LITERATURA BRASILEIRA: PERÍOS COLONIAL E NACIONAL

Posted by Profº Monteiro on dezembro 20, 2013


· PERÍODO COLONIAL: PRIMITIVA SOCIEDADE COLONIAL BRASILEIRA
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· O INÍCIO DA COLONIZAÇÃO do Brasil pelos portugueses coincidiu com a mais brilhante época da história deste povo e particularmente com o mais notável período da sua atividade mental. É o século chamado áureo da sua língua e literatura, o século dos seus máximos prosadores e poetas, com Camões à frente. Essa curta renascença geral e florescimento literário de Portugal não passou, porém, nem podia passar, à sua grande colônia americana. Se aquela interessava à massa da nação, que lhe assistia às manifestações e experimentava os efeitos, esta apenas tocava o círculo estreito que ali, como então em toda a Europa, advertia em poetas e literatos. Roda de fidalgo, de cortesãos, de eclesiásticos, dos quais, justamente os mais cultos, raríssimos se iam a conquistas e empresas ultramarinas.
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· O grosso dos que se nelas metiam eram da multidão ignara que constituía a maioria da nação, o "vulgo vil sem nome" de que, com o seu desdém de fidalgo e letrado, fala o Camões, chefiados por barões apenas menos incultos do que eles. Nem o empenho que os cá trazia lhes consentia outras preocupações que as puramente materiais de a todo o transe assenhorearem a terra, lhe dominarem o gentio e aproveitarem a riqueza, exagerada pela sua mesma cobiça. Não é, pois, de estranhar que em nenhum dos primeiros cronistas e noticiadores do Brasil, no primeiro e ainda no segundo século da colonização, mesmo quando já havia manifestações literárias, se não encontre a menor referência ou alusão a qualquer forma de atividade mental aqui, a existência de um livro, de um estudioso ou cousa que o valha. O padre Antônio Vieira, homem de letras como era, em toda a sua obra, abundante de notícias, referências e informes do Brasil do século XVII, apenas uma vez, acidental e vagamente lhe alude à literatura. Foi quando, escrevendo ao mordomo-mor do Reino, contou, jogando de vocábulo, que na Bahia, "sobre se tirarem as capas aos homens (por decisão de um novo governador) têm dito mil lindezas os poetas, sendo maior a novidade deste ano (1682) nestes engenhos do que nos de açúcar."
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· Entretanto no tempo de Vieira, a maior parte do século XVII, já no Brasil havia manifestações literárias no medíocre poema de Bento Teixeira (1601) e nos poemas e prosas ainda então inéditas mas que circulariam em cópias ou seriam conhecidas de ouvido, de seu próprio irmão Bernardo Vieira Ravasco, do padre Antônio de Sá, pregador, de Eusébio de Matos e de seu irmão Gergório de Matos, o famoso satírico, de Botelho de Oliveira, sem falar nos que incógnitos escreviam relações, notícias e crônicas da terra, um Gabriel Soares (1587), um Frei Vicente do Salvador, cuja obra é de 1627, o ignorado autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil e outros de que há notícia.Não trouxeram, pois, os portugueses para o Brasil algo do movimento literário que ia àquela data em sua pátria. Mas evidentemente trouxeram a capacidade literária já ali desde o século XIII pelo menos revelada pela sua gente e que naquele em que aqui se começaram a estabelecer atingia ao seu apogeu. As suas primeiras preocupações de ordem espiritual, que possamos verificar, produziram-se quase meio século após o descobrimento com a chegada dos primeiros jesuítas em 1549, e sob a influência destes. As escolas de ler, escrever e contar, gramática latina, casos de consciência, doutrina cristã e mais tarde retórica e filosofia escolástica, logo abertas por esses padres nos seus "colégios", imediatamente à sua chegada fundados, foram a fonte donde promanou, no primeiro século, toda a cultura brasileira e com ela os primeiros alentos da literatura.A terra achada "por tanta maneira graciosa" pelos seus descobridores, e que aos primeiros que a descreveram se deparou magnifica, só muito mais tarde entrou a influir no ânimo dos seus filhos os incitamentos das suas excelências. E isso de leve e de passagem, embora com repetições que fariam dessa impressão uma sensação duradoura e característica em a nossa poesia.A gente que a habitava, broncos selvagens sem sombra de literatura, e cujos mitos e lendas passaram de todo despercebidos aos primeiros colonizadores e a seus imediatos descendentes, não podia de modo algum influir na primitiva emoção poética brasileira. Só com o tempo e muito lentamente, pelo influxo de sua índole, do seu temperamento, da sua idiossincrasia na gente resultante dos seus primeiros cruzamentos com os europeus, viria ela a atuar no sentimento brasileiro. Mas ainda por forma que ninguém pode, sem petulância ou inconsciência, gabar-se de discriminar e explicar.
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· É da mesma natureza indireta, reflexa, imponderável, a influência que possa haver tido e que certamente teve no mesmo sentimento o elemento africano, que desde o primeiro século se caldeou com os portugueses e o índio para a constituição do nosso povo. Ainda que o gentio selvagem, com quem entraram os conquistadores em contato, tivesse uma poesia de forma métrica, o que é mais que duvidoso, não se descobre meio de demonstrar não só que ela houvesse em tempo algum influído na inspiração dos nossos primeiros poetas, ou como poderia ter influído. Absolutamente se não descobriu até hoje, mau grado as asseverações fantasistas e gratuitas em contrário, não diremos um testemunho, mas uma simples presunção que autorize a contar quer o índio, quer o negro, como fatores da nossa literatura. Apenas o teriam sido mui indiretamente como fatores da variedade étnica que é o brasileiro. Mas ainda assim a determinação com que cada um deles entrou para a formação da psique brasileira, e portanto das suas emoções em forma literária, é impossível, se não nos queremos pagar de vagas palavras e conceitos especiosos.
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· Há bons fundamentos para supor que os primeiros versejadores e prosistas brasileiros eram brancos estremes, e até de boa procedência portuguesa. É, portanto, o português, com a sua civilização, com a sua cultura, com a sua língua e literatura já feita, e até com o seu sangue, o único fator certo, positivo e apreciável nas origens da nossa literatura. E o foi enquanto se não realizou o mestiçamento do país pelo cruzamento fisiológico e psicológico dos diversos elementos étnicos que aqui concorreram, do qual resultou o tipo brasileiro diferenciado por várias feições físicas e morais do seu principal genitor, o português. Forçosamente lenta em fazer-se, e ainda mais em atuar espiritualmente, não podia esta mestiçagem haver influído na mente brasileira senão superficial, indefinida e morosamente. Em todo caso as duas raças inferiores apenas influíram pela via indireta da mestiçagem e não com quaisquer manifestações claras de ordem emotiva, como sem nenhum fundamento se lhes atribuiu.
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· A sociedade que aqui existiu no primeiro século da conquista e da colonização (1500-1600) e a que desta se foi desenvolvendo pela sua multiplicação, logo aumentada pelo cruzamento com aquelas raças, era em suma a mesma de Portugal nesse tempo, apenas com o amesquinhamento imposto pelo meio físico em que se encontrava. A todos os respeitos nela predominava o português. Índios e negros eram apenas o instrumento indispensável ao seu propósito de assenhorear e explorar a terra e à necessidade de sua preparação. Salvo exceções diminutas, esse português pertencia às classes inferiores do Reino, e quando acontecia não lhes pertencer pela categoria social, era-o de fato pelas condições morais e econômicas. Soldados de aventura, fidalgos pobres e desqualificados, assoldadados de donatários, capitães-mores e conquistadores, tratantes ávidos de novas mercancias, clérigos de nenhuma virtude, gente suspeita à polícia da Metrópole, além de homiziados, de degradados, eram, em sua maioria, os componentes da sociedade portuguesa, para aqui transplantada. Os seus costumes dissolutos, a sua indisciplina moral e mau comportamento social são o tema de acerbas queixas não só dos jesuítas, que acaso no seu rigor de moralistas austeros lhes exageravam os defeitos, mas das autoridades régias dos cronistas e mais noticiadores. Justamente ao tempo da constituição das capitanias gerais a sociedade portuguesa tinha descido ao último grau de desmoralização e relaxamento de costumes.2 Um dos mais perspicazes observadores da primitiva sociedade colonial brasileira, o autor incógnito dos Diálogos das Grandezas do Brasil, explicando em 1618 por que apesar da abundância da terra era tanta a carestia das cousas de maior necessidade, atribui a culpa à negligência e pouca indústria dos moradores que todos não pensavam senão em voltar ao Reino sem cuidarem do adiantamento e futuro da mesma terra.
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· "O Estado do Brasil todo em geral, escreve ele no seu estilo ingenuamente vernáculo, se forma de cinco condições de gente a saber: marítima, que trata de suas navegações e vem aos portos das capitanias deste Estado com suas naus e caravelas carregadas de fazendas que trazem por seu frete, aonde descarregam e adubam as suas naus e as tornam a carregar, fazendo outra vez viagem com carga de açúcares, pau do Brasil e algodão para o Reino, e de gente desta condição se acha, em qualquer tempo do ano, muita pelos portos das capitanias. A segunda condição de gente são os mercadores, que trazem do Reino as suas mercadorias a vender a esta terra, e comutar por açúcares, do que tiram muito proveito; e daqui nasce haver muita gente dessa qualidade nela com as suas lojas de mercadorias abertas, e tendo correspondência com outros mercadores do Reino que lhas mandam. Como o intento destes é fazerem-se somente ricos pela mercancia, não tratam do aumento da terra, antes pretendem de a esfolarem tudo quanto podem.
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· A terceira condição de gente são oficiais mecânicos de que há muitos no Brasil de todas as artes, os quais procuram exercitar, fazendo seu proveito nelas, sem se lembrarem de nenhum modo do bem comum.
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· A quarta condição de gente é de homens que servem a outros por soldada que lhe dão, ocupando-se em encaixotamento de açúcar, feitorizar canaviais de engenho e criarem gados, com nome de vaqueiros, servirem de carreiros e acompanharem seus amos, e de semelhante gente há muita por todo este Estado, que não tem nenhum cuidado do bem geral.
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· A quinta condição é daqueles que tratam da lavoura e estes tais se dividem ainda em duas espécies: uma a dos que são mais ricos, têm engenhos com o título de senhores deles, nomes que lhes cede Sua Majestade e suas cartas e provisões, e os demais têm partidos de canas; a outra, cujas forças não abrangem a tanto, se ocupam em lavrar mantimentos, legumes, e todos, assim uns como os outros, fazem as suas lavouras e granjearias com escravos da Guiné......; e como o de que vivem é somente do que granjeiam com os tais escravos, não lhes sofre o ânimo ocupar a nenhum deles em cousa que não seja tocante a lavoura, que professam de maneira que têm por tempo perdido o que gastam em plantar uma árvore que lhes haja de dar fruto em dois ou três anos, por lhes parecer que é muita demora; porque se ajunta a isto o cuidar cada um deles que logo em breve tempo se hão de embarcar para o Reino.
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· E não basta a desenganá-los desta opinião mil dificuldades que a olhos vistos lhe impedem podê-la fazer; por maneira que este pressuposto que têm todos em geral de se haverem de ir para o Reino com a cobiça de fazerem mais quatro pães de açúcar, quatro covas de mantimentos, não há homem em todo este Estado que procure nem se disponha a plantar árvores frutíferas nem fazer as benfeitorias das plantas que se fazem em Portugal e pelo conseguinte se não dispõem a fazerem criações de gado e outras, e se algum o faz é em muita pequena quantidade e tão pouca que a gasta toda consigo mesmo e com a sua família. E daí resulta a carestia e falta destas coisas..."É o depoimento de uma testemunha de vista, inteligente, bem intencionada e insuspeita por sua nacionalidade, sobre os elementos de que se ia formando a vida econômica da nova sociedade portuguesa na América, e a primeira delegação do desapego à terra pelos seus mesmos povoadores, daquilo que um historiador nosso chamou transoceanismo (Capistrano de Abreu). Ainda mesmo para a apreciação do presente, não perderam todo o interesse estas suas observações, cuja exatidão aliás outros documentos contemporâneos confirmam.Assim escreve no começo do século XVII o nosso historiador Frei Vicente do Salvador: "E deste modo se hão os povoadores, os quais, por mais arraizados que na terra estejam e mais ricos que sejam, tudo pretendem levar a Portugal, e se as fazendas e bem que possuem souberam falar também lhes houveram de ensinar a dizer como os papagaios, aos quais a primeira coisa que ensinam é Papagaio Real, para Portugal, porque tudo querem para lá. E isto não têm só os que de lá vieram, mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam da terra não como senhores mas como usufrutuários, só para a desfrutarem e a deixarem destruída."4Não numera o autor do Diálogos nem os oficiais públicos da governança, nem a clerezia, nem os homens d’armas da conquista e defesa da colônia. Eram a gente parasita sempre suspirosa por tornar à terra, sem nenhum ânimo de ficada aqui. Oficiais e mecânicos e ainda somenos indivíduos, mal aqui chegados tornavam-se de uma filáucia que deu na vista a mais de um observador. A escravidão exonerando-os de trabalhar e habituando-os a viver como no Reino viam viverem os fidalgos, insuflavam-se das fumaças destes. Brandônio, no terceiro Diálogo, observava ao seu interlocutor Alviano que a gente do Brasil era mais afidalgada do que ele imaginava, e aos seus escravos incumbia todo o trabalho. Com estes informes devemos crer não andam muito longe da verdade os noticiadores da corrupção que logo eivou a primitiva sociedade colonial brasileira.O seu primeiro estabelecimento foi, com a única exceção de São Paulo, todo no litoral, à beira-mar. As suas vilas e cidades primitivas, desde São Vicente e Olinda até a do Salvador, enquanto não entraram a construir casas de adobe à moda de Portugal, não se diferenciariam notavelmente das aldeias indígenas aqui encontradas, construídas de paus toscos ou folhagens. E como ali continuariam a viver desconfortavelmente, incomodamente, sordidamente, faltos de móveis, de alfaias e de asseio, segundo viviam os mesmos fidalgos e burgueses no Reino.
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· As mulheres brancas eram raras, as donas e senhoras raríssimas. As famílias existentes na maior parte teriam vindo constituídas de Portugal e muito poucas seriam. As formadas aqui, por motivo de escassez de mulheres brancas, seriam ainda menos. As demais resultavam de uniões irregulares dos colonos com as suas negras, conforme principiaram os portugueses a chamar às índias, ou do seu casamento com estas, como começou a acontecer por influência dos jesuítas, e mais tarde foi acoroçoado pelo rei. As numerosas filhas ilegítimas ou legitimadas do Caramuru casaram com fidalgos e soldados da conquista e seriam mamelucas ainda escuras, do primeiro sangue, e umas broncas caboclas. Ao contrário do que passou na América inglesa, excetuando algum eclesiástico ou alto funcionário, quase não veio para o Brasil nenhum reinol instruído, e ainda incluindo estes pode dizer-se que no primeiro século da colonização não houve aqui algum representante da boa cultura européia dessa gloriosa era.
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· O mais antigo assento da primeira sociedade brasileira, que não desmereça o nome de civilizada, foi a capitania de Pernambuco de Duarte Coelho. Este fidalgo da primeira nobreza portuguesa e ilustrado por bizarros feitos militares na Índia desde 1534 se estabeleceu na sua capitania com a sua mulher, da casa dos Albuquerques, um cunhado, outros fidalgos e cavaleiros de suas relações ou parentescos, e muitos colonos, os melhores talvez dos que nesses tempos vieram ao Brasil. A sua colônia foi a mais bem ordenada e a mais em governada de todas e a que mais prosperou. Mas mesmo aí não faltam testemunhos da descompostura dos costumes coloniais. Jerônimo de Albuquerque, cunhado do austero donatário, quando casou de ordem da rainha escandalizada com a sua libertinagem, fêz-se acompanhar de onze filhos naturais que tivera, uns da filha do tuxaua Arco Verde, outros de suas mancebas índias.6 A ordem e polícia material criada pela forte e esclarecida vontade de Duarte Coelho parece ter aí correspondido ao princípio da maior homogeneidade social, nos elementos mais coerentes da colonização e no maior número e melhor qualidade dos primeiros colonos. Também as da terra favoreciam-lhe o aproveitamento, facilitando ainda, com o seu adiantamento e a obra do seu donatário, pela maior proximidade do Reino e mais freqüentes e rápidas comunicações com ele. Duarte Coelho não parece ter sido um fidalgo sem letras, e as apreciaria porque elas, com João de Barros, o tinham celebrado e a parentes seus por suas façanhas na Índia. Dois dos seus descendentes e sucessores na capitania-mor de Pernambuco foram homens de letras. Não admira, pois, que desta sociedade onde já havia sociabilidade e luxo, saísse a mais antiga obra literária brasileira, a Prosopopéia, de Bento Teixeira, em 1601.
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· A fundação do governo-geral da Bahia e conseqüente centralização da vida colonial da cidade do Salvador, expressamente fundada para esse efeito, criou na segunda metade do século XVI, quando justamente começava a definhar a prosperidade de Pernambuco, a segunda sociedade menos grosseira que houve no Brasil. Não era tão escolhida como a de Duarte Coelho a colônia trazida por Tomé de Sousa. Era, porém, mais numerosa e compunha-se de mais variados e a certos respeitos mais prestáveis elementos de colonização, oficiais e mestres de ofícios, mecânicos, técnicos, artesãos, além dos agricultores e obreiros comuns. Trouxe mais o governador-geral a primeira leva daqueles padres que iam ser o principal instrumento da civilização do país, como ela somente se podia fazer aqui — os jesuítas.
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· A cidade cresceu em número e importância de prédios e aumentou em população. Os jesuítas fundaram colégio e outros religiosos conventos distribuindo todos instrução aos meninos portugueses e indígenas. Ao redor da cidade fizeram-se engenhos. Todo o Recôncavo se foi povoando, contribuindo para o aumento de Salvador, que se fazia uma pequena corte tão disparatada nos seus vários aspectos, costumes e vestuários, quanto o eram os elementos que a formavam: fidalgos, cavaleiros, funcionários, mecânicos, soldados, índios, negros, bem trajados uns, maltrapilhos outros, seminus aqueles. Gibões de veludo e seda bordados de ouro e enfeites de penas à guisa de roupa. Muitos frades, padres em demasia.
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· Por divertimentos comuns, ou jogos ilícitos ou festas de igreja, e extraordinariamente touradas, cavalhadas, canas. Soltura de costumes, viver desregrado, hábitos de ociosidade. Enfim a vida das sociedades coloniais incipientes, compostas de elementos disparatados, e dispostos a desforrarem-se da disciplina e constrangimento das metrópoles por uma vida à manga lassa. Procuravam conter-lhe os ímpetos e desmandos, aliás com pouca eficácia, o governador e seus auxiliares e os padres, principalmente, a acreditá-los, os jesuítas, que aliás constantemente ralham contra esta sociedade. O decorrer dos tempos lhe não modificou consideravelmente a constituição política e moral. Ela permaneceu essencialmente a mesma na sua feição étnica, na sua constituição fisiológica, como na sua formação psicológica, isto é, permaneceu portuguesa, ao menos até as guerras holandesas, na primeira metade do século XVII. Por isso é que durante todo o período colonial, salvo algumas raras, mofinas e intermitentes manifestações de nativismo, a literatura aqui é inteiramente portuguesa, de inspiração, de sentimento e de estilo. Não faz senão imitar inferiormente, sem variedade nem talento, a da mãe pátria. E milagre seria se assim não fosse. Período colonial
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· A literatura do período colonial é naturalmente rica em descrições históricas e geográficas. Um orgulho nacional forte penetra até mesmo os primeiros trabalhos. A exploração do Brasil, as guerras de conquista por Portugal, e a determinação bandeirante do português e de outros europeus a caminho de seu planalto interior, ou sertão, formam os temas principais das primeiras incursões literárias no país. Os primeiros trabalhos literários baseados na conquista eram crônicas e poemas épicos. Estes começaram a refletir logo a afetação da "civilização" ibérica. O estilo amável chamado Gongorismo, por exemplo, fez seu espaço para o Brasil e especialmente para Bahia que desfrutou distinção como o primeiro centro literário do país. Realmente, Bahia era o lugar de algumas das primeiras epopéias brasileiras. Um dos primeiros nacionalistas era o padre Antônio Jesuítico, o Vieira (1608-97); ele defendeu os índios e orou contra o holandês que repetidamente atacou o Brasil durante o 17º século em sermões ricos de dispositivos retóricos e exagero de polêmica. Tendências contemporâneas na Espanha e Portugal foram refletidas pelo satirista Gregório de Mattos Guerra (1633-96); o trabalho dele variou do lirismo delicado à vulgaridade sincera.Pelo segunda metade do 18º século a hegemonia literária passou da Bahia ao estado de Minas Gerais. Das várias epopéias que se originam com este grupo, o que mais se destacava era o Uruguai (1769) por José Basílio da Gama (1740-95). Este verso proporciona narrativas sobre a guerra de Espanha e Portugal contra as missões uruguaias. Descreve a vida dos índios com condolência e sentimentalidade. O frade José de Santa Ritta Durão (aproximadamente 1737-84) também pertenceu à escola de Minas Gerais; o Caramurú épico dele (Dragão de Mar) relata a célebre descoberta da Bahia. Embora hajam sido escritas algumas obras-primas no período colonial, o crescimento e a melhoria econômica do país permitiu a mais brasileiros o acesso ao mundo das letras.
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· Período nacional
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· Tendências literárias continentais continuaram sendo refletidas em no século XIX da literatura brasileira, até mesmo com ênfase às suas preocupações nacionais, o sertão e a selva (a selva amazônica). Foi trazido Romantismo, por exemplo, para o Brasil da França por Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-82) em seus suspiros poéticos de saudades (Suspiros Poéticos e Desejos, 1836). A ele é creditado dar ao verso brasileiro formas novas e mais livres que mais adiante o distinguiram do verso português. De maior estatura como poeta romântico era Antônio Gonçalves Dias (1823-64). Dedicou seu trabalho aos índios por causa do sangue nativo que corria em suas próprias veias. Compilou um Dicionário do Idioma Tupi (1858). Os melhores esforços poéticos de Gonçalves Dias, três volumes de Cantos (1846, 1848, 1851), trazem efusão e sentimentalismo mas é vividamente descritivo da natureza tropical. Antônio Álvares Azevedo (1831-52) é outro do número considerável de poetas românticos brasileiros, muitos de quem, como aconteceu, morreu entre os vinte e os trinta anos. Muitos outros poetas brasileiros do século XIX, como Olavo Bilac (1865-1918), Raimundo Correia (1860-1911), e Alberto de Oliveira (1857-1937), eram discípulos do Parnasianismo francês.
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· Jorge de Lima (1895-1953) foi um dos poetas mais prolíficos e capazes do 20º século. A carreira dele evoluiu de começos Parnasianos à expressão de idéias sociais e revolucionárias. Dois outros poetas excelentes eram Manuel Bandeira (1886-1968), de quem Poemas Completos foram emitidos em tradução inglesa em 1944 (3ª edição), e Carlos Drummond de Andrade (1902-87). O posterior, de quem verso coloquial toma nota de problemas sociais e políticos, teve muita influência em poetas mais jovens. Ele foi, além de poeta e cronista, um grande dramaturgo popular. Poeta tido a ver com temas regionalistas é João Cabral de Melo Neto (1920 -); o verso dele, arraigado em tradição de folclore nativo, é representado em suas Poesias Completas (1968).O novelista mais importante do século XIX foi Joaquim Maria Machado de Assis cuja reputação continua crescendo com tempo. Dele muitos romances são cruciais para a compreensão psicológica do brasileiro, particularmente do litoral; algumas de suas perspicácias em personalidade antecipam as descobertas da psicanálise. Ele vê o caráter de seus personagens com pessimismo e ironia, mas o humor dele é de tristeza em lugar de raiva. Sua obra Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) teve êxito em tradução inglesa (1952). Outras versões inglesas dos trabalhos de Machado de Assis são Esaú e Jacó (1965) e Dom Casmurro (1966).Foram explorados temas índios também na obra romântica de José de Alencar (1829-77). Em trabalhos como O Guarani (1857), um quadro romantizado do nativo é combinado com descrições da magnificência da natureza e com contas coloridas da vida local. Dois novelistas do século XIX que escreveram crônicas sobre a vida no sertão brasileiro foram Bernardo Guimarães (1825-84) e Euclides da o Cunha (1866-1909). A obra máxima da literatura científica brasileira "Os Sertões" (1902) tornou-se, pelo seu valor o romance regional mais conhecido do Brasil. Esta obra-prima é uma narrativa da insurreição de um grupo de fanáticos religiosos e não só descreve a sociedade mas também a geografia, geologia, e zoologia plana do sertão brasileiro. Dois novelistas que fixaram a fase do realismo e do naturalismo na literatura brasileira foram Manuel Antônio de Almeida (1831-61), autor de Memórias de um Sargento de Milícia (2 vol., 1854-55) e Alfredo d'Escragnolle, visconde Taunay (1843-99), que é identificado com a região de Mato Grosso pois ele se imaginou inserido no local em seus romances. O primeiro autor naturalista autêntico foi Aluizio Azevedo (1857-1913), analista severo em prosa; em O Mulato (1881) ele reconta a tragédia de um mulato que é matado para evitar o matrimônio dele com uma mulher branca. Mário de Andrade (1893-1945), por outro lado, ignorou a tradição naturalista e tem a ver com temas sociais de seus contemporâneos, como é evidente em seu volume de poesia, Cidade Alucinada (1922). Seu único romance, Macunaíma (1928), lidando com folclore brasileiro, é narrado em um estilo caracterizado por experiência lingüística.
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· Influências africanas e o tema de escravidão representaram um papel importante no trabalho de muitos escritores brasileiros negros, incluindo, por exemplo, o renomado poeta João Cruz e Sousa (1861-98).A sondagem da sociedade brasileira continua sendo tarefa principal do novelista no 20º século, se é a análise da vida rural, como em Menino de Engenho (1932) de José Lins do Rego (1901-57), ou da vida urbana, como nos trabalhos de Érico Veríssimo, talentoso, versátil (1905-75). Os romances vivazes de Veríssimo foram traduzidos em muitos idiomas, inclusive o inglês: Encruzilhadas, em 1943; Noite, em 1954; e Sua Excelência o Embaixador, em 1967. João Guimarães Rosa (1908-67), autor de Sagarana (1946) e Grande Sertõe - Veredas, continuou a tradição naturalista. Muito influenciado pelo novelista americano William Faulkner, ele escreveu em um estilo experimental idiossincrásico. Os romances de Jorge Amado, particularmente próspero nos Estados Unidos, inclui Gabriela, Cravo e Canela (1958), Terra Violenta (1944), Pastores da Noite (1964) e Dona Flor e seus Dois Maridos (1966). Clarice Lispector (1925-77) foi uma escritora de pequenas histórias e a crítica aclamou o lirismo dela, muito à maneira do roman nouveau francês contemporâneo. Sua coletânea Gravatas Familiares (1960) inclui o antológico " O Crime do Professor de Matemática". Seus romances incluem o alegórico, A Maçã na Escuridão (1961) e A Hora da Estrela.
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· Brasil não produziu dramaturgos que igualem em estatura seus novelistas e poetas, ressalvando-se Nelson Rodrigues, naturalmente, mas os trabalhos de Drummond de o Andrade e Ariano Suassuna (1927 -) notabilizam-se significativamente também neste campo. O trabalho de Suassuna utiliza material do povo e é religioso em conteúdo; sua obra Os Velhacos (1956) traz presente um conceito de mundo como um teatro de bonecos, com Deus como o controlador dos cordões de marionetes... A excitação econômica e social surpreendendo o Brasil no século XX, particularmente com o crescimento de suas comunidades urbanas, promete, porém, o aparecimento de uma literatura ainda mais rica e variada.
Fonte(s):
http://virtualbooks.terra.com.br/literat… http://www.culturabrasil.pro.br/brasilia…

PÓS MODERNISMO

Posted by Profº Monteiro on dezembro 20, 2013


 "O que é pós-modernismo"

Nos anos 80 circula, uma vontade de participação e de desconfiança geral, o pós-modernismo.
Pós-modernismo é o nome dado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes, nas sociedades desde 1950.
Mas, existe o medo, o medo de mudança, o medo do novo e a perda do conservadorismo.
Ele nasce com várias mudanças na arquitetura e principalmente na computação, entra na filosofia nos anos 70 como crítica da cultura ocidental, ou seja, são mudanças gerais desde as artes até na tecnologia, e se alastra por todos os lados e meios, sem saber se é uma forma de decadência ou se é um renascimento cultural.
O pós-modernismo invadiu o cotidiano com a tecnologia eletrônica em massa e individual, onde a saturação de informações, diversões e serviços, causam um “rebu” pós-moderno, com a tecnologia programando cada vez mais o dia-a-dia dos indivíduos.
A importância do pós-modernismo na economia foi “mostrar” aos indivíduos a capacidade de consumo, a adotarem estilos de vida e de filosofias, o consumo personalizado, usar bens e serviços e se entregarem ao presente e ao prazer.
Os pós-modernistas querem rir levianamente de tudo, nos quais encaram uma idéia de ausência de valores, de vazio, do nada, e do sentido para a vida.
A sociedade se torna emergente ou decadente, pois são baseadas nas sociedades pós-industriais na informação que tem como referencia o Japão, os EUA e os centros europeus.
A essência da pós-modernidade vem através das cópias e imagens de objetos reais, a reprodução técnica do real, significa apagar a diferença entre real e o imaginário, ser e aparência, ou seja, um real mais real e mais interessante que a própria realidade.
Um exemplo disso é a televisão, que aliada ao computador simula um espaço hiper-real, espetacular que excita e alegra.
O hiper-real simulado fascina porque é o real intensificado na cor, na forma, no tamanho, nas suas propriedades, é quase um sonho, onde somos levados a exagerar nossas expectativas e modelamos nossa sensibilidade por imagens sedutoras.
O ambiente pós-moderno significa simulação, ele não nos informa sobre o mundo, ele o refaz à sua maneira, hiper-realizam o mundo, o transformando-o num espetáculo.
No ambiente pós-moderno à informação e à comunicação, é o que representa a realidade para o homem, que vieram ampliar e acelerar a circulação das mensagens através dos livros, jornais, cinema, rádio, TV.
Através destas mensagens, o homem procura sua imagem “comprando” discursos, para lhe proporcionar Status, bom gosto, na moda, na aparência, no narcisismo levando muitas vezes a extravagâncias, ou então imitando modelos exóticos.
No pós-modernismo o homem vive banhado num rio de testes permanentes, onde a informação e a comunicação transportam a impulsividade para o consumo.
Saturação, sedução, niilismo, simulacro, hiper-real, digital, desreferencialização, são consideradas senhas para “nomear” o pós-moderno, ele significa mudanças com relação à modernidade, ele é um fantasma que passeia por castelos modernos.
O individualismo atual nasceu com o modernismo, mas o seu exagero narcisista é o acréscimo pós-moderno, ele é um princípio esvaziador, diluidor, ele desenche, desfaz princípios, regras, valores, práticas e realidades, promove a dês-referencialização do real e a dês-substancialização do sujeito.
O pós-modernismo é eclético, mistura várias tendências e estilos sob o mesmo nome, ele é aberto, plural e muda de aspecto se passamos da tecnociência para as artes plásticas, da sociedade para a filosofia, ou seja, ele flutua no indecidível.

2- DO BOOM AO BIT AO BLIP

Simbolicamente o pós-modernismo nasceu em 1945, ali a modernidade, equivalente a civilização industrial, encerrou seu capítulo na história superando o poder criador e pela sua força destruidora.
Nos anos 60, foi a época de grandes mudanças e descobertas tecnológicas, sociais, artísticas, cientificas e arquitetônicas.
A sociedade industrial descende da máquina, de artigos de série padronizados, onde o ferro celebra a liberdade individual do burguês capitalista para o progresso, onde foi criado o Projeto Iluminista da modernidade, o desenvolvimento material e moral do homem pelo conhecimento, foi creditado o imenso progresso das nações capitalistas nos séculos XIX e XX, progresso fundado nas grandes fábricas, ferrovias, navegação e, claro, na exploração, com elas vieram o automóvel, o telefone, a TV, etc...
Completando o cenário moderno as metrópoles industriais, as classes médias consumidoras de moda e de lazer, surgiu a família nuclear , pessoas isoladas em apartamentos, e a cultura de massa (revistas, filmes, novelas,...), dando vitória a razão técnico-científica , inspirada no Iluminismo, a máquina fez a humanidade recuar seus hábitos religiosos, morais e foi ditado novos valores, mais livres, urbanos, mas sempre atrelados no progresso social.
Com a sociedade industrial e a multinacional, chegaram os serviços da tecnologia em geral, como informações e comunicações em tempo real, o que proporciona uma economia pela informação, isso constitui o cenário pós-moderno.
A sociedade industrial produz bens materiais, enquanto a pós-industrial consome serviços, isto é, mensagens entre pessoas. Comercio, finanças, lazer ensino, pesquisas cientificas não exigem fábricas com linha de montagem mas pedem um aceleramento no sistema de informação.
Codificar e manipular o conhecimento, a informação é vital para as sociedades pós-industriais, ou também chamadas de sociedades programadas, onde a programação da produção do consumo e da vida social significa projetar o comportamento.
O objetivo é aumentar a performance, e o desempenho.
As sociedades pós-industriais são programadas e perfomatizadas pela tecnociência para produzir mais e mais rápido tudo o que produzem, para facilitar a vida das pessoas, e com essa rapidez poupa-se tempo e dinheiro.
O ambiente pós-moderno é povoado pela cibernética, a robótica industrial, a biologia molecular, a medicina nuclear, a tecnologia dos alimentos, as terapias psicológicas, a climatização, as técnicas de embelezamento, o trânsito computadorizado, e os eletroeletrônicos.
Os indivíduos na condição pós-moderno são um sujeito “blip”, alguém submetido a um bombardeio maciço e aleatório de informações parcelares, que nunca formam um todo, e com importantes efeitos culturais, sociais e políticos. Pois a vida no ambiente pós-moderno é um show constante.
O sistema pós-industrial tem-se mostrado resistente aos mecanismos de luta modernos, como sindicatos e partidos.
O consumo e atuação no cotidiano são os únicos horizontes oferecidos pelo sistema. Onde surge o neo-individualismo pós-moderno, no qual o sujeito vive sem preconceitos, sem idéias, a não ser cultuar sua auto=imagem e buscar a satisfação aqui e agora.
No Brasil, o aparato do pós-moderno é ainda pobre, o pós-modernismo está nas ruas, nos mass media; óculos coloridos, cabelos new-wave, cintos metaleiros, rock punk, e entre outros, os travestis.

3- DO SACROSSANTO NÃO AO ZERO PATAFÍSICO.

Entre as sociedades pós-modernistas, existiam diferenças em relação à arte.
Foi mudada, destruída, a estética tradicional, e impunha-se a representação realista da realidade, que supunha que a literatura ou a pintura espelhava ponto por ponto o real.
A arte devia ser uma ilusão perfeita do real.
O modernismo é a crise da representação realista do mundo e da arte.
Novas linguagens deveriam surgir, para não apenas representar mais interpretar livremente a realidade, segundo sua visão, diferenciando a arte da realidade.
Esta linguagem deveria ser nova e não imitativa, onde daí nasce o formalismo e o hermetismo da arte moderna, que são um jogo de formas inventadas.
Elas não se referem, deformando ou banindo o real, ela cria formas novas e auto referenciadas, elas formam seus próprios assuntos, como: Linhas, cores, volumes e composição.
Os modernistas não estavam sós à frente “do novo”, estavam também contra ao publico burguês, eram boêmios, bizarros e críticos, queriam e gostavam de “aparecer”, expunham suas emoções e suas visões subjetivas e declaravam-se anjos condutores da humanidade.
Foi na época das guerras que os expressionistas explodem seus sentimentos, em borrões, os surrealistas dão vida ao sonho com humor ou terror, na poesia quebram a sintaxe, usam imagens irracionais, soltam as palavras em liberdade. E os enredos realistas, na música, injetam harmonias dissonantes onde na primeira audição são desagradáveis.
A arte modernista se resume como uma arte irracional, emotiva, humanista.
Na arquitetura a escola Bauhaus, fará triunfar a racionalidade funcional contra o ornamento clássico, projetando com ferro, concreto, vidro, e ângulos retos, as megalópoles atuais.
Com o passar do tempo a impulsividade modernista havia perdido o seu impolamento inicial, a sociedade industrial incorpora no design, na moda, nas artes gráficas não só a estética como o culto do novo pregado pelas vanguardas, era usada em objetos, literatura, decoração; a assimetria e desenhos abstratos.
Foi com o descaso da sociedade de massa que surgiu a arte Pop, que foi contra o subjetivismo e o hermetismo, surgindo assim a primeira bomba pós-moderna.
Convertida em antiarte, ela abandona museus, galerias, e teatros e é lançada nas ruas com outra linguagem, assimilável pela massa, onde é passada a dar valor a arte “banal” cotidiana, como os gibis, rótulos, sabonetes, fotos, anúncios,...
Na pintura e na escultura Pop, houve a fusão da arte com a vida, onde não queriam representar o realismo, e nem interpretar, mas mostrar os verdadeiros objetivos.
A antiarte é a desestetização e a desdefinição da arte, ela abandona a beleza, a forma, o valor ao supremo e eterno e ataca a própria definição, utilizando matérias do cotidiano e abandonando os convencionais.
O artista Pop dilui a arte na vida porque a vida já esta saturada de modelos estéticos massificados.
A antiarte é uma ponte entre a arte culta e a arte de massa, pela singularização do banal, ou pela banalização do singular.
Ela também revive o dadaísmo, pois o importante era o gesto, o processo inventivo e não a obra.
A antiarte é participativa, o público reagindo pelo envolvimento sensorial, corporal, pois ela se apóia nos objetos, na matéria, no momento, no riso e não somente no homem, ela ´e pouco critica, não aponta valores.
Na literatura, o pós-modernismo prolonga a liberdade de experimentação e invenção modernista, mas com algumas diferenças do modernismo, pois eles queriam a destruição da forma romance e querem a o pastiche, a parodia, o uso de formas gastas e de massa, surgi o nouveau roman que destrói a forma romance banindo o enredo, o assunto e o personagem
A literatura pós-moderna é intertextual, para lê-la, é preciso conhecer outros textos.

4- ANARTISTAS EM NULIVERSO.

A “desordem”, da antiarte que não apresenta propostas definidas e nem coerentes, onde os estilos se chocam, pelas suas diferenças, as tendências mesmo assim se sucedem com rapidez. Não há grupos ou movimentos unificados, onde surge a transvanguarda (alem da vanguarda).
Nas artes o pós-modernismo apareceu primeiro na arquitetura, na Bauhaus seu dogma era “a forma segue a função”, onde a reação pós-modernista era contra o estilo universal modernista (Bauhaus), os pós modernistas se voltam para o passado resgatando os conceitos passados mais utilizando materiais diferenciados para criarem uma arquitetura que falasse a linguagem cultural das pessoas.
Eles barateavam os projetos e suas execuções, resgatavam valores simbólicos, organizavam o espaço e eram prestigiados com o retorno dos estilos passados.
Colocavam, humor, emoção, buscavam vida com as cores e mantiam o equilíbrio combinatório de linhas e formas curvas com linhas e formas oblíquas, dava-se alegria e fantasia.
Nos móveis aparecem com desenhos fantasiosos e revestimentos em cores berrantes, o ecletismo rompe a fronteira entre o bom e o mau gosto.
A arte Pop foi a primeira expressão pós-moderna nas artes plásticas, objetos e imagens tiradas do consumo popular entravam em cena.
No Brasil a Pop arte estará ligada na transformação da paisagem urbana e social do país após o golpe militar.
O hiper-realismo ou foto-realismo é uma forma de arte Pop e pós-moderna, pois copiam minuciosamente em tinta acrílica, fotografias de automóveis, paisagens, fachadas,...Que depois são apresentados em tamanho natural ou monumental.
A foto-realista no Brasil teve um abandono, na escultura, as peças hiper vêm cobertas com matérias reais como, roupas, óculos, celofane, etc, e não representados com tintas acrílicas.
A antiarte pós-moderna inventou a minimal art, onde a teoria dizia: vamos tirar os traços estéticos do objeto artístico e reduzi-lo a estruturas primarias, apenas aquele mínimo que, de longe, lembra arte.
A Pop e a minimal desdefinem, desestetizam a arte, mas mantém seu objeto; a arte conceitual dá um passo a mais em direção ao vazio pós-moderno, desmaterializa a arte ao dar sumiço em seu objeto. Grandes ou pequenas, boas ou más, pinturas e esculturas são supérfluas. Só interessa a idéia, a criação mental do artista registrada num esboço, esquema ou frase.
“Se a arte é linguagem, ela pode ser reduzida a frases simples e diretas que valham por um objeto”.
“Um trabalho artístico deve ser compreendido como um fio condutor da mente do artista para a mente do espectador”.
A antiarte pós-moderna se desestetiza porque a vida se acha estetizada pelo design, a decoração. Os ambientes atuais já são arte e assim pintura e escultura podem se fundir com a arquitetura, a paisagem urbana, tornando-se fragmentos do real dentro do real.
O acontecimento é a intervenção preparada ou de surpresa do artista no cotidiano, não através da a obra, mas fazendo da intervenção uma obra. É o Maximo de fusão arte/vida como querem os pós-modernos, pois utiliza a rua, a galeria, pessoas e objetos que estão na própria realidade para desencadear um acontecimento criativo. É uma a provação com o publico, mas amplia sua percepção do mundo onde vive.
Houve outras manifestações artísticas, o op-art, arte cinética, arte pobre, arte da terra, mas os movimentos vieram com o essencial do pós-modernismo; comunicação direta, fusão com estética de massa, matérias não artísticos, objetividade, antiintelectualismo, anti-humanismo, superficialidade, efemeridade.
Mas com o cansaço de tanta experimentação o pós-modernismo enfrentou cara a cara sua verdade, onde a invenção parecia estar esgotada.
A solução foi voltar ao passado pela paródia, o pastiche, e o neo-expressionismo, ou então se atolar no presente.
Na literatura, o noveau roman vem tentando matar o romance. Para isso ele se recusa o realismo, recusa o enredo com começo, meio e fim, o herói metido em aventuras, o retrato psicológico e social a mensagem política ou moral. Contra o modernismo, ele quer valorizar os objetos, que são analisados pelo olhar como câmara cinematográfica, embaralha a ordem espacial e temporal dos acontecimentos, pretendem dizer que a realidade atual é impenetrável e desordenada.
Na literatura como nas demais artes, o pós-modernismo é um monte de estilos convivendo sem brigas no mesmo saco.
No Brasil a literatura apresenta apenas traços superficiais.
Na música, dança, teatro e no cinema, há quebras do formalismo surgem letras de músicas descontraídas, bailarinas gorduchas, altos efeitos especiais que nostalgia onde sempre reina o ecletismo e o minimalismo.
O pós-modernismo produz uma desordem fértil, sem preconceitos, sem hierarquias onde não há regras absolutas e que rompe as barreiras entre os gêneros.

5- ADEUS ÀS ILUSÕES.

O pós-modernismo desembarcou na filosofia de uma mensagem demolidora, mas os filósofos ocidentais disseram as coisas num determinado modo: “Desconstruir o discurso não é destruí-lo, nem mostrar como foi construído, mas por a nu o não dito por trás do que foi falado. Com os pensadores pós-modernos, a filosofia e a própria cultura ocidental caíram sob um fogo cerrado”.
Alguns filósofos pós-modernos não querem restaurar os valores antigos, mas desejam revelar sua falsidade e sua responsabilidade nos problemas atuais, para isso eles lutam em duas frentes:
1- Desconstrução dos princípios e concepções do pensamento ocidental, promovendo a critica da tecnociência e seu casamento com o poder, o sistema.
2- Desenvolvimento e valorização de temas antes considerados menores ou marginais em filosofia, elementos que abrem novas perspectivas para a liberação individual e aceleram a decadência dos valores ocidentais.
Nietzsche entrou em moda, ele entrou fundo no niilismo, onde ele agride a razão, o estado, a ciência, a organização social moderna por domesticarem o homem; suas criticas desconstrutivas vão ser desmascaradas, o fim, unidade, e a verdade, pa ra ele a própria criação de valores supremos significou o niilismo, ela acha que o niilismo será a fonte para uma transvaloração de todos os valores.
Para superar o niilismo, a transvaloração de todos os valores perseguida por Nietzsche ergueria uma cultura voltada para o prazer na alegria, o corpo integrado a imaginação poética, a arte, em suma.
Eclético por natureza o pensamento pós-moderno cruzou varias posições o filosofo Gilles Deleuze e o psicanalista Félix Guattari bagunçaram as idéias contemporâneas com um petardo chamado O antiédipo. A sociedade e individuo eram uma coisa só, máquinas desejantes, onde a idéia de que a máquina desejante era a filha do cruzamento da sociedade capitalista com o inconsciente individual.
Outros filósofos achavam o niilismo um barato, pois libera o individuo das velharias e alimenta seu desejo de personalização e responsabilidade por si mesmo, num mundo sem Deus nem o Diabo.

6- A MASSA FRIA COM NARCISO NO TRONO

Nos anos 80 o pós-modernismo chegou aos jornais e revistas, caiu, na boca da massa.
Esta massa, consumista, narcisista, hedonista, com estilos de vida cheio de modismo, idéias, gostos e atitudes, sempre voltado para a extravagância e o humor.
O pós-modernismo se preocupava muito com o presente, onde muitas vezes ocorreram problemas porque, como ele seduzia a massa, o indivíduo era “obrigado” a consumir, movido pelo domínio da sedução que o envolvia.
Eram grandes as quantidades de informações que o pós-modernismo trazia, sendo que na maioria das vezes inúteis, pois os indivíduos foram se tornando passivos, dependentes da tecnologia e da mídia, os tornando inseguros e limitados em seus desejos, porque a mídia, a propaganda, a moda determinava seus limites.
Os valores eram muitos, as variedades eram diversas, para todos os gostos e vontades, e a idéia do pós-modernismo era realmente criar um mundo sem limites, e voltado para o prazer do consumo.
Para ele só o presente é importante, pois os valores são o que está acontecendo e não o que foi, ou melhor, o que já se passou.
Não há diferenciação entre religião, política, ideologias, família, etc, o pós-modernista crê na realização pessoal, o neo-individualismo.
O individuo se torna narcisista e é atingido pela dessusbstancialização, falta de identidade, onde tudo é descartado, o que prevalece é o modismo e as vontades de cada um.

7- DEMÔNIO TERMINAL E ANJO ANUNCIADOR.

Foram tantas as mudanças nas ciências, tecnologia, nas artes, no pensamento, no social, que o pós-modernismo se instalou de uma grande forma que foi formado uma teia no cotidiano da massa.
Ele teve um “des”, um principio esvaziador, como por exemplo:
Des – refencialização do real.
Des – materialização da economia.
Des – estetização da arte.
Des – construção da filosofia.
Des – politização da sociedade.
Des – substancialização do sujeito.
E outros,...
E com qual resultado?
Dará o zero da representação, não se pode representar o fim da representação!
O pós-modernista vive a irrealidade, niilismo, onde o mundo para ele se resume em: consumo, informação, moda, individualismo, sem uma identidade definida, e nem definitiva.

Conclusão:

O pós-modernismo é tudo o que se refere ao novo foi quando ocorreu a total mudança, ou melhor, uma mudança geral, em quase todos os aspectos, desde, nas artes até nas ciências.
Ele é individualista, liberto de crenças, medos, preconceitos, pelo contrario, foi uma fase de se colocar idéias e pensamentos livres de objeções.
Com isso o pós-modernismo invadiu o mundo dos indivíduos, através da mídia, da tecnologia, da eletrônica, enfim das informações em massa, levando e seduzindo o individuo ao um consumo frenético.
Ele encarna vários estilos de vida e de filosofia, mas com a total ausência de valores, mas por outro lado o pós-modernismo tem a participação do publico, é de fácil compreensão e vivencia o real, o presente, o aqui e o agora.
O pós-modernismo é indefinível, mais é sensível, liberto, e ao mesmo tempo integrado, e aceito pela massa, devido a sua “simplicidade” e facilidade de expor o seu significado.

Trovadorismo (1198 – 1418) por Wagner Batizelli

Posted by Profº Monteiro on dezembro 20, 2013


Contexto Histórico

Para quem acha que a literatura portuguesa inicia-se do nada está enganado. O primeiro movimento literário que se tem notícia é o Trovadorismo. Iniciou-se por volta de 1198, durante a guerra de reconquista do solo português. A região sul de Portugal estava sob o domínio árabe, mas foi totalmente reconquistado em 1249 pelo rei D. Afonso III.

Com esse tumulto, durante o processo de reconquista do território português, cavaleiros cristãos que vinham de diferentes partes da Europa iniciaram o processo de expulsão dos árabes (considerados indesejados) e ainda habitavam a Península Ibérica. Esse período da história ficou marcado pelo feudalismo, que foi o sistema político e econômico da Idade Média sustentado sobre a hierarquia de suseranos (proprietários de grandes extensões de terras) e vassalos (aqueles que se subordinam ao suserano e deviam prestar obediência, submissão e pagar taxas e contribuições).


A sociedade daquela época era tipicamente rural e o comércio bastante diferente daquele que conhecemos hoje, pois não existia o dinheiro. Eram feitas trocas de mercadorias e as principais atividades da época eram a pesca e a agricultura, cultivadas pelos servos. Nesta época medieval cercada por inúmeras guerras, os feudos tinham que se proteger de alguma forma. Assim como nós temos a proteção de nossos policiais, naquela época existiam os cavaleiros, além de proteger tinham a obrigação de servir a Deus, à Igreja e ao suserano.

Foram estes cavaleiros que fizeram parte das cruzadas, um dos mais importantes movimentos da Idade Média. As cruzadas, nada mais eram do que expedições armadas e patrocinadas pela Igreja, que tinham por objetivo recuperar os lugares santos que estavam sob o domínio muçulmano. A população da época tinha uma religiosidade aflorada e por conta disso tornou-se um marco na cultura medieval e tinha como fundamento o TEOCENTRISMO, ou seja, Deus era visto como o centro de todas as coisas.
Este pensamento só tornou-se possível, graças ao momento histórico caótico vivido na época. O povo procurava apoio e ajuda na religião para as dificuldades encontradas neste mundo e a salvação após a morte.

Manifestações Artísticas

Você sabe o que é arte românica e estilo gótico?
É muito simples entender a diferença entre os dois. Basta fazer uma breve observação e a diferença ficará bastante clara. A arte românica caracterizou o uso do arco redondo e paredes de pedras grossas. Predominou as linhas horizontais e janelas pequenas que foram construídas por peregrinos, viajantes e cruzados com mão-de-obra gratuita. Já no estilo gótico é fácil perceber que há uma leveza de estilo. As janelas são imensas, os vitrais são coloridos e as torres parecem mãos que se elevam ao céus em sinal de prece. É neste momento que a pintura e a escultura ganham maior autonomia e as figuras, passam a ter uma crescente humanização.

No estilo gótico percebemos que há uma leveza de estilo. As janelas são imensas, os vitrais são coloridos e as torres parecem mãos que se elevam ao céus em sinal de prece. É exatamente neste momento que a pintura e a escultura ganham maior autonomia e as figuras passam a ter uma crescente humanização.

A Poesia Medieval Portuguesa

Para aqueles que não fazem idéia do que são os textos poéticos da época medieval é simples entender. A poesia da época era acompanhada por dança e música, mais conhecidas por cantigas. Com essas manifestações, muitos artistas apareceram:
- Trovador: era o poeta que compunha as letras e as músicas das canções. Quase sempre era um nobre;
- Jogral, Segrel, Menestrel: Possuía condições financeiras inferiores e cantavam as poesias produzidas pelos trovadores;
- Soldadeira ou jogralesa: moça que cantava e tocava enquanto dançava.

A Poesia Lírico-Amorosa

Cantiga de Amor - Os portugueses não se limitavam à imitação e mostravam grande sinceridade e lirismo em suas composições. A cantiga de amor possui influência provençal, ou seja, ela vem lá de Provença, na França. A cantiga de amor tem como característica o ambiente palaciano, quer dizer, nos palácios dos reis. O eu-lírico é masculino, pois o trovador é quem fala a sua amada, mas sem revelar o seu nome. Na cantiga há o amor cortês. O trovador presta vassalagem amorosa a sua amada e a serve com fidelidade. Veja o trecho abaixo:
“Quer’eu maneira de proençal
Fazer agora um canto d’amor (...)”

Cantiga de Amigo - A cantiga de amigo é de origem popular e tem como característica o ambiente rural. A mulher é sempre uma camponesa, o eu-lírico é feminino, mas são escritas por homens. Na cantiga a mulher sofre muito porque está separada do amante ou namorado. Há também a presença de outros personagens que dialogam com a mulher, como as amigas, a mãe e elementos da natureza, como as flores, as ondas do mar etc. A concepção é mais humana do amor e há presença de paralelismo (construção que se repete com pequenas variações a cada estrofe). Veja um trecho da cantiga de amigo abaixo:
“ Ai eu coitada,
como vivo em gran cuidado
por meu amigo
que ei alongado! (...)”

A Poesia Satírica

No Trovadorismo observamos a presença das cantigas de escárnio e as de maldizer. Qual é a importância delas? As cantigas são importantes porque se aproximam da vida e dos costumes da sociedade. Contribuíram para o aprimoramento da língua literária e exploravam os jogos de palavras e ambigüidades. As cantigas referem-se à vida dos jograis e relatavam os escândalos, os vícios e excessos de toda ordem e rivalidade profissional. Além disso, eram feitas críticas ao burguês, ao nobre mesquinho, ao clero e a fraqueza dos nobres portugueses que não conseguiam derrotar os árabes.

O Desaparecimento do Trovadorismo e o Aparecimento da Prosa

Em um dado momento da história iniciou-se uma crise no sistema feudal. A falta de segurança nos feudos, a superlotação, a valorização da vida cortês e a influência da Igreja fizeram com que a estrutura feudal começasse a desaparecer de vez. Tudo virou uma verdadeira bagunça. Com essa intensa movimentação na história da Literatura Medieval houve o aparecimento da Prosa.

As mais conhecidas são as Novelas de Cavalarias que surgiram das Canções de Gesta (antigos poemas de assuntos guerrilheiros):
- Ciclo Clássico: envolve heróis da mitologia greco-romana;
- Ciclo Carolíngio: narra as aventuras de Carlos Magno e seus guerreiros;
- Ciclo Bretão ou Arturiano: narra as histórias e façanhas do rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda.
Temos um resumo do que foi o primeiro movimento literário em Portugal: o Trovadorismo.

Referências:
MARTINS, Patrícia e LEDO, Teresinha de Oliveira. Guia Prático da Língua Portuguesa. DCL Difusão Cultural, São Paulo, 2003.
MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. São Paulo, Cultrix, 2008
MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa Através dos Textos. São Paulo, Cultrix, 1997
OLIVEIRA, Ana Tereza Pinto de e REIS, Benedicta Aparecida Costa dos. Mini-manual Compacto de Literatura Portuguesa: teoria e prática. São Paulo, Rideel, 2005

LEITURAS EXTRAS
Visite o espaço do Professor Cid Seixas:
http://cidseixas.blogspot.com/2007/11/entre-fico-e-cincia.html

Cantigas de Maldizer do Trovadorismo e da Contemporaneidade

Posted by Profº Monteiro on dezembro 20, 2013

cantiga de Pero Viviaez:

Uã donzela coitado

d' amor por si me faz andar
e en sas feituras falar
quero eu, come namorado:
restr’ agudo come foron,
barva no queix' e no granhon,
e o ventre grand' e inchado.

Sobrancelhas mesturadas,
grandes e mui cabeludas,
sobre-los olhos merjudas;
e as tetas pendoradas
e mui grandes, per boa fé;
á un palm’ e meio no pé
e no cós três plegadas.

A testa ten enrugada
E os olhos encovados,
dentes pintos come dados...
e acabei, de passada.
Atal a fez Nostro Senhor:
mui sen doair' e sen sabor,
des i mui pobr’ e forçada.

A presente cantiga caracteriza-se como uma cantiga de maldizer , pois ela ironiza a beleza da mulher com ofensas diretas. Isso pode ser percebido nos seguintes versos:

“barva no queix' e no granhon,
e o ventre grand' e inchado.

Sobrancelhas mesturadas,
grandes e mui cabeludas,
sobre-los olhos merjudas;
e as tetas pendoradas
e mui grandes, per boa fé;
á un palm’ e meio no pé
e no cós três plegadas.

A testa ten enrugada
E os olhos encovados,
dentes pintos come dados...
e acabei, de passada.”

O eu – lírico aqui vai transfigurando o rosto e o corpo da mulher de forma difamatória. Ainda acrescenta no final da cantiga um dado de cunho social sobre essa mulher, ou seja, ela acaba sendo rejeitada por não haver nenhum encanto nela e também por ser uma mulher pobre. Como uma das características das cantigas de maldizer é representar o grotesco, dessa forma o eu- lírico nessa canção explicita de forma bruta o corpo feminino.

Dialogando com as músicas brasileiras atuais encontramos características semelhantes nos funks brasileiros. Citamos como exemplo a música “Dona Gigi” de Os Caçadores.
Dona Gigi
Os Caçadores
Composição: Waguinho
Ih dasqui ih
“eu sou a dona gigi”
Ih dasqui dasqui dasqui ih
"esse aqui é meu esposo"
Ih dasqui dasqui dasqui ih
"esse aí é seu esposo?!?"
Ih dasqui dasqui dasqui ih
"é sim..."
Se me vê agarrado com ela
Separa que é briga tá ligado!
Ela quer um carinho gostoso
Um bico dois soco e três cruzado!
Tá com pena leva ela pra casa
Porque nem de graça eu quero essa mulher!
Caçadores estão na pista pra dizer como ela é...
Se me vê agarrado com ela
Separa que é briga, tá ligado!
Ela quer um carinho gostoso
Um bico dois soco e três cruzado!
Tá com pena leva ela pra casa
Porque nem de graça eu quero essa mulher!
Caçadores estão na pista pra dizer como ela é...
Caolha, nariz de tomada, sem bunda, perneta,
Corpo de minhoca, banguela, orelhuda, tem unha incravada,
Com peito caido e um caroço nas costas...
Ih gente! capina, despenca,
Cai fora, vai embora ,
Se não vai dançar,
Chamei 2 guerreiros,
Bispo macedo, com padre quevedo pra te exorcisar...
Oi, vaza!
Tcha tchritcha tchritcha tchum, tchritcha tchritcha
Fede mais que um urubu,
Canhão! vou falar bem curto e grosso contigo, hein...
Já falei pra vaza!
Coisa igual nunca se viu...
Oh vai pra puxa... tu é feia...
Na canção vemos uma deformação, deturpação da imagem feminina quando o autor vai enumerando os seguintes adjetivos:

“Caolha, nariz de tomada, sem bunda, perneta,
Corpo de minhoca, banguela, orelhuda, tem unha incravada,
Com peito caído e um caroço nas costas...”
“Fede mais que um urubu.”

Na composição o autor utiliza dos seguintes recursos sonoros: as assonâncias, na repetição da vogal “o”.


“Separa que é briga tá ligado!
Ela quer um carinho gostoso
Um bico dois soco e três cruzado!”

Ainda percebemos a utilização da figura de estilo hipérbole que descreve de modo exagerado essa mulher que é tratada na música.

“Caolha, nariz de tomada, sem bunda, perneta,
Corpo de minhoca, banguela, orelhuda, tem unha incravada,
Com peito caido e um caroço nas costas...”

Encontramos os recursos de rimas cruzadas ou intercaladas:

“Separa que é briga tá ligado!
Ela quer um carinho gostoso
Um bico dois soco e três cruzado!
Quanto as estrofes, a música apresenta três estrofes elas se repetem no decorrer da canção.
Com relação a linguagem da música, é interessante vermos que o autor usa um linguagem totalmente informal dotada de gírias e expressões coloquiais que marcam o vocabulário dos funks, como também das classes sociais que compõem a sociedade brasileira.
Assim, vimos no decorrer dos estudos que algumas cantigas do trovadorismo cantam um amor cortês, divinalizam a dama e a descreve amorosamente. Outras cantigas são o avesso dessa idealização, difamam violentamente essa mulher. Na atualidade, percebemos que geralmente a mulher, nos funks, é vista como simples objeto de prazer e eles a expõem em uma situação sexual explicita; como também a descrevem de modo grotesco associando a figura feminina com termos como cachorra, popozuda, potranca, piranha, vadia, entre outros.

RETIRADO DE http://lerliteratura.blogspot.com/2010/04/visite-o-blog-e-faca-um-passeio.html

HUMANISMO PORTUGUÊS

Posted by Profº Monteiro on dezembro 19, 2013
Segunda época do Medievo - Humanismo

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosse nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu.
Mas nelle é que espelhou o céu.(Fernando Pessoa)

“Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é portuguez.”
(Fernando Pessoa)

A 2ª Época Medieval ou Humanismo corresponde ao período que vai desde a nomeação de Fernão Lopes para o cargo de cronista-mor da Torre do Tombo, em 1434, até o retorno de Sá de Miranda da Itália, introduzindo em Portugal a nova estética clássica, no ano de 1527.
O Humanismo é um período muito rico no desenvolvimento da prosa, graças ao trabalho dos cronistas, notadamente de Fernão Lopes, considerado o iniciador da historiografia português. Outra manifestação importantíssima que se desenvolve no Humanismo, já no início do século XVI, é o teatro popular, com a produção de Gil Vicente. A poesia, por outro lado, conhece um período de decadência nos anos de 1400, estando toda a produção poética do período ligada ao Cancioneiro geral, organizado por Garcia de Resende; essa poesia, por se desenvolver no ambiente palaciano, é conhecida como poesia palaciana.
Tanto as crônicas históricas como o próprio teatro vicentino estão intimamente relacionados com as profundas transformações políticas e sociais verificadas em Portugal no final do século XIV e em todo o século XV.
MOMENTO HISTÓRICO
O Humanismo marca toda a transição de um Portugal caracterizado por valores puramente medievais para uma nova realidade mercantil, em que se percebe a ascensão dos ideais burgueses. A economia de subsistência feudal é substituída pelas atividades comerciais; inicia-se uma retomada da cultura clássica, esquecida durante a maior parte da Idade Média; o pensamento teocêntrico é deixado de lado em favor do antropocentrismo.
O século XIV marca em toda a Europa um período caracterizado pela crise do sistema feudal. Entre as várias causas dessas profundas transformações, podem ser citadas a Peste Negra (em Portugal, só no ano de 1348, a Peste eliminou mais de 1/3 da população); a Guerra dos Cem Anos, entre Inglaterra e França (Portugal e Castela se envolveram no conflito, ora como inimigos, ora como aliados), de 1346 a 1450; a conseqüente escassez de mão-de-obra e as mudanças nas relações sociais.
A Igreja, por sua vez, vive seriíssimas
crises internas, chegando mesmo a ter dois papas
simultâneos (um em Roma, outro em Avignon,
França) .

A crise no sistema feudal, que desmorona
a velha ordem da nobreza, vem, em contrapartida,
fortalecer o poder centralizador nas mãos do rei:


“Outro agente que saiu fortalecido da crise do século XIV foi a Monarquia. O vácuo de poder aberto pelo enfraquecimento da nobreza é imediatamente recoberto pela expansão das atribuições, poderes e influências dos monarcas modernos. Seu papel foi decisivo tanto para conduzir a guerra quanto, principalmente, para aplacar as revoltas populares. A burguesia via nele um recurso legítimo contra as arbitrariedades da nobreza e um defensor de seus mercados contra a penetração de concorrentes estrangeiros. A unificação política significava a unificação também das moedas e dos impostos, das leis e normas, pesos e medidas, fronteiras e aduanas. Significava a pacificação das guerras feudais e a eliminação do banditismos nas estradas. Com a grande expansão do comércio, a Monarquia nacional criaria a condição política indispensável à definição dos mercados nacionais e à regularização da economia internacional.”

SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento. 2. Ed. São Paulo, Atual/Campinas, Unicamp, 1985. P. 8.

Em Portugal, toda essa transição, bem como o poder centralizado, tem como marco cronológico a Revolução de Avis (1383-85). O choque entre a nobreza decadente
e a nascente burguesia antifeudal verifica-se logo após a morte do rei D. Fernando. Com o perido da aproximação de Portugal aos reinos castelhanos, graças à política da regente D. Leonor Telles, a burguesia busca o apoio do povo e fortalece a liderança de João, o Mestre de Avis. Com a Revolução e a aclamação de João como Rei de Portugal, desenvolve-se uma política de centralização do poder nas
mãos do rei, compromissado com a burguesia mercantilista. Desse compromisso resulta a expansão ultramarina português: a partir de 1415, com a Tomada de Ceuta, primeira conquista ultramarina, Portugal inicia uma longa caminhada de um se´culo até conhecer seu apogeu. Ao entrar no século XVI, encontramos Portugal com colônias na África, América e Ásia, e em ilhas espalhadas pelo Atlântico, Índico e Pacífico. Essa grandiosidade leva Camões, em Os lusíadas, a afirmar que o sol estava sempre a pino no império português:

“Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo vê primeiro,
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando desce o deixa derradeiro.”

A PRODUÇÂO LITERÁRIA

A crônica histórica – Fernão Lopes

Pouco se sabe da vida de Fernão Lopes. Deve ter nascido entre 1380 e 1390, de origem popular. Em 1418, é nomeado guarda-mor da Torre do Tombo; em 1434, é promovido a cronista-mor. Em 1454, por estar “tão velho e fraco”, é substituído por Gomes Eanes Zurara. Supõe-se que tenha falecido por volta de 1460.

Fernão Lopes deixou-nos três crônicas:
- Crônica Del-Rei D. Pedro I – perfil psicológico do rei D. Pedro I, traçado a partir da narração dos principais acontecimentos de seu reinado. As páginas que relatam os fatos ligados à morte de Inês de Castro são famosíssimas.

D. Pedro I e Inês de Castro

D. Pedro foi o oitavo rei de Portugal, governando o país por 10 anos (1357 – 1367). Antes de ser coroado, quando seu pai – Afonso IV – ainda governava Portugal, D. Pedro viveu talvez o mais famoso drama de amor da história lusitana.

D. Pedro era casado com D. Constança, mas apaixonou-se por Inês de Castro, dama de companhia de Constança e pertencente à poderosa família de Castela. Após a morte de Constança e para regularizar a situação dos seus filhos bastardos, D. Pedro marca núpcias com Inês de Castro. O rei Afonso IV e os nobres portugueses, temerosos da influência castelhana, não aceitam o casamento do futuro rei com Inês. Como única saída, Afonso IV ordena o assassinato de Inês, degolada em 1355.

Segundo a lenda, D. Pedro, inconformado, manda vestir a noiva com roupas nupciais, senta o cadáver no trono e faz os nobres lhe beijarem a mão. Daí falar-se que a infeliz foi “rainha depois de morta”.

Na realidade, D. Pedro manda trasladar os restos mortais de Inês, que com pompas de rainha, apenas em 1361, quando já era rei. Portanto, seis anos após o assassinato.
Esse romance e a figura de Inês de Castro transformaram-se em verdadeiro mito. Desde o século XV até os nossos dias vários poetas homenageiam Inês. Camões dedicou-lhe um episódio em Os lusíadas, assim iniciado:
“O caso triste e Dino da memória
Que do sepulcro os homens desenterra
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que depois de morta foi rainha.”

- Crônica del-Rei D. Fernando – fonte histórica muito importante para reconstituir o período que vai desde o casamento de D. Fernando com Leonor Telles até o início da Revolução de Avis. Pela leitura da obra sabe-se por exemplo, a reação popular ao casamento de D. Fernando, bem como o perfil psicológico do rei e de sua esposa.
- Crônica Del-Rei João I – essa crônica subdivide-se em duas partes: a primeira estende-se desde 1383, com a morte de D. Fernando, até 1385, com a aclamação de D. João como rei de Portugal; a segunda retrata o governo de D. João de 1385 até 1411, quando é assinada a paz com Castela.
Fernão Lopes deve ser estudado sob dois aspectos que se complementam perfeitamente: como historiador e como artista.
Fernão Lopes tinha um compromisso com a verdade histórica. Isso o conduz a uma imparcialidade na análise dos fatos, bem como a uma severa investigação das fontes, chegando mesmo a fazer crítica histórica ao discutir a veracidade das fontes. A visão histórica de Fernão Lopes afasta-se da herança medieval da narração dos acontecimentos palacianos; apesar de ser chamado de “o historiador da Revolução de Avis”, sua visão dos fatos não é regiocêntrica (o rei como centro de todos os acontecimentos), chegando mesmo a criticar certas atitudes dos reis. A esse respeito, assim, se manifesta Antônio José Saraiva no primeiro volume de sua História da cultura de Portugal:

“Fernão Lopes sai fora desta regra geral (...) pela audácia com que arranca as máscaras e os mantos enganadores para nos dar, em vez de reis, príncipes ou cavaleiros, homens de carne e osso. Várias classes sociais, múltiplos aspectos da vida atraíram a sua penetrante observação e, mais do que a observação, a compreensão.”
Dessa forma, o cronista nos dá uma visão de conjunto da sociedade portuguesa da época, analisando os mais variados setores que a compunham, ressaltando principalmente a importância dos fatores econômicos e a participação do povo, a quem tratava de “arraia-miúda” ou “barrigas-ao-sol”.
A par dos méritos de historiadores, Fernão Lopes nos aparece com outro valor: era um verdadeiro artista literário, redigindo em estilo simples (apesar do português arcaico), com amplo domínio das palavras. Certas narrações aproximam-se muito da técnica novelística, constituindo quase uma conversa com o leitor, ao mesmo tempo em que traçam excelentes quadros de comportamento e perfis humanos de D. João, D. Leonor Telles. D. Fernando, D. Pedro I, todos com sua ambições e fraquezas, atos de bravura e covardia.
O sucesso de Fernão Lopes foi Gomes Eanes Zurara, responsável por um retrocesso, pó apresentar uma visão de história senhorial, regiocêntrica, sem preocupação com a veracidade dos fatos. Zurara apenas escreveu sobre as conquistas ultramarinas a partir da terceira parte da Crônica Del-Rei D. João I, que trata da Tomada de Ceuta.Vasco Fernandes de Lucena, Rui de Pina, Duarte Galvão e Garcia de Resende completam a lista de cronistas do período do Humanismo em Portugal.

Leitura
Crônica del-Rei D.Pedro I
Transcreve-se a seguir, um trecho do capítulo XXXI da Crônica del-Rei D. Pedro I, no qual Fernão Lopes narra a morte dos assassinos de Inês de Castro. Segundo consta, três eram os assassinos: Alvoro Gonçalvez, Pero Coelho e Diego Lopes; o terceiro conseguiu escapar, livrando-se da morte, fato que deixou el-Rei muito magoado.
A Portugal foram tragidos Alvoro Gonçalvez e Pero Coelho, e chegaron a Santarem onde elRei Dom Pedro era; e elRel com prazer de sua vinda, porem mal magoado por que Diego Lopes fugira, os sahiu fora arreceber, e sanha cruel sem
piedade lhos fez per sua maão meter a tromento, querendo que lhe confessassem quaaes forom da morte de Dona Enes culpados, e que era o que seu padre trautava contreele, quando adavom desaviindos por aazo da morte dela; e nenhuum deles respondeo a taaes perguntas cousa que a elRei prouvesse; e elRei com queixume dizem que deu huum açoute no rostro a Pero Coelho, e ele se soltou enton contra elRei em desonestas e feas palavras, chamando-lhe treedor, fe prejuro, algoz e carneceiro dos
homeens; e elRei dizendo que lhe trouxessem cebola e vinagre pêra o coelho enfadousse deles a mandouhos matar.
A maneira de su morte, seendo dita pelo meudo seria mui estranha e crua de contar, ca mandou tirar o coraçom pelos peitos a Pero Coelho, e Alvoro Gonçalcez pelas espadoas; e quaaes palavras ouve, e aquel que lho tirava que tal oficio avia pouco em costuma, seeria bem doorida cousa douvir;enfim mandoulhos queimar; e todo feito ante os paaços onde el pousavava, de guisa que comendo oolhava quanto mandava fazer. Muito perdeo elRei de sua boa fama por tal escambo este, o qual foi avudo em Portugal e em Vastela por mui grande mal, dizendo todolos boons que o ouviam, que os Reis erravom mui muito hindo contra suas verdades, pois que estes cavaleiros estavom sobre segurança acoutados em seus reinos.

LOPES, Fernão. In: Fernão Lopes – Crônicas. Rio de Janeiro, AGIR, 1968. p. 23.

Atente para a narrativa de Fernão Lopes e suas interessantes construções, como no trecho em que narra a morte dos assassinos. Observe que há uma frase principal em que o autor afirma que não vai contar a “maneira das mortes” e, no meio dessa frase, conta como foram arrancados os corações dos dois homens. A frase aqui chamada de principla seria a seguinte:

“A maneira de suas mortes, contada em detalhes, seria muito estranha e crua de contar (... ca mandou ... em costume,), seria bem dolorida de ouvir.”

a propósito do texto

1. O que fazia el-Rei enquanto os dois homens eram assassinados? Justifique sua resposta com uma passagem do texto.

2. Cite e comente uma característica de Fernão Lopes presente no texto.

3. Observe que no texto aparecem as palavras Coelho (substantivo próprio) e coelho (substantivo comum). Explique o significado de cada uma.

4. Você concorda com a crítica que Fernão Lopes faz aos reis nas últimas linhas do texto? Por quê?

A poesia palaciana

A poesia palaciana (assim chamada por sei feita por nobres para a nobreza) ou quatrocentista (por se desenvolver nos anos de 1400) representa uma decadência na poesia portuguesa. Entre as causas desse empobrecimento, citam-se: a nova nobreza da dinastia de Avis, menos requintada e mais austera; o espírito comercial; o enriquecimento da burguesia; as mudanças formais do texto; a pobreza dos temas palacianos (os modismos, as festas, os tipos de vestidos e de chapéus etc.).
Toda a poesia desse período foi compilada por Garcia de Resende em seu Cancioneiro geral, publicado em 1516. São cerca de 100 poesias de 286 autores (dos quais 29 escreviam em castelhano), representando os mais variados tipos de texto.
Aspectos formais da poesia palaciana.
A principal modificação apresentada pela poesia quatrocentista é a separação entre a música e o texto. Isto ocasiona um apuro formal: os textos apresentam um ritmo próprio a partir da métrica, da rima, das sílabas tônicas e átonas; uma melodia, enfim. Os versos mais comuns no Cancioneiro geral são as redondilhas, que podiam ser de dois tipos: redondilha maior (verso de sete sílabas poéticas) e redondilha menor (versos de cinco sílabas poéticas).






Aspectos temáticos da poesia palaciana
No Cancioneiro geral encontram-se temas variados, os quais resultam em textos que vão da poesia religiosa à satírica, passando pela poesia dramática, heróica e lírica.
Na poesia lírica quatrocentista, pela própria característica palaciana, notamos a permanência de uma tradição das cantigas de amor, com o homem declarando seu amor a uma dama inatingível. Entretanto, a sensualidade reprimida nas cantigas de amor brota à flor dos versos ao lado de uma profunda idealização da mulher, segundo o modelo italiano de Petrarca: a mulher é perfeita física e moralmente, com longos cabelos louros, olhos azuis ou verdes, lábios vermelhos, a pele alva, com maçãs do rosto róseas, a postura discreta, serena, elegante.
Importante é notar que o ideal romântico de mulher tem origem nas idealizações femininas medievais.

Leitura - Texto 1: Cantiga

Senhora, partem tam trites
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
tam fora d’esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

CASTELO-BRANCO, João Roiz de. In: Antologia da poesia portuguesa. op. cit, p. 742


Texto 2
Cantiga
Acho que me deu Deus tudo
para mais meu padecer:
os olhos – para nos ver,
coração – para sofrer,
e língua – parar ser mudo.

Olhos com que vos olhasse,
coração que consentisse,
língua que me condenasse:
mas não já que me salvasse
de quantos males sentisse.
Assi que me deu Deus tudo
para mais meu padecer:
os olhos – para vos ver,
coração – para sofrer,
e língua – para ser mudo.

SOUSA, Francisco de. In: SPINA, Segismundo. Presença da literatura portuguesa – Era Medieval 4. Ed. São Paulo, Difel, 1971. p. 136.


a propósito dos textos

1. Os dois textos apresentados caracterizam-se por uma melodia bem própria aos temas tratados. Os poetas (notadamente o autor do texto 1) trabalham o ritmo das palavras, a rima, a métrica. Faça a contagem de sílabas poéticas dos primeiros versos de cada texto. Qual a métrica utilizada?

2. Você diria que o texto 1, por sua temática, aproxima-se mais das cantigas de amigo ou das de amor? Justifique.

3. Nas cantigas do Cancioneiro geral há uma constante que chama a atenção do leitor: os olhos do home apaixonado. Nos dois textos apresentados, qual o significado dos “olhos”, o que eles representam, qual o papel desempenhado pelos “olhos” em relação ao sofrimento amoroso?

4. Explique o verso “língua que me condenasse” dentro do contexto da cantiga de Francisco de Sousa (texto2).

O teatro popular – Gil Vicente
Gil Vicente é considerado o criador do teatro português pela apresentação, em 1502, de seu Monólogo do vaqueiro (também conhecido como Auto da visitação). Entretanto, seria errôneo afirmar que não houve representações anteriores a Gil Vicente em Portugal.

O que existia de fato, eram representações cênicas e não textos elaborados para representação que é o que caracteriza a atividade literária.
Durante a Idade Média podemos distinguir dois tipos de encenação: as religiosas ou litúrgicas e as profanas.
As encenações religiosas ou litúrgicas eram apresentadas no interior das igrejas e dividiam se em:
- mistério: representação de uma passagem da vida de Cristo, normalmente realizada na época do Natal ou da Páscoa;
- milagre: representação de um milagre operado por um santo;
- moralidade: representação dramática com o intuito de moralizar os costumes.
As encenações profanas (assim chamadas por serem realizadas fora das igrejas – pro, ‘antes’, ‘fora’ e fanum, ‘templo’) podiam ser de dois tipos:
- arremedilho ou arremedo: imitação cômica de pessoas ou de acontecimentos;
- momos: encenações carnavalescas, de temática muito variada, apresentando personagens mascarados.

Os primeiros textos elaborados para serem representados foram os de Gil Vicente.

Sobre a vida de Gil Vicente pouco se sabe. Teria nascido por volta de 1465. A primeira data seguramente ligada ao poeta é o ano de1502, quando na noite de 7 para 8 de junho recitou o Monólogo do vaqueiro no quarto de D. Maria, esposa de D. Manuel, que acabava de dar à luz o futuro rei D.João III. Durante 34 anos produziu textos teatrais e algumas poesias, sendo que sua última peça – Floresta de enganos – data de 1536. Supõe-se que o artista tenha morrido por volta de 1537. Se nada se sabe a respeito de sua origem, podemos afirmar com certeza que viveu a vida palaciana como funcionário da corte e que possuía bons conhecimentos da língua portuguesa, bem como do castelhano, do latim e de assuntos teológicos.

A produção completa de Gil Vicente constitui-se de 44 peças, sendo 17 escritas em português,11 em castelhano e 16 bilíngues , além de ter sido colaborador de Garcia de Resende no Cancioneiro geral. A influência castelhana também é sentida na estrutura e na temática de suas peças: os autos pastoris denotam influência de Juan del Encima, e as farsas de Torres de Naharro.

O teatro vicentino é basicamente caracterizado pela sátira, criticando o comportamento de todas as camadas sociais: a nobreza, o clero e o povo.

Apesar da sua profunda religiosidade, o tipo mais comumente satirizado por Gil Vicente é o frade que se entrega a amores proibidos chegando a enlouquecer de amor, à
ganância na venda de indulgências, ao exagerado misticismo, ao mundanismo, à depravação dos costumes. Criticou desde o frade de aldeia até o alto clero dos bispos,
cardeais e até mesmo o papa. Criticou também aqueles que rezavam mecanicamente; os que, invocando Deus, solicitavam favores pessoais; e os que assistiam à missa por obrigaçãosocial. Para exemplificar, leia este diálogo entre um sapateiro e o Diabo:

“Sapateiro: Quantas missas eu ouvi,
nom me hão elas de prestar?
Diabo: Ouvir missas, então roubar –
É caminho para aqui.”

Auto da barca do Inferno

Curioso é também perceber que o Diabo nunca força ninguém ao pecado, ele apenas trabalha com as atitudes das próprias pessoas. Na peça Auto da feira, o Diabo, ao morar sua banca para oferecer os pecados, é interpelado por um serafim e assim
argumenta:

“E há de homens ruins
mais mil vezes que não bons,
como vós mui bem sentis.
E estes hão-de-comprar
disto que trago a vender,
que são artes de enganar,
e cousas para esquecer,
o que deviam lembrar.
(...)

Toda a glória de viver
das gentes é ter dinheiro,
e quem muito quiser ter
cumpre-lhe de ser o primeiro
o mais ruim que puder.
(...)

mas cada um veja o que faz,
porque eu não forço ninguém.
Se me vem comprar qualquer
clérugo, ou leigo, ou frade
falsas manhas de viver,
muito por usa vontade,
senhor, que lhe hei-de fazer?”

A baixa nobreza representada pelo fidalgo
decadente e pelo seu escudeiro é outra faixa
social insistentemente criticada pelo autor.
Por outro lado,o teatro vicentino satiriza o povo que abandona o campo em direção à cidade ou mesmo aqueles que sempre viveram na cidade, mas que, em ambos os casos, se deixam corromper pela perspectiva do lucro fácil. Isso explica a defesa e o carinho que Gil Vicente tem para com um tipo:
o Lavrador, talvez o verdadeiro povo, vítima da
exploração de toda a estrutura social. No Auto
da barca do Purgatório, o Lavrador assim se
manifesta:

“Sempre é morto quem do arado
há-de viver.
Nós somos vida das gentes
e morte de nossas vidas;
e tiranos – paciente
que a unhas e a dentes
nos tem as almas roídas.
(...)

o lavrador
não tem tempo nem lugar
nem somente d’alimpar
as gotas do seu suor.”

Riquíssima é a galeria de tipos humanos que formam o teatro vicentino: o velho apaixonado que se deixa roubar; a alcoviteira; a velha beata; o escudeiro fanfarrão; o médico incompetente; o judeu ganancioso; o fidalgo decadente;
a mulher adúltera; o padre corrupto. Gil Vicente não tem a preocupação de fixar
tipos psicológicos, e sim de fixar tipos sociais. Observe que a maior parte dos
personagens do teatro vicentino não tem nome de batismo, sendo designados
pela profissão ou pelo tipo humano que representam.
Quanto à forma,à utilização de cenários e montagens, o teatro de Gil Vicente é extremamente simples. Tampouco obedece às três unidades do teatro clássico – ação, lugar e tempo. Seu texto apresenta uma estrutura poética, com o predomínio da redondilha maior,havendo mesmo várias cantigas no corpo de suas peças.

Outro aspecto a salientar no teatro vicentino aparece como conseqüência natural de seu momento histórico: ao lado de algumas características tipicamente medievais (religiosidade, uso de alegorias, de redondilhas, não-obediência às três unidades do teatro clássico), percebem-se características humanas, tais como a presença de figuras mitológicas, a condenação à perseguição aos judeus e cristãos novos, a crítica social.


Leitura : Auto da Lusitânia
O Auto da Lusitânia foi escrito em 1532, sendo portanto uma das últimas peças de Gil Vicente. Classifica-se como uma fantasia alegórica. A peça é dividida em duas partes distintas:
- na primeira parte, assiste-se às atribuições de uma família judaica;
-na segunda parte, assiste-se ao casamento de Portugal, cavaleiro negro, com a princesa Lusitânia. Os dois diabos que aparecem no texto vêm presenciar o casamento e escutam o entre Todo o Mundo e Ninguém.
Todo o Mundo e Ninguém
(1532)

Figuras: Ninguém, Todo o Mundo, Berzebu e Dinato.
(Estão em cena dois diabos, Berzebu e Dinato, este preparado para escrever.)
_________________________

Entra Todo o Mundo, homem como rico mercador, e faz que anda buscando algua cousa que se lhe perdeu; e logo após ele um homem, vestido como pobre. Este chama Ninguém, e diz:

Ninguém • Que andas tu i buscando?
Todo o • Mil cousas ando a buscar:
Mundo delas não posso achar,
porém ando porfiando
por quão bom é porfiar.
Ninguém • Como hás nome, cavaleiro?
Todo o • Eu hei nome Todo o Mundo,
Mundo e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro
e sempre nisto me fundo
Ninguém • E eu hei nome Ninguém
e busco consciência.


[Berzebu para Dinato]
Berzebu • Esta é boa experiência!
Dinato, escreve isso bem.
Dinato •Que escreverei, companheiro?
Berzebu • Que Ninguém busca consciência,
e Todo o Mundo busca dinheiro.


[Ninguém para Todo o Mundo]
Ninguém • E agora que busca lá?
Todo o • Busco honra muito grande
Mundo
Ninguém • E eu virtude, que Deos mande
que tope co’ela já.

[Berzebu para Dinato]
Berzebu • Outra adição nos açude:
escreve logo i a fundo,
que busca honra Todo o Mundo
e Ninguém busca virtude.
Ninguém • Buscas outro mor bem qu’esse?
Todo o • Busco mais quem me louvasse
Mundo tudo quanto eu fezesse.
Ninguém • E eu quem me repreendesse
em cada cousa que errasse.

[Berzebu para Dinato]
Berzebu • Escreve mais.
Dinato • Que tens sabido?
Berzebu • Que quer um extremo grado
Todo o Mundo ser louvado,
e Ninguém ser repreendido.

[Ninguém para Todo o Mundo]
Ninguém • Buscas mais, amigo meu?
Todo o • Busco a vida e quem ma dê.
Mundo
Ninguém • A vida não sei quem é,
a morte conheço eu.

[Berzebu para Dinato]
Berzebu • Escreve lá outra sorte.
Dinato • Que sorte?
Berzebu • Muito garrida
Todo o Mundo busca a vida,
E ninguém conhece a morte.

[Todo o Mundo pra Ninguém]
Todo o • E mais queria o Paraíso
Mundo sem mo ninguém estrovar
Ninguém • E eu ponho-me a pagar
quanto devo pera isso.

[Berzebu para Dinato]
Berzebu • Escreve com muito aviso.
Dinato • Que escreverei?
Berzebu • Escreve
que Todo o Mundo quer o paraíso,
e Ninguém paga o que deve.

[Todo o Mundo para Ninguém]
Todo o • Folgo muito d’enganar,
Mundo e mentir naceo comigo.
Ninguém •Eu sempre verdade digo,
sem nunca me desviar.



[Berzebu para Dinato]
Berzebu • Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso!
Dinato • Quê?
Berzebu • Que Todo o Mundo é mentiroso
e Ninguém diz a verdade.

(VICENTE, Gil. “Auto da Lusitânia”.Iin: Teatro de Gil Vicente. 5. ed. Lisboa, Portugália, 1972, p. 301-4.)
a propósito do texto

1. Comente as figuras de Todo o Mundo e Ninguém, caracterizando-as.

2. Comente as falas de Berzebu. O que elas representam?

3. Qual a postura de Berzebu e de Dinato? São passivos ou ativos? O que pretende Gil Vicente com isso?

4. Destaque dois aspectos formais do texto e comente-os.

5. Você concorda com a fala de Berzebu: “Que Ninguém busca consciência e Todo o Mundo dinheiro”? Por quê?


Exercícios e testes

1. “Se outros porventura em esta crônica buscam formosura e novidade de palavras, e não a certeza das histórias, desprazer-lhe-á nosso razoado...
Que lugar nos ficaria para a formosura e novidade de palavras, pois todo nosso cuidado em isto desprendido não basta para ordenar a nua verdade?”
Qual o autor das palavras acima? Que característica de sua obra podemos inferir do texto apresentado?

2. “O tipo mais insistentemente observado e satirizado é o clérigo, e especialmente o frade. Trata-se de fato de uma classe numerosíssima, presente em todos os setores da sociedade portuguesa, na corte e no povo, na cidade e na aldeia.”
O texto crítico refere-se a qual autor? Além do frade, cite um outro tipo humano satirizado pelo autor em questão.

3. Cantiga
“S’obedecera a razam
e resistira a vontade,
eu vivera em liberdade
e nam tivera paixam.

Mas, quando já quis olhar
s’em algum erro caíra,
achei ser tudo mentira,
s’a isto chamam errar:
que, seguir sempre razam
e nam mil vezes vontade,
é negar sensualidade,
cujo é o caraçam.”
(Duarte de Resende)
(razam = razão; nam = não; paixam = paixão; coraçam = coração)

a) Faça a contagem das sílabas poéticas da primeira estrofe.

b) Qual o esquema de rima utilizado pelo poeta?

c) Dê um sinônimo de vontade.

d) No texto, o poeta coloca uma oposição fundamental que vai caracterizar a poesia amorosa dos séculos seguintes. Comente-a.

4.Seu teatro caracteriza-se, antes de tudo, por ser primitivo, rudimentar e popular, muito embora tenha surgido e tenha se desenvolvido no ambiente da Corte, para servir de entretenimento nos animados serões oferecidos pelo Rei. Entre suas obras destacam-se Monólogo do Vaqueiro, Floresta de Enganos, O Velho da Horta, Quem tem farelos?. Trata-se de:
a) Martins Pena
b) José de Alencar
c) Gil Vicente
d) Arthur Azevedo
e) Sá de Miranda

5. Conquanto fizesse uma profissão de fé profissional no prólogo à Crônica del - Rei D. João, afirmando não reservar para o seu labor historiográfico um lugar para a ‘fremosura e afeitamento das palavras’, a preocupação estética é evidente...” O texto refere -se a:
a) Gomes Eanes Zurara
b) Fernão Lopes
c) Gil Vicente
d) Garcia de Resende
e) D. Dinis

Texto para as questões 6 e 7:
“Todo o mundo: - Folgo muito d’enganar
e mentir nasceu comigo.
Ninguém: - Eu sempre verdade digo.
Sem nunca me desviar.
(Berzebu para Dinato)
Berzebu: - Ora, escreve lá, compadre,
Não sejas tu preguiçoso!
Dinato: - Quê?
Berzebu: - Que Todo o Mundo é mentiroso.
E Ninguém diz a verdade.
(Auto da Lusitânia – Gil Vicente)


6 -No texto, Todo o Mundo e Ninguém constituem tipos:
a) arcaicos
b) alegóricos
c) amorais
d) políticos
e) religiosos

7 -O texto afirma que:
a) todo o mundo é mentiroso.
b) Ninguém é mentiroso.
c) todo o mundo diz a verdade.
d) ninguém diz a verdade.
e) Todo o Mundo é mentiroso.

8 - Aponte a alternativa correta em relação a Gil Vicente:
a) Compositor de caráter sacro e satírico
b) Introduziu a lírica trovadoresca em Portugal
c) Escreveu a novela Amadis de Gaula
d) Só escreveu peças em português
e) Representa o melhor do teatro clássico português

9 - Assinale a alternativa em que se encontra uma afirmação incorreta sobre a obra de Gil Vicente:
a) Sofre influência de Juan Del Encina, principalmente no teatro pastoril de sua primeira fase.
b) Seus personagens representam tipos de uma vasta galeria de estratos da sociedade portuguesa da época.
c) Por viver em pleno Renascimento, apega-se aos valores greco-romanos, desprezando os princípios da Idade Média.
d) Um dos maiores valores de sua obra é ter contrabalançado uma sátira contundente com o pensamento cristão.
e) Suas obras-primas, como a Farsa de Inês Pereira, são escritas na terceira fase de sua carreira, período de maturidade intelectual.

10. Na Farsa de Inês Pereira, Gil Vicente:
a) retoma a análise do amor do velho apaixonado, desenvolvida em O velho da horta.
b) mostra a revolta da jovem, que não pode escolher seu marido, tema de várias peças desse autor.
c) denuncia a revolta da jovem confinada aos serviços domésticos, o que confere atualidade à obra.
d) conta a história de uma jovem que assassina o marido para livrar-se dos maus-tratos.
e) aponta, quando Lianor narra as ações do clérigo, uma solução religiosa para a decadência moral de seu tempo.

11. Caracteriza o teatro de Gil Vicente:
a) a revolta contra o cristianismo
b) a obra escrita em prosa
c) a elaboração requintada dos quadros e cenários apresentados
d) a preocupação com o home e com a religião
e) a busca dos conceitos universais
12. Leia as três afirmações abaixo a respeito da Farsa de Inês Pereira.

I – Pode ser colocada como representante do teatro de costumes vicentinos
II – Encaixa-se na tradição da farsa medieval sobre adultério feminino desenvolvida por Gil Vicente.
III – Inês Pereira é uma moça que vive na vila e pretende subir de condição

a) Todas estão corretas.
b) Todas estão incorretas.
c) Apenas I e II estão corretas.
d) Apenas I e III estão corretas.
e) Apenas II e III estão corretas.

13. Vem o Anjo Custódio com a Alma e diz:

Anjo
Alma humana formada
De nenhuma cousa, feita
Mui preciosa,
De corrupção separada,
E esmaltada
Naquella frágoa perfeita
Gloriosa;
Planta neste valle posta
Pera dar celestes flores
Olorosas,
E pera serdes tresposta
Em a alta costa
Onde se crião primores
Mais que rosas;
Planta sois e caminheira,
Que ainda que estais, vos is
Donde viestes.
Vossa pátria verdadeira
He ser verdadeira
Da glória que conseguis:
Andae prestes”.

O texto acima transcrito pertence ao autor teatral de maior destaque na literatura portuguesa. Pelo próprio texto se pode identificar a época em que foi escrito. Assim, assinale, em uma das alternativas, a relação época-autor a que o texto pertence:

a) teatro medieval – Gil Vicente
b) teatro clássico – Luís de Camões
c) teatro romântico – Almeida Garret
d) teatro naturalista – Teixeira de Queirós
e) teatro moderno – Almada Negreiros

14. Leia o poema:
“Coração, já repousavas,
já não tinhas sojeição,
já vivias, já folgavas;
pois por que te sojugavas
outra vez, meu coração?

Sofre, pois te não sofreste
na vida que já vivias;
sofre, pois te tu perdeste
como t’outra vez perdias!

Sofre, pois já livre estavas
e quiseste sojeição;
sofre, pois te não lembravas
das dores de qu’escapavas;
sofre, sofre coração!”

A literatura portuguesa é fértil em obras onde se reúnem composições poéticas de diversos autores, obras a que normalmente se dá o nome geral de cancioneiros. E é através deles que se pode ter uma idéia exata da evolução da poesia nos primeiros quatro séculos de literatura peninsular, nomeadamente da passagem da poesia trovadoresca, com seus cenários simples e seu universo rural, para a poesia palaciana, que nos mostra jogos verbais e conceptuais mais elaborados.
A composição acima transcrita é de um cancioneiro famoso, publicado em 1516.
Assinale nas alternativas abaixo indicadas, o cancioneiro a que pertence.

a) Cancioneiro popular
b) Cancioneiro alegre, de Camilo Castelo Branco
c) Cancioneiro da Vaticana
d) Cancioneiro de Luís Franco Correia
e) Cancioneiro geral de Garcia de Resende

15. Atente-se para o texto:
“Então se despediu da Rainha, e tomou o Conde pela mão, e saíram ambos da câmara a uma grande casa que era diante, e os do Mestre todos com ele, e Rui Pereira e Lourenço Martins mais acerca. E chegando-se para o Mestre com o Conde acerca duma fresta, sentiram os seus que o Mestre lhe começava a falar passo, e estiveram todos quedos. E as palavras foram entre eles tão poucas, e tão baixo ditas, que nenhum por então entendeu quejandas eram. Porém afirmam que foram desta guisa:
- Conde, eu me maravilho muito de vós serdes homem a que eu bem queria, e trabalhardes-vos de minha desonra e morte!
- Eu, Senhor? disse ele. Quem vos tal cousa disse, men-tiu-vos mui grã mentira.
O Mestre, que mais tinha vontade de o matar, que de estar com ele em razões, tirou logo um cutelo comprido e envi-ou-lhe um golpe à cabeça; porém não foi a ferida tamanha que dela morrera, se mais não houvera.
Os outros todos, que estavam de arredor, quando viram isto, lançaram logo as espadas fora, para lhe dar; e ele movendo para se acolher à câmara da Rainha, com aquela ferida; e Rui Pereira, que era mais acerca, meteu um estoque de armas por ele, de que logo caiu em terra morto.
Os outros quiseram-lhe dar mais feridas, e o Mestre disse que estivessem quedos, e nenhum foi ousado de lhe mais dar.”
O texto transcrito acima é de Fernão Lopes e pertence à Crônica de D. João I.
As crônicas de Fernão Lopes caracterizam-se por tentarem re-produzir a verdade histórica como se esta tivesse sido testemu-nhada. Por outro lado, é com Fernão Lopes que a língua portuguesa inicia o percurso da sua modernidade.
Nestes termos, assinale, nas alternativas abaixo indicadas, a que melhor caracteriza o trecho transcrito da Crônica de D. João I.
a) Narração realista e dinâmica que quase nos faz visualizar os acontecimentos.
b) Fidelidade absoluta aos acontecimentos históricos.
c) Utilização de uma linguagem elevada, de acordo com a repro-dução dos fatos históricos.
d) Preocupação em mencionar os nomes de todas as pessoas presentes à morte do Conde.
e) Exaltação do feito heróico do Mestre ao matar o inimigo do Reino.
16. (UM-SP) Assinale a alternativa incorreta a respeito da obra de Gil Vicente.
a) Embora servisse para o entretenimento da Corte, seu teatro caracteriza-se por ser primitivo, rudimentar e popular.
b) Algumas de suas peça têm caráter misto, de oscilante classificação como o Auto dos quatro tempos.
c) Apresenta-se como traço de união entre a Idade Média e a Renascença.
d) Ao lado da sátira, encontram-se elevados valores cristãos.
e) Aprofunda-se nos valores clássicos, seguindo rigidamente os padrões do teatro grego.