece­me que Bush revelou
nas  entrelinhas  o que os iguala.  Não são objetivos  objetivos. São bem subjetivos. Os
que decorrem do ideal do poder e do domínio.  Por isso não haverá tensão entre dois
poderosos,  enquanto um não tente “roubar”  o território do outro.  Ou enquanto seus
acordos, mesmo desvantajosos para um dos lados, preserve para o líder dos dominados
algum posto de honra,  um resto de poder, limitado mas  real.  Concessão dos
dominadores para apaziguar os ânimos do chefe dos dominados...
E  a sementidéia de Orwell soma­se  a uma outra.  Leio em Chomsky —  “a
linguagem humana pode ser usada para informar ou desorientar,  para clarificar os
pensamentos  de uma pessoa,  ou para exibir sua habilidade,  ou simplesmente por
brincadeira”.
17
A linguagem que esconde o que diz. Que, ao dizer, esconde o que diz no
próprio ato de parecer revelar.
Intuição e leitura
Lembro­me de ter assistido a uma palestra ministrada pelo Prof. Ruy Nunes, da
Faculdade de Educação da USP,  em meados  da década de 1980.  O tema era a “vida
racional”  ou algo do gênero.  Fiz­lhe uma pergunta.  Queria  saber como se define
“intuição”. O professor despachou­me com uma resposta racionalista, desqualificando,
por tabela, o filósofo Henri Bergson, que via na intuição um método, e que não estava
presente para defender­se... Naquele momento,  intuí que a  intuição não teria  muitas
chances no mundo do pensamento, a menos que o pensamento acolhesse em sua própria
dinâmica a “pobre” intuição.
Intuir é conhecer de modo imediato o que, para  quem intui,  torna­se algo
evidente,  sem necessidade de provas  ou demonstrações. Evidentemente,  nem tudo é
evidente para todos! A intuição revela,  faz  ver (intueri,  do latim, é ver em
profundidade, descobrir) o óbvio, o que “está na cara”. No entanto, nem sempre vemos
o que está à nossa frente, nem mesmo com os olhos abertos.
16
Ibidem.
17
Noam CHOMSKY, p. 92.13
Quem gosta e pratica o xadrez,  sabe que a intuição pertence aos movimentos
internos no tabuleiro de um jogo tido como “racional”. Muitos lances geniais nascem de
uma visão imediata do jogador. Determinada disposição das peças lhe diz uma coisa, e
ele não hesita.  É  sua  mão que pensa, obedecendo ao impulso  da intuição.  O  Grande
Mestre letão Mikhail Tal (chamado por todos o “Mago de Riga”) não se preocupava em
calcular e prever todas  as  variantes  de uma jogada.  Sua magia consistia em ver com
rapidez.  Seus  acertos  eram brilhantes, inesperados. E  seus  erros, fatais! A intuição é
puro risco.  A visão instantânea salta o tempo do raciocínio passo a passo. Em
compensação,  uma intuição equivocada pode conduzir ao precipício. Não à toa o
precipitado por vezes come cru. Mas também é aquele que, antes de todos, petisca!
Vinte anos  depois  daquela  palestra  do Prof.  Ruy Nunes, outro professor da
USP  (da  Faculdade de Letras)  deu­me a resposta,  sem que eu precisasse repetir a
pergunta. Numa entrevista, Mario Bruno Sproviero refere­se à intuição como atividade
que incide diretamente sobre o real,  a montante do raciocínio (isto é,  na direção da
nascente da  própria  razão...), passando por cima dos  exaustivos  emaranhados
conceituais  que o aparelho especulativo pode e quer gerar.  E a  frase lapidar do Prof.
Sproviero: “especular sem intuição é o equivalente a operar sem energia”.
18
Na mesma altura, folheando a Bíblia de Millôr Fernandes, dei com a definição
redonda: “A intuição é uma disciplina que não foi à escola.”
19
Ou seja, a intuição é uma
força heterodoxa mas não enlouquecida.
Por outra parte, como sabemos por experiência, o salto espetacular (e mortal?)
da intuição requer, posteriormente, a mesma  especulação por ela ignorada. Intuir sem,
num segundo momento, raciocinar, sem procurar as palavras (sempre insuficientes para
o intuitivo) que traduzam o intuído,  pode levar à presunção igualmente desgastante. A
energia fulgurante da intuição pode perder­se num suceder de golpes, uns  certeiros,
outros  catastróficos. Como dizia Poincaré,  o renomado matemático francês, convém
provar mediante a lógica o que descobrimos a partir da intuição.
20
A leitura atenta propicia  a intuição.  Entre uma página e outra,  faz­se a  luz.
Estou lendo e, num golpe de vista, compreendo o incompreensível. É difícil descrever o
conteúdo da inspiração e o seu processo.  Inspiração é inspiração, acontece. Momento
de lucidez é momento de lucidez. Uma lucidez que vem do nada... embora nada venha
do nada...
As  intuições  de Clarice Lispector provocam intuições  em seus  leitores. Ela
mesma tinha dificuldades  para se considerar escritora,  supondo­se que escrever seja
fruto de um trabalho intelectual sistemático, vinculado à apreciação “objetiva”, segundo
classificações literárias por todos aceitas. Valorizava Clarice a sua experiência vivida e
instantânea, e julgava a palavra “literatura” detestável, na medida em que representasse
algo de institucional, convencional, contrário à introspecção obsessiva, aos movimentos
de efervescência anímica.
Clarice definia­se como “sentidora”,  como uma  intuitiva.  Sua lei interior
prevalece sobre as  leis  exteriores. Clarice busca  esclarecimentos  a partir de uma
18
Jean LAUAND. Entrevista a Mario  Bruno Sproviero ­ Entropia: “Progresso” para a Destruição!.
Videtur­Letras,  São Paulo­Murcia,  n. 2,  p.  62,  set. 2001. A  entrevista pode ser lida também em:
http://www.hottopos.com/vdletras2/mario.htm Acesso em: 10 nov. 2005.
19
Millôr FERNANDES, A bíblia do caos, p. 313.
20
A intuição colabora com a ciência como no exemplo da descoberta da estrutura espacial do DNA, em
1953.  Entre as muitas estruturas possíveis, que demandariam  do norte­americano James Watson e do
britânico Francis Crick pesquisas demoradas, os dois decidiram começar, guiados por uma intuição, pela
indiscutivelmente mais bonita e elegante, que era a verdadeira como se constatou.14
pesquisa  intensa do seu próprio sentir. Sua  verdade é index  sui,  autodemonstra­se no
próprio escrever.  O  singular prevalece, a individualidade. Os  “estudos  de alma”  são
feitos com toda a alma! Por isso, um romance policial (segundo a lei exterior) como A
maçã no escuro transforma­se numa viagem interior dos  personagens. Por isso, um
romance de amor (segundo padrões de gêneros literários) como Uma aprendizagem ou
o livro dos prazeres torna­se uma sondagem da alma feminina. Por isso uma novela de
denúncia social como A hora da estrela (e em certa medida, a princípio e em princípio,
A paixão segundo GH) torna­se a aventura espiritual de uma nordestina em estado de
graça, no primeiro caso, e o encontro de uma mulher com a essência do real e consigo
mesma. E sempre se trata de uma introspecção que a própria autora empreende para se
conhecer intuitivamente com e nesses personagens: Martim, Lóri, Macabéa, GH...
É  forçoso mencionar, a propósito, que o verbo latino intueor (de onde provém
“intuir”) é depoente,  o que implica,  do ponto de vista  gramatical,  sugestivas
conseqüências —  a ação descrita no verbo é uma ação que, exercida pelo sujeito, nele
mesmo repercute. O verbo loquor, “eu falo”, por exemplo, é sempre um falar­se, pois o
sujeito toma plena consciência de seus  pensamentos  ao comunicar­se com os  outros.
Outro verbo depoente, experior, “eu experimento”,  indica que ao fazer minhas
experiências  eu mesmo me torno expertus,  um perito. Confiteor,  “eu me confesso”,
demonstra que, confessando ao outro o que fiz, confesso­me realmente a mim mesmo.
Meditor, isto é, “eu medito”, torna­se ao mesmo tempo um “sou meditado”, porquanto
eu “me dito”, dito para mim mesmo o que estou pensando a respeito de algo ou alguém
que não sou eu.  Uma  pessoa que medita torna­se meditativa e passa a meditar em si
mesma no mesmo ato em que contempla o exterior.
“Intuir” está incluído neste grupo das ações­bumerangue. Ao intuir algo fora de
mim,  dentro de mim amplia­se a percepção não­raciocinante sobre o meu próprio
mistério, aproximo­me do que acontece “atrás do meu pensamento”, como se expressa
Clarice em vários pontos de sua obra:
Verifico que estou escrevendo como se estivesse entre o
sono e a vigília. Eis  que de repente vejo que há muito
não estou entendendo. O  gume de minha faca  está
ficando cego?  Parece­me que o mais  provável é que
não entendo por que o que vejo agora é difícil:  estou
entrando sorrateiramente em contato com uma
realidade nova  para mim que ainda não tem
pensamentos  correspondentes  e muito menos  ainda
alguma palavra que a signifique: é uma sensação atrás
do pensamento.
21
Clarice não teme as  experiências inobjetivas  e um tanto obscuras. A luz  da
intuição a guiará em meio ao intangível. Ela acredita em sua inclinação para adivinhar.
Esta sua crença não está, paradoxalmente, isenta de incertezas, perplexidades, angústia,
mas ela continua em busca... em busca. E quando encontra,  seja o que for aquilo que
encontra...
O mundo independia de mim — esta era a confiança a
que eu tinha chegado: o mundo independia de mim,  e
não estou entendendo o que estou dizendo, nunca!
nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como
21
Clarice LISPECTOR, Água viva, p. 55.15
poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim?
como poderia eu dizer senão timidamente assim: a vida
se me é.
22
O livro A paixão segundo GH é, na verdade, o relato posterior de uma vivência
mística intensa.
23
A personagem GH viu com o olho intuitivo. O que viu? O certo é que
viu, mesmo que não saibamos ao certo o que viu. Estamos ao seu lado, dentro do quarto
da empregada.  A empregada chamava­se Janair. GH,  a patroa,  não sabemos  quem é
exatamente. GH pode ser Gilda Helena, Gabriela Holanda, Gumercinda Hermes, mas a
narradora não quis revelar­se. Janair é uma “macabéia” negra, que trabalha em casa de
família, que se veste sempre de preto e marrom escuro, metamorfoseando­se num ser
praticamente invisível.  “Janair”  é um nome raro,  que pode ser usado por homens  ou
mulheres. É  neutro.  É  universal. E há  nele algo de hindu...  mas  também algo
relacionado com o deus Jano,  de duas faces contrapostas, e daí a palavra “janela”, em
que o “sair” e o “entrar” dependem do lado onde você esteja.
O  que GH  entrou no quarto e deparou com o outro lado de Janair, e com o
avesso da vida. GH viu. Viu o quê? Viu primeiramente que o quarto da ex­empregada
era uma “caverna”. E viu a barata, “a cara da barata”.
24
Mas isto foi só o começo:
Olhando­a,  eu via  a vastidão do deserto da Líbia, nas
proximidades de Elshele. A barata que lá me precedera
de milênios, e também precedera aos  dinossauros.
Diante da barata,  eu já era capaz  de ver ao longe
Damasco, a cidade mais  velha da terra. No deserto da
Líbia, baratas e crocodilos?
25
Transportada no tempo e no espaço,  ultrapassando os  limites  estreitos do
quartinho da empregada Janair (em quem GH  vislumbra uma rainha africana...),  a
personagem intuitiva prossegue sua viagem. Vende sua alma a Deus (negociação muito
mais arriscada do que vendê­la ao demônio). E Deus deixará que ela veja:
Pois  Ele sabia que eu não saberia ver o que visse: a
explicação de um enigma é a  repetição do enigma.  O
que És e a resposta é: És. O que existe? E a resposta é:
o que existe.  Eu tinha a  capacidade da pergunta, mas
não a de ouvir a resposta.
26
Lendo autores, uns  mais  intuitivos, como Clarice,  outros  menos, posso
adivinhar nas  entrelinhas  perguntas iluminadoras, perguntas  tão fundamentais  que as
respostas se tornam dispensáveis. Ou ainda: posso adivinhar nas mesmas entrelinhas a
resposta para a qual terei de fazer mil perguntas a esmo, na esperança de que uma pelo
menos corresponda à resposta encontrada.
Intuindo perguntas  irrespondíveis  ou respostas  imperguntáveis, pressinto e
sinto,  não imagino,  não penso,  não faço a menor idéia do que estou vendo na clara
22
IDEM, A paixão segundo GH, p. 175.
23
É imprescindível citar o trabalho de Benedito Nunes, leitor privilegiado de Clarice  Lispector.  O
ensaio que escreveu sobre este romance — “A experiência mística de G.H.” — encontra­se em O dorso
do tigre. São Paulo: Perspectiva, 1969, pp. 103­112.
24
Clarice LISPECTOR, A paixão segundo GH, p. 51.
25
Ibidem, p. 109.
26
Ibidem, p. 129.16
evidência da clarividência.  E, no entanto,  estou vendo para além das  idéias  e da
imaginação. Pois intuir é ver o invisível.
Outro intuitivo, o poeta Manoel  de Barros, coleciona  lampejos  dessa ordem.
Num poema chamado “Seis  ou treze coisas que eu aprendi sozinho”
27
,  enumera
descobertas:
[...]
Insetos levam mais de cem anos para uma folha
sê­los.
[...]
Mariposas  que pousam em osso  de porco
preferem melhor as cores tortas.
[...]
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos  braços  da formiga o
horizonte diminui.
[...]
Besouro só entra em amavios se encontra fêmea
dele vagando por escórias...
São descobertas  absolutamente inesperadas. Metafísica  pantaneira. Mística
fazendeira. O poeta ficou horas contemplando a natureza e flagrou esses movimentos,
consciente de seu teor:
Todas  estas  informações  têm soberba  desimportância
científica — como andar de costas.
E  o leitor que intui  começa a  andar de costas, a  ler de frente para  trás,
contrariando uma determinada racionalidade. Seu caminhar “contrário”  contraria a
rigidez do conhecimento reducionista,  os  lugares­comuns, a escravidão da rotina, a
estupidez das verdades mortas. Andando de costas vai esbarrar no que não viu, no que
ninguém poderia ver. A intuição abre acessos novos e diretos a níveis da realidade que
pareciam inexistir (afinal, estávamos de costas para eles!).
Ao caminharmos  de forma  não­costumeira,  subitamente podemos sentir o
sentido da vida.  Não só o meu sentido da vida, ou o sentido da vida do autor, mas  o
sentido da vida  do próprio ser humano. Começamos  a  tocar aquilo que ainda  não
alcançamos, porque estávamos  nos  distanciando dele,  na ilusão de que seguíamos  na
direção correta,  no caminhar sempre em frente,  considerado o único verdadeiro
caminhar progressivo.
Leitura ética
Caminhar de costas muito tem a ver com ir ao princípio e aos princípios. Neste
caminhar, podemos encontrar uma aparentemente improvável relação entre criatividade
e ética.
Domenico de Masi (por muitos  na  vida  acadêmica desprezado,  a meu ver
injustamente) apresenta oito noções de criatividade:
28
Criatividade no sentido teológico da criação ex nihilo.
27
Manoel de BARROS, O guardador de águas, pp. 37­53.
28
Cf. Domenico DE MASI, Criatividade e grupos criativos, pp. 464­465.17
Criatividade ligada à idéia de inovação e de antecipação do futuro.
Criatividade como rebeldia, iconoclastia e, até certo ponto, loucura.
Criatividade prometeica, em que a mente humana rouba o fogo divino e
faz descobertas geniais.
Criatividade como talento para vencer na vida, desempenhar­se bem na
carreira profissional etc.
Criatividade no sentido mítico,  ligada à  idéia de a  vida  se renovar
cíclica e incessantemente.
Criatividade remetendo ao interesse estético,  à imaginação,  à
extravagância, algo à la Oscar Wilde.
Criatividade como manifestação e resultado do amor —  sentimento,
iniciativa, inspiração!
A noção que quero acrescentar, pensando na dimensão ética da leitura, é a que
relaciona criatividade e compromisso. Cada ser humano, pelo fato de estar vivo, recebe
em sua consciência um convite silencioso: para realizar­se como ser humano em todas
as suas dimensões (homo somaticus, homo sapiens, homo volens, homo loquens, homo
faber, homo aestheticus, homo politicus, homo socialis...) precisa pôr em jogo suas
capacidades, criando com outras  pessoas  espaços  de convivência humanizadora.  Há,
portanto, um chamado ao engajamento para que, individual e coletivamente, projetemos
e realizemos  nossas  aspirações  mais  profundas, tudo o que as palavras  “felicidade”,
“amor”,  “verdade”,  “gratidão”,  “generosidade”,  “perdão”,  “virtudes”, “paz”,  entre
outras, suscitam em nós para além dos discursos superficiais ou hipócritas.
Recentemente,  abordou­me um mendigo em pleno centro da cidade de São
Paulo.  Hora do almoço.  O  homem com roupas  velhas  e sujas  (se é que ainda
poderíamos  chamar de roupas  aqueles  andrajos)  pede­me uma ajuda  para almoçar.
Enquanto abro minha carteira, ele faz a observação inesperada:
— Hoje é o dia mais importante da minha vida.
Não ouvi  direito,  peço para que repita  o que acabara  de dizer. Ele repete, e
acrescenta:
—  Porque hoje é o meu aniversário.
Dou­lhe a ajuda, e lhe desejo um “feliz  aniversário”.  Ouço sua  resposta,
pausada e firme:
— Muito obrigado, muito obrigado, muito obrigado.
Deveria eu agradecer­lhe três  vezes  mais. Fui eu o presenteado.  Lendo suas
palavras soltas no ar, o tríplice agradecimento estampado agora em minha consciência,
vejo que uma sementidéia foi lançada. Ele estava comemorando (e compartilhando com
alguém que lhe era estranho...)  o que há de mais  importante na vida de cada ser
humano, seja quais forem as suas circunstâncias: o fato de ter nascido. Portanto, já não
éramos dois estranhos. Tínhamos criado naquele momento, naquele espaço conturbado
da cidade anônima,  uma relação humana,  passageira mas  extremamente significativa,
com alto valor simbólico, com forte conteúdo ético.
Anniversarius,  aquilo que volta (versum) a cada ano (annus).  A cada ano
retorna à nossa consciência (pelo menos na data do nosso aniversário) a constatação de
que estamos vivos, e que esta vida não é uma vida qualquer; por isso acrescentamos em
nossas  congratulações  espontâneas, talvez  sem pensar,  a palavra  “feliz”  —  “feliz18
aniversário”.  Feliz retorno nosso à consciência de que estamos  vivos, não obstante as
infelicidades  da vida.  Vivos  como seres  humanos, autoconscientes  de nosso fenômeno
humano, desta realidade humano­vivente carregada de possibilidades.
A palavra “felicidade”, problematizada, aquele “impossível necessário” de que
fala Julián Marías em seu A felicidade humana, não é uma palavra qualquer (e existe
uma palavra qualquer para o leitor criativo?).
29
Trata­se de criar e recriar as condições
de minha própria existência em consonância com a existência dos que me rodeiam, em
busca  de um ideal de unidade,  de harmonia.  Dificílima tarefa,  tarefa ética  por
excelência.  Que requer minha fidelidade criativa a valores  que me solicitam:
solidariedade, tolerância, justiça etc.
O conto Felicidade clandestina de Clarice Lispector faz experimentar a relação
entre felicidade, leitura e ética. Uma das meninas da história (estamos em Recife) é filha
do dono da livraria. E é uma menina vingativa, cruel e sádica. A narradora, a menina
Clarice,  devoradora de histórias, torna­se vítima desta  crueldade quando a outra  lhe
promete emprestar As reinações de Narizinho — “um livro grosso, meu Deus, [...] um
livro para se ficar vivendo com ele, comendo­o,  dormindo­o” —,
30
promete, mas  vai
adiando com desculpas mentirosas o empréstimo ansiosamente desejado:
Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer.
Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de
tarde,  mas  você só  veio de manhã,  de modo que o
emprestei  a outra  menina.  E eu,  que não era dada a
olheiras, sentia as olheiras  se cavando sob os  meus
olhos espantados.
31
A protagonista não consegue acreditar em tamanha crueldade. Até que um dia a
mãe da  menina  cruel  quis  entender o que estava acontecendo,  que ritual diário era
aquele. E essa “mãe boa” descobriu, horrorizada, a perversidade da filha. O livro nunca
fora  emprestado.  Nem sequer tinha  sido lido pela proprietária.  Por decisão da mãe o
livro agora ficaria com aquela que o conquistou pela humilde perseverança,  durante o
tempo que quisesse:
Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí
andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso
com as duas mãos, comprimindo­o contra o peito. [...]
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o
tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois
abri­o,  li  algumas  linhas  maravilhosas, fechei­o de
novo,  fui  passear pela casa, adiei ainda mais  indo
comer pão com manteiga,  fingi que não sabia onde
guardara  o livro,  achava­o,  abria­o por alguns
instantes. Criava as  mais falsas dificuldades  para
aquela coisa  clandestina que era a felicidade. A
felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece
que eu já pressentia.
32
29
Cf. Gabriel PERISSÉ, O leitor criativo, pp. 29­41.
30
Clarice LISPECTOR, Felicidade clandestina, p. 10.
31
Ibidem, p. 11.
32
Ibidem, p. 12.19
A clandestinidade da felicidade está em que ela se oculta de nós, foge de nós —
e nós também dela nos escondemos. A felicidade tem algo de ilegítimo, tal a dificuldade
de adquiri­la,  sua  impossibilidade, tal  a  descrença que nos  apodera —  a felicidade é
alcançável?
No conto de Clarice, a  ânsia de ler,  de ser feliz,  de amar (lembrando a frase
lapidar de Santo Agostinho, para quem felicidade é amare et amari, amar e ser amado),
enfrenta o mal. O mal é o obstáculo. As mentiras da menina que detém o livro proibido
fazem a linguagem produzir sofrimento.
Mas o conto tem um final feliz:
Às  vezes  sentava­me na rede,  balançando­me com o
livro aberto no colo, sem tocá­lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais  uma  menina com um livro: era uma
mulher com o seu amante.
33
A felicidade no ato de puro amor entre menina e livro. Este “êxtase puríssimo”
é fruto de uma conquista. Houve sacrifício, empenho digno:
Já contei o sacrifício de humilhações  e perseveranças
pelo qual passei,  pois, pronta para ler Monteiro
Lobato, o livro grosso pertencia a uma menina cujo pai
tinha uma livraria. A menina gorda e muito sardenta se
vingara  tornando­se sádica e,  ao descobrir o que
valeria para mim ler aquele livro,  fez  um jogo de
“amanhã venha em casa que eu empresto”.
34
A perversidade e o sadismo da  menina  são o mal que oprime,  escondendo­se
sob a máscara da inocência. A verdadeira inocência se submete ao sacrifício. Não lhe
interessa o sofrimento pelo sofrimento.  Sua criatividade consiste em abrir­se
corajosamente para  a possibilidade de um desfecho ético,  ou até mesmo para um
desfecho “absurdo”,  milagroso... tal como Abraão levando Isaac para o sacrifício,
segundo a insuperável reflexão de Kierkegaard.
35
Não há perversidade (ainda que por
Deus  permitida) que resista  à  perseverança.  O  perverso vive no desespero,  e a
esperança de quem ama não morre.
O  livro valia muito para a menina Clarice.  Sua  fidelidade a este valor é
criativa. Entrando no jogo perverso, submetendo­se ao sadismo com a força (virtus) de
quem não desiste do que ama, a personagem não beneficiada pelo destino (um pai dono
de livraria), pela justiça recebe mais do que pedira. O merecimento conquistado graças
à dedicação.
A criatividade como esforço para dialogar com a situação desfavorável detecta
ou acaba produzindo brechas  a  fim de que o bem não seja esmagado pelo ideal do
egoísmo,  da posse e do domínio. O sadismo vingativo da menina do livro consistia em
transformar a  outra  em mero joguete. O  livro torna­se instrumento de tortura.  O
sadismo é infracriador,  e por isso antiético.  Já  a  criatividade da menina Clarice
vislumbrava no livro, mais  do que o objeto de desejo e de uso,  um ser com quem
pudesse dialogar.  O  livro enquanto objeto pertencia à  proprietária. O  livro enquanto
âmbito, enquanto campo de jogo, enquanto fonte de iniciativas, enquanto interlocutor, é
33
Ibidem.
34
Clarice LISPECTOR, A descoberta do mundo, pp. 721­723.
35
Cf. Søren KIERKEGAARD, Temor e tremor, pp. 251­327.20
o “amante”  da leitora,  que se torna mulher, que amadurece —  conseqüência  de seu
aperfeiçoamento ético.
A leitura ética desperta minha  sensibilidade para os  valores. Não são
necessárias  fábulas  moralistas. Estabeleçamos  com a história  uma  relação criativa,
lúdica,  interessada (e não interesseira).  Tenciono,  a propósito,  em outro momento,
escrever sobre o método lúdico­ambital,  criado por Alfonso  López Quintás,
36
método
com o qual a nossa sensibilidade ética é aprimorada mediante a experiência literária.
Eu sei lembrar?
A leitura  nos  introduz,  por fim, no mundo da memória.  A memória  é a
consciência do que não passou: o passado é o que não passa.
Aquilo que já foi esquecido,  aquelas  cenas  e pessoas  que efetivamente já
passaram nós  não conseguiremos identificar ou evocar. Não temos consciência do que
não vem à memória, ainda que possa haver, digamos, “vestígios” do passado perdidos,
flutuantes  na memória, “corpos”  anônimos  vagando sem conexão com o nosso
cotidiano.
Já o passado como passado, como o “meu passado”, realidade não­presente a
que me refiro, sobre a  qual  escrevo, da qual me lamento ou vanglorio,  à qual estou
voluntariamente vinculado ou da qual gostaria  de me livrar —  este passado é o que
permanece na atualidade, é aquilo com que me encontro mediante a recordação.
O passado atualizado em minha consciência presente torna­se presente.
O passado do presente é o presente do passado.
O  que a memória traz  nem sempre merece ser recuperado.  A  memória é
seletiva,  mas  não necessariamente criteriosa. Temos  dificuldades  para lembrar o que
gostaríamos  de lembrar e, não raramente,  somos  assediados  por imagens  e nomes
indesejáveis, “recados” e “recibos” do passado, imagens que brotam num sonho, numa
conversa, no ato da leitura.
Não nos  apeguemos  à recomendação de que a prática e o hábito da leitura
contribuem para exercitar a memória.  Tal “vantagem” pouco interfere em nossa
alfabetização existencial. Ler para memorizar melhor datas e dados, nomes e resumos, é
instrumentalizar a leitura, e de certo modo reduzi­la a uma função menor, operacional,
e até certo ponto descartável.
Na leitura, e não somente mediante a leitura, a memória ganha corpo. No ato
mesmo de ler, mergulhados  na livrosfera,  vêm­nos  à tona realidades  impressas,
marcadas no fundo profundo, naquela “área” do espírito a que temos difícil acesso, mas
que se desprendem deste fundo,  e, voláteis, voam agora dentro de nós, talvez
semelhantes a fantasmas inofensivos, ou a anjos benévolos, ou a demônios torturadores.
Assombrados, nem sempre percebemos como a leitura suscitou essas aparições.
Estou relendo A metamorfose. A certa altura,  ouço a tosse de Frau Samsa. A
mulher está sufocada.  Esta tosse ecoa em minha memória,  evocando outras tosses  de
outros tempos. A tosse de meu pai fumante. A tosse do amigo que morreria de câncer.
A tosse nervosa daquele professor.
36
Cf. Alfonso LÓPEZ QUINTÁS, La formación por el arte y la literatura. Madrid, Rialp, 1993; IDEM,
Para comprender la experiencia estética y su poder formativo. Estella (Navarra): Verbo Divino, 1991;
Gabriel PERISSÉ, Filosofia, ética e literatura. São Paulo: Manole, 2004.21
A tosse de papel  sugere lembranças. A tosse literária precisa das tosses  reais,
esquecidas, para que possa  “tossir”  na leitura.  E  na  medida  em que as  tosses  reais
esquecidas são lembradas  por força  da tosse ficional de Frau Samsa,  esta igualmente
ganha força em minha consciência. Posso ouvi­la, compõe o quadro sufocante da vida
de Gregor Samsa.  A memória  é repetitiva: possa  ouvir de novo a tosse angustiada, a
tosse kafkiana.
37
Havia uma pedra no meio do caminho, havia uma pedra no meio do caminho,
no meio do caminho havia uma pedra,  havia uma  pedra...  e o poeta que caminhava
jamais  esquecerá este fato.  O  memorável  se expande também na vida do leitor. A
memória tem a ver com a identidade. É a sua “base”.  Lembrando o que li e vivi,
lembro­me de quem fui, e, por conseguinte, de quem sou. A memória é toda a bagagem
de que dispõe o nômade, o homo viator, o caminhante. A precariedade da vida (a pedra
no meio do caminho) se aceita e ao mesmo tempo se contorna com a capacidade de
lembrar.
Pensadores  antigos  afirmavam e reafirmavam que a memória  humana, não
obstante ser dádiva dos  deuses, com a  qual podemos lembrar que somos  humanos e o
que isso significa no conjunto do cosmos, com a qual recordamos que lugar é o nosso
nessa trama, é igualmente dom precário: memoria hominis hebes. A memória humana é
embaraçada, embotada, inepta, obtusa, fraca.
O  fortalecimento,  o cultivo da memória,  na leitura,  pede o exercício da
releitura.  Não deixar cair no esquecimento o que é importante,  o que é essencial.
Manter a lembrança acesa “ante a entrópica tendência ao embotamento”.
38
Não podemos  esquecer o fundamental.  Não esquecer, por exemplo,  que a
palavra “esquecer”  provém do latim vulgar excadescere,  precedido pelo verbo
excadere, “cair para fora”  (ao esquecer, algo sai da  minha  memória?), escorregar,
desfalecer,  perecer. Excadere tem a ver com o verbo cado,  de onde deriva a palavra
“cadáver”. Esquecer é, de certo modo, cair no caminho e morrer um pouco.
Recordando a noção de verbo depoente,  convém não esquecer uma  segunda
“mera curiosidade etimológica” — o verbo latino obliviscor (do qual nasceram o verbo
espanhol e nosso também, “olvidar”), que significa esquecer, perder a lembrança, é uma
ação que repercute no próprio esquecedor.  Ao esquecer de algo,  esqueço de algo em
mim mesmo, e algo de mim eu perco igualmente, algo de mim cai para fora de mim. O
desmemoriado em estágio avançado pergunta­se “quem sou eu?”  (pergunta filosófica
por excelência, diga­se de passagem), estágio a que chegou Kant, por ironia da história,
quase certamente vítima do mal de Alzheimer.
39
A  releitura é condição do aprendizado inesquecível.  “Reler”  é o verbo da
memória, da retomada. O palíndromo “reler” lembra­nos que, ao retomar o caminho de
volta, lembraremos melhor o que já sabíamos, revitalizaremos a nós mesmos. Relendo,
relembro o que há  pouco aprendi (e já esquecera), e imprimo em meu ser a idéia, a
imagem,  a palavra, o argumento,  a  rima. E  a cada  nova idéia, imagem,  palavra etc.,
imprimo um crescimento em meu ser, um aprofundamento da minha consciência.
37
Subitamente, lembro o que jamais presenciei: a tosse do próprio Kafka, vítima da tuberculose.
38
Luiz Jean LAUAND, Provérbios e educação moral – a filosofia de Tomás de Aquino e a pedagogia
árabe do Mathal, p. 95.
39
Kant terminou seus dias sem saber escrever o próprio nome, como relata Thomas de QUINCEY, em:
Os últimos dias de Immanuel Kant. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.22
O leitor criativo, reflexivo e meditativo é um leitor que tende a não esquecer. E
não poderíamos  deixar de lembrar as  últimas  páginas  de Fahrenheit 451,  quando
Montag encontra os homens­livros, cuja identificação é tão profunda com o texto lido:
— [...] Todos nós possuímos memória fotográfica, mas
passamos  a  vida aprendendo a bloquear as coisas  que
estão realmente lá dentro.  Simmons  trabalhou nisso
durante vinte anos  e agora dispomos de um método
pelo qual podemos evocar tudo o que já tenhamos lido.
Montag, algum dia você gostaria de ler a República de
Platão?
— Claro!
— Eu sou a República de Platão.  Gostaria de ler
Marco Aurélio? O  senhor Simmons  é Marco Aurélio.
[...]  Quero que conheça Jonathan Swift, autor daquele
pernicioso  livro político, As  viagens  de  Gulliver! E
esse sujeito aqui  é Charles  Darwin,  e este aqui é
Schopenhauer, este outro é Einstein, e este aqui ao meu
lado é o senhor Albert  Schweitzer, um filófoso
realmente muito gentil.  Estamos  todos  aqui,  Montag.
Aristófanes, Mahatma Gandhi,  Gautama Buda,
Confúncio, Thomas Love Peacock, Thomas Jefferson e
o senhor Lincoln,  se você quiser.  Somos  também
Mateus, Marcos, Lucas e João.  [...] Somos  todos
fragmentos  e obras de história, literatura e direito
internacional. Byron, Tom Paine, Maquiavel ou Cristo,
tudo está aqui.
40
A memória cria identidade. Os leitores adotam o nome dos autores. São eles de
certo modo os co­autores dos textos, escritores imortais. Sua leitura e contínua releitura
impulsionam,  são um ímpeto a favor da união entre passado,  futuro e presente num
tempo sem tempo do encontro com o livro em forma de ser humano.
Metamorfosear­se em livro.  Memorizar um livro e memorizar­se em livro.
Como se se tratasse de uma representação teatral. Minha memória assume dimensões
tais que eu, leitor, tal como o ator, represento uma personalidade viva e, incorporando­
a, dou vida nova a essa personalidade.
Em contrapartida,  conforme o pensamento tantas  vezes  citado de George
Santayana, “aqueles que não conseguem lembrar o passado, estão condenados a repeti­
lo.
41
Este “não conseguir lembrar”, interpretado de modo radical, significa incapacidade
real de lembrar. Não uma passageira amnésia, mas um dramático “não­conseguir” que
torna a pessoa incapacitada.
A sentença em inglês  “those  who cannot  remember”, numa leitura  simples  e
imediata,  que é normalmente a dos  que citam a frase do pensador norte­americano,
indica a necessidade de alertar outras pessoas sobre a necessidade de aprenderem com a
experiência  para não voltarem a errar —  vence o clichê,  vence o desejo (legítimo) de
40
Ray BRADBURY, Fahrenheit 451, p. 186­187.
41
George SANTAYANA, Life of reason, p. 284.  (A frase em inglês: “Those who cannot  remember the
past are condemned to repeat it.”)23
oferecer um conselho baseado no bom senso. Se ontem eu tropecei numa pedra, hoje,
lembrando que há uma pedra no meio do caminho, tomarei cuidado para não tropeçar.
Contudo,  a frase aceita pelo menos  três traduções. Ou a primeira já usada,
“aqueles  que não conseguem lembrar”,  que,  em português, permite entender que a
pessoa não consegue porque é um tanto esquecediça,  mas  há de conseguir.  Quando
voltar a enxergar a pedra no meio do caminho haverá de lembrar a “lição” do passado.
Ou a  tradução “aqueles  que não podem lembrar”, pois  não podem hoje,  não
podem por enquanto, podiam e agora não podem, mas poderão um dia... Um dia serão
mais  prudentes, mais  atentos, pondo a barba de molho por terem escarmentado em
cabeça alheia, ou na sua própria cabeça...
Ou,  numa terceira possibilidade de tradução, a frase: “aqueles  que não sabem
lembrar”, ou seja,  aqueles  que literalmente não têm condições  de lembrar,  porque
ignoram o que é lembrar, desconhecem o que lembrar, não sabem como lembrar; nunca
souberam antes  e, não sabendo agora, portanto (carentes  de um passado pessoal ou
social de experiência,  de conhecimento),  viverão guiados  pelo instinto do imediato,
pelos automatismos, que podem até ser muito originais, mas  de uma originalidade
inconsciente e inconseqüente, desligada  do processo de crescimento! Hoje poderei  ser
tão ou mais  original quanto no passado... mas como saber que estou sendo original se
do passado nada sei?
Sem saber,  sem consciência do que somos  como indivíduos  e/ou coletividade,
sem consciência  dos  valores  do passado,  das  crenças  e vivências  do passado,
repetiremos o que no passado já se fez. Repetição como sinal de falta de criatividade, e
decorrente incapacidade para  realizar a superação.  Mais  ainda,  inconsciência para o
fato de que o caminho prosseguiu, e aquela pedra que estava no meio do caminho ficou
para trás! O  que não impede que novas  pedras surjam à  medida  que continuarmos
caminhando.
A repetição do passado significa permanecer preso a um tempo que já passou,
sem ter consciência de que ele já passou! Não me darei conta de que o presente exige
novas  atitudes  (a partir da  transformação das  antigas  atitudes),  pois não sei que o
presente é o que veio depois  do passado. Não tenho um passado a que possa recorrer
para entender o presente, e aperfeiçoar­me dentro dos novos contextos.
Sem saber o que lembrar,  olharei o presente como se este fosse uma realidade
incausada, sem antecedentes, desligada da história. Sem conhecer os antigos contextos,
que geraram os atuais, encaro o presente como se tudo acontecesse pela primeira vez, e
reagirei com a “inocência”  perpétua de quem não sabe que pode e deve “evoluir de
opinião”, como se cantava numa velha marchinhas de Carnaval.
Sem ter um passado para lembrar, perco de vista a  fonte de mudanças que ele
representa. Sem passado, não posso ter futuro, careço do obsoleto para criar o inédito.
Meu futuro será  sempre um repetido passado... ou um eterno presente que sempre
retorna, sem que desse eterno retorno eu tenha conhecimento.
Valorização do passado como realidade a ser retida em nome do futuro, como
inspiração para mudanças, adaptações e aprimoramentos — este é o sentido da frase de
Santayana.
Se eu me recordo do passado, pois tenho um passado, não estou condenado a
repetir o passado, isto é,  a continuar alheio a tudo o que podemos  fazer para dar
continuidade a uma história! Não estou condenado, estou convidado a ser coerente com24
o passado,  ultrapassando­o.  Pois  também é repetir o passado querer progredir com a
adoção de mudanças absolutas, como se nada tivesse acontecido ontem.
O “conselho” de Santayana não é para que leiamos livros de história, a fim de
evitar os erros  de Napoleão,  por exemplo. Poder e saber lembrar quem foi e o que fez
Napoleão permite­me tomar consciência de que jamais  haverá um novo Napoleão.
Repetir o passado de Napoleão é não ter condições  de lembrar que Napoleão viveu, e
viveu num outro mundo, que no entanto gerou o mundo em que vivemos hoje.
Logo, a leitura da história, das histórias reais ou fictícias (lembrando o quanto
de fictício há nas  histórias  reais...),  é um mergulho naquilo que somos. Nós  somos  o
passado do qual temos consciência. Somos Napoleão, porque já fomos Napoleão. Não
precisamos (nem podemos) ser Napoleão outra vez. E esta é a liberdade de quem sabe
lembrar, de quem lembra o que sabe, de quem consegue lembrar o passado, sem recair
em numa veneração supersticiosa do passado. Recordando quem sou,  posso continuar
meu caminho de transformações  diárias, para tornar­me,  um dia,  seguindo a
recomendação do poeta Píndaro, quem de fato eu sou.
Sempre e de novo, a leitura
Se sobre a leitura nunca se fala demais, talvez eu tenha escrito de menos. Esta é
a sensação, normal aliás, que se experimenta no momento da “conclusão”.
Jacques Attali,  no verbete “livro”  do seu Dicionário do século XXI,  diz  que
hoje, levando­se em conta toda a população do mundo, um pouco mais de um bilhão de
pessoas lerá  pelo menos  uma obra literária  em toda  a sua  existência individual.  (Isto
supõe que é bem inferior a um bilhão o número de pessoas que realmente têm a leitura
como prática existencial, ao menos  quanto às  obras literárias.) E os muitos bilhões  de
indivíduos alheios a essa experiência provavelmente não sentem a menor falta daquilo
que mal podem conceber ou imaginar. Não me sinto nem um pouco aflito, por exemplo,
com o fato de jamais ter experimentado um alimento saborosíssimo chamado ilutix, e
desafio quem saiba  explicar o quanto é saborosa essa iguaria... se é que alguém sabe
lembrar como se prepara esse (ainda) inexistente prato.
Observamos a leitura, e a leitura observada nos diz em que ela consiste, quais
são as suas possibilidades, o que podemos “ganhar” se nos tornarmos leitores criativos,
e conscientes  de que somos  leitores criativos, se cultivarmos  em nós  as  condições
exigidas  para ser leitores  criativos; mas  também nos  diz,  a  leitura  observada,  o que
“perdem”, em termos  existenciais, aqueles  que,  cientes  ou não, voluntária ou
involuntariamente, estão excluídos da livrosfera.
No livro Imagens  do pensamento, de Walter Benjamin,  há uma parábola
intitulada “Omelete de amoras”;
42
interpretá­la pode oferecer uma  síntese do que
consideramos  neste ensaio em torno da leitura criativa como ponto de convergência
entre exercício da imaginação,  semeadura de idéias, desenvolvimento da intuição,
aperfeiçoamento da sensibilidade ética e prática da memória.
Uma “velha história”, avisa o autor, dirigindo­se aos leitores que gostariam de
provar figos  ou um prato especial qualquer.  E utiliza a forma  tradicional  de iniciar
velhas histórias: era uma vez um rei poderoso e infeliz. Certo dia, este rei chamou seu
cozinheiro particular e lhe exigiu, sob pena de condená­lo à morte, que preparasse uma
omelete de amoras, “tal qual saboreei há  cinqüenta anos, em minha mais  tenra
42 Walter BENJAMIN, Obras escolhidas II – Rua de mão única, pp. 219­220.25
infância”, deliciosa comida cuja receita se perdera com a morte da cozinheira, mas cujo
sabor permanecera em sua memória como sinal da imorredoura esperança, mesmo em
circunstâncias  dificílimas  (naquela altura ele e seu pai fugiam dos  inimigos). Se
cumprisse aquele desejo, o súdito tornar­se­ia herdeiro do trono.
Entre o julgamento sumário e a recompensa  desproporcionada,  o cozinheiro
manteve­se sereno, e com este discurso se dirigiu ao soberano deprimido:
— Majestade, podeis chamar logo o carrasco. Pois, na
verdade,  conheço o segredo da omelete de amoras e
todos os ingredientes, desde o trivial agrião até o nobre
tomilho.  Sem dúvida, conheço o verso que se deve
recitar ao bater os  ovos  e sei  que o batedor feito de
madeira de buxo deve ser sempre girado para a direita
de modo que não nos  tire,  por fim,  a recompensa de
todo o esforço.  Contudo,  ó rei,  terei de morrer. Pois,
apesar disso,  minha omelete não vos  agradará  ao
paladar. Pois como haveria eu de temperá­la com tudo
aquilo que,  naquela época,  nela desfrutastes: o perigo
da batalha e a vigilância do perseguido, o calor do fogo
e a doçura  do descanso,  o presente exótico e o futuro
obscuro.
O  cozinheiro atribui às  circunstâncias  concretas  do episódio vivido pelo rei,
quando criança,  tanto quanto à técnica  culinária,  o sabor de esperança  que ele
experimentou desde o primeiro bocado de omelete de amoras. Ou melhor, o verdadeiro
segredo da omelete não está apenas  no modus  operandi;  reside na  combinação dos
elementos  e procedimentos  culinários  com todos os  demais  “ingredientes” vitais  que
contribuíram para aquela experiência, conforme contara o rei ao fazer o seu pedido:
Deves  me fazer uma omelete de amoras  tal qual
saboreei há cinqüenta anos, em minha mais  tenra
infância. Naquela época meu pai travava guerra contra
seu perverso vizinho a oriente. Este acabou vencendo e
tivemos de fugir. E fugimos, pois, noite e dia, meu pai
e eu,  até chegarmos  a uma  floresta  escura.  Nela
vagamos e estávamos quase a morrer de fome e fadiga,
quando, por fim,  topamos  com uma choupana.  Aí
morava  uma vovozinha,  que amigavelmente nos
convidou a descansar, tendo ela própria, porém, ido se
ocupar do fogão,  e não muito tempo depois estava  à
nossa  frente a omelete de amoras. Mal tinha levado à
boca  o primeiro bocado, senti­me maravilhosamente
consolado,  e uma  nova  esperança entrou em meu
coração.
O  segredo completo para a preparação da omelete de amoras exige condições
que tornam aquela omelete, mais  do que uma coisa a ser obtida a qualquer preço, um
âmbito em que se entrelaçam realidades  e valores, sentimentos  e lembranças: a
hospitalidade,  o medo, a fome, a fadiga, a sensação de derrota, a alegria de encontrar,
no meio da floresta escura  (como não evocar a “selva oscura”  de Dante?),  uma
choupana, antítese do palácio, lugar do refúgio inesperado e providencial...26
A felicidade clandestina, a impossivelmente necessária felicidade está toda
concentrada nesta imagem da omelete de amoras, a omelete que surgiu num passado
que não passou, mas cuja presença no presente o rei tanto deseja. A omelete de amoras
é o amor em omelete. Ele a quer saborear novamente. Sendo rei, tudo pode, por que não
exigir a felicidade?
Denkbilder,  imagens  do pensamento, figuras  do pensamento, quadros  do
pensamento.  O  relato de Walter Benjamin obedece a esta  proposta de manifestar os
seus  pensamentos  em imagens, desenhos, descrições. Neste pequeno conto, fábula ou
parábola, há uma idéia transformada em relato. O relato, aparentemente, não pretende
convencer ninguém.  Age como testemunho e convida o leitor a  ser,  por sua vez,
testemunha. A idéia, das mais simples, permanece incompreensível sem a sabedoria —
o ideal do poder tem limites, vivido pelo rei, é irrealizável. Por mais poderoso que seja,
o rei não pode “mandar fazer” a felicidade. Esta é fruto mais do que produto.
Imaginemos a omele de amoras.
Um prato nada sofisticado,  mas, para  o rei,  carregado de sentido, levando­se
em conta as  circunstâncias em que a experimentou em sua tenra  infância.  Um prato
nada palaciano,  mas  para rei e príncipe representou uma possibilidade de resistir ao
inimigo,  superar o infortúnio,  recomeçar a luta.  Há nessa omelete,  como realidade
inobjetiva, um conteúdo ético. A omelete foi feita por mãos generosas e desinteressadas.
A omelete de amoras  é uma omelete doce,  pois doce é a solidariedade nas  horas
incertas.
A história da palavra “omelete” também é sugestiva  do ponto de vista
imagético. Nasceu do francês omelette (registrada em meados  do século XVI),  que é
uma alteração de amelette (século XV),  proveniente do francês  antigo alemelle
(“pequena lâmina de faca ou de armas”), remetendo ao latim lamella (“pequena lâmina
de metal”,  em referência  à lamina,  de facas  e espadas). A omelete, portanto,  é uma
“lâmina”  delgada  de ovos  cozidos  (a passagem de amelette para omelette deve­se à
provável influência do “o” de oeuf, “ovo”).
O simbolismo geral dos instrumentos cortantes aplica­se aqui: o princípio ativo
modificando, cortando,  furando a matéria  passiva.  Em um contexto de guerra,  a
omelete evoca a  lâmina da espada salvadora, da retomada da  luta,  da  bravura,  do
poder.  A espada  simboliza a força lúcida que ataca os  problemas  e dificuldades  com
energia. A ação vencerá, antes de mais nada, o pessimismo.
Doce como a solidariedade e laminada como a espada  (e não desprezemos o
“vermelho sangue”  das  amoras),  a imagem da omelete não é inocente —  transcende,
afinal, o mero gosto. Aplacando a fome, sugere que o mundo é recuperável pela virtude
(virtus, força orientada para o bem). E é desta virtude, enfim, que o soberano tem fome.
Sua vida como rei tornou­se melancólica,  sem sentido, não obstante o acúmulo de
poder. O poder que possui é, no fundo, falso. E é isto o que o sábio cozinheiro faz o rei
perceber.
A omelete não “agradará ao paladar” do rei, na ausência do tempero essencial:
“o perigo da batalha e a vigilância do perseguido,  o calor do fogo e a doçura do
descanso,  o presente exótico e o futuro obscuro”.  O  de que o rei sente falta,
verdadeiramente?  O  “futuro obscuro” faz  intuir que somos  livres  para recriar nossa
situação. As dificuldades não são a última palavra.
O presente exótico, a omelete de amoras, é exótico porque vem de fora, de uma
outra realidade,  mas  traz  vaticínios, e a intuição os  capta no primeiro bocado de
omelete.  A vovozinha  que preparou o alimento restaurador é fisicamente frágil,27
anônima habitante da floresta escura,  mas conseguiu reerguer o moral  do rei  e do
príncipe. Oferecendo a  doçura  do descanso, dando­lhes  abrigo,  abriu possibilidades
numa situação aparentemente perdida e desesperadora.
É disso que verdadeiramente tem fome o soberano deprimido.  A melancolia,
como a analisa Julia Kristeva, é “um abismo de tristeza, dor incomunicável [...], até nos
fazer perder o gosto por qualquer palavra, qualquer ato, o próprio gosto da vida”.
43
O
paladar para um novo sentido.  Um novo sentido para  sua vida era  o que desejava o
soberano poderoso­impotente.  Buscou­o na  memória,  no passado,  mas  o passado é
aquilo que não podemos  repetir,  a menos  que queiramos  negar a realidade do próprio
passado.
Cinqüenta anos se passaram, e o rei quer recuperar, na omelete inesquecível, o
que teria perdido ao longo do tempo. A omelete de amoras, tal como foi servida naquele
dia, naquele dia, digamos assim, “cumpriu seu destino”.
E o cozinheiro,  disto sabedor,  experiente na arte de preparar alimentos  que,
além da matar a fome física,  reúnem em si ingredimentos existenciais  além dos
materiais, desmonta o ideal de domínio, vence a tentação de obedecer ao mandato do
rei, entrega­se à morte.
O relato assim termina:
O  rei, porém,  calou um momento e não muito tempo
depois deve tê­lo destituído de seu serviço, rico e
carregado de presentes.
Nem o cozinheiro foi condenado à morte, nem se casou com a princesa. Nem a
pena capital nem a recompensa. O cozinheiro, destituído de seu serviço, perguntará a si
mesmo o que a decisão do rei significava. Libertação, por um lado, mas talvez sinal de
que não estava  à altura dos  desejos  do rei. Premiado e de certa  forma dispensado por
“justa causa”, o cozinheiro não saberá exatamente em que medida o silêncio do rei foi
positivo ou negativo. O certo é que o rei precisou refletir melhor; o fato de presentear
regiamente o seu servo assinala uma possível gratidão. É possível conjecturar que o rei
está a caminho de uma outra compreensão da sua existência.
Ler e reler o desfecho deste relato faz intuir o paradoxo do outrossim. Observar
e absorver a leitura funda um âmbito em podemos discutir o anjo e o sexo, o espiritual e
o físico, o céu e a terra.
Referências Bibliográficas
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BACHELARD, Gaston. O ar e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.28
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KIERKEGAARD, Søren. Temor e tremor. São Paulo: Abril Cultural (Coleção Os pensadores,
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ORWELL, George. A revolução dos bichos. São Paulo: Globo, 2003.
PERISSÉ, Gabriel. O leitor criativo. 2.ed. São Paulo: Ômega, 2001.
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SARTRE, Jean­Paul. Imaginação. 8.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
WHITEHEAD, Alfred North. Aventuras de las ideas. Barcelona: José Janés, 194

Análise literária do livro de Gênesis - 1:1-2:3

Posted by Profº Monteiro on setembro 02, 2011

William D. Ramey
Introdução
Um testemunho pessoal
Quando eu estava em minha classe de filosofia introdutória durante meu primeiro ano
de calouro na universidade de Missouri, em Colúmbia, em 1972, o professor
sarcasticamente usou Gênesis 1:1-2:3 para mostrar supostas inconsistências ilógicas
e discrepâncias do relato da criação da Bíblia. Depois de uma série de palestras, ele
sumariamente rejeitou todo o relato, considerando-o como folclore.
Isto não foi um incidente isolado durante meus anos de faculdade. Em todas as minhas
aulas de Biologia, Química, Física, Antropologia, Fisiologia, Psicologia e Sociologia, a
mesma atitude prevalecia. Como pode um estudante combater tal formidável afronta
com relação às Escrituras? Especialmente se elas vêm de um professor de
universidade que degrada a Bíblia diante da classe e escarnece da opinião de alguém
que a lê ou possua uma! Afinal de contas, não é uma universidade um lugar onde
alguém pode obter um mais alto aprendizado? Não está o professor sempre correto?
Desconhecidos para mim naquela época, esses confrontos aumentaram e deram forma
a minha sede de entendimento literário bíblico. Depois de muitos anos estudando tanto
o Velho quanto o Novo Testamentos em sua língua original, é minha convicção pessoal
que um cristão pode defender a unidade literária e teológica do Relato da Criação, mas
não através das lentes da análise literária ocidental, mas através da análise do
pensamento oriental, o ambiente literário no qual o texto foi originalmente escrito.
O presente estudo oferece um passo introdutório para um cristão apreciar a unidade
literária e teológica da verdade atrás do Relato da Criação. Reconhecidamente, por
causa do método pelo qual os orientais elaboraram seus documentos, o método é
estranho ao pensamento moderno e difícil de apreciar à primeira vista. Mas para o
leitor que deseja estudar os princípios gerais da estrutura paralela, as recompensas
literária e teológica são consideráveis.
William D. Ramey
cinco de Abril, 1997
InTheBeginning.org
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que não haja alterações, adições ou supressão de partes, para qualquer uso não
comercial sem permissão do autor.
2
A majestosa abertura de Gênesis 1:1-2:3 forma a primeira seção literária das Bíblias
hebraica e cristã. A segunda seção começa em Gênesis 2:4, com as palavras “esta é a
gênese do céu e da terra, quando eles foram criados, no dia em que o Senhor Deus os
criou”, e continua através de Gênesis 4:26, que traça aquilo que se tornou o universo
que Deus criou tão maravilhosamente criado. A humanidade se tornou desqualificada
para governar a imagem e semelhança de Deus por causa da desobediência,
resultando na deterioração de toda a raça humana. Interessantemente, Gênesis 2:1-3 é
um eco de 1:1, porque introduz frases e conceitos paralelos, mas em ordem inversa ao
do texto hebraico. (Figura 1)
A estrutura literária de Gênesis 1:1—2:3
A “Deus criou” (1:1b)
B “Deus” (1:1b)
C “Céus e terra” (1:1b)
X FORMANDO E ENCHENDO A TERRA (1:2-31)
C “Céus e Terra” (2:1)
B’ “Deus” (2:2)
A’ “Ele (Deus) criou” (2:3)
Figura 1
O padrão quiástico traz a seção a uma clara conclusão literária, que é reforçada pela
inclusão de “Deus criou”, ligando Gênesis 1:1 e 2:3, “Deus fez”. A seção inteira
permanece à parte dos episódios, que resulta em um estilo e conteúdo, assim fazendoa
a abertura do trabalho total de Gênesis, o mesmo da Torah, e, de fato, a Bíblia
inteira.
Muitos comentaristas antigos e modernos e uns poucos editores de versões inglesas
consideram Gênesis 2:4a não como encabeçando o texto seguinte, mas como um pósescrito
do que vem anteriormente, o relato da criação de Gênesis 1:1-2:3. Alguns
defendem que Gênesis 2:4a é uma inclusão de Gênesis 1:1. Contudo, existem
problemas que desencorajam a divisão de Gênesis 2:4 desta forma. Primeiro, a
expressão “este é o relato”, em Gênesis 2:4a, se tomada como um resumo, se
diferenciaria do seu uso comum no livro do Gênesis, onde ela uniformemente se refere
à genealogia ou narrativa que está adiante, e não o contrário. Segundo, por causa da
3
estrutura quiástica de Gênesis 2:4 (figura 2), parece preferível entender o verso inteiro
como uma unidade estrutural, e por isso como um título para Gênesis 2:5 - 4:26. Da
mesma maneira, entender Gênesis 2:4 começando uma nova seção permite que se dê
um grande peso à estrutura quiástica de Gênesis 1:1-2:3 (figura 1) e o reconhecimento
de que o nome “Senhor Deus” não ocorre nem uma vez em Gênesis 1:1-2:3, mas
muitas vezes em Gênesis 2:5-3:24. Dessa forma, o que relaciona Gênesis 1:1 não é
2:4a, mas 2:1-3, em que o dia sétimo serve como um satisfatório desenlace para a
progressão da narrativa do relato. Os termos-chave de gênesis 1:1 (criou, Deus, os
céus, a terra) são repetidos em Gênesis 2:1-3, mas em ordem contrária (figura 2), o
que claramente indica que Gênesis 2:1-3 forma uma finalização, terminando a primeira
seção sem a desnecessária primeira parte de Gênesis 2:4.
A estrutura literária de Gênesis 2:4
Figura 2.
O propósito da repetição do ponto de início da criação em Gênesis 2:4 é estabelecer
conseqüências para a raça humana.
Os “setes” de Gênesis 1:1-2:3
A correspondência do primeiro parágrafo de Gênesis 1:2 com 2:1-3 é sublinhada pelo
número de palavras hebraicas em ambos os versículos, que contêm números múltiplos
de sete. Gênesis 1:1 consiste de sete (7x1) palavras hebraicas, Gênesis 1:2 consiste
de quatorze (7x2) palavras e Gênesis 2:1-3 consiste de trinta e cinco (7x5) palavras.
Além disso, “Deus” é mencionado trinta e cinco (7x5) vezes, “terra” ocorre vinte e uma
(7x3) vezes e “céus/firmamento” também vinte e uma (7x3) vezes. O número sete
também domina Gênesis 1:1-2:3 de uma maneira surpreendente, não somente no
número de palavras em uma seção particular, mas também no número de vezes em
que uma palavra ou frase ocorre, que ao todo perfaz um padrão de “setes” nessa parte
do relato.
A “céu
B “terra”
C “criou”
C’ “criou”
B’ “terra”
A’ “céu”
4
Sete parágrafos: o arranjo de Gênesis 1:1-2:3 consiste de uma introdução e de sete
parágrafos. A introdução identifica o Criador e a criação (Gn 1:1-2); seis parágrafos
correspondem a seis dias da criação (1:3-21). O sétimo parágrafo marca o auge, o
sétimo dia, o dia da consagração (2:1-3).
1) As palavras de comando: “E Deus disse”, enquanto ocorra dez vezes, é agrupado
em sete (7x1) grupos: Gn (1:3) - (1:6) - (1:9, 1:11) - (1:14) - (1:20) - (1:24) - (1:26, 28,
29).
2) As palavras de ordem: “Haja”, embora ocorra oito vezes, sua fórmula é agrupada
em sete: Gn (1:3) – (1:6) – (1:9, 11) – (1:14) – (1:20) – (1:24) – (1:26).
3) As palavras de cumprimento: “E assim se fez” ocorre sete vezes: Gn (1:3) – (1:7)
– (1:9) –(1:11) – (1:15) – (1:24) – (1:30).
4) As palavras da realização: “E Deus criou” ocorre sete vezes: Gn (1:4) – (1:7) –
(1:11) – (1:16) – (1:21) – (1:25) – (1:27).
5) As palavras de aprovação: “E viu Deus que era bom” ocorre sete vezes: Gen.(1:4)
– (1:10) – (1:12) – (1:18) – (1:21) – (1:25) – (1:31).
6) Palavras divinas subseqüentes: Deus nomeando ou abençoando as coisas ocorre
sete vezes: Gn (1:5) – (1:5) – (1:8) – (1:10) – (1:10) – (1:22) – (1:28).
7) A confirmação de sete dias: Existem sete dias criados: Gn (1:5) – (1:8) – (1:13) –
(1:19) – (1:23) – (1:31) – (2:2).
Embora haja dez palavras de comando divino (número 1) e oito ordens (número 2), a
fórmula está agrupada em setes. O padrão sete intencional de Gênesis 1:-2:3 é
habilidosamente mantido pelo autor e intencionalmente omitidas algumas dessas
palavras: a formula de cumprimento é omitida em Gênesis 1:5 (dia 5), a descrição do
ato em Gênesis 1:9 (dia 3) e a fórmula de aprovação é omitida em Gênesis 1:6-8 (dia
2). Considerando que em cada caso a Septuaginta erradamente adiciona a fórmula
apropriada, estas adições obscurecem o padrão dos setes nesta seção.
A estrutura literária dos seis dias da criação
As colunas paralelas seguintes claramente indicam que o relato da criação é
organizado em dois grupos de três (figura 3). No primeiro grupo, as regiões são
criadas: noite e dia, o firmamento (e sua atmosfera) e os oceanos, e a terra. No
segundo grupo, os correspondentes habitantes destas regiões são criados: corpos
celestes, pássaros e peixes, animais terrestres e o homem. Isto, contudo, levanta uma
outra questão recorrente: por que as plantas são criadas no terceiro dia em vez de no
sexto dia? As plantas, pensamos nós, deveriam ter sido agrupadas com as criaturas
vivas em vez de serem agrupadas com a terra.
5
Que critério de classificação o autor usou pondo as plantas antes mesmo do sol? Uma
dica para a solução deste problema vem da descrição peculiar dos animais da terra: “o
gado e os répteis e as feras da terra”. Podemos dizer que este trecho entre aspas é
uma sinédoque de todos os animais terrestres vivos, mas por que estes seres como
representantes?”Feras da terra” poderia se referir a todos os outros animais. Por que
então incluir o gado e os répteis? Primeiramente, isto não parece fornecer uma
solução. Porém, olhemos o modo como o autor resume esta lista e animais terrestres
em Gênesis 1:28: “todo animal que se move sobre a terra”.
O autor claramente sublinha o tipo de movimento que o animal faz. Ele põe os
pássaros no dia cinco porque eles se movem no ar, através do firmamento dos céus.
Se nós classificarmos os animais de acordo com o meio de locomoção, então estes
animais que se movem sobre a terra podem ser subclassificados em três tipos. Há o
gado e semelhantes, que se movem sobre a terra; há os répteis, que se movem ao
longo da terra, deslizando sobre ela; e finalmente há as “feras da terra”, que abrem
caminho através dela (a punição da serpente tem a ver com a maneira do seu
movimento).
Análise literária dos seis dias da criação – Dias de formação e dias de
preenchimento
Dias da formação
Dias do preenchimento
1. “Haja luz” (1:3).
4. “Haja luzeiros no firmamento” (1:14).
2. “Haja firmamento no meio das águas
e separação entre águas e águas”
(1:6).
5. “Povoem-se as águas de enxames de
seres viventes; e voem as aves sobre a
terra, sob o firmamento dos céus” (1:20).
3a “Apareça a porção seca” (1:9).
3b “Produza a terra relva” (1:11).
6a “Produza a terra seres viventes” (1:24).
“Façamos o homem” (1:26).
6b “Eis que vos tenho dado todas as
ervas que dão semente e se acham na
superfície da terra e todas as árvores em
que há fruto que dê semente; isso vos
será por mantimento” (1:29).
Figura 3.
Uma vez que consigamos ver isso, a razão pela qual as plantas estão registradas no
dia 3 se torna óbvia. Elas, diferentemente do ar, dos peixes e do mar, dos animais da
terra e dos corpos celestes, estão desprovidas de capacidade de locomoção. Neste
sentido, elas são “lugares”, e não seres vivos. Contudo, nosso autor certamente
6
reconhece que as plantas tem algo em comum com os seres do dia 5 e 6, alguma coisa
da qual os corpos celestes do dia 4 têm falta. As plantas produzem “sementes de
acordo com sua espécie”, assim como os pássaros, os peixes e os animais terrestres
procriam de acordo com sua própria espécie. Conseqüentemente, podemos ver que os
dias 3 e 4 são, de uma certa maneira, uma transição entre a criação inanimada dos
dias 1 e 2 e as criaturas animadas dos dias 5 e 6. Para se estar completamente vivo
um ser precisa ter a capacidade de locomoção e reprodução.
Notemos, cuidadosamente, como Moisés é cuidadoso em se certificar que Deus
mesmo é vivo de acordo com os termos do relato da criação! Primeiro encontramos
Deus em movimento – Seu Espírito se move através da face do abismo. O relato inteiro
da criação pode ser lido como o resultado deste movimento. O movimento da criação
de Deus tem seu clímax, a reprodução dele mesmo de acordo com Sua própria espécie
– a humanidade para governar Sua criação, isto é, os seres humanos em Sua própria
imagem!
Análise literária dos seis dias da criação
Da figura 3, podemos ver que os verbos característicos que unem o dia 1 ao dia 3 são
“separar” e “unir”: verbos de formação; enquanto que os verbos que unem os dias 4
para o dia 6 “abundar”, “encher”, “frutificar” e “aumentar”: verbos que indicam
preenchimento. Assim, imediatamente nós podemos ver a relação entre as palavras da
introdução (Gn 1:1-2), “e a terra era sem forma e vazia”. Os primeiros três dias
concernem à formação e os dias 4 a 6 dizem respeito ao preenchimento da terra.
Uma observação mais surpreendente é que comparações entre os dias podem ser
feitas horizontalmente, bem como verticalmente. “Luz” é a palavra-chave no dia 1, e
“luzes” é a palavra-chave no dia 4. No dia 2, Deus “separou as águas debaixo do
firmamento das águas acima do firmamento”, enquanto no dia 5, Ele disse: “Povoem-se
as águas de enxames de seres viventes, e voem as aves sobre a terra, sob o
firmamento dos céus”. Em outra palavras, no dia 2, Deus separou as águas baixas das
águas de cima do firmamento e no dia 5 ele criou os animais para habitar as águas sob
o firmamento e então seres para habitar o firmamento. Os dias 3 e 6 são algo um tanto
diferente dos outros dias em Gênesis 1:3-31. “E disse Deus” aparece mais de uma vez
(no dia 3, aparece duas vezes; no dia 6, aparece 3 vezes). Duas comparações
adicionais podem ser feitas entre os dias 3 e 6. No dia 3, “a terra seca” apareceu, e no
dia 6, Deus criou (1) “os animais domésticos, criaturas que se movem ao longo da
terra, e os animais selvagens”; e (2) “a humanidade” para habitar a terra seca. Além do
mais, o dia 3 testemunhou a terra sendo coberta com “relva” enquanto que no dia 6
Deus disse que Ele daria ao homem “toda erva verde para mantimento”.
Estas surpreendentes relações horizontais e verticais entre os vários dias dificilmente
poderia ser coincidência. Elas demonstram a beleza literária do episódio e enfatiza a
simetria e organização da atividade criadora de Deus. Porém, o planejamento
claramente cuidadoso e o pensamento embutido na habilidade desse relatório em
forma de um tecido levantam uma questão que pode ajudar a resolver várias questões
7
de interpretação: seria possível que a ordem dos eventos na narrativa da criação seja
parcialmente literária e somente parcial cronologicamente falando?
Gostaria de sugerir que Moisés, por causa de considerações teológicas, estruturou o
relato da criação em uma estrutura literária cuidadosamente tecida. Se – como as
versões em inglês traduzem as palavras finais em Gênesis 1:5, 8, 13, 19, 23, 31 como
“o primeiro dia”, “o segundo dia”, “o terceiro dia”, “o quarto dia”, “o quinto dia” e “o sexto
dia”, respectivamente, estão corretas – então o caso está encerrado. O artigo definido
com a palavra “dia” exigiria que o autor pretendeu narrar em ordem cronológica.
Porém, de fato, a versão literal das frases hebraicas em questão é realmente: “um dia”,
“um segundo dia”, “um terceiro dia”, “um quarto dia”, “um quinto dia” e “o sexto dia”.
Gostaria de chamar a atenção para o fato de que a omissão do artigo definido em
todos os outros dias, exceto no sexto (e, por último, no sétimo), permite a possibilidade
de uma ordem literária bem como de uma ordem cronológica (o sexto e o sétimo dias).
Não-cronológico, desnecessário dizer, não significa não-histórico! O livro de jeremias,
por exemplo, foi arranjado em tópicos, em vez de em ordem cronológica, embora seja
histórico do início ao fim. Similarmente, os dois relatos históricos da tentação de Jesus
por Satanás em Mateus 4:1-11 e em Lucas 4:1-13 arranjam as três frases cruciais da
tentação em diferente ordem, indicando que nem a ordem em Mateus nem em Lucas
seja uma ordem cronológica.
Se o relato da criação em Gênesis 1:1-2:3 está, pelo menos parcialmente, em ordem
não-cronológica, vários problemas intrigantes podem facilmente ser resolvidos. Por
exemplo, como pode ser que Deus “separou a luz das trevas” e que Ele “chamou a luz
‘dia’ e as trevas ‘noite’ no dia 1 (Gen 1:4-5), se o sol não havia sido criado até o dia 4?
A resposta mais simples parece ser que estes dois dias não estão relacionados um ao
outro cronologicamente, mas que eles se referem ao mesmo evento – a criação do sol.
De fato, isto pareceria ser implícito em Gênesis 1:17-18, onde está escrito que Deus
pôs o sol na “expansão dos céus, para separar a luz das trevas” (a última frase, de
fato, é diretamente citada de Gênesis 1:4).
Em outras palavras, Gênesis 1:4 nos diz que Deus separou a luz das trevas e em
Gênesis 1:18 como ele fez isso. Ou, dando outro exemplo. Como pode haver tarde e
manhã (Gn 1:5, 8,13) antes de o sol ser trazido à existência? Se a ordem cronológica
não é exigida, não há mais nenhum problema aqui. E, novamente, como poderiam as
plantas, incluindo as árvores frutíferas, que requerem a fotossíntese para sua
sobrevivência, sobreviverem sem o calor da luz do sol (Gn 1:12,13)? A resposta é
mais bem dada ao longo destas linhas: a criação do sol precedeu a criação da vida
vegetal, providenciando calor para o solo, juntamente com outras que promoveriam o
crescimento.
Devemos enfatizar, concluindo, que eu acredito nos seis dias literais (cada um como
um dia de vinte e quarto horas); pode ser que - por causa de questões teológicas, que
Moisés desejou enfatizar - estes dias da criação em Gênesis 1:3-31 demonstrem um
arranjo não cronológico, exceto pelo sexto e sétimo dias.
8
Um “quarto” dia
O dia 4 é, claro, a metade da semana da criação, e ele mesmo é elaboradamente
construído dentro de um padrão quiástico de termos introduzidos em cada vez pela
preposição hebraica “para”. Alguns argumentam que há uma grande quantidade de
repetição no relato do dia 4, e isso evidencia múltiplas fontes do relato da criação
(como o relato inteiro da criação). Contudo, essas repetições são uma estrutura
concêntrica muito bem organizada. Seus principais elementos consistem de uma lista
de funções, que são ilustradas na figura 4.
A estrutura literária de Gênesis 1:14-18: o quarto dia
A “separação entre o dia e a noite” (1:14a)
B “para sinais dos tempos, dias e anos” (1:14b)
C “para iluminar a terra” (1:15).
D “para governar o dia” (1:16a)
D’ “para governar a noite” (1:16b)
C’ “para iluminar a terra” (1:17)
B’ “para governar o dia e a noite” (1:18a)
A’ “para separar a luz das trevas” (1:18b)
Figura 4.
O cumprimento dos comandos divinos em Gênesis 1:14-15 é retomado em ordem
inversa em Gênesis 1:17-18! A criação do sol, da lua e das estrelas é mencionada no
centro do padrão literário (Gênesis 1:16). As inversões estruturais deste tipo são
comuns no livro do Gênesis e em toda a Escritura. A tripla função dos corpos celestes -
“dividir”, “governar” e “iluminar” – são assim mencionadas duas vezes, para enfatizar
sua verdadeira função. Dentro destes cinco versos, a preposição “para” ocorre onze
vezes, definindo o papel do sol, da lua e das estrelas.
Ao mesmo tempo, ocorrem ligeiras variações entre o comando de realização (A/A’ e
B/B’), que tornam o relato mais interessante. Dada a sutilidade do relato, torna-se difícil
sustentar que este é um relato composto de vários outros relatos, fundidos em um só.
Ao contrário, há uma unidade homogênea, que revela algumas preocupações
características do autor e demonstra, através da estrutura da narrativa, o poder
soberano da palavra divina na criação.
9
O sétimo dia
O relato do dia sétimo (Gn 2:1-3) é um caso à parte da estrutura padrão de cada um
dos outros seis dias. Ele funciona como um epílogo porque os termos “céus e terra”,
“Deus” e “criar” reaparecem em ordem inversa àquela de Gênesis 1:1, e este eco
invertido do verso inicial do capítulo conclui a seção. Em vez de um início de criação,
existe o fim, a cessação, a bênção e a santificação. A ênfase do dia 7 deve ser então a
perfeita finalização de toda a criação. De fato, o padrão das palavras e textos no texto
hebraico claramente demonstra esta ênfase. Existem trinta e cinco (7x5) palavras no
texto hebraico nestes versos, um múltiplo de sete. As três passagens do meio, (Gn
2:2a; 2:2b; e 2:3a), no texto hebraico, têm sete palavras cada, e o numeral adjetivo
“sétimo” está no interior de cada uma destas passagens! O leitor, por isso, recebe uma
forte impressão de que o dia 7 é uma celebração de uma realização, de uma
finalização. Dessa maneira, tanto a forma quanto o conteúdo, enfatizam a distintividade
do dia sétimo.
Além do mais, o sétimo dia é distinto dos outros seis dias do trabalho da criação de
Deus por que ele é o único dia no qual não é mencionado nenhum elemento da
criação: ele é o dia no qual Deus cessou do Seu trabalho. Outra observação
interessante sobre o dia 7 é que ele é o único dia em que não há a repetição da
expressão “e houve tarde e manhã”. O autor do texto está dizendo ao leitor que o
descanso de Deus permanece aberto para Seu povo, uma vez que o trabalho da
criação está terminado, mas, no caso dos israelitas que morreram no deserto por causa
da rebeldia, esse descanso pode ser perdido para sempre por causa da falta de fé.
((Hb. 4:1-10; cf. Hb. 3:7-19; Mt. 11:29- 30).
A seção seguinte contém uma interessante estrutura quiástica composta por Klaus
Potsch, a respeito de Gênesis 1:1-2:25. Qualquer comentário ou pergunta pode ser
enviado para HUKlaus.Potsch@omv.co.atUH.
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A estrutura literária de Gênesis 1:1-2:25
por Klaus Potsch
a 1:1-3 a “nudez” da matéria
b 1:4-5 separação da luz e das trevas
c 1:6-8 separação das águas de cima da águas de baixo
d 1:9-10 separação da terra seca do mar
e 1:11-13 enchendo a terra
f 1:14-19 preenchendo o céu com luzeiros para governar o dia e medir os tempos
g 1:20-23 enchendo as águas com seres vivos
h 1:24-25 enchendo a terra com animais
i 1:26 o conceito de humanidade de Deus
j 1:27 criação da humanidade, transferência da imagem
k 1:28 a morada da humanidade – a terra
l 1:29-30 a base da comida para os seres vivos
m 1:31 criados os céus e a terra, dia 6
n 2:1 a criação de Deus completada em conteúdo
o 2:2a a criação de Deus completa no tempo
p 2:2b Deus descansa no sétimo dia

O QUE É ANÁLISE LITERÁRIA?

Posted by Profº Monteiro on setembro 02, 2011



Em resumo é decomposição de um texto em suas partes constitutivas, para perceber o valor e o relacionamento que guardam entre si e para melhor compreender, interpretar e sentir a obra como um todo completo e significativo. 
"A análise literária não se reduz, pois, ao comum comentário do texto, trabalho colateral ao mesmo texto, que não vai até à sua essência, nem à sua explicação, nem ao mero estudo da biografia do autor. Deve ir mais além, abrindo caminho para a crítica, para a história, que investigará sobre o autor e os antecedentes da obra; e para a teoria da literatura, que extrairá da obra os princípios suscetíveis de formulação estética". (Herbert Palhano, Língua e Literatura). 
A análise de texto, ensina Nelly Novaes Coelho (0 Ensino da Literatura), é o esforço por descobrir-lhe a estrutura, seu movimento interior, o valor significativo de suas palavras e de seu tema, tendo em mira a unidade Intrínseca de todos esses elementos. Pressupõe o exame da estrutura do trecho e da linguagem literária (o vocabulário, o valor das categorias gramaticais usadas), o tipo de figuras predominantes (símiles, imagens, metáforas... ), o valor da sintaxe predominante (frase ampla ou breve, tipos de subordinação e coordenação, frases elípticas...), a natureza dos substantivos escolhidos; tempos ou modos de verbo, uso expressivo do artigo, da conjunção, dos advérbios, das preposições, etc., tudo em função do significado essencial do todo. Uma boa análise de texto, isto é, de fragmento só pode ser realizada quando o todo, a que ele pertence, tiver sido perfeitamente interpretado. 
Um esquema-roteiro para a análise crítico-interpretativa de um romance, proposto pela referida professora é o seguinte: 
a) Leitura lúdica para contato com a obra. Essa leitura é feita pelo aluno inicialmente. 

b) Fixação da Impressão ou impressões mais vivas provocadas pela leitura. Essas impressões levarão à determinação do tema. 

c) Fixação do tema ( idéia central, eixo nuclear da ação). 

d) Leitura reflexiva norteada pelo tema, e pelas idéias principais pressentidas na obra. É durante esta segunda leitura da obra que se Inicia a análise propriamente dita, pois é o momento em que devem ser fixadas as características de cada elemento estrutural. 

e) Anotação meticulosa de como os elementos constitutivos do romance foram trabalhados para Integrarem a estrutura global. Esta anotação deverá obedecer, mais ou menos, a um roteiro disciplinador: 
1) Análise dos fatos que integram a ação (Enredo). 

2) Análise dos traços característicos daqueles que vão viver a ação (Personagens). 

3) Análise da ação e personagens situadas no meio-ambiente em que se movem (Espaço). 

4) Análise do encadeamento da ação e personagens numa determinada seqüência temporal (Tempo). 

5) Análise dos meios de expressão de que se vale o autor: narração, descrição, monólogos, intervenções do autor, gênero literário escolhido, foco narrativo, linguagem, interpolações, etc. 

Para o Professor Massaud Moisés, ( Guia Prático de Análise Literária ) o núcleo da atenção do analista sempre reside no texto. Em suma: o texto é ponto de partida e ponto de chegada da análise literária.

Análise de Textos

Posted by Profº Monteiro on setembro 02, 2011
No artigo  Teoria da Literatura 'Conceitos' vimos que um texto literário:
  • Enfatiza a função poética. Enfatiza a mensagem. Ele pode ter um caráter ficcional mas necessariamente ele não tem que ser ficcional.

  • O texto literário possui linguagem conotativa, figurada. Tem função poética. Há todo um trabalho de reconstrução da linguagem para enfatizar a mensagem.

  • características: uso de repetição sonora, palavra e estrutura sintáticas.

Há diferença entre um texto literário e um texto informativo. Uso um poema de Carlos D. de Andrade - Fim de Feira.
FIM de FEIRA

No hipermercado aberto de detritos,
ao barulhar de caixotes em pressa de suor,
mulheres magras e crianças rápidas,
catam a maior laranja podre, a mais bela
bata refugada, juntam ao passeio
seu estoque de riquezas, entre risos e gritos.
(ANDRADE, Carlos Drummond, 1978).
comentários:
Quais os recursos que o poeta usou no texto para dar-lhe uma função poética? O que foi que Drummond usou para enfatizar a mensagem, para torná-la mais atraente do que uma simples notícia. Quais as marcas linguísticas que enriqueceram o texto? A linguagem usada criou um sentido especial?Ressaltar

Argumentos pelos quais o texto se tornou literário:

presença de neologismo:
- hipersupermercado ( estava se referindo a uma feira-livre)
figuras de linguagem:
- barulhar de caixotes
- pressa de suor
órgãos do sentido:
- visão/olfato/audição: suor, mulheres magras, crianças rápidas, risos e gritos.
acentuou a idéia de miséria:
- a maior laranja podre/ batata refugada/ mulher magra, etc.
competição:
- crianças rápidas.
cadência:
- hiper/mercado, aberto/ de detritos;
repetição sonora:
- vibrantes: certos fonemas: - /r/

ANÁLISE LITERÁRIA NO EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 20.20-28

Posted by Profº Monteiro on setembro 02, 2011
ANÁLISE LITERÁRIA NO EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 20.20-28
Laércio Rios Guimarães1
RESUMO
Trata da análise do texto bíblico partindo das normas para análise literária concentrando-se no texto do evangelho de Mateus no capítulo 20: 20-28. Apresenta a visão e estratégia do narrador, o tempo (velocidade e ordem), o cenário da história; identifica os personagens e traça o perfil e ação deles; e descreve um fio condutor de enredo com os itens exposição, tensão, resolução e desfecho. Toma como referencial teórico as idéias de Daniel Marguerat e Yvan Bourquin, além de João Cesário Leonel Ferreira. Conclui apresentando uma aplicação específica da narrativa à vida do leitor.
Palavras-chave
Análise literária; narrativa bíblica; tensão; resolução; desfecho.
ABSTRACT
This article is a literary analysis of the biblical text found in Gospel of Matthew chapter 20, verses 20 to 28. The narrator’s view and strategy, the time (speed and order of facts), the story’s scenario were herein presented, and also characters were identified together with their profile and type of action. Moreover, this article describes the narrative line of thought composed by exposition, tension, resolution and conclusion. Theory references used were the concepts of Daniel Marguerat, Yvan Bourquin and João Cesário Leonel Ferreira. At last, a specific application of the narrative is made to the reader’s life.
Key words
Literary Analysis; Biblical Narrative; Tension; Resolution; Conclusion.
1 Mestrando em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
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Introdução
O presente trabalho procura apresentar uma análise bíblica partindo das normas literárias para interpretação das narrativas. Não se trata da única, mas é uma excelente ferramenta que pode dirigir o leitor ao entendimento e aplicação do texto, fazendo-o se aprofundar e adentrar na história narrada, estreitando mais o caminho entre o texto bíblico e o homem de nossa época – tarefa que tem se tornado árdua nos últimos tempos, dada a distância de tempo e conceito atuais com relação aos textos bíblicos. A riqueza da literatura e narrativa bíblica ficarão evidentes aos olhos de qualquer leitor que poderá olhá-la com mais seriedade e menor desconfiança.
Texto Bíblico: Mateus 20.20-282
20 Então, se chegou a ele a mulher de Zebedeu, com seus filhos, e, adorando-o, pediu-lhe um favor.
21 Perguntou-lhe ele: Que queres? Ela respondeu: Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda.
22 Mas Jesus respondeu: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber? Responderam-lhe: Podemos.
23 Então, lhes disse: Bebereis o meu cálice; mas o assentar-se à minha direita e à minha esquerda não me compete concedê-lo; é, porém, para aqueles a quem está preparado por meu Pai.
24 Ora, ouvindo isto os dez, indignaram-se contra os dois irmãos.
25 Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles.
26 Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;
27 e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo;
28 tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
Narrador
O narrador se apresenta no texto em terceira pessoa e faz uso da onisciência tanto quanto da onipresença. Os diálogos apresentam os detalhes e os desejos da esposa de
2 Versão utilizada: BÍBLIA Sagrada. 2. ed. Revista e atualizada no Brasil. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
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Zebedeu bem como de seus filhos. Concomitantemente a isso, também as respostas de Jesus informam ao leitor o que se passa na mente dele.
No entanto, não se informa ao leitor como se deu a indignação dos dez discípulos contra os dois irmãos. Teriam eles externado este sentimento? A conversa se deu somente entre eles? Quem sabe algum tipo de suspiro ou burburinho que se podia ouvir no ar? Ou a expressão no rosto de cada um poderia manifestar a contrariedade pelo pedido dos outros dois? O narrador deixa ao leitor a imagem do que ali se passou, convidando-o a se colocar na cena, a entender o sofrimento e luta pelos quais Jesus passou ao perceber a falta de entendimento de seus discípulos mesmo depois de todos seus ensinos referentes à humildade e ao serviço (cf. Mateus 18.1-4; 19.14, 21), e à limitação e defeitos humanos presentes neles.
Tempo
O narrador não explicita o tempo cronológico no texto em si. Pode-se recorrer ao texto anterior, no capítulo 20.17, onde o narrador especifica que Jesus estava para subir, juntamente com seus discípulos, para Jerusalém onde seu ministério terreno teria fim. É nesse momento que a mulher de Zebedeu, com seus dois filhos, faz o pedido por eles e para eles. A decisão de chegar a Jerusalém traz à tona o momento de cumprimento do reino que estava sendo prometido e quando a promessa de assentar-se no trono da glória poderia se cumprir (cf. 19.28). Chegar a Jerusalém é, na mente da mulher e de seus filhos, o momento em que tudo se concretizaria e onde eles poderiam ter primazia entre os demais discípulos.
Há ainda outros aspectos presentes nesta narrativa que tratam do tempo e que se tornam relevantes para o entendimento do texto:
Velocidade da narrativa
Tomando como ponto de partida as idéias de Marguerat e Bourquin (2009: 107-112) sobre velocidade na qual se apresentam a (1) pausa descritiva (desaceleração da narração, quando um segmento da narrativa corresponde a uma duração nula no plano da história contada), (2) a cena (ritmo considerado normal em que narrativa e história contada
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caminham em tempo igual), (3) o sumário (narrativa é acelerada usando-se poucas palavras para relatar um período longo da história contada) e (4) a elipse (a narração adota uma velocidade extrema, passando em silêncio um período da história contada), o texto pode apresentar a seguinte divisão:
v. 20a - Pausa descritiva:
Então, se chegou a mulher de Zebedeu, com seus filhos [...]
v. 20b -23 – Cena:
[...] e, adorando-o, pediu-lhe um favor.
Perguntou-lhe ele: Que queres? Ela respondeu: Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda.
Mas Jesus respondeu: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber? Responderam-lhe: Podemos.
Então, lhes disse: Bebereis o meu cálice; mas o assentar-se à minha direita e à minha esquerda não me compete concedê-lo, é, porém, para aqueles a quem está preparado por meu Pai
v. 24 –Pausa Descritiva:
Ora, ouvindo isto os dez, indignaram-se contra os dois irmãos
v. 25-28 – Cena:
Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos
Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;
e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo;
tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
Ordem da narrativa
Seguindo ainda Marguerat e Bourquin (2009: 112-119) a ordem da narrativa subdivide-se em: (1) sincronia (que se detém no tempo da história contada em seu começo, meio e fim) e (2) anacronia (que se caracteriza pelos saltos da narrativa seja para o futuro – denominado prolepse -, seja para o passado – denominado analepse). Dessa forma, o texto apresenta os seguintes elementos:
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v. 20 – sincronia:
Então, se chegou a mulher de Zebedeu, com seus filhos e, adorando-o, pediu-lhe um favor.
v. 21 – anacronia (prolepse externa):
Ela respondeu: Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda.
v. 22 – anacronia (prolepse mista):
Mas Jesus respondeu: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber? Responderam-lhe: Podemos.
v. 23 – anacronia (prolepse mista):
Então, lhes disse: Bebereis o meu cálice; mas o assentar-se à minha
direita e à minha esquerda não me compete concedê-lo, é, porém, para aqueles a quem está preparado por meu Pai.
v. 24-27 – sincronia:
Ora, ouvindo isto os dez, indignaram-se contra os dois irmãos.
Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles.
Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;
e quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo;
v. 28 – anacronia (prolepse interna):
tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.
Pode-se também trabalhar com a idéia de (1) tempo mortal (representado pelos dados históricos) e (2) tempo monumental (representado pelo tempo escatológico) que dará o seguinte quadro:
Mulher de Zebedeu e Dois Filhos
Jesus
Tempo Mortal: Assentar-se à direita e à esquerda no reino de Jesus
Tempo Monumental: sentar-se à direita e à esquerda compete ao Pai
Tempo Mortal: Bebereis o meu cálice
Tabela 1 – Gênero de Tempo em Mateus 20.20-28
A perspectiva de tempo adotada por Jesus, parece ser a interpretação de KECK et al. (1995: 397) que chama o tempo monumental de futuro ultimato e o tempo mortal de futuro imediato:
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Há uma marcante progressão nos três “Filho do Homem” ditos nesta sessão. Primeiro, um futuro ultimato: O Filho do Homem sentará no seu glorioso trono (19:28). Esta declaração da vitória escatológica do reino de Deus é representada pela base de toda instrução de 19:1-20:34. Segundo, trata-se do futuro imediato: o quadro do sofrimento e vindicação do Filho do Homem (20:18-19). Isso é o que os discípulos têm olhado através do curto significado. Terceiro diz respeito ao presente: a figura da auto-doação do Filho do Homem servindo aos outros (20.28). Este é o modelo para a própria vida e ministério presente dos discípulos (tradução nossa).
Cenário
Responder onde a narrativa ocorre, olhando somente para o texto, traz certa dificuldade. É necessário recorrer ao contexto anterior no capítulo 20.17-19 que afirma que Jesus está para subir a Jerusalém a fim de cumprir o objetivo máximo de seu ministério terreno: ser condenado à morte pelos sacerdotes e escribas, ressuscitando, porém ao terceiro dia. O capítulo 20.29 especifica o local em que a narrativa ocorre, qual seja, a cidade de Jericó de onde eles saem imediatamente depois. Hendriksen confirma isso ao dizer:
Não há nada de preciso acerca de “então”, nem declara Mateus exatamente onde se deu o evento. À luz de uma comparação entre o versículo 18 e o 19 podemos, não obstante, concluir, com boa porcentagem de probabilidade, que ocorreu no caminho para Jerusalém via Jericó (2001: 342).
Tendo poucos dados geográficos neste trecho da narrativa, o enquadramento na perícope deve ser visto muito mais como social e para sua explicação é necessário recorrer ao contexto de desejo de poder na expectativa do reino messiânico. O pedido da mãe dos filhos de Zebedeu é de que eles tenham posição privilegiada quando Jesus reinar sobre Israel e sobre o mundo. Obviamente, pela resposta e comparação dadas por Jesus no versículo 25, o referencial para aqueles homens que estão ao seu redor é o do próprio poder estabelecido naquela época, ou seja, do poder romano com toda sua estrutura. Jesus apresenta outro referencial que vai de encontro àquele que estava na mente da mãe e de seus dois filhos, assim como na dos demais discípulos. Ele inverte o sentido, trazendo como modelo para o cristianismo as pessoas da base da pirâmide social: os servos ou
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escravos que, na verdade, dentro do padrão romano não passavam de um simples objeto nas mãos de seus proprietários.
A ideia de servir já tinha sido ensinada por Jesus, como pode ser visto em 18.1-5; 19.29-30 e 20.16. Não é difícil supor, portanto, que o conceito estivesse bem evidente na mente de seus discípulos e que, dessa forma, eles deveriam ter entendido tal ensino como a base para a criação de uma nova ordem e de um novo padrão de relacionamento entre eles e os seus futuros seguidores. O reino messiânico não copia os padrões dos reinos dos homens: ele é um reino de glória baseado no serviço e não na opressão e no domínio do mais forte sobre os mais fracos.
Personagens
A ação da narrativa é desenvolvida pelos personagens ali presentes. O texto apresenta-os da seguinte forma: (1) os dez, (2) os dois irmãos (3) Jesus (o Filho do Homem), e a (4) mulher de Zebedeu que não tem o nome conhecido pelo leitor.
Cabe classificar os personagens de acordo com sua função na narrativa. Eles podem ser protagonistas, antagonistas ou personagens cordão. Além desse aspecto, pode-se classificá-los de acordo com suas características: quando há riquezas de descrição tem-se um personagem redondo, quando o narrador apresenta poucas descrições do personagem tem-se um personagem plano, e quando apenas servem limitadamente ao enredo apresentam-se como personagens cordão. Por fim, os personagens podem ser classificados de acordo com o esquema chamado “actantancial” (MARGUERAT; BOURQUIN, 2009: 80-81) que apresenta o actante (aquele que pode realizar a transformação que está no centro da narrativa), o sujeito (aquele que corre atrás de um objeto que julga valioso), o destinador (mobiliza o sujeito para a busca do objeto que ele remeterá ao destinatário), o destinatário, o adjuvante (aquele que ajuda o sujeito na busca e seu objeto), e o oponente (obstáculos à busca do objeto).
Jesus, o Filho do Homem, é o protagonista da narrativa e o personagem principal. É a ele que é dirigido o pedido da mãe dos dois discípulos. Ele é solícito em ouvi-la; esclarecedor quanto à impossibilidade de atender o pedido; apaziguador, pois trata da questão do ciúme entre os seus discípulos. Por ser aquele que pode realizar a
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transformação que está no centro da narrativa, Jesus atua como actante. É também o destinatário, pois é nele que o objetivo dos sujeitos da narrativa pode ser concretizado.
A Mulher de Zebedeu é um personagem cordão que está a serviço do enredo. Sua característica pode, talvez, ser medida pela maneira pela qual se dirige a Jesus. Ela o adora, pede-lhe um favor e intercede pelos filhos. Reverência, amor maternal e ambição podem ser vistos nesta personagem. Ela se torna a adjuvante da narrativa por tentar fazer seus dois filhos (os sujeitos) atingirem o seu objetivo pretendido.
Os dois filhos da mulher de Zebedeu também são protagonistas na narrativa uma vez que a mãe intercede por eles junto a Jesus e que os mesmos aparecem respondendo afirmativamente à pergunta: “Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber?” Estes dois discípulos são ambiciosos, usam a mãe para atingir seus objetivos e demonstram não entender qual o verdadeiro significado de “beber o cálice” proposto por Cristo. Talvez ainda estivessem pensando na perspectiva do reino de poder de Jesus:
Depois do próximo anúncio do sofrimento e morte inocente pelos quais passaria Jesus, os dois discípulos pedem poder e status na presente perícope. O texto providencia a ocasião para o ensino de Jesus sobre a natureza de servir e a prioridade no reino. Os filhos de Zebedeu mostram estar completamente errados em seu conceito de serviço. Eles demonstram que não entenderam o ensino de Jesus no material precedente a respeito dos primeiros serem os últimos e os últimos serem os primeiros (19:30; 20:16). O verdadeiro servo, o servo no reino, é alcançado somente através de serviço e auto-sacrifício. Jesus é o próprio exemplo supremo deste tipo de serviço (HAGNER, 1995: 578, tradução nossa).
Pode-se também destacar a atitude egoísta e arrogante em relação aos demais companheiros de discipulado. Eles são os sujeitos dentro do sistema “actancial”, pois correm atrás de um objeto que julgam valioso, no caso, uma posição privilegiada no reino de Cristo, o Filho do Homem.
Os outros dez discípulos, semelhantemente à mãe dos dois personagens, aqui aparecem como personagens cordão. A narrativa afirma claramente que se indignaram contra os outros dois companheiros pelo pedido que fizeram a Jesus. A indignação demonstra ciúme e de certa maneira o mesmo desejo por parte deles. Portanto, a visão sobre o reino de Jesus na mente dos dez era a mesma que existia na mente dos outros dois.
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Tema
O versículo 26 apresenta o tema deste trecho: [...] quem quiser ser o primeiro entre vós, será esse o que vos sirva. Pode-se apresentar o tema: “A Grandiosidade para os Seguidores de Cristo é Servir”.
Enredo
O enredo mostra o desenvolvimento da história e é na tensão que se deve ter especial atenção, pois a partir dela o leitor terá sua expectativa despertada em relação aos fatos. A idéia sobre o reino é primordial neste desenvolvimento. Para os judeus que viviam na época de Jesus, o reino seria político com o devido restabelecimento da glória dos tempos de Davi exercendo poder e total vitória sobre os inimigos. Fica ainda mais fácil entender tal sentimento ao notar-se que Israel já amargara a angústia de ser submetido ao domínio de quatro impérios seguidos: o Babilônico, o Persa, o Grego e, agora, o Romano. Ladd descreve este pensamento judaico sobre o “reino” da seguinte maneira:
A oferta que nosso Senhor fez do reino de Deus não é o oferecimento de um reino político, nem compreendia bênçãos nacionais nem materiais. Os judeus desejavam um rei político para vencer seus inimigos.
[...] Temos descoberto que a esperança popular da vinda do reino de Deus significava o final do século e a manifestação do governo de Deus em poder e em glória, quando todo mal seria exterminado da terra [...].
[...] Este mesmo problema estava implicado na relação do messianismo do Nosso Senhor. Os judeus, inclusive os discípulos de Jesus, esperavam que o Messias fosse um rei “davídico” conquistador, diante do qual os inimigos de Deus e o povo de Deus não poderiam resistir; ou seria um ente sobrenatural que viria à terra com poder e grande glória para destruir aos maus e trazer o reino de Deus com poder (Daniel 7). Em qualquer destes casos, a vinda do Messias significaria o fim deste século e a aparição do reino de Deus em poder.
[...] O fato está em que os judeus da época de Nosso Senhor não entendiam o capítulo cinquenta e três de Isaías. Não sabiam que se referia ao Messias. Esperavam somente um rei conquistador, um poderoso Filho do Homem celestial em vez de um servo sofredor. Conseqüentemente, lhe deram as costas, recusaram segui-lo. Assim como rechaçaram Sua oferta do reino porque não era o que estavam buscando; rechaçaram Seu caráter messiânico porque não era um chefe conquistador, o tipo de monarca que eles desejavam (1988: 145-148, tradução nossa).
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Registrado este aspecto histórico, pode-se sugerir uma estrutura para o presente texto que conta com as seguintes partes: (1) exposição inicial - que apresenta as circunstâncias da ação; (2) tensão ou nó – o elemento que introduz a tensão narrativa; (3) resolução ou desenlace – aplicação da transformação sobre o sujeito; e (4) desfecho ou situação final – exposição do novo estado após a eliminação da tensão ou dificuldade.
Exposição – v. 20-21
Apresenta os protagonistas (os filhos da mulher de Zebedeu e Jesus), a mulher de Zebedeu e o pedido para que os seus filhos tenham posição de proeminência no reino de Messiânico.
Tensão 1 – v. 22
A primeira tensão é marcada pelo questionamento de Jesus em relação ao pedido feito pela mãe em nome de seus filhos. Ele deixa claro que o pedido está sendo feito por falta de conhecimento em relação a tudo o que ele ensinou até ali e em relação às consequências dele ser realmente atendido, pois o resultado seria acompanhá-lo em seus sofrimentos identificados aqui com a expressão “beber o cálice” que está prestes a acontecer, e que pode ser melhor compreendida a partir da explicação de Hendriksen:
No modo de expressão do Antigo Testamento e dos que estão familiarizados com sua literatura, “beber o cálice”, quer dizer, beber seu conteúdo, significa passar de forma completa por esta ou aquela experiência, seja favorável (Sal. 16:5; 23:5; 116:13; Jer. 16:7) ou desfavorável (Sal. 11:6; 75:8; Is. 51:17, 22; Jer. 25:15; Lm. 4:21; Ez. 23:32; Hab. 2:16). Jesus também falou do cálice de seu amargo sofrimento (Mt. 26:39, 42; Mr. 14:36; Lc. 22:42). E no Novo Testamento veja-se também Ap. 14:10; 16:19; 17:4; 18:6. Então, estão estes discípulos dispostos a serem participantes de seus sofrimentos, quer dizer, dos sofrimentos por seu nome e por sua causa (10:16, 17, 38; 16:24; 2 Co. 1:5; 4:10; Gl. 6:17; Fil. 3:10; Col. 1:24; 1 Pe 4:13; Ap. 12:4, 13, 17). (2003: 555, tradução nossa).
O pedido é respondido com outra pergunta à qual se espera uma reação. Os dois irmãos respondem afirmativamente, persistindo assim em sua falta de conhecimento do que os esperava.
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Resolução 1 – v. 23
A primeira tensão é solucionada parcialmente: se mesmo sem entender os dois irmãos queriam “beber do cálice”, então isto é o que iria acontecer. Mas o pedido continuaria em aberto. Há um conflito entre ideias e tempo: os dois discípulos pensam no reino terreno e no tempo mortal, enquanto Jesus trata do reino de Deus e do tempo monumental. Para fazer parte deste reino que tem perspectiva futura é necessário passar pelo mesmo caminho do Filho do Homem, que é o da humilhação para depois, sim, alcançar a devida exaltação. Até aqui eles desconheciam esse fato.
Tensão 2 – v. 24
Uma nova tensão é apresentada a partir do momento em que os dez discípulos restantes ficam indignados contra o pedido e contra os autores do pedido de glória. Mas o que teria trazido esta indignação e como ela teria ficado evidente? Como já mencionado no item sobre o narrador, este deixa a cena em aberto para que o leitor a imagine e olhe com mais atenção para a reação do protagonista, Jesus, do que para os demais personagens. Todavia, o fato de terem se indignado com os dois irmãos demonstra ciúmes, inveja e o desejo de terem o mesmo lugar solicitado pelos dois.
Resolução 2 – v. 25-27
A resolução para a segunda tensão vem do próprio Jesus de maneira extremamente didática: ele ensina e prova a possibilidade de obediência deste ensino pelo seu próprio exemplo. O modelo de seu reino é o serviço, tarefa que ele, o Filho do Homem, veio fazer para, então, passar a ser modelo para os súditos. Um pequeno gráfico comparativo pode deixar isso claro:
Reino de Cristo
o primeiro... será vosso servo
grande... será o que vos sirva
Reino dos Povos
governadores dominam
maiorais exercem autoridade
Tabela 2 – Reino de Cristo x Reino dos Homens
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A resolução passa, obviamente, por uma mudança nas mentes de seus seguidores: o modelo não pode ser mais o que eles conhecem e pelo qual eles tanto almejavam. O modelo agora é a própria liderança e governo de Jesus.
Desfecho – v. 28
Jesus é o próprio exemplo de grandiosidade, pois sua missão é servir. Seu reino não é o que pensam os dois irmãos, a mãe e os dez discípulos. É o reino onde a humildade é a principal virtude dos que dele participam. Não é um reino onde alguns poucos exercem autoridade sobre muitos, mas onde o seu rei ensina o princípio de liderança serva onde muitos servirão uns aos outros, pois “o Filho do homem [...][veio] dar a sua vida em resgate de muitos” (20.28).
Vale à pena apresentar a estrutura quiástica presente no enredo que pode ser vista a seguir:
A – Pedido para sentar à direita e à esquerda (v. 21).
B – Questionamento sobre beber o cálice (v. 22).
B’ – Afirmação sobre beber o cálice (v. 23).
A’ – Resposta sobre sentar a direita e a esquerda (v. 23).
Conclusão
A análise narrativa de Mateus 20.20-28 ajuda os leitores a entenderem a tensão do ser humano diante da possibilidade de experimentar poder e glória. As características de cada personagem, a tensão trazida ao meio por um pedido que gera ciúmes e revela o caráter humano que deve ser transformado pelo ensino de Jesus, são elementos narrativos constitutivos da riqueza textual desta passagem bíblica. A pouca presença do narrador e a falta de detalhes convidam o leitor a penetrar na cena e imaginar a situação ali vivida. A relevância do texto e o ensino presente atingem o comportamento e a vida do homem atual que luta por glória e domínio a qualquer custo. O reino de Cristo é diferente: é formado pelos mansos, humildes, servos, pelos que consideram a si mesmos os menores de todos a
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fim de serem considerados pelo Grande Rei como os maiores. Enfim, como Hendriksen expressa muito bem:
Jesus esteve enfatizando que em seu reino o maior é medido pela fita métrica da humildade (18.1-4); que a salvação pertence aos pequeninos e aos que se tornam semelhantes a eles (19.14); que confiar plenamente no Senhor, negar-se a si mesmo e dar, em vez de receber, é a marca registrada de seus verdadeiros seguidores (19.21) (2001: 341).
Referências bibliográficas
BÍBLIA de estudo de Genebra. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Cultura Cristã; Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
HAGNER, Donald A. Matthew 1-14. Dallas: Word Books, 1995 (Word Biblical Commentary, v. 33b).
HENDRIKSEN, William. Mateus. v. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.
______. Exposicion del Evangelio Según San Mateo. Grand Rapids: Libros Desafio, 2003 (Comentario al Nuevo Testamento).
FERREIRA, João Cesário Leonel; AMARO, Diego Werner Cattermol; PROFETA, Helder Graciano. A relevância da teoria literária para a exegese bíblica: Um exercício em 1 Samuel 1.1-28. Revista Teológica, Seminário Presbiteriano do Sul, Campinas, v. 68, n. 65/66, p. 51-69, 2008.
KECK, Leander et al. Matthew. v. 3. Nashville: Abingdon Press, 1995 (The New Interpreter’s Bible).
LADD, George Eldon. El Evangelio del Reino. Miami: Editorial Vida, 1985.
MARGUERAT, Daniel e BOURQUIN, Yvan. Para ler as narrativas bíblicas: iniciação à análise narrativa. São Paulo: Loyola, 2009.

Análise Literária

Posted by Profº Monteiro on setembro 02, 2011

Em resumo é decomposição de um texto em suas partes constitutivas, para perceber o valor e o relacionamento que guardam entre si e para melhor compreender, interpretar e sentir a obra como um todo completo e significativo.
"A análise literária não se reduz, pois, ao comum comentário do texto, trabalho colateral ao mesmo texto, que não vai até à sua essência, nem à sua explicação, nem ao mero estudo da biografia do autor. Deve ir mais além, abrindo caminho para a crítica, para a história, que investigará sobre o autor e os antecedentes da obra; e para a teoria da literatura, que extrairá da obra os princípios suscetíveis de formulação estética". (Herbert Palhano, Língua e Literatura).
A análise de texto, ensina Nelly Novaes Coelho (0 Ensino da Literatura), é o esforço por descobrir-lhe a estrutura, seu movimento interior, o valor significativo de suas palavras e de seu tema, tendo em mira a unidade Intrínseca de todos esses elementos. Pressupõe o exame da estrutura do trecho e da linguagem literária (o vocabulário, o valor das categorias gramaticais usadas), o tipo de figuras predominantes (símiles, imagens, metáforas... ), o valor da sintaxe predominante (frase ampla ou breve, tipos de subordinação e coordenação, frases elípticas...), a natureza dos substantivos escolhidos; tempos ou modos de verbo, uso expressivo do artigo, da conjunção, dos advérbios, das preposições, etc., tudo em função do significado essencial do todo. Uma boa análise de texto, isto é, de fragmento só pode ser realizada quando o todo, a que ele pertence, tiver sido perfeitamente interpretado.
Um esquema-roteiro para a análise crítico-interpretativa de um romance, proposto pela referida professora é o seguinte:
a) Leitura lúdica para contato com a obra. Essa leitura é feita pelo aluno inicialmente.
b) Fixação da Impressão ou impressões mais vivas provocadas pela leitura. Essas impressões levarão à determinação do tema.
c) Fixação do tema ( idéia central, eixo nuclear da ação).
d) Leitura reflexiva norteada pelo tema, e pelas idéias principais pressentidas na obra. É durante esta segunda leitura da obra que se Inicia a análise propriamente dita, pois é o momento em que devem ser fixadas as características de cada elemento estrutural.
e) Anotação meticulosa de como os elementos constitutivos do romance foram trabalhados para Integrarem a estrutura global.
Esta anotação deverá obedecer, mais ou menos, a um roteiro disciplinador:
1) Análise dos fatos que integram a ação (Enredo).
2) Análise dos traços característicos daqueles que vão viver a ação (Personagens).
3) Análise da ação e personagens situadas no meio-ambiente em que se movem (Espaço).
4) Análise do encadeamento da ação e personagens numa determinada seqüência temporal (Tempo).
5) Análise dos meios de expressão de que se vale o autor: narração, descrição, monólogos, intervenções do autor, gênero literário escolhido, foco narrativo, linguagem, interpolações, etc.
Para o Professor Massaud Moisés, ( Guia Prático de Análise Literária ) o núcleo da atenção do analista sempre reside no texto. Em suma: o texto é ponto de partida e ponto de chegada da análise literária.
Fonte: Escola Vesper
Análise Literária
A obra literária é a representação perfeita da relação entre o homem e o mundo em que vive. Vigora na literatura uma correspondência bastante acentuada entre o sofrimento do sujeito enquanto ser agente, metafísico e o local da ação, espaço material e mensurável. Essa dicotomia é que contribui para a criação da obra de arte e é o que gera o conflito que vai desencadear um desfecho de acordo com a intencionalidade do criador. Para atingir essas condições, Rubem Fonseca quebra os padrões convencionais da estrutura narrativa em “Relato de ocorrência em que qualquer semelhança não é mera coincidência”.
Nesse conto, é narrada a história de um acidente que ocorre numa BR, envolvendo um ônibus, que atropela uma vaca, que morre logo em seguida. Os moradores das cercanias, ao verem o acidente, correm na direção do ocorrido. A princípio, pensa-se que vão procurar meios para socorrerem as vítimas. Mas não é que acontece. Eles correm é para aproveitar a carne da vaca morta, e deixam as vítimas à mercê da sorte.
Para desenvolver tal enredo, o autor imbrica duas formas de relatar os fatos da história: estilo de jornal e a narrativa pertencente ao gênero literário. “Na madrugada do dia três de maio, uma vaca marrom caminha na ponte do Rio Coroado, no quilômetro 53, em direção ao Rio de Janeiro”. Nesse fragmento, estão presentes os elementos que constituem o texto jornalístico: o local, a data, o fato, os envolvidos, como forma de comprovação dos acontecimentos. O texto só passa a assumir a estrutura da narrativa literária a partir do sexto parágrafo, quando Elias, uma das personagens do conto, dá início às ações que vão se desenrolar na ponte, local do acidente. “O desastre foi presenciado por Elias Gentil dos Santos e sua mulher Lucília, residente nas cercanias. Elias manda a mulher apanhar um facão em casa. Um facão? Pergunta Lucília.” .
Esse procedimento de unir o jornalístico e a narrativa literária não só contribui para a verossimilhança da história, como também revela um menor grau de formalidade na atitude de narrar, já que se trata de um texto que segue os padrões modernistas. O texto foge ao estilo machadiano, por exemplo. Contudo não deixa de externar a natureza e o comportamento do homem diante dos seus problemas. Rubem Fonseca, nesse conto, apresenta um realismo marcado através da análise de uma situação que revela a intenção de mostrar pessoas preocupadas apenas em matar a fome, fato que representa a realidade de uma grande parte da população.
A onisciência do narrador é percebida através da expressão dos sentimentos das personagens e do modo como os fatos são focalizados. O narrador parece acompanhar cada detalhe dos acontecimentos. “Surge Marcílio da Conceição. Elias olha com ódio para ele. Aparece também Ivonildo de Moura júnior. E aquela besta que não traz o facão! Pensa Elias. Ele está com raiva de todo mundo, suas mãos tremem. Elias cospe no chão várias vezes, com força, até que sua boca seca.” A presença do discurso indireto livre nesse fragmento vem reforçar a expressão da angústia que toma conta de Elias no momento em que os vizinhos também chegam para desfrutar a carne do animal.
Como se pode perceber, as personagens do conto Relato de ocorrência em que qualquer semelhança não é mera coincidência não são apenas um elemento da estrutura narrativa, mas habitantes da realidade ficcional, os quais representam seres que se confundem, em nível de recepção, com o ser humano e sua complexidade. Para criar essa realidade, o autor, sabendo que personagem representa pessoa, o faz através dos recursos lingüísticos, uma vez que se constrói a personagem ficcional por meio das palavras e, quanto ao modo como essa linguagem aparece no texto, nota-se claramente a marca da oralidade no processo da construção do discurso. Nesse conto, tanto narrador, quanto personagem possuem o mesmo nível na utilização da palavra. Isso porque se trata de uma forma de não distanciar lingüisticamente as personagens do narrador. É através da linguagem que, ao lermos o conto de Rubem Fonseca, nos deparamos com uma simulação do real, criada a partir da cosmovisão do autor.
Considerando que um texto é um tecido, em que todos os elementos que o compõem devem estar entrelaçados para que exista significação, o conto de Rubem Fonseca é a representação concreta dessa assertiva. Desde o foco narrativo até o espaço, tudo se encaixa de modo a favorecer a coerência dos episódios narrados. A história é contada em terceira pessoa, por um narrador que presencia todos os acontecimentos. Essa é uma forma cinematográfica de construir o enredo e, com esse procedimento narrativo, o leitor se coloca em contato mais direto com os fatos narrados. O espaço onde se passa a história, a ponte, exerce um papel importante uma vez que, por representar um local perigoso, aparece como o lugar onde ocorre o acidente, deixando várias vítimas sem vida.
Toda a história se passa em um curto intervalo de tempo, de modo linear.
udo acontece “Na madrugada do dia três de maio...” Como se pode notar, trata-se de um tempo cronológico, em que os fatos se dão numa ordem natural, isto é, do início para o final. Primeiro, acontece o acidente; depois, os moradores vão em busca da carne da vaca, que morre atropelada e, para finalizar a história, todos tiram proveito da situação. É, pois, o tempo um elemento responsável pela organização dos fatos no enredo desse conto.
Fonte: www.paratexto.com.br