A Leitura Observada Gabriel Perissé

Posted by Profº Monteiro on setembro 11, 2011
Doutor em Educação pela FEUSP
Professor da Pós­Graduação do Programa de
Mestrado em Educação da Uninove
Site web : http://www.perisse.com.br
observo o paradoxo do outrossim
e do outronão discuto o anjo e o sexo?
(Haroldo de Campos)
Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra
(Chico Buarque de Hollanda)
A leitura, sempre e de novo
Sobre a leitura nunquam satis (nunca se fala demais), e, praticando­a, já dizia
Sêneca  com relação à  aprendizagem, nunquam  satis discitur,  nunca se aprende o
suficiente. Leitura é infinito aprendizado. Sempre e de novo aprendemos com a própria
leitura que ler é refletir,  apreciar, admirar­se,  sair do quase­conhecido para o melhor­
conhecido.
Leitura  no Brasil, então, é tema sobre o qual nunca se falará demasiado,  pois
ainda poucos são os  nossos  leitores  plenos  em comparação com o número de nossos
habitantes. Podem­se abrir bibliotecas (e muitas deveriam ainda ser abertas, ampliadas,
modernizadas), podem­se realizar campanhas  nacionais incentivando a leitura, podem­
se escrever livros e ensaios sobre o quão importante é ler, mas ninguém consegue (ainda
bem!) obrigar alguém a ler.  E  um número enorme de brasileiros, como muitos de nós
bem sabemos, lêem pouco e lêem mal. Segundo dados da Câmara Brasileira do Livro,
entre a população adulta alfabetizada apenas cerca de 30% realmente gosta de ler e lê
efetivamente.
1
1
A pesquisa “Retrato da leitura no Brasil” realizou­se entre dezembro de 2000 e janeiro de 2001. Os
slides estão disponíveis em:  http://www.crb7.org.br/cursoseventos/retratodaleituranobr.ppt  Acesso em:
14  mai. 2005.6
No início de mais  um texto sobre a leitura,  analisemos  dois  dados  dessa
pesquisa “Retrato da leitura no Brasil”, realizada e divulgada pela CBL. Embora sejam
apenas  números, passíveis  e até diria  carentes  de interpretação adequada e de
contextualização, constituem uma fonte de informação aproveitável.
Diz a pesquisa que 17 milhões de brasileiros declaram não gostar de ler. Sabem
ler, supõe­se, mas não gostam, não encontram prazer no contato com a cultura escrita,
ficam indiferentes  perante a possibilidade de lerem um romance,  um poema etc . Não
sabem saborear uma frase como, por exemplo, esta que tenho à mão — “Todo vivente
forma uma atmosfera em torno de si”.
2
Frase tão genial quanto simples, capaz de abrir
perspectivas de pensamento, de compreensão do mundo.
Quem lê entra em contato com a atmosfera  formada por aquele livro que tem
entre as  mãos. O  livro é,  de certa maneira,  um ser vivente ou, mais  precisamente,
seguindo a  terminologia de Alfonso  López Quintás, o livro torna­se um âmbito,
realidade não redutível a mero objeto.
3
Desta realidade ambital emana uma atmosfera, e
nela  penetrando respiramos novos  ares, alimentamos  nossos “pulmões cerebrais”  (que
não se restringem ao cérebro...)  de idéias, soluções  verbais, sentimentos, imagens. O
não­leitor corre o risco de asfixiar­se intelectual e espiritualmente por falta de contato
com o oxigênio da leitura.
Pensando mais  detidamente,  esses  17 milhões  de brasileiros  (cifra que
corresponde à população da Grande São Paulo, hoje, ou também à atual população do
estado de Minas  Gerais)  não sabem ler,  no sentido existencial da palavra.  Não
compreenderam, ou não tiveram a oportunidade real de aspirar os bons ares de uma boa
leitura,  e se encontram, no meu modo de entender,  numa situação de profunda
precariedade cultural e humana,  embora,  como já nos  alertava  McLuhan,  devamos
lembrar que a cultura  não se restringe ao livro,  manifestando­se nos  meios  de
comunicação em geral, em festas populares, literatura oral etc.
Por outro lado,  a  mesma  pesquisa,  considerando a  população alfabetizada
brasileira maior de 14 anos (86 milhões), revela que nosso consumo de livros per capita
é de 3,87 por habitante/ano.
4
Passamos a maior parte do dia evitando a leitura, ou dela
simplesmente  apartados. Ignoramos  a realidade do livro. Não vemos  os  livros  que
porventura estão ao nosso redor. Não nos embrenhamos diariamente nessas páginas das
quais emana a atmosfera da linguagem viva.
Um insuficiente contato com a “livrosfera”  pode levar uma pessoa a níveis
também insuficientes de autoconhecimento, de expressividade verbal, e de percepção do
que pensam e fazem as outras pessoas. Na livrosfera, é possível libertamo­nos da rotina
e da repetição.  Até o repetitório é dissolvido e transformado por um repertório de
chaves interpretativas, de caminhos  argumentativos, de conceitos  iluminadores. Não
falará  mal da  rotina quem souber desconstruir a  rotina com o olhar “treinado”  pela
leitura.
2
Johann W. GOETHE, Máximas e reflexões,  ponto  47.  No original: “Alles Lebendige bildet  eine
Atmosphäre um sich her.”
3
Todo âmbito é uma  realidade aberta,  relacional, colaboradora.  Para entender o conceito  de âmbito,
leia­se deste autor  o livro Inteligência criativa: descoberta pessoal de valores,  São Paulo: Paulinas,
2004. Outra possibilidade é o meu ensaio O  Objeto e o Âmbito no Pensamento de López Quintás ­
análise do poema­música de Sérgio Bittencourt, em: http://www.hottopos.com/convenit/lq3.htm Acesso
em: 25 ago. 2005.
4
Credite­se esta cifra,  que era menor há duas décadas,  ao recente crescimento  da população
universitária brasileira,  por conta da multiplicação de instituições particulares.  Mal ou bem,  muitos
jovens e adultos precisam hoje ler um pouco mais, por obrigação.7
A imaginação cresce como árvore frondosa  na livrosfera, gerando frutos
saborosos, e às vezes proibidos... O pensamento também frutifica dentro da livrosfera,
e multiplicam­se as  “sementidéias”. A intuição, atividade que supõe uma inteligência
atenta e livre,  floresce na livrosfera. A sensibilidade ética se desenvolve e amadurece
no interior da livrosfera. A memória ganha corpo e conteúdo.
Reflitamos um pouco sobre essas cinco camadas da livrosfera.
A imaginosfera
Pensemos  em Kafka e na sua obra­prima A  metamorfose. Como os  leitores
imaginam o inseto em que Gregor Samsa se transformou? A descrição do autor fornece
elementos  visuais, mas  nos  deixa o trabalho maior de compor a imagem terrível  e
degradante. É bastante significativo que Kafka tenha insistido para que as edições deste
livro nunca  tivessem ilustrações. Não queria  poupar ao leitor a tarefa de desenhar
mentalmente a imagem do “inseto monstruoso”.
A propósito, há uma  interessante questão lingüística/imagética  a destacar.
Leiamos o início do livro, quando deparamos com a metamoforse realizada:
Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos
intranqüilos, encontrou­se em sua cama
metamorfoseado num inseto monstruoso.  Estava
deitado sobre suas  costas  duras  como couraça e,  ao
levantar um pouco a cabeça,  viu seu ventre abaulado,
marrom,  dividido por nervuras  arqueadas, no topo do
qual a coberta,  prestes a deslizar de vez, ainda mal se
sustinha. Suas  numerosas  pernas, lastimavelmente
finas em comparação com o volume do resto do corpo,
tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.
5
Tomando literalmente a narrativa, Gregor transformou­se, da noite para o dia,
num inseto ou,  como já observaram alguns  estudiosos  da  obra de Kafka,  numa
monstruosa sevandija  (a tradução talvez mais aceitável para ungeheueren Ungeziefer,
no original).  O termo,  derivado do nome basco para lagartixa  (sugandilla), conforme
Antônio Houaiss e Aurélio Buarque de Holanda em seus  dicionários, possui uma
elasticidade semântica  que favorece,  e torna mais  complexa,  a tarefa  de imaginar o
protagonista do texto kafkiano.
“Sevandija”,  termo aplicado na zoologia a  todos  os  parasitos  e vermes
imundos, já foi utilizado conotativamente para  designar uma pessoa desprezível que
vive à custa  dos outros  e submete­se a todo o tipo de humilhação.  Em traduções  do
alemão para o inglês, Gregor metamorfoseado é descrito como um monstruoso
“vermin”,  o que pode ser entendido como sevandija ou parasito. O verbo “sevandijar­
se” significa rebaixar­se vergonhosamente, aviltar­se, envilecer­se. É disso que se trata
—  e temos  de entrar na imaginosfera do livro para configurar em nossa mente uma
imagem aviltante o suficiente para  expressar a degradação espiritual a  que chegou
Gregor.
Um coleóptero imundo também parece corresponder à descrição de Kafka. Um
besouro talvez?  Ou poderíamos  arriscar a  imagem de um piolho?  A tendência
5
Franz KAFKA, A metamorfose, p. 7.8
dominante,  porém,  tem sido associar o inseto monstruoso à barata,  que provoca nojo
imediato ao homem urbano.
6
7
Em 2004, a Editora Conrad publicou no Brasil a adaptação do conto kafkiano
para uma história em quadrinhos, a cargo do ilustrador Peter Kuper. O inseto lembra
uma barata, mas se assemelha ao besouro:
8
Mergulhamos  nas  imagens  produzidas  por outros  e por nós  (mesmo
contrariando a recomendação de Kafka...) e nelas nossa função cognitiva ganha novos
horizontes, encarna­se diante de nós. A imaginação tem o poder; é condição necessária
para o conhecimento caminhar no meio da selva de palavras  e conceitos. E  nesse
caminho estabelecer novos encontros com o real. A propósito, Bachelard demonstra em
sua filosofia da imaginação que a razão imaginadora,  abolindo o falso  dilema entre
conhecimento experimental e saber especulativo, torna a ação de imaginar um avanço:
“imaginar é [...] elevar de um tom o real”.
9
Para as mentalidades menos imaginativas,
essa relação entre razão e imaginação parece inimaginável. No entanto,  basta  tentar
imaginar um mundo sem imaginação...  para sentir o quanto a  imaginação é parte
integrante da nossa atividade intelectual!
A imaginação, suave e fortemente,  orienta  a nossa reflexão e é pela reflexão
solicitada. A imaginação participa da criação de novos  sentidos  para antigos
significados e em certa medida constitui uma das melhores provocações para a razão. A
6
Mário da Silva Brito, no aforismo 89 do seu livro Conversa vai, conversa vem, confirma a imagem  em
clave humorística: “— Cuidado! Não pise nessa barata: pode ser o Gregor Samsa!”
7
Esta capa pertence a uma  edição holandesa do livro,  do final  da década de 1980,  mais exatamente
1988. Ver:  http://www.kb.nl/coop/metamorfoze/publicaties/meta_nieuws_7/kafka.jpg Acesso em: 15
mai. 2005.
8
O ilustrador tem um site: http://peterkuper.com/ Acesso em: 19 mai. 2005. Uma apresentação do livro
encontra­se em http://www.randomhouse.com/crown/metamorphosis/ Acesso em: 29 mai. 2005.
9
Gaston BACHELARD, O ar e os sonhos, p. 82. No original: “imaginer c'est donc hausser le réel d'un
ton.”9
imaginação atua em nossa compreensão do mundo.  Uma imagem sintetiza  quase que
espontaneamente um fluxo de idéias, e nos  dá condições  de tomar fôlego e prosseguir
nesse fluxo. A abstração requer imagens, e graças a essas imagens podemos continuar a
abstrair. As imagens constroem pontes entre realidade e arrazoado, entre idéias e idéias,
entre percepções  e palavras, entre palavras  e realidades. A própria imagem das
“pontes”  que acabo de empregar torna  mais  visível e compreensível  o que estou
querendo dizer. Imaginação que nada tem a ver com alucinações, mas desvela os
contornos, as  cores, os  alcances  do saber que sabe a realidade —  dá­lhe,  ao saber,
presença quase tangível.
Cioran escreve:
Como se pode ser filósofo? Como se pode ter a ousadia
de abordar o tempo, a beleza, Deus e todo o resto? O
espírito fica  inchado e saltita sem vergonha.
Metafísica, poesia — impertinências de piolho...
10
O  leitor não pode deixar de imaginar o espírito “inchado”, mesmo que tal
imagem seja impossível, pois  espíritos  não incham como os  corpos. Como poderá o
espírito inchar­se, e inchado saltitar, e saltitar sem vergonha? Saltitar como um piolho?
Ficamos com uma pulga atrás da orelha...
O  espírito se faz  imagem e a imagem torna o espírito inchado mais
compreensível  para o nosso próprio espírito. Sua falta de vergonha  nos  envergonha.
Como ousa o piolho querer alcançar os cabelos luminosos da lua?
E o pensador ri  de si mesmo, e dos  outros  pensadores, e dos  próprios  poetas,
geradores de imagens! Ri do leitor, e o leitor deverá aprender a rir de si mesmo. O leitor
olha  para o piolho em que o poeta  se transformou,  em que o metafísico se
metamorfoseou. O  silogismo é amargo,  a imagem é agressiva,  o texto é contraditório
em sua ironia, e contundente em sua impertinência.
E daí o prazer da leitura ativa, imaginativa. As imagens mentais  são mentiras
que revelam verdades.
11
Lendo,  treinamos  nossa imaginação.  A imaginação é
espontânea,  mas  também pode estar sujeita à nossa  vontade.  Quero imaginar,  e
imagino. Imaginando, expresso­me,  impressiono­me. As  imagens  iluminam o
pensamento. Ou, como Sartre definiu, “a imagem [...] é também pensamento”.
12
10
E. M. CIORAN, Silogismos da amargura, p. 25.
11
Origem etimológica de mentir: mens, palavra latina que significa “inteligência, espírito, alma, razão,
sabedoria, juízo, discernimento, imaginação”. Mentir, portanto, era, sem maniqueísmos, no começo dos
começos, o ato  de usar a mente,  de realizar uma operação intelectual, de exercitar a razão,  de pôr a
imaginação para funcionar.  Justamente (ou injustamente) por causa da imaginação, mentir tornou­se
sinônimo de inventar algo com  o intuito de esconder verdades,  distorcer fatos,  enganar os outros.
Curioso processo em  que um  conceito do bem  se tornou um  verbo do mal... Contudo,  a mente,  em
particular a mente do artista, continua a mentir na clave da verdade e da beleza. Os maiores mentirosos
do mundo, como Shakespeare, como Van Gogh, como Kafka, como Beethoven, criaram mundos irreais
que são mais fiéis à realidade do que a nossa própria noção de realidade. Os seus personagens, as suas
imagens,  os seus sons,  fruto de riquíssima vida mental, revelam  verdades que desmascaram as
verdadeiras mentiras! Como discernir,  em nossa mente,  o que é mentira mentirosa daquilo  que é
mentação transformadora? Como distinguir o alimento  podre do que será sustento para a humanidade?
(Estas reflexões foram  extraídas de um artigo, “Mentir, mentar, mentor”, que publiquei no Correio da
Cidadania, ed.  376, semana de 13/12 a 20/12/2003. Ver em:
http://www.correiocidadania.com.br/ed376/cultura.htm Acesso em: 20 out. 2005.)
12
Jean­Paul SARTRE, A imaginação, p. 85.10
Multiplicam­se as sementidéias
A leitura nos introduz  na esfera do pensamento. Concebemos idéias  enquanto
estamos  lendo ou quando já  fechamos  o livro e abrimos a porta  da rua para  sair em
busca  de outros  ares. O livro pode fechar­se, mas  a mente continua aberta. As idéias
vêm. As idéias se multiplicam. O que é uma idéia?
Ter uma idéia  nos  torna  conscientes  de nosso conhecimento.  Descobrimos,
como dizia Spinoza, que nosso espírito é uma “coisa pensante”. E as idéias, além de nos
fazer conhecer que conhecemos, possuem a capacidade de fecundar a ação,  de
impulsionar as  vontades, de fazer toda a  pessoa vibrar. As idéias  de Rousseau foram
decisivas  para a Revolução Francesa,  em 1789. Fidel Castro,  num discurso
pronunciado em 2001, repetiu o que todos  os líderes  sabem:  “Las  ideas  son y  serán
siempre  el arma más  importante”.
13
Em 1963, em momento agitado da política
brasileira,  Carlos  Lacerda publicou um livro que fez furor: O  poder  das  idéias.
Whitehead,  em seu livro Aventuras  das  idéias,  de 1933,  mostra que a  frase famosa
“cogito,  ergo sum”  deveria ser traduzida  com mais  amplitude —  penso, logo eu me
emociono, fico feliz,  tenho medo,  cultivo esperanças, tomo decisões  etc. Ortega y
Gasset  e muitíssimos  outros  pensadores  destacaram que as  idéias  arrebatam os
corações... e muitos  idealistas  e ideólogos  perderam a  cabeça (no melhor sentido da
expressão, se é que existe) em nome de suas convicções! Na política ou na vida pessoal,
e não só no mundo acadêmico, as idéias demonstram sua fecundidade.
Por isso chamá­las de sementidéias. Da idéia fixa e empedernida dos fanáticos
que geram as  flores  do mal... às  idéias  geniais  que configuram novas realidades; das
idéias  pálidas  de uma vida anêmica às idéias generosas  de uma vida heróica, o fato é
que essa  esfera do pensamento encontra, na leitura,  “combustível”  suficiente para  se
expandir.
As idéias são fecundas porque suscitam desenvolvimentos e realizações (mesmo
que sejam realizações  que desrealizam!). Quando alguém diz que “não faz a menor
idéia”, ou que “teve uma brilhante idéia”, refere­se à impossibilidade ou à possibilidade
de conceber projetos, de estabelecer relações, de esclarecer para si mesmo aspectos  e
facetas da vida.
Lendo, “caem” sementidéias sobre o terreno mais ou menos receptivo da minha
mente. E  começo a mentar.  Mentar é elaborar,  “bolar”,  inventar.  Leio,  releio A
metamorfose de Kafka. Cai uma sementidéia na minha mente. A de que um ser humano
pode chegar a terríveis  níveis  de degradação psicológica  e espiritual por ter sido
encarado como meio de subsistência e não como pessoa pelos  familiares  que tanto
amava. Esta idéia não é nada agradável, à primeira vista, mas traz em si um “toque”,
para usarmos  um carioquismo relativo às  noções  de “alerta”,  “aviso”,  “sugestão” e
“conselho”. “Toque” é talvez mais expressivo porque a palavra, na sua informalidade,
evoca diferentes matizes. Tem a ver com alusões, com insinuações mais ou menos sutis.
Tem a ver com a mão que toca  o ombro de alguém,  para chamar­lhe a atenção
amigavelmente, “dar uma idéia”.
O “toque” de Kafka permite­me olhar para mim mesmo e ver se estou atuando
como mero provedor da família,  ou,  ao contrário,  como alguém que pode e deve
suscitar nos demais membros da casa o desejo de participarem dos esforços na luta pela
sobrevivência.  Os  pais e a irmã de Gregor Samsa,  tão logo o filho “adoeceu”,
13
Discurso “Las ideas son y serán siempre el arma más importante”, pronunciado em Cuba, no dia 2
de dezembro de 2001 (http://www.fut.es/~mpgp/amigos953.htm Acesso em: 20 out. 2005).11
começaram a dar mostras de uma capacidade, até então oculta, para o trabalho e para a
criatividade.
Observo a leitura e a leitura me observa. O texto lê o leitor. Kafka toca a minha
mente,  deposita nela uma ou várias  idéias. Semeia. Insinua  que Gregor Samsa foi
inocente,  por um lado, mas também conivente com o comodismo dos  familiares! Esta
idéia lança raízes em mim.
Leio o livro A  revolução dos  bichos,  de George Orwell. E uma outra idéia  se
insinua... verdade nua? A idéia é a seguinte: o poder é estimulante. Os animais de uma
granja se unem para expulsar o desumano homem tirano. Algum tempo depois, alguns
animais  que se consideram mais animais (ou menos...) do que os demais... assumem o
poder e acabam por trair os ideais que antes haviam abraçado.
Em novembro de 2005, contemplando nos jornais  e tv os  presidentes  Lula e
Bush  lado a lado,  sorridentes, como velhos  amigos, veio­me à memória de modo
espontâneo o desfecho deste livro. Lá estão porcos e homens comemorando uma nova
era.  A Granja do Solar,  que depois  da  revolução passou a chamar­se Granja  dos
Bichos, volta a chamar­se Granja do Solar. A elite dos animais e os humanos fazem um
brinde, comemoram o bom relacionamento.  Do lado de fora,  outros  animais, menos
animais  do que os  de dentro...  não conseguem entender o que está acontecendo.  No
entanto, em dado momento, fez­se a luz:
Não havia dúvida,  agora,  quanto ao que sucedera à
fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de
um porco para  um homem, de um homem para um
porco e de um porco para um homem outra vez; mas já
era impossível distinguir quem era  homem, quem era
porco.
14
A idéia que estava  adormecida em mim desde muito tempo (tive contato com
este livro de Orwell pela primeira  vez aos  14 anos de idade) desperta o meu senso
crítico. Já era impossível distinguir presidente de presidente. Estavam irmanados. Olhei
para um e para outro,  e para o outro e para um outra vez... Talvez tenham discutido
pesadamente nos bastidores. Talvez tenhamos sido poupados das desavenças graças aos
protocolos neutralizantes da diplomacia...
Contudo,  parece que tudo foi marcado pela sinceridade e pela harmonia. Bush
partiu feliz  de sua visita ao parceiro, ao quase aliado latino­americano: “Podemos ter
sentidos políticos diferentes, mas compartilhamos os mesmos objetivos”. Que objetivos?
O  presidente Lula,  por sua  vez,  revelou em entrevista que tudo transcorreu em paz:
“Foi um diálogo muito franco. Não houve nenhum momento de tensão na conversa”.
Na Folha de  S. Paulo,  em 12 de agosto de 2002,  Lula,  ainda presidenciável,
participando do ciclo “Candidatos  na Folha”, afirmara, de maneira truncada mas com
franqueza:  “Eu acho que os  Estados  Unidos  são um país, eu,  por exemplo,  acho que
cada vez  vai ficando mais  provado que Bush  precisa procurar uma outra coisa  para
fazer ao invés de querer ficar fazendo guerra.”
15
Mesmos objetivos? Nenhuma tensão?
Ainda naquela ocasião, quando lhe perguntaram diretamente o que pensava da
grande prepotência,  a resposta foi  potente: “Eu  acho que os  Estados  Unidos  são um
país  que gosta muito de democracia na casa dos  outros, gosta de exigir que os  outros
14
George ORWELL, A revolução dos bichos, p. 117.
15
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u35804.shtml Acesso em: 20 out. 2005.12
façam, mas não cumpre.”
16
Objetivos iguais, ou convergentes? Tudo tranqüilo, nenhum
atrito?
Compreendo que os líderes políticos, em visitas oficiais, devam guardar muitas
de suas idéias  no bolso do paletó impecável,  devam sorrir para as câmeras, caprichar
nos  gestos  bem­educados, apertar as  mãos  um do outro com aquela efusividade
incontida durante tempo suficiente para que todos os  fotógrafos  possam registrar a
cena.  Compreendo,  mas  não consigo engolir a pergunta ingênua:  será tudo tão
harmonioso assim,  tão amigável?  Ou será que o campo das  idéias  não é digno lugar
para o campo das batalhas políticas?
George W. Bush tem suas idéias, que se traduzem em atos e fatos: violência e
atrocidade em larga escala. Certo, seria demasiado esperar que Lula, como uma espécie
de Noam Chomsky, cobrasse bom comportamento do todo­poderoso...
Uma idéia puxa outra...  o poder aproxima entre si os  poderosos. Que
“objetivos” são estes a que Bush se referia? Não me parece, por exemplo, que Lula, três
anos  depois daquelas  suas  declarações  contra o mesmo belicoso  Bush,  compartilhe
agora com o presidente norte­americano o ideário “democrático”  por este defendido
com unhas  e dentes, com armas  e mentiras. Objetivos...  Parece­me que Bush revelou
nas  entrelinhas  o que os iguala.  Não são objetivos  objetivos. São bem subjetivos. Os
que decorrem do ideal do poder e do domínio.  Por isso não haverá tensão entre dois
poderosos,  enquanto um não tente “roubar”  o território do outro.  Ou enquanto seus
acordos, mesmo desvantajosos para um dos lados, preserve para o líder dos dominados
algum posto de honra,  um resto de poder, limitado mas  real.  Concessão dos
dominadores para apaziguar os ânimos do chefe dos dominados...
E  a sementidéia de Orwell soma­se  a uma outra.  Leio em Chomsky —  “a
linguagem humana pode ser usada para informar ou desorientar,  para clarificar os
pensamentos  de uma pessoa,  ou para exibir sua habilidade,  ou simplesmente por
brincadeira”.
17
A linguagem que esconde o que diz. Que, ao dizer, esconde o que diz no
próprio ato de parecer revelar.
Intuição e leitura
Lembro­me de ter assistido a uma palestra ministrada pelo Prof. Ruy Nunes, da
Faculdade de Educação da USP,  em meados  da década de 1980.  O tema era a “vida
racional”  ou algo do gênero.  Fiz­lhe uma pergunta.  Queria  saber como se define
“intuição”. O professor despachou­me com uma resposta racionalista, desqualificando,
por tabela, o filósofo Henri Bergson, que via na intuição um método, e que não estava
presente para defender­se... Naquele momento,  intuí que a  intuição não teria  muitas
chances no mundo do pensamento, a menos que o pensamento acolhesse em sua própria
dinâmica a “pobre” intuição.
Intuir é conhecer de modo imediato o que, para  quem intui,  torna­se algo
evidente,  sem necessidade de provas  ou demonstrações. Evidentemente,  nem tudo é
evidente para todos! A intuição revela,  faz  ver (intueri,  do latim, é ver em
profundidade, descobrir) o óbvio, o que “está na cara”. No entanto, nem sempre vemos
o que está à nossa frente, nem mesmo com os olhos abertos.
16
Ibidem.
17
Noam CHOMSKY, p. 92.13
Quem gosta e pratica o xadrez,  sabe que a intuição pertence aos movimentos
internos no tabuleiro de um jogo tido como “racional”. Muitos lances geniais nascem de
uma visão imediata do jogador. Determinada disposição das peças lhe diz uma coisa, e
ele não hesita.  É  sua  mão que pensa, obedecendo ao impulso  da intuição.  O  Grande
Mestre letão Mikhail Tal (chamado por todos o “Mago de Riga”) não se preocupava em
calcular e prever todas  as  variantes  de uma jogada.  Sua magia consistia em ver com
rapidez.  Seus  acertos  eram brilhantes, inesperados. E  seus  erros, fatais! A intuição é
puro risco.  A visão instantânea salta o tempo do raciocínio passo a passo. Em
compensação,  uma intuição equivocada pode conduzir ao precipício. Não à toa o
precipitado por vezes come cru. Mas também é aquele que, antes de todos, petisca!
Vinte anos  depois  daquela  palestra  do Prof.  Ruy Nunes, outro professor da
USP  (da  Faculdade de Letras)  deu­me a resposta,  sem que eu precisasse repetir a
pergunta. Numa entrevista, Mario Bruno Sproviero refere­se à intuição como atividade
que incide diretamente sobre o real,  a montante do raciocínio (isto é,  na direção da
nascente da  própria  razão...), passando por cima dos  exaustivos  emaranhados
conceituais  que o aparelho especulativo pode e quer gerar.  E a  frase lapidar do Prof.
Sproviero: “especular sem intuição é o equivalente a operar sem energia”.
18
Na mesma altura, folheando a Bíblia de Millôr Fernandes, dei com a definição
redonda: “A intuição é uma disciplina que não foi à escola.”
19
Ou seja, a intuição é uma
força heterodoxa mas não enlouquecida.
Por outra parte, como sabemos por experiência, o salto espetacular (e mortal?)
da intuição requer, posteriormente, a mesma  especulação por ela ignorada. Intuir sem,
num segundo momento, raciocinar, sem procurar as palavras (sempre insuficientes para
o intuitivo) que traduzam o intuído,  pode levar à presunção igualmente desgastante. A
energia fulgurante da intuição pode perder­se num suceder de golpes, uns  certeiros,
outros  catastróficos. Como dizia Poincaré,  o renomado matemático francês, convém
provar mediante a lógica o que descobrimos a partir da intuição.
20
A leitura atenta propicia  a intuição.  Entre uma página e outra,  faz­se a  luz.
Estou lendo e, num golpe de vista, compreendo o incompreensível. É difícil descrever o
conteúdo da inspiração e o seu processo.  Inspiração é inspiração, acontece. Momento
de lucidez é momento de lucidez. Uma lucidez que vem do nada... embora nada venha
do nada...
As  intuições  de Clarice Lispector provocam intuições  em seus  leitores. Ela
mesma tinha dificuldades  para se considerar escritora,  supondo­se que escrever seja
fruto de um trabalho intelectual sistemático, vinculado à apreciação “objetiva”, segundo
classificações literárias por todos aceitas. Valorizava Clarice a sua experiência vivida e
instantânea, e julgava a palavra “literatura” detestável, na medida em que representasse
algo de institucional, convencional, contrário à introspecção obsessiva, aos movimentos
de efervescência anímica.
Clarice definia­se como “sentidora”,  como uma  intuitiva.  Sua lei interior
prevalece sobre as  leis  exteriores. Clarice busca  esclarecimentos  a partir de uma
18
Jean LAUAND. Entrevista a Mario  Bruno Sproviero ­ Entropia: “Progresso” para a Destruição!.
Videtur­Letras,  São Paulo­Murcia,  n. 2,  p.  62,  set. 2001. A  entrevista pode ser lida também em:
http://www.hottopos.com/vdletras2/mario.htm Acesso em: 10 nov. 2005.
19
Millôr FERNANDES, A bíblia do caos, p. 313.
20
A intuição colabora com a ciência como no exemplo da descoberta da estrutura espacial do DNA, em
1953.  Entre as muitas estruturas possíveis, que demandariam  do norte­americano James Watson e do
britânico Francis Crick pesquisas demoradas, os dois decidiram começar, guiados por uma intuição, pela
indiscutivelmente mais bonita e elegante, que era a verdadeira como se constatou.14
pesquisa  intensa do seu próprio sentir. Sua  verdade é index  sui,  autodemonstra­se no
próprio escrever.  O  singular prevalece, a individualidade. Os  “estudos  de alma”  são
feitos com toda a alma! Por isso, um romance policial (segundo a lei exterior) como A
maçã no escuro transforma­se numa viagem interior dos  personagens. Por isso, um
romance de amor (segundo padrões de gêneros literários) como Uma aprendizagem ou
o livro dos prazeres torna­se uma sondagem da alma feminina. Por isso uma novela de
denúncia social como A hora da estrela (e em certa medida, a princípio e em princípio,
A paixão segundo GH) torna­se a aventura espiritual de uma nordestina em estado de
graça, no primeiro caso, e o encontro de uma mulher com a essência do real e consigo
mesma. E sempre se trata de uma introspecção que a própria autora empreende para se
conhecer intuitivamente com e nesses personagens: Martim, Lóri, Macabéa, GH...
É  forçoso mencionar, a propósito, que o verbo latino intueor (de onde provém
“intuir”) é depoente,  o que implica,  do ponto de vista  gramatical,  sugestivas
conseqüências —  a ação descrita no verbo é uma ação que, exercida pelo sujeito, nele
mesmo repercute. O verbo loquor, “eu falo”, por exemplo, é sempre um falar­se, pois o
sujeito toma plena consciência de seus  pensamentos  ao comunicar­se com os  outros.
Outro verbo depoente, experior, “eu experimento”,  indica que ao fazer minhas
experiências  eu mesmo me torno expertus,  um perito. Confiteor,  “eu me confesso”,
demonstra que, confessando ao outro o que fiz, confesso­me realmente a mim mesmo.
Meditor, isto é, “eu medito”, torna­se ao mesmo tempo um “sou meditado”, porquanto
eu “me dito”, dito para mim mesmo o que estou pensando a respeito de algo ou alguém
que não sou eu.  Uma  pessoa que medita torna­se meditativa e passa a meditar em si
mesma no mesmo ato em que contempla o exterior.
“Intuir” está incluído neste grupo das ações­bumerangue. Ao intuir algo fora de
mim,  dentro de mim amplia­se a percepção não­raciocinante sobre o meu próprio
mistério, aproximo­me do que acontece “atrás do meu pensamento”, como se expressa
Clarice em vários pontos de sua obra:
Verifico que estou escrevendo como se estivesse entre o
sono e a vigília. Eis  que de repente vejo que há muito
não estou entendendo. O  gume de minha faca  está
ficando cego?  Parece­me que o mais  provável é que
não entendo por que o que vejo agora é difícil:  estou
entrando sorrateiramente em contato com uma
realidade nova  para mim que ainda não tem
pensamentos  correspondentes  e muito menos  ainda
alguma palavra que a signifique: é uma sensação atrás
do pensamento.
21
Clarice não teme as  experiências inobjetivas  e um tanto obscuras. A luz  da
intuição a guiará em meio ao intangível. Ela acredita em sua inclinação para adivinhar.
Esta sua crença não está, paradoxalmente, isenta de incertezas, perplexidades, angústia,
mas ela continua em busca... em busca. E quando encontra,  seja o que for aquilo que
encontra...
O mundo independia de mim — esta era a confiança a
que eu tinha chegado: o mundo independia de mim,  e
não estou entendendo o que estou dizendo, nunca!
nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como
21
Clarice LISPECTOR, Água viva, p. 55.15
poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim?
como poderia eu dizer senão timidamente assim: a vida
se me é.
22
O livro A paixão segundo GH é, na verdade, o relato posterior de uma vivência
mística intensa.
23
A personagem GH viu com o olho intuitivo. O que viu? O certo é que
viu, mesmo que não saibamos ao certo o que viu. Estamos ao seu lado, dentro do quarto
da empregada.  A empregada chamava­se Janair. GH,  a patroa,  não sabemos  quem é
exatamente. GH pode ser Gilda Helena, Gabriela Holanda, Gumercinda Hermes, mas a
narradora não quis revelar­se. Janair é uma “macabéia” negra, que trabalha em casa de
família, que se veste sempre de preto e marrom escuro, metamorfoseando­se num ser
praticamente invisível.  “Janair”  é um nome raro,  que pode ser usado por homens  ou
mulheres. É  neutro.  É  universal. E há  nele algo de hindu...  mas  também algo
relacionado com o deus Jano,  de duas faces contrapostas, e daí a palavra “janela”, em
que o “sair” e o “entrar” dependem do lado onde você esteja.
O  que GH  entrou no quarto e deparou com o outro lado de Janair, e com o
avesso da vida. GH viu. Viu o quê? Viu primeiramente que o quarto da ex­empregada
era uma “caverna”. E viu a barata, “a cara da barata”.
24
Mas isto foi só o começo:
Olhando­a,  eu via  a vastidão do deserto da Líbia, nas
proximidades de Elshele. A barata que lá me precedera
de milênios, e também precedera aos  dinossauros.
Diante da barata,  eu já era capaz  de ver ao longe
Damasco, a cidade mais  velha da terra. No deserto da
Líbia, baratas e crocodilos?
25
Transportada no tempo e no espaço,  ultrapassando os  limites  estreitos do
quartinho da empregada Janair (em quem GH  vislumbra uma rainha africana...),  a
personagem intuitiva prossegue sua viagem. Vende sua alma a Deus (negociação muito
mais arriscada do que vendê­la ao demônio). E Deus deixará que ela veja:
Pois  Ele sabia que eu não saberia ver o que visse: a
explicação de um enigma é a  repetição do enigma.  O
que És e a resposta é: És. O que existe? E a resposta é:
o que existe.  Eu tinha a  capacidade da pergunta, mas
não a de ouvir a resposta.
26
Lendo autores, uns  mais  intuitivos, como Clarice,  outros  menos, posso
adivinhar nas  entrelinhas  perguntas iluminadoras, perguntas  tão fundamentais  que as
respostas se tornam dispensáveis. Ou ainda: posso adivinhar nas mesmas entrelinhas a
resposta para a qual terei de fazer mil perguntas a esmo, na esperança de que uma pelo
menos corresponda à resposta encontrada.
Intuindo perguntas  irrespondíveis  ou respostas  imperguntáveis, pressinto e
sinto,  não imagino,  não penso,  não faço a menor idéia do que estou vendo na clara
22
IDEM, A paixão segundo GH, p. 175.
23
É imprescindível citar o trabalho de Benedito Nunes, leitor privilegiado de Clarice  Lispector.  O
ensaio que escreveu sobre este romance — “A experiência mística de G.H.” — encontra­se em O dorso
do tigre. São Paulo: Perspectiva, 1969, pp. 103­112.
24
Clarice LISPECTOR, A paixão segundo GH, p. 51.
25
Ibidem, p. 109.
26
Ibidem, p. 129.16
evidência da clarividência.  E, no entanto,  estou vendo para além das  idéias  e da
imaginação. Pois intuir é ver o invisível.
Outro intuitivo, o poeta Manoel  de Barros, coleciona  lampejos  dessa ordem.
Num poema chamado “Seis  ou treze coisas que eu aprendi sozinho”
27
,  enumera
descobertas:
[...]
Insetos levam mais de cem anos para uma folha
sê­los.
[...]
Mariposas  que pousam em osso  de porco
preferem melhor as cores tortas.
[...]
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos  braços  da formiga o
horizonte diminui.
[...]
Besouro só entra em amavios se encontra fêmea
dele vagando por escórias...
São descobertas  absolutamente inesperadas. Metafísica  pantaneira. Mística
fazendeira. O poeta ficou horas contemplando a natureza e flagrou esses movimentos,
consciente de seu teor:
Todas  estas  informações  têm soberba  desimportância
científica — como andar de costas.
E  o leitor que intui  começa a  andar de costas, a  ler de frente para  trás,
contrariando uma determinada racionalidade. Seu caminhar “contrário”  contraria a
rigidez do conhecimento reducionista,  os  lugares­comuns, a escravidão da rotina, a
estupidez das verdades mortas. Andando de costas vai esbarrar no que não viu, no que
ninguém poderia ver. A intuição abre acessos novos e diretos a níveis da realidade que
pareciam inexistir (afinal, estávamos de costas para eles!).
Ao caminharmos  de forma  não­costumeira,  subitamente podemos sentir o
sentido da vida.  Não só o meu sentido da vida, ou o sentido da vida do autor, mas  o
sentido da vida  do próprio ser humano. Começamos  a  tocar aquilo que ainda  não
alcançamos, porque estávamos  nos  distanciando dele,  na ilusão de que seguíamos  na
direção correta,  no caminhar sempre em frente,  considerado o único verdadeiro
caminhar progressivo.
Leitura ética
Caminhar de costas muito tem a ver com ir ao princípio e aos princípios. Neste
caminhar, podemos encontrar uma aparentemente improvável relação entre criatividade
e ética.
Domenico de Masi (por muitos  na  vida  acadêmica desprezado,  a meu ver
injustamente) apresenta oito noções de criatividade:
28
Criatividade no sentido teológico da criação ex nihilo.
27
Manoel de BARROS, O guardador de águas, pp. 37­53.
28
Cf. Domenico DE MASI, Criatividade e grupos criativos, pp. 464­465.17
Criatividade ligada à idéia de inovação e de antecipação do futuro.
Criatividade como rebeldia, iconoclastia e, até certo ponto, loucura.
Criatividade prometeica, em que a mente humana rouba o fogo divino e
faz descobertas geniais.
Criatividade como talento para vencer na vida, desempenhar­se bem na
carreira profissional etc.
Criatividade no sentido mítico,  ligada à  idéia de a  vida  se renovar
cíclica e incessantemente.
Criatividade remetendo ao interesse estético,  à imaginação,  à
extravagância, algo à la Oscar Wilde.
Criatividade como manifestação e resultado do amor —  sentimento,
iniciativa, inspiração!
A noção que quero acrescentar, pensando na dimensão ética da leitura, é a que
relaciona criatividade e compromisso. Cada ser humano, pelo fato de estar vivo, recebe
em sua consciência um convite silencioso: para realizar­se como ser humano em todas
as suas dimensões (homo somaticus, homo sapiens, homo volens, homo loquens, homo
faber, homo aestheticus, homo politicus, homo socialis...) precisa pôr em jogo suas
capacidades, criando com outras  pessoas  espaços  de convivência humanizadora.  Há,
portanto, um chamado ao engajamento para que, individual e coletivamente, projetemos
e realizemos  nossas  aspirações  mais  profundas, tudo o que as palavras  “felicidade”,
“amor”,  “verdade”,  “gratidão”,  “generosidade”,  “perdão”,  “virtudes”, “paz”,  entre
outras, suscitam em nós para além dos discursos superficiais ou hipócritas.
Recentemente,  abordou­me um mendigo em pleno centro da cidade de São
Paulo.  Hora do almoço.  O  homem com roupas  velhas  e sujas  (se é que ainda
poderíamos  chamar de roupas  aqueles  andrajos)  pede­me uma ajuda  para almoçar.
Enquanto abro minha carteira, ele faz a observação inesperada:
— Hoje é o dia mais importante da minha vida.
Não ouvi  direito,  peço para que repita  o que acabara  de dizer. Ele repete, e
acrescenta:
—  Porque hoje é o meu aniversário.
Dou­lhe a ajuda, e lhe desejo um “feliz  aniversário”.  Ouço sua  resposta,
pausada e firme:
— Muito obrigado, muito obrigado, muito obrigado.
Deveria eu agradecer­lhe três  vezes  mais. Fui eu o presenteado.  Lendo suas
palavras soltas no ar, o tríplice agradecimento estampado agora em minha consciência,
vejo que uma sementidéia foi lançada. Ele estava comemorando (e compartilhando com
alguém que lhe era estranho...)  o que há de mais  importante na vida de cada ser
humano, seja quais forem as suas circunstâncias: o fato de ter nascido. Portanto, já não
éramos dois estranhos. Tínhamos criado naquele momento, naquele espaço conturbado
da cidade anônima,  uma relação humana,  passageira mas  extremamente significativa,
com alto valor simbólico, com forte conteúdo ético.
Anniversarius,  aquilo que volta (versum) a cada ano (annus).  A cada ano
retorna à nossa consciência (pelo menos na data do nosso aniversário) a constatação de
que estamos vivos, e que esta vida não é uma vida qualquer; por isso acrescentamos em
nossas  congratulações  espontâneas, talvez  sem pensar,  a palavra  “feliz”  —  “feliz18
aniversário”.  Feliz retorno nosso à consciência de que estamos  vivos, não obstante as
infelicidades  da vida.  Vivos  como seres  humanos, autoconscientes  de nosso fenômeno
humano, desta realidade humano­vivente carregada de possibilidades.
A palavra “felicidade”, problematizada, aquele “impossível necessário” de que
fala Julián Marías em seu A felicidade humana, não é uma palavra qualquer (e existe
uma palavra qualquer para o leitor criativo?).
29
Trata­se de criar e recriar as condições
de minha própria existência em consonância com a existência dos que me rodeiam, em
busca  de um ideal de unidade,  de harmonia.  Dificílima tarefa,  tarefa ética  por
excelência.  Que requer minha fidelidade criativa a valores  que me solicitam:
solidariedade, tolerância, justiça etc.
O conto Felicidade clandestina de Clarice Lispector faz experimentar a relação
entre felicidade, leitura e ética. Uma das meninas da história (estamos em Recife) é filha
do dono da livraria. E é uma menina vingativa, cruel e sádica. A narradora, a menina
Clarice,  devoradora de histórias, torna­se vítima desta  crueldade quando a outra  lhe
promete emprestar As reinações de Narizinho — “um livro grosso, meu Deus, [...] um
livro para se ficar vivendo com ele, comendo­o,  dormindo­o” —,
30
promete, mas  vai
adiando com desculpas mentirosas o empréstimo ansiosamente desejado:
Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer.
Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de
tarde,  mas  você só  veio de manhã,  de modo que o
emprestei  a outra  menina.  E eu,  que não era dada a
olheiras, sentia as olheiras  se cavando sob os  meus
olhos espantados.
31
A protagonista não consegue acreditar em tamanha crueldade. Até que um dia a
mãe da  menina  cruel  quis  entender o que estava acontecendo,  que ritual diário era
aquele. E essa “mãe boa” descobriu, horrorizada, a perversidade da filha. O livro nunca
fora  emprestado.  Nem sequer tinha  sido lido pela proprietária.  Por decisão da mãe o
livro agora ficaria com aquela que o conquistou pela humilde perseverança,  durante o
tempo que quisesse:
Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí
andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso
com as duas mãos, comprimindo­o contra o peito. [...]
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o
tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois
abri­o,  li  algumas  linhas  maravilhosas, fechei­o de
novo,  fui  passear pela casa, adiei ainda mais  indo
comer pão com manteiga,  fingi que não sabia onde
guardara  o livro,  achava­o,  abria­o por alguns
instantes. Criava as  mais falsas dificuldades  para
aquela coisa  clandestina que era a felicidade. A
felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece
que eu já pressentia.
32
29
Cf. Gabriel PERISSÉ, O leitor criativo, pp. 29­41.
30
Clarice LISPECTOR, Felicidade clandestina, p. 10.
31
Ibidem, p. 11.
32
Ibidem, p. 12.19
A clandestinidade da felicidade está em que ela se oculta de nós, foge de nós —
e nós também dela nos escondemos. A felicidade tem algo de ilegítimo, tal a dificuldade
de adquiri­la,  sua  impossibilidade, tal  a  descrença que nos  apodera —  a felicidade é
alcançável?
No conto de Clarice, a  ânsia de ler,  de ser feliz,  de amar (lembrando a frase
lapidar de Santo Agostinho, para quem felicidade é amare et amari, amar e ser amado),
enfrenta o mal. O mal é o obstáculo. As mentiras da menina que detém o livro proibido
fazem a linguagem produzir sofrimento.
Mas o conto tem um final feliz:
Às  vezes  sentava­me na rede,  balançando­me com o
livro aberto no colo, sem tocá­lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais  uma  menina com um livro: era uma
mulher com o seu amante.
33
A felicidade no ato de puro amor entre menina e livro. Este “êxtase puríssimo”
é fruto de uma conquista. Houve sacrifício, empenho digno:
Já contei o sacrifício de humilhações  e perseveranças
pelo qual passei,  pois, pronta para ler Monteiro
Lobato, o livro grosso pertencia a uma menina cujo pai
tinha uma livraria. A menina gorda e muito sardenta se
vingara  tornando­se sádica e,  ao descobrir o que
valeria para mim ler aquele livro,  fez  um jogo de
“amanhã venha em casa que eu empresto”.
34
A perversidade e o sadismo da  menina  são o mal que oprime,  escondendo­se
sob a máscara da inocência. A verdadeira inocência se submete ao sacrifício. Não lhe
interessa o sofrimento pelo sofrimento.  Sua criatividade consiste em abrir­se
corajosamente para  a possibilidade de um desfecho ético,  ou até mesmo para um
desfecho “absurdo”,  milagroso... tal como Abraão levando Isaac para o sacrifício,
segundo a insuperável reflexão de Kierkegaard.
35
Não há perversidade (ainda que por
Deus  permitida) que resista  à  perseverança.  O  perverso vive no desespero,  e a
esperança de quem ama não morre.
O  livro valia muito para a menina Clarice.  Sua  fidelidade a este valor é
criativa. Entrando no jogo perverso, submetendo­se ao sadismo com a força (virtus) de
quem não desiste do que ama, a personagem não beneficiada pelo destino (um pai dono
de livraria), pela justiça recebe mais do que pedira. O merecimento conquistado graças
à dedicação.
A criatividade como esforço para dialogar com a situação desfavorável detecta
ou acaba produzindo brechas  a  fim de que o bem não seja esmagado pelo ideal do
egoísmo,  da posse e do domínio. O sadismo vingativo da menina do livro consistia em
transformar a  outra  em mero joguete. O  livro torna­se instrumento de tortura.  O
sadismo é infracriador,  e por isso antiético.  Já  a  criatividade da menina Clarice
vislumbrava no livro, mais  do que o objeto de desejo e de uso,  um ser com quem
pudesse dialogar.  O  livro enquanto objeto pertencia à  proprietária. O  livro enquanto
âmbito, enquanto campo de jogo, enquanto fonte de iniciativas, enquanto interlocutor, é
33
Ibidem.
34
Clarice LISPECTOR, A descoberta do mundo, pp. 721­723.
35
Cf. Søren KIERKEGAARD, Temor e tremor, pp. 251­327.20
o “amante”  da leitora,  que se torna mulher, que amadurece —  conseqüência  de seu
aperfeiçoamento ético.
A leitura ética desperta minha  sensibilidade para os  valores. Não são
necessárias  fábulas  moralistas. Estabeleçamos  com a história  uma  relação criativa,
lúdica,  interessada (e não interesseira).  Tenciono,  a propósito,  em outro momento,
escrever sobre o método lúdico­ambital,  criado por Alfonso  López Quintás,
36
método
com o qual a nossa sensibilidade ética é aprimorada mediante a experiência literária.
Eu sei lembrar?
A leitura  nos  introduz,  por fim, no mundo da memória.  A memória  é a
consciência do que não passou: o passado é o que não passa.
Aquilo que já foi esquecido,  aquelas  cenas  e pessoas  que efetivamente já
passaram nós  não conseguiremos identificar ou evocar. Não temos consciência do que
não vem à memória, ainda que possa haver, digamos, “vestígios” do passado perdidos,
flutuantes  na memória, “corpos”  anônimos  vagando sem conexão com o nosso
cotidiano.
Já o passado como passado, como o “meu passado”, realidade não­presente a
que me refiro, sobre a  qual  escrevo, da qual me lamento ou vanglorio,  à qual estou
voluntariamente vinculado ou da qual gostaria  de me livrar —  este passado é o que
permanece na atualidade, é aquilo com que me encontro mediante a recordação.
O passado atualizado em minha consciência presente torna­se presente.
O passado do presente é o presente do passado.
O  que a memória traz  nem sempre merece ser recuperado.  A  memória é
seletiva,  mas  não necessariamente criteriosa. Temos  dificuldades  para lembrar o que
gostaríamos  de lembrar e, não raramente,  somos  assediados  por imagens  e nomes
indesejáveis, “recados” e “recibos” do passado, imagens que brotam num sonho, numa
conversa, no ato da leitura.
Não nos  apeguemos  à recomendação de que a prática e o hábito da leitura
contribuem para exercitar a memória.  Tal “vantagem” pouco interfere em nossa
alfabetização existencial. Ler para memorizar melhor datas e dados, nomes e resumos, é
instrumentalizar a leitura, e de certo modo reduzi­la a uma função menor, operacional,
e até certo ponto descartável.
Na leitura, e não somente mediante a leitura, a memória ganha corpo. No ato
mesmo de ler, mergulhados  na livrosfera,  vêm­nos  à tona realidades  impressas,
marcadas no fundo profundo, naquela “área” do espírito a que temos difícil acesso, mas
que se desprendem deste fundo,  e, voláteis, voam agora dentro de nós, talvez
semelhantes a fantasmas inofensivos, ou a anjos benévolos, ou a demônios torturadores.
Assombrados, nem sempre percebemos como a leitura suscitou essas aparições.
Estou relendo A metamorfose. A certa altura,  ouço a tosse de Frau Samsa. A
mulher está sufocada.  Esta tosse ecoa em minha memória,  evocando outras tosses  de
outros tempos. A tosse de meu pai fumante. A tosse do amigo que morreria de câncer.
A tosse nervosa daquele professor.
36
Cf. Alfonso LÓPEZ QUINTÁS, La formación por el arte y la literatura. Madrid, Rialp, 1993; IDEM,
Para comprender la experiencia estética y su poder formativo. Estella (Navarra): Verbo Divino, 1991;
Gabriel PERISSÉ, Filosofia, ética e literatura. São Paulo: Manole, 2004.21
A tosse de papel  sugere lembranças. A tosse literária precisa das tosses  reais,
esquecidas, para que possa  “tossir”  na leitura.  E  na  medida  em que as  tosses  reais
esquecidas são lembradas  por força  da tosse ficional de Frau Samsa,  esta igualmente
ganha força em minha consciência. Posso ouvi­la, compõe o quadro sufocante da vida
de Gregor Samsa.  A memória  é repetitiva: possa  ouvir de novo a tosse angustiada, a
tosse kafkiana.
37
Havia uma pedra no meio do caminho, havia uma pedra no meio do caminho,
no meio do caminho havia uma pedra,  havia uma  pedra...  e o poeta que caminhava
jamais  esquecerá este fato.  O  memorável  se expande também na vida do leitor. A
memória tem a ver com a identidade. É a sua “base”.  Lembrando o que li e vivi,
lembro­me de quem fui, e, por conseguinte, de quem sou. A memória é toda a bagagem
de que dispõe o nômade, o homo viator, o caminhante. A precariedade da vida (a pedra
no meio do caminho) se aceita e ao mesmo tempo se contorna com a capacidade de
lembrar.
Pensadores  antigos  afirmavam e reafirmavam que a memória  humana, não
obstante ser dádiva dos  deuses, com a  qual podemos lembrar que somos  humanos e o
que isso significa no conjunto do cosmos, com a qual recordamos que lugar é o nosso
nessa trama, é igualmente dom precário: memoria hominis hebes. A memória humana é
embaraçada, embotada, inepta, obtusa, fraca.
O  fortalecimento,  o cultivo da memória,  na leitura,  pede o exercício da
releitura.  Não deixar cair no esquecimento o que é importante,  o que é essencial.
Manter a lembrança acesa “ante a entrópica tendência ao embotamento”.
38
Não podemos  esquecer o fundamental.  Não esquecer, por exemplo,  que a
palavra “esquecer”  provém do latim vulgar excadescere,  precedido pelo verbo
excadere, “cair para fora”  (ao esquecer, algo sai da  minha  memória?), escorregar,
desfalecer,  perecer. Excadere tem a ver com o verbo cado,  de onde deriva a palavra
“cadáver”. Esquecer é, de certo modo, cair no caminho e morrer um pouco.
Recordando a noção de verbo depoente,  convém não esquecer uma  segunda
“mera curiosidade etimológica” — o verbo latino obliviscor (do qual nasceram o verbo
espanhol e nosso também, “olvidar”), que significa esquecer, perder a lembrança, é uma
ação que repercute no próprio esquecedor.  Ao esquecer de algo,  esqueço de algo em
mim mesmo, e algo de mim eu perco igualmente, algo de mim cai para fora de mim. O
desmemoriado em estágio avançado pergunta­se “quem sou eu?”  (pergunta filosófica
por excelência, diga­se de passagem), estágio a que chegou Kant, por ironia da história,
quase certamente vítima do mal de Alzheimer.
39
A  releitura é condição do aprendizado inesquecível.  “Reler”  é o verbo da
memória, da retomada. O palíndromo “reler” lembra­nos que, ao retomar o caminho de
volta, lembraremos melhor o que já sabíamos, revitalizaremos a nós mesmos. Relendo,
relembro o que há  pouco aprendi (e já esquecera), e imprimo em meu ser a idéia, a
imagem,  a palavra, o argumento,  a  rima. E  a cada  nova idéia, imagem,  palavra etc.,
imprimo um crescimento em meu ser, um aprofundamento da minha consciência.
37
Subitamente, lembro o que jamais presenciei: a tosse do próprio Kafka, vítima da tuberculose.
38
Luiz Jean LAUAND, Provérbios e educação moral – a filosofia de Tomás de Aquino e a pedagogia
árabe do Mathal, p. 95.
39
Kant terminou seus dias sem saber escrever o próprio nome, como relata Thomas de QUINCEY, em:
Os últimos dias de Immanuel Kant. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.22
O leitor criativo, reflexivo e meditativo é um leitor que tende a não esquecer. E
não poderíamos  deixar de lembrar as  últimas  páginas  de Fahrenheit 451,  quando
Montag encontra os homens­livros, cuja identificação é tão profunda com o texto lido:
— [...] Todos nós possuímos memória fotográfica, mas
passamos  a  vida aprendendo a bloquear as coisas  que
estão realmente lá dentro.  Simmons  trabalhou nisso
durante vinte anos  e agora dispomos de um método
pelo qual podemos evocar tudo o que já tenhamos lido.
Montag, algum dia você gostaria de ler a República de
Platão?
— Claro!
— Eu sou a República de Platão.  Gostaria de ler
Marco Aurélio? O  senhor Simmons  é Marco Aurélio.
[...]  Quero que conheça Jonathan Swift, autor daquele
pernicioso  livro político, As  viagens  de  Gulliver! E
esse sujeito aqui  é Charles  Darwin,  e este aqui é
Schopenhauer, este outro é Einstein, e este aqui ao meu
lado é o senhor Albert  Schweitzer, um filófoso
realmente muito gentil.  Estamos  todos  aqui,  Montag.
Aristófanes, Mahatma Gandhi,  Gautama Buda,
Confúncio, Thomas Love Peacock, Thomas Jefferson e
o senhor Lincoln,  se você quiser.  Somos  também
Mateus, Marcos, Lucas e João.  [...] Somos  todos
fragmentos  e obras de história, literatura e direito
internacional. Byron, Tom Paine, Maquiavel ou Cristo,
tudo está aqui.
40
A memória cria identidade. Os leitores adotam o nome dos autores. São eles de
certo modo os co­autores dos textos, escritores imortais. Sua leitura e contínua releitura
impulsionam,  são um ímpeto a favor da união entre passado,  futuro e presente num
tempo sem tempo do encontro com o livro em forma de ser humano.
Metamorfosear­se em livro.  Memorizar um livro e memorizar­se em livro.
Como se se tratasse de uma representação teatral. Minha memória assume dimensões
tais que eu, leitor, tal como o ator, represento uma personalidade viva e, incorporando­
a, dou vida nova a essa personalidade.
Em contrapartida,  conforme o pensamento tantas  vezes  citado de George
Santayana, “aqueles que não conseguem lembrar o passado, estão condenados a repeti­
lo.
41
Este “não conseguir lembrar”, interpretado de modo radical, significa incapacidade
real de lembrar. Não uma passageira amnésia, mas um dramático “não­conseguir” que
torna a pessoa incapacitada.
A sentença em inglês  “those  who cannot  remember”, numa leitura  simples  e
imediata,  que é normalmente a dos  que citam a frase do pensador norte­americano,
indica a necessidade de alertar outras pessoas sobre a necessidade de aprenderem com a
experiência  para não voltarem a errar —  vence o clichê,  vence o desejo (legítimo) de
40
Ray BRADBURY, Fahrenheit 451, p. 186­187.
41
George SANTAYANA, Life of reason, p. 284.  (A frase em inglês: “Those who cannot  remember the
past are condemned to repeat it.”)23
oferecer um conselho baseado no bom senso. Se ontem eu tropecei numa pedra, hoje,
lembrando que há uma pedra no meio do caminho, tomarei cuidado para não tropeçar.
Contudo,  a frase aceita pelo menos  três traduções. Ou a primeira já usada,
“aqueles  que não conseguem lembrar”,  que,  em português, permite entender que a
pessoa não consegue porque é um tanto esquecediça,  mas  há de conseguir.  Quando
voltar a enxergar a pedra no meio do caminho haverá de lembrar a “lição” do passado.
Ou a  tradução “aqueles  que não podem lembrar”, pois  não podem hoje,  não
podem por enquanto, podiam e agora não podem, mas poderão um dia... Um dia serão
mais  prudentes, mais  atentos, pondo a barba de molho por terem escarmentado em
cabeça alheia, ou na sua própria cabeça...
Ou,  numa terceira possibilidade de tradução, a frase: “aqueles  que não sabem
lembrar”, ou seja,  aqueles  que literalmente não têm condições  de lembrar,  porque
ignoram o que é lembrar, desconhecem o que lembrar, não sabem como lembrar; nunca
souberam antes  e, não sabendo agora, portanto (carentes  de um passado pessoal ou
social de experiência,  de conhecimento),  viverão guiados  pelo instinto do imediato,
pelos automatismos, que podem até ser muito originais, mas  de uma originalidade
inconsciente e inconseqüente, desligada  do processo de crescimento! Hoje poderei  ser
tão ou mais  original quanto no passado... mas como saber que estou sendo original se
do passado nada sei?
Sem saber,  sem consciência do que somos  como indivíduos  e/ou coletividade,
sem consciência  dos  valores  do passado,  das  crenças  e vivências  do passado,
repetiremos o que no passado já se fez. Repetição como sinal de falta de criatividade, e
decorrente incapacidade para  realizar a superação.  Mais  ainda,  inconsciência para o
fato de que o caminho prosseguiu, e aquela pedra que estava no meio do caminho ficou
para trás! O  que não impede que novas  pedras surjam à  medida  que continuarmos
caminhando.
A repetição do passado significa permanecer preso a um tempo que já passou,
sem ter consciência de que ele já passou! Não me darei conta de que o presente exige
novas  atitudes  (a partir da  transformação das  antigas  atitudes),  pois não sei que o
presente é o que veio depois  do passado. Não tenho um passado a que possa recorrer
para entender o presente, e aperfeiçoar­me dentro dos novos contextos.
Sem saber o que lembrar,  olharei o presente como se este fosse uma realidade
incausada, sem antecedentes, desligada da história. Sem conhecer os antigos contextos,
que geraram os atuais, encaro o presente como se tudo acontecesse pela primeira vez, e
reagirei com a “inocência”  perpétua de quem não sabe que pode e deve “evoluir de
opinião”, como se cantava numa velha marchinhas de Carnaval.
Sem ter um passado para lembrar, perco de vista a  fonte de mudanças que ele
representa. Sem passado, não posso ter futuro, careço do obsoleto para criar o inédito.
Meu futuro será  sempre um repetido passado... ou um eterno presente que sempre
retorna, sem que desse eterno retorno eu tenha conhecimento.
Valorização do passado como realidade a ser retida em nome do futuro, como
inspiração para mudanças, adaptações e aprimoramentos — este é o sentido da frase de
Santayana.
Se eu me recordo do passado, pois tenho um passado, não estou condenado a
repetir o passado, isto é,  a continuar alheio a tudo o que podemos  fazer para dar
continuidade a uma história! Não estou condenado, estou convidado a ser coerente com24
o passado,  ultrapassando­o.  Pois  também é repetir o passado querer progredir com a
adoção de mudanças absolutas, como se nada tivesse acontecido ontem.
O “conselho” de Santayana não é para que leiamos livros de história, a fim de
evitar os erros  de Napoleão,  por exemplo. Poder e saber lembrar quem foi e o que fez
Napoleão permite­me tomar consciência de que jamais  haverá um novo Napoleão.
Repetir o passado de Napoleão é não ter condições  de lembrar que Napoleão viveu, e
viveu num outro mundo, que no entanto gerou o mundo em que vivemos hoje.
Logo, a leitura da história, das histórias reais ou fictícias (lembrando o quanto
de fictício há nas  histórias  reais...),  é um mergulho naquilo que somos. Nós  somos  o
passado do qual temos consciência. Somos Napoleão, porque já fomos Napoleão. Não
precisamos (nem podemos) ser Napoleão outra vez. E esta é a liberdade de quem sabe
lembrar, de quem lembra o que sabe, de quem consegue lembrar o passado, sem recair
em numa veneração supersticiosa do passado. Recordando quem sou,  posso continuar
meu caminho de transformações  diárias, para tornar­me,  um dia,  seguindo a
recomendação do poeta Píndaro, quem de fato eu sou.
Sempre e de novo, a leitura
Se sobre a leitura nunca se fala demais, talvez eu tenha escrito de menos. Esta é
a sensação, normal aliás, que se experimenta no momento da “conclusão”.
Jacques Attali,  no verbete “livro”  do seu Dicionário do século XXI,  diz  que
hoje, levando­se em conta toda a população do mundo, um pouco mais de um bilhão de
pessoas lerá  pelo menos  uma obra literária  em toda  a sua  existência individual.  (Isto
supõe que é bem inferior a um bilhão o número de pessoas que realmente têm a leitura
como prática existencial, ao menos  quanto às  obras literárias.) E os muitos bilhões  de
indivíduos alheios a essa experiência provavelmente não sentem a menor falta daquilo
que mal podem conceber ou imaginar. Não me sinto nem um pouco aflito, por exemplo,
com o fato de jamais ter experimentado um alimento saborosíssimo chamado ilutix, e
desafio quem saiba  explicar o quanto é saborosa essa iguaria... se é que alguém sabe
lembrar como se prepara esse (ainda) inexistente prato.
Observamos a leitura, e a leitura observada nos diz em que ela consiste, quais
são as suas possibilidades, o que podemos “ganhar” se nos tornarmos leitores criativos,
e conscientes  de que somos  leitores criativos, se cultivarmos  em nós  as  condições
exigidas  para ser leitores  criativos; mas  também nos  diz,  a  leitura  observada,  o que
“perdem”, em termos  existenciais, aqueles  que,  cientes  ou não, voluntária ou
involuntariamente, estão excluídos da livrosfera.
No livro Imagens  do pensamento, de Walter Benjamin,  há uma parábola
intitulada “Omelete de amoras”;
42
interpretá­la pode oferecer uma  síntese do que
consideramos  neste ensaio em torno da leitura criativa como ponto de convergência
entre exercício da imaginação,  semeadura de idéias, desenvolvimento da intuição,
aperfeiçoamento da sensibilidade ética e prática da memória.
Uma “velha história”, avisa o autor, dirigindo­se aos leitores que gostariam de
provar figos  ou um prato especial qualquer.  E utiliza a forma  tradicional  de iniciar
velhas histórias: era uma vez um rei poderoso e infeliz. Certo dia, este rei chamou seu
cozinheiro particular e lhe exigiu, sob pena de condená­lo à morte, que preparasse uma
omelete de amoras, “tal qual saboreei há  cinqüenta anos, em minha mais  tenra
42 Walter BENJAMIN, Obras escolhidas II – Rua de mão única, pp. 219­220.25
infância”, deliciosa comida cuja receita se perdera com a morte da cozinheira, mas cujo
sabor permanecera em sua memória como sinal da imorredoura esperança, mesmo em
circunstâncias  dificílimas  (naquela altura ele e seu pai fugiam dos  inimigos). Se
cumprisse aquele desejo, o súdito tornar­se­ia herdeiro do trono.
Entre o julgamento sumário e a recompensa  desproporcionada,  o cozinheiro
manteve­se sereno, e com este discurso se dirigiu ao soberano deprimido:
— Majestade, podeis chamar logo o carrasco. Pois, na
verdade,  conheço o segredo da omelete de amoras e
todos os ingredientes, desde o trivial agrião até o nobre
tomilho.  Sem dúvida, conheço o verso que se deve
recitar ao bater os  ovos  e sei  que o batedor feito de
madeira de buxo deve ser sempre girado para a direita
de modo que não nos  tire,  por fim,  a recompensa de
todo o esforço.  Contudo,  ó rei,  terei de morrer. Pois,
apesar disso,  minha omelete não vos  agradará  ao
paladar. Pois como haveria eu de temperá­la com tudo
aquilo que,  naquela época,  nela desfrutastes: o perigo
da batalha e a vigilância do perseguido, o calor do fogo
e a doçura  do descanso,  o presente exótico e o futuro
obscuro.
O  cozinheiro atribui às  circunstâncias  concretas  do episódio vivido pelo rei,
quando criança,  tanto quanto à técnica  culinária,  o sabor de esperança  que ele
experimentou desde o primeiro bocado de omelete de amoras. Ou melhor, o verdadeiro
segredo da omelete não está apenas  no modus  operandi;  reside na  combinação dos
elementos  e procedimentos  culinários  com todos os  demais  “ingredientes” vitais  que
contribuíram para aquela experiência, conforme contara o rei ao fazer o seu pedido:
Deves  me fazer uma omelete de amoras  tal qual
saboreei há cinqüenta anos, em minha mais  tenra
infância. Naquela época meu pai travava guerra contra
seu perverso vizinho a oriente. Este acabou vencendo e
tivemos de fugir. E fugimos, pois, noite e dia, meu pai
e eu,  até chegarmos  a uma  floresta  escura.  Nela
vagamos e estávamos quase a morrer de fome e fadiga,
quando, por fim,  topamos  com uma choupana.  Aí
morava  uma vovozinha,  que amigavelmente nos
convidou a descansar, tendo ela própria, porém, ido se
ocupar do fogão,  e não muito tempo depois estava  à
nossa  frente a omelete de amoras. Mal tinha levado à
boca  o primeiro bocado, senti­me maravilhosamente
consolado,  e uma  nova  esperança entrou em meu
coração.
O  segredo completo para a preparação da omelete de amoras exige condições
que tornam aquela omelete, mais  do que uma coisa a ser obtida a qualquer preço, um
âmbito em que se entrelaçam realidades  e valores, sentimentos  e lembranças: a
hospitalidade,  o medo, a fome, a fadiga, a sensação de derrota, a alegria de encontrar,
no meio da floresta escura  (como não evocar a “selva oscura”  de Dante?),  uma
choupana, antítese do palácio, lugar do refúgio inesperado e providencial...26
A felicidade clandestina, a impossivelmente necessária felicidade está toda
concentrada nesta imagem da omelete de amoras, a omelete que surgiu num passado
que não passou, mas cuja presença no presente o rei tanto deseja. A omelete de amoras
é o amor em omelete. Ele a quer saborear novamente. Sendo rei, tudo pode, por que não
exigir a felicidade?
Denkbilder,  imagens  do pensamento, figuras  do pensamento, quadros  do
pensamento.  O  relato de Walter Benjamin obedece a esta  proposta de manifestar os
seus  pensamentos  em imagens, desenhos, descrições. Neste pequeno conto, fábula ou
parábola, há uma idéia transformada em relato. O relato, aparentemente, não pretende
convencer ninguém.  Age como testemunho e convida o leitor a  ser,  por sua vez,
testemunha. A idéia, das mais simples, permanece incompreensível sem a sabedoria —
o ideal do poder tem limites, vivido pelo rei, é irrealizável. Por mais poderoso que seja,
o rei não pode “mandar fazer” a felicidade. Esta é fruto mais do que produto.
Imaginemos a omele de amoras.
Um prato nada sofisticado,  mas, para  o rei,  carregado de sentido, levando­se
em conta as  circunstâncias em que a experimentou em sua tenra  infância.  Um prato
nada palaciano,  mas  para rei e príncipe representou uma possibilidade de resistir ao
inimigo,  superar o infortúnio,  recomeçar a luta.  Há nessa omelete,  como realidade
inobjetiva, um conteúdo ético. A omelete foi feita por mãos generosas e desinteressadas.
A omelete de amoras  é uma omelete doce,  pois doce é a solidariedade nas  horas
incertas.
A história da palavra “omelete” também é sugestiva  do ponto de vista
imagético. Nasceu do francês omelette (registrada em meados  do século XVI),  que é
uma alteração de amelette (século XV),  proveniente do francês  antigo alemelle
(“pequena lâmina de faca ou de armas”), remetendo ao latim lamella (“pequena lâmina
de metal”,  em referência  à lamina,  de facas  e espadas). A omelete, portanto,  é uma
“lâmina”  delgada  de ovos  cozidos  (a passagem de amelette para omelette deve­se à
provável influência do “o” de oeuf, “ovo”).
O simbolismo geral dos instrumentos cortantes aplica­se aqui: o princípio ativo
modificando, cortando,  furando a matéria  passiva.  Em um contexto de guerra,  a
omelete evoca a  lâmina da espada salvadora, da retomada da  luta,  da  bravura,  do
poder.  A espada  simboliza a força lúcida que ataca os  problemas  e dificuldades  com
energia. A ação vencerá, antes de mais nada, o pessimismo.
Doce como a solidariedade e laminada como a espada  (e não desprezemos o
“vermelho sangue”  das  amoras),  a imagem da omelete não é inocente —  transcende,
afinal, o mero gosto. Aplacando a fome, sugere que o mundo é recuperável pela virtude
(virtus, força orientada para o bem). E é desta virtude, enfim, que o soberano tem fome.
Sua vida como rei tornou­se melancólica,  sem sentido, não obstante o acúmulo de
poder. O poder que possui é, no fundo, falso. E é isto o que o sábio cozinheiro faz o rei
perceber.
A omelete não “agradará ao paladar” do rei, na ausência do tempero essencial:
“o perigo da batalha e a vigilância do perseguido,  o calor do fogo e a doçura do
descanso,  o presente exótico e o futuro obscuro”.  O  de que o rei sente falta,
verdadeiramente?  O  “futuro obscuro” faz  intuir que somos  livres  para recriar nossa
situação. As dificuldades não são a última palavra.
O presente exótico, a omelete de amoras, é exótico porque vem de fora, de uma
outra realidade,  mas  traz  vaticínios, e a intuição os  capta no primeiro bocado de
omelete.  A vovozinha  que preparou o alimento restaurador é fisicamente frágil,27
anônima habitante da floresta escura,  mas conseguiu reerguer o moral  do rei  e do
príncipe. Oferecendo a  doçura  do descanso, dando­lhes  abrigo,  abriu possibilidades
numa situação aparentemente perdida e desesperadora.
É disso que verdadeiramente tem fome o soberano deprimido.  A melancolia,
como a analisa Julia Kristeva, é “um abismo de tristeza, dor incomunicável [...], até nos
fazer perder o gosto por qualquer palavra, qualquer ato, o próprio gosto da vida”.
43
O
paladar para um novo sentido.  Um novo sentido para  sua vida era  o que desejava o
soberano poderoso­impotente.  Buscou­o na  memória,  no passado,  mas  o passado é
aquilo que não podemos  repetir,  a menos  que queiramos  negar a realidade do próprio
passado.
Cinqüenta anos se passaram, e o rei quer recuperar, na omelete inesquecível, o
que teria perdido ao longo do tempo. A omelete de amoras, tal como foi servida naquele
dia, naquele dia, digamos assim, “cumpriu seu destino”.
E o cozinheiro,  disto sabedor,  experiente na arte de preparar alimentos  que,
além da matar a fome física,  reúnem em si ingredimentos existenciais  além dos
materiais, desmonta o ideal de domínio, vence a tentação de obedecer ao mandato do
rei, entrega­se à morte.
O relato assim termina:
O  rei, porém,  calou um momento e não muito tempo
depois deve tê­lo destituído de seu serviço, rico e
carregado de presentes.
Nem o cozinheiro foi condenado à morte, nem se casou com a princesa. Nem a
pena capital nem a recompensa. O cozinheiro, destituído de seu serviço, perguntará a si
mesmo o que a decisão do rei significava. Libertação, por um lado, mas talvez sinal de
que não estava  à altura dos  desejos  do rei. Premiado e de certa  forma dispensado por
“justa causa”, o cozinheiro não saberá exatamente em que medida o silêncio do rei foi
positivo ou negativo. O certo é que o rei precisou refletir melhor; o fato de presentear
regiamente o seu servo assinala uma possível gratidão. É possível conjecturar que o rei
está a caminho de uma outra compreensão da sua existência.
Ler e reler o desfecho deste relato faz intuir o paradoxo do outrossim. Observar
e absorver a leitura funda um âmbito em podemos discutir o anjo e o sexo, o espiritual e
o físico, o céu e a terra.
Referências Bibliográficas
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WHITEHEAD, Alfred North. Aventuras de las ideas. Barcelona: José Janés, 194

A Leitura Observada

Posted by Profº Monteiro on setembro 04, 2011

A Leitura Observada
Gabriel Perissé
Doutor em Educação pela FEUSP
Professor da Pós­Graduação do Programa de
Mestrado em Educação da Uninove
Site web : http://www.perisse.com.br
observo o paradoxo do outrossim
e do outronão discuto o anjo e o sexo?
(Haroldo de Campos)
Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra
(Chico Buarque de Hollanda)
A leitura, sempre e de novo
Sobre a leitura nunquam satis (nunca se fala demais), e, praticando­a, já dizia
Sêneca  com relação à  aprendizagem, nunquam  satis discitur,  nunca se aprende o
suficiente. Leitura é infinito aprendizado. Sempre e de novo aprendemos com a própria
leitura que ler é refletir,  apreciar, admirar­se,  sair do quase­conhecido para o melhor­
conhecido.
Leitura  no Brasil, então, é tema sobre o qual nunca se falará demasiado,  pois
ainda poucos são os  nossos  leitores  plenos  em comparação com o número de nossos
habitantes. Podem­se abrir bibliotecas (e muitas deveriam ainda ser abertas, ampliadas,
modernizadas), podem­se realizar campanhas  nacionais incentivando a leitura, podem­
se escrever livros e ensaios sobre o quão importante é ler, mas ninguém consegue (ainda
bem!) obrigar alguém a ler.  E  um número enorme de brasileiros, como muitos de nós
bem sabemos, lêem pouco e lêem mal. Segundo dados da Câmara Brasileira do Livro,
entre a população adulta alfabetizada apenas cerca de 30% realmente gosta de ler e lê
efetivamente.
1
1
A pesquisa “Retrato da leitura no Brasil” realizou­se entre dezembro de 2000 e janeiro de 2001. Os
slides estão disponíveis em:  http://www.crb7.org.br/cursoseventos/retratodaleituranobr.ppt  Acesso em:
14  mai. 2005.6
No início de mais  um texto sobre a leitura,  analisemos  dois  dados  dessa
pesquisa “Retrato da leitura no Brasil”, realizada e divulgada pela CBL. Embora sejam
apenas  números, passíveis  e até diria  carentes  de interpretação adequada e de
contextualização, constituem uma fonte de informação aproveitável.
Diz a pesquisa que 17 milhões de brasileiros declaram não gostar de ler. Sabem
ler, supõe­se, mas não gostam, não encontram prazer no contato com a cultura escrita,
ficam indiferentes  perante a possibilidade de lerem um romance,  um poema etc . Não
sabem saborear uma frase como, por exemplo, esta que tenho à mão — “Todo vivente
forma uma atmosfera em torno de si”.
2
Frase tão genial quanto simples, capaz de abrir
perspectivas de pensamento, de compreensão do mundo.
Quem lê entra em contato com a atmosfera  formada por aquele livro que tem
entre as  mãos. O  livro é,  de certa maneira,  um ser vivente ou, mais  precisamente,
seguindo a  terminologia de Alfonso  López Quintás, o livro torna­se um âmbito,
realidade não redutível a mero objeto.
3
Desta realidade ambital emana uma atmosfera, e
nela  penetrando respiramos novos  ares, alimentamos  nossos “pulmões cerebrais”  (que
não se restringem ao cérebro...)  de idéias, soluções  verbais, sentimentos, imagens. O
não­leitor corre o risco de asfixiar­se intelectual e espiritualmente por falta de contato
com o oxigênio da leitura.
Pensando mais  detidamente,  esses  17 milhões  de brasileiros  (cifra que
corresponde à população da Grande São Paulo, hoje, ou também à atual população do
estado de Minas  Gerais)  não sabem ler,  no sentido existencial da palavra.  Não
compreenderam, ou não tiveram a oportunidade real de aspirar os bons ares de uma boa
leitura,  e se encontram, no meu modo de entender,  numa situação de profunda
precariedade cultural e humana,  embora,  como já nos  alertava  McLuhan,  devamos
lembrar que a cultura  não se restringe ao livro,  manifestando­se nos  meios  de
comunicação em geral, em festas populares, literatura oral etc.
Por outro lado,  a  mesma  pesquisa,  considerando a  população alfabetizada
brasileira maior de 14 anos (86 milhões), revela que nosso consumo de livros per capita
é de 3,87 por habitante/ano.
4
Passamos a maior parte do dia evitando a leitura, ou dela
simplesmente  apartados. Ignoramos  a realidade do livro. Não vemos  os  livros  que
porventura estão ao nosso redor. Não nos embrenhamos diariamente nessas páginas das
quais emana a atmosfera da linguagem viva.
Um insuficiente contato com a “livrosfera”  pode levar uma pessoa a níveis
também insuficientes de autoconhecimento, de expressividade verbal, e de percepção do
que pensam e fazem as outras pessoas. Na livrosfera, é possível libertamo­nos da rotina
e da repetição.  Até o repetitório é dissolvido e transformado por um repertório de
chaves interpretativas, de caminhos  argumentativos, de conceitos  iluminadores. Não
falará  mal da  rotina quem souber desconstruir a  rotina com o olhar “treinado”  pela
leitura.
2
Johann W. GOETHE, Máximas e reflexões,  ponto  47.  No original: “Alles Lebendige bildet  eine
Atmosphäre um sich her.”
3
Todo âmbito é uma  realidade aberta,  relacional, colaboradora.  Para entender o conceito  de âmbito,
leia­se deste autor  o livro Inteligência criativa: descoberta pessoal de valores,  São Paulo: Paulinas,
2004. Outra possibilidade é o meu ensaio O  Objeto e o Âmbito no Pensamento de López Quintás ­
análise do poema­música de Sérgio Bittencourt, em: http://www.hottopos.com/convenit/lq3.htm Acesso
em: 25 ago. 2005.
4
Credite­se esta cifra,  que era menor há duas décadas,  ao recente crescimento  da população
universitária brasileira,  por conta da multiplicação de instituições particulares.  Mal ou bem,  muitos
jovens e adultos precisam hoje ler um pouco mais, por obrigação.7
A imaginação cresce como árvore frondosa  na livrosfera, gerando frutos
saborosos, e às vezes proibidos... O pensamento também frutifica dentro da livrosfera,
e multiplicam­se as  “sementidéias”. A intuição, atividade que supõe uma inteligência
atenta e livre,  floresce na livrosfera. A sensibilidade ética se desenvolve e amadurece
no interior da livrosfera. A memória ganha corpo e conteúdo.
Reflitamos um pouco sobre essas cinco camadas da livrosfera.
A imaginosfera
Pensemos  em Kafka e na sua obra­prima A  metamorfose. Como os  leitores
imaginam o inseto em que Gregor Samsa se transformou? A descrição do autor fornece
elementos  visuais, mas  nos  deixa o trabalho maior de compor a imagem terrível  e
degradante. É bastante significativo que Kafka tenha insistido para que as edições deste
livro nunca  tivessem ilustrações. Não queria  poupar ao leitor a tarefa de desenhar
mentalmente a imagem do “inseto monstruoso”.
A propósito, há uma  interessante questão lingüística/imagética  a destacar.
Leiamos o início do livro, quando deparamos com a metamoforse realizada:
Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos
intranqüilos, encontrou­se em sua cama
metamorfoseado num inseto monstruoso.  Estava
deitado sobre suas  costas  duras  como couraça e,  ao
levantar um pouco a cabeça,  viu seu ventre abaulado,
marrom,  dividido por nervuras  arqueadas, no topo do
qual a coberta,  prestes a deslizar de vez, ainda mal se
sustinha. Suas  numerosas  pernas, lastimavelmente
finas em comparação com o volume do resto do corpo,
tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.
5
Tomando literalmente a narrativa, Gregor transformou­se, da noite para o dia,
num inseto ou,  como já observaram alguns  estudiosos  da  obra de Kafka,  numa
monstruosa sevandija  (a tradução talvez mais aceitável para ungeheueren Ungeziefer,
no original).  O termo,  derivado do nome basco para lagartixa  (sugandilla), conforme
Antônio Houaiss e Aurélio Buarque de Holanda em seus  dicionários, possui uma
elasticidade semântica  que favorece,  e torna mais  complexa,  a tarefa  de imaginar o
protagonista do texto kafkiano.
“Sevandija”,  termo aplicado na zoologia a  todos  os  parasitos  e vermes
imundos, já foi utilizado conotativamente para  designar uma pessoa desprezível que
vive à custa  dos outros  e submete­se a todo o tipo de humilhação.  Em traduções  do
alemão para o inglês, Gregor metamorfoseado é descrito como um monstruoso
“vermin”,  o que pode ser entendido como sevandija ou parasito. O verbo “sevandijar­
se” significa rebaixar­se vergonhosamente, aviltar­se, envilecer­se. É disso que se trata
—  e temos  de entrar na imaginosfera do livro para configurar em nossa mente uma
imagem aviltante o suficiente para  expressar a degradação espiritual a  que chegou
Gregor.
Um coleóptero imundo também parece corresponder à descrição de Kafka. Um
besouro talvez?  Ou poderíamos  arriscar a  imagem de um piolho?  A tendência
5
Franz KAFKA, A metamorfose, p. 7.8
dominante,  porém,  tem sido associar o inseto monstruoso à barata,  que provoca nojo
imediato ao homem urbano.
6
7
Em 2004, a Editora Conrad publicou no Brasil a adaptação do conto kafkiano
para uma história em quadrinhos, a cargo do ilustrador Peter Kuper. O inseto lembra
uma barata, mas se assemelha ao besouro:
8
Mergulhamos  nas  imagens  produzidas  por outros  e por nós  (mesmo
contrariando a recomendação de Kafka...) e nelas nossa função cognitiva ganha novos
horizontes, encarna­se diante de nós. A imaginação tem o poder; é condição necessária
para o conhecimento caminhar no meio da selva de palavras  e conceitos. E  nesse
caminho estabelecer novos encontros com o real. A propósito, Bachelard demonstra em
sua filosofia da imaginação que a razão imaginadora,  abolindo o falso  dilema entre
conhecimento experimental e saber especulativo, torna a ação de imaginar um avanço:
“imaginar é [...] elevar de um tom o real”.
9
Para as mentalidades menos imaginativas,
essa relação entre razão e imaginação parece inimaginável. No entanto,  basta  tentar
imaginar um mundo sem imaginação...  para sentir o quanto a  imaginação é parte
integrante da nossa atividade intelectual!
A imaginação, suave e fortemente,  orienta  a nossa reflexão e é pela reflexão
solicitada. A imaginação participa da criação de novos  sentidos  para antigos
significados e em certa medida constitui uma das melhores provocações para a razão. A
6
Mário da Silva Brito, no aforismo 89 do seu livro Conversa vai, conversa vem, confirma a imagem  em
clave humorística: “— Cuidado! Não pise nessa barata: pode ser o Gregor Samsa!”
7
Esta capa pertence a uma  edição holandesa do livro,  do final  da década de 1980,  mais exatamente
1988. Ver:  http://www.kb.nl/coop/metamorfoze/publicaties/meta_nieuws_7/kafka.jpg Acesso em: 15
mai. 2005.
8
O ilustrador tem um site: http://peterkuper.com/ Acesso em: 19 mai. 2005. Uma apresentação do livro
encontra­se em http://www.randomhouse.com/crown/metamorphosis/ Acesso em: 29 mai. 2005.
9
Gaston BACHELARD, O ar e os sonhos, p. 82. No original: “imaginer c'est donc hausser le réel d'un
ton.”9
imaginação atua em nossa compreensão do mundo.  Uma imagem sintetiza  quase que
espontaneamente um fluxo de idéias, e nos  dá condições  de tomar fôlego e prosseguir
nesse fluxo. A abstração requer imagens, e graças a essas imagens podemos continuar a
abstrair. As imagens constroem pontes entre realidade e arrazoado, entre idéias e idéias,
entre percepções  e palavras, entre palavras  e realidades. A própria imagem das
“pontes”  que acabo de empregar torna  mais  visível e compreensível  o que estou
querendo dizer. Imaginação que nada tem a ver com alucinações, mas desvela os
contornos, as  cores, os  alcances  do saber que sabe a realidade —  dá­lhe,  ao saber,
presença quase tangível.
Cioran escreve:
Como se pode ser filósofo? Como se pode ter a ousadia
de abordar o tempo, a beleza, Deus e todo o resto? O
espírito fica  inchado e saltita sem vergonha.
Metafísica, poesia — impertinências de piolho...
10
O  leitor não pode deixar de imaginar o espírito “inchado”, mesmo que tal
imagem seja impossível, pois  espíritos  não incham como os  corpos. Como poderá o
espírito inchar­se, e inchado saltitar, e saltitar sem vergonha? Saltitar como um piolho?
Ficamos com uma pulga atrás da orelha...
O  espírito se faz  imagem e a imagem torna o espírito inchado mais
compreensível  para o nosso próprio espírito. Sua falta de vergonha  nos  envergonha.
Como ousa o piolho querer alcançar os cabelos luminosos da lua?
E o pensador ri  de si mesmo, e dos  outros  pensadores, e dos  próprios  poetas,
geradores de imagens! Ri do leitor, e o leitor deverá aprender a rir de si mesmo. O leitor
olha  para o piolho em que o poeta  se transformou,  em que o metafísico se
metamorfoseou. O  silogismo é amargo,  a imagem é agressiva,  o texto é contraditório
em sua ironia, e contundente em sua impertinência.
E daí o prazer da leitura ativa, imaginativa. As imagens mentais  são mentiras
que revelam verdades.
11
Lendo,  treinamos  nossa imaginação.  A imaginação é
espontânea,  mas  também pode estar sujeita à nossa  vontade.  Quero imaginar,  e
imagino. Imaginando, expresso­me,  impressiono­me. As  imagens  iluminam o
pensamento. Ou, como Sartre definiu, “a imagem [...] é também pensamento”.
12
10
E. M. CIORAN, Silogismos da amargura, p. 25.
11
Origem etimológica de mentir: mens, palavra latina que significa “inteligência, espírito, alma, razão,
sabedoria, juízo, discernimento, imaginação”. Mentir, portanto, era, sem maniqueísmos, no começo dos
começos, o ato  de usar a mente,  de realizar uma operação intelectual, de exercitar a razão,  de pôr a
imaginação para funcionar.  Justamente (ou injustamente) por causa da imaginação, mentir tornou­se
sinônimo de inventar algo com  o intuito de esconder verdades,  distorcer fatos,  enganar os outros.
Curioso processo em  que um  conceito do bem  se tornou um  verbo do mal... Contudo,  a mente,  em
particular a mente do artista, continua a mentir na clave da verdade e da beleza. Os maiores mentirosos
do mundo, como Shakespeare, como Van Gogh, como Kafka, como Beethoven, criaram mundos irreais
que são mais fiéis à realidade do que a nossa própria noção de realidade. Os seus personagens, as suas
imagens,  os seus sons,  fruto de riquíssima vida mental, revelam  verdades que desmascaram as
verdadeiras mentiras! Como discernir,  em nossa mente,  o que é mentira mentirosa daquilo  que é
mentação transformadora? Como distinguir o alimento  podre do que será sustento para a humanidade?
(Estas reflexões foram  extraídas de um artigo, “Mentir, mentar, mentor”, que publiquei no Correio da
Cidadania, ed.  376, semana de 13/12 a 20/12/2003. Ver em:
http://www.correiocidadania.com.br/ed376/cultura.htm Acesso em: 20 out. 2005.)
12
Jean­Paul SARTRE, A imaginação, p. 85.10
Multiplicam­se as sementidéias
A leitura nos introduz  na esfera do pensamento. Concebemos idéias  enquanto
estamos  lendo ou quando já  fechamos  o livro e abrimos a porta  da rua para  sair em
busca  de outros  ares. O livro pode fechar­se, mas  a mente continua aberta. As idéias
vêm. As idéias se multiplicam. O que é uma idéia?
Ter uma idéia  nos  torna  conscientes  de nosso conhecimento.  Descobrimos,
como dizia Spinoza, que nosso espírito é uma “coisa pensante”. E as idéias, além de nos
fazer conhecer que conhecemos, possuem a capacidade de fecundar a ação,  de
impulsionar as  vontades, de fazer toda a  pessoa vibrar. As idéias  de Rousseau foram
decisivas  para a Revolução Francesa,  em 1789. Fidel Castro,  num discurso
pronunciado em 2001, repetiu o que todos  os líderes  sabem:  “Las  ideas  son y  serán
siempre  el arma más  importante”.
13
Em 1963, em momento agitado da política
brasileira,  Carlos  Lacerda publicou um livro que fez furor: O  poder  das  idéias.
Whitehead,  em seu livro Aventuras  das  idéias,  de 1933,  mostra que a  frase famosa
“cogito,  ergo sum”  deveria ser traduzida  com mais  amplitude —  penso, logo eu me
emociono, fico feliz,  tenho medo,  cultivo esperanças, tomo decisões  etc. Ortega y
Gasset  e muitíssimos  outros  pensadores  destacaram que as  idéias  arrebatam os
corações... e muitos  idealistas  e ideólogos  perderam a  cabeça (no melhor sentido da
expressão, se é que existe) em nome de suas convicções! Na política ou na vida pessoal,
e não só no mundo acadêmico, as idéias demonstram sua fecundidade.
Por isso chamá­las de sementidéias. Da idéia fixa e empedernida dos fanáticos
que geram as  flores  do mal... às  idéias  geniais  que configuram novas realidades; das
idéias  pálidas  de uma vida anêmica às idéias generosas  de uma vida heróica, o fato é
que essa  esfera do pensamento encontra, na leitura,  “combustível”  suficiente para  se
expandir.
As idéias são fecundas porque suscitam desenvolvimentos e realizações (mesmo
que sejam realizações  que desrealizam!). Quando alguém diz que “não faz a menor
idéia”, ou que “teve uma brilhante idéia”, refere­se à impossibilidade ou à possibilidade
de conceber projetos, de estabelecer relações, de esclarecer para si mesmo aspectos  e
facetas da vida.
Lendo, “caem” sementidéias sobre o terreno mais ou menos receptivo da minha
mente. E  começo a mentar.  Mentar é elaborar,  “bolar”,  inventar.  Leio,  releio A
metamorfose de Kafka. Cai uma sementidéia na minha mente. A de que um ser humano
pode chegar a terríveis  níveis  de degradação psicológica  e espiritual por ter sido
encarado como meio de subsistência e não como pessoa pelos  familiares  que tanto
amava. Esta idéia não é nada agradável, à primeira vista, mas traz em si um “toque”,
para usarmos  um carioquismo relativo às  noções  de “alerta”,  “aviso”,  “sugestão” e
“conselho”. “Toque” é talvez mais expressivo porque a palavra, na sua informalidade,
evoca diferentes matizes. Tem a ver com alusões, com insinuações mais ou menos sutis.
Tem a ver com a mão que toca  o ombro de alguém,  para chamar­lhe a atenção
amigavelmente, “dar uma idéia”.
O “toque” de Kafka permite­me olhar para mim mesmo e ver se estou atuando
como mero provedor da família,  ou,  ao contrário,  como alguém que pode e deve
suscitar nos demais membros da casa o desejo de participarem dos esforços na luta pela
sobrevivência.  Os  pais e a irmã de Gregor Samsa,  tão logo o filho “adoeceu”,
13
Discurso “Las ideas son y serán siempre el arma más importante”, pronunciado em Cuba, no dia 2
de dezembro de 2001 (http://www.fut.es/~mpgp/amigos953.htm Acesso em: 20 out. 2005).11
começaram a dar mostras de uma capacidade, até então oculta, para o trabalho e para a
criatividade.
Observo a leitura e a leitura me observa. O texto lê o leitor. Kafka toca a minha
mente,  deposita nela uma ou várias  idéias. Semeia. Insinua  que Gregor Samsa foi
inocente,  por um lado, mas também conivente com o comodismo dos  familiares! Esta
idéia lança raízes em mim.
Leio o livro A  revolução dos  bichos,  de George Orwell. E uma outra idéia  se
insinua... verdade nua? A idéia é a seguinte: o poder é estimulante. Os animais de uma
granja se unem para expulsar o desumano homem tirano. Algum tempo depois, alguns
animais  que se consideram mais animais (ou menos...) do que os demais... assumem o
poder e acabam por trair os ideais que antes haviam abraçado.
Em novembro de 2005, contemplando nos jornais  e tv os  presidentes  Lula e
Bush  lado a lado,  sorridentes, como velhos  amigos, veio­me à memória de modo
espontâneo o desfecho deste livro. Lá estão porcos e homens comemorando uma nova
era.  A Granja do Solar,  que depois  da  revolução passou a chamar­se Granja  dos
Bichos, volta a chamar­se Granja do Solar. A elite dos animais e os humanos fazem um
brinde, comemoram o bom relacionamento.  Do lado de fora,  outros  animais, menos
animais  do que os  de dentro...  não conseguem entender o que está acontecendo.  No
entanto, em dado momento, fez­se a luz:
Não havia dúvida,  agora,  quanto ao que sucedera à
fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de
um porco para  um homem, de um homem para um
porco e de um porco para um homem outra vez; mas já
era impossível distinguir quem era  homem, quem era
porco.
14
A idéia que estava  adormecida em mim desde muito tempo (tive contato com
este livro de Orwell pela primeira  vez aos  14 anos de idade) desperta o meu senso
crítico. Já era impossível distinguir presidente de presidente. Estavam irmanados. Olhei
para um e para outro,  e para o outro e para um outra vez... Talvez tenham discutido
pesadamente nos bastidores. Talvez tenhamos sido poupados das desavenças graças aos
protocolos neutralizantes da diplomacia...
Contudo,  parece que tudo foi marcado pela sinceridade e pela harmonia. Bush
partiu feliz  de sua visita ao parceiro, ao quase aliado latino­americano: “Podemos ter
sentidos políticos diferentes, mas compartilhamos os mesmos objetivos”. Que objetivos?
O  presidente Lula,  por sua  vez,  revelou em entrevista que tudo transcorreu em paz:
“Foi um diálogo muito franco. Não houve nenhum momento de tensão na conversa”.
Na Folha de  S. Paulo,  em 12 de agosto de 2002,  Lula,  ainda presidenciável,
participando do ciclo “Candidatos  na Folha”, afirmara, de maneira truncada mas com
franqueza:  “Eu acho que os  Estados  Unidos  são um país, eu,  por exemplo,  acho que
cada vez  vai ficando mais  provado que Bush  precisa procurar uma outra coisa  para
fazer ao invés de querer ficar fazendo guerra.”
15
Mesmos objetivos? Nenhuma tensão?
Ainda naquela ocasião, quando lhe perguntaram diretamente o que pensava da
grande prepotência,  a resposta foi  potente: “Eu  acho que os  Estados  Unidos  são um
país  que gosta muito de democracia na casa dos  outros, gosta de exigir que os  outros
14
George ORWELL, A revolução dos bichos, p. 117.
15
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u35804.shtml Acesso em: 20 out. 2005.12
façam, mas não cumpre.”
16
Objetivos iguais, ou convergentes? Tudo tranqüilo, nenhum
atrito?
Compreendo que os líderes políticos, em visitas oficiais, devam guardar muitas
de suas idéias  no bolso do paletó impecável,  devam sorrir para as câmeras, caprichar
nos  gestos  bem­educados, apertar as  mãos  um do outro com aquela efusividade
incontida durante tempo suficiente para que todos os  fotógrafos  possam registrar a
cena.  Compreendo,  mas  não consigo engolir a pergunta ingênua:  será tudo tão
harmonioso assim,  tão amigável?  Ou será que o campo das  idéias  não é digno lugar
para o campo das batalhas políticas?
George W. Bush tem suas idéias, que se traduzem em atos e fatos: violência e
atrocidade em larga escala. Certo, seria demasiado esperar que Lula, como uma espécie
de Noam Chomsky, cobrasse bom comportamento do todo­poderoso...
Uma idéia puxa outra...  o poder aproxima entre si os  poderosos. Que
“objetivos” são estes a que Bush se referia? Não me parece, por exemplo, que Lula, três
anos  depois daquelas  suas  declarações  contra o mesmo belicoso  Bush,  compartilhe
agora com o presidente norte­americano o ideário “democrático”  por este defendido
com unhas  e dentes, com armas  e mentiras. Objetivos...  Parece­me que Bush revelou
nas  entrelinhas  o que os iguala.  Não são objetivos  objetivos. São bem subjetivos. Os
que decorrem do ideal do poder e do domínio.  Por isso não haverá tensão entre dois
poderosos,  enquanto um não tente “roubar”  o território do outro.  Ou enquanto seus
acordos, mesmo desvantajosos para um dos lados, preserve para o líder dos dominados
algum posto de honra,  um resto de poder, limitado mas  real.  Concessão dos
dominadores para apaziguar os ânimos do chefe dos dominados...
E  a sementidéia de Orwell soma­se  a uma outra.  Leio em Chomsky —  “a
linguagem humana pode ser usada para informar ou desorientar,  para clarificar os
pensamentos  de uma pessoa,  ou para exibir sua habilidade,  ou simplesmente por
brincadeira”.
17
A linguagem que esconde o que diz. Que, ao dizer, esconde o que diz no
próprio ato de parecer revelar.
Intuição e leitura
Lembro­me de ter assistido a uma palestra ministrada pelo Prof. Ruy Nunes, da
Faculdade de Educação da USP,  em meados  da década de 1980.  O tema era a “vida
racional”  ou algo do gênero.  Fiz­lhe uma pergunta.  Queria  saber como se define
“intuição”. O professor despachou­me com uma resposta racionalista, desqualificando,
por tabela, o filósofo Henri Bergson, que via na intuição um método, e que não estava
presente para defender­se... Naquele momento,  intuí que a  intuição não teria  muitas
chances no mundo do pensamento, a menos que o pensamento acolhesse em sua própria
dinâmica a “pobre” intuição.
Intuir é conhecer de modo imediato o que, para  quem intui,  torna­se algo
evidente,  sem necessidade de provas  ou demonstrações. Evidentemente,  nem tudo é
evidente para todos! A intuição revela,  faz  ver (intueri,  do latim, é ver em
profundidade, descobrir) o óbvio, o que “está na cara”. No entanto, nem sempre vemos
o que está à nossa frente, nem mesmo com os olhos abertos.
16
Ibidem.
17
Noam CHOMSKY, p. 92.13
Quem gosta e pratica o xadrez,  sabe que a intuição pertence aos movimentos
internos no tabuleiro de um jogo tido como “racional”. Muitos lances geniais nascem de
uma visão imediata do jogador. Determinada disposição das peças lhe diz uma coisa, e
ele não hesita.  É  sua  mão que pensa, obedecendo ao impulso  da intuição.  O  Grande
Mestre letão Mikhail Tal (chamado por todos o “Mago de Riga”) não se preocupava em
calcular e prever todas  as  variantes  de uma jogada.  Sua magia consistia em ver com
rapidez.  Seus  acertos  eram brilhantes, inesperados. E  seus  erros, fatais! A intuição é
puro risco.  A visão instantânea salta o tempo do raciocínio passo a passo. Em
compensação,  uma intuição equivocada pode conduzir ao precipício. Não à toa o
precipitado por vezes come cru. Mas também é aquele que, antes de todos, petisca!
Vinte anos  depois  daquela  palestra  do Prof.  Ruy Nunes, outro professor da
USP  (da  Faculdade de Letras)  deu­me a resposta,  sem que eu precisasse repetir a
pergunta. Numa entrevista, Mario Bruno Sproviero refere­se à intuição como atividade
que incide diretamente sobre o real,  a montante do raciocínio (isto é,  na direção da
nascente da  própria  razão...), passando por cima dos  exaustivos  emaranhados
conceituais  que o aparelho especulativo pode e quer gerar.  E a  frase lapidar do Prof.
Sproviero: “especular sem intuição é o equivalente a operar sem energia”.
18
Na mesma altura, folheando a Bíblia de Millôr Fernandes, dei com a definição
redonda: “A intuição é uma disciplina que não foi à escola.”
19
Ou seja, a intuição é uma
força heterodoxa mas não enlouquecida.
Por outra parte, como sabemos por experiência, o salto espetacular (e mortal?)
da intuição requer, posteriormente, a mesma  especulação por ela ignorada. Intuir sem,
num segundo momento, raciocinar, sem procurar as palavras (sempre insuficientes para
o intuitivo) que traduzam o intuído,  pode levar à presunção igualmente desgastante. A
energia fulgurante da intuição pode perder­se num suceder de golpes, uns  certeiros,
outros  catastróficos. Como dizia Poincaré,  o renomado matemático francês, convém
provar mediante a lógica o que descobrimos a partir da intuição.
20
A leitura atenta propicia  a intuição.  Entre uma página e outra,  faz­se a  luz.
Estou lendo e, num golpe de vista, compreendo o incompreensível. É difícil descrever o
conteúdo da inspiração e o seu processo.  Inspiração é inspiração, acontece. Momento
de lucidez é momento de lucidez. Uma lucidez que vem do nada... embora nada venha
do nada...
As  intuições  de Clarice Lispector provocam intuições  em seus  leitores. Ela
mesma tinha dificuldades  para se considerar escritora,  supondo­se que escrever seja
fruto de um trabalho intelectual sistemático, vinculado à apreciação “objetiva”, segundo
classificações literárias por todos aceitas. Valorizava Clarice a sua experiência vivida e
instantânea, e julgava a palavra “literatura” detestável, na medida em que representasse
algo de institucional, convencional, contrário à introspecção obsessiva, aos movimentos
de efervescência anímica.
Clarice definia­se como “sentidora”,  como uma  intuitiva.  Sua lei interior
prevalece sobre as  leis  exteriores. Clarice busca  esclarecimentos  a partir de uma
18
Jean LAUAND. Entrevista a Mario  Bruno Sproviero ­ Entropia: “Progresso” para a Destruição!.
Videtur­Letras,  São Paulo­Murcia,  n. 2,  p.  62,  set. 2001. A  entrevista pode ser lida também em:
http://www.hottopos.com/vdletras2/mario.htm Acesso em: 10 nov. 2005.
19
Millôr FERNANDES, A bíblia do caos, p. 313.
20
A intuição colabora com a ciência como no exemplo da descoberta da estrutura espacial do DNA, em
1953.  Entre as muitas estruturas possíveis, que demandariam  do norte­americano James Watson e do
britânico Francis Crick pesquisas demoradas, os dois decidiram começar, guiados por uma intuição, pela
indiscutivelmente mais bonita e elegante, que era a verdadeira como se constatou.14
pesquisa  intensa do seu próprio sentir. Sua  verdade é index  sui,  autodemonstra­se no
próprio escrever.  O  singular prevalece, a individualidade. Os  “estudos  de alma”  são
feitos com toda a alma! Por isso, um romance policial (segundo a lei exterior) como A
maçã no escuro transforma­se numa viagem interior dos  personagens. Por isso, um
romance de amor (segundo padrões de gêneros literários) como Uma aprendizagem ou
o livro dos prazeres torna­se uma sondagem da alma feminina. Por isso uma novela de
denúncia social como A hora da estrela (e em certa medida, a princípio e em princípio,
A paixão segundo GH) torna­se a aventura espiritual de uma nordestina em estado de
graça, no primeiro caso, e o encontro de uma mulher com a essência do real e consigo
mesma. E sempre se trata de uma introspecção que a própria autora empreende para se
conhecer intuitivamente com e nesses personagens: Martim, Lóri, Macabéa, GH...
É  forçoso mencionar, a propósito, que o verbo latino intueor (de onde provém
“intuir”) é depoente,  o que implica,  do ponto de vista  gramatical,  sugestivas
conseqüências —  a ação descrita no verbo é uma ação que, exercida pelo sujeito, nele
mesmo repercute. O verbo loquor, “eu falo”, por exemplo, é sempre um falar­se, pois o
sujeito toma plena consciência de seus  pensamentos  ao comunicar­se com os  outros.
Outro verbo depoente, experior, “eu experimento”,  indica que ao fazer minhas
experiências  eu mesmo me torno expertus,  um perito. Confiteor,  “eu me confesso”,
demonstra que, confessando ao outro o que fiz, confesso­me realmente a mim mesmo.
Meditor, isto é, “eu medito”, torna­se ao mesmo tempo um “sou meditado”, porquanto
eu “me dito”, dito para mim mesmo o que estou pensando a respeito de algo ou alguém
que não sou eu.  Uma  pessoa que medita torna­se meditativa e passa a meditar em si
mesma no mesmo ato em que contempla o exterior.
“Intuir” está incluído neste grupo das ações­bumerangue. Ao intuir algo fora de
mim,  dentro de mim amplia­se a percepção não­raciocinante sobre o meu próprio
mistério, aproximo­me do que acontece “atrás do meu pensamento”, como se expressa
Clarice em vários pontos de sua obra:
Verifico que estou escrevendo como se estivesse entre o
sono e a vigília. Eis  que de repente vejo que há muito
não estou entendendo. O  gume de minha faca  está
ficando cego?  Parece­me que o mais  provável é que
não entendo por que o que vejo agora é difícil:  estou
entrando sorrateiramente em contato com uma
realidade nova  para mim que ainda não tem
pensamentos  correspondentes  e muito menos  ainda
alguma palavra que a signifique: é uma sensação atrás
do pensamento.
21
Clarice não teme as  experiências inobjetivas  e um tanto obscuras. A luz  da
intuição a guiará em meio ao intangível. Ela acredita em sua inclinação para adivinhar.
Esta sua crença não está, paradoxalmente, isenta de incertezas, perplexidades, angústia,
mas ela continua em busca... em busca. E quando encontra,  seja o que for aquilo que
encontra...
O mundo independia de mim — esta era a confiança a
que eu tinha chegado: o mundo independia de mim,  e
não estou entendendo o que estou dizendo, nunca!
nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como
21
Clarice LISPECTOR, Água viva, p. 55.15
poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim?
como poderia eu dizer senão timidamente assim: a vida
se me é.
22
O livro A paixão segundo GH é, na verdade, o relato posterior de uma vivência
mística intensa.
23
A personagem GH viu com o olho intuitivo. O que viu? O certo é que
viu, mesmo que não saibamos ao certo o que viu. Estamos ao seu lado, dentro do quarto
da empregada.  A empregada chamava­se Janair. GH,  a patroa,  não sabemos  quem é
exatamente. GH pode ser Gilda Helena, Gabriela Holanda, Gumercinda Hermes, mas a
narradora não quis revelar­se. Janair é uma “macabéia” negra, que trabalha em casa de
família, que se veste sempre de preto e marrom escuro, metamorfoseando­se num ser
praticamente invisível.  “Janair”  é um nome raro,  que pode ser usado por homens  ou
mulheres. É  neutro.  É  universal. E há  nele algo de hindu...  mas  também algo
relacionado com o deus Jano,  de duas faces contrapostas, e daí a palavra “janela”, em
que o “sair” e o “entrar” dependem do lado onde você esteja.
O  que GH  entrou no quarto e deparou com o outro lado de Janair, e com o
avesso da vida. GH viu. Viu o quê? Viu primeiramente que o quarto da ex­empregada
era uma “caverna”. E viu a barata, “a cara da barata”.
24
Mas isto foi só o começo:
Olhando­a,  eu via  a vastidão do deserto da Líbia, nas
proximidades de Elshele. A barata que lá me precedera
de milênios, e também precedera aos  dinossauros.
Diante da barata,  eu já era capaz  de ver ao longe
Damasco, a cidade mais  velha da terra. No deserto da
Líbia, baratas e crocodilos?
25
Transportada no tempo e no espaço,  ultrapassando os  limites  estreitos do
quartinho da empregada Janair (em quem GH  vislumbra uma rainha africana...),  a
personagem intuitiva prossegue sua viagem. Vende sua alma a Deus (negociação muito
mais arriscada do que vendê­la ao demônio). E Deus deixará que ela veja:
Pois  Ele sabia que eu não saberia ver o que visse: a
explicação de um enigma é a  repetição do enigma.  O
que És e a resposta é: És. O que existe? E a resposta é:
o que existe.  Eu tinha a  capacidade da pergunta, mas
não a de ouvir a resposta.
26
Lendo autores, uns  mais  intuitivos, como Clarice,  outros  menos, posso
adivinhar nas  entrelinhas  perguntas iluminadoras, perguntas  tão fundamentais  que as
respostas se tornam dispensáveis. Ou ainda: posso adivinhar nas mesmas entrelinhas a
resposta para a qual terei de fazer mil perguntas a esmo, na esperança de que uma pelo
menos corresponda à resposta encontrada.
Intuindo perguntas  irrespondíveis  ou respostas  imperguntáveis, pressinto e
sinto,  não imagino,  não penso,  não faço a menor idéia do que estou vendo na clara
22
IDEM, A paixão segundo GH, p. 175.
23
É imprescindível citar o trabalho de Benedito Nunes, leitor privilegiado de Clarice  Lispector.  O
ensaio que escreveu sobre este romance — “A experiência mística de G.H.” — encontra­se em O dorso
do tigre. São Paulo: Perspectiva, 1969, pp. 103­112.
24
Clarice LISPECTOR, A paixão segundo GH, p. 51.
25
Ibidem, p. 109.
26
Ibidem, p. 129.16
evidência da clarividência.  E, no entanto,  estou vendo para além das  idéias  e da
imaginação. Pois intuir é ver o invisível.
Outro intuitivo, o poeta Manoel  de Barros, coleciona  lampejos  dessa ordem.
Num poema chamado “Seis  ou treze coisas que eu aprendi sozinho”
27
,  enumera
descobertas:
[...]
Insetos levam mais de cem anos para uma folha
sê­los.
[...]
Mariposas  que pousam em osso  de porco
preferem melhor as cores tortas.
[...]
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos  braços  da formiga o
horizonte diminui.
[...]
Besouro só entra em amavios se encontra fêmea
dele vagando por escórias...
São descobertas  absolutamente inesperadas. Metafísica  pantaneira. Mística
fazendeira. O poeta ficou horas contemplando a natureza e flagrou esses movimentos,
consciente de seu teor:
Todas  estas  informações  têm soberba  desimportância
científica — como andar de costas.
E  o leitor que intui  começa a  andar de costas, a  ler de frente para  trás,
contrariando uma determinada racionalidade. Seu caminhar “contrário”  contraria a
rigidez do conhecimento reducionista,  os  lugares­comuns, a escravidão da rotina, a
estupidez das verdades mortas. Andando de costas vai esbarrar no que não viu, no que
ninguém poderia ver. A intuição abre acessos novos e diretos a níveis da realidade que
pareciam inexistir (afinal, estávamos de costas para eles!).
Ao caminharmos  de forma  não­costumeira,  subitamente podemos sentir o
sentido da vida.  Não só o meu sentido da vida, ou o sentido da vida do autor, mas  o
sentido da vida  do próprio ser humano. Começamos  a  tocar aquilo que ainda  não
alcançamos, porque estávamos  nos  distanciando dele,  na ilusão de que seguíamos  na
direção correta,  no caminhar sempre em frente,  considerado o único verdadeiro
caminhar progressivo.
Leitura ética
Caminhar de costas muito tem a ver com ir ao princípio e aos princípios. Neste
caminhar, podemos encontrar uma aparentemente improvável relação entre criatividade
e ética.
Domenico de Masi (por muitos  na  vida  acadêmica desprezado,  a meu ver
injustamente) apresenta oito noções de criatividade:
28
Criatividade no sentido teológico da criação ex nihilo.
27
Manoel de BARROS, O guardador de águas, pp. 37­53.
28
Cf. Domenico DE MASI, Criatividade e grupos criativos, pp. 464­465.17
Criatividade ligada à idéia de inovação e de antecipação do futuro.
Criatividade como rebeldia, iconoclastia e, até certo ponto, loucura.
Criatividade prometeica, em que a mente humana rouba o fogo divino e
faz descobertas geniais.
Criatividade como talento para vencer na vida, desempenhar­se bem na
carreira profissional etc.
Criatividade no sentido mítico,  ligada à  idéia de a  vida  se renovar
cíclica e incessantemente.
Criatividade remetendo ao interesse estético,  à imaginação,  à
extravagância, algo à la Oscar Wilde.
Criatividade como manifestação e resultado do amor —  sentimento,
iniciativa, inspiração!
A noção que quero acrescentar, pensando na dimensão ética da leitura, é a que
relaciona criatividade e compromisso. Cada ser humano, pelo fato de estar vivo, recebe
em sua consciência um convite silencioso: para realizar­se como ser humano em todas
as suas dimensões (homo somaticus, homo sapiens, homo volens, homo loquens, homo
faber, homo aestheticus, homo politicus, homo socialis...) precisa pôr em jogo suas
capacidades, criando com outras  pessoas  espaços  de convivência humanizadora.  Há,
portanto, um chamado ao engajamento para que, individual e coletivamente, projetemos
e realizemos  nossas  aspirações  mais  profundas, tudo o que as palavras  “felicidade”,
“amor”,  “verdade”,  “gratidão”,  “generosidade”,  “perdão”,  “virtudes”, “paz”,  entre
outras, suscitam em nós para além dos discursos superficiais ou hipócritas.
Recentemente,  abordou­me um mendigo em pleno centro da cidade de São
Paulo.  Hora do almoço.  O  homem com roupas  velhas  e sujas  (se é que ainda
poderíamos  chamar de roupas  aqueles  andrajos)  pede­me uma ajuda  para almoçar.
Enquanto abro minha carteira, ele faz a observação inesperada:
— Hoje é o dia mais importante da minha vida.
Não ouvi  direito,  peço para que repita  o que acabara  de dizer. Ele repete, e
acrescenta:
—  Porque hoje é o meu aniversário.
Dou­lhe a ajuda, e lhe desejo um “feliz  aniversário”.  Ouço sua  resposta,
pausada e firme:
— Muito obrigado, muito obrigado, muito obrigado.
Deveria eu agradecer­lhe três  vezes  mais. Fui eu o presenteado.  Lendo suas
palavras soltas no ar, o tríplice agradecimento estampado agora em minha consciência,
vejo que uma sementidéia foi lançada. Ele estava comemorando (e compartilhando com
alguém que lhe era estranho...)  o que há de mais  importante na vida de cada ser
humano, seja quais forem as suas circunstâncias: o fato de ter nascido. Portanto, já não
éramos dois estranhos. Tínhamos criado naquele momento, naquele espaço conturbado
da cidade anônima,  uma relação humana,  passageira mas  extremamente significativa,
com alto valor simbólico, com forte conteúdo ético.
Anniversarius,  aquilo que volta (versum) a cada ano (annus).  A cada ano
retorna à nossa consciência (pelo menos na data do nosso aniversário) a constatação de
que estamos vivos, e que esta vida não é uma vida qualquer; por isso acrescentamos em
nossas  congratulações  espontâneas, talvez  sem pensar,  a palavra  “feliz”  —  “feliz18
aniversário”.  Feliz retorno nosso à consciência de que estamos  vivos, não obstante as
infelicidades  da vida.  Vivos  como seres  humanos, autoconscientes  de nosso fenômeno
humano, desta realidade humano­vivente carregada de possibilidades.
A palavra “felicidade”, problematizada, aquele “impossível necessário” de que
fala Julián Marías em seu A felicidade humana, não é uma palavra qualquer (e existe
uma palavra qualquer para o leitor criativo?).
29
Trata­se de criar e recriar as condições
de minha própria existência em consonância com a existência dos que me rodeiam, em
busca  de um ideal de unidade,  de harmonia.  Dificílima tarefa,  tarefa ética  por
excelência.  Que requer minha fidelidade criativa a valores  que me solicitam:
solidariedade, tolerância, justiça etc.
O conto Felicidade clandestina de Clarice Lispector faz experimentar a relação
entre felicidade, leitura e ética. Uma das meninas da história (estamos em Recife) é filha
do dono da livraria. E é uma menina vingativa, cruel e sádica. A narradora, a menina
Clarice,  devoradora de histórias, torna­se vítima desta  crueldade quando a outra  lhe
promete emprestar As reinações de Narizinho — “um livro grosso, meu Deus, [...] um
livro para se ficar vivendo com ele, comendo­o,  dormindo­o” —,
30
promete, mas  vai
adiando com desculpas mentirosas o empréstimo ansiosamente desejado:
Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer.
Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de
tarde,  mas  você só  veio de manhã,  de modo que o
emprestei  a outra  menina.  E eu,  que não era dada a
olheiras, sentia as olheiras  se cavando sob os  meus
olhos espantados.
31
A protagonista não consegue acreditar em tamanha crueldade. Até que um dia a
mãe da  menina  cruel  quis  entender o que estava acontecendo,  que ritual diário era
aquele. E essa “mãe boa” descobriu, horrorizada, a perversidade da filha. O livro nunca
fora  emprestado.  Nem sequer tinha  sido lido pela proprietária.  Por decisão da mãe o
livro agora ficaria com aquela que o conquistou pela humilde perseverança,  durante o
tempo que quisesse:
Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí
andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso
com as duas mãos, comprimindo­o contra o peito. [...]
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o
tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois
abri­o,  li  algumas  linhas  maravilhosas, fechei­o de
novo,  fui  passear pela casa, adiei ainda mais  indo
comer pão com manteiga,  fingi que não sabia onde
guardara  o livro,  achava­o,  abria­o por alguns
instantes. Criava as  mais falsas dificuldades  para
aquela coisa  clandestina que era a felicidade. A
felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece
que eu já pressentia.
32
29
Cf. Gabriel PERISSÉ, O leitor criativo, pp. 29­41.
30
Clarice LISPECTOR, Felicidade clandestina, p. 10.
31
Ibidem, p. 11.
32
Ibidem, p. 12.19
A clandestinidade da felicidade está em que ela se oculta de nós, foge de nós —
e nós também dela nos escondemos. A felicidade tem algo de ilegítimo, tal a dificuldade
de adquiri­la,  sua  impossibilidade, tal  a  descrença que nos  apodera —  a felicidade é
alcançável?
No conto de Clarice, a  ânsia de ler,  de ser feliz,  de amar (lembrando a frase
lapidar de Santo Agostinho, para quem felicidade é amare et amari, amar e ser amado),
enfrenta o mal. O mal é o obstáculo. As mentiras da menina que detém o livro proibido
fazem a linguagem produzir sofrimento.
Mas o conto tem um final feliz:
Às  vezes  sentava­me na rede,  balançando­me com o
livro aberto no colo, sem tocá­lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais  uma  menina com um livro: era uma
mulher com o seu amante.
33
A felicidade no ato de puro amor entre menina e livro. Este “êxtase puríssimo”
é fruto de uma conquista. Houve sacrifício, empenho digno:
Já contei o sacrifício de humilhações  e perseveranças
pelo qual passei,  pois, pronta para ler Monteiro
Lobato, o livro grosso pertencia a uma menina cujo pai
tinha uma livraria. A menina gorda e muito sardenta se
vingara  tornando­se sádica e,  ao descobrir o que
valeria para mim ler aquele livro,  fez  um jogo de
“amanhã venha em casa que eu empresto”.
34
A perversidade e o sadismo da  menina  são o mal que oprime,  escondendo­se
sob a máscara da inocência. A verdadeira inocência se submete ao sacrifício. Não lhe
interessa o sofrimento pelo sofrimento.  Sua criatividade consiste em abrir­se
corajosamente para  a possibilidade de um desfecho ético,  ou até mesmo para um
desfecho “absurdo”,  milagroso... tal como Abraão levando Isaac para o sacrifício,
segundo a insuperável reflexão de Kierkegaard.
35
Não há perversidade (ainda que por
Deus  permitida) que resista  à  perseverança.  O  perverso vive no desespero,  e a
esperança de quem ama não morre.
O  livro valia muito para a menina Clarice.  Sua  fidelidade a este valor é
criativa. Entrando no jogo perverso, submetendo­se ao sadismo com a força (virtus) de
quem não desiste do que ama, a personagem não beneficiada pelo destino (um pai dono
de livraria), pela justiça recebe mais do que pedira. O merecimento conquistado graças
à dedicação.
A criatividade como esforço para dialogar com a situação desfavorável detecta
ou acaba produzindo brechas  a  fim de que o bem não seja esmagado pelo ideal do
egoísmo,  da posse e do domínio. O sadismo vingativo da menina do livro consistia em
transformar a  outra  em mero joguete. O  livro torna­se instrumento de tortura.  O
sadismo é infracriador,  e por isso antiético.  Já  a  criatividade da menina Clarice
vislumbrava no livro, mais  do que o objeto de desejo e de uso,  um ser com quem
pudesse dialogar.  O  livro enquanto objeto pertencia à  proprietária. O  livro enquanto
âmbito, enquanto campo de jogo, enquanto fonte de iniciativas, enquanto interlocutor, é
33
Ibidem.
34
Clarice LISPECTOR, A descoberta do mundo, pp. 721­723.
35
Cf. Søren KIERKEGAARD, Temor e tremor, pp. 251­327.20
o “amante”  da leitora,  que se torna mulher, que amadurece —  conseqüência  de seu
aperfeiçoamento ético.
A leitura ética desperta minha  sensibilidade para os  valores. Não são
necessárias  fábulas  moralistas. Estabeleçamos  com a história  uma  relação criativa,
lúdica,  interessada (e não interesseira).  Tenciono,  a propósito,  em outro momento,
escrever sobre o método lúdico­ambital,  criado por Alfonso  López Quintás,
36
método
com o qual a nossa sensibilidade ética é aprimorada mediante a experiência literária.
Eu sei lembrar?
A leitura  nos  introduz,  por fim, no mundo da memória.  A memória  é a
consciência do que não passou: o passado é o que não passa.
Aquilo que já foi esquecido,  aquelas  cenas  e pessoas  que efetivamente já
passaram nós  não conseguiremos identificar ou evocar. Não temos consciência do que
não vem à memória, ainda que possa haver, digamos, “vestígios” do passado perdidos,
flutuantes  na memória, “corpos”  anônimos  vagando sem conexão com o nosso
cotidiano.
Já o passado como passado, como o “meu passado”, realidade não­presente a
que me refiro, sobre a  qual  escrevo, da qual me lamento ou vanglorio,  à qual estou
voluntariamente vinculado ou da qual gostaria  de me livrar —  este passado é o que
permanece na atualidade, é aquilo com que me encontro mediante a recordação.
O passado atualizado em minha consciência presente torna­se presente.
O passado do presente é o presente do passado.
O  que a memória traz  nem sempre merece ser recuperado.  A  memória é
seletiva,  mas  não necessariamente criteriosa. Temos  dificuldades  para lembrar o que
gostaríamos  de lembrar e, não raramente,  somos  assediados  por imagens  e nomes
indesejáveis, “recados” e “recibos” do passado, imagens que brotam num sonho, numa
conversa, no ato da leitura.
Não nos  apeguemos  à recomendação de que a prática e o hábito da leitura
contribuem para exercitar a memória.  Tal “vantagem” pouco interfere em nossa
alfabetização existencial. Ler para memorizar melhor datas e dados, nomes e resumos, é
instrumentalizar a leitura, e de certo modo reduzi­la a uma função menor, operacional,
e até certo ponto descartável.
Na leitura, e não somente mediante a leitura, a memória ganha corpo. No ato
mesmo de ler, mergulhados  na livrosfera,  vêm­nos  à tona realidades  impressas,
marcadas no fundo profundo, naquela “área” do espírito a que temos difícil acesso, mas
que se desprendem deste fundo,  e, voláteis, voam agora dentro de nós, talvez
semelhantes a fantasmas inofensivos, ou a anjos benévolos, ou a demônios torturadores.
Assombrados, nem sempre percebemos como a leitura suscitou essas aparições.
Estou relendo A metamorfose. A certa altura,  ouço a tosse de Frau Samsa. A
mulher está sufocada.  Esta tosse ecoa em minha memória,  evocando outras tosses  de
outros tempos. A tosse de meu pai fumante. A tosse do amigo que morreria de câncer.
A tosse nervosa daquele professor.
36
Cf. Alfonso LÓPEZ QUINTÁS, La formación por el arte y la literatura. Madrid, Rialp, 1993; IDEM,
Para comprender la experiencia estética y su poder formativo. Estella (Navarra): Verbo Divino, 1991;
Gabriel PERISSÉ, Filosofia, ética e literatura. São Paulo: Manole, 2004.21
A tosse de papel  sugere lembranças. A tosse literária precisa das tosses  reais,
esquecidas, para que possa  “tossir”  na leitura.  E  na  medida  em que as  tosses  reais
esquecidas são lembradas  por força  da tosse ficional de Frau Samsa,  esta igualmente
ganha força em minha consciência. Posso ouvi­la, compõe o quadro sufocante da vida
de Gregor Samsa.  A memória  é repetitiva: possa  ouvir de novo a tosse angustiada, a
tosse kafkiana.
37
Havia uma pedra no meio do caminho, havia uma pedra no meio do caminho,
no meio do caminho havia uma pedra,  havia uma  pedra...  e o poeta que caminhava
jamais  esquecerá este fato.  O  memorável  se expande também na vida do leitor. A
memória tem a ver com a identidade. É a sua “base”.  Lembrando o que li e vivi,
lembro­me de quem fui, e, por conseguinte, de quem sou. A memória é toda a bagagem
de que dispõe o nômade, o homo viator, o caminhante. A precariedade da vida (a pedra
no meio do caminho) se aceita e ao mesmo tempo se contorna com a capacidade de
lembrar.
Pensadores  antigos  afirmavam e reafirmavam que a memória  humana, não
obstante ser dádiva dos  deuses, com a  qual podemos lembrar que somos  humanos e o
que isso significa no conjunto do cosmos, com a qual recordamos que lugar é o nosso
nessa trama, é igualmente dom precário: memoria hominis hebes. A memória humana é
embaraçada, embotada, inepta, obtusa, fraca.
O  fortalecimento,  o cultivo da memória,  na leitura,  pede o exercício da
releitura.  Não deixar cair no esquecimento o que é importante,  o que é essencial.
Manter a lembrança acesa “ante a entrópica tendência ao embotamento”.
38
Não podemos  esquecer o fundamental.  Não esquecer, por exemplo,  que a
palavra “esquecer”  provém do latim vulgar excadescere,  precedido pelo verbo
excadere, “cair para fora”  (ao esquecer, algo sai da  minha  memória?), escorregar,
desfalecer,  perecer. Excadere tem a ver com o verbo cado,  de onde deriva a palavra
“cadáver”. Esquecer é, de certo modo, cair no caminho e morrer um pouco.
Recordando a noção de verbo depoente,  convém não esquecer uma  segunda
“mera curiosidade etimológica” — o verbo latino obliviscor (do qual nasceram o verbo
espanhol e nosso também, “olvidar”), que significa esquecer, perder a lembrança, é uma
ação que repercute no próprio esquecedor.  Ao esquecer de algo,  esqueço de algo em
mim mesmo, e algo de mim eu perco igualmente, algo de mim cai para fora de mim. O
desmemoriado em estágio avançado pergunta­se “quem sou eu?”  (pergunta filosófica
por excelência, diga­se de passagem), estágio a que chegou Kant, por ironia da história,
quase certamente vítima do mal de Alzheimer.
39
A  releitura é condição do aprendizado inesquecível.  “Reler”  é o verbo da
memória, da retomada. O palíndromo “reler” lembra­nos que, ao retomar o caminho de
volta, lembraremos melhor o que já sabíamos, revitalizaremos a nós mesmos. Relendo,
relembro o que há  pouco aprendi (e já esquecera), e imprimo em meu ser a idéia, a
imagem,  a palavra, o argumento,  a  rima. E  a cada  nova idéia, imagem,  palavra etc.,
imprimo um crescimento em meu ser, um aprofundamento da minha consciência.
37
Subitamente, lembro o que jamais presenciei: a tosse do próprio Kafka, vítima da tuberculose.
38
Luiz Jean LAUAND, Provérbios e educação moral – a filosofia de Tomás de Aquino e a pedagogia
árabe do Mathal, p. 95.
39
Kant terminou seus dias sem saber escrever o próprio nome, como relata Thomas de QUINCEY, em:
Os últimos dias de Immanuel Kant. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.22
O leitor criativo, reflexivo e meditativo é um leitor que tende a não esquecer. E
não poderíamos  deixar de lembrar as  últimas  páginas  de Fahrenheit 451,  quando
Montag encontra os homens­livros, cuja identificação é tão profunda com o texto lido:
— [...] Todos nós possuímos memória fotográfica, mas
passamos  a  vida aprendendo a bloquear as coisas  que
estão realmente lá dentro.  Simmons  trabalhou nisso
durante vinte anos  e agora dispomos de um método
pelo qual podemos evocar tudo o que já tenhamos lido.
Montag, algum dia você gostaria de ler a República de
Platão?
— Claro!
— Eu sou a República de Platão.  Gostaria de ler
Marco Aurélio? O  senhor Simmons  é Marco Aurélio.
[...]  Quero que conheça Jonathan Swift, autor daquele
pernicioso  livro político, As  viagens  de  Gulliver! E
esse sujeito aqui  é Charles  Darwin,  e este aqui é
Schopenhauer, este outro é Einstein, e este aqui ao meu
lado é o senhor Albert  Schweitzer, um filófoso
realmente muito gentil.  Estamos  todos  aqui,  Montag.
Aristófanes, Mahatma Gandhi,  Gautama Buda,
Confúncio, Thomas Love Peacock, Thomas Jefferson e
o senhor Lincoln,  se você quiser.  Somos  também
Mateus, Marcos, Lucas e João.  [...] Somos  todos
fragmentos  e obras de história, literatura e direito
internacional. Byron, Tom Paine, Maquiavel ou Cristo,
tudo está aqui.
40
A memória cria identidade. Os leitores adotam o nome dos autores. São eles de
certo modo os co­autores dos textos, escritores imortais. Sua leitura e contínua releitura
impulsionam,  são um ímpeto a favor da união entre passado,  futuro e presente num
tempo sem tempo do encontro com o livro em forma de ser humano.
Metamorfosear­se em livro.  Memorizar um livro e memorizar­se em livro.
Como se se tratasse de uma representação teatral. Minha memória assume dimensões
tais que eu, leitor, tal como o ator, represento uma personalidade viva e, incorporando­
a, dou vida nova a essa personalidade.
Em contrapartida,  conforme o pensamento tantas  vezes  citado de George
Santayana, “aqueles que não conseguem lembrar o passado, estão condenados a repeti­
lo.
41
Este “não conseguir lembrar”, interpretado de modo radical, significa incapacidade
real de lembrar. Não uma passageira amnésia, mas um dramático “não­conseguir” que
torna a pessoa incapacitada.
A sentença em inglês  “those  who cannot  remember”, numa leitura  simples  e
imediata,  que é normalmente a dos  que citam a frase do pensador norte­americano,
indica a necessidade de alertar outras pessoas sobre a necessidade de aprenderem com a
experiência  para não voltarem a errar —  vence o clichê,  vence o desejo (legítimo) de
40
Ray BRADBURY, Fahrenheit 451, p. 186­187.
41
George SANTAYANA, Life of reason, p. 284.  (A frase em inglês: “Those who cannot  remember the
past are condemned to repeat it.”)23
oferecer um conselho baseado no bom senso. Se ontem eu tropecei numa pedra, hoje,
lembrando que há uma pedra no meio do caminho, tomarei cuidado para não tropeçar.
Contudo,  a frase aceita pelo menos  três traduções. Ou a primeira já usada,
“aqueles  que não conseguem lembrar”,  que,  em português, permite entender que a
pessoa não consegue porque é um tanto esquecediça,  mas  há de conseguir.  Quando
voltar a enxergar a pedra no meio do caminho haverá de lembrar a “lição” do passado.
Ou a  tradução “aqueles  que não podem lembrar”, pois  não podem hoje,  não
podem por enquanto, podiam e agora não podem, mas poderão um dia... Um dia serão
mais  prudentes, mais  atentos, pondo a barba de molho por terem escarmentado em
cabeça alheia, ou na sua própria cabeça...
Ou,  numa terceira possibilidade de tradução, a frase: “aqueles  que não sabem
lembrar”, ou seja,  aqueles  que literalmente não têm condições  de lembrar,  porque
ignoram o que é lembrar, desconhecem o que lembrar, não sabem como lembrar; nunca
souberam antes  e, não sabendo agora, portanto (carentes  de um passado pessoal ou
social de experiência,  de conhecimento),  viverão guiados  pelo instinto do imediato,
pelos automatismos, que podem até ser muito originais, mas  de uma originalidade
inconsciente e inconseqüente, desligada  do processo de crescimento! Hoje poderei  ser
tão ou mais  original quanto no passado... mas como saber que estou sendo original se
do passado nada sei?
Sem saber,  sem consciência do que somos  como indivíduos  e/ou coletividade,
sem consciência  dos  valores  do passado,  das  crenças  e vivências  do passado,
repetiremos o que no passado já se fez. Repetição como sinal de falta de criatividade, e
decorrente incapacidade para  realizar a superação.  Mais  ainda,  inconsciência para o
fato de que o caminho prosseguiu, e aquela pedra que estava no meio do caminho ficou
para trás! O  que não impede que novas  pedras surjam à  medida  que continuarmos
caminhando.
A repetição do passado significa permanecer preso a um tempo que já passou,
sem ter consciência de que ele já passou! Não me darei conta de que o presente exige
novas  atitudes  (a partir da  transformação das  antigas  atitudes),  pois não sei que o
presente é o que veio depois  do passado. Não tenho um passado a que possa recorrer
para entender o presente, e aperfeiçoar­me dentro dos novos contextos.
Sem saber o que lembrar,  olharei o presente como se este fosse uma realidade
incausada, sem antecedentes, desligada da história. Sem conhecer os antigos contextos,
que geraram os atuais, encaro o presente como se tudo acontecesse pela primeira vez, e
reagirei com a “inocência”  perpétua de quem não sabe que pode e deve “evoluir de
opinião”, como se cantava numa velha marchinhas de Carnaval.
Sem ter um passado para lembrar, perco de vista a  fonte de mudanças que ele
representa. Sem passado, não posso ter futuro, careço do obsoleto para criar o inédito.
Meu futuro será  sempre um repetido passado... ou um eterno presente que sempre
retorna, sem que desse eterno retorno eu tenha conhecimento.
Valorização do passado como realidade a ser retida em nome do futuro, como
inspiração para mudanças, adaptações e aprimoramentos — este é o sentido da frase de
Santayana.
Se eu me recordo do passado, pois tenho um passado, não estou condenado a
repetir o passado, isto é,  a continuar alheio a tudo o que podemos  fazer para dar
continuidade a uma história! Não estou condenado, estou convidado a ser coerente com24
o passado,  ultrapassando­o.  Pois  também é repetir o passado querer progredir com a
adoção de mudanças absolutas, como se nada tivesse acontecido ontem.
O “conselho” de Santayana não é para que leiamos livros de história, a fim de
evitar os erros  de Napoleão,  por exemplo. Poder e saber lembrar quem foi e o que fez
Napoleão permite­me tomar consciência de que jamais  haverá um novo Napoleão.
Repetir o passado de Napoleão é não ter condições  de lembrar que Napoleão viveu, e
viveu num outro mundo, que no entanto gerou o mundo em que vivemos hoje.
Logo, a leitura da história, das histórias reais ou fictícias (lembrando o quanto
de fictício há nas  histórias  reais...),  é um mergulho naquilo que somos. Nós  somos  o
passado do qual temos consciência. Somos Napoleão, porque já fomos Napoleão. Não
precisamos (nem podemos) ser Napoleão outra vez. E esta é a liberdade de quem sabe
lembrar, de quem lembra o que sabe, de quem consegue lembrar o passado, sem recair
em numa veneração supersticiosa do passado. Recordando quem sou,  posso continuar
meu caminho de transformações  diárias, para tornar­me,  um dia,  seguindo a
recomendação do poeta Píndaro, quem de fato eu sou.
Sempre e de novo, a leitura
Se sobre a leitura nunca se fala demais, talvez eu tenha escrito de menos. Esta é
a sensação, normal aliás, que se experimenta no momento da “conclusão”.
Jacques Attali,  no verbete “livro”  do seu Dicionário do século XXI,  diz  que
hoje, levando­se em conta toda a população do mundo, um pouco mais de um bilhão de
pessoas lerá  pelo menos  uma obra literária  em toda  a sua  existência individual.  (Isto
supõe que é bem inferior a um bilhão o número de pessoas que realmente têm a leitura
como prática existencial, ao menos  quanto às  obras literárias.) E os muitos bilhões  de
indivíduos alheios a essa experiência provavelmente não sentem a menor falta daquilo
que mal podem conceber ou imaginar. Não me sinto nem um pouco aflito, por exemplo,
com o fato de jamais ter experimentado um alimento saborosíssimo chamado ilutix, e
desafio quem saiba  explicar o quanto é saborosa essa iguaria... se é que alguém sabe
lembrar como se prepara esse (ainda) inexistente prato.
Observamos a leitura, e a leitura observada nos diz em que ela consiste, quais
são as suas possibilidades, o que podemos “ganhar” se nos tornarmos leitores criativos,
e conscientes  de que somos  leitores criativos, se cultivarmos  em nós  as  condições
exigidas  para ser leitores  criativos; mas  também nos  diz,  a  leitura  observada,  o que
“perdem”, em termos  existenciais, aqueles  que,  cientes  ou não, voluntária ou
involuntariamente, estão excluídos da livrosfera.
No livro Imagens  do pensamento, de Walter Benjamin,  há uma parábola
intitulada “Omelete de amoras”;
42
interpretá­la pode oferecer uma  síntese do que
consideramos  neste ensaio em torno da leitura criativa como ponto de convergência
entre exercício da imaginação,  semeadura de idéias, desenvolvimento da intuição,
aperfeiçoamento da sensibilidade ética e prática da memória.
Uma “velha história”, avisa o autor, dirigindo­se aos leitores que gostariam de
provar figos  ou um prato especial qualquer.  E utiliza a forma  tradicional  de iniciar
velhas histórias: era uma vez um rei poderoso e infeliz. Certo dia, este rei chamou seu
cozinheiro particular e lhe exigiu, sob pena de condená­lo à morte, que preparasse uma
omelete de amoras, “tal qual saboreei há  cinqüenta anos, em minha mais  tenra
42 Walter BENJAMIN, Obras escolhidas II – Rua de mão única, pp. 219­220.25
infância”, deliciosa comida cuja receita se perdera com a morte da cozinheira, mas cujo
sabor permanecera em sua memória como sinal da imorredoura esperança, mesmo em
circunstâncias  dificílimas  (naquela altura ele e seu pai fugiam dos  inimigos). Se
cumprisse aquele desejo, o súdito tornar­se­ia herdeiro do trono.
Entre o julgamento sumário e a recompensa  desproporcionada,  o cozinheiro
manteve­se sereno, e com este discurso se dirigiu ao soberano deprimido:
— Majestade, podeis chamar logo o carrasco. Pois, na
verdade,  conheço o segredo da omelete de amoras e
todos os ingredientes, desde o trivial agrião até o nobre
tomilho.  Sem dúvida, conheço o verso que se deve
recitar ao bater os  ovos  e sei  que o batedor feito de
madeira de buxo deve ser sempre girado para a direita
de modo que não nos  tire,  por fim,  a recompensa de
todo o esforço.  Contudo,  ó rei,  terei de morrer. Pois,
apesar disso,  minha omelete não vos  agradará  ao
paladar. Pois como haveria eu de temperá­la com tudo
aquilo que,  naquela época,  nela desfrutastes: o perigo
da batalha e a vigilância do perseguido, o calor do fogo
e a doçura  do descanso,  o presente exótico e o futuro
obscuro.
O  cozinheiro atribui às  circunstâncias  concretas  do episódio vivido pelo rei,
quando criança,  tanto quanto à técnica  culinária,  o sabor de esperança  que ele
experimentou desde o primeiro bocado de omelete de amoras. Ou melhor, o verdadeiro
segredo da omelete não está apenas  no modus  operandi;  reside na  combinação dos
elementos  e procedimentos  culinários  com todos os  demais  “ingredientes” vitais  que
contribuíram para aquela experiência, conforme contara o rei ao fazer o seu pedido:
Deves  me fazer uma omelete de amoras  tal qual
saboreei há cinqüenta anos, em minha mais  tenra
infância. Naquela época meu pai travava guerra contra
seu perverso vizinho a oriente. Este acabou vencendo e
tivemos de fugir. E fugimos, pois, noite e dia, meu pai
e eu,  até chegarmos  a uma  floresta  escura.  Nela
vagamos e estávamos quase a morrer de fome e fadiga,
quando, por fim,  topamos  com uma choupana.  Aí
morava  uma vovozinha,  que amigavelmente nos
convidou a descansar, tendo ela própria, porém, ido se
ocupar do fogão,  e não muito tempo depois estava  à
nossa  frente a omelete de amoras. Mal tinha levado à
boca  o primeiro bocado, senti­me maravilhosamente
consolado,  e uma  nova  esperança entrou em meu
coração.
O  segredo completo para a preparação da omelete de amoras exige condições
que tornam aquela omelete, mais  do que uma coisa a ser obtida a qualquer preço, um
âmbito em que se entrelaçam realidades  e valores, sentimentos  e lembranças: a
hospitalidade,  o medo, a fome, a fadiga, a sensação de derrota, a alegria de encontrar,
no meio da floresta escura  (como não evocar a “selva oscura”  de Dante?),  uma
choupana, antítese do palácio, lugar do refúgio inesperado e providencial...26
A felicidade clandestina, a impossivelmente necessária felicidade está toda
concentrada nesta imagem da omelete de amoras, a omelete que surgiu num passado
que não passou, mas cuja presença no presente o rei tanto deseja. A omelete de amoras
é o amor em omelete. Ele a quer saborear novamente. Sendo rei, tudo pode, por que não
exigir a felicidade?
Denkbilder,  imagens  do pensamento, figuras  do pensamento, quadros  do
pensamento.  O  relato de Walter Benjamin obedece a esta  proposta de manifestar os
seus  pensamentos  em imagens, desenhos, descrições. Neste pequeno conto, fábula ou
parábola, há uma idéia transformada em relato. O relato, aparentemente, não pretende
convencer ninguém.  Age como testemunho e convida o leitor a  ser,  por sua vez,
testemunha. A idéia, das mais simples, permanece incompreensível sem a sabedoria —
o ideal do poder tem limites, vivido pelo rei, é irrealizável. Por mais poderoso que seja,
o rei não pode “mandar fazer” a felicidade. Esta é fruto mais do que produto.
Imaginemos a omele de amoras.
Um prato nada sofisticado,  mas, para  o rei,  carregado de sentido, levando­se
em conta as  circunstâncias em que a experimentou em sua tenra  infância.  Um prato
nada palaciano,  mas  para rei e príncipe representou uma possibilidade de resistir ao
inimigo,  superar o infortúnio,  recomeçar a luta.  Há nessa omelete,  como realidade
inobjetiva, um conteúdo ético. A omelete foi feita por mãos generosas e desinteressadas.
A omelete de amoras  é uma omelete doce,  pois doce é a solidariedade nas  horas
incertas.
A história da palavra “omelete” também é sugestiva  do ponto de vista
imagético. Nasceu do francês omelette (registrada em meados  do século XVI),  que é
uma alteração de amelette (século XV),  proveniente do francês  antigo alemelle
(“pequena lâmina de faca ou de armas”), remetendo ao latim lamella (“pequena lâmina
de metal”,  em referência  à lamina,  de facas  e espadas). A omelete, portanto,  é uma
“lâmina”  delgada  de ovos  cozidos  (a passagem de amelette para omelette deve­se à
provável influência do “o” de oeuf, “ovo”).
O simbolismo geral dos instrumentos cortantes aplica­se aqui: o princípio ativo
modificando, cortando,  furando a matéria  passiva.  Em um contexto de guerra,  a
omelete evoca a  lâmina da espada salvadora, da retomada da  luta,  da  bravura,  do
poder.  A espada  simboliza a força lúcida que ataca os  problemas  e dificuldades  com
energia. A ação vencerá, antes de mais nada, o pessimismo.
Doce como a solidariedade e laminada como a espada  (e não desprezemos o
“vermelho sangue”  das  amoras),  a imagem da omelete não é inocente —  transcende,
afinal, o mero gosto. Aplacando a fome, sugere que o mundo é recuperável pela virtude
(virtus, força orientada para o bem). E é desta virtude, enfim, que o soberano tem fome.
Sua vida como rei tornou­se melancólica,  sem sentido, não obstante o acúmulo de
poder. O poder que possui é, no fundo, falso. E é isto o que o sábio cozinheiro faz o rei
perceber.
A omelete não “agradará ao paladar” do rei, na ausência do tempero essencial:
“o perigo da batalha e a vigilância do perseguido,  o calor do fogo e a doçura do
descanso,  o presente exótico e o futuro obscuro”.  O  de que o rei sente falta,
verdadeiramente?  O  “futuro obscuro” faz  intuir que somos  livres  para recriar nossa
situação. As dificuldades não são a última palavra.
O presente exótico, a omelete de amoras, é exótico porque vem de fora, de uma
outra realidade,  mas  traz  vaticínios, e a intuição os  capta no primeiro bocado de
omelete.  A vovozinha  que preparou o alimento restaurador é fisicamente frágil,27
anônima habitante da floresta escura,  mas conseguiu reerguer o moral  do rei  e do
príncipe. Oferecendo a  doçura  do descanso, dando­lhes  abrigo,  abriu possibilidades
numa situação aparentemente perdida e desesperadora.
É disso que verdadeiramente tem fome o soberano deprimido.  A melancolia,
como a analisa Julia Kristeva, é “um abismo de tristeza, dor incomunicável [...], até nos
fazer perder o gosto por qualquer palavra, qualquer ato, o próprio gosto da vida”.
43
O
paladar para um novo sentido.  Um novo sentido para  sua vida era  o que desejava o
soberano poderoso­impotente.  Buscou­o na  memória,  no passado,  mas  o passado é
aquilo que não podemos  repetir,  a menos  que queiramos  negar a realidade do próprio
passado.
Cinqüenta anos se passaram, e o rei quer recuperar, na omelete inesquecível, o
que teria perdido ao longo do tempo. A omelete de amoras, tal como foi servida naquele
dia, naquele dia, digamos assim, “cumpriu seu destino”.
E o cozinheiro,  disto sabedor,  experiente na arte de preparar alimentos  que,
além da matar a fome física,  reúnem em si ingredimentos existenciais  além dos
materiais, desmonta o ideal de domínio, vence a tentação de obedecer ao mandato do
rei, entrega­se à morte.
O relato assim termina:
O  rei, porém,  calou um momento e não muito tempo
depois deve tê­lo destituído de seu serviço, rico e
carregado de presentes.
Nem o cozinheiro foi condenado à morte, nem se casou com a princesa. Nem a
pena capital nem a recompensa. O cozinheiro, destituído de seu serviço, perguntará a si
mesmo o que a decisão do rei significava. Libertação, por um lado, mas talvez sinal de
que não estava  à altura dos  desejos  do rei. Premiado e de certa  forma dispensado por
“justa causa”, o cozinheiro não saberá exatamente em que medida o silêncio do rei foi
positivo ou negativo. O certo é que o rei precisou refletir melhor; o fato de presentear
regiamente o seu servo assinala uma possível gratidão. É possível conjecturar que o rei
está a caminho de uma outra compreensão da sua existência.
Ler e reler o desfecho deste relato faz intuir o paradoxo do outrossim. Observar
e absorver a leitura funda um âmbito em podemos discutir o anjo e o sexo, o espiritual e
o físico, o céu e a terra.
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