Exercícios – “Livros do Vestibular” A cidade e as serras – Eça de Queirós

Posted by Profº Monteiro on junho 09, 2016

1) (Fuvest-2010)
 (...) É uma bela moça, mas uma bruta... Não há ali mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca turina. Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso a fez a Natureza, assim sã e rija; e ela cumpre. O marido todavia não parece contente, porque a desanca. Também é um belo bruto... Não, meu filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo...
Eça de Queirós, A cidade e as serras.
Neste excerto, o julgamento expresso por Jacinto, ao falar de um casal que o serve em sua quinta de Tormes, manifesta um ponto de vista semelhante ao do
a) Major Vidigal, de Memórias de um sargento de milícias, ao se referir aos desocupados cariocas do tempo do rei.
b) narrador de Iracema, em particular quando se refere a tribos inimigas e a franceses.
c) narrador de Vidas secas, principalmente quando ele enfoca as relações sexuais de Fabiano e Sinha Vitória.
d) Anjo, do Auto da barca do inferno, ao condenar os pecados da carne cometidos pelos humanos.
e) narrador de O cortiço, especialmente quando se refere a personagens de classes sociais inferiores.

2) (Fuvest-2011) Leia o excerto de A cidade e as serras, de Eça de Queirós, e responda ao que se pede.
Era um domingo silencioso, enevoado e macio, convidando às voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) sugeri a Jacinto que subíssemos à basílica do Sacré-Coeur, em construção nos altos de Montmartre. (...) Mas a basílica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacinto, por um impulso bem jacíntico, caminhou gulosamente para a borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o céu cinzento, na planície cinzenta, acidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada de caliça* e telha. E, na sua imobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo**, mais tênue e ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo o vestígio visível de sua vida magnífica.
*Caliça: pó ou fragmentos de argamassa ressequida, que sobram de uma construção ou resultam da demolição de uma obra de alvenaria.
**Fumo: fumaça.
a) Em muitas narrativas, lugares elevados tornam-se locais em que se dão percepções extraordinárias ou revelações. No contexto da obra, é isso que irá acontecer nos “altos de Montmartre”, referidos no trecho? Justifique sua resposta.
b) Tendo em vista o contexto histórico da obra, por que é Paris a cidade escolhida para representar a vida urbana? Explique sucintamente.
c) Sintetizando-se os termos com que, no excerto, Paris é descrita, que imagem da cidade finalmente se obtém? Explique sucintamente.

3) (Fuvest-2012) Tendo em vista o conjunto de proposições e teses desenvolvidas em A cidade e as serras, pode-se concluir que é coerente com o universo ideológico dessa obra o que se afirma em:
a) A personalidade não se desenvolve pelo simples acúmulo passivo de experiências, desprovido de empenho radical, nem, tampouco, pela simples erudição ou pelo privilégio.
b) A atividade intelectual do indivíduo deve-se fazer acompanhar do labor produtivo do trabalho braçal, sem o que o homem se infelicita e desviriliza.
c) O sentimento de integração a um mundo finalmente reconciliado, o sujeito só o alcança pela experiência avassaladora da paixão amorosa, vivida como devoção irracional e absoluta a outro ser.
d) Elites nacionais autênticas são as que adotam, como norma de sua própria conduta, os usos e costumes do país profundo, constituído pelas populações pobres e distantes dos centros urbanos.
e) Uma vida adulta equilibrada e bem desenvolvida em todos os seus aspectos implica a participação do indivíduo na política partidária, nas atividades religiosas e na produção literária.

4) (Fuvest-2012) Leia o excerto de A cidade e as serras, de Eça de Queirós, e responda ao que se pede.

Na sala, a tia Vicência ainda nos esperava desconsolada, entre todas as luzes, que ardiam no silêncio e paz do serão debandado:
- Ora uma coisa assim! Nem querem ficar para tomar um copinho de geleia, um cálice de vinho do Porto!
- Esteve tudo muito desanimado, tia Vicência! - exclamei desafogando o meu tédio. – Todo esse mulherio emudeceu, os amigos com um ar desconfiado...
Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:
- Não! Pelo contrário. Gostei imenso. Excelente gente! E tão simples... Todas estas raparigas me pareceram ótimas. E tão frescas, tão alegres! Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que eu não sou miguelista.
Então contamos à tia Vicência a prodigiosa história de D. Miguel escondido em Tormes... Ela ria! Que coisas! E mau seria...
- Mas o Sr. Jacinto, não é?
- Eu, minha senhora, sou socialista...

a) Defina sucintamente o miguelismo a que se refere o texto e indique a relação que há entre essa corrente política e a história do Brasil.
b) Tendo em vista o contexto da obra, explique o que significa, para Jacinto, ser “socialista”.

5) (Unicamp-2010) Leia o trecho abaixo de A cidade e as serras:
– Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu aquela lenda de Santo Ambrósio... Não, não era Santo Ambrósio... Não me lembra o santo. Ainda não era mesmo santo, apenas um cavaleiro pecador, que se enamorara de uma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, só por a avistar a distância na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, ela entrou num portal de igreja, e aí, de repente, ergueu o véu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o seio roído por uma chaga! Tu também andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua beleza de verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a sua grande chaga... É talvez a tua preparação para S. Jacinto.
(Eça de Queirós, As cidades e as serras. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007, p. 252.)
a) Explique a comparação feita por Zé Fernandes. Especifique a que chaga ele se refere.
b) Que significado a descoberta dessa chaga tem para Jacinto e para a compreensão do romance?

6) (Unicamp-2012) Os trechos a seguir foram extraídos de A cidade e as serras, de Eça de Queirós.
I. Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado por Jacinto – apesar do 202 ter somente dois andares, e ligados por uma escadaria tão doce que nunca ofendera a asma da Srª. D. Angelina! Espaçoso, tapetado, ele oferecia, para aquela jornada de sete segundos, confortos numerosos, um divã, uma pele de urso, um roteiro das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na antecâmera, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tépida duma tarde de Maio, em Guiães. Um criado, mais atento ao termômetro que um piloto à agulha, regulava destramente a boca dourada do calorífero. E perfumadores entre palmeiras, como num terraço santo de Benares, esparziam um vapor, aromatizando e salutarmente umedecendo aquele ar delicado e superfino.
Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser:
– Eis a Civilização!
– Meus amigos, há uma desgraça...
Dornan pulou na cadeira: – Fogo?
– Não, não era fogo. Fora o elevador dos pratos que inesperadamente, ao subir o peixe de S. Alteza, se desarranjara, e não se movia, encalhado!
(...)

II. O Grão-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde mergulhara uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada. Espreitei, por sobre o seu ombro real. Em baixo, na treva, sobre uma larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda fumegando, entre rodelas de limão. Jacinto, branco como a gravata, torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o Grão-Duque que, com os pulsos cabeludos, atirou um empuxão tremendo aos cabos em que ele rolava. Debalde! O aparelho enrijara numa inércia de bronze eterno.
(Eça de Queirós, A cidade e as serras. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2006, p. 28, p. 63.)
a) Levando em consideração os dois trechos, explique qual é o significado do enguiço do elevador.
b) Como o desfecho do romance se relaciona com esse episódio?

Respostas:
1) e
2) a) Nos “altos de Montmartre”, Jacinto, com Paris toda diante dos olhos, tem como uma “revelação” da natureza ilusória e perversa da grande cidade e, pela pri meira vez, cede, ou começa a ceder, à visão crítica de Zé Fernandes.
b) Paris foi a “capital do século XIX”: ao mesmo tempo um grande centro cultural e a cidade progressista por excelência, em razão das reformas urbanas de Haussmann, da incorporação à vida das últimas novidades tecnológicas, do prestígio de sua vida social, que justificavam seu poder irradiador de modas de todo tipo.
c) Em oposição à imagem convencional de uma Paris brilhante, rica e dinâmica, a cidade “jazia, toda cinzenta”, diante dos olhos dos protagonistas que a contemplavam de longe, sem ser envolvidos por seu ritmo febril
3) a
4) a) Trata-se da corrente política que apoiava D. Miguel de Bragança, em sua disputa com seu irmão D. Pedro I (D. Pedro IV, em Portugal) pela Coroa portuguesa. A volta de D. Pedro I a Portugal, em 1831, acentuou o vazio de poder no Brasil, provocando as grandes e graves crises políticas do Período Regencial, que apressaram a aprovação da maioridade de D. Pedro II em 1840.
b) Para Jacinto, ser socialista era estar do lado dos pobres. Nesse sentido, sem nunca deixar de ser o grande proprietário rural que era, tomou uma série de medidas que beneficiavam a estes. Por isso, Jacinto foi identificado a D. Sebastião, que voltara para cuidar de seu povo, sendo também chamado de "o pai dos pobres".
5) a) Zé Fernandes compara o encantamento de Jacinto com o que um homem sente diante de uma bela mulher que ainda não lhe revelou seus defeitos. Tal comparação revela que o encantamento que Jacinto sentia pelas serras, causado afinal pelo tédio e pela saciedade que trouxera de Paris, o havia impedido até então de suspeitar que aquela beleza escondia uma chaga – representada pela pobreza em que vivia uma boa parte da população daquela região. Revela também que o ponto de vista do narrador Zé Fernandes é mais limitado que o de Jacinto, pois aquele já conhecia essa realidade, mas não dá mostras de se incomodar com ela, embora tenha em outras ocasiões se mostrado indignado com a pobreza em Paris.
b) A descoberta da chaga provoca uma profunda mudança em Jacinto. Ele deixa de ser apenas um rico proprietário que desfruta das vantagens de seu nascimento e supera o tédio vital de que tinha sido acometido – até então o único responsável por seu encantamento diante da serra – pela ação social. Nesse sentido, a descoberta da pobreza mudou a atitude de Jacinto da contemplação passiva para a intervenção ativa. Outra possibilidade é argumentar que a transformação de Jacinto não é tão radical quanto parece, e que, de certa forma, sua ação contra a pobreza não se deve a sentimentos humanitários, e sim a uma continuação de seu esteticismo – a pobreza deve ser afastada não porque causa sofrimentos, mas porque é feia, perturba a fruição estética da beleza natural da serra. Isso necessariamente limitaria o alcance de suas ações e denunciaria a presença de uma visão paternalista de sociedade no romance e o caráter messiânico de seu apregoado socialismo (o que seria confirmado pela profecia da transformação de Jacinto em santo).
Para a compreensão do romance, o episódio é importante por revelar que a oposição cidade X serra, ou campo X cidade, ou França X Portugal não é simplista, quer dizer, não é a idealização de um dos polos contra o outro. Se o culto da modernidade na vida parisiense de Jacinto era frívolo e superficial, se a vida moderna na capital francesa corre o tempo todo o risco da esterilidade, a descoberta da beleza e plenitude da vida nas serras não esconde a necessidade de tirá-las do atraso. Nesse sentido, a chaga serve de corretivo à idealização igualmente frívola da vida simples e – na medida em que Jacinto não deixará de introduzir algumas conquistas da civilização (como o telefone) em suas propriedades – mostra que o romance se orienta pela busca do equilíbrio entre civilização e natureza, e não pela oposição entre elas.
6) a) O elevador é apresentado como um símbolo dos exageros e da futilidade a que pode chegar o culto da civilização e da modernidade. O enguiço do elevador coloca em xeque, assim, a infalibilidade da tecnologia.

b) A cena antecipa o desfecho do romance, no qual o protagonista abandonará suas ilusões em relação à metrópole para iniciar uma nova vida na terra dos seus antepassados, que ele se dedicará a transformar, afastando-se do culto frívolo da modernidade para explorar seu potencial humanizador.