O REALISMO E NATURALISMO

Posted by Profº Monteiro on dezembro 19, 2013
“O Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento; - o Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para condenar o que houve de mau na nossa sociedade.” Eça de Queirós.

Introdução
A poesia do final da década de 1860 já anunciava o fim do Romantismo; Castro Alves, Sousândrade e Tobias Barreto faziam uma poesia romântica na forma e na expressão, mas os temas estavam voltados para uma realidade político-social. O mesmo se pode afirmar de algumas produções do romance romântico, notadamente a de Manuel Antônio de Almeida, Franklin Távora e Visconde de Taunay. Era o pré-realismo que se manifestava.
Na década de 70 surge a chamada Escola de Recife, com Tobias Barreto, Sílvio Romero e outros, aproximando-se das idéias européias ligadas ao Positivismo, ao Evolucionismo e, principalmente, à filosofia alemã. São os ideais do Realismo que encontravam ressonância no conturbado momento histórico pelo Brasil, sob o signo do abolicionismo, do ideal republicano e da crise da Monarquia.
Em 1857, o mesmo ano em que no Brasil era publicado O guarani, de José de Alencar, na França é publicado Madame Bovary, de Gustave Flaubert, considerado o primeiro romance realista da literatura universal. Em 1865, Claude Bernard publica Introdução à medicina experimental, com uma tese sobre a hereditariedade. Em 1867 Émile Zola publica Thérèse Raquin, inaugurando o romance naturalista.
No Brasil considera-se 1881 como o ano inaugural do Realismo. De fato, esse foi um ano fértil para a literatura brasileira, com a publicação de dois romances fundamentais, que modificaram o curso de nossas letras: Aluísio Azevedo publica O mulato, o primeiro romance naturalista do Brasil; Machado de Assis publica Memórias póstumas de Brás Cubas, o primeiro romance realista de nossa literatura.
Na divisão tradicional da história da literatura brasileira, o ano considerado data final do Realismo é 1893, com a publicação de Missal e Broquéis, ambos de Cruz e Souza, obras inaugurais do Simbolismo. No entanto, é importante salientar que 1893 registra o início do Simbolismo, mas não o término do Realismo e suas manifestações na prosa, com os romances realistas e naturalistas, e na poesia, com o Parnasianismo. Basta lembrar que D. Casmurro, de Machado de Assis, é de 1900; Esaú e Jacó, do mesmo autor, é de 1904. Olavo Bilac foi eleito “príncipe dos poetas” em 1907. A Academia Brasileira de Letras, templo do Realismo, é de 1897. Na realidade, nos últimos vinte anos do século XIX e nos primeiros vinte anos do século XX, temos três estéticas que se desenvolvem paralelas: o Realismo e suas manifestações, o Simbolismo e o Pré-Modernismo, que só conhecem o golpe fatal em 1922, com a Semana de Arte Moderna.
Momento Histórico
O Realismo reflete as profundas transformações econômicas, políticas, sociais e culturais da Segunda metade do século XIX. A Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, entra numa nova fase, caracterizada pela utilização do aço, do petróleo e da eletricidade; ao mesmo tempo o avanço científico leva a novas descobertas nos campos da Física e da Química. O capitalismo se estrutura em moldes modernos, com o surgimento de grandes complexos industriais; por outro lado, a massa operária urbana avoluma-se, formando uma população marginalizada que não partilha dos benefícios gerados pelo progresso industrial mas, pelo contrário, é explorada e sujeita a condições subumanas de trabalho.
Esta nova sociedade serve de pano de fundo para uma nova interpretação da realidade, gerando teorias de variadas posturas ideológicas. Numa seqüência cronológica temos o Positivismo de Auguste Comte, preocupado com o real-sensível, o fato, defendendo o cientificismo no pensamento filosófico e a conciliação da “ordem e progresso” (a expressão, utilizada na bandeira republicana do Brasil, é de inspiração comtiana); o Socialismo Científico de Karl Marx e Friedrich Engels, a partir da publicação do Manifesto do Partido Comunista, em 1848, definindo o materialismo histórico (“o modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, político e intelectual em geral” – K. Marx) e a luta de classes; o Evolucionismo de Charles Darwin, a partir da publicação, em 1859, de A origem das espécies, livro em que ele expõe seus estudos sobre a evolução das espécies pelo processo de seleção natural, negando portanto a origem divina defendida pelo Cristianismo.
O Brasil também passa por mudanças radicais tanto no campo econômico como no político-social, no período compreendido entre 1850 e 1900, embora com profundas diferenças materiais, se comparadas às da Europa. A campanha abolicionista intensifica-se a partir de 1850; a Guerra do Paraguai (1864/70) tem como conseqüência o pensamento republicano – o Partido Republicano foi fundado no ano em que essa guerra acabou –; a Monarquia vive uma vertiginosa decadência. A Lei Áurea, de 1888, não resolveu o problema dos negros, mas criou uma nova realidade. O fim da mão-de-obra escrava e a sua substituição pela mão-de-obra assalariada, então representada pelas levas de imigrantes europeus que vinham trabalhar na lavoura cafeeira, originou uma nova economia voltada para o mercado externo, mas agora sem a estrutura colonialista.
É nesse contexto socio-político-científico que surgem o Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo. A alteração do quadro social e cultural exigia dos escritores outra forma de abordar a realidade: menos idealizada do que a romântica e mais objetiva, crítica e participante. Contudo há semelhanças e diferenças entre essas correntes. As semelhanças residem na objetividade, na luta contra o Romantismo e no gosto por descrições minuciosas.

Características
As características do Realismo estão intimamente ligadas ao momento histórico, refletindo, dessa forma, a postura do Positivismo, do Socialismo e do Evolucionismo, com todas as suas variantes. Assim é que o objetivismo aparece como negação do subjetivismo romântico e nos mostra o homem voltado para aquilo que está diante e fora dele, o não-eu; o personalismo cede terreno para o universalismo. O materialismo leva à negação do sentimentalismo e da metafísica.
O nacionalismo e a volta ao passado histórico são deixados de lado; o Realismo só se preocupa com o presente, o contemporâneo.
Influenciados por Hypolite Taine e sua Filosofia da arte, os autores realistas são adeptos do determinismo, segundo o qual a obra de arte seria determinada por três fatores: o meio, o momento e a raça – esta, no que se refere à hereditariedade. O avanço das ciências, no século XIX, influencia sobremaneira os autores da nova estética, principalmente os naturalistas, donde se falar em cientificismo nas obras desse período.
Ideologicamente os autores desse período são antimonárquicos, assumindo uma defesa clara do ideal republicano, como se observa na leitura de romances como O mulato, O cortiço e O Ateneu, por exemplo. Negam a burguesia a partir da célula-mãe da sociedade: a família; eis por que os sempre presentes triângulos amorosos, formados pelo pai traído, a mãe adúltera e o amante, que é sempre um “amigo da casa”; para citarmos apenas exemplos famosos de Machado de Assis, eis alguns triângulos: Bentinho/Capitu/Escobar; Lobo Neves/Virgília/Brás Cubas; Cristiano Palha/Sofia Palha/Rubião. São anticlericais, destacando-se em suas obras os padres corruptos e a hipocrisia de velhas beatas.
Finalmente é importante salientar que Realismo é denominação genérica da escola literária, sendo que nela se podem perceber três tendências distintas, expostas a seguir.


Romance Realista
Cultivado no Brasil por Machado de Assis, é uma narrativa mais preocupada com a análise psicológica, fazendo a crítica à sociedade a partir do comportamento de determinados personagens. É interessante constatar que os cinco romances da fase realista de Machado apresentam nomes próprios em seus títulos – Brás Cubas; Quincas Borba; D. Casmurro; Esaú e Jacó; Aires –, revelando clara preocupação com o indivíduo.
O romance realista analisa a sociedade “por cima”, ou seja, seus personagens são capitalistas, pertencem à classe dominante; mais uma vez nos voltamos para a obra de Machado e percebemos que Brás Cubas não produz, vive do capital, o mesmo acontecendo com Bentinho; já Quincas Borba era louco e mendigo até receber uma herança; o único dos personagens centrais de Machado que trabalhava era Rubião (professor em Minas), mas recebe a herança de Quincas Borba, muda-se para o Rio e não trabalha mais, vivendo do capital. O romance realista é documental, retrato de uma época.

Observe o trecho abaixo:
Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação. Era isto Virgília, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns ímpetos misteriosos; muita preguiça e alguma devoção, - devoção, ou talvez medo; creio que medo.
(ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo, Scipione, 1994. p. 45)
Podemos notar todo o estilo irônico do autor, aqui com suas baterias voltadas contra as idealizações românticas que haviam moldado o gosto do público leitor. Repare que Machado parte de uma adjetivação que nos leva a montar um perfil da heroína romântica (a mais atrevida, a mais voluntariosa, bonita, fresca, carregada de feitiço, faceira) para só num segundo momento provocar a ruptura: ignorante, pueril, preguiçosa.

Romance Naturalista
Cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro, Adolfo Caminha, Domingos Olímpio, Inglês de Souza e Manuel de Oliveira Paiva; o caso de Raul Pompéia é muito particular, pois seu romance O Ateneu ora apresenta características naturalistas, ora realistas, ora impressionistas.
A narrativa naturalista é marcada pela forte análise social a partir de grupos humanos marginalizados, valorizando o coletivo; interessa também notar que os títulos dos romances naturalistas apresentam a mesma preocupação: O mulato, O cortiço, Casa de pensão, O Ateneu. Há inclusive, sobre o romance O cortiço, a tese de que o principal personagem não é João Romão, nem Bertoleza, nem Rita Baiana, nem Pombinha, mas sim o próprio cortiço ou, como afirma Antônio Candido, “o romance é o nascimento, vida, paixão e morte de um cortiço”. Sob um certo ponto de vista, o mesmo poderia ser dito sobre o colégio Ateneu (os dois romances se encerram com a destruição dos prédios, abrigos coletivos).
Por outro lado, o naturalismo apresenta romances experimentais; a influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalista segundo a qual o homem é um animal; portanto, antes de usar a razão, deixa-se levar pelos instintos naturais, não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas, como o sexo, pela moral da classe dominante. A constante repressão leva às taras patológicas, tão ao gosto naturalista; em conseqüência, esses romances são mais ousados e erroneamente tachados por alguns de pornográficos, apresentando descrições minuciosas de atos sexuais, tocando, inclusive, em temas então proibidos, como o homossexualismo: tanto o masculino, como em O Ateneu, quanto o feminino, em O cortiço.

Observe o texto abaixo:
Ana Rosa, com efeito, de algum tempo a essa parte, fazia visitas ao quarto de Raimundo, durante a ausência do morador.
Entrava disfarçadamente, fechava as rótulas da janela, e, como sabia que o morador não aparecia àquela hora, começava a bulir nos livros, a remexer nas gavetas abertas, a experimentar as fechaduras, a ler os cartões de visita e todos os pedacinhos de papel escrito, que lhe caíam nas mãos. Sempre que encontrava um lenço já servido, no chão ou atirado sobre a cômoda, apoderava-se dele e cheirava-o sofregamente, como fazia também com os chapéus de cabeça e com a travesseirinha da cama.
Estas bisbilhotices deixavam-na caída numa enervação voluptuosa e doentia, que lhe punha no corpo arrepios de febre.
(AZEVEDO, Aluísio. O mulato. 19. ed. São Paulo, Martins Fontes, 1974. p. 121)
Observamos que a personagem Ana Rosa, criada segundo alguns “caprichos românticos e fantasias poéticas”, não resiste à força da atração física que Raimundo lhe desperta, chegando a invadir o quarto do rapaz. O importante é notar como a moça é dominada pelos instintos; como se fosse um animal, “lê” o mundo por meio dos sentidos (ela “conhece” o rapaz pelo cheiro que ele imprimiu nos objetos); a excitação provoca reações físicas (enervação voluptuosa, febre), transformando-se num caso patológico, doentio.

Observação:
Como você observa, há vários pontos de coincidência entre o romance realista e o naturalista; diríamos até que ambos partem de um mesmo ponto x e ambos chegam a um mesmo ponto y, só que percorrendo caminhos diversos. Tanto um como outro atacam a monarquia, o clero e a sociedade burguesa. Inclusive, podemos encontrar, num mesmo autor, determinadas posturas mais realistas convivendo com enfoques mais naturalistas. É o caso de O Ateneu, citado acima.
Eça de Queirós, em Portugal, é outro exemplo significativo: alguns críticos o consideram realista, outros classificam-no como naturalista.

Poesia Parnasiana
Preocupada com a forma e a objetividade; a “arte pela arte”, com seus sonetos alexandrinos perfeitos. Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira formam a Trindade Parnasiana.
O soneto, a métrica alexandrina (12 sílabas poéticas), a rima rica, rara e perfeita, tudo isso se contrapondo aos versos livres e brancos dos românticos. Em suma, é o endeusamento da Forma.
Realismo e Naturalismo no Brasil
Contexto Histórico
O Realismo, no Brasil, nasceu em conseqüência da crise criada com a decadência econômica açucareira, o crescimento do prestígio dos estados do sul e o descontentamento da classe burguesa em ascensão na época, o que facilitou o acolhimento dos ideais abolicionistas e republicanos. O movimento Republicano fundou em 1870 o Partido Republicano, que lutou para trocar o trabalho escravo pela mão-de-obra imigrante.
Nesse período, as idéias de Comte, Spencer, Darwin e Haeckel conquistaram os intelectuais brasileiros que se entregaram ao espírito científico, sobrepujando a concepção espiritualista do Romantismo. Todos se voltam para explicar o universo através da Ciência, tendo como guias o positivismo, o darwinismo, o naturalismo e o cientificismo. O grande divulgador do movimento foi Tobias Barreto, ideólogo da Escola de Recife, admirador das idéias de Augusto Comte e Hipólito Taine.
O Realismo e o Naturalismo aqui se estabelecem com o aparecimento, em 1881, da obra realista Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e da naturalista O Mulato, de Aluísio de Azevedo, influenciados pelo escritor português Eça de Queirós, com as obras O Crime do Padre Amaro (1875) e Primo Basílio (1878). O movimento se estende até o início do século XX, quando Graça Aranha publica Canaã, fazendo surgir uma nova estética: o Pré-Modernismo.

Características
A literatura realista e naturalista surge na França com Flaubert (1821-1880) e Zola (1840-1902). Flaubert (1821-1880) é o primeiro escritor a pleitear para a prosa a preocupação científica com o intuito de captar a realidade em toda sua crueldade. Para ele a arte é impessoal e a fantasia deve ser exercida através da observação psicológica, enquanto os fatos humanos e a vida comum são documentados, tendo como fim a objetividade. O romancista fotografa minuciosamente os aspectos fisiológicos, patológicos e anatômicos, filtrando pela sensibilidade o real.
Contudo, a escola Realista atinge seu ponto máximo com o Naturalismo, direcionado pelas idéias materialísticas. Zola, por volta de 1870, busca aprofundar o cientificismo, aplicando-lhe novos princípios, negando o envolvimento pessoal do escritor que deve, diante da natureza, colocar a observação e experiência acima de tudo. O afastamento do sobrenatural e do subjetivo cede lugar à observação objetiva e à razão, sempre, aplicada ao estudo da natureza, orientando toda busca de conhecimento.
Alfredo Bosi assim descreve o movimento: "O Realismo se tingirá de naturalismo no romance e no conto, sempre que fizer personagens e enredos submeterem-se ao destino cego das "leis naturais" que a ciência da época julgava ter codificado; ou se dirá parnasiano, na poesia, à medida que se esgotar no lavor do verso tecnicamente perfeito".
Vindo da Europa com tendências ao universal, o Realismo acaba aqui modificado por nossas tradições e, sobretudo, pela intensificação das contradições da sociedade, reforçadas pelos movimentos republicano e abolicionista, intensificadores do descompasso do sistema social. O conhecimento sobre o ser humano se amplia com o avanço da Ciência e os estudos passam a ser feitos sob a ótica da Psicologia e da Sociologia. A Teoria da Evolução das Espécies de Darwin oferece novas perspectivas com base científica, concorrendo para o nascimento de um tipo de literatura mais engajada, impetuosa, renovadora e preocupada com a linguagem.
Os temas, opostos àqueles do Romantismo, não mais engrandecem os valores sociais, mas os combatem ferozmente. A ambientação dos romances se dá, preferencialmente, em locais miseráveis, localizados com precisão; os casamentos felizes são substituídos pelo adultério; os costumes são descritos minuciosamente com reprodução da linguagem coloquial e regional.
O romance sob a tendência naturalista manifesta preocupação social e focaliza personagens vivendo em extrema pobreza, exibindo cenas chocantes. Sua função é de crítica social, denúncia da exploração do homem pelo homem e sua brutalização.
A hereditariedade é vista como rigoroso determinismo a que se submetem as personagens, subordinadas, também, ao meio que lhes molda a ação, ficando entregues à sensualidade, à sucessão dos fatos e às circunstâncias ambientais. Além de deter toda sua ação sob o senso do real, o escritor deve ser capaz de expressar tudo com clareza, demonstrando cientificamente como reagem os homens, quando vivem em sociedade.
Outro tratamento típico é a caracterização psicológica das personagens que têm seus retratos compostos através da exposição de seus pensamentos, hábitos e contradições, revelando a imprevisibilidade das ações e construção das personagens, retratadas no romance psicológico dos escritores Raul Pompéia e Machado de Assis.
A Principal característica do Realismo é a Psicologia
A Princpal característica do Naturalismo é a Cientifica

Características
Realismo
Naturalismo
Retrato Fiel do Personagem
Visão determinista e mecanicista do homem
Lentidão Narrativa
Centificismo
Interpretação do Caráter
Personagens patológicas
Materialização do amor
Incorporação de termos científicos e profissionais
Determinismo e relação entre causa efeito
Determinista, Evolucionista, Positivista
Veracidade
Detalhes Específicos

Resumo das Principais Obras realistas
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) – Machado de Assis
Memória Póstumas de Brás Cubas, tem a história narrada por um "defunto-autor", que não tem mais a necessidade de mentir, já que deixou o mundo e seus sonhos. O narrador personagem traz à tona toda a precariedade da condição humana, dentro de um exemplo muito irônico.

Dom Casmurro (1899) - Machado de Assis
Bentinho, chamado de Dom Casmurro por um rapaz de seu bairro, decide atar as duas pontas de sua vida. Morando com sua mãe ( D. Glória, viúva ), José Dias (o agregado), Tio Cosme e a prima Justina, Bentinho possuía uma vizinha que conviveu como "irmã-namorada" dele , Capitolina - a Capitu . Seu projeto de vida era claro, sua mãe havia feito uma promessa, em que Bentinho iria para um seminário e tornar-se-ia um padre. Cumprindo a promessa Bentinho vai para o seminário, mas sempre desejando sair, pois se tornando padre não poderia casar com Capitu. José Dias, que sempre foi contra ao namoro dos dois, é quem consegue retirar Bentinho do seminário, convencendo D. Glória que o jovem deveria ir estudar no exterior. Quando retorna dos estudos, Bentinho consegue casar com Capitu e desde os tempos de seminário havia fundamentado amizade com Escobar que agora estava casado e sempre foi o amigo íntimo do casal. Nasce o filho de Capitu, Ezequiel. Escobar, o amigo íntimo, falece e durante o seu velório Bentinho ele percebe que o seu filho era a cara de Escobar. Embora confiasse no amigo, que era casado e tinha até filha, o desespero de Bentinho é imenso. Vão para Europa e Bentinho depois de um tempo volta para o Brasil. Capitu escreve-lhe cartas.Pouco tempo depois, Ezequiel também morre, mas a única coisa que não morre no romance é BENTINHO E SUA DÚVIDA.

Quincas Borba (1891) – Machado de Assis
Quincas Borba o Homem, tinha sido muito pobre, e conseguiu fortuna. No final da vida mostrava um certo desequíbrio mental, e acabou morrendo durante uma viagem ao Rio de Janeiro, longe de Barbacena, sua terra natal. Deixou, ao viajar, o cão sob os cuidados de Rubião, irmão de uma noiva sua que falecera antes do casamento. Ao saber da noticia da morte do amigo, Rubião dá o cachorro Quincas Borba a uma vizinha. Mas é surpreendido pela leitura do testamento em que ele é declarado seu herdeiro, desde que ele zele pela saúde e segurança do cão. Rubião e o cachorro vão para o Rio de Janeiro. Ele pretende se apossar da herança e passar a morar na corte. No trem, contudo, conhece o casal SOFIA e Cristiano PALHA e se encanta pela esposa do desconhecido, Travam amizade, e na capital, o casal oferece seus préstimos; Sofia o ajuda a encontrar e mobiliar uma casa, Palha se encarrega de arranjar um advogado para resolver suas questões legais.
O dinheiro sobe-lhe a cabeça. Passa a acreditar que ganhou real importância com ele, a ponto de poder pretender Sofia. Uma noite deixa suas intenções com Sofia claras. Ela conta tudo ao marido, que, sutilmente a faz ver as vantagens que podem tirar da situação. Mas Rubião concorda em se tornar sócio de Palha, com a mediação de um advogado arranjado por este. Índices de ascensão social do casal começam a aparecer, até que Cristiano rompe a sociedade, esfriando suas relações com Rubião. Rubião vai perdendo tudo o que tem. À medida que perde seu dinheiro, vai também perdendo sua sanidade. Tem surtos em que manifesta a certeza de ser Napoleão Bonaparte, ocasiões em que chama Sofia de Josefina. O golpe de misericórdia vem quando Palha e Sofia arrematam sua casa em leilão. Internam-no num hospício a pretexto de caridade. Ele só concorda em ir em companhia do cão. De lá fogem para Barbacena, onde ele se torna um mendigo louco, que dorme na porta da igreja, junto com o cão, e vive de esmolas. De vez em quanto, exclamava: “Ao vencedor, as batatas!”

Resumo das Principais obras Naturalistas
O Cortiço(1890) – Aluízio de Azevedo
João Romão, compra um estabelecimento comercial no subúrbio de Rio de Janeiro. Ao lado morava Bertoloza uma escrava fugida, que possuía uma quitanda e umas economias. Os dois se juntam e com o dinheiro de Bertoloza, João comprou algumas terras e aumentou sua propriedade. Para agradar Bertoleza, faz uma falsa carta de alforria. Depois de um tempo, João Romão compra mais terras e novas casas se vão amontoando na propriedade. A procura de casa é enorme, e João Romão, acaba construindo um cortiço. Ao lado vem morar o Senhor Miranda que não gosta de João Romão, nem gosta do cortiço perto de sua casa. No cortiço moram: Pombinha, que se desencaminha por culpa das más companhias; Rita Baiana, mulata que saía com Firmo; Jerônimo e sua mulher, e mais algumas pessoas.
Quase sempre tem festas no cortiço, se destacando nelas Rita Baiana como dançarina provocante e sensual, que faz Jerônimo se apaixonar. Enciumado, Firmo acaba brigando com Jerônimo e lhe da uma navalhada e foge. Naquela mesma rua, é construído outro cortiço. Os moradores do cortiço de João Romão chamam eles de "Cabeça-de-gato"; e recebem o apelido de "Carapicus". Firmo foi morar no "Cabeça-de-Gato", onde se tornou chefe. Jerônimo, arma uma emboscada para o Firmo e o mata a pauladas, e fuge com Rita Baiana. Querendo vingar a morte de Firmo, os moradores do "Cabeça-de-gato" brigam com os "Carapicus". Mas um incêndio no cortiço de João Romão põe fim à briga coletiva. João Romão, agora endinheirado, reconstrói o cortiço e pretende se casar com Zulmira, filha do Miranda. E em logo os dois, por interesse, se tornam amigos e o casamento é coisa certa. Para se livrar de Bertoleza, João Romão manda um aviso aos antigos proprietários da escrava, denunciando ela. Pouco depois, aparece a polícia na casa de João Romão para levar Bertoleza aos seus antigos donos. A escrava suicida-se, cortando o ventre.

Casa de Pensão - Aluísio Azevedo
Amâncio de Vasconcelos, um jovem maranhense, vai para o Rio de Janeiro realizar o curso de Medicina. Hospeda-se na casa de um conhecido da família, Luís Campos, que vivia com sua mulher Dona Maria Hortência e uma cunhada, Dona Cadotinha. Entretanto, Amâncio encontra-se com um amigo e co-provinciano, Paiva Rocha, e passa a viver uma vida desvairada e de boêmia. Chegar altas horas da noite, faltar às aulas, embebedar-se, não eram permitidas em casa de Luís Campos. Por outro lado, o jovem estudante começa a despertar um certo interesse no coração de Hortência. Por esses motivos, ele resolve mudar-se para a pensão de João Coqueiro, que foi lhe apresentado por Paiva Rocha. Acaba envolvido por Amélia, irmã de João Coqueiro, que finge ignorar o romance e explora-a, exigindo dinheiro de Amâncio. Enredado no ambiente asfixiante e corrupto da pensão de João Coqueiro e de Mme. Brizard, sua mulher, envolvido em uma série de tramas, Amâncio resolve viajar para São Luís, para rever a mãe, agora viúva. João Coqueiro suspeita da viagem, e consegue que a polícia prenda Amâncio sob acusação de defloramento, da qual o estudante é absolvido, em rumoroso julgamento. Inconformado com a absolvição, João Coqueiro assassina Amâncio com um tiro.

O Mulato (1881) - Aluísio de Azevedo
Este é considerado pela como o primeiro romance naturalista no Brasil, embora não seja uma autobiografia, nele está presente muito da vida do escritor.
Um empregado de origem portuguesa, João Dias primeiro caixeiro de seu patrão, tenta por todos os meios se casar com a filha deste, Ana Rosa, pois ficaria rico. A harmonia dos planos é quebrada pelo Dr. Raimundo, de origem duvidosa, filho de uma negra, mulato pela cor e aspectos do cabelo. Com reservas é aceito pela sociedade, mas quando pretende o amor de Ana Rosa, a sociedade o reprime. O vilão é o cônego Diogo que manobra com as armas da intriga, da chantagem e da manipulação para conseguir que o rival amoroso de Raimundo, João Dias, o assassinasse à traição, libertando a cidade de sua presença indesejada.

O Ateneu - Raul Pompéia
O Ateneu é uma das obras mais importantes do Realismo brasileiro. Trata-se de uma narrativa na primeira pessoa, em que o personagem Sérgio, já adulto conta sobre seu tempo de aluno interno no Colégio Ateneu. A ação do livro transcorre no internato, onde convivem crianças, adolescente, professores e empregados. O romance se inicia com o pai de Sérgio advertindo "Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu”. Dr. Aristarco é o diretor do colégio, que visava apenas o lucro. Tinha o sonho de ver um busto com a sua face. Sérgio vai narrando as decepções, os medos, as dúvidas, a rígida disciplina, as amizades, os acontecimentos em torno da própria sexualidade. O romance é um diário de um internato: as aulas, a sala de estudos, a diversão nos banhos de piscina, as leituras, o recreio, o que acontecia nos dormitórios, no refeitório as disputas. O mundo da escola é sempre visto e retratado a partir da perspectiva particular de Sérgio. Misturando alegria e tristezas, decepções e entusiasmos, Sérgio, pacientemente reconstrói, por meio da memória , a adolescência vivida e perdida entre as paredes do famoso internato. A obra acaba com o incêndio do Ateneu pelo estudante Américo. No incêndio o diretor fica perdido, estático com o que está acontecendo com seu patrimônio e naquele mesmo dia é abandonado pela esposa

A Carne (1888) - Júlio Ribeiro
A história conta de Lenita, uma garota especial inteligente e cheia de vida cuja mãe morrera em seu nascimento. Aos 22 anos após a morte de seu pai torna-se uma jovem sensível. Lenita decide morar na fazenda do coronel, velho que havia criado seu pai. Lá conhece Manuel Barbosa, o filho do coronel, homem já maduro, separado há muito tempo de uma francesa.
Lenita firmara uma amizade com Manuel que aos poucos se revelou uma louca paixão, no início repelida por ambos, mas depois consolidada com o forte desejo da carne. Narra a ardente trajetória desse romance marcado por encontro e desencontros, desejos e sadismo, batalha entre mente e carne.
Até que um dia Lenita encontra cartas de outras mulheres guardadas por Manuel e sente-se traída, abandona-o mesmo estando grávida de três meses e casa-se com outro homem. Manuel suicida-se, o que comprova o resultado final da batalha "MENTE x CARNE".

Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente

Posted by Profº Monteiro on dezembro 19, 2013
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo

Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:
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AUTO DA BARCA DO INFERNO
Gil Vicente
Auto de moralidade composto por Gil Vicente por contemplação da sereníssima e muito católica rainha Lianor, nossa senhora, e representado por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei Manuel, primeiro de Portugal deste nome.
Começa a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos supitamente a um rio, o qual per força havemos de passar em um de dous batéis que naquele porto estão, scilicet, um deles passa pera o paraíso e o outro pera o inferno: os quais batéis tem cada um seu arrais na proa: o do paraíso um anjo, e o do inferno um arrais infernal e um companheiro.
O primeiro intrelocutor é um Fidalgo que chega com um Paje, que lhe leva um rabo mui comprido e üa cadeira de espaldas. E começa o Arrais do Inferno ante que o Fidalgo venha.
DIABO À barca, à barca, houlá!
que temos gentil maré!
- Ora venha o carro a ré!
COMPANHEIRO Feito, feito!
Bem está!
Vai tu muitieramá,
e atesa aquele palanco
e despeja aquele banco,
pera a gente que virá.
À barca, à barca, hu-u!
Asinha, que se quer ir!
Oh, que tempo de partir,
louvores a Berzebu!
- Ora, sus! que fazes tu?
Despeja todo esse leito!
COMPANHEIRO Em boa hora! Feito, feito!
DIABO Abaixa aramá esse cu!
Faze aquela poja lesta
e alija aquela driça.
COMPANHEIRO Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!
DIABO Oh, que caravela esta!
Põe bandeiras, que é festa.
Verga alta! Âncora a pique!
- Ó poderoso dom Anrique,
cá vindes vós?... Que cousa é esta?...
Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:
FIDALGO Esta barca onde vai ora,
que assi está apercebida?
DIABO Vai pera a ilha perdida,
e há-de partir logo ess'ora.
FIDALGO Pera lá vai a senhora?
DIABO Senhor, a vosso serviço.
FIDALGO Parece-me isso cortiço...
DIABO Porque a vedes lá de fora.
FIDALGO Porém, a que terra passais?
DIABO Pera o inferno, senhor.
FIDALGO Terra é bem sem-sabor.
DIABO Quê?... E também cá zombais?
FIDALGO E passageiros achais
pera tal habitação?
DIABO Vejo-vos eu em feição
pera ir ao nosso cais...
FIDALGO Parece-te a ti assi!...
DIABO Em que esperas ter guarida?
FIDALGO Que leixo na outra vida
quem reze sempre por mi.
DIABO Quem reze sempre por ti?!..
Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!...
E tu viveste a teu prazer,
cuidando cá guarecer
por que rezam lá por ti?!...
Embarca - ou embarcai...
que haveis de ir à derradeira!
Mandai meter a cadeira,
que assi passou vosso pai.
FIDALGO Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?!
DIABO Vai ou vem! Embarcai prestes!
Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai.
Pois que já a morte passastes,
haveis de passar o rio.
FIDALGO Não há aqui outro navio?
DIABO Não, senhor, que este fretastes,
e primeiro que expirastes
me destes logo sinal.
FIDALGO Que sinal foi esse tal?
DIABO Do que vós vos contentastes.
FIDALGO A estoutra barca me vou.
Hou da barca! Para onde is?
Ah, barqueiros! Não me ouvis?
Respondei-me! Houlá! Hou!...
(Pardeus, aviado estou!
Cant'a isto é já pior...)
Oue jericocins, salvanor!
Cuidam cá que são eu grou?
ANJO Que quereis?
FIDALGO Que me digais,
pois parti tão sem aviso,
se a barca do Paraíso
é esta em que navegais.
ANJO Esta é; que demandais?
FIDALGO Que me leixeis embarcar.
Sou fidalgo de solar,
é bem que me recolhais.
ANJO Não se embarca tirania
neste batel divinal.
FIDALGO Não sei porque haveis por mal
que entre a minha senhoria...
ANJO Pera vossa fantesia
mui estreita é esta barca.
FIDALGO Pera senhor de tal marca
nom há aqui mais cortesia?
Venha a prancha e atavio!
Levai-me desta ribeira!
ANJO Não vindes vós de maneira
pera entrar neste navio.
Essoutro vai mais vazio:
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.
Ireis lá mais espaçoso,
vós e vossa senhoria,
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso.
E porque, de generoso,
desprezastes os pequenos,
achar-vos-eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso.
DIABO À barca, à barca, senhores!
Oh! que maré tão de prata!
Um ventozinho que mata
e valentes remadores!
Diz, cantando:
Vós me veniredes a la mano,
a la mano me veniredes.
FIDALGO Ao Inferno, todavia!
Inferno há i pera mi?
Oh triste! Enquanto vivi
não cuidei que o i havia:
Tive que era fantesia!
Folgava ser adorado,
confiei em meu estado
e não vi que me perdia.
Venha essa prancha! Veremos
esta barca de tristura.
DIABO Embarque vossa doçura,
que cá nos entenderemos...
Tomarês um par de remos,
veremos como remais,
e, chegando ao nosso cais,
todos bem vos serviremos.
FIDALGO Esperar-me-ês vós aqui,
tornarei à outra vida
ver minha dama querida
que se quer matar por mi.
Dia, Que se quer matar por ti?!...
FIDALGO Isto bem certo o sei eu.
DIABO Ó namorado sandeu,
o maior que nunca vi!...
FIDALGO Como pod'rá isso ser,
que m'escrevia mil dias?
DIABO Quantas mentiras que lias,
e tu... morto de prazer!...
FIDALGO Pera que é escarnecer,
quem nom havia mais no bem?
DIABO Assi vivas tu, amém,
como te tinha querer!
FIDALGO Isto quanto ao que eu conheço...
DIABO Pois estando tu expirando,
se estava ela requebrando
com outro de menos preço.
FIDALGO Dá-me licença, te peço,
que vá ver minha mulher.
DIABO E ela, por não te ver,
despenhar-se-á dum cabeço!
Quanto ela hoje rezou,
antre seus gritos e gritas,
foi dar graças infinitas
a quem a desassombrou.
FIDALGO Cant'a ela, bem chorou!
DIABO Nom há i choro de alegria?..
FIDALGO E as lástimas que dezia?
DIABO Sua mãe lhas ensinou...
Entrai, meu senhor, entrai:
Ei la prancha! Ponde o pé...
FIDALGO Entremos, pois que assi é.
DIABO Ora, senhor, descansai,
passeai e suspirai.
Em tanto virá mais gente.
FIDALGO Ó barca, como és ardente!
Maldito quem em ti vai!
Diz o Diabo ao Moço da cadeira:
DIABO Nom entras cá! Vai-te d'i!
A cadeira é cá sobeja;
cousa que esteve na igreja
nom se há-de embarcar aqui.
Cá lha darão de marfi,
marchetada de dolores,
com tais modos de lavores,
que estará fora de si...
À barca, à barca, boa gente,
que queremos dar à vela!
Chegar ela! Chegar ela!
Muitos e de boamente!
Oh! que barca tão valente!
Vem um Onzeneiro, e pergunta ao Arrais do Inferno, dizendo:
ONZENEIRO Pera onde caminhais?
DIABO Oh! que má-hora venhais,
onzeneiro, meu parente!
Como tardastes vós tanto?
ONZENEIRO Mais quisera eu lá tardar...
Na safra do apanhar
me deu Saturno quebranto.
DIABO Ora mui muito m'espanto
nom vos livrar o dinheiro!...
ONZENEIRO Solamente para o barqueiro
nom me leixaram nem tanto...
DIABO Ora entrai, entrai aqui!
ONZENEIRO Não hei eu i d'embarcar!
DIABO Oh! que gentil recear,
e que cousas pera mi!...
ONZENEIRO Ainda agora faleci,
leixa-me buscar batel!
DIABO Pesar de Jam Pimentel!
Porque não irás aqui?...
ONZENEIRO E pera onde é a viagem?
DIABO Pera onde tu hás-de ir.
ONZENEIRO Havemos logo de partir?
DIABO Não cures de mais linguagem.
ONZENEIRO Mas pera onde é a passagem?
DIABO Pera a infernal comarca.
ONZENEIRO Dix! Nom vou eu tal barca.
Estoutra tem avantagem.
Vai-se à barca do Anjo, e diz:
Hou da barca! Houlá! Hou!
Haveis logo de partir?
ANJO E onde queres tu ir?
ONZENEIRO Eu pera o Paraíso vou.
ANJO Pois cant'eu mui fora estou
de te levar para lá.
Essoutra te levará;
vai pera quem te enganou!
ONZENEIRO Porquê?
ANJO Porque esse bolsão
tomará todo o navio.
ONZENEIRO Juro a Deus que vai vazio!
ANJO Não já no teu coração.
ONZENEIRO Lá me fica, de rondão,
minha fazenda e alhea.
ANJO Ó onzena, como és fea
e filha de maldição!
Torna o Onzeneiro à barca do Inferno e diz:
ONZENEIRO Houlá! Hou! Demo barqueiro!
Sabês vós no que me fundo?
Quero lá tornar ao mundo
e trazer o meu dinheiro.
que aqueloutro marinheiro,
porque me vê vir sem nada,
dá-me tanta borregada
como arrais lá do Barreiro.
DIABO Entra, entra, e remarás!
Nom percamos mais maré!
ONZENEIRO Todavia...
DIABO Per força é!
Que te pês, cá entrarás!
Irás servir Satanás,
pois que sempre te ajudou.
ONZENEIRO Oh! Triste, quem me cegou?
DIABO Cal'te, que cá chorarás.
Entrando o Onzeneiro no batel, onde achou o Fidalgo embarcado, diz tirando o barrete:
ONZENEIRO Santa Joana de Valdês!
Cá é vossa senhoria?
FIDALGO Dá ò demo a cortesia!
DIABO Ouvis? Falai vós cortês!
Vós, fidalgo, cuidareis
que estais na vossa pousada?
Dar-vos-ei tanta pancada
com um remo que renegueis!
Vem Joane, o Parvo, e diz ao Arrais do Inferno:
PARVO Hou daquesta!
DIABO Quem é?
PARVO Eu soo.
É esta a naviarra nossa?
DIABO De quem?
PARVO Dos tolos.
DIABO Vossa.
Entra!
PARVO De pulo ou de voo?
Hou! Pesar de meu avô!
Soma, vim adoecer
e fui má-hora morrer,
e nela, pera mi só.
DIABO De que morreste?
PARVO De quê?
Samicas de caganeira.
DIABO De quê?
PARVO De caga merdeira!
Má rabugem que te dê!
DIABO Entra! Põe aqui o pé!
PARVO Houlá! Nom tombe o zambuco!
DIABO Entra, tolaço eunuco,
que se nos vai a maré!
PARVO Aguardai, aguardai, houlá!
E onde havemos nós d'ir ter?
DIABO Ao porto de Lucifer.
PARVO Ha-á-a...
DIABO Ó Inferno! Entra cá!
PARVO Ò Inferno?... Eramá...
Hiu! Hiu! Barca do cornudo.
Pêro Vinagre, beiçudo,
rachador d'Alverca, huhá!
Sapateiro da Candosa!
Antrecosto de carrapato!
Hiu! Hiu! Caga no sapato,
filho da grande aleivosa!
Tua mulher é tinhosa
e há-de parir um sapo
chantado no guardanapo!
Neto de cagarrinhosa!
Furta cebolas! Hiu! Hiu!
Excomungado nas erguejas!
Burrela, cornudo sejas!
Toma o pão que te caiu!
A mulher que te fugiu
per'a Ilha da Madeira!
Cornudo atá mangueira,
toma o pão que te caiu!
Hiu! Hiu! Lanço-te üa pulha!
Dê-dê! Pica nàquela!
Hump! Hump! Caga na vela!
Hio, cabeça de grulha!
Perna de cigarra velha,
caganita de coelha,
pelourinho da Pampulha!
Mija n'agulha, mija n'agulha!
Chega o Parvo ao batel do Anjo e dlz:
PARVO Hou da barca!
ANJO Que me queres?
PARVO Queres-me passar além?
ANJO Quem és tu?
PARVO Samica alguém.
ANJO Tu passarás, se quiseres;
porque em todos teus fazeres
per malícia nom erraste.
Tua simpreza t'abaste
pera gozar dos prazeres.
Espera entanto per i:
veremos se vem alguém,
merecedor de tal bem,
que deva de entrar aqui.
Vem um Sapateiro com seu avental e carregado de formas, e chega ao batel infernal, e diz:
SAPATEIRO Hou da barca!
DIABO Quem vem i?
Santo sapateiro honrado,
como vens tão carregado?...
SAPATEIRO Mandaram-me vir assi...
E pera onde é a viagem?
DIABO Pera o lago dos danados.
SAPATEIRO Os que morrem confessados
onde têm sua passagem?
DIABO Nom cures de mais linguagem!
Esta é a tua barca, esta!
SAPATEIRO Renegaria eu da festa
e da puta da barcagem!
Como poderá isso ser,
confessado e comungado?!...
DIABO Tu morreste excomungado:
Nom o quiseste dizer.
Esperavas de viver,
calaste dous mil enganos...
Tu roubaste bem trint'anos
o povo com teu mester.
Embarca, eramá pera ti,
que há já muito que t'espero!
SAPATEIRO Pois digo-te que nom quero!
DIABO Que te pês, hás-de ir, si, si!
SAPATEIRO Quantas missas eu ouvi,
nom me hão elas de prestar?
DIABO Ouvir missa, então roubar,
é caminho per'aqui.
SAPATEIRO E as ofertas que darão?
E as horas dos finados?
DIABO E os dinheiros mal levados,
que foi da satisfação?
SAPATEIRO Ah! Nom praza ò cordovão,
nem à puta da badana,
se é esta boa traquitana
em que se vê Jan Antão!
Ora juro a Deus que é graça!
Vai-se à barca do Anjo, e diz:
Hou da santa caravela,
poderês levar-me nela?
ANJO A cárrega t'embaraça.
SAPATEIRO Nom há mercê que me Deus faça?
Isto uxiquer irá.
ANJO Essa barca que lá está
Leva quem rouba de praça.
Oh! almas embaraçadas!
SAPATEIRO Ora eu me maravilho
haverdes por grão peguilho
quatro forminhas cagadas
que podem bem ir i chantadas
num cantinho desse leito!
ANJO Se tu viveras dereito,
Elas foram cá escusadas.
SAPATEIRO Assi que determinais
que vá cozer ò Inferno?
ANJO Escrito estás no caderno
das ementas infernais.
Torna-se à barca dos danados, e diz:
SAPATEIRO Hou barqueiros! Que aguardais?
Vamos, venha a prancha logo
e levai-me àquele fogo!
Não nos detenhamos mais!
Vem um Frade com üa Moça pela mão, e um broquel e üa espada na outra, e um casco debaixo do capelo; e, ele mesmo fazendo a baixa, começou de dançar, dizendo:
FRADE Tai-rai-rai-ra-rã; ta-ri-ri-rã;
ta-rai-rai-rai-rã; tai-ri-ri-rã:
tã-tã; ta-ri-rim-rim-rã. Huhá!
DIABO Que é isso, padre?! Que vai lá?
FRADE Deo gratias! Som cortesão.
DIABO Sabês também o tordião?
FRADE Porque não? Como ora sei!
DIABO Pois entrai! Eu tangerei
e faremos um serão.
Essa dama é ela vossa?
FRADE Por minha la tenho eu,
e sempre a tive de meu,
DIABO Fezestes bem, que é fermosa!
E não vos punham lá grosa
no vosso convento santo?
FRADE E eles fazem outro tanto!
DIABO Que cousa tão preciosa...
Entrai, padre reverendo!
FRADE Para onde levais gente?
DIABO Pera aquele fogo ardente
que nom temestes vivendo.
FRADE Juro a Deus que nom t'entendo!
E este hábito no me val?
DIABO Gentil padre mundanal,
a Berzebu vos encomendo!
FRADE Corpo de Deus consagrado!
Pela fé de Jesu Cristo,
que eu nom posso entender isto!
Eu hei-de ser condenado?!...
Um padre tão namorado
e tanto dado à virtude?
Assi Deus me dê saúde,
que eu estou maravilhado!
DIABO Não curês de mais detença.
Embarcai e partiremos:
tomareis um par de ramos.
FRADE Nom ficou isso n'avença.
DIABO Pois dada está já a sentença!
FRADE Pardeus! Essa seria ela!
Não vai em tal caravela
minha senhora Florença.
Como? Por ser namorado
e folgar com üa mulher
se há um frade de perder,
com tanto salmo rezado?!...
DIABO Ora estás bem aviado!
FRADE Mais estás bem corregido!
DIABO Dovoto padre marido,
haveis de ser cá pingado...
Descobriu o Frade a cabeça, tirando o capelo; e apareceu o casco, e diz o Frade:
FRADE Mantenha Deus esta c'oroa!
DIABO ó padre Frei Capacete!
Cuidei que tínheis barrete...
FRADE Sabê que fui da pessoa!
Esta espada é roloa
e este broquel, rolão.
DIABO Dê Vossa Reverença lição
d'esgrima, que é cousa boa!
Começou o frade a dar lição d'esgrima com a espada e broquel, que eram d'esgrimir, e diz desta maneira:
FRADE Deo gratias! Demos caçada!
Pera sempre contra sus!
Um fendente! Ora sus!
Esta é a primeira levada.
Alto! Levantai a espada!
Talho largo, e um revés!
E logo colher os pés,
que todo o al no é nada!
Quando o recolher se tarda
o ferir nom é prudente.
Ora, sus! Mui largamente,
cortai na segunda guarda!
- Guarde-me Deus d'espingarda
mais de homem denodado.
Aqui estou tão bem guardado
como a palhá n'albarda.
Saio com meia espada...
Hou lá! Guardai as queixadas!
DIABO Oh que valentes levadas!
FRADE Ainda isto nom é nada...
Demos outra vez caçada!
Contra sus e um fendente,
e, cortando largamente,
eis aqui sexta feitada.
Daqui saio com üa guia
e um revés da primeira:
esta é a quinta verdadeira.
- Oh! quantos daqui feria!...
Padre que tal aprendia
no Inferno há-de haver pingos?!...
Ah! Nom praza a São Domingos
com tanta descortesia!
Tornou a tomar a Moça pela mão, dizendo:
FRADE Vamos à barca da Glória!
Começou o Frade a fazer o tordião e foram dançando até o batel do Anjo desta maneira:
FRADE Ta-ra-ra-rai-rã; ta-ri-ri-ri-rã;
rai-rai-rã; ta-ri-ri-rã; ta-ri-ri-rã.
Huhá!
Deo gratias! Há lugar cá
pera minha reverença?
E a senhora Florença
polo meu entrará lá!
PARVO Andar, muitieramá!
Furtaste esse trinchão, frade?
FRADE Senhora, dá-me à vontade
que este feito mal está.
Vamos onde havemos d'ir!
Não praza a Deus coa a ribeira!
Eu não vejo aqui maneira
senão, enfim, concrudir.
DIABO Haveis, padre, de viir.
FRADE Agasalhai-me lá Florença,
e compra-se esta sentença:
ordenemos de partir.
Tanto que o Frade foi embarcado, veio üa Alcoviteira, per nome Brízida Vaz, a qual chegando à barca infernal, diz desta maneira:
BRÍZIDA Hou lá da barca, hou lá!
DIABO Quem chama?
BRÍZIDA Brízida Vaz.
DIABO E aguarda-me, rapaz?
Como nom vem ela já?
COMPANHEIRO Diz que nom há-de vir cá
sem Joana de Valdês.
DIABO Entrai vós, e remarês.
BRÍZIDA Nom quero eu entrar lá.
DIABO Que sabroso arrecear!
BRÍZIDA No é essa barca que eu cato.
DIABO E trazês vós muito fato?
BRÍZIDA O que me convém levar.
Día. Que é o que havês d'embarcar?
BRÍZIDA Seiscentos virgos postiços
e três arcas de feitiços
que nom podem mais levar.
Três almários de mentir,
e cinco cofres de enlheos,
e alguns furtos alheos,
assi em jóias de vestir,
guarda-roupa d'encobrir,
enfim - casa movediça;
um estrado de cortiça
com dous coxins d'encobrir.
A mor cárrega que é:
essas moças que vendia.
Daquestra mercadoria
trago eu muita, à bofé!
DIABO Ora ponde aqui o pé...
BRÍZIDA Hui! E eu vou pera o Paraíso!
DIABO E quem te dixe a ti isso?
BRÍZIDA Lá hei-de ir desta maré.
Eu sô üa mártela tal!...
Açoutes tenho levados
e tormentos suportados
que ninguém me foi igual.
Se fosse ò fogo infernal,
lá iria todo o mundo!
A estoutra barca, cá fundo,
me vou, que é mais real.
Chegando à Barca da Glória diz ao Anjo:
Barqueiro mano, meus olhos,
prancha a Brísida Vaz.
ANJO: Eu não sei quem te cá traz...
BRÍZIDA Peço-vo-lo de giolhos!
Cuidais que trago piolhos,
anjo de Deos, minha rosa?
Eu sô aquela preciosa
que dava as moças a molhos,
a que criava as meninas
pera os cónegos da Sé...
Passai-me, por vossa fé,
meu amor, minhas boninas,
olho de perlinhas finas!
E eu som apostolada,
angelada e martelada,
e fiz cousas mui divinas.
Santa Úrsula nom converteu
tantas cachopas como eu:
todas salvas polo meu
que nenhüa se perdeu.
E prouve Àquele do Céu
que todas acharam dono.
Cuidais que dormia eu sono?
Nem ponto se me perdeu!
ANJO Ora vai lá embarcar,
não estês importunando.
BRÍZIDA Pois estou-vos eu contando
o porque me haveis de levar.
ANJO Não cures de importunar,
que não podes vir aqui.
BRÍZIDA E que má-hora eu servi,
pois não me há-de aproveitar!...
Torna-se Brízida Vaz à Barca do Inferno, dizendo:
BRÍZIDA Hou barqueiros da má-hora,
que é da prancha, que eis me vou?
E já há muito que aqui estou,
e pareço mal cá de fora.
DIABO Ora entrai, minha senhora,
e sereis bem recebida;
se vivestes santa vida,
vós o sentirês agora...
Tanto que Brízida Vaz se embarcou, veo um Judeu, com um bode às costas; e, chegando ao batel dos danados, diz:
JUDEU Que vai cá? Hou marinheiro!
DIABO Oh! que má-hora vieste!...
JUDEU Cuj'é esta barca que preste?
DIABO Esta barca é do barqueiro.
JUDEU. Passai-me por meu dinheiro.
DIABO E o bode há cá de vir?
JUDEU Pois também o bode há-de vir.
DIABO Que escusado passageiro!
JUDEU Sem bode, como irei lá?
DIABO Nem eu nom passo cabrões.
JUDEU Eis aqui quatro tostões
e mais se vos pagará.
Por vida do Semifará
que me passeis o cabrão!
Querês mais outro tostão?
DIABO Nem tu nom hás-de vir cá.
JUDEU Porque nom irá o judeu
onde vai Brísida Vaz?
Ao senhor meirinho apraz?
Senhor meirinho, irei eu?
DIABO E o fidalgo, quem lhe deu...
JUDEU O mando, dizês, do batel?
Corregedor, coronel,
castigai este sandeu!
Azará, pedra miúda,
lodo, chanto, fogo, lenha,
caganeira que te venha!
Má corrença que te acuda!
Par el Deu, que te sacuda
coa beca nos focinhos!
Fazes burla dos meirinhos?
Dize, filho da cornuda!
PARVO Furtaste a chiba cabrão?
Parecês-me vós a mim
gafanhoto d'Almeirim
chacinado em um seirão.
DIABO Judeu, lá te passarão,
porque vão mais despejados.
PARVO E ele mijou nos finados
n'ergueja de São Gião!
E comia a carne da panela
no dia de Nosso Senhor!
E aperta o salvador,
e mija na caravela!
DIABO Sus, sus! Demos à vela!
Vós, Judeu, irês à toa,
que sois mui ruim pessoa.
Levai o cabrão na trela!
Vem um Corregedor, carregado de feitos, e, chegando à barca do Inferno, com sua vara na mão, diz:
CORREGEDOR Hou da barca!
DIABO Que quereis?
CORREGEDOR Está aqui o senhor juiz?
DIABO Oh amador de perdiz.
gentil cárrega trazeis!
CORREGEDOR No meu ar conhecereis
que nom é ela do meu jeito.
DIABO Como vai lá o direito?
CORREGEDOR Nestes feitos o vereis.
DIABO Ora, pois, entrai. Veremos
que diz i nesse papel...
CORREGEDOR E onde vai o batel?
DIABO No Inferno vos poeremos.
CORREGEDOR Como? À terra dos demos
há-de ir um corregedor?
DIABO Santo descorregedor,
embarcai, e remaremos!
Ora, entrai, pois que viestes!
CORREGEDOR Non est de regulae juris, não!
DIABO Ita, Ita! Dai cá a mão!
Remaremos um remo destes.
Fazei conta que nacestes
pera nosso companheiro.
- Que fazes tu, barzoneiro?
Faze-lhe essa prancha prestes!
CORREGEDOR Oh! Renego da viagem
e de quem me há-de levar!
Há 'qui meirinho do mar?
DIABO Não há tal costumagem.
CORREGEDOR Nom entendo esta barcagem,
nem hoc nom potest esse.
DIABO Se ora vos parecesse
que nom sei mais que linguagem...
Entrai, entrai, corregedor!
CORREGEDOR Hou! Videtis qui petatis -
Super jure magestatis
tem vosso mando vigor?
DIABO Quando éreis ouvidor
nonne accepistis rapina?
Pois ireis pela bolina
onde nossa mercê for...
Oh! que isca esse papel
pera um fogo que eu sei!
CORREGEDOR Domine, memento mei!
DIABO Non es tempus, bacharel!
Imbarquemini in batel
quia Judicastis malitia.
CORREGEDOR Sempre ego justitia
fecit, e bem por nivel.
DIABO E as peitas dos judeus
que a vossa mulher levava?
CORREGEDOR Isso eu não o tomava
eram lá percalços seus.
Nom som pecatus meus,
peccavit uxore mea.
DIABO Et vobis quoque cum ea,
não temuistis Deus.
A largo modo adquiristis
sanguinis laboratorum
ignorantis peccatorum.
Ut quid eos non audistis?
CORREGEDOR Vós, arrais, nonne legistis
que o dar quebra os pinedos?
Os direitos estão quedos,
sed aliquid tradidistis...
DIABO Ora entrai, nos negros fados!
Ireis ao lago dos cães
e vereis os escrivães
como estão tão prosperados.
CORREGEDOR E na terra dos danados
estão os Evangelistas?
DIABO Os mestres das burlas vistas
lá estão bem fraguados.
Estando o Corregedor nesta prática com o Arrais infernal chegou um Procurador, carregado de livros, e diz o Corregedor ao Procurador:
CORREGEDOR Ó senhor Procurador!
PROCURADOR Bejo-vo-las mãos, Juiz!
Que diz esse arrais? Que diz?
DIABO Que serês bom remador.
Entrai, bacharel doutor,
e ireis dando na bomba.
PROCURADOR E este barqueiro zomba...
Jogatais de zombador?
Essa gente que aí está
pera onde a levais?
DIABO Pera as penas infernais.
PROCURADOR Dix! Nom vou eu pera lá!
Outro navio está cá,
muito milhor assombrado.
DIABO Ora estás bem aviado!
Entra, muitieramá!
CORREGEDOR Confessaste-vos, doutor?
PROCURADOR Bacharel som. Dou-me à Demo!
Não cuidei que era extremo,
nem de morte minha dor.
E vós, senhor Corregedor?
CORREGEDOR Eu mui bem me confessei,
mas tudo quanto roubei
encobri ao confessor...
Porque, se o nom tornais,
não vos querem absolver,
e é mui mau de volver
depois que o apanhais.
DIABO Pois porque nom embarcais?
PROCURADOR Quia speramus in Deo.
DIABO Imbarquemini in barco meo...
Pera que esperatis mais?
Vão-se ambos ao batel da Glória, e, chegando, diz o Corregedor ao Anjo:
CORREGEDOR Ó arrais dos gloriosos,
passai-nos neste batel!
ANJO Oh! pragas pera papel,
pera as almas odiosos!
Como vindes preciosos,
sendo filhos da ciência!
CORREGEDOR Oh! habeatis clemência
e passai-nos como vossos!
PARVO Hou, homens dos breviairos,
rapinastis coelhorum
et pernis perdigotorum
e mijais nos campanairos!
CORREGEDOR Oh! não nos sejais contrairos,
pois nom temos outra ponte!
PARVO Belequinis ubi sunt?
Ego latinus macairos.
ANJO A justiça divinal
vos manda vir carregados
porque vades embarcados
nesse batel infernal.
CORREGEDOR Oh! nom praza a São Marçal!
coa ribeira, nem co rio!
Cuidam lá que é desvario
haver cá tamanho mal!
PROCURADOR Que ribeira é esta tal!
PARVO Parecês-me vós a mi
como cagado nebri,
mandado no Sardoal.
Embarquetis in zambuquis!
CORREGEDOR Venha a negra prancha cá!
Vamos ver este segredo.
PROCURADOR Diz um texto do Degredo...
DIABO Entrai, que cá se dirá!
E Tanto que foram dentro no batel dos condenados, disse o Corregedor a Brízida Vaz, porque a conhecia:
CORREGEDOR Oh! esteis muitieramá,
senhora Brízida Vaz!
BRÍZIDA Já siquer estou em paz,
que não me leixáveis lá.
Cada hora sentenciada:
«Justiça que manda fazer....»
CORREGEDOR E vós... tornar a tecer
e urdir outra meada.
BRÍZIDA Dizede, juiz d'alçada:
vem lá Pêro de Lixboa?
Levá-lo-emos à toa
e irá nesta barcada.
Vem um homem que morreu Enforcado, e, chegando ao batel dos mal-aventurados, disse o Arrais, tanto que chegou:
DIABO Venhais embora, enforcado!
Que diz lá Garcia Moniz?
ENFORCADO Eu te direi que ele diz:
que fui bem-aventurado
em morrer dependurado
como o tordo na buiz,
e diz que os feitos que eu fiz
me fazem canonizado.
DIABO Entra cá, governarás
atá as portas do Inferno.
ENFORCADO Nom é essa a nau que eu governo.
DIABO Mando-te eu que aqui irás.
ENFORCADO Oh! nom praza a Barrabás!
Se Garcia Moniz diz
que os que morrem como eu fiz
são livres de Satanás...
E disse que a Deus prouvera
que fora ele o enforcado;
e que fosse Deus louvado
que em bo'hora eu cá nacera;
e que o Senhor m'escolhera;
e por bem vi beleguins.
E com isto mil latins,
mui lindos, feitos de cera.
E, no passo derradeiro,
me disse nos meus ouvidos
que o lugar dos escolhidos
era a forca e o Limoeiro;
nem guardião do moesteiro
nom tinha tão santa gente
como Afonso Valente
que é agora carcereiro.
DIABO Dava-te consolação
isso, ou algum esforço?
ENFORCADO Com o baraço no pescoço,
mui mal presta a pregação...
E ele leva a devação
que há-de tornar a jentar...
Mas quem há-de estar no ar
avorrece-lhe o sermão.
DIABO Entra, entra no batel,
que ao Inferno hás-de ir!
ENFORCADO O Moniz há-de mentir?
Disse-me que com São Miguel
jentaria pão e mel
tanto que fosse enforcado.
Ora, já passei meu fado,
e já feito é o burel.
Agora não sei que é isso:
não me falou em ribeira,
nem barqueiro, nem barqueira,
senão - logo ò Paraíso.
Isto muito em seu siso.
e era santo o meu baraço...
Eu não sei que aqui faço:
que é desta glória emproviso?
DIABO Falou-te no Purgatório?
ENFORCADO Disse que era o Limoeiro,
e ora por ele o salteiro
e o pregão vitatório;
e que era mui notório
que àqueles deciprinados
eram horas dos finados
e missas de São Gregório.
DIABO Quero-te desenganar:
se o que disse tomaras,
certo é que te salvaras.
Não o quiseste tomar...
- Alto! Todos a tirar,
que está em seco o batel!
- Saí vós, Frei Babriel!
Ajudai ali a botar!
Vêm Quatro Cavaleiros cantando, os quais trazem cada um a Cruz de Cristo, pelo qual Senhor e acrecentamento de Sua santa fé católica morreram em poder dos mouros. Absoltos a culpa e pena per privilégio que os que assi morrem têm dos mistérios da Paixão d'Aquele por Quem padecem, outorgados por todos os Presi- dentes Sumos Pontífices da Madre Santa Igreja. E a cantiga que assi cantavam, quanto a palavra dela, é a seguinte:
CAVALEIROS À barca, à barca segura,
barca bem guarnecida,
à barca, à barca da vida!
Senhores que trabalhais
pola vida transitória,
memória , por Deus, memória
deste temeroso cais!
À barca, à barca, mortais,
Barca bem guarnecida,
à barca, à barca da vida!
Vigiai-vos, pecadores,
que, depois da sepultura,
neste rio está a ventura
de prazeres ou dolores!
À barca, à barca, senhores,
barca mui nobrecida,
à barca, à barca da vida!
E passando per diante da proa do batel dos danados assi cantando, com suas espadas e escudos, disse o Arrais da perdição desta maneira:
DIABO Cavaleiros, vós passais
e nom perguntais onde is?
1º CAVALEIRO Vós, Satanás, presumis?
Atentai com quem falais!
2º CAVALEIRO Vós que nos demandais?
Siquer conhecê-nos bem:
morremos nas Partes d'Além,
e não queirais saber mais.
DIABO Entrai cá! Que cousa é essa?
Eu nom posso entender isto!
CAVALEIROS Quem morre por Jesu Cristo
não vai em tal barca como essa!
Tornaram a prosseguir, cantando, seu caminho direito à barca da Glória, e, tanto que chegam, diz o Anjo:
ANJO Ó cavaleiros de Deus,
a vós estou esperando,
que morrestes pelejando
por Cristo, Senhor dos Céus!
Sois livres de todo mal,
mártires da Santa Igreja,
que quem morre em tal peleja
merece paz eternal.
E assi embarcam.

ROMANTISMO

Posted by Profº Monteiro on dezembro 19, 2013
Características do Romantismo
A palavra romântico e derivados origina-se da forma francesa “romantique” (adjetivos de roman – romant – romanz), já assinalada em 1694 num texto do Abade Nicase (“Que dites – vous, Monsieur, de as pasteroux, ne sont – ils pás bien romantiques!”). Emprestada pelo Inglês e o Alemão, a palavra passou a romantik e romantisch, de onde foi importada por literatos franceses juntamente com a vaga, idéia que expressava. E da França disseminou-se pelo resto do mundo. (Segundo Massaud Moisés – p. 141)
Subjetivismo:
O romântico quer retratar em sua obra uma realidade interior e parcial. Trata os assuntos de uma forma pessoal, de acordo com o que sente, aproximando-se da fantasia.

Segundo Maçado Moisés no livro “A literatura Portuguesa”: “... o romântico mergulha cada vez mais na própria alma, a examinar-lhe mórbida e masoquistamente com o intento único de revelá-la e confessá-la. E embora confesse tempestades intimas ou fraquezas sentimentais, experimenta um prazer agridoce em fazê-lo, certo da superior dignidade do sofrimento.” (p.143)

Idealização:

Motivado pela fantasia e pela imaginação, o artista romântico passa a idealizar tudo; as coisas não são vistas como realmente são, mas como deveriam ser segundo uma ótica pessoal. Assim:

• a pátria é sempre perfeita;
• a mulher é vista como virgem, frágil, bela, submissa e inatingível;
• o amor é quase sempre espiritual e inalcançável.
Sentimentalismo ou saudosismo:
Exaltam-se os sentidos e tudo o que é provocado pelo impulso. Certos sentimentos como a saudade (saudosismo), a tristeza, a nostalgia e a desilusão são constantes na obra romântica.

Segundo Massaud Moisés no livro “A Literatura Portuguesa”: “... Velhas ruínas, restos de velhas civilizações, monumentos de povos desaparecidos torna-se igualmente uma forma de escapismo. Recuperar estados da alma talvez subconscientes no encontro da vida livre, longe das cidades e das formulas gastas de civilidade. Velhos castelos medievais de repente se tornam ponto de atração, ruínas de monumentos greco-latinos passam a ser visitados e apreciados pelo que evocam de melancolia e tristeza na lembrança de um tempo morto para sempre.” (p.145).
Egocentrismo:
Cultua-se o “eu” interior, atitude narcisista em que o individualismo prevalece microcosmos (mundo interior) X macrocosmos (mundo exterior).
Segundo Massaud Moisés no seu livro “A Literatura Portuguesa”: “... em lugar da ordem clássica, colocam a aventura ao cosmos, como sinônimo de equilíbrio, preferem o caos ou anarquia; ao universalismo clássico opõem um conceito de arte extremamente individualista: substituem a visão macrocosmica, isto é, centrada no” “eu” interior de cada um” (p.142).
Liberdade de criação:

Todo tipo de padrão clássico preestabelecido é abolido. O escritor romântico recusa formas poéticas, usa o verso livre e branco, libertando se dos modelos greco-latinos-, tão valorizados pelos clássicos, e aproximando se da linguagem coloquial.

Segundo Massaud Moisés no livro “A Literatura Portuguesa”: “... Os românticos revoltam-se contra as regras, os modelos as normas, batem-se pela total liberdade na criação artística e defendem a mistura e a” “impureza” dos gêneros literários.

Em lugar da ordem clássica, colocam a aventura, preferem o caos, ou a anarquia; ao universalismo clássico (142).”

Medievalismo:

Há um grande interesse dos românticos pelas origens de seu país, de seu povo. Na Europa, retornam à Idade Media e cultuam seus valores, por ser uma época obscura. Tanto é assim que o mundo medieval é considerado a “noite da humanidade”; o que não é muito claro, aguça a imaginação, a fantasia.

Segundo Massaud Moisés no livro “A Literatura Portuguesa”: “... Dentro da Europa, a Itália e a Espanha são os países mais procurados certamente por manterem vivos traços dos séculos medievais e cavalheirescos e uma atmosfera poética, que convida ao sonho e ao devaneio”.
Pessimismo:
Conhecido como o “mal do século”. O artista se vê diante da impossibilidade de realizar o sonho do “eu” e, desse modo, cai em profunda tristeza, angustia solidão, inquietação, desespero, frustração, levando-o muitas vezes ao suicídio, solução definitiva para o mal do século.

Segundo Massaud Moisés no livro “A Literatura Portuguesa”: “... Imerso no caos interior, o romântico acaba por sentir melancolia e tristeza que, cultivadas ou meramente nascidas e continuadas durante a introversão o levam ao tédio, ao “mal do século”. Após o tédio sobrevém uma terrível angustia logo transformada em insuportável desespero. Para sair dele, o romântico só encontra duas saídas, a fuga a deserção pelo suicídio, ou fuga para a natureza, a pátria, terras exóticas, a Historia”.
Escape Psicológico:
Espécie de fuga. Já que o romântico não aceita a realidade, volta ao passado, individual (fatos ligados ao seu próprio passado, a sua infância) ou histórico (época medieval).
Religiosidade:

Como uma reação ao Racionalismo materialista dos clássicos, a vida espiritual e a crença em deus são enfocadas como pontos de apoio ou válvulas de escape diante das frustrações do mudo real.

Segundo Massaud Moisés no livro “A Literatura Portuguesa”: “... Contraponde-se aos mitos pagãos do classicismo, os românticos pretendem a reabilitação do cristianismo anterior as lutas da Reforma e Contra-reforma, quer dizer do Cristianismo considerado virtuoso e ingênuo como só teria sido praticado na Idade Media” (p.146)

Culto ao Fantástico:

A presença do mistério, do sobrenatural, representando o sonho, a imaginação; frutos de pura fantasia, que não carecem da fundamentação lógica, do uso da razão.
Nativismo:
Fascinação pela natureza. O artista se vê totalmente envolvidos por paisagens exóticas, como se ele fosse uma continuação da natureza. Muitas vezes, o nacionalismo romântico é exaltado através da natureza, da força da paisagem.

Segundo Massaud Moisés no livro “A Literatura Portuguesa”: “... A natureza é procurada como confidente passiva e fiel, e um consolo nas horas amargas: deixando de ser pano de fundo, como era concebida entre os clássicos, a Natureza torna-se individualizada, personificada, mas só atua como reflexo do eu, se triste o romântico, a natureza também o é, pois ela constitui fundamentalmente “um estado da alma””...
Nacionalismo ou Patriotismo:

Exaltação da Pátria de forma exagerada, em que somente as qualidades são enaltecidas.
Luta entre o Liberalismo e o Absolutismo:
Poder do povo X poder da monarquia. Até na escolha do herói, o romântico dificilmente optava por um nobre. Geralmente, adotava heróis grandiosos, muitas vezes personagens históricos, que foram de algum modo, infelizes: vida trágica, amantes recusados, patriotas exilados.

Segundo Massaud Moisés no livro “A Literatura Portuguesa”: “(...) O romântico liberal em política sente-se fadado a uma grande missão civilizadora e redentora do povo, a quem ama como irmão de dor e injustiça: instaura-se a demofilia, a democracia”. Romantismo em Portugal
Em Portugal o processo de instauração do romantismo foi lento e incerto. Enquanto o romantismo de Delacroix avançava já para um projecto renascentista e o realismo tomava forma no horizonte parisiense, o romantismo português procurava ainda afirmar-se.

A implantação do romantismo em Portugal ocorre num contexto sociopolítico. São os anos posteriores às invasões francesas, que tinham originado o refúgio da corte portuguesa no Brasil e é também o tempo em que o desejo de independência dessa colônia ganha força.Em 1825 Garrett publicou o poema Camões que passa a ser considerado o ponto de partida para a fixação da cronologia do romantismo português. Portugal era um país pequeno e decaído, saudoso da grandeza perdida. Esses patriotas, confiantes nas virtudes da liberdade, propunham-se contribuir para um renascimento pátrio.
O romantismo constitui uma tomada de consciência e uma conquista dum senso histórico e dum senso crítico novo aplicado aos fenômenos da cultura. Começa-se a relacionar o Homem com o meio a que pertence e a época de que é produto. Em Portugal, tal como na Europa, o romantismo manifestou-se também na pintura e na arquitetura. A evolução, na pintura, do neoclassicismo para o romantismo foi lenta e tormentosa, só tardiamente ganhou expressão entre nós. Não existiam mestres, o seu surgimento é o resultado do amor que os jovens artistas tinham à natureza.
Romantismo no Brasil
Começa o Romantismo no Brasil em 1836, com publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães. Aparece também, nessa época, a revista Niterói, com idéias românticas de Gonçalves de Magalhães, Porto Alegre e Torres Homem.

A literatura romântica no Brasil apresentou várias tendências:

a) o indianismo e o nacionalismo: valorização do índio e da nossa fauna;

b) o regionalismo (ou sertanismo), que aborda o nosso homem o nosso homem do interior, caracterizando a região em que vive com seu folclore, seu costume e tipo característico;

c) o chamado mal do século ou byronismo, marcado pela melancolia, tristeza, sentimento de morte, pessimismo, cansaço da vida:

d) realidade política e social (o abolicionismo, as lutas humanitárias, sentimentos liberais, o poder agrário);

e) os problemas urbanos surgidos com o relacionamento indústria-operário, a corrupção e o materialismo.

O espírito clássico, a obediência ás regras e á razão entram em crise, e surge o Romantismo, um movimento literário.

O Romantismo, um movimento cultural muito amplo, é fruto de uma nova atitude de espírito diante dos problemas da vida e do pensamento, implica numa profunda metamorfose, numa verdadeira revolução histórico-cultural, que abrange a filosofia, as artes, as ciências, as religiões, a moral, a política, os costumes as relações sociais e ás famílias. O estilo toma suas liberdades, de modo que o escritor cria seu próprio vocabulário e forma sua própria sintaxe, fugindo das normas acadêmicas tradicionais.

A obra romântica é marcada de sentimentalismo, melancolia, saudade, liberdade na criação artística individualismo, imaginação, sentimento religioso, sentimento nacionalista.
Gerações
Reconhecem-se três gerações, marcadas por certa unidade temática e formal nem sempre rígida. Atitude de uma geração projeta-se nas demais:
1) 1º Geração ( Indianismo – Nacionalismo):
Gonçalves Dias foi o melhor poeta de sua geração. Esses poetas ( Gonçalves de Magalhães, conde Araújo Porto – Alegre, Joaquim Noberto Sotero dos Reis, Odorico Mendes e Gonçalves Dias) apresentaram fortes resíduos do Neoclassicismo.
2) POESIA DA SEGUNDA GERAÇÃO ROMÂNTICA ( Byroniana – Individualista – Egótica – Mal – do – Século – Ultra – Romantismo). Destaques: Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu
3) TERCEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA ( Candoeira – Poesia Social – Mugoana – Escola de Recife)Destaque: Castro Alves
Romance Romântico

Desde os primórdios da Literatura, a narrativa tem sido a manifestação mais difundida, evoluindo da narrativa oral. O Romance projeta o gosto do público burguês. Os primeiros romances editados no Brasil, ainda na década de 1830, marcam-se pelo aspecto do folhetinesco. O folhetim, publicado com periodicidade regular pela imprensa, eqüivale as atuais novelas de televisão e confina com a subliteratura.
Em linhas gerais, a ficção romântica, aprovada no propósito nacionalista de reconhecer e exaltar nossas paisagens e costumes, desdobrou-se em três direções:
A – O PASSADO
Através do romance histórico, buscava na história e nas lendas heróicas a afirmação da nacionalidade. O romancista não tem compromisso com a verdade histórica. No Brasil, os índios de Alencar ( O Guarani, Iracema, e Ubirajara) são transformados em cavaleiros medievais, vistos com símbolos e elementos formadores da nacionalidade, substituindo a Idade Média que não tivemos.
B – A CIDADE
Através do romance urbano e de costumes, retrata-se a vida da Corte, no Rio de Janeiro do século XIX, fotografando, com alguma fidelidade, costumes, cenas, ambientes e tipos humanos da burguesia carioca. As personagens são adaptadas através dos atos, gestos, diálogos, roupas. Não há penetração psicológica. Macedo e Alencar ( Diva, Lucíola e Senhora) representam essa vertente.
C – O REGIONALISMO
Voltado para o campo, para a província e para o sertão, num esforço nacionalista de reconhecer e exaltar a terra e o homem brasileiro, acentuado as particularidades de seus costumes e ambientes. Busca-se retratar o Nordeste ( O Sertanejo, de Alencar e a Cabeleira, de Franklin Távora), o sul ( o Gaúcho, de Alencar) o sertão de Minas e Goiás ( o Garimpeiro e o Seminarista, de Bernardo Guimarães) e o Sertão e o Pantanal de Mato Grosso ( Inocência, do Visconde de Taunay).
José de Alencar, nosso primeiro ficcionista de largo vôo, exemplifica, pelo conjunto de sua obra, quase todos os tipos do romance romântico. Manuel Antônio de Almeida, em Memórias de um Sargento de Milícias, afasta-se das convenções românticas, criando uma obra que destoa do tom idealizador e heróico dos demais romancistas da época, para aproximar-se da imparciabilidade dos narradores realistas, na retratação das classes do Rio Colonial.
O Romantismo na história da literatura brasileira
Tudo começou com a transferência da Família Real Portuguesa para o Brasil em 1808. Na época, a família trouxe com ela o espírito da Europa: o Romantismo europeu incipiente que acabaria influenciando culturalmente o Brasil.
Nossos escritores começaram então a se preocupar com alguns assuntos até aquele momento esquecidos ou não abordados nas obras da época: - o subjetivismo, a liberdade individual e uma preocupação com os assuntos sociais.
Veio a Independência do Brasil e com ela, a importância de se exaltar nossa cultura, torná-la independente da Europa e promover nossas belezas tropicais e nossos índios.
Os poetas destacavam-se nessa época: - Castro Alves (1847-1871) que escreveu sobre os escravos africanos e Gonçalves Dias (1823-1864) que escreveu sobre os índios. José de Alencar (1829-1877) escrevia romances populares sobre os índios, dentre eles “Iracema”, considerado uma obra-prima no quesito época-sociedade-índios, utilizando o seu estilo “indinista”. Ainda podemos destacar nessa linha, “O Guarani”, um romance histórico.
Já no período II do Romantismo no Brasil, conforme nosso quadro ”A LITERATURA E OS SÉCULOS”, há um novelista desse período que é amplamente lido até hoje: Joaquim Manuel de Macedo, que escreveu “A Moreninha”, com uma história popular, condizente aos padrões literários cariocas da sociedade da época.
Surge então o Parnasianismo, uma reação contra os excessos dos Românticos, através da poesia de Olavo Bilac (1865-1918), Raimundo Corrêa (1860-1911), e Alberto de Oliveira (1859-1937) – este último escrevia poesia de 1a. linha, a qual Alberto de Oliveira demonstrava o interesse em assuntos sociais.
No começo do século XX, os artistas brasileiros foram iluminados com novas idéias: - começa então a Semana de Arte Moderna em S. Paulo, evento este que culminou a expansão de novas idéias e propiciou uma revolução no campo artístico e literário. Os artistas foram invadidos com sentimento de orgulho pelo folclore nacional, nossa história e nossa ascendência.
Mário de Andrade (1893-1945) foi o líder mais importante dessa fase da literatura, escrevendo poesia, composições em literatura, arte, música e folclore brasileiro, e Macunaíma que ele chamou “uma rapsódia, não um romance”.
De repente nossa terra floresce nas artes e na literatura, e então Oswald de Andrade (1890-1953) escreveu uma coleção de poemas que intitulou “Pau-Brasil” e nela avaliou a cultura brasileira, as superstições, e a vida familiar em idiomas simples, economicamente, e, pela primeira vez em poesia brasileira, com humor.
No Brasil surge então, uma nova fase do Romantismo, com um outro conteúdo social, inicialmente com José Américo de Almeida (1887-1969) que escreveu “A Bagaceira”, uma história única na revelação da difícil vida sertaneja nordestina. Jorge Amado(1912-), Graciliano Ramos(1892-1953), José Lins do rego(1901-1957) e Rachel de Queiroz(1910-) foram os seguidores de José Américo de Almeida. Eles foram atentos a obra de José Américo de Almeida e, o nordeste, local onde todos eles nasceram, pôde ser explorado com mais vigor, evidenciando a imagem do pobre nordestino ante as dificuldades com os problemas e sofrimentos do povo nordestino.
Os primeiros romances de Jorge Amado, o escritor brasileiro mais traduzido de todos os tempos, pois os romances foram traduzidos em 33 idiomas, foram, em sua maioria, influenciados pelas idéias Marxistas e se concentraram no sofrimento do povo nordestino, o povo que trabalhava nas plantações de cacau na fazenda de propriedade de sua família e também em humildes pescadores de pequenas aldeias no litoral.

Farsa ou Auto de Inês Pereira, de( Gil Vicente)

Posted by Profº Monteiro on dezembro 19, 2013
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
Projecto Vercial - Literatura Portuguesa < http://www.ipn.pt/opsis/litera/>
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FARSA OU AUTO DE INÊS PEREIRA
Gil Vicente
A seguinte farsa de folgar foi representada ao muito alto e mui poderoso rei D. João, o terceiro do nome em Portugal, no seu Convento de Tomar, era do Senhor de MDXXIII. O seu argumento é que porquanto duvidavam certos homens de bom saber se o Autor fazia de si mesmo estas obras, ou se furtava de outros autores, lhe deram este tema sobre que fizesse: segundo um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube. E sobre este motivo se fez esta farsa.
A figuras são as seguintes: Inês Pereira; sua Mãe; Lianor Vaz; Pêro Marques; dous Judeus (um chamado Latão, outro Vidal); um Escudeiro com um seu Moço; um Ermitão; Luzia e Fernando.
Finge-se que Inês Pereira, filha de hüa molher de baixa sorte, muito fantesiosa, está lavrando em casa, e sua mãe é a ouvir missa, e ela canta esta cantiga:
Canta Inês:
Quien con veros pena y muere
Que hará quando no os viere?
(Falando)
INÊS Renego deste lavrar
E do primeiro que o usou;
Ó diabo que o eu dou,
Que tão mau é d'aturar.
Oh Jesu! que enfadamento,
E que raiva, e que tormento,
Que cegueira, e que canseira!
Eu hei-de buscar maneira
D'algum outro aviamento.
Coitada, assi hei-de estar
Encerrada nesta casa
Como panela sem asa,
Que sempre está num lugar?
E assi hão-de ser logrados
Dous dias amargurados,
Que eu possa durar viva?
E assim hei-de estar cativa
Em poder de desfiados?
Antes o darei ao Diabo
Que lavrar mais nem pontada.
Já tenho a vida cansada
De fazer sempre dum cabo.
Todas folgam, e eu não,
Todas vêm e todas vão
Onde querem, senão eu.
Hui! e que pecado é o meu,
Ou que dor de coração?
Esta vida he mais que morta.
Sam eu coruja ou corujo,
Ou sam algum caramujo
Que não sai senão à porta?
E quando me dão algum dia
Licença, como a bugia,
Que possa estar à janela,
É já mais que a Madanela
Quando achou a aleluía.
Vem a Mãe, e não na achando lavrando, diz:
MÃE Logo eu adivinhei
Lá na missa onde eu estava,
Como a minha Inês lavrava
A tarefa que lhe eu dei...
Acaba esse travesseiro!
Hui! Nasceu-te algum unheiro?
Ou cuidas que é dia santo?
INÊS Praza a Deos que algum quebranto?
Me tire do cativeiro.
MÃE Toda tu estás aquela!
Choram-te os filhos por pão?
INÊS Prouvesse a Deus! Que já é razão
De eu não estar tão singela.
MÃE Olhade ali o mau pesar...
Como queres tu casar
Com fama de preguiçosa?
INÊS Mas eu, mãe, sam aguçosa
E vós dais-vos de vagar.
MÃE Ora espera assi, vejamos.
INÊS Quem já visse esse prazer!
MÃE Cal'-te, que poderá ser
Que «ame a Páscoa vêm os Ramos».
Não te apresses tu, Inês.
«Maior é o ano que o mês»:
Quando te não precatares,
Virão maridos a pares,
E filhos de três em três.
INÊS Quero-m'ora alevantar.
Folgo mais de falar nisso,
Assi me dê Deos o paraíso,
Mil vezes que não lavrar
Isto não sei que me faz
MÃE Aqui vem Lianor Vaz.
INÊS E ela vem-se benzendo...
(Entra Lianor Vaz)
LIANOR Jesu a que me eu encomendo!
Quanta cousa que se faz!
MÃE Lianor Vaz, que é isso?
LIANOR Venho eu, mana, amarela?
MÃE Mais ruiva que uma panela.
LIANOR Não sei como tenho siso!
Jesu! Jesu! que farei?
Não sei se me vá a el-Rei,
Se me vá ao Cardeal.
MÃE Como? e tamanho é o mal?
LIANOR Tamanho? eu to direi:
Vinha agora pereli
Ó redor da minha vinha,
E hum clérigo, mana minha,
Pardeos, lançou mão de mi;
Não me podia valer
Diz que havia de saber
S'era eu fêmea, se macho.
MÃE Hui! seria algum muchacho,
Que brincava por prazer?
LIANOR Si, muchacho sobejava
Era hum zote tamanhouço!
Eu andava no retouço,
Tão rouca que não falava.
Quando o vi pegar comigo,
Que m'achei naquele p'rigo:
– Assolverei! - não assolverás!
–Tomarei! - não tomarás!
– Jesu! homem, qu'has contigo?
– Irmã, eu te assolverei
Co breviairo de Braga.
– Que breviairo, ou que praga!
Que não quero: aqui d'el-Rei! –
Quando viu revolta a voda,
Foi e esfarrapou-me toda
O cabeção da camisa.
MÃE Assi me fez dessa guisa
Outro, no tempo da poda.
Eu cuidei que era jogo,
E ele... dai-o vós ao fogo!
Tomou-me tamanho riso,
Riso em todo meu siso,
E ele leixou-me logo.
LIANOR Si, agora, eramá,
Também eu me ria cá
Das cousas que me dizia:
Chamava-me «luz do dia».
– «Nunca teu olho verá!» –
Se estivera de maneira
Sem ser rouca, bradar'eu;
Mas logo m'o demo deu
Catarrão e peitogueira,
Cócegas e cor de rir,
E coxa pera fugir,
E fraca pera vencer:
Porém pude-me valer
Sem me ninguém acudir...
O demo (e não pode al ser)
Se chantou no corpo dele.
MÃE Mana, conhecia-te ele?
LIANOR Mas queria-me conhecer!
MÃE Vistes vós tamanho mal?
LIANOR Eu m'irei ao Cardeal,
E far-lhe-ei assi mesura,
E contar lhe-ei a aventura
Que achei no meu olival.
MÃE Não estás tu arranhada,
De te carpir, nas queixadas?
LIANOR Eu tenho as unhas cortadas,
E mais estou tosquiada:
E mais pera que era isso?
E mais pera que é o siso?
E mais no meio da requesta
Veio hum homem de hüa besta,
Que em vê-lo vi o p'raíso,
E soltou-me, porque vinha
Bem contra sua vontade.
Porém, a falar a verdade,
Já eu andava cansadinha:
Não me valia rogar
Nem me valia chamar:
– «Aque de Vasco de Fois,
Acudi-me, como sois!»
E ele... senão pegar:
– Mais mansa, Lianor Vaz,
Assi Deus te faça santa.
– Trama te dê na garganta!
Como! isto assi se faz?
– Isto não revela nada...
– Tu não vês que são casada?
MÃE Deras-lhe, má hora, boa,
E mordera-lo na coroa.
LIANOR Assi! fora excomungada.
Não lhe dera um empuxão,
Porque sou tão maviosa,
Que é cousa maravilhosa.
E esta é a concrusão.
Leixemos isto. Eu venho
Com grande amor que vos tenho,
Porque diz o exemplo antigo
Que a amiga e bom amigo
Mais aquenta que o bom lenho.
Inês está concertada
Pera casar com alguém?
MÃE Até `gora com ninguém
Não é ela embaraçada.
LIANOR Eu vos trago um casamento
Em nome do anjo bento.
Filha, não sei se vos praz.
INÊS E quando, Lianor Vaz?
LIANOR Eu vos trago aviamento.
INÊS Porém, não hei-de casar
Senão com homem avisado
Ainda que pobre e pelado,
Seja discreto em falar
LIANOR Eu vos trago um bom marido,
Rico, honrado, conhecido.
Diz que em camisa vos quer
INÊS Primeiro eu hei-de saber
Se é parvo, se sabido.
LIANOR Nesta carta que aqui vem
Pera vós, filha, d'amores,
Veredes vós, minhas flores,
A discrição que ele tem.
INÊS Mostrai-ma cá, quero ver
LIANOR Tomai. E sabedes vós ler?
MÃE Hui! e ela sabe latim
E gramática e alfaqui
E tudo quanto ela quer!
INÊS (lê a carta)
«Senhora amiga Inês Pereira,
Pêro Marquez, vosso amigo,
Que ora estou na nossa aldea,
Mesmo na vossa mercea
M'encomendo. E mais digo,
Digo que benza-vos Deos,
Que vos fez de tão bom jeito.
Bom prazer e bom proveito
Veja vossa mãe de vós.
Ainda que eu vos vi
Est'outro dia folgar
E não quisestes bailar,
Nem cantar presente mi...»
INÊS Na voda de seu avô,
Ou onde me viu ora ele?
Lianor Vaz, este é ele?
LIANOR Lede a carta sem dó,
Que inda eu são contente dele.
Prossegue Inês Pereira a carta:
«Nem cantar presente mi.
Pois Deos sabe a rebentinha
Que me fizestes então.
Ora, Inês, que hajais bênção
De vosso pai e a minha,
Que venha isto a concrusão.
E rogo-vos como amiga,
Que samicas vós sereis,
Que de parte me faleis
Antes que outrem vo-lo diga.
E, se não fiais de mi,
Esteja vossa mãe aí,
E Lianor Vaz de presente.
Veremos se sois contente
Que casemos na boa hora.»
INÊS Des que nasci até agora
Não vi tal vilão com'este,
Nem tanto fora de mão!
LIANOR Não queirais ser tão senhora.
Casa, filha, que te preste,
Não percas a ocasião.
Queres casar a prazer
No tempo d'agora, Inês?
Antes casa, em que te pês,
Que não é tempo d'escolher.
Sempre eu ouvi dizer:
«Ou seja sapo ou sapinho,
Ou marido ou maridinho,
Tenha o que houver mister.»
Este é o certo caminho.
MÃE Pardeus, amiga, essa é ela!
«Mata o cavalo de sela
E bom é o asno que me leva».
Filha, «no Chão de Couce
Quem não puder andar choute.»
E: «mais quero eu quem m'adore
Que quem faça com que chore».
Chamá-lo-ei, Inês?
INÊS Si.
Venha e veja-me a mi.
Quero ver quando me vir
Se perderá o presumir
Logo em chegando aqui,
Pera me fartar de rir.
MÃE Touca-te, se cá vier
Pois que pera casar anda.
INÊS Essa é boa demanda!
Cerimónias há mister
Homem que tal carta manda?
Eu o estou cá pintando:
Sabeis, mãe, que eu adivinho?
Deve ser um vilãozinho
Ei-lo, se vem penteando:
Será com algum ancinho?
Aqui vem Pêro Marques, vestido como filho de lavrador rico, com um gabão azul deitado ao ombro, com o capelo por diante, e vem dizendo:
PÊRO Homem que vai aonde eu vou
Não se deve de correr
Ria embora quem quiser
Que eu em meu siso estou.
Não sei onde mora aqui...
Olhai que m'esquece a mi!
Eu creo que nesta rua...
E esta parreira é sua.
Já conheço que é aqui.
Chega Pêro Marques aonde elas
estão, e diz:
Digo que esteis muito embora.
Folguei ora de vir cá...
Eu vos escrevi de lá
Üa cartinha, senhora...
E assi que de maneira...
MÃE Tomai aquela cadeira.
PÊRO E que val aqui uma destas?
INÊS (Ó Jesu! que João das bestas!
Olhai aquela canseira!)
Assentou-se com as costas pera elas, e diz:
PÊRO Eu cuido que não estou bem...
MÃE Como vos chamais, amigo?
PÊRO Eu Pêro Marques me digo,
Como meu pai que Deos tem.
Faleceu, perdoe-lhe Deos,
Que fora bem escusado,
E ficamos dous eréos.
Porém meu é o mor gado.
MÃE De morgado é vosso estado?
Isso viria dos céus.
PÊRO Mais gado tenho eu já quanto,
E o mor de todo o gado,
Digo maior algum tanto.
E desejo ser casado,
Prouguesse ao Espírito Santo,
Com Inês, que eu me espanto
Quem me fez seu namorado.
Parece moça de bem,
E eu de bem, er também.
Ora vós er ide vendo
Se lhe vem milhor ninguém,
A segundo o que eu entendo.
Cuido que lhe trago aqui
Pêras da minha pereira...
Hão-de estar na derradeira.
Tende ora, Inês, per i.
INÊS E isso hei-de ter na mão?
PÊRO Deitae as peas no chão.
INÊS As perlas pera enfiar..
Três chocalhos e um novelo...
E as peias no capelo...
E as pêras? Onde estão?
PÊRO Nunca tal me aconteceu!
Algum rapaz m'as comeu...
Que as meti no capelo,
E ficou aqui o novelo,
E o pente não se perdeu.
Pois trazia-as de boa mente...
INÊS Fresco vinha aí o presente
Com folhinhas borrifadas!
PÊRO Não, que elas vinham chentadas
Cá em fundo no mais quente.
Vossa mãe foi-se? Ora bem...
Sós nos leixou ela assi?...
Cant'eu quero-me ir daqui,
Não diga algum demo alguém...
INÊS Vós que me havíeis de fazer?
Nem ninguém que há-de dizer?
(O galante despejado!).
PÊRO Se eu fora já casado,
D'outra arte havia de ser
Como homem de bom recado.
INÊS (Quão desviado este está!
Todos andam por caçar
Suas damas sem casar
E este... tomade-o lá!).
PÊRO Vossa mãe é lá no muro?
INÊS Minha mãe eu vos seguro
Que ela venha cá dormir
PÊRO Pois, senhora, eu quero-me ir
Antes que venha o escuro.
INÊS E não cureis mais de vir.
PÊRO Virá cá Lianor Vaz,
Veremos que lhe dizeis...
INÊS Homem, não aporfieis,
Que não quero, nem me apraz.
Ide casar a Cascais.
PÊRO Não vos anojarei mais,
Ainda que saiba estalar;
E prometo não casar
Até que vós não queirais.
(Pêro vai-se, dizendo:)
Estas vos são elas a vós:
Anda homem a gastar calçado,
E quando cuida que é aviado,
Escarnefucham de vós!
Creo que lá fica a pea...
Pardeus! Bô ia eu à aldeia!
(Voltando atrás)
Senhora, cá fica o fato?
INÊS Olhai se o levou o gato...
PÊRO Inda não tendes candea?
Ponho per cajo que alguém
Vem como eu vim agora,
E vos acha só a tal hora:
Parece-vos que será bem?
Ficai-vos ora com Deos:
Çarrai a porta sobre vós
Com vossa candeazinha.
E sicais sereis vós minha,
Entonces veremos nós...
(Vai-se Pêro Marques e diz Inês Pereira:)
INÊS Pessoa conheço eu
Que levara outro caminho...
Casai lá com um vilãozinho,
Mais covarde que um judeu!
Se fora outro homem agora,
E me topara a tal hora,
Estando assi às escuras,
Dissera-me mil doçuras,
Ainda que mais não fora...
(Vem a Mãe e diz:)
MÃE Pêro Marques foi-se já?
INÊS E pera que era ele aqui?
MÃE E não t'agrada ele a ti?
INÊS Vá-se muitieramá!
Que sempre disse e direi:
Mãe, eu me não casarei
Senão com homem discreto,
E assi vo-lo prometo
Ou antes o leixarei.
Que seja homem mal feito,
Feio, pobre, sem feição,
Como tiver discrição,
Não lhe quero mais proveito.
E saiba tanger viola,
E coma eu pão e cebola.
Siquer uma cantiguinha!
Discreto, feito em farinha,
Porque isto me degola.
MÃE Sempre tu hás-de bailar
E sempre ele há-de tanger?
Se não tiveres que comer
O tanger te há-de fartar?
INÊS Cada louco com sua teima.
Com uma borda de boleima
E uma vez d'água fria,
Não quero mais cada dia.
MÃE Como às vezes isso queima!
E que é desses escudeiros?
INÊS Eu falei ontem ali
Que passaram por aqui
Os judeos casamenteiros
E hão-de vir agora aqui.
Aqui entram os Judeus casamenteiros, um, Latão, e outro, Vidal e diz Latão:
LATÃO Ou de cá!
INÊS Quem está lá?
VIDAL Nome del Deu, aqui somos!
LATÃO Não sabeis quão longe fomos!
VIDAL Corremos a iramá.
Este e eu.
LATÃO Eu, e este...
VIDAL Pola lama e polo pó,
Que era pera haver dó,
Com chuva, sol e Nordeste.
Foi a coisa de maneira,
Tal friúra e tal canseira,
Que trago as tripas maçadas.
Assi me fadem boas fadas
Que me saltou caganeira!
Pera vossa mercê ver
O que nos encomendou.
LATÃO O que nos encomendou
Será o que hoiver de ser
Todo este mundo é fadiga
Vós dixestes, fiiha amiga,
Que vos buscássemos logo...
VIDAL E logo pujemos fogo...
LATÃO Cala-te!
VIDAL Não queres que diga?
Não fui eu também contigo?
Tu e eu não somos eu?
Tu judeu e eu judeu,
Não somos massa dum trigo?
LATÃO Leixa-me falar.
VIDAL Já calo.
Senhora, fomos... agora falo,
Ou falas tu?
LATÃO Dize, que dizias?
Que foste, que fomos, que ias
Buscá-lo, esgravatá-lo...
VIDAL Vós, amor, quereis marido
Mui discreto, e de viola?
LATÃO Esta moça não é tola,
Que quer casar per sentido...
VIDAL Judeu, queres-me leixar?
LATÃO Leixo, não quero falar
VIDAL Buscámo-lo...
LATÃO Demo foi logo!
Crede que o vosso rogo
Vencerá o Tejo e o mar
Eu cuido que falo e calo...
Calo eu agora ou não?
Ou falo se vem à mão?
Não digas que não te falo.
INÊS Jesu! Guarde-me ora Deus!
Não falará um de vós?
Já queria saber isso...
MÃE Que siso, Inês, que siso
Tens debaixo desses véus...
INÊS Diz o exemplo da velha:
«O que não haveis de comer
Leixai-o a outrem mexer».
MÃE Eu não sei quem t'aconselha...
INÊS Enfim, que novas trazeis?
VIDAL O marido que quereis,
De viola e dessa sorte,
Não no há senão na corte
Que cá não no achareis.
Falámos a Badajoz,
Músico, discreto, solteiro.
Este fora o verdadeiro,
Mas soltou-se-nos da noz.
Fomos a Vilhacastim
E falou-nos em latim:
– «Vinde cá daqui a uma hora,
E trazei-me essa senhora».
INÊS Assi que é tudo nada enfim!
VIDAL Esperai, aguardai ora!
Soubemos dum escudeiro
De feição d'atafoneiro
Que virá logo essora,
Que fala... e com' ora fala!
Estrugirá esta sala.
E tange... e com' ora tange!
E alcança quanto abrange,
E se preza bem da gala.
Vem o Escudeiro, com seu Moço, que lhe traz uma viola, e diz, falando só:
ESCUDEIRO Se esta senhora é tal
Como os Judeus ma gabaram,
Certo os anjos a pintaram,
E não pode ser i al.
Diz que os olhos com que via
Foram de Santa Luzia,
Cabelos, da Madanela...
Se fosse moça tão bela,
Como donzela seria?
Moça de vila será ela
Com sinalzinho postiço,
E sarnosa no toutiço,
Como burra de Castela.
Eu, assi como chegar
Cumpre-me bem atentar
Se é garrida, se honesta,
Porque o milhor da festa
É achar siso e calar.
(Falando para Inês:)
MÃE Se este escudeiro há-de vir
E é homem de discrição,
Hás-te de pôr em feição,
De falar pouco e não rir
E mais, Inês, não muito olhar
E muito chão o menear
Por que te julguem por muda,
Porque a moça sesuda
É uma perla pera amar.
(Falando para o criado:)
ESCUDEIRO Olha cá, Fernando, eu vou
Ver a com que hei-de casar.
Avisa-te, que hás-de estar
Sem barrete onde eu estou.
MOÇO (Como a rei! Corpo de mi!
Mui bem vai isso assi...)
ESCUDEIRO E, se cuspir, pola ventura,
Põe-lhe o pé e faz mesura.
MOÇO (Ainda eu isso não vi!)
ESCUDEIRO E se me vires mentir
Gabando-me de privado,
Está tu dissimulado,
Ou sai-te pera fora a rir
Isto te aviso daqui,
Faze-o por amor de mi.
MOÇO Porém, senhor digo eu
Que mau calçado é o meu
Pera estas vistas assi.
ESCUDEIRO Que farei, que o sapateiro
Não tem solas nem tem pele?
MOÇO Sapatos me daria ele,
Se me vós désseis dinheiro...
ESCUDEIRO Eu o haverei agora.
E mais calças te prometo.
MOÇO (Homem que não tem nem preto,
Casa muito na má hora.)
Chega o Escudeiro onde está Inês Pereira, e levantam-se todos, e fazem suas mesuras, e diz o Escudeiro:
ESCUDEIRO Antes que mais diga agora,
Deus vos salve, fresca rosa,
E vos dê por minha esposa,
Por mulher e por senhora;
Que bem vejo
Nesse ar, nesse despejo,
Mui graciosa donzela,
Que vós sois, minha alma, aquela
Que eu busco e que desejo.
Obrou bem a Natureza
Em vos dar tal condição
Que amais a discrição
Muito mais que a riqueza.
Bem parece
Que a discrição merece
Gozar vossa fermosura,
Que é tal que, de ventura,
Outra tal não se acontece.
Senhora, eu me contento
Receber vos como estais:
Se vós vos não contentais,
O vosso contentamento
Pode falecer no mais.
LATÃO (Como fala!
VIDAL E ela como se cala!
Tem atento o ouvido...
Este há-de ser seu marido,
Segundo a coisa s'abala.)
ESCUDEIRO Eu não tenho mais de meu,
Somente ser comprador
Do Marichal meu senhor
E são escudeiro seu.
Sei bem ler
E muito bem escrever
E bom jogador de bola,
E quanto a tanger viola,
Logo me vereis tanger
Moço, que estais lá olhando?
MOÇO Que manda Vossa Mercê?
ESCUDEIRO Que venhais cá.
MOÇO Pera quê?
ESCUDEIRO Por que faças o que eu mando!
MOÇO Logo vou.
(O Diabo me tomou:
Sair me de João Montês
Por servir um tavanês
Mor doudo que Deus criou!)
ESCUDEIRO Fui despedir um rapaz
Que valia Perpinhão,
Por tomar este ladrão.
Moço!
MOÇO Que vos praz?
ESCUDEIRO A viola.
MOÇO (Oh! como ficará tola
Se não fosse casar ante
Co mais sáfio bargante
Que coma pão e cebola!).
Ei-la aqui bem temperada,
Não tendes que temperar
ESCUDEIRO Faria bem de ta quebrar
Na cabeça bem migada!
MOÇO E se ela é emprestada,
Quem na havia de pagar?
Meu amo, eu quero m'ir.
ESCUDEIRO E quando queres partir?
MOÇO Ante que venha o Inverno,
Porque vós não dais governo
Pera vos ninguém servir
ESCUDEIRO Não dormes tu que te farte?
MOÇO No chão, e o telhado por manta...
E çarra-se m'a garganta
Com fome.
ESCUDEIRO Isso tem arte...
MOÇO Vós sempre zombais assi.
ESCUDEIRO Oh que boas vozes tem
Esta viola aqui!
Leixa-me casar a mi,
Depois eu te farei bem.
MÃE Agora vos digo eu
Que Inês está no Paraíso!
INÊS Que tendes de ver co isso?
Todo o mal há-de ser meu.
MÃE Quanta doudice!
INÊS Oh! como é seca a velhice!
Leixai-me ouvir e folgar,
Que não me hei-de contentar
De casar com parvoíce.
Pode ser maior riqueza
Que um homem avisado?
MÃE Muitas vezes, mal pecado,
é milhor boa simpreza.
LATÃO Ora oivi, e oivireis.
Escudeiro, cantareis
Alguma boa cantadela.
Namorai esta donzela
E esta cantiga direis:
Canta o Judeu
«Canas do amor, canas,
canas do amor
Polo longo dum rio
Canaval vi florido,
Canas do amo.»
Canta o Escudeiro o romance «Mal me quieren en Castilla» e diz Vidal:
VIDAL Latão, já o sono é comigo
Como oivo cantar guaiado,
Que não vai esfandegado...
LATÃO Esse é o Demo que eu digo!
Viste cantar Dona Sol:
Pelo mar voy a vela,
Vela vay pelo mar?
VIDAL Filha Inês, assi vivais
Que tomeis esse senhor
Escudeiro cantador
E caçador de pardais,
Sabedor revolvedor
Falador gracejador
Afoitado pela mão,
E sabe de gavião...
Tomai-o por meu amor.
Podeis topar um rabugento,
Desmazelado, baboso,
Descancarado, brigoso,
Medroso, carapatento.
Este escudeiro, aosadas,
Onde se derem pancadas,
Ele as há-de levar
Boas, senão apanhar..
Nele tendes boas fadas.
MÃE Quero rir com toda a mágoa
Destes teus casamenteiros!
Nunca vi Judeus ferreiros
Aturar tão bem a frágoa.
Não te é milhor mal por mal,
Inês, um bom oficial,
Que te ganhe nessa praça,
Que é um escravo de graça,
E mais casas com teu igual?
LATÃO Senhora, perdei cuidado:
O que há-de ser há-de ser;
E ninguém pode tolher
O que está determinado.
VIDAL Assi diz Rabi Zarão.
MÃE Inês, guar'-te de rascão!
Escudeiro queres tu?
INÊS Jesu, nome de Jesu!
Quão fora sois de feição!
Já minha mãe adivinha...
Folgastes vós na verdade
Casar à vossa vontade?
Eu quero casar à minha.
MÃE Casa, filha, muit'embora.
ESCUDEIRO Dai-me essa mão, senhora.
INÊS Senhor de mui boa mente.
ESCUDEIRO Per palavras de presente
Vos recebo desd'agora.
Nome de Deus, assi seja!
Eu, Brás da Mata, Escudeiro,
Recebo a vós, Inês Pereira
Por mulher e por parceira
Como manda a Santa Igreja.
INÊS Eu, aqui diante Deus,
Inês Pereira, recebo a vós,
Brás da Mata, sem demanda,
Como a Santa Igreja manda.
LATÃO Juro al Deu! Aí somos nós!
Os Judeus ambos
Alça manim, ó dona, ha!
Arreia espeçulá.
Bento o Deu de Jacob,
Bento o Deu que a Faraó
MÃE Espantou e espantará.
Bento o Deu de Abraão,
Benta a terra de Canão.
Para bem sejais casados!
Dai-nos cá senhos ducados.
MÃE Amenhã vo-los darão.
Pois assi é, bem será
Que não passe isto assi.
Eu quero chegar ali
Chamar meus amigos cá,
E cantarão de terreiro.
ESCUDEIRO Oh! quem me fora solteiro!
INÊS Já vós vos arrependeis?
ESCUDEIRO Ó esposa, não faleis,
Que casar é cativeiro.
Aqui vem a Mãe com certas moças e mancebos pera fazerem a festa, e diz uma delas, per nome Luzia:
Luz. Inês, por teu bem te seja!
Oh! que esposo e que alegria!
INÊS Venhas embora, Luzia,
E cedo t'eu assi veja.
MÃE Ora vae tu ali, Inês,
E bailareis três por três.
FERNANDO Tu connosco, Luzia, aqui,
E a desposada ali,
Ora vede qual direis.
Cantam todos a cantiga que se segue:
«Mal herida va la garça
Enamorada,
Sola va y gritos dava.
A las orillas de um rio
La garça tenia el nido;
Ballestero la ha herido
En el alma;
Sola va y gritos dava.»
E, acabando de cantar e bailar diz Fernando:
FERNANDO Ora, senhores honrados,
Ficai com vossa mercê,
E nosso Senhor vos dê
Com que vivais descansados.
Isto foi assi agora,
Mas melhor será outr'hora.
Perdoai pelo presente:
Foi pouco e de boa mente.
Com vossa mercê, Senhora...
Luz. Ficai com Deus, desposados,
Com prazer e com saúde,
E sempre Ele vos ajude
Com que sejais bem logrados.
MÃE Ficai com Deus, filha minha,
Não virei cá tão asinha.
A minha bênção hajais.
Esta casa em que ficais
Vos dou, e vou-me à casinha.
Senhor filho e senhor meu,
Pois que já Inês é vossa,
Vossa mulher e esposa,
Encomendo-vo-la eu.
E, pois que des que naceu
A outrem não conheceu,
Senão a vós, por senhor
Que lhe tenhais muito amor
Que amado sejais no céu.
Ida a Mãe, fica Inês Pereira e o Escudeiro. E senta-se Inês Pereira a lavrar e canta esta cantiga:
INÊS Si no os huviera mirado
No penara,
Pero tampoco os mirara.
O Escudeiro, vendo cantar Inês Pereira, mui agastado lhe diz:
ESCUDEIRO Vós cantais, Inês Pereira?
Em vodas m'andáveis vós?
Juro ao corpo de Deus
Que esta seja a derradeira!
Se vos eu vejo cantar
Eu vos farei assoviar..
INÊS Bofé, senhor meu marido,
Se vós disso sois servido,
Bem o posso eu escusar.
ESCUDEIRO Mas é bem que o escuseis,
E outras cousas que não digo!
INÊS Porque bradais vós comigo?
ESCUDEIRO Será bem que vos caleis.
E mais, sereis avisada
Que não me respondais nada,
Em que ponha fogo a tudo,
Porque o homem sesudo
Traz a mulher sopeada.
Vós não haveis de falar
Com homem nem mulher que seja;
Nem somente ir à igreja
Não vos quero eu leixar
Já vos preguei as janelas,
Por que não vos ponhais nelas.
Estareis aqui encerrada
Nesta casa, tão fechada
Como freira d'Oudivelas.
INÊS Que pecado foi o meu?
Porque me dais tal prisão?
ESCUDEIRO Vós buscastes discrição,
Que culpa vos tenho eu?
Pode ser maior aviso,
Maior discrição e siso
Que guardar o meu tisouro?
Não sois vós, mulher meu ouro?
Que mal faço em guardar isso?
Vós não haveis de mandar
Em casa somente um pêlo.
Se eu disser: – isto é novelo –
Havei-lo de confirmar
E mais quando eu vier
De fora, haveis de tremer;
E cousa que vós digais
Não vos há-de valer mais
Que aquilo que eu quiser.
(para o criado)
Moço, às Partes d'Além
Me vou fazer cavaleiro.
MOÇO (Se vós tivésseis dinheiro
Não seria senão bem...)
ESCUDEIRO Tu hás-de ficar aqui.
Olha, por amor de mi,
O que faz tua senhora:
Fechá-la-ás sempre de fora.
(para Inês)
Vós lavrai, ficai per i.
MOÇO Co dinheiro que leixais
Não comerei eu galinhas...
ESCUDEIRO Vae-te tu por essas vinhas,
Que diabo queres mais?
MOÇO Olhai, olhai, como rima!
E depois de ida a vindima?
ESCUDEIRO Apanha desse rabisco.
MOÇO Pesar ora de São Pisco!
Convidarei minha prima...
E o rabisco acabado,
Ir me-ei espojar às eiras?
ESCUDEIRO Vai-te per essas figueiras,
E farta-te, desmazelado!
MOÇO Assi?
ESCUDEIRO Pois que cuidavas?
E depois virão as favas.
Conheces túbaras da terra?
MOÇO I-vos vós, embora, à guerra,
Que eu vos guardarei oitavas...
Ido o Escudeiro, diz o Moço:
MOÇO Senhora, o que ele mandou
Não posso menos fazer.
INÊS Pois que te dá de comer
Faze o que t'encomendou.
MOÇO Vós fartai-vos de lavrar
Eu me vou desenfadar
Com essas moças lá fora:
Vós perdoai-me, senhora,
Porque vos hei-de fechar.
Aqui fica Inês Pereira só, fechada, lavrando e cantando esta cantiga:
INÊS «Quem bem tem e mal escolhe
Por mal que lhe venha não s'anoje.»
Renego da discrição
Comendo ò demo o aviso,
Que sempre cuidei que nisso
Estava a boa condição.
Cuidei que fossem cavaleiros
Fidalgos e escudeiros,
Não cheios de desvarios,
E em suas casas macios,
E na guerra lastimeiros.
Vede que cavalarias,
Vede que já mouros mata
Quem sua mulher maltrata
Sem lhe dar de paz um dia!
Sempre eu ouvi dizer
Que o homem que isto fizer
Nunca mata drago em vale
Nem mouro que chamem Ale:
E assi deve de ser.
Juro em todo meu sentido
Que se solteira me vejo,
Assi como eu desejo,
Que eu saiba escolher marido,
À boa fé, sem mau engano,
Pacífico todo o ano,
E que ande a meu mandar
Havia m'eu de vingar
Deste mal e deste dano!
Entra o Moço com uma carta de Arzila, e diz:
MOÇO Esta carta vem d’Além
Creio que é de meu senhor.
INÊS Mostrai cá, meu guarda-mor
E veremos o que i vem.
Lê o sobrescrito.
«À mui prezada senhora
Inês Pereira da Grã,
À senhora minha irmã.»
De meu irmão...Venha embora!
MOÇO Vosso irmão está em Arzila?
Eu apostarei que i vem
Nova de meu senhor também.
INÊS Já ele partiu de Tavila?
MOÇO Há três meses que é passado.
INÊS Aqui virá logo recado
Se lhe vai bem, ou que faz.
MOÇO Bem pequena é a carta assaz!
INÊS Carta de homem avisado.
Lê Inês Pereira a carta, a qual diz:
«Muito honrada irmã,
Esforçai o coração
E tomai por devação
De querer o que Deus quiser.»
E isto que quer dizer?
«E não vos maravilheis
De cousa que o mundo faça,
Que sempre nos embaraça
Com cousas. Sabei que indo
Vosso marido fugindo
Da batalha pera a vila,
A meia légua de Arzila,
O matou um mouro pastor.»
MOÇO Ó meu amo e meu senhor!
INÊS Dai-me vós cá essa chave
E i buscar vossa vida.
MOÇO Oh que triste despedida!
INÊS Mas que nova tão suave!
Desatado é o nó.
Se eu por ele ponho dó,
O Diabo me arrebente!
Pera mim era valente,
E matou-o um mouro só!
Guardar de cavaleirão,
Barbudo, repetenado,
Que em figura de avisado
É malino e sotrancão.
Agora quero tomar
Pera boa vida gozar,
Um muito manso marido.
Não no quero já sabido,
Pois tão caro há de custar.
Aqui vem Lianor Vaz, e finge Inês Pereira estar chorando, e diz Lianor Vaz:
LIANOR Como estais, Inês Pereira?
INÊS Muito triste, Lianor Vaz.
LIANOR Que fareis ao que Deus faz?
INÊS Casei por minha canseira.
LIANOR Se ficaste prenhe basta.
INÊS Bem quisera eu dele casta,
Mas não quis minha ventura.
LIANOR Filha, não tomeis tristura,
Que a morte a todos gasta.
O que havedes de fazer?
Casade-vos, filha minha.
Inês Jesu! Jesu! Tão asinha!
Isso me haveis de dizer?
Quem perdeu um tal marido,
Tão discreto e tão sabido,
E tão amigo de minha vida?
LIANOR Dai isso por esquecido,
E buscai outra guarida.
Pêro Marques tem, que herdou,
Fazenda de mil cruzados.
Mas vós quereis avisados...
INÊS Não! já esse tempo passou.
Sobre quantos mestres são
Experiência dá lição.
LIANOR Pois tendes esse saber
Querei ora a quem vos quer
Dai ò demo a opinião.
Vai Lianor Vaz por Pêro Marques, e fica Inês Pereira só, dizendo:
INÊS Andar! Pêro Marques seja.
Quero tomar por esposo
Quem se tenha por ditoso
De cada vez que me veja.
Por usar de siso mero,
Asno que me leve quero,
E não cavalo folão.
Antes lebre que leão,
Antes lavrador que Nero.
Vem Lionor Vaz com Pêro Marquez e diz Lianor Vaz:
LIANOR Nô mais cerimónias agora;
Abraçai Inês Pereira
Por mulher e por parceira.
PÊRO Há homem empacho, má-hora,
Cant'a dizer abraçar..
Depois que a eu usar
Entonces poderá ser:
INÊS (Não lhe quero mais saber
Já me quero contentar..).
LIANOR Ora dai-me essa mão cá.
Sabeis as palavras, si?
PÊRO Ensinaram-mas a mi,
Porém esquecem-me já...
LIANOR Ora dizei como digo.
PÊRO E tendes vós aqui trigo
Pera nos jeitar por riba?
LIANOR Inda é cedo... Como rima!
PÊRO Soma, vós casais comigo,
E eu com vosco, pardelhas!
Não cumpre aqui mais falar
E quando vos eu negar
Que me cortem as orelhas.
LIANOR Vou-me, ficai-vos embora.
INÊS Marido, sairei eu agora,
Que há muito que não saí?
PÊRO Si, mulher saí-vos i,
Qu'eu me irei pera fora.
INÊS Marido, não digo isso.
PÊRO Pois que dizeis vós, mulher?
INÊS Ir folgar onde eu quiser
PÊRO I onde quiserdes ir,
Vinde quando quiserdes vir
Estai onde quiserdes estar.
Com que podeis vós folgar
Qu'eu não deva consentir?
Vem um Ermitão a pedir esmola, que em moço lhe quis bem, e diz:
Señores, por caridad
Dad limosna al dolorido
Ermitaño de Cupido
Para siempre en soledad.
Pues su siervo soy nacido.
Por ejemplo,
Me meti en su santo templo
Ermitaño en pobre ermita,
Fabricada de infinita
Tristeza en que contemplo,
Adonde rezo mis horas
Y mis dias y mis años,
Mis servicios y mis daños,
Donde tu, mi alma, Iloras
El fin de tantos engaños.
Y acabando
Las horas, todas llorando,
Tomo las cuentas una y una,
Con que tomo a la fortuna
Cuenta del mal en que ando,
Sin esperar paga alguna.
Y ansi sin esperanza
De cobrar lo merecido,
Sirvo alli mis dias Cupido
Con tanto amor sin mudanza,
Que soy su santo escogido.
Ó señores,
Los que bien os va d'amores,
Dad limosna al sin holgura,
Que habita en sierra oscura,
Uno de los amadores
Que tuvo menos ventura.
Y rogaré al Dios de mi,
En quien mis sentìdos traigo,
Que recibais mejor pago
De lo que yo recebi
En esta vida que hago.
Y rezaré
Com gran devocion y fé,
Que Dios os libre d’engaño,
Que esso me hizo ermitaño,
Y pera siempre seré,
Pues pera siempre es mi daño.
INÊS Olhai cá, marido amigo,
Eu tenho por devação
Dar esmola a um ermitão.
E não vades vós comigo
PÊRO I-vos embora, mulher
Não tenho lá que fazer
(Inês fala a sós com o Ermitão):
INÊS Tomai a esmola, padre, lá,
Pois que Deus vos trouxe aqui.
ERMITÃO Sea por amor de mi
Vuesa buena caridad.
Deo gratias, mi señora!
La limosna mata el pecado,
Pero vos teneis cuidado
De matar-me cada hora.
Deveis saber
Para merced me hacer
Que por vos soy ermitaño.
Y aun más os desengaño:
Que esperanças de os ver
Me hizieron vestir tal paño.
INÊS Jesu, Jesu! manas minhas!
Sois vós aquele que um dia
Em casa de minha tia
Me mandastes camarinhas,
E quando aprendia a lavrar
Mandáveis-me tanta cousinha?
Eu era ainda Inesinha,
Não vos queria falar.
ERMITÃO Señora, tengo-os servido
Y vos a mi despreciado;
Haced que el tiempo pasado
No se cuente por perdido.
INÊS Padre, mui bem vos entendo
Ó demo vos encomendo,
Que bem sabeis vós pedir!
Eu determino lá d'ir
À ermida, Deus querendo.
ERMITÃO E quando?
INÊS I-vos, meu santo,
Que eu irei um dia destes
Muito cedo, muito prestes.
ERMITÃO Señora, yo me voy en tanto.
(Inês torna para Pêro Marques):
INÊS Em tudo é boa a concrusão.
Marido, aquele ermitão
É um anjinho de Deus...
PÊRO Corregê vós esses véus
E ponde-vos em feição.
INÊS Sabeis vós o que eu queria?
PÊRO Que quereis, minha mulher?
INÊS Que houvésseis por prazer
De irmos lá em romaria.
PÊRO Seja logo, sem deter
INÊS Este caminho é comprido...
Contai uma história, marido.
PÊRO Bofá que me praz, mulher
INÊS Passemos primeiro o rio.
Descalçai-vos.
PÊRO E pois como?
INÊS E levar me-eis no ombro,
Não me corte a madre o frio.
Põe-se Inês Pereira às costas do marido, e diz:
INÊS Marido, assi me levade.
PÊRO Ides à vossa vontade?
INÊS Como estar no Paraíso!
PÊRO Muito folgo eu com isso.
INÊS Esperade ora, esperade!
Olhai que lousas aquelas,
Pera poer as talhas nelas!
PÊRO Quereis que as leve?
INÊS Si.
Uma aqui e outra aqui.
Oh como folgo com elas!
Cantemos, marido, quereis?
PÊRO Eu não saberei entoar..
INÊS Pois eu hei só de cantar
E vós me respondereis
Cada vez que eu acabar:
«Pois assi se fazem as cousas».
Canta Inês Pereira:
INÊS «Marido cuco me levades
E mais duas lousas.»
PÊRO «Pois assi se fazem as cousas.»
INÊS «Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos amo.
Sempre fostes percebido
Pera gamo.
Carregado ides, noss'amo,
Com duas lousas.»
PÊRO «Pois assi se fazem as cousas»
INÊS «Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos quero.
Sempre fostes percebido
Pera cervo.
Agora vos tomou o demo
Com duas lousas.»
PÊRO «Pois assi se fazem as cousas.»
E assi se vão, e se acaba o dito Auto.