1. (Fuvest 2013) Em quatro das alternativas abaixo, registram-se alguns dos aspectos que, para bem caracterizar o gênero e o estilo das Memórias póstumas de Brás Cubas, o crítico J. G. Merquior pôs em relevo nessa obra de Machado de Assis. A única alternativa que, invertendo, aliás, o juízo do mencionado crítico, aponta uma característica que NÃO se aplica à obra em questão é:
a) ausência praticamente completa de distanciamento enobrecedor na figuração das personagens e de suas ações.
b) mistura do sério e do cômico, de que resulta uma abordagem humorística das questões mais cruciais.
c) ampla liberdade do texto em relação aos ditames da verossimilhança.
d) emprego de uma linguagem que evita chamar a atenção sobre si mesma, apagando-se, assim, por detrás da coisa narrada.
e) uso frequente de gêneros intercalados — por exemplo, cartas ou bilhetes, historietas etc. — embutidos no conjunto da obra global.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES:
CAPÍTULO 73 - O Luncheon*
O despropósito fez-me perder outro capítulo. Que melhor não era dizer as coisas lisamente, sem todos estes solavancos! Já comparei o meu estilo ao andar dos ébrios. Se a ideia vos parece indecorosa, direi que ele é o que eram as minhas refeições com Virgília, na casinha da Gamboa, onde às vezes fazíamos a nossa patuscada, o nosso luncheon. Vinho, frutas, compotas. Comíamos, é verdade, mas era um comer virgulado de palavrinhas doces, de olhares ternos, de criancices, uma infinidade desses apartes do coração, aliás o verdadeiro, o ininterrupto discurso do amor. Às vezes vinha o arrufo temperar o nímio adocicado da situação. Ela deixava-me, refugiava-se num canto do canapé, ou ia para o interior ouvir as denguices de Dona Plácida. Cinco ou dez minutos depois, reatávamos a palestra, como eu reato a narração, para desatá-la outra vez. Note-se que, longe de termos horror ao método, era nosso costume convidá-lo, na pessoa de Dona Plácida, a sentar-se conosco à mesa; mas Dona Plácida não aceitava nunca.
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.
(*) Luncheon (Ing.): lanche, refeição ligeira, merenda.
2. (Fgvrj 2013) Uma palavra, própria da língua escrita, foi empregada figuradamente, no texto, para caracterizar uma ação não verbal. Ela aparece no seguinte trecho:
a) “Já comparei o meu estilo”.
b) “era um comer virgulado”.
c) “desses apartes do coração”.
d) “o ininterrupto discurso do amor”.
e) “reatávamos a palestra”.
3. (Fgvrj 2013) Considere as seguintes afirmações sobre o excerto das Memórias póstumas de Brás Cubas, obra fundamental da literatura brasileira:
I. Depois de haver comparado seu estilo ao andar dos ébrios, o narrador resolve compará-lo também ao “luncheon”, penitenciando-se, assim, dos vícios que praticara em vida – entre eles, o do alcoolismo.
II. Nas comparações com o “luncheon”, presentes no excerto, o narrador revela ser o capricho (ou arbítrio) o móvel dominante tanto de seu estilo quanto das ações que relata.
III. Na autocrítica do narrador, realizada com ingenuidade no excerto, oculta-se a crítica do realista Machado de Assis ao Naturalismo dominante em sua época.
Está correto o que se afirma em
a) I, apenas.
b) II, apenas.
c) I e II, apenas.
d) II e III, apenas.
e) I, II e III.
4. (Fgvrj 2013) No trecho “se a ideia vos parece indecorosa”, revela-se
a) o grau de desfaçatez e até de impudência que o narrador imprime a sua relação com o leitor.
b) que o narrador substitui uma comparação inapropriada e até chula, por uma comparação propriamente decorosa.
c) que o narrador censura o pundonor exagerado e deslocado da personagem Dona Plácida.
d) o peso da censura que, na sociedade patriarcal do século XIX, recaía sobre a prática do adultério.
e) que o narrador reforma seu estilo por respeito à leitora elegante, pertencente às classes superiores, cujos interesses Machado de Assis defendia.
5. (Ufrn 2012) A passagem transcrita abaixo faz parte do capítulo IX (“Transição”), deMemórias Póstumas de Brás Cubas:
E vejam agora com que destreza, com que arte faço eu a maior transição deste livro. Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi meu grão pecado da juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe nascimento; e eis aqui como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura aparente, nada que divirta a atenção pausada do leitor: nada.
(ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ática, 2000.)
Este fragmento ilustra bem o estilo narrativo da obra, que é marcada pela
a) liberdade técnica com que se encadeiam os eventos da história.
b) rigidez da técnica narrativa, indispensável à Escola Realista.
c) fidelidade à ordem cronológica linear dos acontecimentos.
d) negação da cientificidade narrativa típica da Escola Romântica.
6. (Ufrgs 2012) Considere as seguintes afirmações sobre o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis.
I. Quando filiado a uma ordem religiosa, Brás contrariou sua natureza interesseira e sentiu-se verdadeiramente recompensado ao diminuir a desgraça alheia.
II. Baseado na constatação de que, ao olhar para o próprio nariz, o indivíduo deixa de invejar o que é dos outros, Brás teoriza sobre a utilidade da ponta do nariz para o equilíbrio das sociedades.
III. A teoria do Humanitismo de Quincas Borba foi fundamentada no episódio da borboleta negra, que morreu nas mãos do protagonista por não ser azul e bela.
Quais estão corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas I e II.
d) Apenas I e III.
e) I, II e III.
7. (Upf 2012) Leia as seguintes afirmações sobre a obra Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis:
I. A idealização das personagens é um traço significativo do romance.
II. Constata-se, na narrativa, uma ruptura com os lugares-comuns que caracterizavam a linguagem no Romantismo.
III. No romance, destaca-se a presença de um narrador que é também o protagonista da história e que se apresenta como defunto autor.
Qual(is) está(ão) correta(s)?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas III.
d) I e III.
e) II e III.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 3 QUESTÕES:
(...) Um poeta dizia que o menino é o pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.
Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, – algumas vezes gemendo – mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um – “ai, nhonhô!” – ao que eu retorquia: “Cala a boca, besta!” – Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos.
Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéus; mas opiniático, egoísta e algo contemptor dos homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras.
(Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas.)
8. (Unifesp 2011) Indique a frase que, no contexto do fragmento, ratifica o sentido de o menino é o pai do homem, citação inicial do narrador.
a) (...) fui dos mais malignos do meu tempo (...)
b) (...) um dia quebrei a cabeça de uma escrava (...)
c) (...) deitei um punhado de cinza ao tacho (...)
d) (...) fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado (...)
e) (...) alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras.
9. (Unifesp 2011) É correto afirmar que
a) se trata basicamente de um texto naturalista, fundado no Determinismo.
b) o texto revela um juízo crítico do contexto escravista da época.
c) o narrador se apresenta bastante sizudo e amargo, bem ao gosto machadiano.
d) o texto apresenta papéis sociais ambíguos das personagens em foco.
e) os comportamentos desumanos do narrador são sutilmente desnudados.
10. (Unifesp 2011) Para reforçar a caracterização do “menino diabo” atribuída ao narrador, é utilizado principalmente o seguinte recurso estilístico:
a) amplo uso de metáforas que se reportam aos comportamentos negativos do menino.
b) seleção lexical que emprega muitos vocábulos raros à época, particularmente os adjetivos.
c) recurso frequente ao discurso direto para exemplificar as traquinagens do garoto.
d) utilização recorrente de orações coordenadas sindéticas aditivas.
e) emprego significativo de orações subordinadas adjetivas restritivas.
11. (Enem 2ª aplicação 2010) Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triunfo. Tinha uma asa de frango no prato, e trincava-a com filosófica serenidade. Eu fiz-lhe ainda algumas objeções, mas tão frouxas, que ele não gastou muito tempo em destruí-las.
— Para entender bem o meu sistema, concluiu ele, importa não esquecer nunca o princípio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se disséssemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e ele chupava filosoficamente a asa de frango), a fome é uma prova a que a Humanitas submete a própria víscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu sistema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, suponhamos, importado de
Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido; um navio o trouxe, um navio construído de madeira cortada no mato por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho náutico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executadas com o único fim de dar mate ao meu apetite.
ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Civilização Brasiliense, 1975.
A filosofia de Quincas Borba — a Humanitas — contém princípios que, conforme a explanação do personagem, consideram a cooperação entre as pessoas uma forma de
a) lutar pelo bem da coletividade.
b) atender a interesses pessoais.
c) erradicar a desigualdade social.
d) minimizar as diferenças individuais.
e) estabelecer vínculos sociais profundos.