Busque Amor novas artes, novo engenho - Camões

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013





Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
vede que perigosas seguranças:
que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar perdido o lenho

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não de vê;

que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como e dói não sei por quê.Vocabulário
Esquivanças: desdéns, desprezos, recusas.
Novo engenho: nova artimanha.
Conquanto: se bem que, ainda que.
Lenho: embarcação (metonímia representada pela substituição da coisa pela matéria de que esta é feita).
A obra camoniana costuma ser valorizada primeiramente por sua realização épica, Os Lusíadas, que são de fato uma obra-prima: a maior epopeia dos tempos modernos. Mas Camões não foi apenas um grande épico: foi também um dos maiores poetas líricos de todos os tempos. Há nos seus poemas de amor duas tendências diversas: uma vem de tradição popular, folclórica, e por isso é chamada ´´medida velha``; outra vem da Itália renascentista e clássica, trazida primeiramente por Sá de Miranda – é a ´´medida nova``.
A medida velha – vale a pena conferir, aqui no blog, ´´As redondilhas de Camões`` – é construída de redondilhos (versos de 5 ou 7 sílabas) e lembra os melhores momentos do Cancioneiro geral de Garcia de Rezende. É a poesia singela, de amores transitórios e de belíssimas fulgurações femininas, especialmente aquelas que definem a moça do povo, a graça feminina tipicamente ibérica e rural. A sintaxe é às vezes elementar, às vezes puxa um pouco para o modo clássico. A medida velha provém de uma tradição que começou com o trovadorismo, principalmente o das cantigas de amigo.
Os poemas líricos camonianos escritos em medida nova apresentam as inovações de forma e conteúdo introduzidas pelos poetas ligados ao humanismo italiano no século XIV, sobretudo a partir da influência de Petrarca. O verso empregado é o decassílabo; os tipos de composição preferidos são o soneto, as éclogas, as odes, as oitavas e as elegias. Camões alcançou maior sucesso no soneto, motivo pelo qual é apontado como um dos três maiores sonetistas da literatura portuguesa, ao lado de Bocage (séc. XVIII) e de Antero de Quental (séc., XIX).
A principal parte da obra lírica de Camões é desenvolvida em sintonia com sua época, com os modelos de forma e de conteúdo do Renascimento. Embora Camões seja, essencialmente, um autor do Classicismo (século XVI), em seus sonetos, notam-se certos traços maneiristas (visíveis em, por exemplo, antíteses e paradoxos), que prenunciam a estética barroca.
O soneto foi uma das formas poéticas mais exploradas na Era Clássica, já que, pela própria natureza dissertativa, facilita a reflexão e a exposição de ideias em textos predominantemente conceituais e lógicos. Obedecendo a este preceito, Camões nos apresenta esta composição de forma fixa, composta por 14 versos (decassílabos heróicos), divididos em 2 estrofes de 4 versos (quartetos) e 2 estrofes de três versos (terceto). O posicionamento das rimas é regular: abba/abba/cde/cde.
O eu lírico chega a uma paradoxal definição do amor através de uma dialética: de um lado, ´´desafia`` o amor a novamente fazê-lo sofrer, o que demonstra a sua experiência, a sua vivência. De outro, entretanto, esta vivência, esta experiência são ameaçadas por um mistério transcendente aos seres humanos: ´´um mal, que mata`` e não se vê``(força estranha e maléfica, invisível e inevitável).
Assim, na 1.ª estrofe, o ´´Amor`` aparece no soneto como uma entidade abstrata e independente. O eu lírico nos expõe um raciocínio sobre ele (este personificado; com A maiúsculo, para indiciá-lo como um ser superior: Cupido ou Eros). É um verdadeiro desafio ao Amor a buscar novas artes e engenhos para matá-lo.Veja que o texto é cheio de argumentações: o que inicial dos versos 3 e 4 equivale a uma conjunção causal ou explicativa (pois, visto que, porque). Perceba: não há uma indiferença em relação ao Amor, mas aos efeitos, ou melhor, aos sofrimentos que o Amor manda inutilmente ao eu lírico, para tirar-lhe esperanças que, afinal, ele não mais possui.
Na 2.ª estrofe, o eu lírico não teme ´´contrastes nem mudanças`` porque já leva uma vida perigosa e agitada. Castigado tão variamente, já não teme as más novidades, pois, naufrago do amor (´´andando em bravo mar perdido o lenho``), que mais pode temer? Concluindo, podemos observar que o soneto desenvolve um raciocínio completo: O eu lírico apresenta um tese: está imune a novas investidas do Amor porque já chegou ao limite do sofrimento (verso 1 ao verso 8).
Esta convicção, contudo, vai ser dialeticamente quebrada na 3.ª estrofe (com a introdução da conjunção adversativa ´´mas``), pelo súbito reconhecimento de que há dias em que a dor de amar se põe tão estranha e aguda, que a consciência não consegue nem mesmo acompanhar o percurso do ´´sofrer``, e por isso, a certeza que demonstra no começo transforma-se, ao fim, numa impressão de desespero (rende-se aos inexplicáveis mistérios do Amor). O eu lírico constata que sua tese é incorreta: apesar do grau extremo de seu sofrimento, o Amor ainda o faz passar por dissabores (verso 9 ao verso 11).
Na 4.ª estrofe, o eu lírico apresenta o Amor impedindo qualquer explicação lógica (não sei... não sei... não sei...). É o amor como sofrimento, ou sofrer amando. Um amor que ele aceita e possivelmente reconhece (´´que dias há que na alma me tem posto``), mas que ignora de onde nasce, de onde vem e que ´´dói não sei porquê``(ressalta a dúvida e a total falta de controle). O eu lírico explica e sintetiza a aparente contradição entre a tese e a antítese. Isto ocorre devido ao caráter indefinido e vago do Amor (versos 12 ao verso 14).
Do soneto apresentado se depreende uma verdadeira ´´Gramática filosófica-amorosa `´de Camões (uma dialética que trabalha à oposição entre razão e sentimento). O pré-Barroquismo se desenvolve (segue a lógica aristotélica) no processo de tese (1.º e 2.ª estrofes), antítese (3.ªestrofe) e síntese (4.ª e última estrofe).

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades - Camões

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013




Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.Vocabulário
Vontades: afetos.
Ser: caráter.
Qualidades: valores.
Esperança: esperado.
Soía: costumava.
Mor: maior.
Segundo a edição das Rimas organizada por Costa Pimpão, Camões compôs em medida nova (versos decassílabos) treze odes, onze canções, nove elegias, oito éclogas, quatro oitavas e uma sextilha, além de 106 sonetos. Camões mostra extraordinária inspiração em todas as formas líricas que praticou, mas os sonetos se destacam do conjunto, não só pela quantidade, mas também pela qualidade, que não raro atinge o sublime. Nas outras modalidades, Camões também atinge momentos máximos de poesia, mas o soneto, por ser breve, ensejou-lhe um exercício de concentração poética que somente os poetas maiores conseguem realizar.
O soneto é uma forma de composição, de origem provençal, consagrada pelo poeta italiano Petrarca, no século XIV. Petrarca assimilou a essa forma medieval o espírito da Antiguidade greco-romana e fez o soneto tornar-se a composição lírica mais famosa do Ocidente. A influência petrarquista nos sonetos de Camões é notável, mas o poeta português soube marcar sua originalidade e estar à altura do modelo, rivalizando com ele na excelência de seus versos.
A lírica camoniana é marcada por uma visão do mundo dinâmica. A natureza e o homem, com seus sentimentos e afetos, estão sujeitos a mudança. Essa é a essência das coisas. Mas, para o homem, as transformações são sempre para pior, e de nada adianta estar prevenido, pois a mudança é imprevisível, uma vez que ela própria muda também.
A ideia de que toda a existência é constituída por contradições contínuas aparece em Heráclito, um dos maiores pensadores gregos. Foi Heráclito quem disse que ninguém pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, por serem suas águas sempre outras e não mais aquelas em que nos banhávamos. Para este filósofo, e para uma longa tradição que o seguiu, nada fica sendo o que é, tudo muda, ou seja, tudo entra em contradição com o que era antes. Assim, para Heráclito, o mundo não passaria de uma eterna guerra de contradições e mudanças.
De qualquer forma, direta ou indiretamente, Camões foi sensível à tradição iniciada por Heráclito. Dessa tradição Camões veio a extrair, além da sugestão temática da mudança contraditória das coisas no tempo, a sugestão mais radical ainda de uma espécie de desconcerto do mundo, que é a inesperada mudança dentro da própria mudança, que exprime sempre um ritmo absoluto e degenerado do mundo.
Do ponto de vista conceptual, este é dos mais perfeitos sonetos camonianos. Todo ele afirma a instabilidade do mundo. É importante ressaltar que, enquanto as mudanças da natureza seguem um ritmo previsível (como as estações do ano, por exemplo), as alterações sofridas pelas pessoas são causa de inevitável sofrimento, porque vêm associadas à passagem do tempo. Do ponto de vista formal, apresenta uma composição fixa de catorze versos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos, com versos em contagem decassílaba, com tônicas e subtônicas nas quartas e sextas sílabas. Há presença de rimas ao longo do poema: ABBA/ABBA/CDC/DCD (interpolada nos quartetos e cruzada nos tercetos).
Na 1ª estrofe, o eu lírico apresenta-nos a temática que vai desenvolver: a mudança. Essa ideia é explicitada nos seguintes trechos: “Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o mundo é composto de mudança”. Reconhece a mudança que envolve tudo: os sentimentos, o caráter, a confiança, os valores humanos. Observe as anáforas (repetição da mesma palavra no princípio de frases ou versos consecutivos) referentes ao verbo ´´mudar``.
Na 2ª estrofe, o eu lírico emite sua opinião sobre as mudanças (elas não são as esperadas e sempre trazem o pior). É o pessimismo e a frustração, porque tanto do bem, conceituado com algo hipotético (´´se algum houver``), quanto do mal (consistente na ´´lembrança``) o que resulta são saudades ou mágoas. Neste sentido, o único dado permanente parece ser a tristeza, pois para ela não há saída nem alternativa.
Na 3ª estrofe, para exprimir suas desilusões e seus conflitos diante do mundo, o eu lírico estabelece uma comparação entre a ação do tempo sobre si próprio e sobre a natureza. As expressões ´´neve fria`` refere-se ao inverno e ´´verde manto`` à primavera. As expressões ´´doce canto`` e ´´choro``, estados de espírito do eu lírico, referem-se respectivamente à alegria e à tristeza. A ação do tempo para a natureza é positivo, pois transforma o inverno em primavera (estação das flores); para o eu lírico, contudo, é negativa, pois transforma a alegria em tristeza. Para estabelecer essas comparações, o eu lírico faz uso da antítese, uma figura de linguagem que consiste em aproximar ideias opostas. Os pares antitéticos são : neve fria e verde manto; doce canto e choro. A oposição de ideias confirma o estado emocional do conflito, desagregação, mágoa e frustração do eu lírico. São demonstrações de que o mundo é dominado pelas contradições e mudanças que tendem ao labirinto e à perplexidade.
Na 4ª e última estrofe, o eu lírico parece estar conformado com o fluxo natural da mudança, porém algo o incomoda: ´´Que já não se muda mais como soía``. É a pura constatação de que própria mudança é inconstante e se altera (chave de ouro do soneto). A inconstância das coisas deixa o eu lírico ainda mais desorientado( a mudança da própria mudança), pessimista e perplexo diante do mundo que ele não compreende. Sente-se manipulado pelo destino e pela fatalidade.
O desengano e o desconcerto representam um importante motivo poético não apenas na obra de Camões, mas também em toda tradição poética em língua portuguesa. O eu lírico desses textos filosóficos revela um homem angustiado e perplexo diante do seu tempo. A transitoriedade do mundo é muito veloz. Rapidamente se alteram os princípios e valores do convívio social, mas os valores do homem-indivíduo – não do homem massa, multidão – não se alteram à mesma velocidade. Daí o sentimento individual de desagregação, de desengano.
Camões foi o primeiro a aprofundar a tensão ´´eu x mundo`` – a essência do lírico –, inaugurando em língua portuguesa uma tradição explorada por quase todos os movimentos literários seguintes, até os nosso dias. O sentimento pessimista desses textos não condiz plenamente com o espírito renascentista. Da obra camoniana, a parte eminentemente renascentista são Os Lusíadas, contaminada ainda pelo espírito eufórico e nacionalista das navegações e descobertas.
A lírica de Camões, pelo conflito espiritual que revela, em grande parte pelas sutilezas de pensamento, pelo jogo constante das antíteses e pelas inversões de linguagem, prenuncia o movimento literário seguinte, o Barroco. Por esse motivo, a lírica camoniana é considerada por alguns como maneirista, dado que se chamou Maneirismo ao período de declínio do Renascimento e transição para o Barroco.

Alma minha gentil, que te partiste - Camões

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013





Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
Vocabulário
Gentil: nobre, perfeita em virtudes.
Etéreo: sublime, elevado.
Assento: lugar.
Memória: lembrança.
Idealismo é a tendência filosófica que valoriza as ideias e o espírito, em desfavor da consideração do mundo material. Embora reconheça a necessidade do mundo espaço-temporal, o idealismo crê que só nas ideias, vale dizer, só no trabalho abstrato do espírito é que se pode encontrar a verdade e a correção das falhas humanas. Assim, o idealismo que nos vem de Platão é uma filosofia que se inspira na separação rigorosa entre o que é do sensível (coisas) e o que é do inteligível (ideias), separação que foi, aliás, parcialmente reaproveitada pela Igreja, na crença, que esta sempre sustentou, de que o homem é um ser que tem um corpo sensível submetido a uma alma incorporal e eterna.
As obras filosóficas de Platão e Aristóteles, como sabemos, foram muito estudadas durante a Idade Média. Na passagem para o Renascimento, a influência de Platão manteve-se bastante forte e alguns filósofos da época, como Leon Hebreu, chegaram a atualizar algumas de suas teorias. A definição platônica de amor, que nos interessa mais de perto, foi objeto de uma dessas atualizações, de modo a ser conciliada com uma visão cristã de mundo.
Os poemas de Camões não dialogam somente com a sensibilidade do leitor, mas também com a sua inteligência. Não é possível separar emoção e razão nesse lírico. Muitos dos poemas são reflexões sobre o amor, questionamentos do amor e da existência, são tentativas de definição poética – da universalidade da vivência amorosa, assim como de suas significações na condição humana. Há um contínuo embate, uma tensão entre os chamados do amor físico, das cores do desejo, das iluminações e desesperos das paixões, de um lado, e, de outro, os chamados do amor platônico, de serena identificação do amante com a pessoa amada, do vislumbre das esferas transcendentes, de retorno, através do amor, à unidade divina do ser no mundos das ideias.
As concepções platônicas, muito apreciadas no Humanismo e no Renascimento, vão atuar decisivamente na concepção de mulher ideal, em voga na poesia lírica da época (principalmente nos sonetos), onde a mulher amada era representada como virtuosa, casta, elevada, já que o amor que ela inspirava nos renascentistas era sobretudo´´platônico``(idealizante). Assim é que Petrarca fala de Laura, sua´´ musa inspiradora``, e é assim, em parte, que Camões lembra algumas de suas amadas. Em Camões, sobretudo, tanto a distância como a idealização da amada se materializam poeticamente nos tons da saudade. Uma saudade que, entendida platonicamente, é o desejo de ascender à formosura suprema, só possível em ´´outras vidas``ou no ´´mundo das ideias``.
Os biógrafos de Camões associam o poema à morte de Dinamene, chinesa com quem Camões teria vivido em Macau. Em um naufrágio, Camões teria conseguido se salvar (e com ele ´´Os Lusíadas, quase concluído). Sua amada, porém, não teve a mesma sorte.
Este soneto, em versos decassílabos heróicos (acentuação na 6ª e na 10ª sílabas) com esquema rimático ABBA CDC DCD (as rimas ´´A`` e ´´B`` são ricas e as rimas ´C`` e ´´D`` são pobres), é praticamente uma transcriação de um soneto de Petrarca (Questa anima gentil Che si disparte), com a diferença de que as notas religiosas finais não comparecem no soneto do poeta italiano.
O platonismo, neste poema, consiste em ver a mulher amada como o ser que passou a pertencer, com a morte (observe o eufemismo ´´Repousa lá no Céu etermamente´´), a um universo mais puro e mais verdadeiro (já testemunhada a partir do primeiro verso, com o vocativo: ´´Alma minha gentil``).
Sendo assim, na 1.ª estrofe, o eu lírico dirige-se a sua amada, que morreu, e lamenta sua vida desde então ´´ sempre triste``. Existe uma forte oposição no interior da estrofe( antíteses), de caráter espacial, marcada pelos advérbios ´´lá`` e ´´cá``: enquanto a mulher amada repousa na beatitude eterna do ´´Céu`` ( cristianismo com influências platônicas), o poeta vive entre os sofrimentos da ´´terra``. O uso dos advérbios citados reforça a distância entre o sujeito e sua interlocutora.
Não obstante essas marcas de idealização e religiosidade, na 2.ª estrofe, o eu lírico contempla a bem-amada transubstanciada em puro espírito, ´´lá no assento etéreo``, por via do muito amar. Também faz alusão à vida terrena, na qual as qualidades físicas do amor são definidas. A nota sensual reponta em ´´daquele amor ardente``, abrandada pela sequência ´´que já nos olhos meus tão puro viste``.
Na 3.ª estrofe, o eu lírico ressalta o sofrimento causado pelo afastamento da sua amada (´´Da mágoa, sem remédio, de perder-te``). Dirige-se novamente a mesma, na esperança de que a dor sentida possa, se possível, ser percebida, facilitando assim a ida dele ao seu encontro. Observe a visão platônica do amor. De acordo com esta visão, a morte da amada não impede, mas adia a consumação do amor que continua; sentimento que na verdade não pertence ao mundo das aparências sensíveis, da matéria, mas à eternidade
Na 4.ª e última estrofe, o eu lírico enfatiza o desejo de morte, suplicando para que a amada interceda aos céus pela brevidade da experiência terrena do amante. O apelo de juntar-se à amada na morte fica evidente nos versos: ´´Roga a Deus, que teus anos encurtou, /Que tão cedo de cá me leve a ver-te``. Enfim, só resta ao amante esperar que sua morte chegue cedo, para poder reunir-se à amada.
Esse embate, entre o erótico e o platônico, entre o amor-desejo e o amor-ideia, entre o sensual e o espiritual, é fonte fecunda de antíteses que atravessam a lírica de Camões, juntamente com a tentativa sempre recomeçada de atingir uma síntese reunificadora dos opostos. Essa poesia não é apenas a expressão mais elevada da tradição medieval e da novidade classicista, mas também é uma lírica prenunciadora do Barroco, especialmente do Conceptismo.

As redondilhas de Camões

Posted by Profº Monteiro on dezembro 16, 2013






O Renascimento coincide com o declínio da concepção teocêntrica, cedendo lugar ao antropocentrismo e à exaltação da natureza humana. A concepção estética desse período ficou conhecida como Classicismo. Naquela época, ´´clássicos`` eram os autores da Antiguidade greco-latina, dignos de serem lidos e estudados nas classes e imitados na Renascença. A grande ruptura com os valores da estética clássica só acontecerá realmente com o Romantismo, avesso a regras e convenções, amante da liberdade formal e temática.
O autor de língua portuguesa mais representativo do Classicismo Renascentista é Luís Vaz de Camões (1524? – 1580), com sua poesia épica (Os Lusíadas, 1572) e sua poesia lírica (Rimas, a partir de 1595) que inclui sonetos, canções, odes, elegias, oitavas, éclogas e redondilhas. Homem experiente e culto, aberto às mais variadas tendências da cultura da época, Camões soube aproveitar tanto as influências da tradição medieval portuguesa quanto as da lírica italiana dos séculos XIV e XVI(poesia lírica marcada pela dualidade). As manifestações dessas duas orientações na obra de Camões normalmente identificadas como ´´medida velha``, a poesia inspirada na tradição medieval, e ´´medida nova``, a poesia inspirada no Humanismo e no Renascimento italiano.
A parte da produção lírica de Camões conhecida como ´´medida velha`` é assim denominada em virtude do emprego de certas métricas de origem medieval, particularmente as redondilhas. Contudo, além do aspecto formal, a lírica camoniana que persegue a tradição medieval procura fazer uso dos antigos temas da poesia trovadoresca e da poesia palaciana, tais como a partida do namorado, as saudades, a solidão, a confidência e o sofrimento amoroso, o ambiente rural, a mulher distante (inacessível).
As formas poéticas da tradição ibérica, consagradas no Cancioneiro geral de Garcia de Resende (1516) e renovadas por Camões, são chamadas, genericamente, redondilhas, porque são compostas em versos redondilhos, menores (cinco sílabas poéticas) ou maiores (sete sílabas poéticas). As redondilhas de Camões comumente são composições construídas de um mote, seguido de uma ou mais estrofes chamadas glosas ou voltas.
Mote é o motivo a ser desenvolvido; trata-se de um ou mais versos (até cinco), que servem de introdução, inspiração e tema. Pode ser de autoria do poeta (mote próprio, ou mote seu), ou de outros (mote alheio). Muitas vezes, as redondilhas são poemas de circunstâncias, em que uma dama da corte, ou um amigo, desafia o talento do poeta, fornecendo-lhe um mote para um novo poema. As glosas, ou voltas, são desdobramentos do mote. São estrofes que desenvolvem um tema ou variações sobre o tema sugerido no mote, sendo que este deve figurar nos versos daquelas, ao menos parcialmente.
A redondilha, conforme sua organização, pode receber designações específicas: trova, cantiga, vilancete etc. Essas formas não foram inventadas por Camões, que as aprendeu da tradição poética luso-castelhana do século XV. Não obstante isso, o grande poeta deu vida nova a essas formas antigas, conferindo-lhes graça, força, leveza e profundidade, poucas vezes alcançadas pelos predecessores. Além disso, Camões soube adaptá-las ao espírito do Renascimento, resultando daí, em alguns casos, uma encantadora mescla de forma medieval e conteúdo clássico.
Mote
Descalça vai pera a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa e não segura.

Voltas
Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura;
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro o trançado,
Fita de cor de encarnado…
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura;
Vai fermosa e não segura.
O poema pode ser considerado de caráter popular; inicia-se com um mote, espécie de citação com um tema a ser explorado, seguido das voltas ou estrofes, que o desenvolvem ou interpretam. Este é um exemplo de redondilha maior (versos de sete sílabas). Sobre o caráter musical do texto temos: a repetição do terceiro verso do mote, que é o último de cada estrofe, a funcionar como se fosse um refrão; as repetições de sons, nas rimas, responsáveis pelo teor de musicalidade, acentuando, assim, o sabor popular dos cantares medievais.
Trata-se do retrato de uma bela mulher que sai a caminho da fonte. Em todos os versos surge a preocupação com o retrato feminino de Lianor, que aparece no mote e que vem pormenorizado nas estrofes seguintes. É uma mulher graciosa que desliza ´´não segura``. O envolvimento do eu lírico assume a expressão de um louvor, de uma homenagem à beleza que o mundo oferece. Há aqui o inegável otimismo renascentista. Percebe-se, também, que a figura da mulher não é idealizada (diferente da influência da poesia de Petrarca).
A Lianor que vai à fonte é muito diferente: concreta, material, carnal, descrita em movimento natural, livre e descontraído (´´descalça``). Os detalhes são importantes para essa ideia: as roupas (cinta, sainho, vasquinha, touca, fita), os objetos (o testo, o pote) e as cores (branco e vermelho das roupas, ouro e prata das partes do corpo – os tons com que seu passear recorta a natureza ambiente). . Assim Rodrigues Lapa comenta o verso ´´chove nela graça tanta``: ´´Bela imagem a que nos fornece este verbo chover, que nos dá ao mesmo tempo uma ideia de abundância e de origem celestial``.
Mote alheio
Menina dos olhos verdes,
Porque me não vedes?
Voltas
Eles verdes são,
E têm por usança
Na cor, esperança
E nas obras, não.
Vossa condição
Não é de olhos verdes,
Porque me não vedes.
Isenções a molhos
Que eles dizem terdes,
Não são de olhos verdes,
Nem de verdes olhos.
Sirvo de giolhos,
E vós não me credes
Porque me não vedes.
Havia de ser,
Por que possa vê-los,
Que uns olhos tão belos
Não se hão-de esconder;
Mas fazeis-me crer
Que já não são verdes,
Porque me não vedes.
Verdes não o são
No que alcanço deles;
Verdes são aqueles
Que esperança dão.
Se na condição
Está serem verdes,
Por que me não vedes?
Além de ser escrito em redondilhas menores, podemos perceber no texto um certo gosto pelo jogo de palavras, assim como a abordagem do amor sob um aspecto mais galante e carnal (ao contrário da lírica em ´´medida nova``, que trata do tema numa perspectiva neoplatônica).
O tema ´´olhos verdes`` é tradicional na literatura portuguesa, tendo já aparecido em vários cantadores medievais. Observe o jogo de palavras – verdes / vedes –, onde o poeta maneja muito bem o adjetivo (verde) e o verbo (vedes – o uso das formas verbais na segunda pessoa do plural é fundamental para a criação do jogo lingüístico). Notável também é a ´´súplica`` que o mote contém. Para alguns críticos, a ´´menina dos olhos verdes`` é uma prima de Camões, Isabel Tavares, de Coimbra.
Mote alheio
Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.
Voltas
Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.
Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.
O poema é composto de duas estrofes de sete versos em redondilhas maiores – sete sílabas métricas. Observe como a ave torna-se símbolo do poeta: este poema pode ser lido como um autorretrato do próprio Camões, representado metaforicamente pelo perdigão: ave que sobe às alturas pelo pensamento, mas que perde ´´as asas``lá no alto, isto é, vê substituída a pena do voo pela pena do tormento, da fragilidade humana que a dor de viver vai denunciando.
Em outra atitude semelhante, poderíamos, também, relacionar Perdigão com Portugal, que alcançou altos voos no período das Grandes Navegações, viveu um período rico durante o governo de D. Manuel (por volta de 1500), idealizou um imenso Império, entretanto, sem sustentação; no mesmo século XVI, em 1580, Portugal, falido, sem família real, passa a ser domínio espanhol (observe que o provérbio ´´Quanto mais alto o voo, maior a queda`` é confirmado na segunda estrofe).
Volta a cantiga alheia

Na fonte está Lianor
Lavando a talha e chorando,
Às amigas perguntando:
– Vistes lá o meu amor?

Voltas
Posto o pensamento nele,
Porque a tudo o Amor obriga,
Cantava, mas a cantiga
Eram suspiros por ele.
Nisto estava Lianor
O seu desejo enganando,
Às amigas perguntando:
– Vistes lá o meu amor?

O rosto sobre üa mão,
Os olhos no chão pregados,
Que, do chorar já cansados,
Algum descanso lhe dão.
Desta sorte Lianor
Suspende de quando em quando
Sua dor e, em si tornando,
Mais pesada sente a dor.

Não deita dos olhos água,
Que não quer que a dor se abrande
Amor, porque, em mágoa grande,
Seca as lágrimas a mágoa.
Depois que de seu amor
Soube, novas perguntando,
De improviso a vi chorando.
Olhai que extremos de dor!
Em Camões, a herança das cantigas trovadorescas aparecem principalmente nas redondilhas (versos de fácil memorização). O mar, a fonte, a natureza surgem constantemente em diálogos, lembrando as cantigas de amigo. Como se observa, o ambiente mencionado no texto é popular; é a mesma temática das cantigas de amigo( drama da mulher do povo que não recebe notícias do ´´amigo``), só que agora escrita em terceira pessoa, e não mais em primeira, ou seja, o poeta não mais escreve colocando-se no lugar da mulher, mas escreve sobre a mulher angustiada à espera de seu namorado(note a presença das amigas, que são confidentes do drama íntimo da mulher).
Ao saber notícias de seu amor, Lianor, finalmente chora. Um choro de alegria, deixando correr as lágrimas que estavam represadas no seu coração. Portanto, a ausência de lágrimas era dor, e as lágrimas, sinal de alegria. Observe também o modo de conduzir o retrato feminino, que difere de outra redondilha, de tema semelhante: ´´Menina dos olhos verdes, / Porque me não vedes?``
Mote
Descalça vai pela neve:
Assim faz quem Amor serve.

Voltas

Os privilégios que os reis
Não podem dar, pode Amor,
Que faz qualquer amador
Livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis,
Ferro, frio, fogo e neve,
Tudo sofre quem o serve.

Moça fermosa despreza
Todo o frio e toda a dor.
Olhai quanto pode Amor
Mais que a própria natureza:
Medo nem delicadeza
lhe impede que passe a neve.
Assi faz quem Amor serve.

Por mais trabalhos que leve,
A tudo se ofereceria;
Passa pela neve fria
Mais alva que a própria neve;
Com todo o frio se atreve...
Vede em que fogo ferve
O triste que o Amor serve.
Outro poema de Camões pertencente à fase medieval de sua lírica, o que se percebe pelos versos redondilhos (redondilha maior: versos de sete sílabas métricas) e pela presença de um mote sobre o qual o poeta escreve através de voltas, isto é, de retornos ao mote. Ambas as características medievais do poema, no entanto, são acrescidas de uma reflexão generalizadora sobre o Amor, o que é típico de Camões e inovador em relação à tradição medieval por constituir um procedimento renascentista.
Esta redondiha faz parte do ciclo da donzela que caminha ´´descalça`` para um determinado lugar (o espaço- temporal, agora, é o inverno). O amor da jovem é tão grande e abrasante, que lhe permite vencer qualquer obstáculo, até o de caminhar descalça pela neve fria. Observe as semelhanças e diferenças entre esta e as redondilhas ´´Descalça cai pera fonte`` e ´´Na fonte está Lianor``.
Vocabulário
Fremosa: formosa.
Chamalote: pano grosso.
Vasquinha de cote: saia de pregas de uso diário.
Isenção: esquivança, não ser obrigado às demonstrações de amor.
A molhos: em abundância.
Giolhos: forma arcaica de joelhos.

DROGAS: APENAS UM LANCE DE SÁBADO À NOITE?

Posted by Profº Monteiro on novembro 05, 2013
Estrutura Curricular
Modalidade / Nível de Ensino Componente Curricular Tema
Ensino Fundamental Final Ciências Naturais Ser humano e saúde
Dados da Aula
O que o aluno poderá aprender com esta aula
O aluno poderá descrever os danos físicos, psíquicos, sociais e morais que a droga provoca no ser humano.
Duração das atividades
02 aulas (50 minutos cada)
Conhecimentos prévios trabalhados pelo professor com o aluno
Anatomia e fisiologia do sistema nervoso.

Interferência de substâncias químicas na fisiologia do sistema nervoso.

Estratégias e recursos da aula
A temática é desenvolvida por meio da apresentação do filme Diário de um adolescente.


Ficha técnica:

Diário de um Adolescente (The Basketball Diaries)
Gênero: Drama
Ano de lançamento ( EUA ) : 1995 
Direção: Scott Kalvert 
Atores: Leonardo DiCaprio , Lorraine Bracco , James Madio , Patrick McGaw , Mark Wahlberg 
Duração: 01 h 41 min

Sinopse:
O filme é uma adaptação do livro de Jim Carrol (1950-2009) que conta sua adolescência problemática vivida em Nova York. Leonardo DiCaprio está no papel de Jim que é um promissor jogador de basquete, mas logo se afunda no submundo das drogas e, para manter o seu vício, ele rouba e se prostitui; até que um ex-viciado o ajuda a se recuperar e retomar sua vida.

Questões propostas:

1. Explique o que Jim quis dizer com a seguinte frase:
Primeiro é só um lance de sábado à noite. Você se sente o máximo, como um astro de rock. E só um lance para matar o tédio. Apenas um pequeno hábito. É tão bom que você começa a fazer na 3ª e na 5ª. E aí já era...Todo pivete diz que não acontecerá com ele.... mas acontece....

2. Quais foram as conseqüências do uso das drogas para a vida de Jim?

3. Há drogas que desgovernam o sistema nervoso central fazendo com que o usuário perceba as coisas em cores e formas distorcidas, diferentes da realidade. A maconha e o LSD são exemplos destas drogas que provocam ilusões e alucinações no usuário.
Descreva uma cena do filme na qual Jim tem alucinações provocadas pelo consumo destas drogas.

4.A síndrome de abstinência é um conjunto de sintomas que aparece quando a pessoa interrompe ou diminui o uso da droga. São reações do organismo à falta da droga porque ele já está acostumado a recebê-la regularmente. 
Há um momento do filme no qual Jim passa pela síndrome de abstinência. Descreva esta cena relatando as suas reações.

5. O álcool é uma droga estimulante que pode deixar a pessoa eufórica e agitada. Descreva um momento do filme em que se pode observar a ação da bebida alcoólica no organismo humano.

6. O usuário de drogas, em função da dependência, é capaz de fazer qualquer coisa para conseguir drogas para o seu consumo. Descreva uma cena do filme em que este comportamento é demonstrado.


7.Na sua opinião, qual ou quais foram os motivos que levaram Jim a fazer esta opção de vida?

Observações:


1. Sugestão de outro filme que aborda temática semelhante: Aos treze
2. Outros recursos que podem ser utilizados: 

Textos informativos

Palestras com psicólogos, psiquiatras, educadores que lidam com esta temática.

Avaliação
A partir da socialização das respostas às questões propostas e das discussões geradas por elas, o  professor poderá avaliar formativamente a aprendizagem de conceitos e de valores imprescindíveis para a formação holística do educando.




Charlie Brown, você não tem vez no amor

Posted by Profº Monteiro on novembro 05, 2013


Charlie Brown, você não tem vez no amor

Cartaz de "Charlie Brown"There's no time for love Charlie Brown (1973), Produtora: United Feature Syndicate, Inc. & Charles M. Schulz Creative Development Corp.

O filme apresenta comentários comuns de alunos enquanto resolvem as atividades propostas pelos professores em situações cotidianas na escola, como apresentação de trabalhos, provas, entregas de boletins, entre outros.







Sugestões temáticas

Escola
Trabalho escolar
Problemas matemáticos
Livros de leitura
Apresentação oral
Sistema métrico
Boletim escolar
Equação
Álgebra
Nova matemática
Prova