Análise do soneto "Dizei, senhora, da beleza idéia"

Posted by Profº Monteiro on dezembro 17, 2013

Dizei, Senhora, da Beleza ideia:
Para fazerdes esse áureo crino,
Onde fostes buscar esse ouro fino?
De que escondida mina ou de que veia?

Dos vossos olhos essa luz febeia,
Esse respeito, de um império dino?
Se o alcançastes com saber divino,
Se com encantamentos de Medeia?

De que escondidas conchas escolhestes
As perlas preciosas orientais
Que, falando, mostrais no doce riso?

Pois vos formastes tal como quisestes,
Vigiai-vos de vós, não vos vejais;
Fugi das fontes: lembre-vos Narciso.

Luís Vaz de Camões

1- Diz-me, senhora, que é a própria idéia de beleza (ela é o símbolo da beleza):
2 - Para fazer essa crina dourada (seus cabelos louros),
3 - Onde foste buscar esse ouro fino?
4 - De alguma mina escondida ou de uma veia? (Cabelos cheios, fartos, precisaria de uma mina ou de uma veia pulsando tanto ouro para fazer a sua cabeleira)
5 - Dos seus olhos a luz irradia (sai),
6- Esse respeito, digno de um império (dino - digno)
7 - Alcançou-o com saber divino ? (Como conseguiu esse respeito ? Você é uma deusa da sabedoria, um génio?)
8 - Ou foi com feitiçaria ? (Ecantos da medéia = feitiçaria da Medéia - Medéia era uma feiticeira)
9 - De que conchas escondidas você escolheu
10 - As pérolas orientais preciosas
11 - Que, quando fala, mostra no sorriso? (seus dentes brancos são as pérolas)
12 - Pois, você desenhou-se como quis (ninguem pode ser tão perfeito, ela só pode ter escolhido cada detalhe de si...)
13 - Tome cuidado consigo mesma, não se fique admirando;
14 - Fuja dos espelhos, lembre-se de Narciso. (Narciso era um homem muito vaidoso que se apaixonou por si proprio de tanto se admirar nas águas das fontes)

O poema é a história de uma mulher muito bonita, que é perfeita em tudo. Ela anda sempre com um ar altivo e gosta de se admirar. Encanta todos, por onde passa, com a sua beleza, e a sua postura.
O autor diz a ela que ela é linda, mas que ela não deveria admirar-se tanto, pois poderá acabar por se apaixonar por sí própria.

“Ah! Camões, se vivesses hoje em dia”

Posted by Profº Monteiro on dezembro 17, 2013

Rola na internet e foi publicado na Carta Capital que uma jovem de 16 anos, prestando vestibular na Bahia interpretou conforme segue o seguinte trecho dum poema de Camões:

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói e não se sente,
é um contentamento descontente,
dor que desatina sem doer
”.

A interpretação:

Ah! Camões, se vivesses hoje em dia, /
tomavas uns antipiréticos, /
uns quantos analgésicos / e Prozac para a depressão. /
Compravas um computador, consultavas a Internet /
e descobririas que essas dores que sentias, /
esses calores que te abrasavam/ essas mudanças de humor repentinas,
esses desatinos sem nexo, /não eram feridas de amor, /
mas somente falta de sexo!

Análise duma poema de Luís de Camões

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algua cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.Este poema não intitulado, escrito por Luís de Camões, apresenta como tema principal a paixão do sujeito poético para coma sua amada, que, para tristeza, morreu jovem. Como a amada do sujeito poético já se despediu para sempre, o tom desse poema é simplesmente revoltado por um ambiente amargo e triste. O poema também tem a função de revelar a saudade do sujeito poético à sua amada que, provavelmente, o pode ouvir do céu. O poema é constituído por quatro estrofes, duas quadras e dois tercetos. As duas quadras apresentam rima interpolada e emparelhada e os dois tercetos rima cruzada.
A primeira estrofe introduz a situação dos amados. Logo no início do poema, o sujeito poético invoca a sua amada emocionadamente através da designação amorosa “alma minha gentil”, dando-nos a conhecer que o poema é dedicado a uma pessoa que ele ama com alma. Depois desta apóstrofe, também no primeiro verso, revela que ela já tinha falecido. O verbo “partiste” neste contexto tem o significado de morrer, mas o sujeito poético não quis utilizar “morrer” para nos dizer que a sua amada só partiu para um mundo diferente, mas continuará viva. No segundo verso, o advérbio de intensidade “tão” reforça o adjectivo “cedo” dizendo-nos que ela morreu ainda muito nova. Nos dois versos seguintes o sujeito poético mostra outra vez que acredita que a sua amada continua viva através do verbo “repousa”; o determinante demonstrativo “lá” fez o céu parecer não tão misterioso por ser o local onde ela vive. Note-se que “Céu” é escrito com maíuscula referindo-se ao “Paraíso”. Os advérbios “eternamente” e “sempre” são muito intensos, ambos são sem fim, com a ausência da noção do tempo. Os dois amados estão assim separados pelo céu e terra, pelo que não se vislumbra reencontro.
Na estrofe seguinte, o sujeito poético faz um pedido para a sua amada não o esquecer. O “assento etéreo” é referido como “céu”. Ele suplica para que no céu as pessoas vindas da terra continuem a ter a memória do que se passou com eles quando estavam na terra, para que a sua amada não se esqueça “...daquele amor ardente / Que já nos olhos meus tão puro viste” (es2,vs3-4). A expressão do “amor ardente” está a realçar o quão apaixonado o sujeito poético está pela sua amada, amor que está escrito nos olhos puros dele. Como o adjectivo “puro” significa sem mistura, e os “olhos” são a porta para a alma e coração, caracterizando os seus “olhos” como sendo “puro(s)”, ele quer dizer que tudo nele é somente a paixão verdadeira e honesta por ela.
O terceto que vem a seguir diz exactamente como ele ficou depois de ela ter morrido – doloroso, magoado e sem remédio, que são apresentados em forma dum assíndeto no último verso da estrofe “da mágoa, sem remédio...”. A amada do sujeito poético é como se fizesse parte física e psicológica dele, porque, depois de a perder, ele ficou “sem remédio”.
Na última estrofe do poema, o sujeito poético pede a sua amada para pedir a Deus para que ele morra também mais cedo, para poder ver a sua amada. Na segunda parte do primeiro verso, houve uma inversão “..que teus anos encurtou”. O verbo “encurtou” está, mais uma vez a referir que a morte da sua amada é jovem de mais, a sua vida foi curta de mais. O segundo verso é o pedido que ele quer que a sua amada faça a Deus, o advérbio de intensidade “tão” serve para enfatizar “cedo” que ele também quer morrer, e o desejo que ele quer ver a sua amada. Finalmente, o sujeito poético não se esqueceu de relembrar outra vez a insatisfação que sente pelo facto de o destino ter levado a vida da sua amada demasiado depressa. “Meus olhos” é uma sinédoque, “olhos” é apenas uma parte do corpo mas está a representar o corpo todo, os olhos não podem ver a sua amada é mesma coisa de estar separada dela. Neste verso também o advérbio “cedo” que se está a referir à morte da sua amada, este “cedo”, juntamente com o do verso anterior, formam uma epanalepse. Por fim, a utilização de vários pronomes de segunda pessoa “te” ao longo do poema faz-nos pensar que no pensamento do sujeito poético, no mundo só existia ele e a sua amada.

Rimas(classificações)

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013


Rima é um recurso que também ajuda a conferir musicalidade ao poema, com base na conformidade ou coincidência de fonemas(sons), geralmente no final de dois versos diferentes, podendo ocorrer também entre vocábulos no interior dos versos(rima interna).
Os versos de uma estrofe podem estar rimados entre si, em diversas combinações possíveis, como o primeiro rimar com o segundo, o primeiro com o terceiro, o primeiro com o quarto, o segundo com o terceiro, o segundo com o quarto etc.
Para efeito de análise, convencionou-se designar cada rima do poema por letras do alfabeto: primeiro tipo, A; segundo tipo, B; terceiro tipo, C; e assim por diante.
Estavas, linda Inês, posta em sossego, (A)
De teus anos colhendo doce fruito, (B)
Naquele engano da alma, ledo e cego, (A)
Que a fortuna não deixa durar muito, (B)
Nos saudosos campos do Mondego, (A)
De teus fermosos olhos nunca enxuito, (B)
Aos montes insinando e às ervinhas (C)
O nome que no peito escrito tinhas. (C)
(Camões - Os Lusíadas, canto 120)
A obra Os Lusíadas é um poema épico escrito por Luís de Camões, publicado em 1572. É constituído por dez cantos; cada canto possui um número variável de estrofes de oito versos (oitava), sendo cada verso composto por dez sílabas (decassilábico). A rima é cruzada nos seis primeiros versos e emparelhada nos dois últimos (ab ab ab cc).
Classificação das rimas
1º) Quanto à acentuação tônica:
a) Agudas: Quando a palavra final do verso for oxítona ou monossílabo tônico.
´´A medo lanças em mim?
No aperto de minha mão
Que sonho do coração
Tremeu-te os seios assim?``
(Álvares de Azevedo)
b) Graves: Quando os versos terminam com palavras paroxítonas.
´´E ela: "Vivo não és! Jurei domar um homem,
Mas de beijos não sei que a pedra fria domem!"
(Bilac)
c) Esdrúxulas ou Datílicas: Quando as palavras finais dos versos são proparoxítonas.
"Sobre as ondas argênteas do Adriático
Passa à noite o gondoleiro, e canta
E dobra a fonte, lânguido, cismático."
<!--[if !supportLineBreakNewLine]-->
<!--[endif]-->(Raimundo Correa)
2º) Quanto à coincidência de sons:
a)Rima perfeita, soante ou consoante: há correspondência completa de sons.
´´Tinha um berão pequenino
E uma criada velha com seu terão
Cresci de mais, como o destino!
Cresci de mais para o meu berão``
(José Régio)
b)Rima imperfeita, toante ou assoante: não há correspondência completa de sons.
´´ Ó meu ódio, meu ódio majestoso
Meu ódio santo e puro e benfazejo
Unge-me a fonte com teu grande beijo,
Torna-me humilde e torna-me orgulhoso.``
(Cruz e Sousa)
3º) Quanto ao vocabulário:
a) Rima pobre: Quando as palavras que rimam, pertencem à mesma classe gramatical.
´´Entre as ruínas de um convento,
De uma coluna quebrada
Sobre os destroços, ao vento
Vive uma flor isolada.``
(Alberto de Oliveira)
b) Rima rica: Quando as palavras que rimam, pertencem a classes gramaticais diferentes.
´´O coração que bate neste peito
E que bate por ti unicamente,
O coração, outrora independente,
Hoje humilde, cativo e satisfeito;``


(Luís Guimarães Jr.)
c) Rima rara: Feita entre palavras com reduzida possibilidade de rima, difíceis de encontrar ou com vocábulos pouco usados.
´´Penso que, no negror da meia em que surgis,
Deveis ser, pela alvura ebúrnea e macilenta,
Dois lírios côr de neve em dois vasos de ônix.``
( Antônio Feijó)

Análise do poema Buscando a Cristo

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013








BUSCANDO A CRISTO

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa p´ra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.Vocabulário
Sacrossanto: sagrado e santo
Cravado: pregado
Eclipsado: encoberto
Verter: derramar
Ungir-me: abençoar-me
Patente: acessível, claro, aberto
Cravos: pregos usados na crucificação
A estrutura formal desse soneto (uma composição de forma fixa, com 14 versos, dispostos em 4 estrofes, constituídas, segundo o modelo petrarquiano, de 2 quartetos e 2 tercetos. Os versos são decassílabos heróicos de esquema rítmico 10(6-10). As rimas são do tipo ABBA, ABBA, CDC e DCD.
Gregório de Matos atribui um sentido simbólico ao corpo crucificado de Cristo, vendo nele o abrigo ou a proteção que sua alma deseja.
Se, de um lado, o corpo pregado na cruz transmite impressão de grande sofrimento, por outro, é esse mesmo sentimento que dará ao poeta o perdão e a salvação, pois Cristo sofreu para salvar o ser humano, o seu sangue tem sentido resgatador. Ao descrever o corpo de Cristo, o poeta revela-nos a dimensão espiritual do sofrimento físico.
Observamos, nesse soneto, a manifestação de uma característica típica do estilo barroco: o uso de situações ambivalentes, que possibilitam dupla interpretação. Assim, os braços de Cristo são apresentados como abertos e cravados; seus olhos estão despertos e fechados, seus pés pregados e imóveis reforçam a ideia de grande sofrimento ao mesmo tempo em que sugerem que Cristo não sairá de perto do pecador (não o abandonará). O sangue vertido na cruz também adquire um determinado valor, pois é através desse líquido sagrado que o pecador será salvo. A cabeça baixa, caracterizando o fim das forças de Cristo e a sua morte física, é vista como uma atitude de amor: um gesto afirmativo para a salvação, libertando-o de todos os pecados.
No último terceto, o desejo de união espiritual com Cristo é representado pela consagração de união física(´´Para ficar unido, atado e firme.``), um exemplo claro de fusionismo, ou seja, da manifestação do desejo humano de unir-se a Deus.
A base do soneto é construída a partir de um sistema de metonímias que vão relacionando as partes de Cristo ("braços", "olhos", "pés", "sangue", "cabeça"), substituindo todo o Cristo crucificado. O culto ao contraste, percebido através dos versos 7 e 8 (´´perdoar-me`` e ´´condenar-me``),constitui uma das principais características do estilo barroco: a antítese (marcada pela oposição de ideias).
Os versos 5, 9, 10, 11, 12 e 13 constroem-se com a omissão da locução verbal "correndo vou” (apresentado na 1ª estrofe- v.1), procedimento estilístico denominado zeugma (= elipse de uma palavra ou expressão próxima no contexto; termo que já apareceu antes). Outro recurso empregado são as anáforas (repetição de palavra(s) no início de dois ou mais versos): “a vós” (v. 5, 9, 10, 11, 12, 13) e "e por não" (v. 4 e 8).
Percebemos, também, a presença do hipérbato (consiste na inversão da ordem direta dos termos da oração): "A vós correndo vou, braços sagrados / Nessa Cruz sacrossanta descobertos”. A linguagem do poema é ornamentada através da hipérbole(exagero de uma ideia com finalidade expressiva) marcando a subjetividade do poeta face a visão de mundo.
O que mais sobressai, em toda obra sacra de Gregório, é seu senso de pecado, a constatação da fragilidade humana, o temor diante da morte e a condenação eterna. Em termos autobiográficos, essa faceta de pecador arrependido aparece nas poesias de Gregório já na fase final de sua vida, quando se encontrava mais próximo da morte, porque, em sua mocidade, fizera várias composições desafiando o poder divino.

O Arcadismo em Portugal - Bocage

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013






O século XVIII, em Portugal, é marcado pela crescente divulgação das ideias iluministas, principalmente a partir do apoio que elas tiveram dos governantes D. João V e de seu sucessor D. José I. O objetivo desses governantes era modernizar a nação, promovendo um conjunto de reformas políticas, econômicas e culturais capazes de satisfazer os anseios da burguesia mercantil e colonialista e, ao mesmo tempo, equiparar Portugal novamente às grandes nações europeias.
O executor desse projeto de restauração da vida e da cultura portuguesa foi o ministro Marquês de Pombal, também adepto das ideias iluministas. Para cumprir sua missão de ´´iluminar`` a nação, Pombal contou com o apoio de diversos intelectuais e cientistas portugueses, em grande parte com formação estrangeira. Deste grupo destacava-se o Pe. Luís Antônio Verney, cujo projeto de reforma pedagógica, em parte aproveitada por Pombal, mudou significativamente o cenário científico e artístico português.As ideias de Verney foram expostas na obra Verdadeiro método de estudar (1746), em que o escritor, dentre outras coisas, atacava a orientação que os jesuítas davam à educação no país e fazia críticas à arte barroca. Essas críticas ao barroco originaram um debate sobre a necessidade de renovação da cultura portuguesa, que resultaria na fundação da Arcádia Lusitana ou Ulissiponense (ulissiponense é um adjetivo que se refere a Lisboa), em 1756, considerada o marco introdutório do Arcadismo em Portugal. Fundamentalmente antigongórica, tinha por emblema um meio braço segurando um podrão e o lema Inutilia truncat (´´Cortar as inutilidades``), numa clara alusão aos exageros do Barroco.
O nome Arcádia remete ao semideus Arcas, filho de Zeus e da ninfa Calisto. Na Mitologia Grega, Arcádia era a morada do deus Pã, deus da natureza e padroeiro dos
pastores, considerada com ideal de inspiração poética.
O Cultismo se banalizara com sua preocupação excessiva da forma – acúmulo de ornamentos de estilo, futilidades de assuntos, obscuridade. A reação é providenciada pelo Arcadismo, que preconizava:
a) livrar as letras do seu aspecto formal: que o conteúdo se equilibrasse com a técnica da apresentação;
b) dar mais simplicidade e naturalidade à composição;
c) voltar à antiguidade clássica.
Para tanto, organizaram-se as Academias literárias e os sócios se comprometiam a adotar nomes de pastores celebrados pelos vates gregos e latinos. Eram agremiações que tinham por objetivo promover o debate permanente sobre a criação artística, avaliar criticamente a produção de seus filiados e facilitar-lhes a publicação de obras. Segundo Correia Garção, orientador e crítico da Arcádia Lusitana,
´´ o poeta que não seguir aos Antigos perderá de todo o norte, e não poderá jamais alcançar aquela força, energia e majestade que nos retratam o famoso e angélico semblante da Natureza. Devemos imitar e seguir os Antigos: assim no-lo ensina Horácio, no-lo dita a razão, e o confessa todo o mundo literário. Mas esta doutrina, este bom conselho, devemos abraçá-lo e segui-lo de modo que mais pareça que o rejeitamos, isto é, imitando e não traduzindo (...) quem imita deve fazer seu o que imita (...) Feliz aquele que não só imita, mas excede o seu original.``
Em 1790, foi fundada a Academia de belas Artes, logo após denominada Nova Arcádia. Esta, três anos mais tarde, publicava algumas obras poéticas de seus sócios sob o título Almanaque das Musas. Os membros mais importantes dessa associação foram o brasileiro Domingos Caldas Barbosa, famoso nos ambientes aristocráticos por sua obra lírica, o poeta satírico padre Agostinho de Macedo e o poeta lírico e satírico Manuel Maria Barbosa Du Bocage.
Bocage é a maior figura do Arcadismo português. Descendente de família francesa, nasceu em Setúbal (1765). Sua vida é um não acabar de aventuras. Assentou praça na Marinha, com quatorze anos. Fez viagem para o Oriente, levou vida licenciosa na Índia. Em 1789 desertou e passou a vida errante. Viajou para Macau e, na China, reabilitou-se, conseguindo voltar a Portugal no ano de 1790. Lá chegando, sofreu uma grande desilusão ao encontrar sua ´´Gertrúria``(pseudônimo de Gertrudes da Cunha de Eça) casada com seu irmão mais velho, Gil Francisco. Infeliz no amor, sem carreira e com dificuldades financeiras, dedicou-se à vida boêmia e à poesia, tendo publicado, em 1791, o primeiro volume de Rimas.
Em Lisboa, Bocage conviveu com a boa sociedade, foi amigo dos bons literatos de então, e cultivou crescente número de desafetos. Entrou para a Nova Arcádia com o pseudônimo Elmano Sadino (Elmano é o anagrama de Manuel; Sadino é homenagem ao rio Sado, que passa pela terra natal do poeta). Sua permanência no grupo foi, no entanto, curta: logo passou a alimentar hostilidades com antigos confrades (Agostinho Macedo e Nicolau Tolentino), atacando-os fortemente em seus textos satíricos. Frequentou o botequim das Parras onde pontificava.
Acusado de ideias suspeitas (mação), mais a influência de inimigos, foi preso e processado pela Inquisição. Condenado, gastou o tempo na prisão, traduzindo autores franceses e latinos. Depois de algum tempo na cadeia, muda de ideia e escreve poemas de arrependimento. Teve momentos de grande ponderação, principalmente quando sua irmã, viúva, foi sustentada por ele. Para tanto, aceitou emprego de um livreiro que lhe encomendara traduções. Morreu em 1805, aos 40 anos, vítima de um aneurisma.
Como poeta satírico, Bocage ironizou contemporâneos seus, assim como o clero e a nobreza decadente. Se o poeta é criticado por muitos pelo tom abusivamente obsceno e erótico de seus sonetos satíricos, é, entretanto, elogiado por seu espírito repentista.
Levando um velho avarento
Uma pedrada num olho,
Pôs-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.
Certo doutor, não das dúzias,
Mas sim médico perfeito,
Dez moedas lhe pedia
Para livrar o defeito.
Dez moedas! (diz o avaro)
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro dou eu por isso.
Bocage cultivou todas as formas líricas: odes, canções, elegias, idílios, cantatas, cançonetas, epigramas, endrechas, alegorias, apólogos, glosas. Foi exímio na composição de fábulas. Também tinha projetos para a épica e para dramaturgia: desejava cantar, na épica, o descobrimento do Brasil e escrever uma tragédia sobre Vasco da Gama. Mas esses projetos não se realizaram. O destaque da obra de Bocage concentra-se na poesia lírica dos sonetos. É considerado exemplar, colocando-se ao lado de Camões e de Antero de Quental, trindade superior do soneto nas letras portuguesas. Bocage foi espírito erradio, esbanjador de talento (daí a imagem falsa e injusta que a lenda popular tenta cultivar). Foi o poeta mais sentimental e vibrante do seu tempo.
´´Em Portugal, a arte de fazer versos chegou ao apogeu com Bocage e depois dele decaiu. Da sua geração, e das que precederam, foi ele o máximo cinzelador da métrica. A plástica da língua e do metro; a perícia de ensamblar das orações e no escandir dos versos; a riqueza e graça do vocabulário; o jogo sábio e ás vezes inesperado das vogais e das consoantes dentro da harmonia da frase. A variação maravilhosa da cadência; a sobriedade das figuras; a precisão e o colorido dos epíteros; todos estes difíceis e complicados segredos da arte poética, cuja beleza e raridade às vezes escapam até aos mais cultos amadores da poesia e aos mais argutos críticos literários, e que somente os iniciados podem ver, compreender e avaliar; esta consciência, este posto, e a medida, este dom de adivinhação e de tacto, de que os artistas natos têm o privilégio – tudo isso coube a Elmano, tudo isto se entreteceu no seu talento. `` (Olavo Bilac)
Em alguns momentos, o lirismo de Bocage revela a orientação do academicismo do século XVIII: a presença dos pseudônimos pastoris da mitologia; a ânsia pelo lócus amoenus, que simbolizava a fuga à vida citadina (fugere urbem); e, enfim, as regras básicas do arcadismo.
Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre flores?
Vê como ali beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores.
Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folgas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurando gira:
Que alegre campo! Que amanhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,
Mais tristeza que a morte me causara.
Dentro desta temática, outro procedimento típico da poesia árcade de Bocage é a comparação entre a mulher amada e a natureza. Evidentemente, como seria de se esperar, o resultado de tal processo é a constatação da beleza incomparável da mulher. Encontramos, ainda, textos em que a alegria dos amantes é tão grande que pode despertar a inveja dos próprios deuses.
Grato silêncio, trêmulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz! – Longe, temores,
Longe, fantasmas, ilusões do medo.
Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nize, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores
Hei de enfim possuir: porém segredo!
Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Não leveis, não façais isto patente,
Que nem quero que o saiba o pai dos numes:
Cale-se o caso a Jove onipotente,
Porque se ele o souber, terá ciúmes,
Vibrará contra mim seu raio ardente.
No entanto, a solidão, a desilusão amorosa, o sentimento de desamparo e a dor de viver contagiaram de tal maneira a sua poesia que ela acabou se afastando da estética árcade para se enveredar no campo dramático e confessional, que inseriu Bocage num contexto pré-romântico. Os sonetos mais expressivos de Bocage têm uma forte atmosfera pessoal, de confissão egocêntrica, de uma dramaticidade subjetiva intensa.

Meu ser evaporei na vida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
Poesia de ritmos cadentes e imaginação, muitas vezes com ressonâncias profundas do soneto de Camões, e muitas vezes ressoando nos dramáticos sonetos de Antero de Quental. Poesia de angústias e desesperos. O lócus amoenus árcade é substituído por um lócus horrendus, com a natureza espelhando a dor e o sofrimento expressos pelo eu lírico.
Fiei-me nos sorrisos da ventura,
Em mimos feminis, como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura.
No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo úmido e oco
Pareço, até no tom lúgubre e rouco,
Triste sombra a carpir na sepultura.
Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta.
Ah! não me roubou tudo a negra sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.
Poesias de confidências com a noite, poemas de amor e de medo sombriamente misturados, poemas de horror da morte e da morte como amor. O arrebatamento e o senso de autodilaceração demonstram quanto sua poesia já antecipa a atmosfera lúgubre e noturna dos ultra-românticos. Também o uso reiterado dos vocativos desvairados extrapola o equilíbrio e a contenção próprias de um texto neoclássico.
Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar o meu coração de horrores.
O subjetivismo, a valorização da vida interior, a autocomiseração, o tom confessional – são essas as novidades introduzidas por Bocage. Mas isso não significa que Bocage tivesse passado ao largo das grandes questões que agitaram o século XVIII. Em vários poemas, percebemos a defesa das liberdades e das conquistas burguesas, que caracterizaram o ideário iluminista.
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha… Oh!, venha, e trêmulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, ó Liberdade!
Não é difícil perceber em Bocage um modelo de versatilidade poética de seu tempo. Na Academia, um público douto e esnobe a exigir requinte, frieza de composição, cultura clássica; fora da Nova Arcádia, no calor das ruas, o clima propício para a denúncia da hipocrisia social, da corrupção, da politicagem – temas que jamais apareceriam nos poemas ditados pelas normas conservadoras do Arcadismo. Com admirável precisão, o poeta punha o dedo acusador nas chagas sociais de um país de aristocracia decadente, aliada a um clero igualmente corrupto, jungidos ambos a uma política interna e externa altamente anacrônica para aquele momento.
"Pavorosa ilusão da Eternidade, Terror dos vivos, cárcere dos mortos; De almas vãs sonho vão, chamado Inferno, Sistema da política opressora Freio que a mão dos déspotas, dos bonzos, Forjou para boçal credulidade; Dogma funesto, que o remorso arreigas
O poeta revelou a sua faceta espiritual ao traduzir, em várias e expressivas composições, a sua confiança na benevolência de Deus e da Virgem Maria. A índole religiosa de Bocage vem também contrariar a imagem deturpada que as pessoas, menos atentas, têm da obra deste poeta.
Consciente do abismo em que frequentemente caía, implorava diversas vezes o auxilia da Virgem Santíssima.
Tu, por Deus entre todas escolhida,
Virgem das virgens; Tu, que do assanhado
Tartáreo monstro com Teu pé sagrado
Esmagaste a cabeça entumecida;

Doce abrigo, santíssima guarida
De quem Te busca em lágrimas banhado,
Corrente com que as nódoas do pecado
Lava uma alma que geme arrependida;

Virgem, de estrelas nítidas c’roada,
Do Espírito, do Pai, do Filho Eterno,
Mãe, Filha, Esposa e, mais que tudo, amada:

Valha-me o teu poder e amor materno;
Guia este cego, arranca-me da estrada
Que vai parar ao tenebroso inferno!
Bocage, árcade, já é romântico por temperamento. Se em sua obra encontramos deuses, Olimpo e muita retórica há, todavia, pureza de emoções, busca e libertação. Um misto de valores neoclássicos e pré-românticos, revelando com nitidez a transitoriedade da época em que viveu (1765 a 1805), período marcado por grandes transformações sociais e culturais, advindas sobretudo da Revolução Francesa e do florescimento do Romantismo.

Análise do soneto: ´´À mesma D. Ângela`` - Gregório de Matos

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013
Rompe o poeta com a primeira impaciência querendo declarar-se e temendo perder por ousado
Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda
.
Vocabulário
Florente: florescente, brilhante, esplendente.
Uniformar: converter em uma só forma coisas diversas.
Rama: ramos e folhagens de árvores.
Luzente: brilhante.
Idolatrar: adorar, amar cegamente.
Custódio: anjo da guarda, protetor.
Diabólico: funesto, terrível, satânico.
Azar: agouro, infelicidade, desgraça.
Galharda: garbosa, esbelta, elegante
Pesar: desgosto, mágoa, tristeza.
Tentar: provocar, seduzir, instigar para o mal.
James Amado, baseando-se em grande parte no códice de Manuel Pereira Rabelo (primeiro biógrafo – século XVIII), organizou um ciclo dos poemas endereçados a D. Ângela de Sousa Paredes Rabelo, segundo a evolução do relacionamento amoroso, que termina com Gregório sendo rejeitado em favor de outro.
O soneto transcrito (o sétimo poema do ciclo “Ângela”) revela muito do estilo cultista adotado por Gregório em suas composições. Desenvolve-se por meio do jogo de palavras e imagens: “Ângela” = “Angélica” = “Anjo”, “flor” = “florente”. Gregório segue uma tradição explorada por Shakespeare e Camões ao comparar a beleza da mulher à natureza.
O esquema rimático é: ABBA / ABBA / CDC / DCD. Quanto à disposição ou ligação entre os versos, nas quadras: rima interpolada entre o primeiro e o quarto versos (porque entre os dois versos que rimam há mais do que um de rima diferente) e emparelha entre o segundo e o terceiro versos (rimam dois a dois); nos tercetos, a rima é cruzada (porque entre os dois versos que rimam há apenas um de rima diferente).
O tema central é o caráter contraditório dos sentimentos do poeta pela mulher, que é simultaneamente flor (metáfora da beleza) e objeto do desejo, e anjo (metáfora da pureza) e símbolo da elevação espiritual. Podemos, em primeiro lugar, observar o uso dos trocadilhos anjo (ângelus em latim, daí vem Ângela, angélico) / Angélica (do latim Angelicus, pura como um anjo e também o nome de uma flor que inspira sensualidade) na construção imagética do poema: trata-se de uma mulher de nome e feições angelicais, tão bela que se assemelha a uma flor. O poeta trabalha com essas duas entidades – flor e anjo – que se irmanam pela beleza, mas que se distanciam pela duração. A flor significa brevidade, enquanto que o anjo é ser eterno. Essa duplicidade emerge do nome da mulher amada, cuja beleza indiscutível lança o poeta em tensão.
Na primeira estrofe, por exemplo, o eu lírico começa a esboçar uma imagem de mulher construída a partir de duas palavras, que associa ao seu nome e ao seu rosto: flor (´´Angélica na cara``) e anjo (´´Anjo no nome``). Aqui podemos perceber a presença de uma contradição, já que a mulher amada é anjo (plano espiritual) e flor (plano material): estas duas antíteses (recurso estilístico que busca a unidade entre elementos que se opõem) ao mesmo tempo em que marcam a dualidade, marcam também a tentativa de unificação. Tentativa cuja base é a beleza: beleza que quando associada à flor tende a ser breve, destruída (´´Quem veria uma flor, que a não cortara``), e quando associada a anjo, tende a ser idolatrada, glorificada, eternizada (´´E quem um Anjo vira tão luzente,`` /´´Que por seu Deus, o não idolatrara?``)
No primeiro terceto o eu lírico já pronuncia o paradoxo que ele explicará no final do poema. Como a sua amada representa a figura de um anjo, a quem ele constantemente adora (´´Anjo sois dos meus altares``) o natural seria guardá-lo das tentações, auxiliá-lo, livrá-lo de ´´diabólicos azares``.
A última estrofe começa com a conjunção adversativa ´´Mas`` dando prosseguimento ao raciocínio da estrofe anterior, deixando clara a contradição que há na condição de sua amada. E a dualidade inicial, que antes vacilava entre o metafísico e o botânico, reduz agora seu campo de alcance e se concentra num só ente: o anjo. Mas um anjo dual, que tenta e não guarda. Um anjo que não se identifica, apenas e necessariamente, com o bem.
O toque barroco aparece no jogo de contradições revelado nos dois tercetos: se essa bela mulher é um anjo, como é possível que, em lugar de garantir proteção, cause apenas tentação ao eu lírico? A contradição entre o amar e o querer desemboca no paradoxo dos versos finais: “Sois Anjo que me tenta e não me guarda.”
Assim, o soneto que se inicia com a louvação de uma beleza angelical, encerra-se como advertência contra uma tentação demoníaca. Esse é um bom exemplo do desenvolvimento da lírica amorosa na obra de Gregório, que mantém viva a tensão entre a imagem feminina angelical e a tentação da carne que atormenta o espírito.