Análise do soneto: ´´À mesma D. Ângela`` - Gregório de Matos

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013
Rompe o poeta com a primeira impaciência querendo declarar-se e temendo perder por ousado
Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda
.
Vocabulário
Florente: florescente, brilhante, esplendente.
Uniformar: converter em uma só forma coisas diversas.
Rama: ramos e folhagens de árvores.
Luzente: brilhante.
Idolatrar: adorar, amar cegamente.
Custódio: anjo da guarda, protetor.
Diabólico: funesto, terrível, satânico.
Azar: agouro, infelicidade, desgraça.
Galharda: garbosa, esbelta, elegante
Pesar: desgosto, mágoa, tristeza.
Tentar: provocar, seduzir, instigar para o mal.
James Amado, baseando-se em grande parte no códice de Manuel Pereira Rabelo (primeiro biógrafo – século XVIII), organizou um ciclo dos poemas endereçados a D. Ângela de Sousa Paredes Rabelo, segundo a evolução do relacionamento amoroso, que termina com Gregório sendo rejeitado em favor de outro.
O soneto transcrito (o sétimo poema do ciclo “Ângela”) revela muito do estilo cultista adotado por Gregório em suas composições. Desenvolve-se por meio do jogo de palavras e imagens: “Ângela” = “Angélica” = “Anjo”, “flor” = “florente”. Gregório segue uma tradição explorada por Shakespeare e Camões ao comparar a beleza da mulher à natureza.
O esquema rimático é: ABBA / ABBA / CDC / DCD. Quanto à disposição ou ligação entre os versos, nas quadras: rima interpolada entre o primeiro e o quarto versos (porque entre os dois versos que rimam há mais do que um de rima diferente) e emparelha entre o segundo e o terceiro versos (rimam dois a dois); nos tercetos, a rima é cruzada (porque entre os dois versos que rimam há apenas um de rima diferente).
O tema central é o caráter contraditório dos sentimentos do poeta pela mulher, que é simultaneamente flor (metáfora da beleza) e objeto do desejo, e anjo (metáfora da pureza) e símbolo da elevação espiritual. Podemos, em primeiro lugar, observar o uso dos trocadilhos anjo (ângelus em latim, daí vem Ângela, angélico) / Angélica (do latim Angelicus, pura como um anjo e também o nome de uma flor que inspira sensualidade) na construção imagética do poema: trata-se de uma mulher de nome e feições angelicais, tão bela que se assemelha a uma flor. O poeta trabalha com essas duas entidades – flor e anjo – que se irmanam pela beleza, mas que se distanciam pela duração. A flor significa brevidade, enquanto que o anjo é ser eterno. Essa duplicidade emerge do nome da mulher amada, cuja beleza indiscutível lança o poeta em tensão.
Na primeira estrofe, por exemplo, o eu lírico começa a esboçar uma imagem de mulher construída a partir de duas palavras, que associa ao seu nome e ao seu rosto: flor (´´Angélica na cara``) e anjo (´´Anjo no nome``). Aqui podemos perceber a presença de uma contradição, já que a mulher amada é anjo (plano espiritual) e flor (plano material): estas duas antíteses (recurso estilístico que busca a unidade entre elementos que se opõem) ao mesmo tempo em que marcam a dualidade, marcam também a tentativa de unificação. Tentativa cuja base é a beleza: beleza que quando associada à flor tende a ser breve, destruída (´´Quem veria uma flor, que a não cortara``), e quando associada a anjo, tende a ser idolatrada, glorificada, eternizada (´´E quem um Anjo vira tão luzente,`` /´´Que por seu Deus, o não idolatrara?``)
No primeiro terceto o eu lírico já pronuncia o paradoxo que ele explicará no final do poema. Como a sua amada representa a figura de um anjo, a quem ele constantemente adora (´´Anjo sois dos meus altares``) o natural seria guardá-lo das tentações, auxiliá-lo, livrá-lo de ´´diabólicos azares``.
A última estrofe começa com a conjunção adversativa ´´Mas`` dando prosseguimento ao raciocínio da estrofe anterior, deixando clara a contradição que há na condição de sua amada. E a dualidade inicial, que antes vacilava entre o metafísico e o botânico, reduz agora seu campo de alcance e se concentra num só ente: o anjo. Mas um anjo dual, que tenta e não guarda. Um anjo que não se identifica, apenas e necessariamente, com o bem.
O toque barroco aparece no jogo de contradições revelado nos dois tercetos: se essa bela mulher é um anjo, como é possível que, em lugar de garantir proteção, cause apenas tentação ao eu lírico? A contradição entre o amar e o querer desemboca no paradoxo dos versos finais: “Sois Anjo que me tenta e não me guarda.”
Assim, o soneto que se inicia com a louvação de uma beleza angelical, encerra-se como advertência contra uma tentação demoníaca. Esse é um bom exemplo do desenvolvimento da lírica amorosa na obra de Gregório, que mantém viva a tensão entre a imagem feminina angelical e a tentação da carne que atormenta o espírito.

Metáfora figuras de linguagem:

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013


A Retórica , ciência muito antiga cultivada já pelos gregos e romanos, tinha como objetivo ensinar técnicas de elaboração de um discurso belo e convincente. Por uma série de motivos, a partir do Renascimento, houve uma brusca queda de prestígio da Retórica. Substituída pela Estilística, herdou numerosos termos técnicos. Dentro da Retórica, as figuras(todos os procedimentos de estilo de um determinado enunciado) ocupavam um espaço razoável. Recuperadas pela Estilística, são hoje comumente chamadas de figuras de estilo ou figuras de linguagem.
O uso de figuras de linguagem é um dos recursos empregados para valorizar o texto, tornando a linguagem mais expressiva, afastando-se do valor lingüístico normalmente aceito .Toda e qualquer palavra é polissêmica e, além de seu sentido denotativo(sentido habitual, dicionarizado) pode apresentar-se com um de seus sentidos conotativos(tudo aquilo que uma palavra possa sugerir, lembrar, apresentando mais de um significado.), constituindo uma figura de linguagem.
Em um de seus poemas, Carlos Drummond de Andrade propõe ao homem:
´´...Por o pé no chão do seu coração...``
Toda a frase acima tem sentido conotativo; pode-se interpretá-la como: conhecer-se a si mesmo, tomar contato com o seu próprio ser.
A linguagem figurada dá-se principalmente a partir da metáfora (palavra grega que significa transporte, translação, mudança). A metáfora é uma comparação implícita, ou seja, não possui o termo comparativo. Baseia-se numa associação de idéias subjetivas: uma palavra deixa o seu contexto normal para fazer parte de outro contexto. Há entre elas uma relação de semelhança. Relaciona dois seres de uma qualidade comum a ambos; entretanto, apenas um dos termos aparece no enunciado.
´´Teu corpo é a brasa do lume``
Neste verso de Manuel Bandeira, as palavras brasa e lume(fogo), que normalmente nada têm a ver com corpo, são utilizadas para caracterizá-lo. Ao empregar o corpo como responsável pela chama, o poeta joga com uma associação de idéias de caráter sensual: corpo associado a calor , fogo, isto é, à febre, à paixão.
´´Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,``
(Mário de Sá Carneiro)
Quantos sentidos possíveis pode ter a metáfora que compara o ´´eu`` ao labirinto? O não se reconhecer? A solidão? O sem-retorno? Muitos sentidos nascerão de muitas outras leituras, inclusive porque os significados dependem do contexto maior.
´´Amor é fogo que arde sem se ver``
( Camões)
Quantos sentidos diferentes podem emergir da semelhança sugerida entre amor e fogo nesta conhecida metáfora? O amor, como o fogo, queima.É intenso. Ilumina Deixa marcas. Consome. Não se pode mexer nas suas cinzas, que renasce...e muitas outras significações. Proporciona uma linguagem criadora: signos que geram signos. Símbolos que geram símbolos.

ATIVIDADE DE HISTÓRIA EGITO

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013
                                               

      




A Civilização egípcia é datada do ano de 4.000 a.C., permanecendo estável por 35 séculos.Localizado no nordeste africano de clima semi-árido e chuvas escassas ao longo do ano, o vale do rio Nilo é um oásis em meio a uma região desértica. Durante a época das cheias, o rio depositava em suas margens uma lama fértil na qual durante a vazante eram cultivados cereais e hortaliças.



O rio Nilo é essencial para a sobrevivência do Egito. A interação entre a ação humana e o meio ambiente é evidente na história da civilização egípcia, pois graças à abundância de suas águas era possível irrigar as margens durante o período das cheias, formando o Húmus, que fertilizava a terra para o plantio A história política do Egito Antigo é tradicionalmente dividida em duas épocas:


Pré-Dinástica (até 3200 a.C.): ausência de centralização política. Dois reinos Alto Egito (sul) e Baixo Egito (norte) surgiram por volta de 3500 a.C. em conseqüência da necessidade de se unir esforços para a construção de obras hidráulicas.


Dinástica:
Forte centralização política Menés, rei do Alto Egito, subjugou em 3200 a.C. o Baixo Egito. Promoveu a unificação política das duas terras sob uma monarquia centralizada na imagem do faraó, dando início ao Antigo Império, Menés tornou-se o primeiro faraó. Os nomarcas passaram a ser “governadores” subordinados à autoridade faraônica


ASPECTOS ECONÔMICOS


Base econômica: Agricultura de regadio com cultivo de cereais (trigo, cevada, algodão, papiro, linho) favorecida pelas obras de irrigação. Agricultura extensiva com um alto nível de organização social e política. Outras atividades econômicas: criação de animais (pastoreio), artesanato e comércio.


Monarquia teocrática: O governante (faraó) era soberano hereditário, absoluto e considerado uma encarnação divina. Era auxiliado pela burocracia estatal nos negócios de Estado. Havia uma forte centralização do poder com anulação dos poderes locais devido à necessidade de conjugação de esforços para as grandes construções. O governo era proprietário das terras e cobrava impostos das comunidades camponesas (servidão coletiva). Os impostos podiam ser pagos via trabalho gratuito nas obras públicas ou com parte da produção.


ASPECTOS SOCIAIS Predomínio das sociedades estamentais (compostas por categorias sociais, cada uma possuía sua função e seu lugar na sociedade).O Egito possuía uma estrutura social estática e hierárquica vinculada às atividades econômicas. A posição do indivíduo na sociedade era determinada pela hereditariedade (o nascimento determina a posição social do indivíduo).A estrutura da sociedade egípcia pode ser comparada a uma pirâmide. No vértice o faraó, em seguida a alta burocracia (altos funcionários, sacerdotes e altos militares) e, na base, os trabalhadores em geral .


A sociedade era dividida nas seguintes categorias sociais:O faraó e sua família - O faraó era a autoridade suprema em todas as áreas, sendo responsável por todos os aspectos da vida no Antigo Egito. Controlava as obras de irrigação, a religião, os exércitos, promulgação e cumprimento das leis e o comércio. Na época de carestia era responsabilidade do faraó alimentar a população.aristocracia (nobreza e sacerdotes). A nobreza ajudava o faraó a governar.grupos intermediários (militares, burocratas, comerciantes e artesãos)camponeses escravo Os escribas, que dominavam a arte da escrita (hieróglifos), governantes e sacerdotes formavam um grupo social distinto no Egito.


ASPECTOS CULTURAIS A cultura era privilégio das altas camadas. Destaque para engenharia e arquitetura (grandes obras de irrigação, templos, palácios) Desenvolvimento de técnicas de irrigação e construção de barcos. Desenvolvimento da técnica de mumificação de corpos. Conhecimento da anatomia humana. Avanços na Medicina. Escrita ictográfica (hieróglifos). Calendário lunar. Avanços na Astronomia e na Matemática, tendo como finalidade a previsão de cheias e vazantes. Desenvolvimento do sistema decimal. Mesmo sem conhecer o zero, os egípcios criaram os fundamentos da Geometria e do Cálculo. Engenharia e Artes. Jogavam xadrez.


ASPECTOS RELIGIOSOS Politeísmo Culto ao deus Sol (Amom – Rá) As divindades são representadas com formas humanas (politeísmo antropomórfico), com corpo de animal ou só com a cabeça de um bicho (politeísmo antropozoomórfico) Crença na vida após a morte (Tribunal de Osíris), daí a necessidade de preservar o cadáver,desenvolvimento de técnicas de mumificação, aprimoramento de conhecimentos médico-anatômicos.


Atividade do bimestre:

1)Qual a importância do rio Nilo para o Egito.? 2)Como estava dividida a era a era Pré Dinástica e Dinástica no Egito? 3) Como era o governo no Egito? 4)Como estava dividida a sociedade no Egito.? 5)Quais os principais aspectos culturais do Egito? 6) Cite os aspectos religiosos do Egito?

ATIVIDADE PARA AULA DE HISTÓRIA A expansão e mudança nos séculos XV e XVI

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013
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O expansionismo europeu:
Portugal teve um papel pioneiro na expansão européia dos séculos XV e XVI. Em menos de um século, empreendeu conquistas no Norte de África. Colonizou ilhas atlânticas, descobriu o caminho marítimo para a Índia e atingiu o Brasil. No séc. XVI passou a ter a concorrência da vizinha Espanha nesta expansão. Esta expansão ibérica foi o fato decisivo para a criação de um comércio com dimensão global.A procura pelas especiarias do oriente tornou este continente num dos principais pontos comerciais de interesse europeu com essa ligação a ser feita pelo mercado italiano com a Europa.
Em busca de novas rotas
Com a luta existente, entre vários países europeus pelo domínio do comércio e respectivas rotas comerciais tornou-se uma necessidade descobrir novas rotas para atingir estes centros de especiarias de uma forma mais direta.A esta necessidade respondeu primeiramente a península ibérica, em concreto Portugal,  que assumiu esta primazia pela sua condição geográfica favorável, possuindo uma posição privilegiada face aos continentes a descobrir; por outro lado, por causa do seu extenso litoral possuía também uma forte ligação ao mar por parte da sua população.Esta experiência marítima e o apoio por parte dos monarcas e protecionismo à marinha. Este fato e os conhecimentos e técnicas de navegação possuídos pelos portugueses foram indispensáveis à expansão marítima. Por fim a união existente em Portugal, e o apoio de todos os grupos sociais a expansão foram também importantes para esta primazia do nosso país.
As Monarquias Nacionais.
As Monarquias Nacionais surgem quando o poder real passa a ter maior domínio e influência no território europeu, sendo quase tão poderosas quanto a Igreja e o Papa. Esse Sistema Político surge com o crescimento das cidades européias e os problemas feudais, algumas partes da Europa o rei assume o posto de controlar e resolver as questões políticas.
Para recuperar o prestígio e o poder e superar os senhores feudais, os burgueses se tornam aliados dos reis, essa parceria resultada em acelerar a ascensão do capitalismo. Assim os reis e os burgueses tornam-se responsáveis por questões relacionadas a evolução do comércio, questões jurídicas, organização para a cobranças de impostos entre outras. E para firmar e fortalecer o domínio do rei, a corte real passou a ser corte suprema de justiça da nação.
Questões

1) Cite as conquistas de Portugal?      2)  Qual a concorrente de Portugal na expansão marítima?   3) O que os europeus buscavam no Oriente?   4) Porque era necessário encontrar novas rotas de comércio na Europa?   5) Porque Portugal assumiu a primazia dos mares através da expansão marítima?  6) Quando surgiram as monarquias nacionalistas?  7) Porque os burgueses se aliaram aos Reis?    8) Quais as responsabilidades dos Reis e dos Burgueses?

Análise do texto - A Santa Inês (José de Anchieta)

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013


A Santa Inês


Cordeirinha linda,(a)
como folga o povo(b)
porque vossa vinda(a)
lhe dá lume novo!(b)
Cordeirinha santa,(c)
de Iesu querida,(a)
vossa santa vinda(a)
o diabo espanta.(c)
Por isso vos canta(c)
com prazer o povo,(b)
porque vossa vinda(a)
lhe dá lume novo.(b)
Nossa culpa escura(d)
fugirá depressa,(e)
pois vossa cabeça(e)
vem com luz tão pura.(d)
Vossa formosura(d)
honra é do povo,(b)
porque vossa vinda(a)
lhe dá lume novo.(b)


.....................................................................
(José de Anchieta)
Vocabulário:
Iesu – versão arcaica, medieval de Jesus.
Folga – se alegra.
Lume – luz ( orientação, guia)

****************
José de Anchieta exalta a figura de Santa Inês(considerada um modelo exemplar, porque se submeteu ao sacrifício em nome da sua crença) e incentiva o povo a praticar a fé religiosa cristã. Trata-se de uma literatura jesuítica, preocupada com a conversão dos índios e a manutenção do catolicismo entre os colonos.
Poema em quadras(quatro versos em cada estrofe), com versos curtos (cinco sílabas- redondilha menor), de cunho bem popular, dão ritmo ligeiro ao texto poético, retomando a métrica das poesias medievais( reminiscências da técnica trovadoresca: repetição de assunto e verso), comprovando a total indiferença do religioso ao Renascimento que naquele momento ocorria na Europa.
Não há um esquema rígido em relação à rima: ela é irregular e muitas vezes apenas toante( repetição de vogais a partir da sílaba tônica), conforme indicação no texto. A linguagem é clara(essencialmente ingênua de conteúdo simples, direto, sem complexidade) favorecendo o envolvimento do ouvinte, com a finalidade de sensibilizá-lo para a mensagem religiosa.. O uso do refrão, grifado no texto, favorece a aproximação com o canto e a dança, permitindo assim uma musicalidade, de fácil execução e memória.
O poema fala do confronto entre o bem e o mal de forma bem convincente: a chegada de Santa Inês espanta o Diabo e, graças a ela, o povo revigora a sua fé. A quarta estrofe está centrada em uma oposição, a partir da antítese ( exposição de ideias opostas) apresentada: culpa escura/ luz tão pura. A luz que ilumina o espírito espantará a culpa escura(o pecado).Essa preferência por enfatizar os extremos pode ser considerada, implicitamente, uma característica pré-barroca.

Análise do poema: À instabilidade das cousas do mundo

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013


Moraliza o poeta nos ocidentes do sol a inconstância dos bens do mundo
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol e na luz, falta a firmeza,
Na formosura não se crê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.A poesia de Gregório de Matos guarda alguns traços marcantes da poética renascentista: trata-se de um soneto (14 versos, distribuídos em 2 quartetos e 2 tercetos), cuja temática está centrada na reflexão moral e filosófica – o título longo e explicativo da poesia , que é uma característica barroca, evidencia o caráter moralizante do texto.
O esquema de rima é ABBA, ABBA, CDC e DCD. Os versos são decassílabos heróicos. Existe um outro tipo de verso decassílabo. Ele se chama sáfico e apresenta tonicidade na 4.ª, 8.ª e 10.ª sílabas. Seu esquema rítmico é 10 (4-8-10). Façamos uma releitura dos versos 2 e 3. Podemos verificar que esses dois versos oscilam sua acentuação: tanto podem ser considerados heróicos quanto sáficos, pois também poderíamos metrificá-los desta forma:
De / pois / da / LUZ / se / (SE) / gue a / NOI / te es/ CU / (ra)
Em/ tris / tes /SOM /bras/(MOR)/ re a /FOR / mo / SU / (ra)
O esquema rítmico, neste último caso, conservaria um acento secundário, menos forte, na 6. ª sílaba. Podemos dizer que nesses dois versos ocorre uma tensão métrica. O mesmo fato vai ocorrer no 1. º terceto, no verso 10. A tensão – que pode ocorrer no plano da métrica ou em outros planos – é um fenômeno que enriquece um poema, por ampliar seu campo de significação.
O texto trata da transitoriedade da vida, da efemeridade das coisas do mundo, tema bastante caro ao barroco. O poeta utiliza como exemplos da transitoriedade da vida o Sol que não dura mais que um dia, a noite que segue a luz, a beleza que acaba em tristes sombras e a alegria que se transforma em tristeza. É um poema predominantemente conceptista, argumentativo.
Logo na 1ª estrofe, o poeta trabalha com uma característica barroca: o pessimismo, isto é, uma visão negativa para as coisas do mundo e acentua os contrastes através de antíteses (Sol / noite; luz / sombra; alegria / tristeza). O poeta faz considerações sobre a condição humana, diante das instabilidades do mundo. O caráter aflitivo é representado pelos hipérbatos (inversões sintáticas que denotam a desordem do pensamento): ´´Depois da luz, se segue a noite escura``; ´´Em tristes sombras morre a formosura`` e ´´Em contínuas tristezas, a alegria`` (verso marcado pela elipse de um termo: morre, artifício muito comum durante a época barroca.).
Na 2ª estrofe, outra característica do estilo barroco é apresentada: a dúvida, a incerteza, marcadas pelo paralelismo construído através das interrogações – só contém perguntas sem respostas.
A consciência angustiante da fugacidade da vida, da brevidade das alegrias e da passagem do tempo que tudo destrói são expressas nas últimas estrofes por meio de paradoxos ( antítese levada ao extremo – ideias que se chocam, ideias aparentemente absurdas) , onde o poeta funde os opostos :´´E na alegria sinta-se tristeza `` (3ª estrofe) o que gera o verso-síntese: ´´A firmeza somente na inconstância``( 4ª estrofe).
Sendo assim, depois de demonstrar a efemeridade das coisas do mundo, o poeta afirma que a única coisa firme, constante, é o fato de nada ser constante.

Gêneros literários

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013
linguagem é o veículo para escrever uma obra literária. Escrever uma obra literária corresponde a um exercício lúdico para trabalhar com a linguagem. Os gêneros literários são as várias formas de trabalhar a linguagem, de registrar a história, e fazer com que essa determinada linguagem seja um instrumento de conexão entre os diversos contextos literários que estão dispersos ao redor do mundo.


A história é um fator fundamental para o entendimento de toda a literatura. É ela que traduz, através da linguagem, o momento histórico que lhe dá origem.A


Quando falamos em gêneros literários, temos mais uma vez que levar em conta a historicidade: eles evoluíram, transformaram-se, misturaram-se, uns surgiram, enquanto outros desapareceram, através dos séculos.


A primeira divisão em gêneros data da Grécia Antiga e é feita por Aristóteles em sua Arte Poética. Segundo ele, é possível identificar três gêneros de manifestação literária: o lírico, o épico e o dramático, correspondendo cada um deles à forma de expressão de determinada experiência humana. Essa questão da definição dos gêneros ainda é objeto de discussão entre críticos e historiadores, mas a apresentação aristotélica é amplamente aceita. Prefere-se, atualmente, a divisão em lírico, dramático e narrativo, pois o épico praticamente desapareceu.


Ao acompanharmos textos literários, notamos que as mesmas características aparecem em vários deles. Pelo fato de apresentarem claras afinidades entre si, nós o agrupamos em blocos. Cada um desses grandes grupos ( condensados através destes blocos) de texto constitui o que se convencionou chamar de gênero literário.


Não existe até agora uma tipologia fixa dos gêneros. É difícil, portanto, dar uma classificação precisa e imutável, não só porque as categorias se multiplicam ou se combinam, mas também porque um gênero pode evoluir. A regra clássica de separação dos gêneros, que proibia a mistura do trágico e do cômico, ou a justaposição numa mesma obra de gêneros diferentes, por exemplo, já não é respeitada desde o séc. XVIII.


Algumas características elementares dos gêneros literários:


Gênero dramático: Texto para ser representado (só há personagens); mundo objetivo; obediência a um determinado enredo, com respeito às noções de tempo e espaço; as características das personagens são dadas por sua ação e pelas rubricas( a rubrica indica a movimentação dos atores; vem, em geral, em tipos menores e entre parênteses).


Gênero lírico: Não há narrador (presença do eu-lírico, isto é, a voz que expressa a emoção); mundo subjetivo; não há seqüência de fatos; não há personagens.


Gênero narrativo :As ações dos personagens são contadas por um narrador; narrador em primeira ou em terceira pessoa; mundo objetivo; os fatos desenrolam-se em um período de tempo.