RESENHA DO LIVRO A REVOLUÇÃO DOS BICHOS DE GEORGE ORWELL

Posted by Profº Monteiro on agosto 14, 2011





                  
  A estória se passa numa granja, onde os animais, oprimidos e mal-tratados por seu dono, passam a fomentar idéias de revolução, liderados pelos porcos. O autor passa uma visão clara a respeito de como se inicia uma revolução.Major, um porco já idoso, conta a todos os animais da granja o sonho que teve, onde todos os bichos viveriam sem sofrer e serem oprimidos pelos humanos, todos trabalhariam juntos e todos teriam direitos e deveres iguais, tendo que, para isso, tirar de cena o homem,legando todo o comando da granja aos animais.Após a morte do Major,outros dois porcos passam a liderar e começam a alimentar sonhos e desejos de revolução em todos os animais da granja. Eles se organizam e conseguem afugentar o proprietário que, após algumas tentativas de retomar o comando do lugar, todas fracassadas, finalmente desiste.É com assombro que os animais vislumbram o luxo e o conforto em que viviam os humanos da granja, e passam a rejeitar e até proibir todo tipo de facilidade e acúmulo de riquezas.Os porcos assumem a liderança, alegando serem os mais inteligentes e passam a dividir as tarefas, delegar os deveres e formular leis e até um hino, com o tema da revolução: Bichos ingleses e irlandeses, bichos de todas as partes! Eis a mensagem de esperança no futuro que virá!Logo os papéis ficam claramente definidos entre eles, uns são subservientes e nem ao menos pensam por si mesmos, outros tendem mais para o trabalho pesado, outros ainda são donos de uma lealdade genuína à causa da revolução.No início, os animais sentiram dificuldade em se adaptar aos afazeres humanos, mas em pouco tempo, já conseguiam realizar a maioria das tarefas.Logo a vida corria,e os porcos administravam e mantinham todos no prumo,formulando até os sete mandamentos dos bichos.Com o passar dos dias, porém, começaram a existir divergências entre as idéias dos dois porcos líderes, Bola-de-Neve e Napoleão. Não demorou muito até que Napoleão conseguisse um jeito de se livrar do outro, e justificar seu sumiço alegando ter ele traído a causa dos bichos, e estar servindo ao inimigo (o homem).A partir daí, tudo muda na granja dos bichos, ainda que lentamente e sem que a maioria conseguisse notar quase nada. Os antigos preceitos e a filosofia igualitária são substituídos por outras leis, que pelos animais não saberem ler, não conseguiam identificar como novas. Os que sabiam ler eram enganados com desculpas fáceis, e sua lealdade e credulidade os impediam de enxergar o que estava claro: que pouco a pouco todas as idéias revolucionárias foram substituídas por leis de favorecimento aos porcos, leis estas que faziam com que os outros trabalhassem mais e ganhassem menos comida a cada dia, sendo punidos rigorosamente todos aqueles que ousavam levantar a voz em oposição à ordem de coisas  que se seguia, até mesmo com a morte. Aqui o autor faz uma alusão a que é de interesse total das classes dominantes opressoras que o povo permaneça em ignorância, analfabeto, incapacitado para tomar suas próprias decisões e seguir seus próprios rumos. Portanto, quanto mais educada é uma pessoa, mais capacidade de julgar ela tem e isso, decididamente não é interessante para uma minoria que governa e monopoliza as riquezas. A idéia é, de fato, manter a grande maioria em completo desconhecimento , para que possa ser manipulada.Todo o luxo antes desprezado agora fazia parte do dia-a-dia dos porcos, não se via mais nenhum resquício do modelo ideológico que antes lhes fizera sonhar com uma vida melhor. Eles estavam sim,em pior situação do que quando eram subjugados pelos humanos, mas só que desta vez, o sofrimento era mascarado pelo véu da revolução, e muitos dos bichos,de memória comprometida,ainda teimavam em pensar que estavam melhor do que antes,j á que agora,eram os companheiros que lideravam,e ser liderado por um igual é sempre melhor, seja de que jeito for...No final do livro, os porcos já estão em franca associação com os humanos,visando sempre mais e mais lucro,coisa que era proibida de início.Da janela,os bichos observavam lá dentro da casa grande os porcos e os humanos bebendo juntos,e as feições deles se misturando.Já não se podia saber quem era homem,quem era porco...George Orwell é na verdade o pseudônimo de Eric Arthur Blair, indiano de família inglesa nascido em 25 de junho de 1903. Educado em escolas inglesas, foi policial, livreiro, professor e jornalista. Crítico ferrenho do regime stalinista, escreveu, em 1945, A Revolução dos Bichos onde denuncia a hipocrisia e ineficácia dos regimes chamados igualitaristas. Sua obra não pôde ser publicada por um longo período, pois Stalin era aliado da Inglaterra e dos Estados Unidos, e somente após a guerra pode sair da gaveta.O livro é uma analogia, e demonstra o processo pelo qual a maioria das revoluções que carregam preceitos de igualitarismo terminam. Na verdade, apesar de ser um ataque claro à Stalin, pode facilmente ser aplicado a outras inúmeras ocasiões da História onde o interesse pessoal suplantou o idealismo. Podemos identificar sem muito esforço os personagens que se desenham no decorrer desta estória, como uma regra (guardadas as exceções à mesma).Assim como em cada sala de aula sempre existem essencialmente os mesmos tipos de alunos, fato esse facilmente identificável para quem é familiarizado com ela, também em toda revolução aparecem sempre os mesmos tipos, os alienados,os leais até à morte,os trabalhadores braçais que engordam quem está no comando, e também os poucos que se arvoram a combater as incoerências,as injustiças,quase sempre mártires.Assim vemos que A Revolução dos Bichos é ainda uma obra atual em nossos dias, onde idéias revolucionárias de libertação surgem a todo instante. Tais idéias não são fundamentalmente más ou vazias, mas não são um fim em si mesmas. Devem, porém, ser acompanhadas de abnegação genuína, porque do contrário, torna-se um perigoso instrumento de manipulação das massas."Aprendemos por dolorosas experiências históricas, que é da natureza e disposição de quase todos os seres humanos que,tão logo consigam adquirir um pouco de autoridade,começam imediatamente a exercer injusto domínio." ( doutrina e convênios 121 ). E não precisamos falar de acontecimentos grandiosos como revoluções de uma nação inteira,mas esta tendência se observa em todas as relações onde a autoridade e o poder estão presentes,sim,até mesmo em nossas simples relações do dia-a-dia.Podemos traçar paralelos entre nossa realidade política e A Revolução dos Bichos?Certamente. E não seria difícil identificar cada um dos personagens. Mas o verdadeiro desafio é procurar o Napoleão em nós mesmos. Quando conseguirmos enxergar os déspotas que muitas vezes nós mesmos nos tornamos em nossas relações de poder, é que a obra de George Orwell atingirá seu pleno significado. Mudanças bruscas de fora para dentro nunca foram duradouras, é o que mostra a História. Se o homem não mudar sua tendência natural de subjugar seu semelhante em proveito próprio, mais cedo ou mais tarde ele será corrompido, e não há ideologia que o pare.Este é, enfim, o verdadeiro desafio e por isso, A Revolução dos Bichos seguirá sempre atual, denunciando a realidade, pois os humanos serão sempre os mesmos- às vezes homens, às vezes porcos.
                        A REVOLUÇÃO DOS BICHOS - GEORGE ORWEL
                               Lembro-vos também de que na luta contra o Homem não devemos ser como ele. Mesmo quando o tenhais derrotado, evitai-lhe os vícios. Animal nenhum deve morar em casas, nem dormir em camas, nem usar roupas, nem beber álcool, nem fumar, nem tocar em dinheiro, nem comerciar. Todos os hábitos do Homem são maus. E, principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos os animais são iguais.George Orwell O início de uma fábula contemporânea. O dono da Granja do Solar, Sr. Jones, embriagado com o poder, tranca o galinheiro e vai para a cama cambaleando. Major, porco ancião e premiado, reúne todos os animais e conta seu sonho visionário de como será o mundo depois que o homem desaparecer. Declara em tom profético a necessidade dos bichos assumirem suas vidas, acabando com a tirania dos homens.                Os animais são contagiados pelos versos revolucionários e entoam apaixonadamente a canção "Bichos da Inglaterra". Sr. Jones acorda alarmado com a possível presença de uma raposa e, com uma carga de chumbo disparada na escuridão, encerra a cantoria.Major falece três noites após. A morte emoldura o mito e suas palavras ganham destaque nas falas dos animais mais inteligentes da granja. Os bichos mais conservadores insistem no dever de lealdade ou no medo do incerto: Seu Jones nos alimenta. Se ele for embora, morreríamos de fome.Os perfis dos animais são traçados: os porcos, as ovelhas, os cavalos, as vacas, as galinhas, o burro... Todos com traços marcantes de manipulação, alienação, rigidez, ignorância, dispersão, teimosia...A rebelião ocorre mais cedo do que esperavam. Com a expulsão do Sr. Jones da granja, surge o momento de reorganizar o funcionamento da propriedade. Os porcos assumem a liderança, dirigem e supervisionam o trabalho dos outros. Os demais dão continuidade à colheita. Alguns bichos se destacam pela obstinação, como o cavalo Sansão, cujo lema é Trabalharei mais ainda.Os sete mandamentos declarados por Major são escritos na parede:          Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.O que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.Nenhum animal usará roupa.Nenhum animal dormirá em cama.Nenhum animal beberá álcool.Nenhum animal matará outro animal.Todos os animais são iguais.Bola-de-neve e Napoleão se destacam na elaboração das resoluções. Sempre com posições contrárias. Os demais animais aprenderam a votar, mas não conseguem formular propostas. A pluralidade de pensamentos dá margem aos debates e às escolhas.     Os sete mandamentos elaborados na revolução são condensados no lema Quatro pernas bom, duas pernas ruim. A síntese do animalismo é repetida pelas ovelhas no pasto por horas a fio.Sr. Jones tenta recuperar a propriedade, mas é vencido pelos bichos na Batalha do Estábulo. O porco Bola-de-neve e o cavalo Sansão são condecorados pela bravura demonstrada no conflito. Mimosa foge para uma propriedade vizinha seduzida pelos mimos oferecidos por um humano. Surge a idéia de construção de um moinho de vento... Os animais ficam divididos com a perspectiva do novo.Bola-de-neve e Napoleão sobem ao palanque e montam suas campanhas políticas. A eloqüência de Bola-de-neve conquista os animais, mas a força dos cães de Napoleão expulsa Bola-de-neve da granja e legitima Napoleão no cargo de líder diante dos atemorizados bichos.Os bichos trabalham como escravos na construção do moinho de vento e gradativamente vão perdendo a memória de como era a vida na época do Sr. Jones. Animais trabalhadores, como Sansão, acordam mais cedo, trabalham nas horas de folga e assumem as máximas elaboradas pelos donos do poder: trabalharei mais ainda e Napoleão tem sempre razão.Como a maioria dos animais não aprendeu a ler, os mandamentos vão sendo alterados na medida em que Napoleão e seus assessores vãos assumindo posições contrárias aos princípios que nortearam a revolução: os porcos começam a comerciar a produção da granja, passam a residir na casa do Sr. Jones, dormem em camas, usam roupas, bebem uísque, relacionam-se com homens... A maioria dos animais é facilmente convencida dos seus equívocos de interpretação. Os poucos que conseguem ler e interpretar as adulterações do poder se omitem...Alguns animais são executados sob a alegação de alta traição. Tudo o que ocorre de errado na granja é de responsabilidade de Bola-de-neve. Sua história é enterrada na lama de mentiras e manipulação imposta pelo novo regime. As reuniões de domingo são proibidas e a canção Bichos da Inglaterra é censurada. Os bichos trabalham mais e não são reconhecidos por seus esforços. Todas as condecorações são dadas ao líder.Os animais passam privações. Suas rações são diminuídas em prol do bem comum. Os porcos são agraciados com os privilégios do poder. Uma segunda batalha com os humanos surpreende os animais enfraquecidos, mas, apesar das muitas perdas, eles vencem e permanecem sob a ditadura imposta por Napoleão. Infelizmente perderam os parâmetros para avaliação, perderam a memória da história antes do governo de Napoleão.Os homens destroem o moinho de vento e os animais trabalham mais para reconstruí-lo. A dedicação do cavalo Sansão é assustadora, abdica da própria saúde em prol do ideal. Depois de alguns dias é vencido pela fragilidade da avançada idade e do pulmão debilitado... Os porcos simulam uma internação num grande hospital, mas entregam o velho cavalo ao matadouro. Os direitos do trabalhador e do aposentado se encerram na indiferença dos poderosos.O burro Benjamim que aprendeu a ler, apesar de ter preferido o silêncio durante todo o período, tenta alertar os demais animais, mas é tarde... O porco Garganta convence os bichos de que a carroça que levou o cavalo foi comprada pelo grande veterinário, mas continuou com os letreiros do velho dono... Poucos dias depois, o anúncio da morte de Sansão chega à granja e os porcos recebem uma caixa de uísque...Os animais escravizados ganham alento nas palavras do corvo Moisés que garante que, finda esta vida de sofrimentos, haverá a Montanha de Açúcar  Candeo lugar feliz onde nós, pobres animais, descansaremos para sempre desta nossa vida de trabalho. As atitudes dos porcos com Moisés são ambíguas: afirmam, aos bichos, que a história de Moisés é uma grande mentira, porém ele permanece na granja sem trabalhar e ainda com direito a um copo de cerveja por dia. A religião arrebanha algumas ovelhas.Passaram-se anos. As estações vinham, passavam, e a curta vida dos bichos se consumia. A nova geração só conhecia esta realidade, exceto Quitéria, Benjamim, o corvo Moisés e alguns porcos... A vida era muito difícil, mas existia a certeza de que todos os animais eram iguais... Não tardou para os bichos espantados presenciarem os porcos andando sobre duas patas com chicotes nas mãos.Só restava um único mandamento e mesmo assim adulterado: Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros. Depois disto nada mais se estranhava. Os porcos fumavam, bebiam e andavam vestidos  haviam se assenhorado dos hábitos do Sr. Jones. Uma noite, os porcos receberam os vizinhos humanos para uma reunião na casa. Os demais animais ficaram à espreita na janela da sala de estar.Seguiram-se pronunciamentos, declarações de mútuo afeto e admiração por parte dos porcos e dos homens. Os vizinhos humanos parabenizaram os porcos pelos métodos modernos de ordem e disciplina impostos: "... os animais inferiores da Granja dos Bichos trabalhavam mais e recebiam menos comida do que quaisquer outros animais do condado."Todos os alicerces da revolução estavam corrompidos nas palavras de Napoleão. Até mesmo a granja voltaria a ter o mesmo nome da época do Sr. Jones: Granja do Solar.Os animais estupefatos se afastaram, mas não alcançaram vinte metros quando iniciou uma violenta discussão entre Napoleão e o vizinho humano motivada por uma jogada no carteado...As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.A metáfora da janela é fundamental para a abertura da percepção da realidade. Os ditadores podem estar revestidos em qualquer corpo se conservarem as máscaras capazes de adulterar a memória histórica dos governantes, tornando-os marionetes manipuladas com o medo e a omissão.O que fazer com a última mensagem do livro, qual seja, a impossibilidade de distinguir quem era porco e quem era homem? Pensar que qualquer bicho fará o mesmo quando investido de poder ou refletir sobre as atitudes e omissões de quem legitima o poder com o trabalho diário e a aceitação do crescente empobrecimento?A revolução dos bichos é um texto que, a princípio, parece visionário, mas, em poucos capítulos, identificamos os acontecimentos históricos na sátira elaborada pelo grande escritor. George Orwell conseguiu interpretar a realidade com lucidez e quis alardear suas percepções sobre os movimentos sociais, o poder e os indivíduos.A revolução russa. Major (Lenin); Napoleão (Stalin); Bola-de-neve (Trotsky); as ovelhas, que repetem sem consciência os lemas; os cavalos com seus tapa-olhos que só conseguem olhar para o trabalho; as galinhas que se perdem na dispersão; o burro empacado em suas verdades; os cães fiéis à guarda de seus donos... Todos personagens históricos, escravos da própria revolução, prisioneiros dos sonhos depauperados...Como alterar a história? Tornar-se sujeito ativo de transformação? Reescrever os velhos mandamentos e ensaiar uma precipitada revolução ou elaborar uma nova análise das conjunturas a fim de reavaliar nossos princípios?A revolução dos bichos se repete na história. Novos personagens assumem os papéis dos protagonistas e o enredo continua... Alguns preferem a silenciosa leitura dos fatos, outros desejam escrever novos capítulos...É, caro leitor, precisamos de engajamento, de comprometimento com os mandamentos que norteiam nossas ações e de coragem para espreitar a realidade com olhos de transformação sem apagar a memória de nossas conquistas históricas.George Orwell, escritor, jornalista e militante político, participou da Guerra Civil Espanhola na milícia marxista/trotskista e foi perseguido junto aos anarquistas e outros comunistas pelos stalinistas. Desencantado com o governo de Stalin, escreveu A Revolução dos Bichos em 1944. Nenhum editor aceitou publicar a sátira política, pois, na época, Stalin era aliado da Inglaterra e dos Estados Unidos. Só após o término da guerra, em 1945, é que o livro foi publicado e se tornou um sucesso editorial.
                              

A Revolução dos Bichos

Autor: George Orwell
SINOPSE: O sonho de um velho porco de criar uma granja governada por animais, sem a exploração dos homens, concretiza-se com uma revolução. Como acontecem com as revoluções, a dos bichos também está fadada à tirania, com a ascensão de uma nova casta ao poder. Nesta fábula feita sob medida para a Revolução Russa, “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”.
ANÁLISE: A obra de George Orwell é um romance, mas podemos afirmar que é uma fábula sobre o comportamento humano. Destacaremos dois pontos que nos comprovam isso. Primeiro: consideramos uma fábula porque os personagens são animais e agem como homens “ (…) os primeiros foram os três cachorros (…) depois os porcos (…) As galinhas empoleiravam-se nas janelas, e as pombas voaram (…) as ovelhas e as vacas deitaram-se atrás dos porcos.”. Segundo: os fins das fábulas vêm sempre acompanhados por uma lição de moral, e isso também acontece na obra. “ Todos são iguais mas alguns são mais iguais que outros”. A lição que nos é transmitida é que não existe igualdade social devido às relações de concentração de poder nas mãos de uma minoria.
O autor fala diretamente dos humanos ao atribuir a cada animal uma característica na personalidade deles pertencentes aos homens, como: autoritarismo, ingenuidade, crueldade, bondade, egoísmo, indignação, dentre outros. “ (…) Bola-de-Neve era mais ativo que Napoleão, de palavra mais fácil, mais imaginoso, porém não gozava da mesma reputação quanto à solidez do caráter.” Ele também revela traços do comportamento humano quando mostra a busca dos animais por uma vida melhor, a procura da liberdade e de seus direitos.
(…) qual é a natureza desta nossa vida? (…) Nascemos, recebemos o mínimo de alimento necessário (…) e os que podem trabalhar são exigidos até a última parcela de suas forças, (…) trucidam-nos com hedionda crueldade. (…) Nenhum anila é livre.”
A Revolução dos Bichos nos faz entender o funcionamento das sociedades comandadas por diferentes tipos de governo, além de mostrar de forma genial a ambição do ser humano – o sonho pelo poder.
Quando o senhor Jones era o dono da granja explorava o trabalho animal em benefício próprio – acumular mais capital. Em troca de serviços prestados ele pagava com alimentação que nem sempre era boa e suficiente. Temos aí o retrato de uma sociedade CAPITALISTAquem mais trabalha é quem menos ganha.
A Revolução, que se deu por idéia do Major, tinha por princípio básico a igualdade, sendo assim o Animalismo corresponderia ao SOCIALISMO: regime que não existe propriedade privada - em que todos são iguais e trabalham para o bem comum. No princípio até houve um socialismo democrático, juntos participavam de assembléias, contribuíam com idéias e sugestões, todos liderados por Bola-de-Neve, que foi bem aceito pelos animais em geral. “(…) uma sociedade de animais livres da fome e do chicote, todos iguais, cada qual trabalhando de acordo com a sua capacidade, os mais fortes protegendo os mais fracos.”
Os animais, com pretensão de expandir suas idéias sobre o Animalismo, elaboraram sete mandamentos explicitando os direitos e deveres de cada bicho, que de comum acordo deveria ser seguido à risca em suas vidas, igualmente para todos. Porém, o Estado democrático não passou de um sonho, com o decorrer do tempo, de acordo com as atitudes e intenções dos animais que lideravam a fazenda e que se consideravam superiores aos outros, foram modificando totalmente as regras. Os porcos que chegaram ao poder iniciaram um governo incoerente, jogando o ideal de igualdade na lama, uma vez que jamais trabalharam após a Revolução, somente davam ordens aos outros animais.
SETE MANDAMENTOS DO ANIMALISMO
X
1. QUALQUER COISA QUE ANDA SOBRE DUAS PERNAS É INIMIGO.
Esse mandamento muda quando os porcos começam a estabelecer vínculos comerciais com os humanos. “ (…) Napoleão assinara, por intermédio de Whymper, um contrato de fornecimento de quatrocentos ovos por semana.”
2. O QUE ANDA SOBRE QUATRO PERNAS, OU TENHA ASAS, É AMIGO.
Na verdade modifica completamente quando algum animal desobedece ao que eles impõem. “(…) verificaremos que o papel de Bola-de-Neve foi muito exagerado (…), pronuncio a sentença de morte para Bola-de-Neve”.
3. NENHUM ANIMAL USARÁ ROUPA.
Logo depois que passaram a morar na casa grande os porcos começam a usar roupas. “(…) Napoleão apresentando-se com um casaco negro, calções de caça e perneiras de couro.”
4. NENHUM ANIMAL DORMIRÁ NA CAMA.
Os porcos, posteriormente, acrescentaram o termo “com lençóis”, alegando que esses eram invenções humanas. “ (…) Nós retiramos os lençóis das camas da casa e dormimos entre cobertores.”
5. NENHUM ANIMAL BEBERÁ ÁLCOOL.
Quando outros animais encontram garrafas de bebidas alcoólicas na Casa Grande e questionam a respeito eles completam o mandamento com: “EM EXCESSO”. “ (…) os porcos haviam conseguido, não se sabia de que maneira, dinheiro para adquirir outra caixa de uísque”.
6. NENHUM ANIMAL MATARÁ OUTRO ANIMAL.
Os porcos, ao perceberem que alguns animais não estavam de acordo com suas atitudes, resolvem matar a tais para não disseminar a oposição. “(…) E assim prosseguiu a sessão de confissões e execuções, até haver um montão de cadáveres aos pés de Napoleão.”
7. TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS.
Os porcos líderes, por se considerarem superiores aos outros animais, acrescentam no mandamento “ MAS UNS MAIS IGUAIS QUE OUTROS”. Eles são quem governariam a granja pela sua diferenciação. “ (…) Napoleão habitava um apartamento separado dos demais.”
Napoleão representa o desejo da onipotência, do poder absoluto e para conseguir seus objetivos tudo passa a ser válido: mentiras, traições, mudanças de regras. Tempos depois se instaurava na Granja uma verdadeira DITADURAos poderes se concentravam apenas nas mãos dele, não havendo liberdade de expressão nem direito de opiniões dos outros animais.
Os donos do poder subvertem os mandamentos iniciais em seu próprio benefício, alteram hinos de louvor patriótico em louvor próprio, passam a negociar com humanos e a trazê-los para dentro da fazenda. E a maioria dos animais nem se lembra mais o que pregava a revolução original, pois a história é recontada sempre de acordo com os interesses do Porco do Poder, até que a situação torna-se pior do que era antes e o lema passa a ser: “TODOS IGUAIS, MAS UNS MAIS QUE OUTROS”. Essa expressão define toda a obra, porque nunca existiu e nunca vai existir igualdade entre os homens e nem entre os animais. “(…) Se Vossas Senhorias tem problemas com vossos animais inferiores, nós os temos lá com as nossas classes inferiores.”
Os animais, ao passo que foram conquistando seus objetivos, tornaram-se completamente iguais ao homem, tanto psicologicamente como fisicamente (chegando ao absurdo de andar sobre as duas patas traseiras), não dava mais para se distinguir os animais dos homens, no que se referia ao comportamento. A humanização dos porcos alcança seu ápice quando Napoleão convida proprietários vizinhos para uma festa. Os demais animais, praticamente escravizados, chegam perto da Casa Grande e não conseguem enxergam os porcos.
“(…) Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todos iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir, quem era homem, quem era porco.”
INTERTEXTUALIDADES
REVOLUÇÃO RUSSA
Pode-se perceber claramente que esta incrível obra, lançada durante a ditadura stalinista, é uma alegoria a Revolução Russa e ao seu desdobramento. Vários personagens da trama remetem àquela época.
1. SENHOR JONES, explorador e alcoólatra: poderia se identificar com o czar Nicolau II, que ao que dizem as más línguas – tinha aversão ao povo e era um beberrão;
2. MAJOR, o porco velho: sábio e idealista, morre sem ver a Revolução vingar, podendo ser comparado a Lênin e Marx, que faleceram ser ver os frutos da Revolução;
3. BOLA-DE-NEVE, o expansionista, e NAPOLEÃO, o ditador: suas intrigas fazem-nos lembrar da rixa entre Trotski e Stálin, em que o primeiro acabou sendo perseguido e morto a mando da sanguinária ditadura stalinista;
4. CORJA DE CÃES que fazia a segurança de Napoleão: poderia perfeitamente ser vista como uma espécie de KGB, que fora a perseguição de Bola-de-Neve ainda fez vários animais ficarem contrários ao governo como aconteceu com Stalin.
5. PORCO GARGANTA, o porta-voz de Napoleão: transmitia a propaganda do governo sempre por meio da retórica e da eloqüência, sustentáculo da manutenção de qualquer ditadura;
OUTROS ANIMAIS: os únicos que de fato trabalhavam e que fizeram a Granja crescer podem ser classificados como proletariado russo.
Analisando mais a fundo algumas passagens do livro, ainda é possível dizer que a obsessão pelo trabalho disciplinado e dirigido pelos porcos, que controlam o Estado, na expansão da Granja e na construção do moinho relaciona-se com os onipresentes Planos Qüinqüenais de Stálin.
GOVERNO LULA
Algumas promessas de Lula:
LULA: “Estarei satisfeito se ao final do meu mandato, os brasileiros puderem fazer três refeições diárias.”
REVOLUÇÃO DOS BICHOS: Vote em Napoleão e na manjedoura cheia (comida abundante).
LULA: Deus pôs os pés aqui (no Brasil) e falou: “Olha aqui vai ter tudo. Agora é só homens e mulheres terem juízo que as coisas vão dar certo.”
REVOLUÇÃO DOS BICHOS: O solo da Inglaterra é fértil, o clima é bom, ela pode oferecer alimentos em abundância, a um número de animais muitíssimo maior do que o existente.. Por que então permanecemos nesta miséria? Porque quase todo o produto do nosso esforço nos é roubado pelos seres humanos.
Marli Savelli de Campos

Fahrenheit 451 Os Paradoxos da Combustão

Posted by Profº Monteiro on agosto 14, 2011
          Os Paradoxos da Combustão


Introdução
Esta analise foi feita , baseada no filme assistido no anfiteatro da F.I.P ,e tem como objetivo enfatizar a importância da comunicação , leitura de símbolos e signos, leitura e escrita como alicerces de uma sociedade utópica.
Resumo do filme
O filme tem como título, Fahrenheit 451 do  Diretor François Truffaut e foi filmado em 1966, tendo como elenco Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack, Anton Driffing, Alex Scott, Bee Duffell, Noel Davis,Mark Lester  , sua duração é de 111 Min.  E passa-se em uma época onde tudo parece esta em ordem , mas esta falsa ordem esconde uma perversa dominação a base de alienação da social.

     Relação do trabalho com o curso de licenciatura em letras
     A relação de Fahrenheit 451 esta ligada diretamente com o curso de letras ,desde a psicologia comportamental dos personagens, até a utilização da semiótica e semiologia explorada no enredo do filme .
podemos destacar também o uso da oralidade , pois não há escrita e nem leitura que seja permitida , então temos o retorno aos tempos primórdios da civilização onde não havia o registro escrito dos fatos.
O filme desperta em nós o instinto da leitura dos símbolos e nos da a oportunidade de avaliarmos o percurso da humanidade , e planta uma semente em nossa consciência para que ao nos formarmos tenhamos como objetivos educacionais , dar asas a liberdade e criatividade de nossos alunos que serão futuros cidadãos livres e de pensamento próprio , e principalmente fora do domínio totalitarista televisivo.
Analise / Debate
Logo no inicio do filme percebe-se a ausência da leitura, pois os créditos do filme são passados oralmente, ao mesmo tempo nos expõe a varias antenas de TV multicoloridas.

O pano de fundo do filme é uma sociedade totalitária no qual a TV interativa é chamada de “a família” (como no romance político 1984 a teletela está sempre presente, e com ela o     PARTIDO controla o povo).

Transportando isso aos dias atuais temos exemplos de TV interativa como os realities show, big brothers e big fones.

Temos como personagem principal o fogo que é utilizado pelos bombeiros para atear fogo em todo e qualquer livro que seja encontrado, pois são considerados propagadores da infelicidade.
Percebe-se uma inversão de valores muito intensa, afinal desde os primórdios dos tempos o objetivo da humanidade foi de registrar os fatos, já nesta Distopia acontece o contrario e a cada tomada é feita a desconstrução dos valores humanos.

Nessa sociedade há um grande interesse de destruir o conteúdo e manter a forma, temos como exemplo disso o fato de todas as casas serem a prova de fogo, assim dessa forma pode-se queimar os livros e tudo o que houver dentro dela sem abalar suas estruturas, e podendo assim ser reabitada por novos moradores (da mesma forma que os nazistas fizeram com os Judeus, suas casas e pertences), temos também a exemplo disso a esposa de Montag que ao tomar uma overdose, tem seu sangue drenado e substituído por outro, com isso suas memórias ruins também são apagadas para que não se lembre de coisas desagradáveis e não questione o estado, afinal pessoas felizes não questionam e se deixam levar pelo sistema (hoje em dia é comum utilizar-se de meios de entretenimento em massa para desviar a atenção do povo das coisas erradas que acontecem em nosso Pais, por exemplo, carnaval,copa,futebol,referendos inúteis ,entre outros).


Os uniformes dos bombeiros e a censura dos livros, nos remete  a outros regimes totalitários como o fascismo e o nazismo.
chama-nos a atenção o fato de apesar de tudo ser moderno para a época os telefones são antigos (pré anos 60).

 E é nesse cenário bucólico e ficcionaria que esta Montag , um (Fireman) que aos poucos vai percebendo que o motivo real da família não querer livros é que eles fazem o individuo agir como individuo , pensar ,questionar, (livre arbítrio,Vontade própria? ) isso não pode existir em uma sociedade totalitária ou fascista .

O numero 451 que é a temperatura em que o livro entra em combustão (aprox. 233 graus Celsius) e o símbolo da fênix estão presentes  no prédio dos bombeiros , já a salamandra esta afixada nos carros dos queimadores de livro , se fizermos uma relação entre a salamandra e a fênix podemos dizer que Montag sempre viveu entre as salamandras que vivem no fogo e não se queimam , pois mitologicamente devido ao seu corpo frio, são imunes a ele, porem num determinado momento Montag se transforma na fênix e se deixa consumir pelas chamas e renasce das cinzas , renovado e cheio de fogo interior ,um fogo benigno e com fome de conhecimento .

Na mitologia grega o fogo era algo apenas para os deuses, mas foi roubado por Prometeu e entregue aos homens, e por isso foi condenado a passar a eternidade sendo devorado por abutres, porem foi salvo por Hercules durante seus doze trabalhos, para mim Clarice foi o prometeu de Montag, pois passou seu fogo para ele.

 Falando agora sobre o capitão de Montag , o Cap. Betty afirma que todos os livros devem ser queimados e diz isso com aparente pesar ao levantar o livro “Mein kampf “ ( minha luta ) de Adolf Hitler , demonstra também ser grande conhecedor das obras literárias que queima , fato que indica que em algum momento de sua vida ele foi um ávido leitor , mas algo aconteceu e ele se revoltou contra os livros.

No decorrer do filme após Montag ter queimado sua casa e seu capitão ele foge para se juntar aos homens livro.
Apesar de conseguir fugir da família a TV divulga que ele foi morto e isso se apresenta de forma sensacionalista e repleta de suspense ( como ocorre hoje nos telejornais e tablóides sensacionalistas ).





Para a família era primordial manter o poder sobre a sociedade e por isso Montag não podia continuar vivo e se não podiam matar o individuo era preciso matar o signo que o representava e assim foi feito.
Em seu final poético Montag se junta aos homens livro e a Clarice e percebe que o mesmo fogo que destrói também reconstrói, pois ali também se queima livros, mas somente depois De guardados na mente onde ninguém poderá destroçá-los, pois suas mentes jamais serão incineradas e se o forem! O conhecimento já terá passado para outro dos homens livro ( pois diferente de 1984 neste cenário Distópico não existe a crimidéia e nem o duplipensar ) .


Ensaio Acerca do Entendimento Humano (Os Pensadores)-John Locke

Posted by Profº Monteiro on julho 01, 2011


 





Sinopse






Ensaio acerca do Entendimento Humano (em inglês, An Essay Concerning Human Understanding) é um dos principais trabalhos deJohn Locke, junto com o segundo tratato de Dois Tratados sobre o Governo. Foi publicado originalmente em 1690 e tem como tema o pensamento e conhecimento humano.
No livro, Locke afirma que todas as pessoas nascem sem saber absolutamente nada, como se fosse uma "folha em branco" (tabula rasa, embora o autor não tenha usado exatamente essas palavras) preenchida a posteriori através de experiências. Esse ensaio foi uma das principais fontes do empirismo britânico, influenciando muitos filósofos do iluminismo, como David Hume.

A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA", DE GUIMARÃES ROSA

Posted by Profº Monteiro on maio 25, 2011
João Guimarães Rosa (1908-1967)



O senhor... Mire veja : o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - ma que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior: É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.

João Guimarães Rosa é natural de Condisburgo, Minas Gerais. Estudou as primeiras letras com o mestre Candinho, e francês, com o religioso Frei Esteves. Era um aluno tão brilhante que aos seis anos já lera seu primeiro livro nessa língua. Mudou-se para Belo Horizonte, passando a estudar no colégio Arnaldo. Lá, era frequentemente assíduo da biblioteca , colecionava insetos e borboletas, e estudava por conta própria línguas e História Natural.

Formou-se em Medicina em 1930, clinicando durante dois anos e Itaguara, Minas Gerais, onde logo ganhou fama de médico excelente e consciencioso. De volta a Belo Horizonte trabalha como médico voluntário da Força Pública durante a Revolução de 32, sendo efetivado por concurso dois anos depois.

Como era poliglota foi incentivado por um amigo a prestar concurso no Itamaraty para seguir carreira diplomática. Passou em segundo lugar e, em 1938, foi nomeado cônsul em Hamburgo, na Alemanha. Quatro anos depois, o Brasil rompeu relações diplomáticas com esse país, e Guimarães Rosa e outros funcionários do corpo diplomático ficaram reféns em Baden-Baden, tendo sido libertados em troca de diplomatas alemães detidos em solo brasileiro. Como diplomata exerceu atividades ainda na Colômbia, França e no Rio de Janeiro. Em 1952, fez uma viagem de nove dias a cavalo pelo sertão de Minas Gerais, participando de um grupo que conduzia uma boiada. Essa experiência marcaria demais sua obra. A partir do ano seguinte fixou-se definitivamente no Brasil.

Em 1963, foi eleito para ocupar a cadeira n° 2 da Academia Brasileira de Letras, mas, intuindo sua morte ao tomar posse, adiou-a por quatro anos. Morreu em 16 de novembro de 1967, exatamente três dias de sua posse.
Sagarana, foi publicado em 1946. A obra chamou atenção pela linguagem inovadora, pela singular estrutura narrativa e pela riqueza de simbologia dos contos, que o escritor havia começado a escrever dez anos antes. As histórias se passam em fazendas mineiras, tendo como personagens vaqueiros e criadores de gado.

EPOPÉIA EM MINAS GERAIS




O escritor fez, em maio de 1952, um percurso de 240 quilômetros no sertão mineiro, durante dez dias, conduzindo uma boiada. Na viagem, anotou expressões, casos, histórias, procurando apreender de forma mais profunda aquele universo com o qual tinha contato desde a infância. Seu intuito era recriar literariamente o sertão, dando voz a seus personagens.

Em janeiro de 1956 lançou Corpo de Baile, reunião de novelas que posteriormente passaram a ser publicadas em três volumes: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do Sertão.

Seu único romance, Grande Sertão: Veredas, foi publicado em maio do mesmo ano. O livro é uma rica epopéia ambientada no interior de Minas Gerais, transpondo para o Brasil o mito da luta entre o homem e o diabo. Com linguagem inventiva, explora um vocabulário complexo e inusitado. Há desde a recuperação de termos arcaicos e expressões regionais até a criação de novas palavras, para o que o autor se apoiou em seus amplos conhecimentos lingüísticos (veja abaixo).

O impacto de Grande Sertão: Veredas na cena literária foi muito grande. Desde o início, percebeu-se que se tratava de um dos mais importantes textos da literatura brasileira, o que garantiu ao autor enorme reconhecimento em todo o país. Apesar da complexidade, o livro viria a ser traduzido para diversas línguas.

Em 1961, Guimarães Rosa recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. No ano seguinte, lançou Primeiras Estórias, com 21 contos pequenos.

Candidatou-se à Academia Brasileira de Letras, pela segunda vez, em 1963 e foi eleito por unanimidade. Mas não foi empossado imediatamente, porque adiou a cerimônia enquanto pôde. Dizia ter medo de morrer no dia do evento. Só tomou posse em 16 de novembro de 1967. Três dias depois, em 19 de novembro, morreu subitamente em seu apartamento no Rio de Janeiro, de infarto.

Na língua do povo
Os sentidos de algumas expressões do escritor mineiro:
Balalhar – explodir ou partir-se pela ação de balas.
Carregume – peso, dificuldade, gravidade.
Descriado – criado ao desamparo, desnutrido.
Fraternura – ternura de irmãos.
Grãoir – formar grãos.
Nonada – nada, coisa sem importância.
Trestriste – infeliz, forma enfática de triste


OBRAS DE GUIMARÃES ROSA

ROMANCE

Grande Sertão: Veredas (1956).

CONTOS
Sagarana (1946); Primeiras Histórias (1962); Tutaméia (Terceiras Estórias) (1967); Estas Estórias (póstuma, 1969).

NOVELAS

Corpo de Baile (dois volumes) (1956); a partir da terceira edição (1964), essa obra foi desdobrada em três volumes: Manuelzão e Miguilim; Campo Geral; No Urubuquaquá, no Pinhém; Noites no Ser tão.

DIVERSOS

Ave, Palavra (póstuma, 1970).

A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA




A hora e a vez Augusto Matraga é o nono e último conto de Sagarana, publicado em 1946, marcou a estréia de Guimarães Rosa em nossa literatura e expressa a força e o espírito do sertão de Minas Gerais. Ao contar a história da queda de um homem poderoso em busca de sua redenção: “P’ra o céu, eu vou, nem que seja a porrete!...”.

Esse conto é considerado por muitos críticos, a mais importante produção do escritor em Sagarana, tanto por sua estrutura narrativa, quanto pelo tratamento da luta maniqueísta, e todo o questionamento decorrente de uma tomada de consciência do homem optando por uma dessa forças. É uma mistura de redenção e espiritualidade.

O conto tem início em uma festa de leilão no arraial da virgem Nossa Senhora das Dores do córrego do Murici. É final de festa, e as pessoas de bem que se encontravam nesse leilão foram todos embora, ficando somente os farreadores, e Nhô Augusto estava entre eles.

Ficara apenas duas mulheres, as prostitutas Angélica (negra) e Siriena (branca), os homens aproveitaram a presença do leiloeiro para começarem a algarrazarra leiloando-as.

Nhô Augusto ofereceu por Siriema cinqüenta mil-réis, consegue a prostituta, leva-a para casa, porém no meio do caminho, em um lugar bem iluminado enxerga melhor a mulher, achou-a muito magra “[...] Você tem perna de Manuel – Fonseca, uma fina e outra seca!” ,e manda a mulher embora.

Agora, segue seu caminho e encontra com Quim que trazia um recado de Dona Dionorá, sua esposa, pedindo que ele voltasse para casa. Mas Nhô Augusto ignora o pedido da esposa. Ela fica muito magoada com a falta de consideração, ausência, desprezo, falta de atenção do esposo e resolve partir com a filha, Minita, de 10 anos, em companhia de seu Ovídio Moura.

Nhô Augusto era um homem duro, doido, sem detença, como um bicho grande do mato. E, em casa, sempre fechado em si. Nem com a filha se importava. Da esposa gostava, às vezes: da sua boca, das suas carnes. Adorava farras, mulheres, bebidas, enfim, com os prazeres do mundo.

Quando nosso personagem ficou sabendo da notícia (sua esposa partiu) resolve partir atrás da esposa, entretanto, não obteve apoio de seus capangas, pois ele devia di8nheiro para todos, mesmo assim ele decidiu matar Ovídio, mas antes iria vingar-se de seus capangas e do major Consilva. Então foi à chácara do major e foi recebido à pancada, depois da surra o arrastaram até o rancho do Barranco. Antes de matá-lo, esquentaram o ferro do gado e marcaram sua pele com as iniciais do major Consilva, com a dor, Nhô Augusto levanta gritando e se joga do barranco. Diante disso, os capangas pensaram que ele havia morrido, coloca uma cruz no lugar e vão embora.

Um homem negro (Serapião) que por ali passava, encontra-o e leva-o para seu casebre. A tristeza tomou conta de nosso herói nesse período de recuperação. Certo dia, então disse: “Se eu pudesse ao menos ter absolvição dos meus pecados!...”.

Os negros trouxeram um padre para que ele pedisse perdão por seus pecados e após ouvir do padre que sua hora e sua vez iam chegar, considerou sua vida já acabada e esperava apenas a salvação da sua alma.

A partir desse dia ele começou a trabalhar muito e ajudar ao próximo, pois esperava a salvação da sua alma e a misericórdia divina. Dessa forma, fazia o bem sem escolher a quem, para ganhar o reino do céu.

Nessa vida de abstinência, passaram-se quase seis anos, que não fumava, bebia, não olhava para mulheres, nem discutia.

Nhô Augusto mudou totalmente seu comportamento após a surra que quase o levou à morte , a partir daí resolveu ser uma pessoa do bem. Aqui, nesse momento da narrativa, a personagem passou por uma transformação, obteve uma revelação, é a epifania.

Um dia, passou pela região Tião de Thereza, um velho conhecido de Nhô Augusto, dando notícia de sua família: Dona Dionóra continuava amigada com seu Ovídio e sua filha caíra na vida com um homem desconhecido. O Quim Recadeiro havia morrido de morte – matada, com mais de vinte balas no corpo, por causa dele, Nhô Augusto, quanto tentou vingar-se dos capangas que pensava terem o matado.

Diante desse fato, sentiu-se culpado e fez muitas orações, caridades, para não perder seu lugar no céu.

O tempo foi passando, e Nhô Augusto começou a sentir fome, sono, vontade de fumar e falta de mulher. Na verdade, ele pensou que Deus o havia perdoado e com todas essas vontades não se sentiu pecando por isso.

E, é justo nesse momento, que Nhô Augusto considera-se perdoado por Deus, que certo dia aconteceu um fato até hoje lembrado pelo povinho do Tombador, pois chegou ao lugarejo um bando de homens valentões. Nosso personagem foi até o chefe, Joãozinho Bem-Bem, e ofereceu sua casa para que ele ficasse bem hospedado.

Todos conversaram muito bem, durante à noite, e o líder do bando, na hora de ir embora, convidou nosso herói para ir com eles, mas o convite foi recusado. Apesar disso, os invejou “[...] Aqueles, sim, que estavam no bom, porque não tinham de pensar em coisa nenhuma de salvação de alma.” Pensou bem e considerou que essa história de andar pra trás e, por isso, decidiu retornar aos seus antigos caminhos.

Voltou a beber e a sentir saudades das mulheres. Alguns dias depois, despediu-se e foi embora em um jumento emprestado, animal sagrado, misturado às passagens da vida de Jesus.

Então, ele foi ao encontro do bando de Joãozinho Bem-Bem, mas sem a menor idéia de onde encontrá-lo, diante disso, deixou que o jegue o levasse, e entraram em um arraial, denominado Rala – coco, por coincidência, estava a jagunçada de Joãozinho Bem-Bem. Nhô Augusto foi recebido pelo grupo com muita satisfação.

Mas, infelizmente, quando nosso protagonista chega ao arraial está acontecendo uma confusão, na qual Joãozinho Bem-Bem ia matar um homem para vingar a morte do Juruminho, seu colega de bando. Porém, como o culpado havia fugido, “A família vai pagar, direito!”.

Diante disso, chegou o velhote, pai do traidor, ou melhor, pai do matador de Juruminho, este chegou implorando por misericórdia, entretanto, Joãozinho Bem-Bem não queria desculpas “[...] Um dos dois rapazinhos seu filhos têm de morrer, de tiro ou à faca, e o senhor pode é escolher qual deles é que deve de pagar pelo crime do irmão. E as moças... Para mim não quero nenhuma, que mulher não me enfraquece: as mocinhas são para os meus homens...”.

Dessa forma, nosso personagem principal interveio, alegando um pedido em nome de Nosso Senhor e da Virgem, esse pedido tinha que ser respeitado. Então, Joãozinho sentiu-se preso a Nhô Augusto por respeito e não soube o que fazer. Seu bando, no entanto, liderado por Teófilo Sussuara, que era um homem bronco, excessivamente bronco, caminhou para cima de Nhô Augusto, e Joãozinho Bem-Bem também entrou na briga.

O povo encheu a rua, a distância, para ver a briga de Joãozinho Bem-Bem mais o homem do jumento. Por fim, nosso herói cortou a barriga do chefe do bando, condenando-o à morte. Preocupado com a salvação de Joãozinho Bem-Bem, Nhô Augusto pediu que ele se arrependesse de seus pecados, entretanto, não ouviu resposta, pois este morreu e4m seguida.

Nhô Augusto estava muito machucado e pediu para chamar um padre “[...] Pede para ele vir me abençoando pelo caminho, que senão é capaz de não me achar mais ...”.

O povo de Rala-coco dizia: “Foi Deus quem mandou esse home no jumento, por mor de saber as famílias da gente...” E o velho dizia: “Não deixem este santo morrer assim...”.

No final, Nhô Augusto pergunta se no meio daquela multidão alguém ouviu falar de Nhô Augusto Estêves, das Pindaíbas!

Neste momento, apareceu João Lomba, conhecido velho e meio parente, o qual obteve um pedido de Augussto Matraga, que colocasse a bênção em sua filha e que dissesse a Diónora que está tudo em ordem. Depois disso, morreu.

Nota-se que nesse final, o personagem é chamado de Augusto Matraga, e, assim, faz uma relação com o início do conto: “Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves”, pois no início do conto a personagem principal é designada como Augusto Esteves, que mora em Murici, onde é um espaço físico e, também, existencial da personagem, aqui, ele é um homem mandão, autoritário, que vive uma vida de farras, mulheres, capangas, bebidas, não se importa nem com a família. Esse nome possui uma relação social, impõe respeito, poder, e, além disso, ele é filho do coronel Afonsão Esteves, o qual possui dinheiro, porém com a morte deste, Augusto Esteve começa a esbanjar o dinheiro do pai e acaba perdendo tudo, até seus capangas por falta de pagamento.

Após alguns conflitos com seus capangas, Major Consilva, abandono da esposa, surra que levou é nomeado por Nhô Augusto, um período de penitência, sacrifícios, tudo que faz é trabalhar, trabalhar o tempo todo e ajudar o próximo, assim, conseguiria o perdão divino referente aos pecados do passado. Fazia o bem sem escolher a quem, porque seu objetivo era ir ao céu.

Nesse período que a personagem renasceu para uma nova vida, fazer o bem, ele faz reflexões de sua vida, uma busca existencial, é uma travessia existencial, isto é, era um homem mal e, agora, é do bem, e a todo o momento do enredo há esse questionamento maniqueísta.

Nesse tempo de sacrifícios dos prazeres do mundo, aparece um bando de jagunços e traz o encontro de Nhô Augusto com Joãozinho Bem-Bem, os quais são responsáveis pelo final do conto, pois no final da história acontece uma discussão, briga, isso é motivo da morte gloriosa e salvadora do protagonista Augusto Matraga.

Voltando ao momento em que os Jagunços de Bem-Bem chegaram em Tombador, aqui a personagem sente vontade de mudar de vida, ir para o caminho do mundo, achava que Deus já o havia perdoado, portanto, não precisava continuar com todos aqueles sacrifícios.

O espaço Tombador não é apenas um espaço físico, mas também, está relacionado com a existência da personagem, seu momento de travessia existencial. No final do conto “Augusto Matraga, Matraga não é Matraga, não é nada”, logo ,volta ao início da narrativa. Nesse instante, a personagem é nomeada como Augusto Matraga e encontra-se no arraial de Rala-coco.

Quando ele está nos últimos momentos de sua vida, revela-se como Augusto Esteves, da Pindaíba, e preocupa-se com a família, dando a bênção para sua filha e perdoa Diónora, ambas com moradia desconhecida para Augusto Matraga, e após esse pedido morre.

Vale mencionar que existe uma relação entre essa história e a bíblia. Augusto Matraga morreu para ajudar uma pessoa, ou melhor, salvar uma vida, assim como Jesus, que morreu para nos dar a vida eterna.

O intuito da personagem era alcançar o reino do céu, mesmo utilizando da violência. A sua história é uma travessia em busca da absolvição de seus pecados do passado, ou seja, gira em torno desse conflito entre o bem e o mal.